Politica atrapalha o renascimento do turismo no Irã

Persepolis, antiga capital do império do Ciro o Grande

Seguindo as decisões politicas dos Estados Unidas, as mas noticias se acumulam para o turismo no Irã. Depois de Air France, KLM, Etihad, Air Astana e Austrian, a British Airways decidiu a suspensão dos seus voos para Teerã a partir do mês de Setembro. Algumas grandes companhias aéreas, lideradas pela Lufthansa e Alitalia, ainda não anunciaram as suas decisões, mas parece pouco provável que elas desafiam o boicote americano e arriscam pesadíssimas sanções econômicas. Num prazo de seis a oito semanas, o pais herdeiro do império de Ciro, cujos 2500 anos tinham sidos comemorados em 1971 com a presença de 60 chefes de estados, só será ligado aos países ocidentais pela companhias locais Mahan Air e Iran Air.

Os hotéis ibis e Novotel do grupo Accor em Teerã

Esse golpe chegou no ano excepcional para o turismo no Irã que cresceu  50% em 2017, passando os 6 milhões de visitantes, alastrando um otimismo tanto nos profissionais que no ministério que chegou a anunciar um objetivo de 20 milhões de entradas para 2025. Surfando no sucesso, Accor, Mélia e varias outras companhias hoteleiras internacionais tenham  investindo em novos estabelecimentos. Para eles, o futuro está agora incerto, assim que para os números pequenos bed and breakfast que empresários locais abriram nos últimos três anos. Se o site da AirBnb ainda oferece centenas de quartos e apartamentos no Irã, a permanecia dessa oferta está agora ameaçada pelo bloqueio das transações financeiras.

A praça Naqsh-e-Janan em Isfahan

Enquanto destinos exclusivos estão cada vez mais procurados para os viajantes que querem novidades e precisam fugir do “overturismo”, o Irã tinha – e tem- uma oferta que seduz tanto os turistas a forte motivação cultural que os backpackers aventureiros. As ruínas de Persépolis, a antiga capital do império persa (patrimônio mundial da UNESCO), as mesquitas, os jardins, e os museus de Isfahan ou Shiraz, os palácios de Teerã, os vilarejos do Mar Cáspio e os monumentos sagrados de Meshed carregam uma historia excepcional que muitas operadoras, na França, na Alemanha mas também no Brasil, estão promocionando com sucesso. Com um cambio muito favorável, e uma importante e segura oferta de hospedagem e restauração econômica, o pais foi classificado pelo World Economic Forum report  como o destino turístico mais barato de 2018.

A mesquita do Sheikh Lutfallah em Isfahan

Se é certo que a riqueza patrimonial e cultural do Irã lhe assegura a longo prazo um grande futuro no mapa do turismo mundial, e que os peregrinos ou aventureiros continuarão a visitar suas cidades santas ou seus sítios arqueológicos, a decisão  americana e a consecutiva impossibilidade de fluxos financeiros com o Irã, devem quase parar a curto prazo os fluxos vindo da Europa e das Américas. Para os hoteleiros e para as operadoras foi mais uma vez demonstrada a fragilidade da economia turística, sujeita as crises climáticas, sanitárias, econômicas ou militares, mas também aos jogos políticos. Para quem sonha em visitar ou fazer visitar o pais outrora conhecido como o ”Trono do Pavão”, a esperança será de lembrar que o turismo demostrou nas últimas décadas uma extraordinária resiliência, e que o prazo de recuperação dos destinos castigados está cada vez mas curto. Então, no ano que vem em Persépolis?

Jean Philippe Pérol

As ruínas de Naqsh-e Rostam perto de Shiraz

A torre Azadi em Teerã

A ilha de Páscoa dos turistas voltando a ser também a Rapa Nui dos moradores?

Saint Emilion, história medieval, vinhedos tombados pela UNESCO e vinícolas de vanguarda

O campanário da igreja monolítica de Saint Emilion Credit OT Saint-Emilion_Steve Le Clech©

Desenhar um roteiro enoturístico nos arredores de Bordeaux é sem dúvidas uma tarefa muito pessoal, a escolha dependendo em primeiro lugar das preferências de cada um. Preferências entre as “appelations” – Entre deux mers, Medoc, Graves ou Rive droite-, preferências  entre as atividades a combinar com as degustações – cultura, shopping, praias ou simples passeios -, preferencias entre as visitas dos Châteaux ou a descoberta dos  vilarejos. Mas qual que seja o seu roteiro, ele não pode dispensar o encantadora cidade medieval de Saint Emilion. Cercada dos vinhedos epónimos, plantados principalmente de merlot (79%), cabernet franc (15%), e cabernet sauvignon, a cidade domina um planalto com sua arquitetura em pedras de cantaria.

Frente a Praça do Mercado, a Capela da Trinidade

Tombada pela UNESCO em 1999, Saint Emilion seduz o visitante com ruas estreitas subindo entre casas de pedras, mosteiros ou conventos centenários, lojas ou armazéns de vinhos. Depois de caminhar pela parte alta da cidade, vale a pena aproveitar a linda vista da Praça des Créneaux, e descer a rua do Tertre de la Tente, uma ladeira escorregante que leva até a Praça do Mercado. Lá fica a Capela da Trindade, com suas únicas pinturas da Idade Media, bem como a entrada da imperdível atração arquitetura da cidade: a igreja monolítica, com seu coro de onze metros de altura cavado no barranco, a maior igreja do género na Europa, construída a partir do século XI em cima do túmulo de um monge bretão chamado Emilion.

A simpatia dos restaurantes da Praça do Mercado

Se existem vários grandes restaurantes gastronômicos (inclusivo dois estrelados Michelin, o Relais & Châteaux Hostellerie de Plaisance e o Logis de la Cadène), e se algumas vinícolas dos arredores oferecem excelentes opções de almoços harmonizados com vista nos vinhedos ou nas adegas, os restaurantes da Praça são sempre minha escolha preferida. No ambiente descontraído das mesas espalhadas na calçada,  o meu predileto Le Bouchon apresenta não somente uns pratos simples da região – por exemplo um Foie Gras com frutas da estação-, mas um cardápio de vinhos excepcional, com preços interessantes dando oportunidades de provar tanto um Côtes de Castillon, um Roc de Cambes, um Tertre Roteboeuf ou um Cheval Blanc.

As adegas do Château Beauséjour

Além da cidade de Saint Emilion, a UNESCO também tombou os seus vinhedos, centenas de propriedades com nomes famosos no mundo inteiro ou ainda quase desconhecidos. Sendo recomendado de fazer reservas, e de ser aconselhado na escolha das adegas a visitar, é sempre mas fácil pedir a um especialista para organizar o seu roteiro.  Assim a Wine Paths , que escolheu duas vinícolas bem diferentes e extremamente interessantes pode ser o melhor caminho. A primeira é o Château Beauséjour Becot, um Premier Grand Cru Classé e uma propriedade onde o vinho já era produzido desde a época dos romanos. As impressionantes adegas cavadas na pedra calcaria oferecem perfeitas condições para  guardar as garrafas de vinho que os próprios donos estão elaborando.

A vinícola do Chateau La Dominique desenhada pelo Jean Nouvel

Para a segunda visita da tarde, o Chateau La Dominique é uma espetacular opção da Wine Paths. Considerada uma das mais belas propriedades de Saint Emilion desde o século XVIII, essa vinícola foi completamente renovada em 2013 quando os donos decidiram construir novos galpões combinando beleza, modernidade nos equipamentos e integração com a paisagem. O arquiteto Jean Nouvel venceu o desafio e conseguiu erguer frente aos vinhedos um prédio único, criativo, moderno, funcional, luminoso e além disso lindo, uma obra de arte considerada hoje uma das mais espetaculares adegas da região de Bordeaux. Um lugar ideal para degustar esse Grand Cru e fechar com chave de ouro um roteiro em Saint Emilion.

Um roteiro “História medieval e vinícolas modernas” consta nas ofertas da  Joelle,  especialista da Wine Paths em Saint Emilion, e pode ser reservado no site (com almoço numa vinícola, e visitas/degustações no Château Beauséjour Becot e no Château La Dominique).

Em Budapeste, espírito de liberdade e charme da peculiaridade

O Palácio de Buda e a Ponte das Correntes

Chegando em Budapeste, o visitante logo percebe a força da diferença. Se os prédios históricos, as ruas, as lojas ou os passantes lembram uma bela e animada grande capital européia, a cidade e seus habitantes mostram logo as suas peculiaridades. A língua não tem nenhuma ligação com os outros idiomas da Europa, somente um distante parentesco com o finlandês e mais distante ainda com o turco. E nem o inglês, nem o francês ou nem o alemão podem ajudar a entender ou a decifrar o húngaro. A historia do país ainda comemora Átila, lembrando na Europa inteira como o “mangual” de Deus, ele é aqui um herói cujo nome ainda é muito comum. Depois dessas singulares raízes, o reinado foi fundado no século X  por invasores vindo da Ásia central, e ainda ficou durante 380 anos  sob os domínios turcos e austríacos, cujos legados ainda impressionam o viajante.

A Arvore da vida, obra de arte e de memória do escultor Imre Varga

Numa visita a capital magyar, são assim imprescindíveis o Palácio Real e o Morro do Castelo com seus 600 anos de arquitetura e sua vista imponente sobre Pest o a Ponte das Cadeias, o Parlamento onde fica a famosa coroa do primeiro rei cristão – Santo Estevão ,  bem como a Basílica do mesmo nome. Na Praça dos heróis, construída para comemorar os 1000 anos da Hungria, o arcanjo Gabriel domina as estátuas dos construtores da identidade e da liberdade húngara, desde Arpad até os mártires dos dois levantes de 1848 e 1956 contra os invasores austríacos e russos. O passado trágico é também lembrado nos jardins da grande sinagoga onde uma espectacular obra de arte, a Arvore de vida, lembra o extermínio pelos alemães de mais de meio milhão de judeus húngaros em julho 1944.

Rugas fürdö, banho turco herdado da ocupação otomana

Do longo domínio dos Otomanos, e de numerosas fontes de águas quentes, Budapeste herdou a paixão dos banhos e dezenas de piscinas de agua quente, numerosos spas, bem como quatro “banhos turcos”. Assim os Banhos de Rugas, construídos em 1550,  ainda mostram a arquitetura original, e guardam um ambiente que os próprios moradores gostam de aproveitar. Mais recentes, e inspirados da arquitetura austríaca do final do século XIX, os banhos de Széchenyi são também uma excelente opção, especialmente no verão com as suas grandes piscinas quentes a céu aberto. Para comungar com os húngaros, os visitantes podem também dividir uma outra paixão nacional. A  música é sempre presente, seja com pequenos orquestras de rua, muitas vezes ciganos, no emblemático Bastão dos Pescadores, caminhando nas ruas animadas do centro histórico ou ouvindo sinfonias na imponente Ópera inaugurada em 1884.

No Bastião dos Pescadores, encontro com músicos ciganos

 A peculiaridade da Hungria se encontra também no seu culinário e nos seus vinhos. Realçados com páprika e especiarias próprias, repolho recheado, goulash, massas caseiros, sopa de feijão branco, embutidos ou salames são as bases de uma gastronomia que os húngaros apresentam com muito orgulho a seus visitantes. Se eles podem oferecer uns excelentes vinhos tintos – blends de uvas nacionais ou excelente Cabernet Franc – para acompanhar os seus pratos, os húngaros tem um verdadeiro culto pra o mais famoso dos seus vinhos, o Tokay Aszú. Vinho branco reforçado de uvas com alto grão de podridão nobre, com forte sabores de damasco, ele teria sido chamado pelo Louis XIV de “Rei dos vinhos, vinho dos Reis”. Perfeito com uma sobremesa, pode ser pedido para acompanhar um rocambole de sementes de papoula na doceria Gerbeaud, imperdível tradição de Budapeste .

E quando provar lo, para brindar  com o seu anfitrião, é só dizer saúde em húngaro: Eguèshèguèdrè!

Jean-Philippe Pérol

No Mercado Central, o páprika e as peculiares especiarias magiares

 

Repolho recheado e goulash de frango, as delicias da cozinha caseira

A Córsega, destino destaque da Forbes para 2018!

As torres, testemunhas do passado genovês

Agora destacada pela atualidade politica – os lideres pro-autonomia ganharam as ultimas eleições-, a Córsega está crescendo como destino turístico internacional. Na sua edição do 11 de Fevereiro, o magazine Forbes selecionou a “Ilha da Beleza” como o lugar mais deslumbrante para visitar em 2018. A seleção da conceituada revista, com foco nas paisagens, na cultura e na gastronomia, tinha como outros finalistas a Sicília, o Vale do Douro, a cidade austríaca de Innsbruck e o cantão suíço de Vaud. O destaque dado para Córsega foi talvez aquele “ooh-la-la”de uma geografia exuberante e diversa, com mais de 1500 quilômetros de litoral pitoresco, praias de cartão postal, rios cintilantes, trilhas desafiadoras, florestas exuberantes e montanhas acidentadas.

Em Ajáccio, as Jornadas napoleónicas comemoram o Imperador

Para Forbes, a personalidade peculiar da Córsega tem suas raízes próprias, mas integrou a alegria de viver e o carisma a francesa, bem como a historia e  a cultura italiana, visíveis nas torres ou nas fortalezas genoveses , e nos antigos vilarejos agarrados nos morros. Destino único e cativante, a Ilha surpreende até pela sua bandeira, a cabeça de mouro com uma faixa na testa, símbolo herdado seja da luta contra os mouros invasores seja do domínio dos reis aragoneses. A gloria passada é encontrada também em Ajáccio, cidade natal do Napoleão, que seduz pela sua catedral, sua fortaleza e mais ainda pelos bares espalhados na Praça do Maréchal Foch.

As praias cercam a cidade de Porto Vecchio

Nos pontos altos do patrimônio cultural da Córsega, os jornalistas destacaram Bonifácio e suas falésias brancas, Porto Vecchio e seu colar de praias charmosas, Corte, a capital histórica, e sua fortaleza cercada de imponentes montanhas, Cargese orgulhosa do seu passado grego, e Bastia com a faixada artística da igreja de São João Batista. A atualidade da cultura local impressionou também esses visitantes, seja pelos numerosos eventos organizados pelas prefeituras, ou pela presencia da musica tradicional, cantos polifônicos masculinos que são ouvidos em concertos ou improvisados em festas de família, nas albergues e até nos bares frente as praias.

Patrimônio arquitetural e “maquis” ao longo das trilhas

O parques naturais da ilha foram também lembrados pela Forbes, pelo  deslumbrante Golfo de Porto, inscrito no património mundial pela UNESCO, ou pelas trilhas mágicas onde  os esportistas podem caminhar, andar de bicicleta, olhar os pássaros, ou simplesmente cheirar os perfumes da vegetação característica da região, o “maquis” – um ecosistema as vezes comparado a caatinga nordestina. É nesse mato que se encontram as castanhas portuguesas, que os moradores utilizam para fazer farinha, e os diferentes tipos de mel,  os escuros “miellats du maquis”, ou os perfumados méis de primavera.

Embutidos da Córsega

Ingredientes únicos somente encontrados na ilha, tradições gastronômicas específicas, encontros com as culinárias francesa e italiana, a cozinha da Córsega surpreendeu e agradou os jornalistas da Forbes, com guisado de javali, cordeiro assado, vitela com azeitonas, ou torta de farinha de castanha. Cada prato pode ser harmonizado com um dos vinhos locais, elaborados com uvas originais,  Niellucciu ou Sciaccarellu para os tintos,  Vermentinu para os brancos. Pouco conhecidos, os vinhos corsos são porem interessantes e calorosos, especialmente quando acompanhando os bem temperados embutidos da Corsega – presuntu, copa ou salsichão- , ou os inesquecível brocciu, queijo de leite de ovelha comprado nas feiras livres diretamente dos produtores.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original da Laura Menske na revista Forbes 

Os cantos polifônicos, orgulho da cultura corsa

No Benim, turismo de memória e trilhas espirituais nas raizes do Candomblé

Uidá, a porta do não retorno

Da cidade de Abomei, até o porto de Uidá, uma trilha de 125 quilometros é a grande esperança do turismo do Benim. Seguindo um traçado definido por um sobrevivente da última travessia de um navio negreiro americano, Cudjo Lewis, essa trilha foi o caminho onde pisaram mais de um milhão de escravos vendidos pelos Reis do Daomé aos traficantes portugueses, ingleses, holandeses, franceses, dinamarqueses e brasileiros instalados no então Forte de São João Baptista de Ajudá. E durante duzentos anos, apoiados num temido exercito cujas tropas de elite eram amazonas guerreiras, a dinastia Fon jogou nesses caminhos escravos capturados no Norte do pais ou nos estados vizinhos de Allada, Oyo ou Ketu.

Os palacios dos Reis de Abomei, inscritos no patrimonio mundial

O patrimônio cultural do Benim faz sonhar os profissionais do turismo que já viram as chegadas internacionais  aumentar de 25% nos últimos seis anos. No inicio da trilha, em Abomei, os palácios dos doze reis que se sucederam de 1625 à 1900, seus recintos e seus baixos relevos, já foram restaurados e são agora inscritos pela UNESCO ao património mundial da humanidade. E em Uidá os fãs do turismo memorial poderão não somente visitar a cidade velha ou o antigo Forte português, mas também passar por baixo da “Porta do não-retorno”, erguida em 1995 pela própria UNESCO em homenagem as vítimas do comercio atlântico de escravos.

Influência brasileira na peculiar mesquita de Porto Novo

Alem do turismo de memória, o Benim é também para o turista brasileiro um destino único pela influência que o Brasil teve nas populações e na cultura local. Descendentes de escravos libertados ou de traficantes, milhares de beninenses se orgulham das suas origens brasileiras, começando com mais de 400 sobrenomes de origem portuguesa. Alguns deles – os chamados “Agudás” – festejam o Carnaval e homenageiam a Nossa Senhora do Bonfim. Em Porto Novo, a influencia da arquitetura colonial luso-brasileira é visível em varias casas  do século bem como na surpreendente mesquita construída a partir de 1911, inspirada da Catedral de Salvador da Bahia. E algumas casas antigas de Uidá teriam acolhidas os exilados da Revolta dos Malês.

Templo de Legba (Exú) em Abomei

Alem do turismo memorial e de intercâmbio cultural, o Benim oferece ao turista brasileiro uma volta para as raízes das religiões afro-brasileiras. A trilha definida pelo Cudjo Lewis começa em Abomei perto de um templo de Legba (Exú) e acaba em Uidá no Templos das serpentes, com dezenas de pitões vivos honrando Dan/Oxumaré, e um iroko sagrado velho de 600 anos. No nome das batalhas dos guerreiros da etnia Fon (Jejê), encontra se a origem dos escravos mandados para o Brasil – Oyo, Ketu, Abeokuta …- que levaram do outro lado do Atlântico os seus orixás. A grande festa do vodú é o dia 10 de janeiro, um festival onde os brasileiros vão reconhecer sem dificuldades o nome das divinidades locais, como Ogum, deus do Ferro, ou Xangô, deus do Trovão.

Templo vodú em Uidá

Hoje o maior edifício religioso de Uidá é a basílica da Imaculada Conceição, mas o Benim continua guardando uma especificidade espiritual que deve muito a seu passado afro-brasileiro.  E se o pais conta agora com 30% de católicos, 20% de muçulmanos e alguns protestantes, ele tem também 100% de “vodunsi”. Uma unanimidade espiritual que ajuda a esquecer as feridas do passado.

Jean Philippe Pérol

Os Agudás festejando o Bonfim

 

Chacha I, brasileiro, mestiço, traficante mas vice rei e heroi dos Agudás

 

 

 

 

 

 

As cidades da Ásia lideram o crescimento do turismo mundial

O centro histórico de Macau, primeiro destino turístico da Ásia

Não é nem na Europa nem nas Américas que o turismo está bombando, mas na Ásia. Publicando o ranking das 10 cidades do mundo que conhecem o mais importante crescimento esse ano, o World Travel and Tourism Council destacou 10 cidades da Ásia como tendo o mais forte crescimento do seu turismo domestico e internacional. Fundada em 1990 pela American Express, muito tempo dirigida pelo francês Jean-Claude Baumgarten, o WTTC sempre se dedicou a mostrar o peso do turismo na economia global e a sinalizar grandes tendências. Tendo sido apoiada por grandes nomes da política internacional, de Kissinger a Blair, hoje sendo presidida pela mexicana Gloria Guevara, esse Conselho publicou agora uma impressionante pesquisa sobre o impacto do turismo nas cidades asiáticas,

A famosa passarela de vidro de Chonq Qing

As dez cidades do mundo com os maiores crescimento turístico são todas asiáticas, todas elas dependem em primeiro lugar dos turistas chineses, e as cinco primeiras do ranking são localizadas na China, mostrando o peso desse mercado tanto em tamanho atual que em potencial futuro. Classificados pela taxa de crescimento da sua economia turística, (a WTTC rompeu com as classificações tradicionais em números de turistas, privilegiando o impacto económico), as cidades são as seguintes:

1. Chongqing (China) –  14 %
2. Cantão (China) – 13,1 %
3. Xangai (China) – 12,8 %
4. Pequim (China) – 12 %
5. Chengdu (China) – 11,2 %

6. Manille (Filipinas) – 10,9 %
7. Nova Delhi (Índia) – 10,8 %
8. Shenzhen (China) – 10,7 %
9. Kuala Lumpur (Malásia) – 10,1 %
10. Jakarta (Indonésia) – 10 %

Centro urbano de Chong Qing a noite

Com cerca de 30 milhões de habitantes, Chong Qing é a maior aglomeração urbana da China. Localizado num planalto cercado de montanhas e de paisagens espetaculares, ela é atravessada pelo rio Jialing e pelo Yang Tsé (chamado também de Rio Azul), maior rio da Ásia. A cidade é assim o ponto de partida de cruzeiros fluviais até a famosa represa das Três Gargantas, a maior do mundo, e depois até Wu Han e Xangai. Mas as duas atrações mais famosas da região são a sua passarela de vidro que domina um barranco de 1010 metros de altura, e suas esculturas budistas inscritas ao património mundial pela UNESCO. Se os visitantes são por enquanto quase todos chineses, Chong Qing começa a contar com turistas internacionais, – japoneses, americanos ou europeus-,  que já estão contribuindo em mais de 5% para economia local.

A opera de Cantão

Cantão (Guangzhou em chinês) é conhecida pela sua Feira de Importação e Exportação da China, a mais antiga e mais famosa do pais, que atrai cada ano mais de 200.000 visitantes estrangeiros. Alem dos negócios, a cidade é procurada pelos turistas pelas suas opções de compras., oferecendo a preços muito atrativos todos os produtos fabricados na China, roupas, relógios, eletrônicos e brinquedos, bem como chás ou ervas tradicionais. Com a maior concentração de restaurantes da China, Cantão é também famosa pelo seu culinário, um dos mais autênticos do pais com sua sopa won ton, seus dim-sum ou seu porco agridoce. Mesmo com uma arquitetura moderna impressionante, Cantão oferece a seus visitantes uns monumentos testemunhos do seu rico passado como o Templo dos seis árvores banyans, a Mesquita Huaisheng, ou seus vilarejos da dinastia dos Song .

Vista noturna de Macau

A pesquisa da WTTC mostra também que Macau é a cidade mais turística da Ásia, com 27,3% da sua economia dependendo do turismo. E com 16 milhões de turistas internacionais, é a sexta cidade mais visitada do mundo. Tendo como único atrativo alem do jogo a sua rica herança da colonização portuguesa, pode ser talvez uma fonte de esperança para muitas cidades brasileiras …

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista profissional online La Quotidienne

 

; Reunião do WTTC no Brasil em 2009 com o Jean Claude Baumgarten e a Jeanine Pires

Carcassona, inscrita duas vezes ao Patrimônio da UNESCO

O luar iluminando a cidade de Carcassona

Enquanto a UNESCO está sendo violentamente criticada pelo Presidente Trump pelas suas escolhas patrimoniais,  Carcassona festeja os vinte anos da sua inscrição ao Património mundial da humanidade mostrando os acertos dessa lista que conta hoje mais de mil monumentos. A cidade fortificada recebe hoje mais de 2 milhões de turistas – sendo a quinta cidade mais visitadas da França, e o reconhecimento da sua importância cultural pela UNESCO foi sem duvidas um fator chave da sua popularidade junto aos viajantes franceses e internacionais. Sendo ainda atravessada pelo “Canal du Midi” – outro monumento francês pertencendo ao Patrimônio mundial- o conjunto oferece um acervo cultural único e duas vezes premiado.

As impressionantes muralhas da cidade fortificada

Conhecidas desde os últimos séculos do Império Romano, as fortificações foram reforçadas de 1082 a 1209 pela dinastia dos Viscondes de Trencavel que tentavam consolidar um estado independente entre a França e a Espanha. Tendo tolerado nas suas terras a heresia dos Cátaros e seu ascetismo místico, o ultimo visconde – Raymond Roger Trencavel-, teve que enfrentar a partir de 1209 uma cruzada militar que acabou com a devolução do seu feudo para o Rei da França. Durante os reinados de Saint Louis e dos seus sucessores, a cidade fortificada foi ampliada para corresponder a seu novo estatuto de fortaleza real, e uma segunda muralha de 3 quilômetros e 32 torres foi erguida. Um novo centro urbano, a Bastide Saint-Louis, foi construído, dando ao conjunto o aspecto que ele tem até hoje.

Mas se Carcassona parece ainda hoje mostrar a gloria de Saint Louis, Rei da França, é porque ela foi completamente restaurada logo no século XIX, em 1853, quando o arquiteto Viollet le Duc conseguiu convencer Napoleão III de financiar as obras de reabilitação, uma obra gigantesca que demorou quase 60 anos mas já atraiu 50.000 turistas em 1913! Agora as ruas estreitas da cidadela, as salas abertas para as visitas (sendo a mais procurada a Camera Rotunda e suas pinturas murais), e a basílica romana e gótica com seus espetaculares vitrais são lotadas de visitantes durante o dia. Mas, a noite,  são exclusivas dos 35 moradores e dos hospedes dos dois hotéis que ficam dentro da cidade fortificada, o MGallery Hotel de la Cité e o Best Western Le Donjon.

A Praça Carnot e a Fonte de Neptuno

Atravessando o Rio Aude, a antiga Bastide Saint Louis é hoje o centro da cidade, com suas ruas herdadas do século XIV vibrando de vida e de cultura. Feiras livres, pequenos empórios, lojas inesperadas, livrarias e terraços de cafés acolhedores são paradas obrigatórias depois de uma visita do Museu das Belas Artes, ou de um passeio nas margens do Canal do Midi. E se Carcassona têm dois restaurantes gastronômicos estrelados pela Michelin (La table de Frank Putelat et le Domaine d’Auriac), vale a pena experimentar nos pequenos bares ou bistrôs as duas especialidades da região: o seu vinho, o “Cité de Carcassonne”, produzido nos 160 hectares de vinhedos que cercam a cidade, e seu “cassoulet”,  esse prato mítico da cozinha occitana que alguns fãs gostariam de inscrever como terceiro Patrimônio mundial de Carcassona.

Jean Philippe Pérol

O porto fluvial de Carcassona no Canal du Midi

A alma de Carcassona se encontra também lendo a historia dos cátaros

 

Lyon, o destino urbano 2016 dos World Travel Awards!

Competindo com uma lista de 15 “nominees” onde constava Londres, Berlin, Veneza ou Lisboa,  Lyon ganhou no ultimo dia 4 de Setembro o prestigioso titulo de melhor destino de “city break” da Europa na cerimonia dos  World Travel Awards, organizada esse ano na Sardenha. Antiga capital da Gália, orgulhosa da sua longa tradição de metrópole comerciante, conhecida no mundo inteiro pela qualidade da sua gastronomia, Lyon teve nos últimos dez anos um crescimento impressionante do seu turismo, já destacado pela mídia internacional, passando de  2 milhões de turistas a mais de 5,5 milhões – com 30% de turistas internacionais-, e sendo uma das cinco cidades francesas mais visitada pelos brasileiros.

Sobrados antigos no bairro da Croix Rousse

Sobrados antigos no bairro da Croix Rousse

As raízes desse sucesso podem ser procuradas em 1998, quando o velho  centro de Lyon foi inscrito no Patrimônio mundial pela UNESCO. A cidade iniciou então um programa de renovação dos monumentos históricos e do seu patrimônio arquitetural, desde o bairro de Fourvière com seu teatro romano até os “traboules”, sobrados coloridos da época do Renascimento. Dentro dos projetos mais espetaculares, destaca se os cais dos rios Rhone e Saone do bairro da Confluence com seu impressionante Museu . Mas alem dessas coleções – ou dos incontornáveis museus de arte moderno ou das belas artes -, Lyon mostra uma excepcional animação cultural com milhares de eventos, a começar pelo Festival das Luzes de Fourvière e seus 3 milhões de visitantes, a bienal da Dança, a bienal de Arte contemporâneo , ou as festas de “La Sucrière” que recebem as maiores estrelas da musica popular francesa.

O Bouchon de l’Opera, um típico “bouchon” de Lyon

A fama adquirida por Lyon deve muito a sua posição  de capital gastronômica da França. Não somente pelo Paul Bocuse, ou pelos 19 restaurantes com estrelas Michelin da região metropolitana, mas pelos seus 4000 restaurantes e especialmente os seus famosos “bouchons”. Lugares emblemáticos da alegria de bem viver e de bem comer dos moradores, os “bouchons”  são caracterizados pela sua decoração pitoresca com toalhas de quadradinhos brancos e vermelhos, o seu cardápio tradicional, seus vinhos regionais e seu serviço generoso e amigável vindo da época dos “canuts”, os tecelãs da seda.

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O sucesso de Lyon com a nomeação pelos World Travel Awards foi também um trabalho de marketing de destino com uma marca, OnlyLyon, reunindo todos os profissionais da cidade, da região, do aeroporto e até da universidade, que se juntaram para valorizar as novidades no urbanismo e na arte de viver tanto para os moradores que para os turistas internacionais. Um trabalho de lobbying intenso e de promoção internacional foi coordenado pela OnlyLyon e seu Diretor Geral, Francois Gaillard, com a ajuda de embaixadores da nova marca, personalidades da cultura ou dos esportes como a grande estrela do basquete francês Tony Parker.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Charlotte Herrero no diário on line francês Le Figaro 

O mercado Paul Bocuse

O mercado Paul Bocuse

 

 

Cartão postal da Île de Ré

Brasil à Francesa

DSCN8441Entre vinhedos e salinas, a Île de Ré, na região Charente-Maritime, frente à La Rochelle, oferece um charme ao qual não resisti! Pequenas ruas cheias de casas enflorescidas cada uma mais linda que outra. As leis de proteção ambiental e arquitetural protegeram o patrimônio e a natureza e reforçaram  o estilo de viver característico do litoral atlântico. Em agosto passado, paramos alguns dias na casa de amigos, localizada no chiquerimo vilarejo de Ars-en-Ré onde se escondem os mais discretos artistas parisienses e os políticos, longe de Saint-Tropez e do tumultuo da Côte d’Azur. Aqui, você troca a Ferrari para a Mehari, e vai na feira de rua comprar ostras de bicicleta.DSCN8464

A ilha foi fortificada no final do século 17 pelo famoso Vauban e os oito quilômetros de muralhas e o porto fortificado de Saint Martin, foram decretadas em 2008 “patrimônio mundial da humanidade”. O farol das baleias é…

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