Notre Dame de Paris, depois da emoção e do choro, a difícil batalha da reconstrução!

O incêndio pouco antes da queda da flecha de 96 metros

Choramos, e choramos muito. Choramos logo no choque da noticia, quando as primeiras imagens da Catedral em chamas começar a circular em todos os canais de televisão bem como nas mídias sociais. E choramos mais ainda quando a queda da orgulhosa flecha atingiu o coração e a alma de milhões de espectadores que não podiam nem queriam acreditar nessa tragédia. Percebemos nesse instante que Notre Dame de Paris, não era somente uma das mais imponentes igrejas da Fé católica, mas era também um lugar icónico para o povo de Paris e a Nação Françesa. Monumento mais visitado da Europa (14 milhões de turistas o ano passado, sem contar os fieis), celebrado há oito séculos por escritores, pintores, cineastas ou políticos, era cravado na historia da humanidade e na cultura mundial.

A coroação de Napoleão, quadro do Louis David

Erguida a partir do século XII – numa cidade que nem contava 20.000 habitantes-, ela foi guardiã  da fé dos reis “muito católicos” da França. Se a primazia da Gália ficava em Lyon,  a cerimônia da coroação em Reims e os enterros reais em Saint Denis, Notre Dame de Paris sempre ficou mais carregada de símbolos. Foi lá que Saint Louis mandou guardar a coroa de espinhos do Cristo hipoteticamente trazida das Cruzadas, foi lá que Joana d’Arc foi reabilitada, foi lá que Henri IV festejou sua vitoria, foi lá que Napoleão se auto-coroou Emperador dos franceses na frente do então Papa Pio VII. Na Liberação de Paris do invasor alemão, foi lá que de Gaulle veio escutar o Te Deum da vitoria. Foi lá que o mesmo de Gaulle recebeu, no dia 12 de Novembro de 1970, uma última homenagem de uma plateia com mais de 80 imperadores, reis e presidentes vindo do mundo inteiro. E devemos lembrar que se Quasimodo e Esmeralda são personagens de ficção, foi com Notre Dame de Paris que Victor Hugo construiu parte da sua gloria.

A literatura e o cinema contribuíram a gloria de Notre Dame

Frente a emoção universal, o presidente francês já anunciou que o seu governo ia se empenhar para reerguer-la em cinco anos. A impressionante lista de contribuições que começar a chegar -quase um bilhão de Euros em menos de uma semana-, valores pequenas e grandes, doados por gente humildes ou famosos, católicos, muçulmanos, judeus ou ateus, vindo da Franca, dos Estados Unidos, do Marrocos ou do Brasil, deixam pensar que o maior desafio não será financeiro. Alem de encontrar as respostas tecnológicas, os arquitetos deverão também enfrentar a demagogia dos políticos que já iniciaram as polêmicas. Qual planta deve ser seguido, do século XII, XIII, XVIII ou XIX? O novo telhado deve ser ecologicamente correto? A nova flecha terá, assim que falou o Primeiro Ministro,  que se adaptar “aos desafios do século XXI”? A diversidade cultural deve integrar o novo projeto?

As quimeras de Notre Dame vigiando Paris

Notre Dame continua em pé, mas ainda não está salva. A herança milenar dos geniais construtores da Idade Media pode ser desnaturada por incultos marqueteiros do curto prazo. Passada a emoção, ainda tem risco de ver as obras entrar num ciclo sem fim de brigas politicas e de bloqueios de verbas que são a triste realidade de milhares de igrejas ou monumentos históricos esperando concertos ou renovações há anos. A mobilização dos parisienses e de todos aqueles que se emocionaram com eles será então fundamental para acompanhar a reconstrução. Na igreja de madeira que será provisoriamente construída no “Parvis”, na frente do portão de onde saiam simbolicamente todos as estradas ligando Paris ao resto da Franca, moradores e turistas vão poder, juntos, mostrar a sua determinação para que esse monumento da fé, da valentia e da beleza volta a integrar o patrimônio da Humanidade e a nossa própria Historia.

Jean-Philippe Pérol

De Haile Selassié a Nixon, de Senghor ao Shah, uma das maiores concentrações de chefes de estado da Historia

O Mickey, o herdeiro do Senhor d’Isigny promovendo as delicias dos queijos da Normandia

De Isigny a Disney, a epopeia normanda do Mickey

Quando embarcou com Guilherme o Conquistador para invadir a Inglaterra, o nobre francês Hugues Suhard, senhor d’Isigny, pensava provavelmente que suas façanhas militares ao lado do seu suserano normando iam dar uma grande fama a sua linhagem aristocrática. Mesmo depois de Hastings e da sua instalação na Inglaterra, tendo trocado a ortografia do apelido francês d’Isigny pela pronuncia inglesa Disney, a família dela não chegou porem a ser famosa. Com pouco dinheiro e muitos sonhos de aventura, um dos seus descendentes, Kepple Disney, acabou emigrando para os Estados Unidos em 1834, participando da corrida para o ouro da Califórnia. Não achou ouro, e seu filho Elias foi tentar a sorte em Chicago onde casou e teve um filho chamado Walt Disney.

O Jardim Disney de Isigny foi inaugurado em 2016

Genial invenção do Walt Disney, o Mickey nasceu em 1928 mas demorou para assumir suas origens normandas. O Walt tinha visitado a região durante a primeira guerra e fala-se que o castelo da Cinderela foi inspirado do Mont Saint Michel. Um primo da família, o general Paul Disney, participou do Dia D em Omaha Beach, e o sobrinho e herdeiro do Walt Disney, Roy, visitou Isigny em 1972. Foi porem somente em 2016 que o município d’Isigny e a Disney formalizaram o seu longo relacionamento com a inauguração de um “Jardim Disney”, na presencia do Mickey vindo especialmente de Disneyland Paris. Em 2018, ele voltou para  festejar seus 90 anos, apoiando o prefeito na inauguração de uma exposição de 6000 peças contando a historia de Disney na Normandia.

As caixas de Camembert Isigny estampadas com o Mickey

Numa região famosa pelos seus queijos, e a primeiro lugar pelo seu Camembert, o Mickey não podia deixar de ser explorada pelos marqueteiros. Lembrar a ligação com a Normandia do mais famoso camundongo do mundo foi uma ideia  da cooperativa de laticínios de Isigny-Sainte-Mère, que reúne 650 pequenos produtores da região, e transforme um dos melhores leites da França em produtos de qualidade exportados no mundo inteiro, inclusive no Brasil. A empresa lançou na França uma campanha de promoção dos seus queijos colocando a cara do Mickey em oito dos seus mais famosos produtos: quatro Camemberts, duas Mimolettes, um  “Pont-L’Évêque AOP”  um “Petit Sainte-Mère”. Em cada caixa é também colocada uma história em quadrinhos chamada “De Isigny até Disney, a surpreendente epopeia”. Quem teria mesmo previsto que a fama de um nobre companheiro de Guilherme o Conquistador seria um dia contado por um rato sorrindo numa caixa de Camembert?

Jean-Philippe Pérol

O Mont Saint Michel teria inspirado o castelo da Bela Adormecida

Em Waterloo, os franceses vencendo … a licitação para gerenciar o Memorial da batalha!

Nas comemorações do bicentenário, a reconstituição da batalha

Em Waterloo, essa triste planície onde as tropas de Wellington e Blucher acabaram no dia 18 de Junho de 1815 com os sonhos franceses da Revolução e do Império, uma francesa conseguiu uma surpreendente vitória. Geneviéve Rossillon, presidente da operadora de sítios e monumentos turísticos Kleber Rossillon fundada pelo seu pai, venceu uma licitação da região belga da Valônia para administrar durante os próximos quinze anos o sitio da famosa e trágica batalha. Localizado a vinte minutos ao sul de Bruxelas, o Memorial 1815 inclui não somente os principais campos  e prédios que viram a heróica derrota dos soldados de Napoleão, mas também  um centro de informação e de interpretação  multimídia subterrâneo inaugurado durante as comemorações do bicentenário.

O Memorial 1815

A empresa Kleber Rossillon já administra nove sítios patrimoniais na Franca , recebendo mais de um milhões e meio de visitantes na Bretanha, no Vale do Loire e na Auvergne. Desde 2015 é responsável da famosa Grotte Chauvet 2, réplica fiel da gruta inscrita ao patrimônio da UNESCO pelas suas excepcionais  pinturas rupestres que nossos ancestrais deixaram há 36.000 anos. O Memorial de Waterloo sera o seu primeiro investimento fora da França. Genevieve Rossillon já mostrou grandes ambições com a sua vontade de quase dobrar o numero de visitas – passando de 170.000 a 300.000, contando  na contratação de quinze funcionários para melhorar o atendimento, na multiplicação dos eventos e das animações, e na ampliação da oferta cultural para todos os públicos

O Museu Wellington, último quartel geral do vencedor

Logo esse ano, já são previstas importantes comemorações, dia 18 de Maio com os 250 anos do nascimento do Duque de Wellington, e dia 15 de Agosto pelo aniversário do Napoleão. Perto do morro do Leão – monumento erguido pelos holandeses então ocupando a Bélgica -, serão realizadas a partir de junho varias reconstituições da batalha bem como da vida e do dia a dia das tropas. O novo Memorial terá também novidade nos seus dois restaurantes”, ambos com um decoração inspirada do ambiente na véspera da batalha . O  « Wellington » vai oferecer cardápios e preços tipo “Bistrô”, enquanto o mais requintado « Le Bivouac » apresentará uma cozinha mais gastronômica. Com essas novas ideias, a francesa Kleber Rossillon espera que a sua batalha de Waterloo será mesmo vitoriosa!

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo publicado na revista on-line Pagtour

Um túnel e uma ligação ferroviária atravessando o estreito de Gibraltar?

Em Gibraltar, os últimos canhões ingleses vigiando os últimos macacos, ou vice versa?

Assim com o Eurotunel, o seu precursor interligando a França e a Inglaterra, e antes mesmo de ter a sua construção confirmada, o túnel atravessando o estreito de Gibraltar já tem uma mitologia e uma longa historia. Reatando as duas colunas de Hércules, seguindo por baixo do mar a travessia vitoriosa das tropas do Tarik, lembrando para Espanha (e até para o Portugal) o seu épico passado nas costas marroquinas e ao Marrocos as suas ligações européias, o projeto tinha sido lançado em 1979.  Os reis Juan Carlos e Hassan II assinaram o acordo  no embalo da então candidatura do Marrocos a União europeia, e os primeiros estudos  definiram em 1994  o tipo de obra – o túnel e não uma ponte- bem como o trajeto, a profundidade submarina exigindo um túnel de 38 quilômetros dos quais 27 em baixo do mar, seguindo um itinerário, já imaginado em 1895, entre Tarifa e o cabo Malabata.

Da Andaluzia até a costa tangerina, 35.000 ferrys atravessam o estreito cada ano

O interesse de uma ligação terrestre entre a Espanha e o Marrocos ficou ainda maior com a abertura de negociações para relançar a ferrovia transmagrebina de 2350 quilômetros interligando o Marrocos, a Argélia e a Tunísia, muito ativa até os anos sessenta quando parou em consequência de vários conflitos. Com o apoio da União do Magrebe árabe, e um financiamento de 3,8 bilhões de dólares do Banco Africano de Desenvolvimento, as obras para sua reinauguração deveriam ser realizadas em três etapas: a reabilitação de 363 quilômetros da ferrovia Marrocos Argélia, fechada desde 1994 depois de conflitos políticos entre os dois países, a reabertura de 503 quilômetros da ferrovia Argélia Marrocos, suspensa em 2004 por motivos econômicos, e finalmente a interligação completa  da transmagrebina, incluindo um trecho de alta velocidade de Tanger a Casablanca.

O Marrocos quer fazer de Tanger um destino turístico completo

Interligando duas das maiores potencias turísticas do Mar Mediterrâneo, e dois grandes parceiros econômicos, o túnel tem muitos argumentos a seu favor. Segundo a estatal marroquina encarregada do projeto, os fluxos de passageiros e de carga, hoje de meio milhão de pessoas e de toneladas, poderiam ser multiplicados por 25 até o ano 2050. Os projetos de desenvolvimento econômico da região aproveitariam os novos fluxos vindo tanto da Europa como dos países vizinhos, reforçando a vocação de Tanger como cidade aberto ao mundo , dona de um imenso potencial especialmente turístico. Um projeto capaz, segundo o ex presidente do conselho espanhol José Zapatero, de mudar o futuro da Europa e da África.

Ceuta, um dos conflitos que pode bloquear o projeto

Os obstáculos até a inauguração são porem importantes. São em primeiro lugar as dificuldades técnicas para uma obra passando a quase 200 metros  abaixo do nível do mar, numa região de risco sísmico. São os problemas de financiamento de um projeto ainda não orçado mas que deve custar mais de 15 bilhões de euros que são poderão ser reunidos com um apoio maciço da União Européia e dos grandes bancos mundiais. Os maiores problemas parecem porem ser políticos: rivalidades dos países do Magrebe, conflitos territoriais persistentes em Ceuta, Melila ou Gibraltar, medos europeus da imigração clandestinas, criticas americanas ao trafico de drogas. Num projeto de tamanha importância econômica e geopolítica, terá que ser paciente.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista on-line La Quotidienne

Paloma, da onde sairia o túnel do lado espanhol

A crise do marketing de destino chega na França

Rendez vous en France, encontro dos parceiros franceses e internacionais

Alem de um brutal corte de orçamentos, a crise que explodiu a semana passada na Atout France, órgão oficial do turismo francês, significa talvez o fim de um modelo de parceria inventado pela equipe de um então ministro do governo Chirac. Exclusiva dos ministérios ou das administrações publicas desde as suas origens no inicio do século XX, a promoção do turismo internacional conheceu em 1987 uma verdadeira revolução. Agregando quatro órgãos oficiais preexistentes, o ministro Descamps convenceu setenta profissionais de entrar como parceiros numa nova estrutura co-gerenciada e co-financiada pelo governo federal e os profissionais públicos e privados do setor. Era o nascimento da Maison de la France,  uma associação que chegaria a juntar 1300 empresas francesas de turismo e a estabelecer relações estreitas com mais de mil operadoras em 35 países.

Com a mudança de 2009, Atout France integrou o Ministério das Relações exteriores

A Maison de la France acompanhou a volta da França na liderança do turismo mundial, e criou um novo modelo de parceria publico privado. Em 2009 virou Atout France, assumindo novas responsabilidades na planificação do turismo e na classificação hoteleira. Nessa trajetória de sucessos, as recentes decisões do governo chocaram os profissionais e a imprensa do trade e econômica. Atout France poderia ser obrigada a reduzir de um terço a sua presencia no exterior, encolhendo o seu quadro de colaboradores e talvez o numero de países onde está operando, um paradoxo para uma autarquia que depende agora do ministério das Relações Exteriores. As ambições do governo francês, 100 milhões de turistas em 2020 e 60 bilhões de euros de receitas, seriam então seriamente ameaçadas.

As campanhas B2C sofrem dos cortes de verbas

É certo que, mesmo se o corte de quatro milhões de Euros  pode parecer limitado porque representa somente 12% do aporte total do governo, as preocupações do setor devem ser tratadas com respeito e seu impacto não devem ser subestimado. Mas seria injusto de colocar toda a responsabilidade da situação nas últimas decisões do atual governo, isso por duas razões. Em primeiro lugar deve ser lembrado que os governos anteriores realizaram cortes mais importantes ainda nos últimos 15 anos, reduzindo de até 75% as verbas de promoção, e cortando de 80% o numero de funcionários públicos colocados gratuitamente a disposição da associação. A novas tarefas de engenharia e classificação, sem dúvidas muito gratificantes e estrategicamente interessantes, foram impostas sem nenhuma contrapartidas financeiras, aumentando mais os custos fixos.

Air France, desde as origens um apoio excepcional para o turismo francês

A redução dos gastos de promoção não foi também exclusiva do governo. As grandes empresas de viagens e turismo que investiam com força ao lado do governo, emprestando funcionários e participando de campanhas de imagem da França, reduziram suas participações.  Se o apoio da Air France continua sendo excepcional, grupos como Accor, Pierre et Vacances ou o Club Med representam hoje menos de um por cento das parcerias acumuladas. Os outros órgãos públicos de promoção, a níveis regionais ou municipais, também diminuíram as suas verbas, não somente porque falta dinheiro público, mas porque são cada vez mais preocupados promover suas próprias marcas com exclusividade, sem necessária associação com o destino França, desprezando as vezes a expertise que Atout France acumulou com seus colaboradores e seus contatos.

O apoio dos profissionais foi decisivo no sucesso da Atout France

Mostrando a insensibilidade do governo sobre a importância do setor, o choque levado pela Atout France com a redução das verbas públicas acelera as perguntas sobre o modelo criado em 1987. Os seus dois pilares, marketing e parcerias, não têm mais o mesmo apelo junto aos profissionais. O marketing perde força, exprimido entre o branding sempre muito ciumento e as vendas só interessadas por ações com resultados concretos e imediatos. Sem o atrativo do dinheiro publico e seu poder de impor mensagens claras, as parcerias são mais escassas  e as ações conjuntas cada vez mais complicadas. O novo modelo que tem que surgir não pode se restringir a uma (necessária) volta das verbas do governo, mas deve reinventar o posicionamento e os investimentos dos profissionais franceses e estrangeiros. Ao governo, sim, a responsabilidade de tomar a liderança dessa reconstrução, aproveitando as competências das suas equipes e as expectativas dos seus parceiros.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Sucesso de parceria público/privado, um modelo a reinventar?

Depois do Concorde, o sonho do Airbus 380 entra também na Historia

O Airbus A380 da Air France

Em novembro 2009, subindo a bordo do primeiro voo Nova Iorque Paris do A380 da Air France, a sensação era de participar, mais uma vez, do início de uma nova era do transporte aéreo internacional. Anunciado (e sendo) o avião mais silencioso e mais confortável do momento, capaz de transportar de 500 a 800 passageiros, o gigante da Airbus ia trazer para o transporte aéreo internacional uma revolução tão radical que o primeiro Jumbo 747 em 1969. O entusiasmo das 13 grandes companhias  participando em 1996 da primeira apresentação do então A3XX levaram a Airbus a lançar o programa em 2000, conseguindo logo 55 encomendas. A escolha do nome, A380 com o numero 8 vindo da numerologia chinesa, mostrava que a aposta principal era de se posicionar nos grandes hubs asiáticos.

Paris, cidade dos dois Napoleão, o Grande e o Pequeno?


Sainte Genevieve, enfrentou Átila e virou padroeira de Paris

Andando nas ruas de Paris, olhando os nomes  das ruas, das praças ou dos monumentos, o visitante é colocado frente a numerosos personagens que influenciaram os dois mil anos de vida dessa tão peculiar, orgulhosa e rebelde cidade. Assim Sainte Genevieve, Robert de Sorbon, Philippe le Bel, Etienne Marcel, Marie de Médicis, Louis XIV, Gavroche, Bienvenue, Gallieni, de Gaulle, Pompidou, Mitterand, têm os seus seguidores e deixaram suas marcas na sua cultura, no seu urbanismo e na sua arquitetura. Mas segundo o escritor Dimitri Casali, que publicou recentemente o livro “Paris Napoléon(s)”, são porem os dois imperadores da dinastia bonapartista que deixaram,  durante os seus reinados e até hoje, as maiores e mais impressionantes marcas na cidade luz que 35 milhões de turistas continuam a visitar nesse século XXI.

O Arc de Triomphe numa foto de 1913

As grandes mudanças da Paris moderna começaram com Napoleão que queria assim mostrar a potência do Império. Depois dos abandonos e das destruições que acompanharam a Revolução e a guerra civil, a volta da ordem e da prosperidade possibilitam grandes obras que perduram até hoje. O Louvre é renovado, e no seu pátio é inaugurado o Arc du Carrousel. São abertas ou ampliadas a Rue de Rivoli, a Rue de la Paix, a Rue de Castiglione, a Rue d’Ulm. Na Place Vendôme foi construída a famosa coluna com o bronze dos 1200 canhões tomados dos austro-russos na lendária vitoria de Austerlitz. São iniciadas as construções da igreja da Madeleine e da faixada do Palais-Bourbon, do Canal de Ourcq, da Bolsa de valores e, claro, do Arc de Triomphe. Foram também quatro pontes, duas das quais – Austerlitz e Iena – têm nomes de vitórias imperiais. E para que qualquer cidadão, qual que seja sua raça ou sua religião, pudesse ser enterrado decentemente,  Napoleão mandou construir em 1803 o famoso cemitério do Pere Lachaise.

A Praça Vendome e sua coluna fundida com os canhões de Austerlitz

Outras grandes ambições parisienses do Imperador foram abandonadas depois do desastre de Waterloo. No morro de Chaillot (onde  foi depois construído o Palais du Trocadero, e nos anos trinta, o Palais de Chaillot), devia ser erguido um gigantesco palácio para o seu filho, o Rei de Rome, com uma faixada de 400 metros de largura e um parque cobrindo todo o lado oeste de Paris, até Champs Elysées e o Bois de Boulogne. Mesmo se esse e alguns outros projetos foram esquecidos, a chegada ao poder em 1848 do sobrinho de Napoleão I, Napoleão III, vai relançar muitos outros, e dar a capital francesa o aspecto que ela guardou até hoje. Investindo o equivalente hoje a 120 bilhões de reais, misturando preocupações urbanísticas, socais e militares, ele vai confiar ao Prefeito de Paris, o Barão Haussmann, todos os poderes para levar ao fim a metamorfose da cidade.

A beleza imponente do Palais Garnier, a Opera de Paris

E, durante o Segundo império, Paris vai ver a abertura de grandes avenidas: boulevards Saint Germain, Saint Michel, Haussmann, Diderot, bem como Saint Michel e Sebastopol ampliando o eixo Norte Sul da capital. A avenida da Opera liga a nova Opera com o antigo Palais Royal. Para compensar a destruição de 20.000 casas ou sobrados, são construídos alojamentos novos para os operários nos bairros populares da zona leste bem como prédios modernos e elegantes nas áreas nobres da planície Monceau. O Louvre é enfim finalizado, e vários parques e praças são redesenhados. Ainda abertos hoje, dois grandes hotéis muito conhecidos dos brasileiros, o Hotel du Louvre e o Grande Hotel, são projetados e inaugurados seguindo as suas ordens.  Em 1870, quando Napoleão III abdica do poder depois da derrota militar contra a Prussia, ele deixa Paris com (quase) uma bela e moderna cara da capital mundial aonde o visitante do século XXI não ia se sentir perdido.

O Boulevard Saint Germain, herança do Haussmann e do Napoleão III

Talvez até hoje perseguido pelo ódio de Victor Hugo (que o chamava de Napoleão o Pequeno), o sucessor de Napoleão o Grande, depois de ter feito tanto pela sua capital, não conseguiu porem conquistar o coração dos parisienses, nem gravar o nome dele, a não ser uma praça minúscula entre um Mc Donald e a estação de trens Gare du Nord, em nenhum monumento da cidade que ele tanto embelezou. Se Paris deve muito aos dois imperadores, o segundo deveria talvez ser chamado de o injustiçado ….

Esse artigo foi adaptado de um artigo original na revista francesa Le Point

O Pont des Arts, toque de charme herdado do Napoleão o Grande

 

O Hotel du Louvre, projeto iniciado ao pedido do Napoleão III

Nos vinhedos de Mendoza, o céu do Aconcagua é o limite!

Sob o olhar do Aconcagua, a Sentinela de Pedra, os vinhedos de Mendoza

Se Napoleão I teve uma importância decisiva na historia do Brasil a provocar o exílio do Dom João VI para o Rio de Janeiro, o seu sobrinho Napoleão III teve um impacto indireto quase tão grande na historia da Argentina. Perseguindo os republicanos antes mesmo do seu golpe do 2 de dezembro 1852, ele provocou o exílio do agrônomo Michel Aimé Pouget que trazia nas suas bagagens um grande savoir faire e alguns pés de “Cot”, uma variedade de uva francesa tanina de casca negra e grossa, também conhecida como Malbec. Depois de uma rápida estadia no Chile, o francês escolheu Mendoza onde criou uma escola de agronomia, iniciando o sucesso da sua “uva francesa” que se espalhou em toda região e em até 80% dos vinhedos argentinos.

1884 de Mallman, uma típica mas criativa surpresa gastronômica de Mendoza

Seguindo as grandes tendências da vinicultura mundial, Mendoza virou as costas a partir dos anos 80 a produção intensiva de vinhos de baixa qualidade. Talvez lembrando do glorioso passado do Cahors (o mais famoso dos vinhos franceses feitos com Malbec),  atraiu investidores e wine makers internacionais, e decidiu apostar no enoturismo. Nos arredores da cidade, três micro regiões estão se destacando hoje, cada uma com seu terroir, suas paisagens, seus vinhos e suas ofertas especificas. Alem da própria cidade de Mendoza, onde se escondem boas surpresas gastronômicas, o viajante vai assim poder escolher -ou acumular- experiências em Maipú, Luján de Cuyo e Valle de Uco, as múltiplas opções e as distancias deixando impreterível a assistência de um especialista.

Degustação na adega Susana Balbo

Próximo dos bairros populares da periferia, Maipú foi a primeira região vinícola de Mendoza, é a sede dos mais antigas vinhedos, e foi o local onde o vinho argentino começou nos anos 80 a sua revolução da qualidade. Com uma impressionante arquitetura inspirada das pirámidas maias, a bodega de Cadena Zapata foi pioneira tanto nos vinhos pontuados pelo Parker que nas visitas de enoturismo. Alem de degustações tradicionais, é possível aproveitar o restaurante do seu omnipresente enólogo Alejandro Vigil para uns tastings combinando de três a cinco vinhos do grupo (inclusive o excelente Gran Enemigo Gualtallary) com pratos inspirados do culinário da região. É tambem em Maipú que Susana Balbo, grande figura do enoturismo argentina, tem sua famosa bodega.

A interessante e pedagogica adega de Terrazas de los Andes

Mais ao Sul, Luján de Cuyo atraiu marcas de prestigio, inclusivo o charmoso Cavas Relais Châteaux, opção privilegiada para ficar no meio dos vinhedos. Foi o terroir escolhido pelo grupo LVMH para seus empreendimentos Terrazas de los Andes e Cheval des Andes. Instalada nos antigos galpões de uma vinícola construída em 1898, completamente renovados em 1999, a bodega de Terrazas oferece uma visita com muito conteúdo, mostrando não somente o processo dos vinhos atuais, mas também as experiências realizadas. Um restaurante gastronômico oferece uma bem sucedida harmonização com pratos criativos. A  sede requintada do Cheval des Andes fica a pouca distancia, e ajuda a entender porque esse (grande) vinho, agora blend elegantíssimo de Malbec, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot, mereceu a parceria da Cheval Blanc.

A impressionante entrada da bodega Monteviejo em Clos de los Siete

Nos pés da Cordilheira, o Valle de Uco foi o terroir escolhido em 1999 pelo famoso enólogo Michel Rolland para sediar o deslumbrante Clos de los Siete. Com mais seis amigos de Bordeaux, plantaram 850 hectares de Malbec, mas também de Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Viognier, Chardonnay, Petit Verdot e Cabernet Franc. Alem do Clos de los Siete, quatro propriedades fazem seus próprios vinhos : a Bodega Rolland, a Monteviejo, a DiamAndes, e a Cuvelier de los Andes. As bodegas são ainda mais impressionantes que os vinhos, com um destaque para a DiamAndes. A imponência da sua arquitetura, a sua imensa terraza com vista para os Andes e os vinhedos, as suas obras de arte, o seu bar restaurante aconchegante, e sua adega que parece sair diretamente de um filme do George Lucas, tudo mostra ao viajante que ele está mesmo num novo mundo do vinho onde só o ceu do Aconcaguá é o limite.

Jean-Philippe Pérol

No Cavas Relais Châteaux, enoturismo combina também com tango

A adega futurista de Diamandes

Brindando com Renaud da Diamandes e Jorge da Wine Paths

A visita do autor em Mendoza foi organizada e acompanhada pelo Jorge Barceló, Director da Wines and Adventures of the Andes e especialista local da Wine Paths

Fortaleza, novo xodó dos turistas (e do turismo) franceses!

Primeiro pouso em Fortaleza da Air France/Joon no dia 3 de Maio

A espetacular abertura da linha Paris Fortaleza por duas companhias do grupo Air France mostrou o renovado interesse da França pelo Nordeste brasileiro, tanto como destino para os turistas franceses que como mercado emissor. Os voos para os grandes hubs da região não são porem uma novidade. A própria Air France herdou da Aerospatiale a inauguração de uma rota Natal Rio em Novembro 1927,  depois interligada com Dakar e Paris. Depois da segunda guerra, foi  Recife que foi escolhida para escala na rota Paris Rio, e depois abandonada em 1963 quando chegaram os Boeing 707. Quase escolhida em 1975 para receber o Concorde, Recife teve de novo a preferência em 1982 quando Air France voltou a pousar no Nordeste, mas o voo parou em 1995.

Beleza e autenticidade na praia do Iguape

Na competição entre os grandes hubs do Nordeste, a Air France escolheu essa vez Fortaleza. A rota mais curta para Paris, o dinamismo do Ceará e o apoio da Gol foram três fatores importantes numa briga que o peso das vendas locais não dava para desempatar. Para levar a decisão, a surpresa vem dos profissionais franceses que anunciaram claramente suas preferências pela capital cearense. Seu clima seco garantindo sol o ano inteiro, seu mar quente, suas praias de areia branco e seus passeios de buggy, sua infraestrutura hoteleiro e seus parques aquáticos já tinham seus fãs, especialmente os amadores de kite surf. Estão agora se popularizando, aparecendo nas paginas dos principais jornais e revistas franceses bem como nas prateleiras das agencias de viagem e das operadoras.

Cumbuco, balneario do Saint Tropez des Tropiques e do Vila Galês

Não é a primeira vez que o Ceará tenta atrair os turistas franceses. Já nos anos 70 a empresa hoteleira PLM tentou implantar no Brasil seu primeiro hotel, com a ideia de levar para Fortaleza parte dos enormes fluxos de turistas franceses indo para seus hotéis do Caribe. Nos anos 80 a operadora El Condor, então líder do mercado francês, lançou um charter bimensal para Fortaleza, planejando fazer do balneário do Cumbuco um novo ” Saint Tropez des Tropiques”. Mesmo com muitos poderosos padrinhos dos dois lados do Atlântico, incluindo o prefeito de Saint Tropez e o empresário franco-cearense Paul Mattei, o projeto não vigorou. Contribuiu porem a reforçar os laços com numerosos profissionais franceses do setor, ainda hoje muito presentes em Fortaleza.

Entre Nordeste e Amazônia, o inesperado deserto dos Lençóis Maranhenses

Fortaleza está também seduzindo os turistas franceses pela oportunidades de conexão que o hub da Gol oferece para outras atrações do nordeste e do norte. Mais que os destinos tradicionais, Salvador ou Recife, os novos roteiros estão incluindo Morro Branco, Prainha, Iguape, Cumbuco, Jericoacoara, paraíso dos kite surfistas, o delta do Parnaíba, e os surpreendentes Lençóis Maranhenses cujos lagos e dunas estão fascinando todos os visitantes. Talvez lembrando a historia da cidade fundada pelo francês Daniel de la Touche, os turistas franceses estão chegando em São Luiz, “jóia do Maranhão, herdeira da França equinocial, tombada pela UNESCO em 1997”. E as melhores ofertas de Belém, Alter do Chão ou Manaus, seja cruzeiros fluviais, hotéis de charme ou pousadas de selva, já estão medindo a nova empolgação trazida pelos voos Paris Fortaleza.

Nos Encontros 2018, os profissionais franceses atras do mercado nordestino

Novo xodó dos franceses, Fortaleza vai também surpreender pelo potencial de viajantes que o Nordeste pode gerar para Europa em geral e a França em particular. Até agora quase monopólio da Air Portugal, e com forte liderança de Lisboa, os fluxos de turistas já começaram a se redefinir, incluindo viajantes procurando experiências sofisticadas na cultura, na gastronomia ou no enoturismo. A Atout France, encarregada da promoção do turismo francês, já está acompanhando essa nova tendência, trazendo para Fortaleza o seu evento-mor “Encontros a francesa”. Alem dos encantos da capital e do litoral cearense, os 40 profissionais franceses convidados vão com certeza voltar convencidos que o Nordeste brasileiro vai em pouco anos dobrar seu fluxo de viajantes para França.

Jean-Philippe Pérol

O Teatro José de Alencar em Fortaleza (foto Casablanca turismo)

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

No Benim, turismo de memória e trilhas espirituais nas raizes do Candomblé

Uidá, a porta do não retorno

Da cidade de Abomei, até o porto de Uidá, uma trilha de 125 quilometros é a grande esperança do turismo do Benim. Seguindo um traçado definido por um sobrevivente da última travessia de um navio negreiro americano, Cudjo Lewis, essa trilha foi o caminho onde pisaram mais de um milhão de escravos vendidos pelos Reis do Daomé aos traficantes portugueses, ingleses, holandeses, franceses, dinamarqueses e brasileiros instalados no então Forte de São João Baptista de Ajudá. E durante duzentos anos, apoiados num temido exercito cujas tropas de elite eram amazonas guerreiras, a dinastia Fon jogou nesses caminhos escravos capturados no Norte do pais ou nos estados vizinhos de Allada, Oyo ou Ketu.

Os palacios dos Reis de Abomei, inscritos no patrimonio mundial

O patrimônio cultural do Benim faz sonhar os profissionais do turismo que já viram as chegadas internacionais  aumentar de 25% nos últimos seis anos. No inicio da trilha, em Abomei, os palácios dos doze reis que se sucederam de 1625 à 1900, seus recintos e seus baixos relevos, já foram restaurados e são agora inscritos pela UNESCO ao património mundial da humanidade. E em Uidá os fãs do turismo memorial poderão não somente visitar a cidade velha ou o antigo Forte português, mas também passar por baixo da “Porta do não-retorno”, erguida em 1995 pela própria UNESCO em homenagem as vítimas do comercio atlântico de escravos.

Influência brasileira na peculiar mesquita de Porto Novo

Alem do turismo de memória, o Benim é também para o turista brasileiro um destino único pela influência que o Brasil teve nas populações e na cultura local. Descendentes de escravos libertados ou de traficantes, milhares de beninenses se orgulham das suas origens brasileiras, começando com mais de 400 sobrenomes de origem portuguesa. Alguns deles – os chamados “Agudás” – festejam o Carnaval e homenageiam a Nossa Senhora do Bonfim. Em Porto Novo, a influencia da arquitetura colonial luso-brasileira é visível em varias casas  do século bem como na surpreendente mesquita construída a partir de 1911, inspirada da Catedral de Salvador da Bahia. E algumas casas antigas de Uidá teriam acolhidas os exilados da Revolta dos Malês.

Templo de Legba (Exú) em Abomei

Alem do turismo memorial e de intercâmbio cultural, o Benim oferece ao turista brasileiro uma volta para as raízes das religiões afro-brasileiras. A trilha definida pelo Cudjo Lewis começa em Abomei perto de um templo de Legba (Exú) e acaba em Uidá no Templos das serpentes, com dezenas de pitões vivos honrando Dan/Oxumaré, e um iroko sagrado velho de 600 anos. No nome das batalhas dos guerreiros da etnia Fon (Jejê), encontra se a origem dos escravos mandados para o Brasil – Oyo, Ketu, Abeokuta …- que levaram do outro lado do Atlântico os seus orixás. A grande festa do vodú é o dia 10 de janeiro, um festival onde os brasileiros vão reconhecer sem dificuldades o nome das divinidades locais, como Ogum, deus do Ferro, ou Xangô, deus do Trovão.

Templo vodú em Uidá

Hoje o maior edifício religioso de Uidá é a basílica da Imaculada Conceição, mas o Benim continua guardando uma especificidade espiritual que deve muito a seu passado afro-brasileiro.  E se o pais conta agora com 30% de católicos, 20% de muçulmanos e alguns protestantes, ele tem também 100% de “vodunsi”. Uma unanimidade espiritual que ajuda a esquecer as feridas do passado.

Jean Philippe Pérol

Os Agudás festejando o Bonfim

 

Chacha I, brasileiro, mestiço, traficante mas vice rei e heroi dos Agudás