150 anos da “Commune”, a controvertida e fascinante história de Paris

O Palácio dos Tuileries teve que ser destruído depois do incêndio

No próximo dia 18 de Março, Paris vai começar a comemorar os 150 anos de uma das mais polêmicas e mais sangrentas páginas da sua história, quando as tropas do governo – os “Versaillais”- venceram os insurgentes “communards”, e fuzilaram mais de 30.000 homens, mulheres e crianças. Último episódio das revoluções patrióticas e democráticas que sacudiram a  França desde 1789, ou primeiro grande levante social da história contemporânea, a “Commune de Paris” ainda divide os políticos franceses, e mesma a saudosa canção “Le temps des cerises“, hino muito tempo proibido, ainda  não faz a unanimidade. Mas a prefeitura aprovou as comemorações, e  vai, até o 28 de Maio, organizar homenagens, palestras históricas, e exposições culturais, sempre adaptados ao contexto sanitário atual.

Louise Michel, ícone da Commune de Paris nos cartazes dos 150 anos

Os eventos têm uma forte dimensão politica, a prefeita socialista lembrando aos moradores que a revolta era democrática e social, e que algumas reivindicações eram surpreendentemente modernas. Além das violências – que provocaram muitas mortes mas também a destruição de monumentos simbólicos como o Palácio dos Tuileries ou a Prefeitura-, a “Commune” foi pioneira na gratuidade do ensino, na separação da igreja e do estado, no divorcio consensual, ou nos direitos das mulheres. Foi por sinal uma mulher icônica, Louise Michel, militante anarquista, combatente da linha de frente, exilada na Nova Caledônia depois da derrota, que foi escolhida no cartaz das comemorações.

A Commune começou nas ruas e nas praças de Montmartre

Vários eventos vão marcar o início da comemorações dia 18 de Março. Em Montmartre, onde a Commune começou, será reconstituída uma barricada e 50 parisienses foram selecionados para trazer 50 silhuetas  de revolucionários realizadas pelo artista  Dugudus. As peças representam personalidades anônimas ou famosas, como a anarquista Louise Michel, o pintor Gustave Courbet, ou o poeta Arthur Rimbaud, e serão depois expostas na Prefeitura. No mesmo dia, será inaugurada uma “Alameda da Ile dos Pins”, com os nomes dos numerosos revoltados, homens e mulheres, que foram deportados para essa ilha da Nova Caledônia depois da liquidação da revolta.

A Ile des Pins, Nova Caledônia, onde foram deportados mais de 3000 revoltados

Várias exposições serão também apresentadas.  O comitê histórico da prefeitura realizou “1871 : les 72 jours de la commune” que começará no bairro das Buttes Chaumont, depois continuará na biblioteca da Sorbonne e enfim  no Marais. Uma coleção de cartazes da época, batizada “A l’assaut du ciel” será exposta  em 20 escolas parisienses. São previstos espetáculos de rua da tropa artística nos principais bairros simbólicos da Commune, bem como vários roteiros turísticos acompanhados de guias, organizados pelas subprefeituras de Paris. Em parceria com associações, uma mapa interativo apresentará locais e personagens, conhecidos ou não, que tiveram um papel nos eventos da época.

A Praça de l’Hotel de Ville, lugar chave das comemorações

Alguns eventos serão encenados para atrair moradores e turistas. Dia 2 de Abril será reconstruído na frente da Prefeitura o julgamento da anarquista Louise Michel, com historiadores opondo os argumentos dos “Versaillais” e dos “Communards”. Se as condições sanitárias melhoraram, o julgamento será retransmitido em uma tela gigante na praça do Hotel de Ville, e os debates serão seguidos de de leituras e de cantos. Dia 28 de Maio, aniversário do último dia do levante, será realizado um espetáculo de sons e luzes “Le Pari de la Commune” na rua de la Fontaine du Roi, 17.  No mesmo lugar aonde tinha sido erguido a última barricada, comediantes e músicos encenarão  o final desse drama, parte da tão peculiar historia que faz de Paris uma cidade única.

Jean-Philippe Pérol

O Sacré Coeur, símbolo controvertido da derrota da Commune

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