O Taj Mahal, maravilha do mundo e do amor

O Taj Mahal, “cochicho de amor no ouvido da eternidade”

« Um cochicho de amor deixado no ouvido da eternidade, isso é o Taj Mahal, teu sonho de mármore, Shah Jahan ». Foi assim que o poeta falou desse mágico mausoléu que o então imperador mogol dedicou a sua esposa Aryumand Banu Begam, a Mumtaz Mahal. Considerado como uma das sete maravilhas do mundo moderno, o Taj Mahal deve ser descoberto com tempo e silêncio, os dois maiores luxos do visitante. Para quem chega em Agra depois de uma viagem cansativa, procurando os clichês tantas vezes reproduzidos, é melhor não se precipitar, e conhecer primeiro a cidade e sua outra grande atração, o Forte Vermelho, impressionante conjunto arquitetural tombado pela UNESCO que domina o rio Yamuna.

A porte do Forte Vermelho

Construído a partir de 1558 em cima de um antigo forte do século XI, o Forte Vermelho cobre uma área de 38 hectares onde o imperador Akbar mandou construir a fortaleza bem como um palácio digno da nova capital do Império. Erguido com a pedra arenita vermelha característica do Rajastão, o conjunto ganhou o nome de Forte Vermelho. Das muralhas da fortaleza, além da curva do rio carregado de barro amarelo, o visitante pode aproveitar a vista de uma pérola branca e rosa cercada de floresta verde. É o momento para descer das torres cor de sangue, subir no tuk tuk, e atravessar o parque para chegar próximo do Taj Mahal.

Visitantes indianos na grande porta do Taj Mahal

Nos arredores do mausoléu, têm mais de cem barracas de lembrancinhas, refrigerantes ou lanches para atender os milhares de turistas – na grande maioria indianos – que visitam o local, seja por motivos religiosos, históricos, ou para celebrar esse imenso amor. Na multidão, muçulmanos e hindus, homens vestidos de branco seguem mulheres de olhos negros cobertas de véus coloridos, famílias numerosas mostram suas crianças como símbolo de prosperidade enquanto anciãos vão esbanjando sabedoria. Todos participam ao encanto do lugar, mesmo quando o barulho da multidão é pouco a pouco substituído pelos cliques das cameras ou as batidas dos pés nos caminhos de mármore.

Uma das mesquitas do conjunto arquitetural

Uma das coisas mais bonitas do Taj é o espaço que o cerca e que prepara a emoção do visitante. Os prédios anexos são distantes o suficiente para não distrair a atenção do monumento principal, mas são bastantes numerosos e ricos para lembrar a grandeza do Império mogol: várias mesquitas, o túmulo de uma dama de companhia,  outros de principes imperiais. Caminhando entre o canal, as árvores e as cercas vivas, é importante se aproximar devagar do palácio que se ergue entre os minaretes, ainda idêntico a visão do seu criador, como se a perfeição da obra tivesse desanimado os seus sucessores de fazer qualquer mudança ou de adicionar nem que seja uma pedra.

Depois de quase cinco séculos, o Taj Mahal ainda segue intocado

Em todo o monumento, nada distrai o visitante da arquitetura. As paredes, as portas e os pisos são só mármores, alguns especialmente esculpidos, outros combinando cores como se fossem tapetes ou cortinas de seda que o visitante pode acariciar com a mesma sensualidade.  Se tiver a sorte de fazer a visita na época da lua cheia, vale a pena esperar o por do sol quando o mármore quente pega uma cor leitosa, e que os cheiros de tabaco, de lírios e de varas de São José  invadem o pátio. Mesmo se o domo cobra um túmulo, o Taj Mahal não inspira nenhuma tristeza, impressiona ao contrário pela perfeição das vidas que ele comemora. Talvez por isso, esse encontro com uma tal maravilha do mundo e do amor tem que ser preparada e merecida.

Jacques Baschieri

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo do Jacques Baschieri  na revista profissional on-line Mister Travel

Santa Sofia, a história e o turismo se juntando frente a política?

Erdogan reinaugurando Santa Sofia como mesquita

A notícia da reabertura de Santa Sofia como mesquita levantou uma onda de emoções no mundo inteiro. Não foi tanto pelo fato de ouvir as rezas nesse local que foi consagrado pelo Islã durante quase cinco séculos, até que Mustafa Kemal a transformou em museu. Chocante foi o discurso do Presidente da Turquia, Recep Erdogan, que colocou claramente o evento na sequência do confronto entre o Oriente e o Ocidente, querendo repetir o drama de 1453, o saque da cidade e o fim do último emperador romano Constantino XI.  A memória do gesto de Mehmet II entrando na basílica mostrava a vontade do Erdogan de lembrar o papel da Turquia na humilhação e na queda de Constantinopla, uma das datas mais importantes para a  história do mundo moderno.

Herdeira de três impérios, Istambul atrai 10 milhões de turistas por ano

Para quem já visitou Istambul, as impressões trazidas são no entanto completamente opostas. O fascínio da basílica como da própria cidade vem justamente das múltiplas culturas e das heranças dos três impérios – romano, bizantino e otomano- que surgem em cada um dos seus cantos, se sobrepondo sem se ocultar, se seguindo e se completando para mexer com o visitante. Assim, como museu, e antes de voltar a ser mesquita, Santa Sofia, a jóia de Justiniano, glória da igreja ortodoxa, fascinava pela audácia da arquitetura inspirada do Panteão de Roma, pelos  mosaicos e as pinturas cristãs, mas também pelos quatro minaretes escalando o céu do Bósforo, pelas caligrafias sagradas dos oito escudos pendurados nos pilares ou pelo sumptuoso mirhab.

Os mosaicos agora vedados nos dias de reza

Esse multiculturalismo não se encontra somente na  Santa Sofia. O viajante é  impressionado pela riqueza e o tamanho do palácio otomano de Topkapi, mas também pela igreja bizantina de Santa Irene que fica em um dos seus pátios, ou pelas cisternas que o abastecia em água e que foram construídas pelo imperador Justiniano. As imperdíveis muralhas que cercam a cidade histórica, legado do imperador romano Teodose, contam aos turistas mil anos de façanhas dos defensores que foram vencidos somente duas vezes, pelos cruzados e depois pelos turcos. E na outra margem do Chiffre de Ouro, os 30 metros da torre de Galata lembram as ligações especiais que os genoveses católicos mantiveram tanto com os bizantinos quanto com os otomanos.

A magia única da catedral mesquita de Cordoba

Todos os amantes dessa fascinante cidade esperam que a herança de Santa Sofia será preservada, que o acesso dos turistas será garantido, e que seus tesouros – especialmente os mosaicos e as pinturas ameaçados pelo rigorismo religioso- não serão de novo escondidos.  Se o destino de um monumento hoje turco só pode ser decidido pelas autoridades turcas, podemos esperar que  levarão em consideração os 10 milhões de visitantes que pesam na economia e na vida da cidade. O Presidente Erdogan poderia também decidir entrar na historia vendo Santa Sofia com o mesmo olhar que o imperador Carlos Quinto deu um dia na mesquita catedral de Cordoba, impedindo a sua destruição e deixando para a humanidade um grande exemplo de multiculturalismo.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inspirado de uma ideia de Jacques Baschieri na revista profissional on-line Mister Travel