Nos vinhedos de Mendoza, o céu do Aconcagua é o limite!

Sob o olhar do Aconcagua, a Sentinela de Pedra, os vinhedos de Mendoza

Se Napoleão I teve uma importância decisiva na historia do Brasil a provocar o exílio do Dom João VI para o Rio de Janeiro, o seu sobrinho Napoleão III teve um impacto indireto quase tão grande na historia da Argentina. Perseguindo os republicanos antes mesmo do seu golpe do 2 de dezembro 1852, ele provocou o exílio do agrônomo Michel Aimé Pouget que trazia nas suas bagagens um grande savoir faire e alguns pés de “Cot”, uma variedade de uva francesa tanina de casca negra e grossa, também conhecida como Malbec. Depois de uma rápida estadia no Chile, o francês escolheu Mendoza onde criou uma escola de agronomia, iniciando o sucesso da sua “uva francesa” que se espalhou em toda região e em até 80% dos vinhedos argentinos.

1884 de Mallman, uma típica mas criativa surpresa gastronômica de Mendoza

Seguindo as grandes tendências da vinicultura mundial, Mendoza virou as costas a partir dos anos 80 a produção intensiva de vinhos de baixa qualidade. Talvez lembrando do glorioso passado do Cahors (o mais famoso dos vinhos franceses feitos com Malbec),  atraiu investidores e wine makers internacionais, e decidiu apostar no enoturismo. Nos arredores da cidade, três micro regiões estão se destacando hoje, cada uma com seu terroir, suas paisagens, seus vinhos e suas ofertas especificas. Alem da própria cidade de Mendoza, onde se escondem boas surpresas gastronômicas, o viajante vai assim poder escolher -ou acumular- experiências em Maipú, Luján de Cuyo e Valle de Uco, as múltiplas opções e as distancias deixando impreterível a assistência de um especialista.

Degustação na adega Susana Balbo

Próximo dos bairros populares da periferia, Maipú foi a primeira região vinícola de Mendoza, é a sede dos mais antigas vinhedos, e foi o local onde o vinho argentino começou nos anos 80 a sua revolução da qualidade. Com uma impressionante arquitetura inspirada das pirámidas maias, a bodega de Cadena Zapata foi pioneira tanto nos vinhos pontuados pelo Parker que nas visitas de enoturismo. Alem de degustações tradicionais, é possível aproveitar o restaurante do seu omnipresente enólogo Alejandro Vigil para uns tastings combinando de três a cinco vinhos do grupo (inclusive o excelente Gran Enemigo Gualtallary) com pratos inspirados do culinário da região. É tambem em Maipú que Susana Balbo, grande figura do enoturismo argentina, tem sua famosa bodega.

A interessante e pedagogica adega de Terrazas de los Andes

Mais ao Sul, Luján de Cuyo atraiu marcas de prestigio, inclusivo o charmoso Cavas Relais Châteaux, opção privilegiada para ficar no meio dos vinhedos. Foi o terroir escolhido pelo grupo LVMH para seus empreendimentos Terrazas de los Andes e Cheval des Andes. Instalada nos antigos galpões de uma vinícola construída em 1898, completamente renovados em 1999, a bodega de Terrazas oferece uma visita com muito conteúdo, mostrando não somente o processo dos vinhos atuais, mas também as experiências realizadas. Um restaurante gastronômico oferece uma bem sucedida harmonização com pratos criativos. A  sede requintada do Cheval des Andes fica a pouca distancia, e ajuda a entender porque esse (grande) vinho, agora blend elegantíssimo de Malbec, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot, mereceu a parceria da Cheval Blanc.

A impressionante entrada da bodega Monteviejo em Clos de los Siete

Nos pés da Cordilheira, o Valle de Uco foi o terroir escolhido em 1999 pelo famoso enólogo Michel Rolland para sediar o deslumbrante Clos de los Siete. Com mais seis amigos de Bordeaux, plantaram 850 hectares de Malbec, mas também de Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Viognier, Chardonnay, Petit Verdot e Cabernet Franc. Alem do Clos de los Siete, quatro propriedades fazem seus próprios vinhos : a Bodega Rolland, a Monteviejo, a DiamAndes, e a Cuvelier de los Andes. As bodegas são ainda mais impressionantes que os vinhos, com um destaque para a DiamAndes. A imponência da sua arquitetura, a sua imensa terraza com vista para os Andes e os vinhedos, as suas obras de arte, o seu bar restaurante aconchegante, e sua adega que parece sair diretamente de um filme do George Lucas, tudo mostra ao viajante que ele está mesmo num novo mundo do vinho onde só o ceu do Aconcaguá é o limite.

Jean-Philippe Pérol

No Cavas Relais Châteaux, enoturismo combina também com tango

A adega futurista de Diamandes

Brindando com Renaud da Diamandes e Jorge da Wine Paths

A visita do autor em Mendoza foi organizada e acompanhada pelo Jorge Barceló, Director da Wines and Adventures of the Andes e especialista local da Wine Paths

Eleições, tempo de dúvidas e de esperanças

Eleições presidenciais vão tambem impactar os rumos do turismo

Para os profissionais do turismo e para todo o setor, época de voto é sempre um momento difícil, onde se misturam sentimentos de dúvidas e de esperanças. Se este ano as tendências estão mais imprevisíveis que nunca e, sem sair de uma neutralidade absoluta, algumas considerações podem ser feitas sobre o que o turismo brasileiro pode esperar das eleições do próximo mês de outubro.  A primeira é de torcer para a própria campanha não atrapalhar as viagens. Épocas de mudanças politicas são sempre complicadas para os grandes executivos do setor público ou privado, e as viagens de negócios ou de “bleisure”, e até as viagens de luxo, podem se retrair de setembro a dezembro, assim como acontece em todos os países.

Com menos 3,8% em 2018, o turismo americano mede o impacto Trump.

Para o turismo exportativo, as eleições sempre impactam de forma muito indireta (nos países democráticos), porque as viagens internacionais são ligadas a três fatores que não dependem especificamente do turismo: a taxa de câmbio, o crescimento econômico e a oferta de voos. O atores do setor devem esperar do novo governo medidas certas para que o câmbio fique estável e assegure  o poder aquisitivo dos brasileiros no exterior, ações para que se renove a confiança dos investidores e acelere o crescimento da economia, e para que aumente a renda das classes emergentes, que são a chave do crescimento do mercado. Enfim, é fundamental que a politica de abertura dos céus para novas transportadoras, inclusive low-costs, seja mantida e até ampliada.

A Segurança é a primeira preocupação dos viajantes

É, sem dúvidas, no turismo receptivo que os profissionais podem ter as maiores expectativas. A transversalidade do setor faz com que as medidas mais necessárias dependam de quase todos os setores do governo. Mais ainda que um ministério próprio, a maior esperança deve ser de ter um futuro presidente pronto a definir o turismo como prioridade nacional, favorecendo seu crescimento através da educação, das infraestruturas de transportes, do urbanismo, da política fiscal, dos investimentos ou das relações exteriores. E, antes de tudo, da segurança pública. É uma urgência para o turismo nacional, que precisa de estradas seguras e de destinos sem riscos. É uma urgência para o turismo internacional, assustado pelos recordes de criminalidade atingidos no Rio de Janeiro e nas grandes cidades do Nordeste.

Presencia nas Feiras internacionais é ponto chave para o trade

As eleições poderão talvez ajudar os novos governos a tomar medidas para favorecer o turismo sem corporativismo e com muita criatividade. O esperado ministro do turismo deve, antes de tudo, convencer os responsáveis políticos em todos os níveis, bem como a mídia, as populações dos destinos e as comunidades, sobre a força do turismo como alavanca do bem-estar e do progresso socioeconômico. Os profissionais devem também torcer  para que este novo ministro seja capaz de levantar os recursos necessários  indispensáveis para ninguém precisar escolher entre o apoio aos investimentos, a formação de pessoal e a promoção internacional. Não há dúvidas de que todas as promessas de campanha incluirão todos esses itens e muito mais. A esperança do setor deve ser de que elas sejam cumpridas desta vez.

Jean Philippe Pérol

“El riesgo es querer quedar te”, a famosa e bem sucedida campanha da Colômbia

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Oito tendências das viagens de luxo que estão chegando …

Os terraços do Palace Shangri La em Paris

Os terraços do Palace Shangri La em Paris

Para os profissionais, as viagens de luxo não são somente as viagens dos turistas com maior poder aquisitivo, nem somente os serviços deixando as melhores receitas, eles são também os melhores indicadores das novas preferencias dos viajantes, os precursores das futuras tendências. Estudando as viagens dos ricos Americanos há mais de dez anos, a Resonance, uma empresa especializada na promoção e no branding dos destinos, publicou uma interessante análises dessas evoluções, Num relatório “2016 Future of Luxury Travel” ela apresentou as principais tendências que traduzem as experiências, os desejos e as mudanças das viagens da classe A dos Estados Unidos e do mundo.

As agencias apostam nas viagens multigerações

As agencias apostam nas viagens multigerações

Para viajantes de luxo, que já andaram pelo mundo inteiro, viajar é uma fonte de mudanças pessoais, precisando assim de experiências únicas. Para chegar a isso, alguns irão procurar fortes emoções sensoriais, outros escolherão a austeridade de um lugar isolado ou de um centro de yoga. Mas a viagem será sempre uma experiência pessoal e um reposicionamento, e não somente a transposição do seu quotidiano num lugar excepcional. Nos últimos anos, essa experiência é cada vez mais divida com varias gerações. É  o “togathering” que junta família e amigos, obrigando hotéis a oferecer suites cada vez maiores e mais numerosas, e residências de turismo a chegar a áreas de  até 1000 m2      

Na Air France, a experiencia do luxo no ar

Na Air France, a experiência do luxo no ar

Para esses viajantes exigindo o melhor, a viagem começa no avião. O luxo já começa no check-in e na sala VIP. Enquanto o avião é para outros um mal necessário para ir de um ponto A a um ponto B, ele deve ser para eles um momento tão agradável e exclusivo que aqueles que os esperam no destino. A pesquisa da Resonance mostrou que a procura do hotel também mudou. Enquanto o importante era somente o luxo interno do hotel,  a hospedagem leve hoje em consideração o meio ambiente, os arredores e os moradores do local com os quais o contato faz parte da experiência dos turistas.

Em Nantes, as "maquinas da ilha"espalhando arte nas ruas da cidade

Em Nantes, as “maquinas da ilha”espalhando arte nas ruas da cidade

As tendências do turismo de luxo mexem também com as atividades. A arte é agora fundamental, virando uma das principais motivações de viagem, não somente para visitar museus ou exposições mas para descobrir a alma dos bairros ou das cidades. A arte é única e rara, e isso é luxo. Ela deve integrar todas as componentes da viagem, inclusive a experiência hoteleira e até a gastronomia. Esses viajantes sendo mais sensíveis ao conforto e a saúde, o bem estar deve ser sempre presente, das formas tradicionais -yoga ou spa – até as suas mais novas propostas como os cruzeiros “saúde”, o “turismo voluntário”, ou as aulas de cozinha dietética. Seguindo o mesmo caminho, o esporte virou culto. Alem do golfe, outros esportes – maratonas ou esportes extremos- estão atraindo viajantes preocupados em melhorar sua condição física. E segundo o  Luxury Travel Report 78 % dos ricos americanos praticam algum tipo de esportes durante as suas ferias (a media dos viajantes sendo somente de 60 %).

Os agentes de viagem e os receptivos ficarão interessados em saber que, para o novo viajante de luxo, o conselho e as dicas são cada ano mais valorizados. Eles procuram especialistas que têm um profundo conhecimento das suas expectativas para poder organizar experiências únicas. O futuro pertencerá aos conselheiros capaz de combinar um forte relacionamento humano com um domínio inovador das tecnologias.

 Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Chantal Neault da na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

Frente as Sources de Caudalies, as obras de arte dos vinhedos de Smith Haut Laffite

Frente as Sources de Caudalies, a arte nos vinhedos de Smith Haut Laffite

O Louvre, quanto tempo e qual roteiro para uma visita do maior museu do mundo?

A Pirâmide do Louvre

A Pirâmide do Louvre

Tinha doze anos e estava entrando no Museu egípcio do Cairo com o meu pai, e ainda hoje me lembro da primeira pergunta do nosso guia: “Vocês querem visitar o museu em uma hora, um dia ou uma semana?”. Mona LisaEra sem dúvida uma pergunta importante (felizmente, meu pai escolheu um dia), e que tem que ser feita antes de iniciar qualquer visita: quanto tempo é necessário para aproveitar um grande museu, e mais especialmente, o museu do Louvre, o mais visitado do mundo com 8,7 milhões de visitantes, incluindo 350.000 brasileiros (a quarta nacionalidade)? E, se não tiver guia, qual itinerário escolher para aproveitar ao máximo o tempo disponível ?

A vitoria de Samotrácia

A vitoria de Samotrácia

Uma pesquisa do Massachussets Institute of Technology, utilizando os sinais Bluetooth dos celulares, seguindo os itinerários e medindo os momentos passados em cada sala, deu pela primeira vez o ponto de vista dos visitantes sobre a organização de uma visita do Louvre. Salles des VerresEla revelou que eles não têm pressa, levam cerca de três horas, com 10% deles levando cinco horas ou mais, e pouquíssimas visitas de menos de uma hora, feitas por pessoas chegando em geral depois das quatro horas da tarde. Olhando uma media de dez a quinze salas, a grande maioria dos turistas segue o itinerário mais esperado, sempre incluindo o Gladiador Borghese, a Venus de Milo, a Vitória de Samotrácia e  La Joconde de Leonardo da Vinci, algumas vezes o Grande Esfinge ou a Salle des Verres.

A Galeria de Apolo

A Galeria de Apolo

A pesquisa mostrou que os visitantes quase não saíam dos “incontornáveis”, e que pontos excepcionais como a Galeria de Apolo ou as salas de egiptologia – essas tão apreciadas pelas crianças por causa das múmias, das imponentes estátuas ou das miniaturas da vida quotidiana na época dos faraós – são pouco visitados. Mas os pesquisadores encontraram a razão dessa escolha: o poder de atração de cada espaço aumenta em proporção do número de pessoas já presentes. Os visitantes atravessam rapidamente as salas vazias e param nas salas cheias, até um ponto crítico onde a atração das obras primas não compensa mais o sufoco da multidão.

A Grande Galeria

A Grande Galeria

Mesmo com suas limitações que os próprios pesquisadores denunciaram – necessidade dos visitantes ter o Bluetooth ligado, não diferenciação dos grupos, impossibilidade de definir as motivações -, os resultados interessam tanto os profissionais quanto os visitantes. Eles ajudarão não somente os viajantes a definir os seus roteiros personalizados mas também o próprio museu a gerenciar melhor os seus fluxos de visitantes, informando mais sobre as obras menos visitados, flexibilizando os horários ou até modulando os preços. Podem também pensar no futuro a incluir na pesquisa os quase quinze cafés ou restaurantes do museu, inclusive o tão charmoso Café Marly, onde nunca deixo de terminar os meus próprios roteiros no Louvre.

Jean-Philippe Pérol

O Café Marly, na ala Richelieu do Louvre

O Café Marly, na ala Richelieu do Louvre

 

 

Turismo atingido preocupa economia, cultura e liberdade!

Abaixo da Pirámida do Louvre

A desvalorização do real, a falta de perspectivas econômicas e as incertezas políticas levaram as viagens internacionais dos brasileiros a uma seria queda em 2015. Se os números finais ainda não são completamente conhecidos, já parece claro que todos os principais destinos – Argentina, Estados Unidos, França, Portugal ou Caribe – enfrentaram redução de 5 a 10% das chegadas de turistas brasileiros. Mars 2015 , um avião quase vazio para MiamiA queda já comprovada dos gastos dos brasileiros no exterior chegou a  31%, de 24 bilhões de dólares em 2014 para 16 bilhões em 2015. Os viajantes se adaptaram com a nova realidade do Real frente ao Euro e (mais ainda) ao Dólar. Os destinos de shopping – e as despesas de compras- caíram, os hotéis mais econômicos e a AirBnb foram destaques de vendas, e a procura pelas promoções de ultima hora das companhias aéreas mudou os hábitos de reserva.

Destinos de compras sofrem com a crise

Com menos viajantes gastando menos, mesmo se adaptando com mais criatividade e mais esforços de produtividade, as operadoras e as agencias de viagem estão enfrentando um cenário de crise, e varias empresas conceituadas já tiveram que demitir funcionários ou até fechar as portas.  Enfraquecidas pela conjuntura, elas estão agora ameaçadas de receber um novo golpe com  mudanças de tributação. Edmar BullDramaticamente denunciada por todos os profissionais, a não reversão da incidência de 25% para 6,38% dos  tributos sobre remessas para o exterior pode levar a um encarecimento violento e uma queda mais brutal ainda das viagens internacionais. Numa carta endereçada a Presidente Dilma, as entidades do setor, lideradas pela Abav e a Braztoa,  lembraram os riscos econômicos que o imposto de 33% traria para as empresas de turismo, podendo levar a perda de  600 mil empregos diretos e indiretos, a R$ 20 bilhões de impacto negativo na economia brasileira, e ao enfraquecimento de um setor que movimentou em 2014, segundo dados da WTTC, 9,6% do PIB nacional.

Dilma e o turismo

Mas o apelo para que não se desse um novo golpe ao turismo brasileiro não deve se limitar a seu impacto econômico. Viajar para o exterior é hoje uma aspiração profunda a qual ninguém está pronto a renunciar, especialmente esses novos viajantes que, nos últimos dez anos,  colocaram o Brasil nas grandes potências do turismo mundial. Para 66 % dos viajantes(*), viagem é cultura, seja vendo monumentos, visitando museus, assistindo a espetáculos, encontrando gente diferente, descobrindo outras gastronomias e outras maneiras de viver, e mais ainda encontrando gente com visões diferentes do mundo. Turismo é cultura! Bloquear as viagens internacionais é também negar esse direito que tantos brasileiros adquiriram há pouco tempo.  Mais ainda, viajar é não somente um direito, mas também uma liberdade fundamental que não pode ser restrita numa democracia. Impedir os seus cidadãos de ir e vir pelo mundo colocando obstáculos – fossem eles financeiros ou tributarios-  não seria um bom sinal nem para os brasileiros nem para o mundo. O turismo internacional deve sem duvidas trazer sua participação a retomada econômica do Brasil, gerando empregos e riquezas. Será porem, com certeza, recebendo muito mais visitantes vindos do mundo inteiro, trabalhando o acervo conquistado na Copa e nos Jogos Olímpicos,  e não tentando impedir as classes emergentes brasileiras de ter acesso a essas maravilhosas experiências de cultura e de liberdade que o turismo pode trazer a cada viajante.

Jean-Philippe Pérol

A estatua da Liberdade e a Torre Eiffel

 (*) Fonte: Pesquisa Atout France e Swiss tourism sobre o turismo exterior da classe media brasileira (2014)

As agencias receptivas nas revoluções do trade turistico!

Agencia receptivo da Wagons-lits no Rio em 1935

A primeira agencia da Wagons lits no Brasil, foto de Abril 1936

Iniciada no mundo literário francês do século XIX, a briga dos antigos e dos modernos divide ainda hoje o mundo das profissões do turismo. Enfrentam-se, com garra e argumentos, pro ou contra o comissionamento das passagens, pro ou contra as vendas diretas das operadoras, pro ou contra as agencias on-line,ECTAA-Lufthansa ou, mais recentemente, pro ou contra a decisão do grupo Lufthansa de cobrar as reservas feitas através dos GDS concorrentes. Cada evolução, seja feliz ou dramática, vira uma batalha verbal (e, as vezes, jurídica) entre aqueles que querem aproveitar as mudanças e aqueles que acham possível atrasar ou até bloquear a chegada das novas regras ou das novas tecnologias validadas – ou não- pelo mundo lá fora.

Se no Brasil o trade já passou por mudanças importantes, e recentemente drásticas, muitas ainda estão acontecendo e o debate sobre as comissões (não) pagas pelas companhias aéreas continua agitando operadoras e associados da ABAV.abav Ao nível internacional, uma nova onda de intermediação esta provocando turbulências que poderiam essa vez perturbar as operadoras. Esses novos atores,  aproximando viajantes experientes e agencias receptivas locais, conhecerem nos últimos anos um forte crescimento em torno de três conceitos simples: colocar diretamente em contato os viajantes (ou as agencias emissoras) com receptivos do mundo inteiro, oferecer serviços extremamente personalizados, deixar ao cliente uma liberdade total referente ao transporte aéreo.

Capture d’écran 2015-08-30 à 11.42.23

Chamados de “Feiras livres de receptivos”, esses intermediários têm várias maneiras de trabalhar. Os pioneiros, Evaneos ou Le Voyage Autrement , possuem registros de operadoras, porém não faturam o cliente e cobram uma comissão sobre as vendas diretas das agencias receptivas presentes nas suas plataformas. O sucesso do modelo levou grandes operadoras a criar sites especializados . voyageur-du-mondeNa França por exemplo, “TraceDirecte” pertence ao grupo Voyageurs du Monde,  e Visages Découvertes foi fundada pela rede de agencias receptivas  Réceptifs Leaders. Essas empresas escolheram uma forma clássica de remuneração, cobrando entre 5 e 17% de comissão e faturando diretamente o viajante. Com a mesma vontade de valorizar as agencias receptivas, mas sem querer acessar ao cliente final,  Doyourtravel  inventou ainda uma outra proposta, tornando-se uma plataforma com ferramentas sofisticadas para as agencias de viagens poder montar e faturar roteiros atraentes. Nesse modelo tanto as agencias receptivas que as emissoras devem comprar uma assinatura para o sistema ao qual os consumidores não têm acesso.

TraceDirecte

Oferecendo viagens de 10 à 25% mais baratos que nos revendedores tradicionais, esses novos atores do turismo atraem clientes não acostumados a agencias de viagem ou operadoras. São ex-backpackers, hoje casados ou com crianças, que querem programar roteiros diferentes e personalizados, mas com segurança e organização. Clientes difíceis de segurar, eles gostam dos contatos diretos com  os receptivos locais,  não ameaçando as grandes operadoras, mas obrigando os especialistas a reagir com criatividade. Travel Agent Day May 06 2015_0Para as agencias tradicionais, esse novo modelo vai com certeza levar a novas brigas entre os antigos e os modernos. Mas é claro que a relação direta, com mais serviços locais, vai também  trazer mais oportunidades, seja para mostrar competências, agregar valor ou atrair novos clientes. A intermediação das “Feiras livres” ainda está se consolidando, mas em todos os casos as agencias receptivos locais continuarão a ser incontornáveis tanto através das grandes operadoras que via os corajosos inovadores do trade turístico.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Bernard Scheou no Reseau Veille Tourisme da “Chaire de Tourisme Transat ESG UQAM”

Capture d’écran 2015-08-30 à 14.49.23