Eleições, tempo de dúvidas e de esperanças

Eleições presidenciais vão tambem impactar os rumos do turismo

Para os profissionais do turismo e para todo o setor, época de voto é sempre um momento difícil, onde se misturam sentimentos de dúvidas e de esperanças. Se este ano as tendências estão mais imprevisíveis que nunca e, sem sair de uma neutralidade absoluta, algumas considerações podem ser feitas sobre o que o turismo brasileiro pode esperar das eleições do próximo mês de outubro.  A primeira é de torcer para a própria campanha não atrapalhar as viagens. Épocas de mudanças politicas são sempre complicadas para os grandes executivos do setor público ou privado, e as viagens de negócios ou de “bleisure”, e até as viagens de luxo, podem se retrair de setembro a dezembro, assim como acontece em todos os países.

Com menos 3,8% em 2018, o turismo americano mede o impacto Trump.

Para o turismo exportativo, as eleições sempre impactam de forma muito indireta (nos países democráticos), porque as viagens internacionais são ligadas a três fatores que não dependem especificamente do turismo: a taxa de câmbio, o crescimento econômico e a oferta de voos. O atores do setor devem esperar do novo governo medidas certas para que o câmbio fique estável e assegure  o poder aquisitivo dos brasileiros no exterior, ações para que se renove a confiança dos investidores e acelere o crescimento da economia, e para que aumente a renda das classes emergentes, que são a chave do crescimento do mercado. Enfim, é fundamental que a politica de abertura dos céus para novas transportadoras, inclusive low-costs, seja mantida e até ampliada.

A Segurança é a primeira preocupação dos viajantes

É, sem dúvidas, no turismo receptivo que os profissionais podem ter as maiores expectativas. A transversalidade do setor faz com que as medidas mais necessárias dependam de quase todos os setores do governo. Mais ainda que um ministério próprio, a maior esperança deve ser de ter um futuro presidente pronto a definir o turismo como prioridade nacional, favorecendo seu crescimento através da educação, das infraestruturas de transportes, do urbanismo, da política fiscal, dos investimentos ou das relações exteriores. E, antes de tudo, da segurança pública. É uma urgência para o turismo nacional, que precisa de estradas seguras e de destinos sem riscos. É uma urgência para o turismo internacional, assustado pelos recordes de criminalidade atingidos no Rio de Janeiro e nas grandes cidades do Nordeste.

Presencia nas Feiras internacionais é ponto chave para o trade

As eleições poderão talvez ajudar os novos governos a tomar medidas para favorecer o turismo sem corporativismo e com muita criatividade. O esperado ministro do turismo deve, antes de tudo, convencer os responsáveis políticos em todos os níveis, bem como a mídia, as populações dos destinos e as comunidades, sobre a força do turismo como alavanca do bem-estar e do progresso socioeconômico. Os profissionais devem também torcer  para que este novo ministro seja capaz de levantar os recursos necessários  indispensáveis para ninguém precisar escolher entre o apoio aos investimentos, a formação de pessoal e a promoção internacional. Não há dúvidas de que todas as promessas de campanha incluirão todos esses itens e muito mais. A esperança do setor deve ser de que elas sejam cumpridas desta vez.

Jean Philippe Pérol

“El riesgo es querer quedar te”, a famosa e bem sucedida campanha da Colômbia

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Turismo e política: dá votos?

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Na véspera de cada grande eleição, seja no Brasil, na França ou em qualquer país do mundo, os profissionais do ramo vão lamentando o pouco espaço dado ao turismo no debate, pondo a culpa nos políticos que nunca estariam dando a esse setor o apoio que justificaria os 9% que ele pesa na economia e nos empregos mundiais. As verbas do turismo são em pouquíssimos países proporcionais a essa importância e ao crescimento de 4 a 4,5% que ele mantêm, mesmo em tempos de crise. De quem é a culpa, dos políticos mesmo?

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No debate presidencial que agita agora o Brasil, é  justo notar que cada um dos candidatos publicou suas propostas para o turismo. A Dilma lembrou os laços com a cultura e a exigência de investimentos em transportes nacionais e internacionais. A Marina foi mais específica, deu especial atenção ao ecoturismo, e a sua proposta de exploração turística dos parques nacionais deveria sem duvidas ser aproveitada, seguindo os exemplos de países como o Canadá que foi pioneiro nesse setor. Aécio foi talvez mais completo. Lembrou que uma política turística começa com pesquisas e avaliações, segue com investimentos específicos, grandes eventos culturais, enfim deve dispor de orçamentos de promoção internacional e de ferramentas de avaliação. Mais importante ainda, ele destacou com razão que o sucesso do turismo tem uma chave: a conscientização da população local dos impactos econômicos e sociais positivos do turismo.Paris-Plage,_the_beach_in_Paris_on_the_Seine,_24_July_2010

Esse apoio dos moradores  é imprescindível, não só para o turismo sustentável mas para todo o setor por três razões fundamentais. Em primeiro lugar porque são os moradores que aproveitam os benefícios do crescimento do turismo, diretamente os empregos e os fluxos financeiros, e indiretamente os equipamentos de lazer, os investimentos de infraestruturas ou os eventos culturais. IMG_0540 - Version 3Em segundo lugar porque será o atendimento dado por eles aos visitantes que contribuirá de forma decisiva a imagem e a qualidade do destino turístico onde vivem e trabalham. Enfim, e isso é o mais importante, porque  só os moradores podem convencer os políticos porque só os moradores votam.

De fato, os políticos não acreditam no turismo simplesmente porque os eleitores não acreditam. Na França, Geraldine Leduc, diretora da associação das cidades turísticas, comentava antes das eleições municipais de fevereiro: “mesmo quando o turismo é o primeiro setor econômico da cidade, essa atividade é, para as populações, sinônima de invasão, de poluição, de insegurança e de preços altos.” E onde se viu que chamar alguém de “turista” era um cumprimento?

Para conseguir mais apoio público, é essa imagem que os profissionais devem reverter, convencendo os eleitores do fantástico potencial de empregos e de riqueza do setor turístico.arts_culture_20130911_DossierCTIGphoto004 Muitos destinos já investiram em campanhas e treinamentos para convencer os locais, incentivando inclusive a ser “turista na sua própria cidade” ou promovendo “staycation”. Na França por exemplo, a Guadalupe realiza há anos campanhas de sensibilização com resultados espetaculares. Para o turismo conseguir o lugar e as verbas que merece dentro dos investimentos públicos, a saída dos profissionais não é reclamar dos políticos, mas continuar a esclarecer os eleitores para o turismo ajudar a ganhar voto !

Jean-Philippe Pérol

PS: os filmes de sensibilização dos moradores realizados pela Publicis Caribead alguns anos atrás para Guadalupe valorizam a agricultura, a pesca e os transportes.