A retomada, num mundo do turismo mais caro e mais exclusivo

A Nova Zelândia deixou claro que não quer atrair mochileiros

Característica importante da retomada no Brasil, a explosão dos preços das viagens, tanto nacionais que internacionais,  parece mesmo ser uma tendência global. Na Europa, nos Estados Unidos e até na Nova Zelândia, autoridades e profissionais estão anunciando que os custos que dispararam com a pandemia e a guerra vão inviabilizar muitas práticas de turismo “low cost”. Foi assim por exemplo que o presidente da Ryan Air, Michael O’Leary anunciou essa semana que os tempos de vendas de passagens promocionais a 10 euros ou menos, outrora bandeira-mor da empresa e da sua rival Easy Jet, já tinham acabado.

Reabrindo seu pais depois de dois anos de isolamento sanitário, o ministro neo-zelandês do turismo foi ainda mais longe (ou pelo menos mais claro). Numa entrevista com o  The Guardian , Stuart Nash declarou ter “nojo de viajantes sem dinheiro” e que não queria mais “atrair turistas que gastam USD 10 por dia, comendo macarrão pré-cozido“. Afirmou que não devia ter vergonha de uma nova estratégia de marketing, focada em atrair turistas “de alta qualidade”, seja gastando muito dinheiro e contribuindo assim a melhorar a economia do pais. 

Nova Zelandia quer rentabilizar as suas belezas

As declarações do ministro já abriram uma polémica. Profissionais do setores já lembraram que os turistas mais humildes têm um papel importante. Seus gastos globais podem ser mais importantes porque as estadias muito mais longas compensam o baixo nível de gasto diário. Alem disso muitas atividades tem preços fixos e não dependem do poder aquisitivo de cada um. É o caso dos museus, dos parques, dos transportes públicos ou dos teleféricos. Com menos recursos, os viajantes de classe media têm em geral um impacto menor sobre o meio ambiente, especialmente nas pegadas de carbone.

Rentabilidade, democracia, liberdade e meio ambiente no debate do turismo exclusivo

.
.
Jean Philippe Pérol
.
.

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

O Orient-Express, fênix das viagens de luxo

Depois de 140 anos, a saudade do rei dos trens e do trem dos reis ainda fica 

O Orient-Express teria festejado o ano que vem seus 140 anos. Prestigioso trem lançado em 1883 pela  Compagnie internationale des wagons-lits , ele ligava em 4 dias Paris a Istambul com um conforto e um luxo inédito. Mas depois de virar um verdadeiro mito – consagrado em 1934 no grande clássico da Agatha Christie-, o mais famoso trem do mundo sofreu das consequências da segunda guerra, teve suas operações complicadas pela cortina de ferro, e entrou em decadência a partir de 1962. Perdeu seu glamour, acabou com suas ligações diretas para Istambul, fechou suas agências – a Wagons lits só conseguiu resgatar Budapeste e Sofia-, e finalmente encerrou suas atividades em 1977.

O Orient-Express, o renascimento com o Venise Simplon Orient Express

Mas, mesmo sumido, o Orient-Express levantava muitas paixões, muitos projetos e mostrou ser um verdadeiro fênix. Em 1976, a operadora suíça  Interflug lançava o “Nostalgie Istambul Orient Express” que sobreviveu, com muitas dificuldades, até o inicio dos anos 2000.  O americano James Sherwood foi mais bem-sucedido. Renovando 18 antigos vagões da Wagons lits, aproveitando o seu prestigioso hotel Cipriani em Veneza, reabriu em 1982 um “Venise Simplon Orient-Express”, ligando Londres e Paris a Serenissima capital. Explorado hoje pela Belmond (do grupo LVMH), este fiel herdeiro estica varias vezes por ano seu itinerário até Vienna, Budapeste e mesmo Istambul.

Accor quer relançar não somente o trem mas também os hotéis

Proprietario da marca “Orient Express” junto com a SNCF, o francês Accor anunciou que quer ver renascer a lenda do mais prestigioso trem do mundo. Com 17 vagões dos anos vinte reencontrados na Polônia, redesenhados pelo famoso arquiteto Maxime d’Angeac, o grupo prevê a reabertura da linha em 2024.  Vagões-leito, vagões-restaurante e salões serão renovados no estilo “Art deco” original, incluindo painéis do Lalique, mas com toques contemporâneos. Para garantir essa autenticidade nos mínimos detalhes, Accor quer que esse novo Orient Express seja  uma obra de artesãos, apoiados por grandes marcas de luxo, uma vitrina do “savoir faire” e da excelência franceses.

Gustave Eiffel, muito além da torre

Sempre jovem, a torre só escapou da destruição pela vontade do Eiffel

Mesmo se já atraiu quase dois milhões de cinéfilos, o filme não é completamente fiel a realidade histórica e aos três anos de trabalho realizados pelas equipes de Eiffel para ganhar a licitação da obra. Ele acerta porem quando descreve as dúvidas iniciais sobre o projeto, bem como as inúmeras dificuldades técnicas, financeiras e políticas que teve que enfrentar durante a construção, e até a inauguração no dia 31 de março de 1889. Aproveitando o lançamento, o Escritório de turismo de Paris  criou o roteiro mostrando não somente os locais onde o filme foi realizado, mas também algumas outras obras marcantes do Eiffel.

A ponte Eiffel, no Parque das Buttes Chaumont

Eiffel deixou sua marca em numerosos edifícios parisienses, da sinagoga da rua des Tournelles até a loja “Le Bon Marche”, do “Shack” até a sede do “Crédit Lyonnais”. No coração do  parque das Buttes-Chaumont, o roteiro destaca a Ponte Eiffel, uma passarela de 63 metros de comprimento construída para a Exposição Universal de 1867. Inaugurada pelo Napoleão III, é famosa pela armação metálica verde e os tijolos vermelhos que lembram as cores das arvores do Parque. Prevista no início para o transito de veículos, completamente reconstruída em 1956, ela é hoje aberta exclusivamente aos pedestres querendo  passear nas “Buttes”  Puebla e Fessart.

Paradis Latin - 2020 L'Oiseau Paradis, Paris

Destruído em 1870, o Paradis Latin foi reerguido pelo Eiffel em 1887

Construído durante o Segundo Império, o Paradis Latin é o mais antigo cabaré de Paris. Destruído durante a guerra de 1870, ficou abandonado durante 17 anos. Pensando na Exposição Universal de 1889,  Gustave Eiffel reconstruí o teatro em 1887. A obra ficou famosa pelas colunas metálicas apoiadas nas muralhas das fortificações do rei Philippe Auguste, que ficam no subsolo do edifício, e pelo pé direito excepcionalmente alto. Fala-se que o Eiffel queria esta extraordinária altura da sala não somente para permitir espetáculos de acrobacias, mas ainda para competir tecnologicamente com a ousadia arquitetural das catedrais.

O Printemps foi pioneiro nas estruturas metálicas do Eiffel

Reconstruído em 1882 depois de um incêndio, Le Printemps Haussmann  é considerado como um dos primeiros prédios de Paris a ter estruturas metálicas até na fachada, fazendo do ferro  um material nobre e um componente chave da decoração, tanto nas vigas que nas escadas. A presença dessa grande loja de departamento no roteiro do Escritório de turismo de Paris se deve também ao fato que o fundador do Printemps, Jules Jaluzot, foi um grande apoiador do projeto do Eiffel, conseguindo para a sua loja a exclusividade da venda das medalhas comemorativas .

La Samaritaine, da humildade do Evangelho a audácia do templo do luxo | "Le Blog" do Pérol

Hoje renovada pelo grupo LVMH, a Samaritaine foi mesma inspirada pelo Eiffel

Fundada em 1870 por Ernest Cognacq e Marie-Louise Jaÿ, a Samaritaine é uma loja de departamento mas também uma obra mestre juntando “art nouveau” e “art deco”.  Gustave Eiffel inspirou o arquiteto belgo Frantz Jourdain, fascinado pelo seu trabalho e sua tecnologia. Foram suas oficinas que realizaram as estruturas metálicas e as escadas de ferro bem visíveis, numa composição trazendo espaço e luz. Comprado em 2005 pelo grupo LVMH,  que decide em 2005 de aproveitar a sua exclusiva localização e seu excepcional acervo arquitetural, a Samaritaine reabriu em 2021 e virou um icônico projeto parisiense de renovação.

No mercado municipal de Manaus, a herança de Gustave Eiffel

De 1870 e 1880, a empresa Eiffel encontrou um sucesso mundial, com obras cada vez mais complexas e espetaculares. Se a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, é uma escultura de Bartholdi, toda a estrutura foi elaborada por Gustave Eiffel. A partir de 1872 começaram a surgir propostas de outros países. Foram por exemplo a Estação Ferroviária de Budapeste, ou a Ponte Maria Pia sobre o Douro, no Porto. No Brasil foram realizados  dois faróis em Salinópolis, no Pará, e em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Em Manaus, o Mercado Adolpho Lisboa levou a assinatura do Eiffel, e  poderia ser a última etapa do extraordinário roteiro do genial engenheiro que embelezou Paris.

Juntando tradições e inovações, o Museu da Moda de Paris é também obra do Eiffel

 

 

Os EE-UU apresentam uma estratégia inovadora para o turismo pos crise

Gina Raimondo, Secretaria de Comercio, apresentou sua estratégia inovadora

A secretária de Comércio dos Estados Unidos, Gina M. Raimondo, anunciou a semana passada uma nova estratégia nacional para indústria das viagens e do turismo. Aproveitando as lições da crise, e as novas exigências dos turistas, dos profissionais e dos moradores, ela reafirmou os esforços do governo federal para apoiar o setor, e anunciou suas novas metas. No prazo de 5 anos, o objetivo  é de atrair 90 milhões de visitantes internacionais por ano, de chegar a receitas internacionais de US$ 279 bilhões anualmente, e de conseguir que essas receitas apoiam a criação de empregos em todos o território  estadounidense.

Atropelados pela crise, os grandes destinos aderiram as novas ideias

Esse nova estratégia é uma virada em relação a politica mais quantitativa definida em 2012 pelo administração Obama, que tinha o objetivo de 100 milhões de visitantes mas previa gerar somente US$ 250 bilhões de receitas por ano. A Secretária enfatizou também que a retomada oferecia uma oportunidade única de construir uma industria turística mais inclusiva, mais justa, mais responsável e mais resiliente, com resultados concretos atrelados a quatro metas: promover o destino, facilitar as viagens, desenvolver novos lugares ou comunidades, e focar um turismo mais sustentável.

Brand USA CEO Chris Thompson speaking at the IPW conference in Orlando.

Thompson, CEO de Brand USA, convenceu os profissionais durante o IPW

Sem ser uma novidade (nos anos 90, Malta se destacou anunciando que queria 20% de turistas a menos e 20% de receitas a mais. Nos anos 2000, a França já tinha definido a ambição do “mieux tourisme” para substituir o “plus tourisme“), a virada para uma politica mais qualitativa foi elogiada pelos profissionais. Falando no US Travel Association’s IPW, o CEO de Brand USA lembrou que somente 79 milhões de turistas visitaram o pais em 2019 e que, mesmo sem a crise que cortou 75% dos fluxos, os  100 milhões de turistas não teriam sido atingidos. E concluiu: ” Nosso objetivo agora não é de acolher o mundo inteiro, é de maximizar o turismo como uma exportação, sendo as receitas o primeiro indicador a ser seguido.”

O Museu do Primeiros Americanos em Okhlahoma City

A nova estratégia confirme o papel central de Brand USA na promoção internacional, em estreita ligação com os profissionais e com o apoio de outros órgãos do governo como Homeland Security ou o State Department. Essas sinergias são desenvolvidas a todos os níveis, inclusive dos vistos, um gargalho importante em alguns consulados. Mas a prioridade dada ao turismo pelo governo federal foi alem de medidas pontuais, o turismo foi também beneficiado com um fundo especial  viabilizando todo o projeto e votado de forma bipartidária. Com o Restoring Brand USA Act, foram então um recorde de US$ 250 milhões que o Presidente Biden colocou a disposição da retomada do setor.

Biden assinando o pacote incluindo o Brand USA Recovery Act

Num turismo pos Covid que está ainda se definindo, frente aos países europeus que parecem hesitar a escolher seu caminho e a assumir os investimentos indispensáveis, frente a novos concorrentes da Asia ou do Oriente Medio que conseguem definir novas estratégias e achar os financiamentos, os Estados Unidos impressionaram  tanto pela virada estratégica que pelos meios mobilizados para atingir metas claras com datas definidas, em sinergia total com os profissionais do setor . Ao final de contas, os viajantes terão assim múltiplas oportunidades de viver novas experiências nesse grande destino turístico.

Jean Philippe Pérol

 

 

As 51 paisagens inspiradoras da Condé Nast, os novos destinos do mundo pos Covid

Nice lamentando a ausência dos turistas russos

A igreja Saint Nicolas, testemunha de uma longa amizade franco-russa

Na Islândia, até os cavalos estão promovendo o destino com humor e criatividade

A Islândia não quer que os emails estragam sua viagem!

Descobrindo várias das mais bonitas paisagens da Islândia, na geleira Solheimajökull, na falha de Silfra ou frente ao Grande Geysir, uma jovem turista é perturbada por notificações de emails urgentes do seu empregador que parece esquecer que ela está de ferias. Segue então a voz do ator islandês  Olafur Darri Olafsson para lembrar que “Emails do escritório estragam mesmo as férias… mas, ainda bem, a Islândia acho a solução perfeita para esse problema”. Assim comece o vídeo promocional da nova e criativa campanha 2022 de Visit Iceland, já visto por 160.000 youtubers.

ELLE quer inventar uma nova hotelaria

O Maison ELLE em Paris @Elle Hospitality

Nascido na França em 1945, logo depois da segunda guerra, o magazine feminino ELLE sempre escolheu uma linha inovadora, moderna, seguindo ou até antecipando as ambições, os desejos e até os sonhos das mulheres. Foi um sucesso internacional, chegou a ter nos primeiros anos do século XXI 46 edições e 20 milhões de leitoras, incluindo uma edição brasileira muito conceituada. A crise global da imprensa escrita, reduziu algumas ambições internacionais – os magazines foram vendidos e a ELLE Brasil teve que virar trimestral-, mas o grupo Lagardère, dono da marca, decidiu aproveitar para investir na virada digital e na diversificação das atividades.

Dono da marca ELLE, o grupo Lagardère decidiu se diversificar

A marca ELLE já tinha um magazine de decoração, ELLE Decor, oferecia vários produtos e serviços nos setores de moda, beleza e acessorios, e experimentou com sucesso na Ásia a abertura de cafés, Spas e salões de cabeleireiros. Na semana passada, fez mais um passo com o anuncio em Paris de um projeto inovador, o ELLE Hospitality. Essa primeira aventura hoteleira  do grupo Lagardère, apoiada por vários grandes parceiros internacionais, vai ser declinada com dois típos de estabelecimentos: a bandeira Maison ELLE, pequenos hotéis 4 estrelas no coração de grandes centros urbanos, e a ELLE Hôtel, hotéis de alto padrão oferecendo evasão e descoberta.

O DNA da marca quer incluir a valorização da mulher e a cultura local

A abertura da primeira Maison ELLE está prevista para o mês de Setembro em Paris. Localizado perto do Arc de Triomphe o pioneiro da marca terá 25 quartos e uma suite. Com uma decoração valorizando moda e tecidos, uns moveis desenhados e fabricados na França, o hotel quer ser emblemático da arte de viver da mulher “parisienne”. Um salão de chá, um Beauty bar, um SPA, bem como uma “concept store” oferecendo produtos originais de associações de mulheres artesãs, devem ajudar a criar um ambiente feminino, tranquilo e aconchegante. A Maison ELLE quer também ser aberta a encontros e eventos celebrando a mulher e valorizando a arte e cultura local.

ELLE Hotel deve abrir em Jalisco seu primeiro establecimento

O primeiro ELLE Hotel, segunda marca da ELLE Hospitality, será inaugurado na primavera de 2023 em Jalisco no México. Combinando uma oferta de alto luxo e um forte consciência ecológica, este projeto será localizado num trecho intocado da costa do Pacífico do México. O espírito inovador da ELLE será refletido com uma hospitalidade de alto nível, e aproveitará o talento local de mulheres designers e artesãs para criar acomodações luxuosas inspiradas pelo ambiente natural e cultural da região. As conexões emocionais assim estabelecidas dentro da comunidade deverão ser para o ELLE Hotel um fator importante de diferenciação da marca.

Constance Benqué, CEO da Elle, confia na retomada do turismo

Para o sucesso desses projetos, a ELLE Hospitality escolheu três parceiros hoteleiros, todos especialistas de localizações únicas e de conceitos inovadores em design, arquitetura e experiências para os viajantes. Foram apresentados a ACTUR no Mexico, uma imobiliária que também fornece uma plataforma para hospitalidade de lifestyle, a STUDIO V na Europa, o associado do grupo Valotel com foco no design e desenvolvimento de espaços diferenciados, e a Whitney Robinson International no Oriente Médio, empresa colaborando com nomes prestigiosos em arquitetura, arte, design de interiores e moda. O grupo Lagardère lembrou enfim que as ambições da ELLE Hospitality incluirão também a China, os Estados Unidos e o Brasil.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original da revista francesa profissional on-line Mister Travel

Turismo de proximidade ou turismo internacional?

A Embratur apoiou o crescimento do turismo de proximidade

Valorizando viagens no raio máximo de 300 à 500 quilômetros da sua casa, de carro, de trem ou de ônibus, sem atravessar fronteiras e sem precisar de avião, o turismo de proximidade cresceu durante a pandemia. Foi para muitos destinos a única forma de manter alguma atividade no setor. E tradicionalmente focada nos mercados internacionais, as ações promocionais dos grandes atores mundiais voltaram para o turismo domestico. A Italia lançou o Bonus Vacanze para as famílias com baixa renda, a Malásia criou isenção fiscal para os gastos internos, a Costa Rica ampliou os feriados locais, a Atout France lançou  #CetÉtéJeVisiteLaFrance, e no Brasil, a Embratur realizou a campanha “ser brasileiro é estar sempre perto de um destino incrível”.

A França focou varias campanhas no turismo de proximidade

Na hora da retomada, o turismo de proximidade não perdeu essa dinâmica, encontrando importantes apoios junto a vários setores da sociedade. São em primeiro lugar os profissionais que nunca esquecerem que o turismo interno representa nos países da OCDE até 75% das receitas do setor, e que essas receitas são menos sujeitas as crises sanitárias, políticas ou climáticas que as receitas provenientes do turismo internacional. Mas dois fatores levaram o turismo de proximidade a novos apoios: os políticos, que viram num consumo local um meio de melhorar mais diretamente a vida dos moradores, e os defensores do meio-ambiente que mediram o menor impacto de um turismo utilizando menos transporte.

A rivalidade trem/avião é parte da briga proximidade/internacional

A valorização do turismo de proximidade está porem levando a alguns excessos. Regiões ou cidades estão escolhendo estratégias minorando o turismo internacional, e especialmente o turismo intercontinental, cortando as ações de promoção, reduzindo as ligações aéreas,  valorizando areas ou atividades pouco acessíveis a  uma clientela estrangeira. Os novos objetivos dessas políticas turísticas são claramente políticos. E mesmo quando só podem ser aplaudidos por todos – por exemplo quando favorecem a sustentabilidade, a inclusão ou os equilíbrios territoriais -, faltam as ações ou a comunicação para poder assim incrementar as experiências do viajante vindo do outro lado do mar.

Em Nova Iorque, os estrangeiros representam  20% dos visitantes e 80% das receitas

Na maioria dos grandes destinos, muitos atores do turismo não poderiam sobreviver a uma queda duradoura  dos fluxos internacionais que representam um terço das receitas do turismo global. Na França, líder mundial, os turistas internacionais representam 62% do total em Paris e mais de 30% nas capitais regionais. Nesse total, é importante anotar que os gastos médios dos viajantes intercontinentais – Chineses, Estado-unidenses, Japoneses ou Brasileiros- são pelo menos três vezes superiores aos gastos dos europeus, sendo imprescindíveis para os hotéis de luxo, os restaurantes estrelados ou as lojas especializadas.

Cidades catalãs apostam na proximidade

O turismo de proximidade e o turismo internacional não devem ser apresentados com escolhas conflitantes mas como estratégias complementares. Não somente por razões econômicas, mas pela natureza mesmo do turismo. O turismo nasceu como abertura ao mundo, descoberta e intercambio. Hoje ele integrou mais valores na sustentabilidade, no respeito das culturas locais e na vontade de convivência com os moradores. É essa diversidade que faz a atratividade dos grandes destinos turísticos. O crescimento do turismo de proximidade e o amadurecimento do turismo internacional, longe de ser opostos, deve então continuar a ser complementares.

Jean-Philippe Pérol

Celular no avião, uma polémica que já era?

Receber ou fazer ligação durante o voo é quase sempre proibido

Mesmo com o Wi-fi a bordo se generalizando, o cenário de dezenas de celulares tocando  num avião lotado de gente falando alto ainda não aconteceu. Mas poderia muito bem acontecer daqui há um ou dois anos já que os avanços tecnológicos permitam a qualquer celular de receber ligações se o avião tiver os equipamentos necessários, e algumas companhias já autorizam as ligações em rotas especificas. Mas, na imensa maioria dos voos internacionais, as conversas telefónicas são proibidas por quatro tipos de razões distintas: os riscos técnicos, a oposição dos tripulantes, as dúvidas dos passageiros, e a legislação restritiva.

A longa história das ligações telefônicas a bordo

O possível impacto das ligações telefónicas sobre a segurança dos voos tem uma longa historia. Nos anos 90 era autorizadas desde um telefono fixo instalado perto dos galleys, nos anos 2000 foi um aparelho encaixado na sua frente onde era possível falar depois de passar um cartão de credito. Com a sofisticação crescente dos celulares, os temores de interferências com os equipamentos do cockpit levaram nos anos seguintes os especialistas a uma proibição total.  Hoje as pesquisas nunca comprovaram esses riscos, os fabricantes garantem o risco zero para os novos aparelhos, e a segurança eletrônica  não deveria mais ser um motivo de impedir as ligações.

A oposição dos tripulantes é extremamente firme. Eles acham que a liberação das chamadas telefônicas poderia levar ao caos nas cabinas, que brigas as vezes incontroláveis vão acontecer entre passageiros falando alto no telefone e outros querendo tranquilidade. Já gerenciando poltronas reclináveis, excessos de bebidas, luzes noturnas e choros de bebês, as aeromoças e os comissários não querem ser obrigados a interferir em novos conflitos de comportamento.  Alguns sindicatos profissionais levantaram também problemas de segurança pela falta de atenção dada as instruções dos tripulantes pelos passageiros grudados aos seus telefones.

Altos executivos são os mais favoraveis ao uso do celular no avião

Os viajantes e os profissionais do turismo estão divididos sobre essa liberação. Varias pesquisas mostraram que a maioria dos passageiros estão se opondo a um “liberou geral”. Eles temem que os toques das chamadas e as conversas a voz alta levam a uma cacofonia geral, e que discussões sobre níveis de som geram atritos e até brigas. Essas pesquisas mostraram também que menos de 5% dos viajantes acham interessantes poder utilizar os seus celulares durante os voos. Mas esses encontram-se principalmente entre os homens de negócios e os passageiros da classe executiva que as companhias aéreas vão, com certeza, escutar com muita atenção.

A proibição de uso dos celulares ainda é a regra geral

Mesmo se não é internacionalmente proibido de receber ou fazer ligações a bordo, essa proibição existe de fato ou de direito em muitos países. É o caso dos Estados Unidos onde existam não somente restrições da Federal Communications Agency sobre o uso das duas bandas mais utilizadas pelos celulares, mas também uma regra da  Federal Aviation Administration proibindo as conversas por celular nos voos comerciais. No Brasil a ANAC exige que os celulares estejam em modo avião durante o voo. Sem proibir as conversas via aplicativo, pede com bom senso que os tripulantes vigiam “formas incômodas ou inseguras de uso dos celulares como utilização dos alto-falantes ao invés de fones de ouvido, e as comunicações em voz alta”.

O celular nos trens já virou hábito de todos sem gerar conflito!

Os especialistas prevêem que as agencias reguladoras liberarão o uso de celulares nos aviões, deixando as companhias aéreas decidir tanto as possibilidades como as condições de uso. Para evitar os caos sonoros e os conflitos, uma das soluções será talvez de copiar o modelo escolhido por varias companhias de trem que abriram espaços específicos para os passageiros querendo fazer ligações em voz alta. E a longo prazo, é bom lembrar que os millennials e as novas gerações quase não falam mais  diretamente no celular mas deixam mensagens. O bom senso e os novos hábitos de consumo terão evitado uma guerra.
%d blogueiros gostam disto: