Nas Missões, a comemoração da maior vitoria naval da história do Brasil

O som e luz de São Miguel conta a epopeia dos guaranis

Na região dos Sete Povos das Missões foram escritas muitas páginas gloriosas da história do Brasil que os moradores se orgulham até hoje de mostrar aos visitantes. O dia 11 de março de 2025 é o dia dos 384 anos da vitória missionária na Batalha de M’Bororé, ocorrida em 1641, onde 11.000 pessoas se embateram, formando a “maior batalha naval da América”. Desde 1629 os Bandeirantes atacavam as Missões em busca de mão de obra escrava nativa para suas lavouras de São Paulo e Rio de Janeiro. Durante este período os paulistas foram responsáveis pelo deslocamento de 30 reduções, 18 delas no Rio Grande do Sul, e pela morte de inúmeros nativos.

Armado e liderado pelos jesuitas, o exercito guarani mostrou sua valentia

Em 1638, com a intenção de resistir, Padres Jesuítas se esforçaram para obter armas de fogo. Com o consentimento do governador e da Real Audiência de Buenos Aires, militares espanhóis foram enviados para organizar militarmente os Guaranis. Na redução dos Apóstolos de Caazapa-Guaçú, ao lado do rio Ijuizinho, frente a indios dispostos a combater, um primeiro encontro fez com que os bandeirantes paulistas fugissem e alguns foram presos. A conclusão dos Padres da Companhia de Jesus foi que os Guaranis podiam mesmo ser organizados em eficientes milícias militares. As bandeiras eram vulneráveis, poderiam ser enfrentadas e até superadas num campo de batalha. Em 1639, depois desse sucesso e cansados de serem atacados pelos Bandeirantes, os jesuitas prepararam-se para combater. O Padre Montoya foi a Madri e conseguiu enfim a autorização do Rei para uso de armas de fogo, bem como a compra de 300 fuzis e de um canhão.

Quadrinhos contam a surpresa dos bandeirantes e dos seus aliados tupis frente a frota dos guaranis

Enfurecidos com a derrota de Caazapa-Guaçú, os Bandeirantes resolveram então fazer um grande ataque as Missões, que neste momento estavam do outro lado do território, onde hoje é Argentina. A Batalha de M’Bororé foi a maior batalha naval da América e localizou-se no rio Uruguai, entre o arroio Acaraguá (Argentina) e o território onde hoje estão os municípios de Porto Vera Cruz (Brasil) e de Panambi (Argentina). Cerca de 6800 pessoas das forças Bandeirantes, entre mamelucos e tupis, atacaram as reduções. A força jesuítica-guarani se preparou de forma decisiva. 4200 guaranis receberam instrução militar dos Irmãos e ex-militares João Cardenas, Antônio Bernal e Domingos de Torres. As operações foram dirigidas pelo Padre Romero. As forças defensoras eram dirigidas pelos Padres Cristovão Altamirano, Pedro Mola, João de Porras, José Domenech, Miguel Gomez e Domingo Suarez.

O Capitão General foi Nicolau Nenguirú (cacique da redução de Concepción) auxiliado pelos capitães Inácio Abiarú, (cacique da redução de Nossa Senhora de Assunção do Acaraguá), Francisco Mbayroba (Cacique de São Nicolau), e o Cacique Arazay de San Javier. A batalha ocorreu dentro do rio Uruguai por 3 dias seguido e depois os ataques continuaram por terra. Os cerca de 250 sobreviventes das forças Bandeirantes chegaram a São Paulo somente dois anos depois. A vitória dos missionários foi tão importante que as forças Bandeirantes jamais retornaram a atacar as reduções, mudando sua política expansionista para a busca das minas de ouro e diamante nas Minas Gerais e no oeste brasileiro.

Na entrada de São Miguel, a cruz e o grito do Caminho das Missões

Visitar as Missões, e conhecer esta e outras histórias do início da cristianização do Brasil, é um verdadeiro mergulho nesse Patrimônio Cultural Mundial único que é a encantadora Ruína Jesuítica-Guarani de São Miguel. O visitante pode seguir o Caminho das Missões, visitar outras pontos chaves do patrimônio nacional, incluído museus e casas de cultura, e, para quem procura espiritualidade, rezar no Santuário do Caaró, local que marca a morte de 3 Santos da igreja e que tradicionalmente ocorrem milagres de curas, especialmente de câncer. Em toda a região dos Sete Povos das Missões, as marcas da vitória de M’Bororé contribuem para a cultura e o orgulho dos moradores.

José Roberto de Oliveira

Maiores informações se pode obter nos sites www.pousadadasmissoes.com.br  www.caminhodasmissoes.com.br

 

O turismo islandês inventando os seus “Big Five”

Os “Big Five”, no século XIX os 5 animais mais perigosos para os caçadores

Referência distante as grandes caçadas do século XIX, vários países africanos colocam os “Big Five” no coração da sua promoção turística e dos seus safaris fotográficos. As grandes reservas do Botswana, do Quênia, da Namibia, da África do Sul, da Tanzania ou do Zimbabwe se orgulham assim de garantir a seus visitantes encontros seguros com os outrora temidos  leões, leopardos, rinocerontes, búfalos e elefantes. Mas no dia 3 de Março, dia Mundial da vida selvagem, a Islândia mostrou mais uma vez sua criatividade inventando para esse conceito de “Big Five” uma nova vida perto do Circulo Polar Ártico.

As auroras boreais realcem todas as atividades turísticas do pais

Já famosa pelas suas cachoeiras, suas auroras boreais e seus vulcões, a Islândia abriga também uma biodiversidade exclusiva que ela escolheu agora de valorizar na sua promoção turística. Descartando as especies invasivos – inclusive os seus simpáticos cavalos já vedetes de outras campanhas de comunicação-, Visit Islandia focou essa vez cinco animais, suficientemente raros, mas que podem ser vistos em excursões bem planejadas. Foram assim escolhidos como “Big Five” islandeses  a Baleia-jubarte, o Fradinho ou Papagaio-do-mar, o Falcão-gerifalte, a Raposa do ártico e a Rena selvagem.

A baleia jubarte é o mais impressionante dos Big Five da Islândia 

A Islândia é de fato considerada como um dos melhores lugares do mundo para observações de baleias. Com águas ricas em krill, a ilha tem varias baias onde podem ser observadas até 24 tipos de mamíferos marinhos como orca, cachalote, rorqual comum, golfim, baleia azul e baleia jubarte.  Para esta última, a temporada vai de abril até setembro, com excursões organizadas desde sete portos do litoral norte.

O papagaio do mar, um dos xodós dos ornitólogas do mundo inteiro

Milhares de ornitólogas amadores estão visitando cada ano a Islândia para observar esses coloridos pássaros que fazem seus ninhos de março a agosto em barrancos de varias regiões do pais. Perto da capital, as ilhas Akurey e Lundey, as vezes chamadas de « ilhas dos papagaios do mar  », são uma excelente opção, mas a maior colonia fica nas ilhas Vestmann, no sul da ilha, seguindo o famoso roadtrip da Estrada do circulo de ouro.  E para quem procura uma experiência mais original, a gruta de Skrúðshellir, na ilha de Skrúður accueille tem uma colonia de  300 000 animais cujos ninhos são alinhados no proprio chão da caverna.

O falcão da Islândia foi numa época uma exclusividade real

Protegidos pelos reis da Dinamarca, destacado no brazão da então colónia islandesa,  o falcão -gerifalto merece mesmo ser um dos “Big Five ” do país.  É o maior falcão do mundo, a fêmea – maior que o macho-  podendo ter até 1,6 metro de envergadura e pesar perto de 2 quilos. Ainda hoje um dos símbolos da Islândia, ele pode ser encontrado na região Nordeste, perto do lago Mývatn, ou nos arredores da Dettifoss, a mais poderosa cachoeira da Europa.

A raposa ártica é branca no inverno e cinza no verão

Único mamífero  nativo da Islândia, perfeitamente adaptada as duríssimas condições do inverno boreal, a raposa ártica é um dos animais mais procurados pelos amadores de vida selvagem que visitam o país. Capaz de sobreviver em temperaturas extremas, esse caçador experto é difícil de encontrar. O melhor lugar para a sua observação é a reserva natural de  Hornstrandir. Accessível somente de barco, pode ser visitada num passeio de um dia durante o qual será tambem possível de ver baleias, golfinhos, focas e pássaros.

Sem ser exclusivos do país, as renas integram as paisagens do leste

Se podem ser encontradas en quase todos os países nórdicos, as renas são muito embemáticas da Islândia. Elas são encontradas quase exclusivamente no leste, principalmente nos arredores da cidade de Vopnafjörður ou mais no sul, perto da famosa lagoa de Jökulsárlón dentre do parque nacional do Vatnajökull. Quem tiver a sorte de encontrar as renas  durante o inverno, correndo em baixo das luzes das auroras boreais, voltará para sua terra com imagens inesquecíveis.

Cavalos islandeses em liberdade © Business Iceland

Cavalos islandeses em liberdade © Business Iceland

Alem dos « Big Five », a Islândia sabe também promover o seu turismo com seus cavalos, uma raça bem distinta de animais pequenos e muito dóceis, ideais para passeios. A natureza e a vida selvagem do país são assim muito bem aproveitadas, mais ainda pelo sucesso das repetidas campanhas de comunicação criativas que construiram o destino. Em dez anos, o numero de turistas passou de 1,4 à 2,6 milhões e o turismo virou uma das maiores atividades econômicas do pais, gerando 45.000 empregos e 10% do PIB. 

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original da revista francesa profissional on-line Mister Travel  

O Trump favorecendo o turismo europeu?

A imagem do Presidente sempre impactou o turismo para os Estados Unidos

Vendo o impacto da presidência do George Bush sobre os fluxos turísticos internacionais dos brasileiros, um diretor do turismo francês sugeriu na época que a Franca entregasse para ele a “Medalha do turismo”. De fato, enquanto a Europa e os Estados Unidos eram tradicionalmente empatados nos mercados sul- americanos, as medidas restritivos e as vezes vexatórias visando os viajantes chegando (ou transitando) nos aeroportos estadunidenses deram naquele momento um impulso excepcional  aos destinos europeus. Nesses ciclos marcando a rivalidade turística entre os Estados Unidos e a Europa, a volta do Trump, independentemente das opiniões politicas de cada um, poderá de novo favorecer fortemente o velho continente bem como o Canadá.

Novo travel ban preocupa os profissionais americanos

Com as primeiras medidas da nova presidência, o impacto negativo sobre o turismo já se baseia em fatos objetivos preocupando e até desanimando os viajantes: controles mais rigorosos nas fronteiras e prazos de concessões de vistos mais longos devido a cortes de pessoal, reativações de proibições de viagem para cidadãos de países considerados com riscos (uma medida já tomada pelo Trump em 2017), restrições aos passaportes sem indicações de género, preocupações sobre a saude pública com a retirada da Organização Mundial da Saude e as possíveis epidemias, ou o crescente  mal estar  dos ambientalistas com a retirada dos Estados Unidos dos acordo de Paris.

Na Alemanha, os viajantes estão trocando os Estados Unidos pelo Canada

Outras medidas ainda são esperadas e poderiam prejudicar mais ainda o setor do turismo estadunidense – a possível proibição de TikTok preocupando os jovens viajantes que não imaginam viagens sem posts nas mídias sociais, e os aumentos de preços que as taxas sobre os navios de bandeiras estrangeiras, anunciadas pela nova administração, podendo impactar as vendas de cruzeiros. No primeiro mandato do Presidente Trump, medidas menos drásticas já tinham provocadas uma queda dos fluxos de visitantes de mais de 10%, e os profissionais estadunidenses estão agora preocupados com consequências ainda mais fortes enquanto o objetivo era de chegar a 90 milhões de visitantes com o impulso da Copa do mundo FIFA 2026.

Será que Trump vai merecer a medalha do turismo dos destinos concorrentes?

Alem das medidas, o turismo pode também ser prejudicado pela rápida degradação da imagem  dos Estados em mercados chaves, especialmente no Canada, no Mexico e na Europa do Norte, mas também na China, nos países árabes ou no Brasil. Observadores otimistas esperam ainda que alguns fatores positivos podem reverter em parte essas tendencias: simpatias politicas com o novo modelo de governo, vistos facilitados para grandes investidores, impostos menores para as pequenas empresas que são a força do trade turístico,  energia mais barata e talvez um dolar enfraquecido. Mas no geral é porem provável que os fatores negativos não sejam compensados, e que as viagens internacionais privilegiam seja o Canada seja a Europa.

Jean Philippe Pérol

 

 

A AI já integrou a rotina de viajantes e profissionais do turismo

A IA no turismo, uma nova era de oportunidades, mas com limitações a superar

Harari avisa que a IA pode ser um erro terminal ou o inicio de uma nova era.

Se a inteligência artificial revoluciona toda a indústria do turismo, projetando ser a primeira ferramenta de 92% dos viajantes e gerar  US$ 1,2 bilhão até 2026, já aparecem numerosas perguntas tanto sobre suas oportunidades que sobre suas limitações. Duas pesquisas realizadas no início do ano 2024 e publicadas agora pela “Chaire de tourisme Transat” de Montreal mostraram as tendencias da utilização da IA pelo profissionais. Ficou claro a importância da tecnologia para o setor – 31% das empresas oferecendo acoes concretas-, como seu imenso potencial – 43% não utilizando nenhum dos seus recursos. Para os utilizadores, a IA é  citada como ajuda a redação de cartas, mails ou posts (50% das respostas), tradução (34%) e assistencia ao cliente (14%).

A AI já integrou a rotina de viajantes e profissionais do turismo

A AI já integrou a rotina dos viajantes e dos profissionais do turismo

 Os consumidores da América do Norte parecem também ter adotados a IA. Já em 2023, segundo uma outra pesquisa da Oliver Wyman, 54% dos viajantes confiavam nesta tecnologia para escolher ou planificar suas viagens de lazer, 81% estavam prontas a reservar na base dessas recomendações, 84% ficaram satisfeitos das sugestões que foram feitas. E 55% dos viajantes davam preferencias a canais de reservas oferencendo a assistencia de IA, sendo os “frequent flyers” das companhias aéreas, hoteleiras ou de cruzeiros os mais entusiastas. Se esse sucesso deve ainda ter crescido em 2024, alguns poréns já estão sendo levantados referente as distorções levadas nas propostas pelos algoritmos.

As distorções trazidas pela IA preocupam utilizadores e profissionais

Uma tese de master da Universidade de Montreal sobre as consequências da IA na seleção de produtos ou serviços turísticos concluiu que essas distorções podiam existir em todas as etapas do processo de decisão do viajante: pesquisa de informações, avaliação das opções, escolha, e até durante a própria viagem. Foram assim identificadas nove fatores de distorção nestas quatro etapas.

Na pesquisa de informação,  as distorções se referem a disponibilidade – o consumidor vai privilegiar as informações mais acessíveis, ou ao ranking – a decisão sendo tomada en cima das primeiras sugestões da IA.

Na avaliação das opções, o viajante vai privilegiar as informações apresentando confirmação das suas crenças ou das suas preferências anteriores. Ele vai ter mais confiança nos destinos conhecidos, já visitados ou já conhecidos.

Na escolha do seu destino, as distorções podem vir  da falta de análises das opções apresentadas pela IA, bem como de uma auto-confiança exagerada – especialmente quando se trata de atividades físicas ou esportivas. Mais frequentemente, problemas podem aparecer quando as recomendações da IA ficam sem validações com uma outra fonte, caso de 44% dos usuários.

As sugestões da IA necessitam também uma certa cautela durante a viagem ou frente as experiências que foram sugeridas. O viajante não deve esquecer que a planificação proposta não lhe da nenhum controle sobre as operações que dependem de muitos outros fatores, e que os imprevistos podem atrapalhar as experiências ou gerar custos suplementares.

Essas distorções representam um desafio para o consumidor, e mais ainda para os destinos ainda desconhecidos ou as empresas de pequeno porte.  Não disponham de uma notoriedade suficiente e não podem fazer investimentos para aparecer mais nas mídias sociais, e têm assim menos probabilidades de ser destacadas pelos algoritmos da IA  que os gigantes do setor. A qualidade das informações e a criatividade das ações de marketing serão ainda mais decisivas. As OTA ( agencias on line) bem como os próprios destinos estão desenvolvendo suas próprias ferramentas, inclusive virtuais travelplanners. Na nova era aberta pela inteligência artificial, os profissionais do turismo ainda têm muitas oportunidades a imaginar para moldar o futuro!

Sustentabilidade, bem estar, “coolcations”, inclusão e luxo: novas tendências do turismo de aventura

A Amazônia é o novo foco do turismo internacional de aventura

Focando a Amazônia e o ecoturismo, a nova campanha internacional da Embratur apostou não somente sobre uma região do Brasil que vai atrair em 2025 a atenção do mundo inteiro, mas também numa temática cada ano mais popular. Em pleno crescimento, o turismo de natureza e de aventura conhece porém profundas transformações. Uma pesquisa recente da conceituada “Chaire de tourisme Transat” de Montreal mostra assim que o setor deve se adaptar levando em consideração as exigências dos viajantes, as conexões com outras atividades e as projeções de mudanças climáticas. Cinq principais tendências estão se destacando nos estudos e nas entrevistas da pesquisa publicada no caderno Tendências e perspectivas  2028 .

Foz de Iguaçu, um dos mais sustentáveis destinos do Brasil

O turismo de aventura é por essência ligado a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental. Ele ajuda a espalhar o turismo em todos os territórios, em pequenos grupos compatíveis com a proteção dos ecosistemas e da biodiversidade. Nos próximos anos, com as mudanças climáticas,  o setor terá que avaliar, em cada destino turístico, o impacto das mudanças climáticas sobre as infraestruturas, as vias de acesso, e até a perenidade de certos lugares ou pontos de atrações. Os profissionais terão que adaptar seus produtos e serviços, e ao mesmo tempo continuar satisfazendo as expectativas dos seus clientes. 

No Kibili House, o bem estar completa a aventura

Para 35 % dos associados da Adventure Travel Trade Association (ATTA), interrogados em janeiro desse ano, o bem estar vai ser um componente cada vez mais importante do turismo de aventura. Se a combinação da natureza com a saúde não é uma ideia nova, os profissionais destacam agora a procura dos viajantes para  conteúdos atrativos,  transformadores para a saude e o bem estar do corpo e da mente. As experiências devem incluir intercâmbios enriquecedores com os moradores, bem como impactos positivos duradouros para o destino e as comunidades. O ritmo dos itinerários deve incluir bastante tempo livre encontros inesperados ou momentos de bem estar pessoal. 

Novas clientelas necessitam atenções especiais

Os benefícios reconhecidos do contato com a natureza sobre a saude e a qualidade de vida vão atrair novas clientelas para o turismo de aventura, independentemente das suas origens, capacidades físicas, idades ou preferências pessoais. Será importante, na medida do possível, facilitar os acessos para crianças, pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, melhorar a inclusão com serviços adaptados, gratuitamente ou a custo baixo.  A diversificação dos turistas de aventura se anota também pelo crescimento de grupos pequenos – familiares, amigos ou colegas- que pedem propostas, atividades e experiências personalizadas.

Scandinavia, paraiso das coolcation

A onda das “coolcations” favorece os destinos escandinavos

Para mais da metade dos profissionais que responderam a pesquisa da Adventure Travel Trade Association, o  aquecimento global vai favorecer o turismo fora dos picos da temporada de verão, os viajantes procurando cada vez mais a frescura da primavera ou do outono, e até o frio do inverno, com “coolcations” (cool vacations, ferias no frio). A preocupação com o calor vai ser também abrir oportunidades para descobrir ou redescobrir destinos com clima mas fresco, tanto a nível doméstico que internacional. Os países do Norte da Europa bem como várias companhias de cruzeiros já estão surfando nessa onda que já atinge regiões da França, da Espanha, do Canadá ou dos Estados Unidos, bem como destinos do Brasil. 

No Mirante do Gavião, aventura já combina com gastronomia e luxo

Segundo o Ministerio do turismo do Quebec, 80% das atividades características do turismo de aventura estão em forte crescimento, seja o camping, a pescaria, o surfe, a escalada, e, em primeiro lugar, as trilhas e caminhadas. A  Adventure Travel Trade Association (ATTA) aponta no mesmo tempo que os turistas combinam cada vez mais essas atividades com cultura, gastronomia e até luxo. As ofertas devem assim incluir a historia e a cultura local, experiências gastronómicas, e conforto das hospedagens e dos transportes, sempre com qualidade e as vezes com luxo.

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Claudine Barry na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

Montreal, o sucesso da “turismofilia”

Montreal é líder no relacionamento entre moradores e turistas

Enquanto  a temporada de verão de muitas grandes cidades da Europa e do hemisfério Norte foi marcada pelas preocupações com o overturismo, os responsáveis do turismo de Montreal, no Canadá, podem se orgulhar de um balanço 2024 muito positivo. A metrópole quebequense  está seduzindo ainda mais visitantes sem que isso gera muitos atritos com os residentes. Os primeiros números mostraram um crescimento de 4,8% dos visitantes, com um destaque especial para os turistas provenientes dos Estados Unidos (+7,8%) et da França (+3,3%). As maiores atrações foram mais uma vez os grandes festivais culturais, como o Festival de música ao ar livre Osheagá que atraiu quase 150.000 pessoas ou o Final de semana IGA, focado nas famílias, que levou no estádio 68.000 amadores de tênis.

O Festival Osheaga é um dos grandes momentos do verão montrealense

O apoio dos residentes foi importante para este sucesso, assim que foi demonstrado na recente pesquisa realizada pelos serviços de Montreal turismo, seguido o modelo do Resident Sentiment Index da Organização Mundial do Tourisme (ONU Turismo). Realizada pelo segundo ano consecutivo, a pesquisa compara as percepções dos moradores em 13 cidades do mundo ( Barcelona, BerlimBordeauxChicago, Copenhague, Londres, LyonParis, Philadelphia, Québec, TorontoVancouverWashington). Com 30 critérios, são assim estimados os impactos do turismo sobre a economia local, a proteção do meio ambiente, a limpeza das ruas, a animação dos bairros e o desenvolvimento das infraestruturas.

Montreal deve receber mais de 10 milhões de turistas em 2024

Todos os indicadores da pesquisa mostram que os montrealenses sao mais favoráveis ao atendimento dos turistas que os moradores das outras cidades globais. 84% são orgulhosos de receber visitantes internacionais, 7% a mais que a media mundial, 71% estão prontos a receber mais turistas no futuro, 7% a mais que a media, e somente 4% tendo um sentimento de “turistofobia” em relação aos visitantes (1% a menos que a media). Os moradores são 74% a julgar que o setor tem um impacto positivo sobre a qualidade de vida  através da oferta de atividades culturais ou de lazer. Talvez por essa razão, 75% deles são também convencidos que eles participam desse sucesso como verdadeiros embaixadores do turismo  da cidade.

Montreal trabalha também sua atratividade no inverno

Para o presidente de Montreal turismo, Yves Lalumière, os habitantes são mesmo a cara da cidade, um fator essencial da estratégia de destino acolhedor, harmonioso e sustentável. Por isso é importante de sempre manter o diálogo, de valorizar o papel de cada um na experiência dos visitantes, e de insistir nos benefícios trazidos pelos fluxos de turistas  enquanto muitas outras cidades enfrentem desafios de overturismo. A pesquisa ajuda também a lembrar a todos que o turismo é um fator de atratividade, ajudando a trazer investimentos, talentos, ideias e inovações  para melhorar a cidade e a qualidade de vida a seus moradores.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original da revista francesa profissional on-line Mister Travel  

A resiliência das viagens de incentivo

O relatório anual do Incentive Travel Index é muito esperado pelos profissionais

Se a revolução das maneiras de trabalhar – home office, teletrabalho ou workation- parecia impactar o futuro das viagens de negócios, a última pesquisa do Incentive Travel Index, realizada em 2023 pelas conceituadas  Incentive Research FoundationFoundation of the Society for Incentive Travel Excellence, mostra a resiliência e a evolução, das viagens de incentivo. Para 74% dos 2400 executivos entrevistados na America do Norte (52%), na Europa (21,2%) e em mais de 30 mercados emergentes,  o setor saiu reforçado e ficou mais estratégico depois da crise. 2025 é visto com bastante otimismo, pelo numero de viagens que deverão ser organizados, pelo numero de participantes de cada viagem, e pelos gastos medios por participante. 

A pesquisa ouviu 2400 executivos do setor em mais de 40 paises

O relatório mostra também que novas tendências estão aparecendo. As viagens de incentivo continuam com seu papel de motivação e de prêmios para os funcionários, os parceiros ou os fornecedores, em relação a realização de metas comerciais ou financeiras predefinidas. Mas as viagens devem ser mais que um simples “team building”, os participantes pedem agora experiências mais longas, mais espetaculares, em cenários marcantes. Com o teletrabalho diminuindo os encontros físicos de colegas ou superiores, 79% dos participantes da pesquisa acham que a necessidade de reunir as equipes é um dos fatores principais da nova popularidade das viagens de incentivo.

Millenials já definam novas tendências das viagens de incentivo

Todas as gerações continuam de ser interessadas, mas a pesquisa Incentive Travel Index mostrou uma atração um pouco maior junto aos mais jovens. Os millenials (nascidos de 1981 a 1995) e a geração Z (nascidos de 1995 a 2009) são 93% a achar estas premiações extremamente ou muito atraentes, enquanto esses números são somente de 86% junto aos baby boomers e a geração X, a razão sendo que os seniors já tiveram muitas experiências de viagens e são assim mais difícil de impressionar. Juniors ou senior têm porem as mesmas prioridades para essas viagens: 81% querem experiências únicas, 80% preferem hospedagens e atividades de luxo, 76% pedem para levam um acompanhante, 74% procuram conteúdos culturais e … 85% querem tempo livre para atividades próprias.

Muitos fatores ainda podem mudar as tendências de destinos

Se 59% prevêem um crescimento dos seus orçamentos em 2024, e 64% em 2025, vários fatores ainda podem influenciar as decisões, e poderiam levar a considerar as viagens de incentivo como despesas mais fúteis e menos atraentes. Será necessário vigiar as mudanças políticas, a instabilidade das relações internacionais, as tensões do mercado do trabalho, e em primeiro lugar para 76% dos entrevistados, a inflação  dos preços do setor. Os profissionais são especialmente preocupados com as tarifas dos hotéis que poderiam, segundo o  Hotel Monitor 2024 da American Express GBT subir em media esse ano de 17,5%. Para superar esses desafios, eles pensam que será talvez necessário escolher lugares mais próximos ou até reduzir os numeros de pernoites.

Em lugares inéditos e inovadores, fortes parcerias são imprescindíveis

Nas suas respostas, os responsáveis  destacam a importância da escolha do destino como fator chave do sucesso de uma viagem de incentivo. 71% deles acham que o lugar deve ser inédito ou pelo menos inovador, e os roteiros estimulantes e animados. O suporte dos órgãos oficiais de turismo é considerado um fator chave, essencial para 51% na expertise do local, para 48% no apoio junto aos receptivos, para 46% na organização das visitas, para 23% no apoio financeiro e para 21% nas negociações com os hotéis. Para todos os participantes , é somente através de fortes parcerias que o sucesso das viagens de incentivo poderá continuar a demonstrar a sua resiliência e garantir seu crescimento.

 

Este artigo foi adaptado de um artigo original de Julie Payeur na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

Oslo mostra uma “contra-campanha” inovadora

Navio ou iceberg, o surpeendente Opera de Oslo

Enquanto o overturismo está monopolizando as mídias da Europa e dos Estados Unidos, paralisando a comunicação e a criatividade de muitos grandes destinos,  VisitOslo, organização encarregada do marketing da capital da Noruega, lançou uma (contra) campanha original pedindo para “ser honestos e não vir para cidade”.  Com um humor muito escandinavo e uma humildade bem calculada, um morador desiludido aparece num clip publicitário arriscado, para mostrar sem convicção as belezas naturais, o dinamismo cultural, a tranquilidade social e a simplicidade humana de Oslo que “nem parece ser uma cidade”.

Obra da agÊncia norueguesa NewsLab, a campanha teve um sucesso imediato nas mídias sociais, com 250.000 likes e 1,5 milhão de visualizações no TikTok,  70.000 likes, 1,2 milhão de visualizações na Instagram, e 6 milhões de visualizações na X (ex Twitter). VisitOslo conseguiu surpreender (e convencer) seu público com um jovem de 31 anos chamado Halfdan, o anti-herói da campanha,  falando com um tom amargo, sarcástico e até cínico. Ele finge desanimar os visitantes mostrando justamente os charmes da sua cidade natal, suas experiências autênticas e seu tamanho humano.

O Rio Akerselva traga a natureza dentro da cidade

Entrar num museu sem fazer fila durante algumas horas, encontrar um restaurante mesmo sem reservas e de última hora, tomar banho de mar no centro da cidade, cruzar durante uma caminhada na rua com o  primeiro ministro ou até o Rei: tudo parece possível, acessível e fácil. Mas Halfdan se queixa desta tranquilidade, achando incrível que atravessar a pé Tigerstaden (o outro nome de Oslo)  não leva mais de meia hora, uma façanha impossível de realizar em Istambul,  Nova Iorque ou Paris. Com este personagem antipático, VisitOslo quer convencer uma outra categoria de viajantes, aqueles que procuram autenticidade e encontros em destinos fora das rotas do overturismo.

O Grito  é o grande acervo do Museu Munch

August Jorfald, cenarista e realizador da campanha publicitária, falou numa entrevista com a BBC que a ideia deste clipe surgiu quando, de volta de uma viagem para Paris, percebeu que a sua estadia tinha sido um sucesso porque não tinha visto a Torre Eiffel.  August acha que as experiências marcantes são aquelas que não são feitas para os turistas. Nada de Disney World, ele tem preferencia momentos inesperados, sentar numa mesa com um desconhecido ou beber um vinho bom num copo comum. E mesmo quando se trata de arte, o Halfdan privilegia a simplicidade. Frente ao Grito do norueguês Edvard Munch, com o plano de fundo do fiorde de Oslo, ele ainda declara: “Não é mesmo a Mona Lisa” .

Nos restaurantes animadas, turistas e moradores se encontram

Nas mídias sociais, os internautas adoraram a campanha, elogiando o tom diferente e a simplicidade da mensagem. Na hora de uma procura cada vez maior pelos destinos menos ameaçados pelo aquecimento global, as viagens chamadas “coolcations”, neologismo americano de cool com vacations), a Noruega deve assim acelerar o impulso dado a seu turismo international. Muito impactado pela pandemia,  quando perdeu 75% dos seus 6 milhões de visitantes, o pais já vai passar de 8 milhões esse ano,  apostando num turismo de qualidade e sem medo do overturismo.

Os Jogos de Paris 2024, um sucesso de futuro para o turismo francês

Na Place de la Concorde, um espaço de convivialidade olímpica

Se os Jogos de Paris 2024 acabarão oficialmente somente dia 8 de setembro no encerramento dos Paralímpicos, os especialistas já estão brigando para saber se o evento foi ou não o sucesso esperado pelos profissionais e anunciados pelos políticos. Os resultados são fáceis de medir quando se trata de medalhas – a França conseguiu bater seu recorde com 64 , sendo 16 de ouro-, ou quando se trata de custos financeiros – quase 10 bilhões de Euros para uma previsão inicial de 6-, mas é difícil de apreender quando se trata de turismo devido às diversidades de indicadores. São mais difíceis ainda de analisar quando se trata de turismo internacional.

Os profissionais fizeram o máximo para seduzir atletas e visitantes

Para os profissionais do setor, teve, como sempre nos grandes eventos, muitas expectativas, e, como sempre nos grandes eventos, muitas decepções. Os números globais ainda não podem ser medidos, mas serão com certeza em recuo, como foi o caso em Londres, já que o milhão e meio de visitantes “olímpicos” estiveram presentes, mas desanimaram o mesmo tanto de turistas regulares que se assustaram com os altos preços anunciados para hospedagens ou com a complexidade da mobilidade em Paris. As quedas de 30% observadas nos restaurantes e nos comércios, de 20% nos parques e nos museus, impactaram brutalmente um setor ainda em recuperação das traumas da pandemia. E se os hotéis e os apartamentos alugados tiveram uma alta de 10% da taxa de ocupação a partir do 26 de julho, os empreendimentos tiveram que reajustar os preços para baixo depois de um mês de junho muito abaixo do normal.

Os parisienses pedem a permanência do balão da chama olímpica

Mas, por importantes que sejam esses problemas, o Jogos foram mesmo um sucesso excepcional, incluído para o setor do turismo que vai beneficiar a longo, médio e curto prazos, dos investimentos em infraestruturas, comunicação e capacitação que foram realizados. Os futuros visitantes poderão aproveitar as renovações de muitos pontos de atração, as inovações em transportes, segurança ou em equipamentos indispensáveis para futuros grandes eventos que a França mostrou ter capacidade para organizar.

O surfe brasileiro imortalizado na onda de Teahupo’o

Os Jogos ofereceram também para Paris e para toda França uma extraordinária visibilidade em toda a mídia internacional. A ousada escolha de localizar o máximo de provas frente aos grandes monumentos históricos ou em lugares inesperados gerou no mundo inteiro momentos inesquecíveis; o vôlei de praia em frente da Torre Eiffel, o hipismo nos jardins de Versailles, a esgrima em baixo do domo do Grand Palais, o triatlo nas águas do Rio Sena, o surfe na mítica praia polinésio de Teahupo’o ….

A magia criativa de Zeus na cerimônia de abertura

O maior impacto sobre o turismo  virá de uma nova imagem que a França conseguiu consolidar com os Jogos. A cerimônia de abertura – mesmo com alguns erros que serão esquecidos porque criatividade é sinônimo de aceitação de risco-  mostrou para cerca de um bilhão de telespectadores um destino inovador, surpreendente, orgulhoso da sua história mas aberto, inclusivo, detalhista e alegre. Os visitantes internacionais presentes – entre eles 107.000 brasileiros entusiastas, muitos jovens e muitas famílias -anotaram também o bom atendimento e até a gentileza dos profissionais, dos voluntários e dos próprios moradores. Com eles, a França pode sair dos Jogos com mais otimismo sobre seu futuro de primeiro destino internacional de turismo.

Jesan-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

 

 

Overturismo : o malthusianismo não pode resolver

Nas Baleares, os protestos do moradores impressionaram as midias

Com o sucesso da temporada de verão no hemisfério norte, o overturismo voltou a mobilizar as mídias internacionais. As taxas de Veneza, os tapumes do Monte Fuji, a água potável de Barcelona, os protestos das ilhas Baleares, os lixos do Monte Everest e os AirBnb de Nova Iorque, foram numerosas situações durante os quais, moradores e políticos se juntaram para tentar combater a superlotação turística. Esquecendo os benefícios trazidos pelo setor em termos de infraestruturas ou de lazeres, e seu peso na economia e nos empregos, todos se focam sobre os seus impactos negativos sobre a vida local: inflação dos aluguéis de apartamentos, fechamento de comércios, falta de segurança pública, transito parado nas ruas ou até nas calçadas. A rejeição manifestada pela imprensa preocupa os profissionais do setor que multiplicam os esforços em termos de sustentabilidade para evitar que a aversão ao turismo ameaça o seu futuro promissor.

Turistas indianos agora impulsionam o turismo em Veneza

Essa preocupação  é ainda mais legítima devido ao potencial gigantesco de crescimento do turismonacional e internacional. A OMT, organização mundial do turismo, destaca que os fluxos de turismo internacional – 25 milhões em 1050- já passaram dos níveis de pre-pandemia, 1,5 bilhões em 2024, e que chegarão a 1,8 bilhões em 2030. Este crescimento, virá em primeiro lugar, das classes emergentes das novas potências econômicas, hoje China, Brasil, Turquia, México, India ou Indonésia, futuramente Egito, Vietnã ou Nigéria, que desejam e poderão descobrir os lugares emblemáticos do turismo mundial. Além disso, novos fluxos estão também surgindo. Nos países desenvolvidos, o acesso ao turismo de lazer vai ainda se expandir. Atualmente, somente 60% das famílias aproveitam as ferias para viajar enquanto os especialistas preveem que a tendência é de chegar a 80%. E as novas formas de teletrabalho já estão inventando novas modalidades de viagem ( como os chamados “workations” ) que vão pressionar ainda mais os destinos chave e os lugares instagramizados.

A primeira viagem do Thomas Cook para trabalhadores ingleses

Diante dessas tendências inevitáveis, a turismofobia não é alimentada apenas pelo bem estar dos moradores. Uma parte significativa da revolta divulgada pela mídia  está relacionada a uma resistência ideológica à democratização das viagens. Nos anos 1870, na Inglaterra, as elites já se opuseram à revolução que o Thomas Cook iniciou quando levou  trabalhadores a viajar de trem para lugares até então exclusivo da “gentry”. Em 1936, na França, prefeitos de balneários famosos anunciaram que não desejavam ver as suas praias invadidas por “congés payés” (gente com ferias remuneradas) que eram incompatíveis, segundo eles, com o nível exigido dos seus visitantes. E hoje, mesmo se o artigo 24 da Declaração universal dos direitos humanos oficializa desde 1948 o direito as ferias e ao lazer, a ideia de um direito universal ao turismo ainda não é completamento aceita.

Greenpeace pede uma quota de 4 viagens de avião durante a vida toda

É necessário enfrentar os problemas causados pela lotação excessiva de turistas,  mas de maneira diferente, sem focar exclusivamente sobre necessárias (?) reduções de viagens que serão derrubadas pela crescente democratização internacional e doméstica dos lazeres. Muitos profissionais sugerem então de parar de considerar o “overturismo” como um fenômeno global, lembrando que a imensa maioria dos lugares turísticos é bem administrada e ainda tem muita capacidade para crescimento sustentável. Assim a solução para a superlotação não é restringir o número de turistas discriminando os “farofeiros”, ou  impor uma redução de atividades do setor. É importante levar em consideração o local, seus arredores, a época do ano, o dia da semana, o momento do dia, o nível de receitas e o perfil dos visitantes, para orientar os fluxos da maneira mais adaptada a um crescimento inevitável, mas sustentável, de qualidade e para todos.

A Itália já aposta no underturismo

Deve se reconhecer o papel pioneiro das elites que estabeleceram muitos dos grandes destinos turísticos desde que a aristocracia inglesa inventou a “Côte d’Azur”, e que ainda hoje são responsáveis por uma grande parte dos investimentos e da economia do setor, inclusive na descoberta de novos destinos. Simultaneamente, o turismo continuará a crescer, e o foco deve ser na grande maioria dos territórios que ainda sofrem de “undertourism” – na França, 80% do país … Com uma nova visão, os profissionais podem ajudar a comunicar soluções que combinem o desenvolvimento do setor e a satisfação das aspirações de moradores e turistas. E devem lembrar que o turismo não é apenas um setor líder da economia global, mas também uma aspiração transformadora que pode ser regulamentada , porem não  bloqueada por um malthusianismo. Lembrando com Gilbert Trigano que o turismo é “a maior ideia desde a invenção da felicidade”,  sua vocação deve continuar a ser universal.

 Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos