Do Atacama até Al Ula, a nova onda do eterno fascínio pelo deserto

O Vale da Morte no Nevada inspirou muitos filmes de Hollywood

Com o medo do overturismo e o desejo crescente de exclusividade, cresce a vontade de descobrir novos destinos, longe dos lugares tradicionais dos Estados Unidos, do Portugal, da Itália ou da França, onde tantos viajantes gostam de  ser vistos. A post pandemia tem novas regras do jogo, o medo das multidões  afugenta os turistas, procura-se pureza e autenticidade, cresce a exigência de viagens transformadores, e a Instagram permite de intercambiar com o mundo nos lugares mais isolados. A natureza preservada é uma das grandes temáticas que completa este novo quadro, seja nos safaris africanos, nas montanhas do sub-continente indiano, nas geleiras dos dois polos, nas florestas e nos rios da Amazônia, e, mais ainda, nos desertos dos cinco continentes.

Os barrancos do Wadi Rum no filme Lawrence da Arabia

O deserto têm um apelo especial que sempre fascinou os viajantes e antes deles os profetas e os exploradores. Foi no seu silencio e na sua imensidões que nasceram ou cresceram as religiões monoteístas, e que Abraão, Moises, Joao Batista, Jesus Cristo e Maomé acharam suas inspirações. Frente a sua beleza depurada e atemporal, esta dimensão spiritual ou até mística continua sendo uma das razões do seu atrativo. O cinema contribui a combinar deserto com sonho e aventura, de Lawrence da Arábia até Mad Max ou de Sergio Leone até Indiana Jones, cada um ajudando a promover a notoriedade de destinos nos cinco continentes, o Sahara, o Nefud, o Wadi Rum, a Norob National Park, o deserto de Tabernas ou o Vale da Morte.

O Rallye Aicha des Gazelles tenta combinar esporte, ecologia, feminismo e luxo

Os desertos estão se destacando como novos destinos turísticos, juntando aventura, cultura, luxo e sobriedade, apostando na beleza e na sustentabilidade. Mesmo se são por natureza imunes aos estragos do overturismo, a fragilidade dos seus ecosistemas deve porem levar a muita cautela. Os excessos passados do Paris Dakar ou os exageros do Burning Man Festival tiveram que se adaptar as novas exigências dos moradores e dos viajantes, e o Rallye Aicha des Gazelles do Marrocos foi a primeira corrida do gênero a obter o Iso 14001 da sustentabilidade. As preocupações sobre o uso dos Quads e dos Quatro rodas levaram as operadoras locais a restringir, regular ou pelo menos compensar os seus impactos sobre o meio ambiente.

Em Djanet, pedras esculpidas pelo vento chamam as oferendas do viajante

O sucesso dos desertos chegou também porque as ofertas das operadoras estão cada vez mais diversificadas. Aos tradicionais cartões postais – já muito conhecidos pelos turistas- de Zagora no Marrocos, de Ghardaia ou Djanet na Algeria, de Tozeur na Tunisia, do Atacama no Chile ou de Petra na Jordania, elas acrescentaram lugares mais exclusivos, as Wahiba sands do Omã, a costa do Namib na Namibia, o Salar de Uyuni na Bolivia, o Lago Assal na Etiópia, o Gobi na Mongólia e as dunas de Thar na India. E a Arábia Saudita, investindo de forma espetacular nas riquezas arqueológicas e nas infraestruturas turísticas da região de Al Ula, está agora inaugurando o mais luxuoso dos destinos de desertos do mundo.

En Al Ula, o luxo, a cultura e a exclusividade do deserto

Se conseguir combinar abertura ao turismo e preservação dos seus ecosistemas naturais e humanos, os desertos (e todas as áreas de natureza preservada do Brasil e do mundo) devem continuam a crescer como destinos turísticos modelos, exclusivos pela raridade das infraestruturas, pelas dificuldades de acesso, pelos espaços de vida limitados, e pelos preços elevados que operadores e moradores devem cobrar para viabilizar essas experiências únicas e frágeis.

Jean Philippe Pérol

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Esse artigo foi inspirado de um artigo original de publicado na revista profissional Tourmag

Amsterdã seguindo sua luta contra o overturismo, a qual custo?

Amsterdã quer reduzir a 20 milhões o número de turistas

Tendo sido pioneira na luta contra o overturismo desde 2016, quando anunciou que nada mais devia ser feito para atrair visitantes, Amsterdã voltou a lembrar que a prioridade da cidade era de ser um espaço para os moradores viver e trabalhar. As decisões anteriores – regulação dos cruzeiros, restrição a compra de maconha, projetos de mudança do distrito vermelho, limitação das autorizações de abertura de novos hotéis – não impedindo a volta de turistas e os conflitos com os moradores, a prefeitura decidiu ser mais rigorosa. Foi assim definido um teto anual de 20 milhões de visitantes (abaixo das 20,665 milhões registradas em 2023, e muita abaixo das 25,2 milhões atingidos em 2019, antes da pandemia).

O abertura do Rosewood não deveria ser impactada pelas novas regras hoteleiras

Para atingir esse objetivo decidido com os proprios moradores, foram anunciadas novas medidas referente a hotelaria, e aos cruzeiros fluviais. A construção  de novos hotéis estará agora proibida, a não ser que seja em substituição ao fechamento de um hotel antigo, o numero de quartos não podendo ser aumentado. As autorizações serão submetidas a melhoria de qualidade, de modernidade e de sustentabilidade do estabelecimento, e a preferencia será dada à localizações na periferia. Para não prejudicar os projetos já adiantados – 26 estão em fase de aprovação ou de realização, incluindo um muito esperado Rosewood de 134 quartos -, eles poderão por enquanto ser finalizados.

A prefeitura vai reduzir de 50% o número de cruzeiros fluviais

Varias medidas tinham sido tomadas o ano passado para proibir o acesso dos cruzeiros marítimos ao terminal do centro da cidade. Mas frente ao sucesso dos cruzeiros fluviais, um turismo que seduz cada vez mais os consumidores e que cresceu de forma excepcional nos últimos 12 anos, passando de 1.327 barcos em 2011 para 2.125 no ano passado, mais de 540.000 cruzeiristas que obrigaram a prefeitura a tomar novas providencias. Amsterdã vai assim reduzir pela metade o número de barcos autorizados a atracar. Frente as reclamações dos profissionais do setor que denunciaram as perdas financeiras, essa redução será realizada de forma progressiva até chegar ao objetivo de 1.150 em 2028.

A vontade da prefeitura de reduzir o overturismo para melhorar a qualidade de vida dos moradores e dos proprios visitantes vai também levar a outras ações. Mudanças importantes devem ser anunciadas sobre o projeto de deslocalização do bairro da Luz Vermelha e as campanhas promocionais para afastar os turistas indesejáveis podem ser reiniciadas. Lançadas em 2023 no mercado inglês, essas campanhas não tiveram os resultados esperados. Focando jovens ingleses de 18 a 35 anos atraídos pelas bebidas, a droga e o sexo, com a clara mensagem Stay Away ,  as 3,3 milhões de leituras não tiveram o impacto esperado. A campanha deve então ser reiniciada e mesmo reforçada.

A imagem jovem e festeira de Amsterdã será atingida pela nova politica

Aparentemente popular, essa luta pioneira contre o overturismo deixa porem varias perguntas em aberto. A primeira é o seu impacto econômico. Baixar de 25 a 20 milhões de visitantes vai representar para Amsterdã um prejuízo de quase um bilhão de euros, bloquear novos hotéis e reduzir os cruzeiros vai levar a uma perda de milhares de empregos. A imagem jovem, festiva, democrática e livre desta “Veneza do Norte” sera também impactada alem dos viajantes indesejáveis focados na campanha.  A indispensável luta contre o overturismo deve ainda achar novas ideias para combinar sustentabilidade e desenvolvimento, no respeito e no acesso de todos aos grandes valores do turismo.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Recorde de receitas turísticas preocupa a Espanha

O turismo espanhol deve ter em 2024 o melhor ano da sua história

As receitas turísticas da Espanha deveriam esse ano quebrar todos os recordes anteriores e chegar a € 202.651 bilhões, passando os 90 milhões de entradas de turistas (e chegando talvez ao primeiro lugar do turismo mundial em número de entradas contabilizadas). Com uma alta de 8,6% em relação ao ano 2023, que já tinha sido excepcional, o turismo representará 13,3% do Produto Interno Bruto do país. Anunciando a semana passada em Madri essas projeções históricas, José Luis Zoreda, vice-presidente da Exceltur (Alianza para la Excelencia Turística), associação das maiores empresas espanholas fundada em 2002 para ajudar ao desenvolvimento do setor, mostrava paradoxalmente pouca satisfação e muita preocupação.

Os novos trens da RENFE ajudaram no sucesso de 2023

Para Exceltur, esses números impressionantes são os resultados de vários fatores favoráveis. O primeiro é a situação política e a estabilidade da Espanha na hora de muitas perturbações nos grandes destinos concurrentes do Mar Mediterrâneo oriental, Turquia, Israel ou Egito.  O segundo é a retomada do turismo internacional não somente nos grandes mercados de proximidade – principalmente Reino Unido, Alemanha e França -, mas também nos mercados asiáticos. O terceiro fator favorável, em tempos de dificuldades de oferta de transportes, foi que a Espanha aproveitou bastante o crescimento das ligações aéreas bem como a chegada de novos operadores ferroviários.

Para afastar os turistas, Barcelona tirou um ónibus da Google map

José Luis Zoreda insistiu, porém, nas preocupações do setor frente às reações ao overturismo que vão crescendo no país inteiro, das Ilhas Baleares a Andaluzia, das Canárias a Barcelona e a vários lugares da Catalunha. Alugueis inflacionados, transportes urbanos saturados, falta de água em tempo de seca, alta dos preços dos produtos alimentares, muitos problemas da vida cotidiana são agora ligados nas mídias à “invasão” de turistas estrangeiros, às vezes  percebidos como invasores pelos moradores que esquecem em paralelo os benefícios trazidos em termos de empregos ou de infraestruturas públicas.

Exceltur quer ver a Espanha sair do turismo “sol y playa”

Frenteà rejeição dos turistas em varias regiões da Espanha, os profissionais  querem que o turismo continue de crescer além dos recordes de 2024, mas são extremamente conscientes que esse crescimento só será possível se for sustentável e assumido pelos moradores. Há anos, a Exceltur já tinha chamado a atenção das autoridades sobre a necessidade de sair do tradicional turismo de «sol y playa» e de espalhar mais os visitantes, seja em novos destinos do interior ainda pouco aproveitados, seja em épocas de baixa temporada. Para a associação, a Espanha deve agora ir mais longe e só aceitar um crescimento do turismo respeitoso dos lugares e trazendo benefícios claros para os moradores.

Jean-Philippe Pérol

Boicotar ou não boicotar os turistas russos?

Na França, Courchevel era um dos destinos favoritos dos Russos

No complicado contexto da invasão na Ucrânia,  a Rússia anunciou que o seu turismo emissivo atingiu em 2023 24 milhões de viagens internacionais, um crescimento de 16,4% em relação a 2022, mas um resultado ainda longe dos quase 48 milhões que saíram do país em 2019, antes do Covid-19 e dos boicotes impostos depois do início da guerra. Nessa época, o turismo russo representava 3% do turismo mundial. Os destinos vizinhos – Turquia, Finlândia, Cazaquistão, Ucrânia e Estônia- lideravam as preferencias dos russos, mas países ocidentais como França, Itália, Espanha e Suiça brigavam para atrair estes clientes prontos a gastar fortunas nos palácios das capitais ou nos resorts luxuosos de Courchevel, Ibiza, Saint Tropez, Marbella, Gstaadt ou Veneza.

A Riviera turca atraindo cada vez mais os turistas russos

Tudo mudou no dia 24 de fevereiro de 2022. A guerra levou quase todos os países da Europa e da América do Norte a um boicote quase total dos intercâmbios de transporte e de turismo com a Federação Russa. Essa decisão não somente atrasou a recuperação das viagens internacionais mas ainda modificou bastante os destinos desses polêmicos turistas, com um novo ranking mostrando claramente os ganhadores. São a Turquia, com 6,3 milhões de visitantes e um crescimento de +20,7% em relação a 2022, os Emirados Árabes com 1,7 milhão e +42,5%, a Tailândia com 1,48 milhão e +240,6%, o Egito com 1,28 milhão e +35,4%, a China com quase um milhão e + 420%, as Maldivas com 209.1oo e +3.6%, o Sri Lanka com 197.000 e +116,4%, Cuba com 185.000 e +240%, e a Indonésia com 160.000 e +115%. Com 106.000 chegadas, o Brasil recebe hoje 5 vezes mais russos que antes da crise.

Dubai tentando atrair turismo e negócios russos

Aproveitando este sucesso, vários destes destinos já anunciaram que querem se abrir ainda mais ao turismo russo. O Ministro do Turismo do Egito projeta 3 milhões de viajantes russos em 2028, a autoridade de turismo da Tailândia já anunciou uma meta de mais de 2 milhões de entradas logo em 2024, o governo de Cuba assinou um acordou para receber em média 500.000 turistas russos por ano, e a Turquia prevê um crescimento de 10 a 30% em 2024. Dubai oferece vantagens para as viagens de negócios combinando com luxo e segurança, a Tunísia liberou os vistos, e vários países como a Índia, Birmania, Omã, Sri Lanka, Irã e Marrocos estão conversando com o governo russo.

O turismo em Chipre sofreu com o fim dos passaportes dourados

Com motivos políticos ou éticos, o boicote teve consequências importantes para o turismo dos destinos que tinham mais investido no mercado russo. Assim nos Estados Unidos que passaram de 300.000 turistas russos em 2017 a menos de 50.000 em 2022, e em quase todos os países da União Europeia que perderam quase 85% desses fluxos, com um impacto forte nas receitas considerando a forte proporção do segmento luxo e o alto gasto médio por dia. Na Europa, Chipre foi um dos destinos mais impactados, com seu turismo dependendo mais de 30% dos russos, e o setor imobiliário tendo beneficiado dos “passaportes dourados” vendidos por Euros 2,5 milhões a ricos investidores.

Influenciadora russa teve que pedir perdão à arvore sagrada de Bali

Não se pode analisar o impacto destas brutais mudanças dos fluxo turísticos da Rússia sem considerar também o impacto que tiveram para as populações dos destinos e para as outras comunidades. Na hora do overturismo e da crescente preocupação pelo equilibro local, os novos turistas russos tiveram as vezes dificuldades para entender as exigências culturais ou religiosas dos moradores. Em Bali, na Índia ou no Sri Lanka, turistas e locais se desentenderam e as autoridades tiveram que interferir para colocar panos quentes. No Sri Lanka e no Egito, incidentes entre turistas russos e ucranianos tiveram que ser resolvidos. Nos países da Europa, mais implicados no boicote, a situação politica levou a incidentes discriminatórios contra os russos que deixarão marcas no futuro.

A Igreja Russa, um dos pontos esperando a volta dos turistas russos em Nice

O balanço do boicote é hoje difícil de fazer pelas suas múltiplas motivações. Mas, para o setor, ele representa em primeiro lugar um prejuízo importante para o turismo mundial – aproximadamente 20 milhões de viajantes e quase US$ 20 bilhões de receitas a menos, boa parte para os grandes destinos da União Europeia. Mesmo repudiando a guerra e a falta de respeito do direito internacional, os profissionais e os viajantes só podem lamentar que problemas políticos entre governos prejudiquem as atividades de milhares de profissionais que trabalham num setor que se caracteriza justamente por ser uma indústria de paz, de intercâmbio multicultural e de liberdade individual.

Jean Philippe Pérol

Um vulcão islandês (re)lembra a fragilidade do turismo

A lagoa azul ameaçada pelo vulcão Sundhnjukagigar

No Sul da Islândia, o resort Blue Lagoon é um dos mais procurados cartões postais da ilha com suas piscinas naturais de águas cristalinas e quentes cercadas de rochas negras e seus SPA famosos pelos eficientes tratamentos aproveitando a alta concentração de algas e sais minerais, mas nas últimas semanas, enquanto os profissionais da região estavam projetando uma temporada de sucesso, uma corrente de lava obrigou a uma evacuação emergencial de todos os quase mil hóspedes. Enquanto os vulcões da Península de Reykjanes pareciam adormecidos há 800 anos, vários sinais já tinham sido anotados desde 2021, e as recentes erupções obrigaram a evacuar também a cidade próxima, Grindavik, ameaçada, tanto pela lava do Sundhnjukagigar quanto pelos riscos de terremoto.

Grindavik ainda é ameaçada pela lava e pelo terremoto

Com essa ameaça e com o fechamento da Lagoa Azul, os turistas estão abandonando toda peninsula de Reykjanes onde vinham não somente para aproveitar as águas quentes mas também os concorridos pontos de vista para as espetaculares auroras boreais. Vários hotéis tiveram que fechar ou procurar alternativas para manter uma atividade para seus funcionários, mas a preocupação dos responsáveis do turismo na região é saber se o atual desastre natural não vai impactar todo o ecosistema da Lagoa, a energia geotérmica gerada pelo vulcão, e a beleza do local que atrai milhares de viajantes vindo da Europa, Estados Unidos e mesmo do Brasil.

Aurora boreal na peninsula de Reykjenes

Para Islândia, o impacto da erupção vai muito além da península de Reykjenes: as consequências da erupção são perceptíveis em todas as atividades turísticas da ilha. Desde novembro, as autoridades estão medindo uma queda significativa no número de turistas entrando no país. A companhia nacional, Icelandair, também avisou que está enfrentando um impacto negativa nas reservas. A companhia low-cost Play fala até de um congelamento dos pedidos para o destino desde as primeiras notícias sobre a erupção. Por medo de ampliar mais ainda o problema, e criticando o alarmismo da mídia internacional, ninguém publicou números sobre os cancelamentos ou sobre os prejuízos financeiros do setor.

A Islândia sempre soube mostrar criatividade na sua comunicação

Sempre brilhantes e criativos no marketing deste pequeno país que fez do turismo uma das suas atividades principais, os profissionais da Islândia devem levar em conta o paradoxo da situação atual, os danos causados pelo vulcão enquanto a grande peculiaridade do destino é justamente um turismo de aventura em torno dos seus mais de 100 vulcões e dos seus ecosistemas de águas quentes, de pedras, de gêiseres e de geleiras. Sem esta natureza brava, é provável que o turismo islandês não seria o mesmo. Além da Islândia, o vulcão Sundhnjukagigar vem também lembrar para os profissionais do mundo inteiro que, por mais que a retomada do setor seja agora consolidada, o turismo continua sendo uma atividade extremamente sensível a todas as crises, sejam elas sanitárias, politicas, militares ou naturais.

A Suécia quer lembrar que não é a Suiça

Na reunião da OTAN, Biden confundiu a Suiça com a Suécia

Quando o proprio Presidente dos Estados Unidos confunde os dois países, uma gafe feita agora pelo Biden mas que o Carter e o Bush filho já tinham feito antes, tanto a Suécia quanto a Suiça podem ser conscientes de que existe um problema de notoriedade. Os presidentes americanos não foram os únicos a fazer essa confusão: a sueca Spotify entrou na Bolsa de Nova Iorque embaixo de uma bandeira da Suiça, os esportistas suiços escutam regularmente tocar o hino sueco, 10% dos ingleses pensam que Ikea é uma empresa helvética, e 50% dos estado-unidenses confessam não saber diferenciar os dois países, inclusive quando se trata de preparar uma viagem.

Foi talvez por isso que os responsáveis de Visit Sweden, órgão oficial turismo da Suécia, decidiram aproveitar a oportunidade para desafiar os Suíços, lembrando que ainda que os dois países tivessem muito em comum – riqueza, neutralidade, qualidade de vida e respeito ao meio ambiente-, eles eram bem diferentes.  Num clip inovador lançado no Youtube dia 24 de Outubro, a apresentadora Emma Peters interpelou os suíços, cercada por duas bandeiras nacionais e lendo uma declaração extremamente formal para os líderes e os cidadãos da Suiça, com uma lista de “propostas” misturando humor e agressividade.

No inverno sueco, a magia surreal da aurora boreal

A Suécia oferece, afim de diferenciar os dois países, sete “pontos de negociação” devendo integrar uma nova comunicação. Os bancos seriam suíços, os bancos de areia suecos. Os topos das montanhas suícos, os roof tops suecos. Os Yodel (cantos tipo tirolês) suíços, o silencio sueco. As emoções surreais na Suiça viriam do LSD (foi inventado por um quimico suico), na Suécia das auroras boreais. A Suíça teria a energia vindo do seu acelerador de partículas, a Suécia da sua tranquilidade. A moda na Suíça ficaria nas suas tradicionais bermudas de couro, na Suécia nos seus desfiles contemporâneos. E o luxo na Suíça estaria atrelado a seus relógios caríssimos, enquanto o luxo na Suécia seria de esquecer o tempo.

O silencio ou o Yodel, duas opções para escutar a natureza

A polemica iniciada pela Visit Sweden pode ajudar a promoção dos dois países. O video já foi visto por quase meio milhão de pessoas. Mais de 15.000 suíços já responderam a proposta com o mesmo humor ou a mesma agressividade, lembrando por exemplo que os mais famosos dos suecos, como o fundador da IKEA Ingvar Kamprad, tiveram que fugir para Suíça para escapar de um dos piores impostos de renda do mundo. No jogo do “Fale bem ou fale mal, mas fale de mim”, a Suécia tem porém, muito para ganhar. Se ela carregou durante muitos anos valores positivao, a liberdade, a segurança, a igualdade e a alta tecnologia, ela deve hoje enfrentar sérios problemas. A violência urbana, os riscos de atentados ligadas as polêmicas religiosas, o fim da neutralidade diplomática que vigorava desde a chegada ao poder do Marechal francês Bernadotte em 1818, foram fatores negativos que impactaram a imagem do país.

Com a campanha, e a competição criada com um destino turístico exemplar aproveitando o lapso do Presidente Americano, Visit Sweden espera não somente tranquilizar os seus visitantes tradicionais mas também atrair novos viajantes. Estes poderão assim entrar na polemica e pelo menos atestar com argumentos pessoais que a Suécia não é mesmo a Suiça.

A relojoaria suíça defende uma certa concepção do luxo

De Florença a Nice, o excepcional roteiro do Tour de France 2024

Depois de Copenhagen 2022 e Bilbao 2023, o Tour escolheu Florença para 2024

Enquadrado nas exigências de segurança dos Jogos Olímpicos de Paris, e querendo comemorar o centenário da primeira vitória italiana no “Tour de France”, a mais famosa corrida ciclista do mundo escolheu para 2024 um itinerário fora do comum começando na cidade italiana de Florença, com uma saída adiantada para o dia 29 de Junho. A homenagem ao vencedor de 1924, Ottavio Bottechia, seguirá na Itália com as três primeiras etapas da corrida, passando por Rimini, Cesenatico, Bolonha, e Torino. Serão associados outros grandes corredores italianos como  Gino Bartali, Gastone Nencini (vencedor do Tour 1960), Marco Pantani e o lendário Fausto Coppi.

O peculiar itinerário do Tour 2024

Nos pés da Croix de Lorraine, um esperado momento de grande emoção

Nos 80 anos da liberação da França, os organizadores não poderiam deixar de homenagear estes eventos históricos. Programaram assim uma chegada em Colombey les deux Églises, o pequeno vilarejo onde o General de Gaulle, chefe da Resistência durante a guerra e depois presidente da República, tinha a sua residência, e onde foi erguida uma imensa “Croix de Lorraine”. Colocada pela primeira vez no itinerário do Tour, Colombey será um momento de grande emoção para os participantes, os torcedores presentes e para os milhões de telespectadores.

Auzances, pela primeira vez no percurso do Tour

A partir de Orleans, o Tour 2024 mesclou grandes etapas espetaculares – especialmente desfiladeiros místicos dos Pireneus ou dos Alpes, o Tourmalet ou o Braus -, cidades marcadas por homenagens – como Saint Lary onde será inaugurada uma estátua do grande corredor francês Poulidor que se destacou lá a 50 anos-, e novidades inesperadas. Assim a Combraille terá pela primeira vez da sua (longa) história a oportunidade de hospedar a 11a etapa, saindo de Evaux les Bains, passando por pequenas estradas da Auvergne e acabando na pequena estação de esqui de Lioran. Talvez como piscar de olhos para a América latina, a 18a etapa acabará em Barcelonette, vilarejo de onde muitos emigrantes saíram para fazer  grandes fortunas no México.

A Praça Massena em Nice será o cenário da chegada

Foi porém na escolha das últimas etapas do Tour 2024 que os organizadores fizeram a maior inovação. Sem a opção de Paris que hospedava a chegada desde a primeira edição em 1903, escolheram Nice e sua região. Com o forte suporte das autoridades locais, os organizadores anunciaram dois dias percorrendo os desfiladeiros do interior, com os destaques da subida para a estação de esqui de Isola 2000 na 19a etapa e do desafio de Couillole no dia seguinte. Para o “grand final”, não podia ter uma melhor escolha que a Praça Massena. Levando o nome de André Massena, Marechal favorito de Napoleão – que o chamava de “filho querido da Vitória” -, a mais imponente praça de Nice será o cenário da  chegada da última batalha entre os corredores, 34 km de um espetacular contra-relógio de 34 km de Monaco a Nice.

As 21 etapas do “Tour de France” 2024

  • 1era etapa, sábado 29 de junho : Florence-Rimini (206 km)
  • 2a etapa, dimanche 30 juin : Cesenatico-Bologne (200 km)
  • 3a etapa, lundi 1er juillet : Plaisance-Turin (229 km)
  • 4a etapa, mardi 2 juillet : Pinerolo-Valloire (138 km)
  • 5a etapa, mercredi 3 juillet : Saint-Jean-de-Maurienne-Saint-Vulbas (177 km)
  • 6a etapa, jeudi 4 juillet : Mâcon-Dijon (163 km)
  • 7a etapa, vendredi 5 juillet : Nuits-Saint-Georges-Gevrey-Chambertin contre-la-montre individuel (25 km)
  • 8a etapa, samedi 6 juillet : Semur-en-Auxois-Colombey-les-Deux-Eglises (176 km)
  • 9a etapa, dimanche 7 juillet : Troyes-Troyes (199 km)
  • Descanço em Orléans, le lundi 8 juillet
  • 10a etapa, mardi 9 juillet : Orléans-Saint-Amand-Montrond (187 km)
  • 11a etapa, mercredi 10 juillet : Evaux-les-Bains-Le Lioran (211 km)
  • 12a étape, jeudi 11 juillet : Aurillac-Villeneuve-sur-Lot (204 km)
  • 13a etapa, vendredi 12 juillet : Agen-Pau (171 km)
  • 14a etapa, samedi 13 juillet : Pau-Saint-Lary-Soulan (152 km)
  • 15a etapa, dimanche 14 juillet : Loudenvielle-Plateau de Beille (198 km)
  • Descanço em  Gruissan, le lundi 15 juillet
  • 16a etapa, mardi 16 juillet : Gruissan-Nîmes (187 km)
  • 17a etapa, mercredi 17 juillet : Saint-Paul-Trois-Châteaux-Superdévoluy (178 km)
  • 18a etapa, jeudi 18 juillet : Gap-Barcelonnette (179 km)
  • 19a etapa, vendredi 19 juillet : Embrun-Isola 2000 (145 km)
  • 20a etapa, samedi 20 juillet : Nice-Col de Couillole (133 km)
  • 21a etapa, dimanche 21 juillet : Monaco-Nice, contre-la-montre individuel (34 km)

De São Paulo a São Miguel, um roadtrip nas trilhas dos Sete Povos das Missões

Em São Miguel das Missões, a esperada emoção frente a epopéia dos Guaranís

Nos numerosos lugares inesperados que fazem a força do turismo brasileiro, tem um que sempre foi muito emblemático, tanto por sua beleza arquitetural quanto pela importância que ele merece na história do Brasil. Talvez mais ainda pelo acesso complicado, fora das rotas tradicionais e longe dos aeroportos que despachem os grandes fluxos de turistas e de viajantes. Declarada patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, capital dos antigos Sete Povos das Missões, São Miguel das Missões é principalmente acessível de carro, a mais de 1500 quilômetros de São Paulo, virando assim naturalmente o destino mor e o ponto máximo de um roadtrip para o Sul do Brasil.

Saindo de São Paulo, prontos para 3.472 km de roadtrip

Mesmo para quem tem experiências anteriores do Norte ao Sul do Brasil, uma viagem de carro em família é sempre um grande desafio.  Para percorrer com segurança até 600 quilômetros por dia, é melhor reconhecer o caminho antes de iniciar a viagem, definir cada etapa, escolher  as visitas e as surpresas que vão agradar a todos. Pela atratividade dos imperdíveis, a qualidade da hospedagem, as experiências exclusivas e as distancias a percorrer, foram escolhidos Curitiba e o trem de Morretes, as Cataratas de Iguaçu, as ruinas jesuítas de São Miguel das Missões, Gramado (e o Castelo Saint Andrews), as praias de Florianópolis  e, para atender aos pedidos de uma filha de oito anos, o parque Beto Carreiro.

O olho do Museu Niemeyer, imperdivel experiência em Curitiba

Se Curitiba era programada como uma simples parada tanto na ida que a volta, a cidade modelado pelo talento de Jaime Lerner mostrou que merecia muito mais. Assim, mesmo com a neblina, ninguém pode ser decepcionado pela descida de trem para Morretes, as vezes assustadora, inclusive dentro do vagão imperial, seguindo as espectaculares trilhas pregadas na montanha pelo engenheiro baiano André Rebouças, e inauguradas em 1885 pela Princesa Isabel. E a própria cidade sabe muito bem seduzir o visitante. Curitiba oferece um banho de cultura, no agradabilíssimo Jardim Botânico ou no estonteante Museu Oscar Niemeyer, e uma surpreendente gastronomia em restaurantes como o excepcional Manu Bufara ou o “trendy” Nomade do hotel Nomaa.

Em Iguaçu, a beleza das cataratas no cartão postal do lado brasileiro

Deixando essa cidade modelo, o “roadtrip” seguem as paisagens ordenadas levando as Cataratas de Iguaçu, uma das maravilhas do mundo moderno cujas imagens impactantes abrem o filme “A missão” que inspirou essa viagem. Num ano de muita chuva, com mais de 8.000 m3 de vazão por segundo, mereciam mesmo o seu nome de Y- Guaçu, águas grandes, e precisa mesmo de três dias para se impregnar da força e da emoção do local. Do lado brasileiro, frente ao incontornável Hotel das Cataratas, aproveita-se o cartão postal com a visão global, caminhando com os turistas, os coatís e os tejús, ou navegando ensopado (mas feliz) embaixo das cachoeiras.  Do lado argentino, um outro dia é necessário para aproveitar a longa caminhada que leva até o ponto máximo, a Garganta do Diabo, numa trilha que esbanja beleza e emoções na intimidade das águas. Com um dia a mais, ainda do lado argentino, uma ida até as ruinas jesuítas de San Inácio oferece um primeiro contato com o mundo dos Sete Povos das Missões.

Na entrada de São Miguel, a cruz missionária e o grito gaúcho de Sepé

Depois de dois dias na BR158 marcados pelo infinito dos campos de trigo e pela boa surpresa da etapa acolhedora de Frederico Westphalen, a emoção é grande na chegada na pequena cidade de São Miguel das Missões. Mesmo abandonada em 1756, depois da expulsão dos Jesuítas e da derrota da resistência guaraní de Sepé Tiaraju, a catedral de São Miguel Arcanjo ergue-se hoje como a maior testemunha da fabulosa epopéia.  Os eventos são muito bem contados num som e luz heroico, mas, pedagógico e fiel, e são mantidos vivos por pesquisadores, pelos moradores da cidade e pelos sempre presentes descendentes dos Guaranís. Esses acontecimentos não somente marcaram a história dos povos da América do Sul mas, contribuíram de forma decisiva a cultura gaucha nos quatro países da região. E nos dois principais hotéis da cidade, a charmosa Pousada das Missões e o impressionante Tenondé Park Hotel, se nota a mesma vontade de mostrar uma experiência arquitetônica-cultural única.

O zoológico de Gramado permite um novo relacionamento com os animais

Cercada pela imponência da Serra Gaucha, imprescindível destino turístico para quem viaja para o Sul brasileiro, Gramado sabe oferecer ao viajante múltiplos atrativos: moradores acolhedores, urbanismo seguro, atrações para toda a família, e numerosas opções de hospedagem, das mais econômicas do centro borbulhante até até o luxuoso e exemplar Castelo Saint Andrews. Mesmo para quem já visitou varias vezes a cidade na ocasião de seus grandes eventos – sendo o Festuris o carro chefe para quem trabalha no turismo, há sempre mais para descobrir, por exemplo o charmoso, detalhista e sonhador universo do Parque Minimundo da família Hoppner, ou um parque zoológico muito brasileiro e sem grades que merece mesmo ter sido classificado pela Trip Advisor como o melhor do continente.

Beto Carrero com as cores e os sabores da Bavária

De Gramado até Florianópolis, a RS 235, a RS 020  e a BR 453 ( a “Rota do Sol”)  desenham suas curvas no meio das paisagens do bioma da mata atlântica  até chegar as praias do litoral catarinense e passar a ponte levando a antiga Desterro.  Se as pesadas chuvas podem estragar um pouco a estadia, uma única manhã de sol é o suficiente para aproveitar a praia de Daniela e saudar os sagui-de-tufos-pretos, macaquinhos invasivos que cercam o seu acesso, fazer castelos de areia e mergulhar numa água  que talvez não é tão fria assim. Mas é 120 km mais ao Norte que  as crianças colocam o ponte máximo desse roadtrip no Sul: o Beto Carrero World. Acompanhando a alegria de um parque com muita atrações, organizado como os maiores concorrentes internacionais, e oferecendo aos adultos o ambiante das tradições germânicas dessa região de Santa Catarina.

No meio dos campos de trigo, a estrada para a aldeia Guaraní

Com o imenso potencial de crescimento que o turismo domestico tem no Brasil, os  “roadtrips” para o Sul do pais devem com certeza ter um lugar de destaque. A qualidade da malha rodoviária, a segurança pública,  a larga oferta de hospedagens e de restaurantes de todos os preços, os múltiplos atrativos para gurizada, e um rico acervo cultural muito bem valorizado trazem a toda família as experiencias inesquecíveis de uma viagem transformadora.

Jean Philippe Pérol

Os 3.472 km do segundo roadtrip em família

As hospedagens escolhidas para essa roteiro foram as seguintes:

Encontros com amigos são grandes momentos da viagem.

Em São Miguel das Missões José Roberto de Oliveira nos fez a honra de compartilhar um pouco do seu imenso conhecimento sobre a historia dos Sete Povos e da cultura guarani.

Em Gramado, a equipe da Marta Rossi e de Eduardo Zorzanello deu preciosas dicas e nos recebeu em família.

 

O Airbus 380 está de volta, até quando?

O Airbus A380, efêmero grande sucesso da Air France

Mesmo se a pandemia quase o tenha matado, e se a Airbus tinha antecipado para 2021 o fim da sua produção, o A380 não quer desaparecer. Com a retomada do setor, os Jumbos do século XXI estão cada dia mais numerosos a percorrer os céus.  Seguindo o exemplo da Emirates, e como únicas exceções a Air France, a China Southern e a Malaysia Airlines, todas as companhias aéreas que tinham adquirido o gigante já o reintegraram parcialmente ou totalmente na sua frota.  É o caso da All Nippon Airways, da Asiana Airlines, da British Airways,  da Korean Air, da Qantas, da Qatar Airways, e recentemente da Etihad.

A Emirates foi pioneira na volta do A380

Singapore, primeira companhia a explorar o A380, tem agora 12 deles voando nas suas rotas asiáticas bem como para Austrália, todos eles com somente 471 passageiros numa configuração luxuosa. A Lufthansa, que planejava se livrar dos 14 aparelhos sua frota, está reativando-o numa versão para 509 passageiros nos voos de Munique para Nova Iorque, Boston, Los Angeles e Banquecoque, lançando uma forte campanha de comunicação que aproveite a incrível empatia do público para este avião tão peculiar. E a própria Emirates, a maior compradora,  já reativou 100 dos seus 123 aviões, todos para 517 assentos dos quais 14 são destinados às prestigiosas suites de primeira classe.

A saturação dos aeroportos favoreceu a volta do A380

Em qualquer uma destas bandeiras, e em todas as rotas onde estão operando, estes aviões são lotados. Acumulando taxas de ocupações de 85 à 90% de ocupação e tarifas aéreas 23% mais caras esse ano – essa carestia deve se manter até 2024 ou mesmo 2025 devido aos atrasos nas entregas de centenas de aviões da nova geração pela Boeing e a Airbus-, os A380 contribuem a melhorar os resultados das companhias aéreas. Para alguns especialistas, poderão inclusive ajudar a trazer de volta os lucros logo em 2023, um ano mais cedo que as previsões iniciais.

Favorito dos viajantes, o A380 não deve ter sucessor

Para muitas companhias, este volta do A380 vai ser duradoura. Emirates, que foi em 2019 a única empresa do setor a pedir uma nova versão do aparelho, está agora repetindo o seu pedido, argumentando que este avião seria uma solução para o congestionamento dos aeroportos consecutivo a retomada, e que deve se acelerar a partir de 2024. Insensível a estes argumentos, a Airbus não tem nenhum previsão sobre um novo super jumbo, e seu diretor comercial acha que as novas tecnologias e a exigência de sustentabilidade vão favorecer os aviões de pequeno porte. Nos próximos anos, é mais que provável que o transporte aéreo continuará com um grande paradoxo: o avião favorito dos viajantes do mundo inteiro continuará a voar, mas será condenado a não ter sucessor. Depois do Concorde, as mesmas esperanças, o mesmo embalo, o mesmo sucesso e o mesmo fracasso?

 

Jean-Philippe Pérol 

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Quais limites para o turismo de luxo e as experiências exclusivas?

Desde 1912, o drama do Titanic fascinou viajantes aventureiros

A notícia chocou o mundo. Os 5 passageiros do Titan, pequeno submersível desaparecido há 5 dias, eram mortos numa dramática implosão, e seus corpos desaparecidos nas águas frias do Atlântico, a 3800 metros de fundo, nas proximidades dos destroços do Titanic. Um fim trágico para um viagem  excepcional organizada para três turistas milionários. Eles tinham investido  US$ 250.000 cada um para esta experiência exclusiva junto com o fundador da Ocean Gate, o americano Stockton Rush, e o grande especialista francês Paul-Henry Nargeolet.

O Ocean Gate era muito inovador, mas sem certificação

Devido aos preços astronômicos e as tecnologias específicas, poucas empresas oferecem esse tipo de expedições, mas a Ocean Gate, fundada em 2009, parecia ser uma delas. Ela já tinha organizado 14 viagens e 200 mergulhos bem sucedidos, primeiro com dois submarinos comprados, e depois com seu próprio submersível.  Muito inovador, o Titan não tinha, porém,  conseguido nenhuma certificação, e vários engenheiros e cientistas já tinham avisado sobre os riscos. Mas o Stockton Rush falava que estes riscos faziam parte da aventura, era muito convincente, e, mesmo com incidentes sérios, já tinha levado no seu pequeno submarino 60 clientes e 15 pesquisadores.

Junto com o espaço orbital, as montanhas extremas, ou os recordes de frio da Antárctica e do polo Norte, as profundezas dos oceanos são um dos campos de exploração do turismo de aventuras dos viajantes mais afortunados. Alguns hoteis de luxo de Maurício, do Vietnã ou das Maldivas oferecem experiências submarinas emocionantes em recifes de corais. Os ricos aventureiros querem muito mais. A Triton Submarines já vende submarinos de lazer podendo mergulhar até 1.000 metros de profundidade com toda segurança. A EYOS  oferece agora viagens de US$ 750.000 para a Fossa das Marianas, com 11 quilômetros de profundidade. Mas o fascínio ambíguo pelos destroços do Titanic criou um nicho que Ocean Gate quis aproveitar antes que a tecnologia fosse certificada.

A Antártica é um dos novos destinos do turismo extremo

Guardando o devido respeito frente ao drama das vítimas e das suas famílias, a implosão do submarino da OceanGate  suscitou um debate sobre a reação dos atores do  turismo frente a essas experiências extremas. As experiências extremas não deveriam ser oferecidas sem uma garantia mínima de segurança, mesmo em lugares ou situações isentas de qualquer autoridade governamental. A simples promoção de pacotes fugindo dessas regras deveria ser regulamentada.  E enquanto a sustentabilidade, o balanço carbone e a preservação do meio ambiente são hoje exigências fundamentais, a oferta de aventuras em total contradição com essas novas tendências não ajuda a imagem do turismo, e menos ainda do turismo de luxo.

Muitas agências estão surgindo para atender pedidos milionários para experiências altamente exclusivas, mas com mais segurança e atenção ao meio ambiente. Um exemplo é a agência britânica chamada Black Tomato. Ela oferece o programa Get Lost, uma aventura em que o turista é deixado em um lugar desconhecido, montanhoso, polar, desértico ou selvagem, quase inacessível, onde deve achar o caminho de volta à civilização, sendo somente supervisionado de longe. Mas o verdadeiro luxo extreme do século XXI só pode ser atingido quando essas viagens são a ocasião de experiências transformadoras, descobertas de lugares exclusivos, momentos autênticos de intercâmbio com naturezas ou culturas inacessíveis, encontros inesperados com moradores, que representem, sem ostentação, o verdadeira luxo.

Jean-Philippe Pérol

A imensidão da Amazônia é um campo imenso para o novo turismo extremo