Em Estrasburgo, um surpreendente ” Château Vodou”

A antiga caixa d’agua que virou museu de vodu

Se os visitantes sempre souberam ver a religiosidade da Alsácia na impressionante catedral Nossa Senhora de Estrasburgo, uma surpreendente homenagem as religiões africanas se esconde a 500 metros da “Petite France”, perto da estação de trens. Dentro de uma antiga caixa d’agua, foi aí que um Alsaciano apaixonado, Marc Arbogast, então diretor das cervejarias Fisher e Adelshoffen, abriu em 2014 um “Musée Vodou” abrigando a maior coleção do gênero na Europa com mais de 1200 peças trazidas de viagens no Gana, no Togo, no Benim ou na Nigéria. Um mergulho num mundo mágico que se espalhou da Costa da Mina para o litoral brasileiro.

Interior do Museu do “Château Vodou”

Administrado pela Associação dos Amigos do Museu Vodu, o “Château Vodou”  quer dar aos visitantes uma nova visão dessa religião nascida do encontro dos cultos iorubá, fon e éwé, e cuja filosofia sofisticada foi muito tempo escondida pelas caricaturas encontradas na literatura e no cinema ocidental. Deixando do lado a expansão do “vodu” em Haiti, em Cuba, na Louisiana e no Brasil, o museu é focado nos cultos praticados na Africa Ocidental desde o século XVII, na auge do reinado fon do Daomé (atual Benim), incluindo também as suas peculiares influências dos monoteísmos vindo da Europa ou da Africa do Norte.

O Château Vodou apresenta exclusivamente peças, máscaras, roupas ou estátuas ligadas as praticas religiosas e as cerimônias marcando todas as fases da vida -nascimento, casamento, funerais- bem como culto dos ancestrais, adivinhação, medicina, e até bruxaria com as famosas bonequinhas coloridas furadas com agulhas.  Os curadores do museu tiveram um cuidado especial para mostrar a atualidade do “vodu” através de muitas peças da segunda metade do século XX, algumas delas – por exemplo os “asen”, pedras para túmulos com cruzes cristãs ou crescentes islámicos- mostrando novas tendências de sincretismo.

Os animais são muito presentes na mitologia “vodu”

O “vodu” tem raizes no dia a dia dos seus seguidores, as vezes com toques de humor. Para calar os seus adversários, um artista montou um bico de pato fechado com cadeado chamado de “Ferme-ta-gueule” (Cala a boca). Uma estátua chamada “bla-bocio” representa uma casal enfeitado com pérolas e búzios, sendo um remedio milagroso para resolver todos os seus problemas conjuguais. E, para espantar o mau olhar e proteger a coleção, Marc Arbogast encomendou para um pai de santo do Benim um Kelessi, único ídolo “vivo” do Museu, que recebe agua e peças de moeda dos visitantes. Mesmo em Estrasburgo, nunca se sabe….

O Kelessi, protetor do Museu

O Kelessi, único ídolo vivo e protetor do Museu

Alem da exposição permanente, o Museu apresenta exposições temporarias, atualmente “Magia religiosa e poderes dos bruxos”.

 

 

Nas tendências da era pós Covid, a Escócia aposta numa retomada sustentável

A retomada do turismo não se percebe somente nos pedidos e nas reservas que estão se acelerando nas agências e nas operadoras, mas também nas campanhas de promoção que os destinos mais dinâmicos já estão desenvolvendo nos seus mercados emissores. Muitas mensagens divulgadas no inicio da crise eram de cautela – “Nos vemos logo” do México, “A España espera”, “Stay home” da Eslovénia, “Fica em casa” do Equador, “É tempo de parar” do Portugal -. Outros destinos apostavam na esperança ou no sonho – o Peru com “Saúde, sonho e depois viagem”, ou a Suíça com “Sonhe agora e viagem mais tarde”-.

Agora estão começando as campanhas da era pós Covid, com o objetivo direto de incentivar as viagens e de  apoiar os profissionais. É hora de valorizar as novas tendências, de ir direto ao essencial – a França fala assim de #Whatreallymatters”, “O que importa mesmo”. Para os marqueteiros e os comunicantes, é preciso sensibilizar o viajante com a nova normalidade sanitária e ecológica, e ao mesmo tempo comunicar para ele a certeza que essa nova normalidade não vai lhe prejudicar, e vai deixar o turismo trazer alegria, prazer, bem estar e convivialidade social.

Uma das campanhas mais marcantes foi agora lançada pela Visit Scotland para revigorar o seu turismo, antes da crise um setor de 11,5 bilhões de libras de receitas e cerca de 9% dos empregos escoceses, hoje completamente arrasado. “Now is your time” (“Agora é seu momento “) destaca o turismo responsável, com novos lugares para explorar e atrações já plebiscitadas, e mais ainda com novas atitudes para aceitar. Focando no mercado britânico, prevista para toda temporada, a campanha vai ser declinada para cinco tipos de atividades, desde o turismo de proximidade até os “short breaks”, as reuniões de familia, o turismo de aventuras e o bem estar.

Para que a retomada seja conforme a seus objetivos de segurança e sustentabilidade, Visit Scotland publicou três videos incentivando os turistas a viajar de forma responsável. Varias informações e dicas são também disponíveis no site Web  para ajudar os visitantes a proteger os ecosistemas e a valorizar o patrimônio natural e humano. Um foco especial é feito para o camping – de motorhome ou de barracas-, com recomendações para fazer suas reservas, organizar o seu itinerário, respeitar a fauna e a flora, e aproveitar os contatos com os moradores e as comunidades locais respeitando o Scottish Outdoor Access Code.

Valorizando as boas práticas e os novos protocolos, a campanha “Now is your time” corresponde perfeitamente a nova normalidade que chegou para ficar tanto para os viajantes que para os profissionais. O turismo vai ter que se adaptar a novas práticas sociais, novos comportamentos, mais transparência, mais proteção e mais responsabilidade. Na hora de um turismo mais intenso e mais seletivo, a Visit Scotland  quer agora assegurar a visibilidade e a notoriedade da Escócia comunicando sobre essas novas tendências. “Now is Scotland time?”

Este artigo adaptado de um artigo original de Fanny Beaulieu Cormier na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

Em Nice, o pioneirismo no turismo virando patrimônio da UNESCO

A orla marítima da cidade é o coração do projeto

Na lista dos 34 sítios promovidos pela UNESCO no último dia 27 de Julho, constam não somente o jardim Roberto Burle Marx do Rio de Janeiro, legado do paisagista brasileiro que criou o conceito de jardim tropical moderno, mas  também três maravilhas culturais da França. Viraram assim patrimônio da humanidade o farol de Cordouan ,- construído perto de Bordeaux, na foz do rio Gironde, no final do século XVIII-, a cidade termal de Vichy,- com seus 2000 anos de termalismo e seu urbanismo misturando Segundo Império e Art Nouveau-, e parte da área urbana de Nice, premiada pela sua arquitetura de estância de inverno que nasceu aproveitando o clima e as paisagens excepcionais da Riviera.

A igreja Saint Nicolas num cartão postal de 1932

Trabalhando há 13 anos sobre essa nomeação, o prefeito de Nice, Christian Estrosi, comemorou um evento excepcional, único na historia de “Nissa la bella” pela sua repercussão internacional. Extremamente detalhada, a decisão da UNESCO não se refere a toda cidade, mas exclusivamente as áreas urbanizadas desde o final do século XVIII, bairros onde os primeiros turistas deixaram um rico patrimônio. Eram aristocratas ingleses ou russos, milionários  austríacos ou americanos, que seguiam os passos da Imperatriz Josephine, dos tsars da Russia e da Rainha Vitória, construindo palácios, casas, hotéis ou igrejas, com uma arquitetura cosmopolita original.

O Castelo do inglês (ou Castelo cor de rosa), folia arquitetural de 1856

Icomos, o conselho internacional dos monumentos e sítios que analisou o dossiê, deu a maior importância a definição do perímetro escolhido – que devia ser estritamente ligado ao desenvolvimento turístico da cidade-, e aos esforços bem sucedidos pela sua preservação – garantido pelos compromissos da prefeitura nesse sentido. Foi necessário fortes apoios dos países participando do voto – especialmente da Russia, muito ligado a essa página da história de Nice– para chegar ao compromisso final, a escolha de uma área de 522 hectares de património mundial cercada de 4.243 hectares de áreas protegendo a coerência arquitetural e urbanística do conjunto.

A beleza natural do parc da Colline du Château

Para inscrever Nice na lista do Patrimônio mundial, a UNESCO destacou seu pioneirismo e seus atrativos específicos. A cidade aproveita uma paisagem excepcional e um clima ensolarado. O urbanismo  aproveita harmoniosamente a localização entre mar e montanhas, com avenidas e passeios concebido desde 1831 para atrair os visitantes. Nice foi pioneira em “vegetalizar” suas ruas, plantando arvores e palmeiras, bem como um imenso jardim botânico. O patrimônio arquitetural impressiona, tanto pelas origens italianas, russas, ou inglesas, que pela diversidade de estilos, neo-classicismo, Art Nouveau, Art Déco ou modernismo, que esbanjam um peculiar arte de viver, um exotismo e um bem estar que sempre fascinou turistas e artistas do mundo inteiro.

A praça Massena, o “filho querido da vitória”

A área inscrita pela UNESCO inclui desde uma parte da cidade medieval, com o Cours Sleya, os Ponchettes, a Opera, e toda a orla até a icônica Promenade des Anglais, e o Cours Albert 1ero. Não podia deixar de fora a famosa Place Massena – nome do general mais querido do Napoleão, o “filho querido da Vitória”. E pela outrora Avenida da Vitória, hoje chamada de Jean Medecin, chega-se a Basílica Nossa Senhora da Assunção e, depois de entrar na Avenida Thiers, a estacão de trem e a Basílica russa de Saint Nicolas. A UNESCO aceitou também de incluir alguns pontos mais periféricos como o bairro de Cimiez, suas arenas romanas e seu (ex) hotel Excelsior Regina que hospedou três vezes a Rainha Vitória.

Na praça Garibaldi, a estátua do herói dos dois mundo

Gauchos e catarinenses  lamentarão (juntos com uruguaios, italianos, franceses e amantes da Liberdade do mundo inteiro) que a praça Garibaldi não foi inclusa nessa área. Mesmo com muita insistência da delegação francesa, os especialistas alegaram que, mesmo batizada do nome do herói dos dois mundos, a praça foi inaugurada em 1773, seja antes da era do turismo de estância de inverno que a UNESCO premiou. O prefeito prometeu porem que vai tentar uma redefinição do perímetro premiado até o próximo mês de dezembro. Candidata a capital europeia da cultura em 2028, Nice terá ainda muitas ocasiões de prestigiar o mais famoso dos seus filhos.

Jean-Philippe Pérol

Turismo na Amazônia é mesmo para crianças?

Árvores gigantes, igapós, mistérios e perigos no imaginário amazônico

“- Vão viajar nesse feriado?

– Vamos sim, viagem de barco com a nossa filha!

– Que bom! E vão para onde?

– Vamos para Amazônia.

– Com criança??? Mas é um perigo, tantos insetos, bichos, calor… E de barco ainda! Nem pensar!”

Entrosamento, compreensão e diversidade ajudam o sucesso da expedição

Quantas vezes ouvimos esses comentários falando com amigos sobre as maravilhosas viagens que podem ser organizadas no Rio Negro ou no Tapajós! Comentários tão distantes de uma realidade acolhedora, vibrante e instrutiva quando se tratar de viagens bem preparadas com profissionais da região. E quantas crianças voltaram de lá com experiências de natureza e de vida inesquecíveis depois de aproveitar as praias e as águas, de passear nas matas, de ver pássaros, macacos ou jacarés e de ter emocionantes momentos de compartilhamentos com outras crianças brasileiras nas comunidades caboclas ou indígenas.

O Jacaré Açú pronto para zarpar do Mirante do Gavião

Para uma menina de 5 anos na hora de zarpar do Mirante do Gavião em Nova Airão, a instalação no barco Jacaré Açu ,traz os primeiros momentos de deslumbramento. Na cabine, com sua cama dupla, sua janela panorâmica, suas paredes de madeira bruta e seu kit de bem-vinda, a preocupação sanitária combina com a promoção do artesanato da região. Na sala de jantar, com uma grande cesta cheias de balas, de chocolates e de pirulitos. No salão de jogo um imenso sofá e um telão de televisão parecem esperar a criançada. No deck é possível correr  da popa para proa, ou de bombordo a estibordo para encontrar as mais bonitas vistas sobre a cidade, o Rio Negro ou as Anavilhanas.

O bicho pau fascina pela sua fragilidade

Na primeira parada está sendo construído o hotel Madadá e os quatro quilômetros da trilha das Cavernas são o primeiro teste. As crianças fazem questão de não serem carregadas, e seguem com atenção às instruções de segurança: não tocar em nada, não sair da trilha, não fazer barulho e sempre andar perto de um adulto. Cada uma das grutas é uma descoberta e os morcegos sobrevoando o grupo só assustam alguns adultos. Se a falta de concentração é difícil para eles na procura de macacos na copa das árvores, os  pequenos são muito interessados pelas formigas, caranguejeiras, borboletas, bicho-paú ou lagartas, mais fácil de observar durante todo o percurso.

A magia do contato com os animais

Subindo o Rio Jauaperí, a vida selvagem não falta. Botos tucuxis ou cor de rosa  são visto desde o deck, os passeios nos igapós são ocasiões de ver macacos-prego ou macacos-aranha, tucános, araras, papagaios e gaviões. À noite jacarés e bacuraus são momentos de emoção, bem como os gritos dos guaribas, dos sapos e das ariranhas. Com a tranquilidade trazida pela experiência dos guias de selva e a proximidade dos pais, a curiosidade das crianças supera muito o possível medo. Assim, durante a única noite num acampamento montado na selva do Rio Xixuaú, escuta-se uma criança deitada na rede perguntando para o pai: “Papai, vamos pegar a lanterna e ir na mata procurar uma onça?”….

As delicias de um banho seguro nas águas do Rio Negro

Quentes, tranquilas, com muito areia e poucos bichos, as águas negras são perfeitas para nadar e mergulhar. Se as praias brancas, virgens e infinitas só aparecem a partir de agosto tanto no Rio Negro que no Jauaperí, é possível tomar banho o ano inteiro com as devidas precauções, escolhendo no rio principal ou nos igarapés, um lugar livre de galhos submersos, de lodo, de capim ou da presença de animais. Pulando do deck ou agarrados numa boia, nadando ou remando numa canoa, os rios amazônicos trazem às crianças e às famílias muitos momentos de alegria.

O intercãmbio com as comunidades é uma experiência única

Para crianças e adultos as maiores emoções numa viagem para Amazonia são os encontros. Tendo viajado com a mãe no mundo inteiro, a filha de uma das maiores figuras do trade brasileiro fala ainda dez anos depois dos momentos passados se pintando de urucú com uma menina que a levou na sua casa de palafitas: “foi a melhor experiencia de viagem da minha vida”. Brincando com crianças nas comunidades visitadas – essa vez de Xiparinã-,  conhecendo as suas moradias e modo de viver, compartilhando jogos ou atividades, a pequena viajante levou para São Paulo não somente emoções e alegrias, mas também uma visão muito melhor da realidade e do futuro do Brasil. Sim, turismo na Amazônia é mesmo para crianças.

Jean-Philippe Pérol

Olhar juntos as águas do Rio Negro ou do Tapajos, sempre um grande momento para pais e filhos

Sucata ou palácio flutuante, qual destino para o último porta avião brasileiro?

Bilionários inaugurando mais uma vez o turismo espacial?

Dennis Tito, o primeiro turista espacial da história

Em 2002, na abertura da primeira edição do ILTM de Cannes, o Diretor do salão destacou um dos expositores que , segundo ele, mostra o caminho do turismo do futuro: era uma operadora que oferecia por uns 20 milhões de USD o primeiro passeio no espaço. Co-presidindo o evento, o então diretor geral da Maison de la France, fez questão de lembrar que era sem dúvidas um acontecimento, mas que com certeza os viajantes que aceitavam de pagar um tal preço par uma experiência de alguns minutos não representavam mais que uma micro-niche que não ia acrescentar muitas receitas ou muitos empregos ao desenvolvimento sustentável do turismo internacional.

Guerra de egos ou nova era do turismo mundial?

Quase vinte anos e dez clientes depois, o turismo espacial volta a ser noticia, essa vez como competição de ego três bilionários mediatizados, todos com grandes investimentos nos transportes para o espaço: Egon Musk da Tesla- que teria sempre sonhar em abrir a colonização da planeta Mars mas já conseguiu para SpaceX fabuloso contratos com a NASA-, Richard Branson da Virgin – interessado há anos pelas viagens supersônicas e as ascensões em balões através da Virgin Galactic-, e Steff Bezos da Amazon – sonhando desde 2000 com colônias espaciais flutuantes construídas e lançadas pela sua empresa especializada Blue Origin.

A largada do VSS Unity desde seu lançador

Se nenhum dos três poderá alegar ser o primeiro turista espacial ( Dennis Tito no 21 de Abril 2001, e depois dele uns dez milionários pagaram nos últimos vinte anos uns 20 milhões de USD para viajar a bordo de foguetes Soyuz), Richard Branson foi mesmo o primeiro a viajar a bordo do seu proprio navio espacial. No dia 11 de julho, o excêntrico empresário sai na frente com três outros passageiros e dois pilotos no VSS Unity, levado pelo lançador VSS Eve. Depois da largada, subiu até 90 quilômetros de altura -10 quilômetros acima do limite do espaço definido pela Aeronáutica estado-unidense – e foi pousar na base de Spaceport no Novo México onde nada menos que Elon Musk esperava para reservar uma vaga num próximo voo.

No deserto do Texas, o Blue Origin de Steff Bezos

Jeff Bezos saiu nove dias mais tarde, dia 20 de julho, com o seu foguete New Shepard, atingiu 107 quilômetros de altura, e depois de dez minutos voltou abrindo os três paraquedas da capsula para pousar no deserto do Texas. Se não foi na dianteira, Jeff levou vantagem sobre o seu rival. Em primeiro lugar ultrapassou a barreira do espaço, 100 quilômetros de altura segundo as convenções internacionais. Em segundo caprichou no conteúdo emocional, com a presencia a bordo de vários objetos carregados de símbolos fortes: colar da sua mãe, pedaço do avião dos irmãos Wright, medalhão de Montgolfier, e convite a pioneira da aviação americana Wally Funk, hoje com 82 anos.

Olivier Daemen junto com Jeff Bezos, Mark Bezos, e Wally Funk

Jeff Bezos superou também Richard Branson em levar um passageiro pagante – o montante exato, superior a 20 milhões de USD, não foi porem divulgado. O feliz escolhido foi um neerlandês de 20 anos, Oliver Daemen, que foi presenteado pelo pai, dono do hedge fund Somerset Capitol Partners. Oliver tinha chegado em segundo lugar num leilão disputadíssimo de 75 pessoas, mas o vencedor teve que adiar a viagem e seguirá nos outros voos programados, dois em 2021 e vários em 2022. Nessas previsões de turistas espaciais, a Blue Origin tem ambições mais modestas que a Virgin Atlantic que já vendeu mais de 600 passagens de USD 250.000 cada e está programando 400 voos comerciais nos próximos anos.

O impacto do turismo espacial já preocupa os ambientalistas

Mesmo se os três bilionários insistam na dimensão sustentável e social desses projetos, as reações da imprensa bem como das mídias sociais foram pelo menos cautelosas, pouco jornalistas ou influenciadores sendo convencidos que os bilhões gastos nesses voos ajudaram ou ajudarão a encontrar soluções as crises de curto ou longo prazo, e muitos deles achando que essas viagens não se encaixa nas novas tendencias de sustentabilidade e de responsabilidade social. Para os profissionais, mesmo nas hipóteses mais favoráveis de algumas centenas de passageiros nos próximos anos, o turismo espacial,  continua pertencendo ao distante futuro.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Na hora do underturismo, Serge Trigano aplaudindo o turismo de massa

Serge Trigano, fundador do grupo Mama Shelter

Filho do lendário Gilbert Trigano, e fundador do grupo Mama Shelter, o Serge Trigano publicou no Journal du Dimanche da França uma tribuna muito ousada sobre o tão criticado turismo de massa. “A pandemia, além de dramas e sofrimentos, mexeu com a vida e o trabalho de todos. Vamos sair das cidades grandes, privilegiar o teletrabalho, tentar deixar um mundo melhor para nossos filhos. Essas e outras tendências são compromissos que só podemos aplaudir. Mas ao mesmo tempo chegaram umas ideias negativas sobre o turismo de massa. Ele acabaria com as paisagens, destruiria o meio ambiente, prejudicaria as populações locais e ameaçaria os empregos turísticos”.

O Serge Trigano lembrou que nos anos 1960, as elites gozavam dos turistas americanos que visitavam a Europa correndo, chegando em Londres na segunda-feira, passando por Paris na quarta, em Roma na sexta e voltando no sábado para os Estados Unidos. Mas a nova geração já aprendeu a aproveitar suas viagens e a explorar as belezas dos destinos escolhidos. Por que razão deveria ser dada aos únicos clientes dos palaces Gritti, Danieli ou Cipriani a exclusividade das belezas de Veneza e da magia da Sereníssima, discriminando os grupos populares? Não se deve esquecer que esses visitantes, pertencendo as classes emergentes do mundo inteiro, têm também todo direito de fazer selfies com as pombas da Praça São Marcos.

É claro, segundo o Sergio, que as consequências negativas dos excessos do “overturismo” devem ser combatidas, e já foram alcançados resultados neste sentido. A Airbus está trabalhando no não poluente avião do futuro. As companhias de cruzeiros – seguindo o exemplo da Compagnie du Ponant – estão reduzindo de forma drástica o seu impacto no meio ambiente. Os grandes destinos turísticos estão se organizando – de Veneza a Paris e Amsterdã, passando por Barcelona ou Phuket – para limitar os exageros de alguns momentos de folia.

Viva o turismo, então, que oferece a oportunidade de visitar o outro sem dominá-lo, sem procurar invadi-lo ou submete-lo. O turismo é o contrário da guerra, e já por isso merece ser protegido. Viva o turismo então, incluindo o mais elitista – porque não?-, mas viva também o turismo popular, aquele que é chamado de forma depreciativa o turismo de massa.  Viva também esses milhões de turistas e de veranistas felizes que desfilam pacificamente em nossas cidades, de celulares na mão para tirar fotos.

Esse artigo foi traduzido de uma coluna original de Serge Trigano no jornal francês  on-line Le Journal du Dimanche

La Samaritaine, da humildade do Evangelho a audácia do templo do luxo

O Hotel La Ponche, o espírito de Saint Tropez


A pequena mas muito badalada praia da La Ponche

Em Saint Tropez, frente a pequena praia do mesmo nome, o lendário hotel La Ponche está reabrindo depois de oito meses de obras. O La Ponche é um dos hotéis icônicos da Riviera francesa, onde os artistas chegaram já nos anos 50, antes e depois de ter hospedado a equipe do filme « E Deus criou a mulher». Passaram ai muitas vedetes das artes, da política e do cinema: Boris Vian, Michel Piccoli, Pierre Brasseur, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pompidou, Kenzo, Jack Nicholson, Catherine Deneuve. Vários casais famosos se esconderam nos seus quartos: Brigitte Bardot e Gunter Sachs, Bernard Buffet e  Annabel, Romy Schneider e Daniel Biasini.

No lobby, a Provence, o verão, o farniente e os anos 60

Renovar uma lenda foi o desafio imposto a Fabrizio Casiraghi, o arquiteto responsável das obras e da nova decoração do hotel. Ele foi buscar nos brechós e nos antiquários objetos, poltronas, luminárias, o Sul, a Dolce Vita, os anos 60, o mar e as férias, para criar um ambiente misturando a Provence e o verão. Nos 21 quartos (incluindo 5 suites), as paredes são brancas e as madeiras de nogueira preta. Os pisos são de terracota e nas paredes são pendurados quadros de Cordier e litografias originais de Picasso. O quarto excepcional é o numero 8, aquele onde sempre se hospedavam a Romy Schneider e o Daniel Biasini. O terraço é do mesmo tamanho que o quarto e domina os telhados de Saint Tropez, a cidadela, a torre da igreja e o mar.

Do restaurante, uma vista mágica para o Mar Mediterráneo

Com somente  29 anos, o chef Thomas Danigo, calmo e rigoroso, viajou no mundo inteiro, trabalhou em Chartres e Paris, mas voltou para propor um cardápio mediterrâneo valorizando os legumes da região, os peixes e as vibrações cotidianas da feira livre. « Sem frescuras e sem exageros, uma cozinha virada para os produtos e os sabores regionais ». Oferece gaspacho de ervilhas frescas, lagosta grelhada, a famosa “bouillabaisse”, pratos do dia no forno de carvão e sobremesas trabalhadas com frutas da estação. Para o almoço, são servidos no terraço os pratos tradicionais da casa, enquanto o cardápio valorise na hora do jantar as criações pessoais do chef num ambiente mas sofisticado.

O novo Bar Saint Germain desenhado pelo do Fabrizio Casiraghi

Para sentir o espirito de um hotel, o melhor lugar é sem dúvidas o bar. A história – e o sucesso- do hotel começaram no Saint-Germain-des-Prés-La Ponche, ponto de encontro de pescadores e de artistas, cuja renovação foi muito caprichada pelo Fabrizio Casiraghi. Levou uma parede de espelhos atrás do bar, instalou umas luminárias para valorizar as garrafas, cobriu o teto com nogueira preta, e escolheu um piso de azulejos pretos e brancos. A lareira, as mesas de ferro forjado e as poltronas criaram um ambiente aconchegante para aproveitar a qualquer hora do dia ou da noite um surpreendente cardápio de cocktails e de fingerfood, um ambiente digno do passado do La Ponche e da Dolce Vita.

No porto de Saint Tropez, o luxo e a simplicidade

A nova diretora, Audrey Brémond, é uma “tropezienne” da gema que já trabalhou no grupo Oetker. Teve experiências bem sucedidas em Courchevel, em Vence e nos hotéis Monsieur, « boutiques-hôtels » parisienses pertencendo a empresa HN6 ACTIVE, hoje também proprietária do La Ponche. Mesmo se tomou a decisão de sair da cadeia Esprit de France, a empresa liderada pelo empresário Nicolas Saltiel quer dar uma nova vida para o La Ponche, reencontrar o borbulho das origens e o ambiente dos anos 60, o hino ao sol, a simplicidade, ao Mediterrâneo, ultrapassar a simple noção de hospedagem para liberar a dimensão cultural de uma experiência peculiar com o espirito de Saint Tropez.

Jean-Philippe Pérol

“E Deus criou a mulher”, inicio do namoro da Brigitte Bardot com Saint Tropez

 

Viagens de negócios e video-conferências, qual futuro depois da retomada?

Montpellier, cidade sede da Chaire Pegase de pesquisa turística

Representando 25% dos viajantes e gastando mundialmente USD 1.400 bilhões por ano, os homens e as mulheres de negócios contribuíam por 55 à 75% das receitas das companhias aéreas. Com a crise do Covid, e a redução dos riscos e gastos das empresas, essas viagens despencaram de mais de 70%, numa clara ameaça a economia do setor. Enquanto a retomada parece por enquanto limitada ao lazer, e a video-conferencia instalada para ficar, a Chaire Pégase, centro de pesquisas da universidade de turismo de Montpellier na França, publicou um estudo mostrando as tendências e as consequências dessa competição entre o video e o presencial .

Video-conferências entraram para ficar

Antes da crise, 35% das empresas já tinham começado a utilizar as video-conferências, para reduzir seus custos financeiros, humanos e ambientais. Mas a tendência se acelerou. Nos últimos 15 meses, a maioria das viagens de negócios foram canceladas, seja por necessidade de redução de custos (31%), por precaução sanitária (71%), impossibilidade de viajar (55%), ou vontade de contribuir ao meio ambiente (22%). Em 53% dos casos, essas viagens foram substituídas por video-conferências, os participantes elogiando essa evolução por ser menos cansativa (65%), e permitindo um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (66%). Mas a substituição tem seus inconvenientes, 82% dos interessados são saturados com as video-conferências, a falta de comunicação com os colegas (73%), a perda de oportunidades para atingir suas metas (64%), e as dificuldades de ganho de novos clientes (60%).

As grandes feiras são um dos setores mais ameaçados

A pesquisa da Chaire Pegase mostra porém uma grande diversidade de opiniões e de comportamentos em função dos tipos de viagens, do setor econômico e do tamanho da empresa. Para os entrevistados, as viagens ligados a intervenções técnicas (59%), a prospeção comercial e as vendas (59%), bem como ao relacionamento com os clientes  (50%) serão os mas rápidos a recomeçar. Devem seguir depois as reuniões internas nas filiais pertencendo a um mesmo grupo. Os eventos profissionais, feiras, salões, conferências (27%), e os incentivos (30%) voltarão somente num segundo tempo, bem como os eventos ligados a formação (21%) que podem ser realizados em formatos híbridos.

Reuniões internos são as mais propicias a video-conferencias

A retomada das viagens de negócios depende também dos setores de atividades das empresas. Segundo a McKinsey, as construtoras, as imobiliárias, as farmacêuticas devem ser as primeiras a liberar as viagens enquanto os setores energético e têxtil devem demorar mais, bem como os serviços e a pesquisa científica que terão mais facilidade para seguir nas video-conferencias. O tamanho das empresas sera um outro fator diferenciador. Com mais recursos, as grandes empresas vão poder reiniciar suas viagens de negócios logo depois da crise, enquanto as pequenas estruturas terão que reconstruir os seus caixas antes de pensar em investir mais que o mínimo indispensável

40% das viagens de negócios substituídas por video-conferencias?

As video-conferencias mudaram  mesmo a economia do setor. No curto prazo, 70% dos entrevistados pensam viajar menos até o final da crise, e 42% acham que essa situação vai perdurar. A pesquisa da Chaire Pégase prevê no logo prazo uma queda 40% das viagens de negócios enquanto o turismo de lazer vai recuperar a partir de 2024 as previsões de crescimento anterior a crise. Uma boa noticia para as companhias low cost, mas uma forte preocupação para as companhias aéreas tradicionais como Air France ou Lufthansa que construíram seus modelos econômicos em cima desses viajantes. No mundo pós Covid, terão não somente de repensar os serviços oferecidos aos homens de negócio  com  uma melhor segmentação, mas também dar uma atenção muito maior aos turistas de lazer que o sucesso das video-conferencias não deveria atingir.

Jean-Philippe Pérol

%d blogueiros gostam disto: