Santa Sofia, a história e o turismo se juntando frente a política?

Erdogan reinaugurando Santa Sofia como mesquita

A notícia da reabertura de Santa Sofia como mesquita levantou uma onda de emoções no mundo inteiro. Não foi tanto pelo fato de ouvir as rezas nesse local que foi consagrado pelo Islã durante quase cinco séculos, até que Mustafa Kemal a transformou em museu. Chocante foi o discurso do Presidente da Turquia, Recep Erdogan, que colocou claramente o evento na sequência do confronto entre o Oriente e o Ocidente, querendo repetir o drama de 1453, o saque da cidade e o fim do último emperador romano Constantino XI.  A memória do gesto de Mehmet II entrando na basílica mostrava a vontade do Erdogan de lembrar o papel da Turquia na humilhação e na queda de Constantinopla, uma das datas mais importantes para a  história do mundo moderno.

Herdeira de três impérios, Istambul atrai 10 milhões de turistas por ano

Para quem já visitou Istambul, as impressões trazidas são no entanto completamente opostas. O fascínio da basílica como da própria cidade vem justamente das múltiplas culturas e das heranças dos três impérios – romano, bizantino e otomano- que surgem em cada um dos seus cantos, se sobrepondo sem se ocultar, se seguindo e se completando para mexer com o visitante. Assim, como museu, e antes de voltar a ser mesquita, Santa Sofia, a jóia de Justiniano, glória da igreja ortodoxa, fascinava pela audácia da arquitetura inspirada do Panteão de Roma, pelos  mosaicos e as pinturas cristãs, mas também pelos quatro minaretes escalando o céu do Bósforo, pelas caligrafias sagradas dos oito escudos pendurados nos pilares ou pelo sumptuoso mirhab.

Os mosaicos agora vedados nos dias de reza

Esse multiculturalismo não se encontra somente na  Santa Sofia. O viajante é  impressionado pela riqueza e o tamanho do palácio otomano de Topkapi, mas também pela igreja bizantina de Santa Irene que fica em um dos seus pátios, ou pelas cisternas que o abastecia em água e que foram construídas pelo imperador Justiniano. As imperdíveis muralhas que cercam a cidade histórica, legado do imperador romano Teodose, contam aos turistas mil anos de façanhas dos defensores que foram vencidos somente duas vezes, pelos cruzados e depois pelos turcos. E na outra margem do Chiffre de Ouro, os 30 metros da torre de Galata lembram as ligações especiais que os genoveses católicos mantiveram tanto com os bizantinos quanto com os otomanos.

A magia única da catedral mesquita de Cordoba

Todos os amantes dessa fascinante cidade esperam que a herança de Santa Sofia será preservada, que o acesso dos turistas será garantido, e que seus tesouros – especialmente os mosaicos e as pinturas ameaçados pelo rigorismo religioso- não serão de novo escondidos.  Se o destino de um monumento hoje turco só pode ser decidido pelas autoridades turcas, podemos esperar que  levarão em consideração os 10 milhões de visitantes que pesam na economia e na vida da cidade. O Presidente Erdogan poderia também decidir entrar na historia vendo Santa Sofia com o mesmo olhar que o imperador Carlos Quinto deu um dia na mesquita catedral de Cordoba, impedindo a sua destruição e deixando para a humanidade um grande exemplo de multiculturalismo.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inspirado de uma ideia de Jacques Baschieri na revista profissional on-line Mister Travel

Istambul e Turkish Airlines agora com um ambicioso aeroporto para 200 milhões de viajantes

Inaugurando o novo aeroporto de Istambul, o Presidente turco anunciou a ambição de chegar em dez anos ao primeiro lugar do pódio com 200 milhões de passageiros. Com uma capacidade atual de 90 milhões, esse “Ponto de encontro do mundo” deve logo chegar ao terceiro lugar do ranking dos aeroportos internacionais, atrás somente de Atlanta  (103,9 milhões ) e Pequim (95,7 milhões), na frente de Dubaï (88,2 milhões), Tóquio (85,4 milhões) e Los Angeles (84,5 milhões), e dos grandes concorrentes europeus de Londres Heathrow, Paris Charles de Gaulle ou Frankfurt. Com um investimento global de mais de 10 bilhões de USD, a Turquia mostrou que o projeto ia além do transporte aéreo, mas queria reforçar o papel da cidade herdeira de Constantinopla e dos seus três impérios, como ponto de encontro das rotas comerciais e turísticas entre a Europa, o Oriente Médio e a Ásia.

A torre de controle desenhada pela Pinafarina e inspirada da Tulipa otomana

Primeiro aeroporto construído numa nova localização (greenfield) nos últimos 20 anos, o aeroporto de Istambul impressiona pelos seus números, devendo chegar em 2028 com 76 km2 de superfície, 6 pistas, 4 terminais, 6 milhões de m3 de concreto, 53.000  m2 de lojas comerciais (o maior free shop do mundo), um investimento global de EUR$ 10,2 bilhões e … uma torre de controle inspirada da tulipa, a flor símbolo do império otomano. Por impressionantes que sejam, esses números acompanham o crescimento do trafego aéreo turco – 15,7% em 2018 – e as ambições da companhia nacional . Fundada em 1933, e com um crescimento acelerado nos últimos cinco anos, a Turkish Airlines deve transferir ainda esse ano a totalidade dos seus voos para o novo aeroporto, primeiro passo de um projeto que inclui chegar a 500 aviões e 120 milhões de passageiros em 2023.

Emirates, a companhia que segura o futuro do A 380

Com Istambul e a Turkish Airlines, a Air France ou a Lufthansa vão enfrentar um desafio ainda maior em relação a já problemática concorrência das companhias do Golfo. Tanto a Emirates, a Etihad e a Qatar Airways já tinham trunfos decisivos: hubs bem programados, serviços a bordo de grande qualidade, e aviões novos que lhes garantia a escolha dos viajantes, bem como pesos decisivos nas vendas de aviões da Boeing e mais ainda da Airbus que lhe asseguravam os apoios dos governos nas negociações de rotas. Mas, mesmo com os pesados (e bem sucedidos) investimentos de Abu Dhabi e mais ainda de Dubai para aumentar sua atratividade, a importância dos países da região como pólos turísticos depende muito das subvenções indiretas dos seus governos, e seus potenciais como mercados emissores ficam restritos pelas suas próprias demografias.

Antalya ja recebe mais de 10 milhões de turistas internacionais por ano

O hub de Istambul vai aproveitar do bom posicionamento da Turquia, em 2017 sexto destino turístico mundial com 37,6 milhões de visitantes, em forte crescimento nos últimos dois anos. Atraindo ao mesmo tempo russos e alemães, iranianos e israelenses, o turismo turco aproveita o apelo cultural de Istambul – uma das dez cidades mais visitadas no mundo – bem como a qualidade das praias de Antalya, para definir perspectivas de  42 milhões de turistas em 2018 e de 50 milhões em 2023. O novo aeroporto será também fortalecido pelo mercado emissor turco que deve ultrapassar em 2018 os 15 milhões de viajantes e chegar ao dobro nos próximos cinco anos. Juntando o potencial de mercado e de destino dos grandes países europeus com a dinâmica de hub e de companhias aérea dos países do golfo, a Turquia deve mesmo virar um dos maiores”players” do transporte aéreo internacional.

Jean-Philippe Pérol

Istambul guarda o fascinante acervo dos Romanos, dos Bizantinos e dos Otomanos