Democratas ou Republicanos, destinos são também Política?

A imagem do Presidente impacta a imagem do pais e do destino

As últimas eleições americanas, e a acirrada disputa que acabou com a vitória de Joe Biden, foram seguidas com muita atenção – e as vezes com muita paixão – pelos profissionais do turismo do mundo inteiro. Agentes de viagem ou hoteleiros sabem que as futuros decisões dos responsáveis políticos impactam de forma decisiva as escolhas dos viajantes. Com rumos diferentes dados pelos governos ao crescimento econômico,  aos índices da bolsa, ao valor de câmbio, as infraestruturas, bem como a imagem do país e de seu “comandante-em-chefe”, os fluxos de turistas podem aumentar, diminuir ou simplesmente mudar de destinos.

O dinamismo de Wall Street impacta diretamente as viagens dos americanos

Se olhar por exemplo os fluxos de turistas norte americanos para Europa nos últimos trinta anos, pode observar que dois desses fatores explicam as flutuações do número de viajantes. O valor do câmbio do USD frente as moedas européias e depois para o EUR, combinado com o nível do índice da bolsa de  Nova Iorque, definem assim claramente as evoluções anuais, baixando até menos de 10 milhões quando for desfavoráveis como em 2003 ou 2008, e subindo até um teto de 18 milhões quando a força do USD se junta com o otimismo de Wall Street, o que foi o caso em 2000, 2007 ou 2018.

Obama se empolgou pela promoção do turismo nos EEUU

Além das suas decisões e dos seus sucessos, os dirigentes democratas ou republicanos influenciam as viagens com sua própria imagem. Olhando a dura concorrência da Europa e dos Estados Unidos para o  primeiro lugar dos seus destinos junto aos viajantes brasileiras, é assim interessante de ver como os brasileiros votaram com as suas viagens. Atrás da Europa no início dos anos 90, os Estados Unidos passaram na frente durante a cia do Clinton. A liderança se inverteu na presidência do Bush, até que a chegada do Obama voltou a por os Estados Unidos no primeiro lugar, posição que eles perderam depois da eleição do Trump. Os jogos estão agora abertos para 2021….

As escolhas politicas americanas impactam os destinos europeus

Uma pesquisa realizada alguns anos atrás pela Atout France nos Estados Unidos mostrou que a própria escolha dos destinos depende também dos perfis políticos dos viajantes. 78% dos entrevistados declaravam que suas convicções partidárias influenciavam as suas viagens. Dos quatro grandes destinos europeus dos estadunidenses, a Inglaterra era “vermelha” (preferida por 87% dos republicanos e somente 18% dos democratas) assim como, em menor escala, a Alemanha (24% dos republicanos e 18% dos democratas), enquanto a França e a Itália eram azuis de forma arrasadora (respectivamente 8% republicana e 73% democrata para a primeira, 14% republicana e 57% democrata para a segunda). Será que viagem é mesmo também politica?

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Turismo e política: dá votos?

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Na véspera de cada grande eleição, seja no Brasil, na França ou em qualquer país do mundo, os profissionais do ramo vão lamentando o pouco espaço dado ao turismo no debate, pondo a culpa nos políticos que nunca estariam dando a esse setor o apoio que justificaria os 9% que ele pesa na economia e nos empregos mundiais. As verbas do turismo são em pouquíssimos países proporcionais a essa importância e ao crescimento de 4 a 4,5% que ele mantêm, mesmo em tempos de crise. De quem é a culpa, dos políticos mesmo?

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No debate presidencial que agita agora o Brasil, é  justo notar que cada um dos candidatos publicou suas propostas para o turismo. A Dilma lembrou os laços com a cultura e a exigência de investimentos em transportes nacionais e internacionais. A Marina foi mais específica, deu especial atenção ao ecoturismo, e a sua proposta de exploração turística dos parques nacionais deveria sem duvidas ser aproveitada, seguindo os exemplos de países como o Canadá que foi pioneiro nesse setor. Aécio foi talvez mais completo. Lembrou que uma política turística começa com pesquisas e avaliações, segue com investimentos específicos, grandes eventos culturais, enfim deve dispor de orçamentos de promoção internacional e de ferramentas de avaliação. Mais importante ainda, ele destacou com razão que o sucesso do turismo tem uma chave: a conscientização da população local dos impactos econômicos e sociais positivos do turismo.Paris-Plage,_the_beach_in_Paris_on_the_Seine,_24_July_2010

Esse apoio dos moradores  é imprescindível, não só para o turismo sustentável mas para todo o setor por três razões fundamentais. Em primeiro lugar porque são os moradores que aproveitam os benefícios do crescimento do turismo, diretamente os empregos e os fluxos financeiros, e indiretamente os equipamentos de lazer, os investimentos de infraestruturas ou os eventos culturais. IMG_0540 - Version 3Em segundo lugar porque será o atendimento dado por eles aos visitantes que contribuirá de forma decisiva a imagem e a qualidade do destino turístico onde vivem e trabalham. Enfim, e isso é o mais importante, porque  só os moradores podem convencer os políticos porque só os moradores votam.

De fato, os políticos não acreditam no turismo simplesmente porque os eleitores não acreditam. Na França, Geraldine Leduc, diretora da associação das cidades turísticas, comentava antes das eleições municipais de fevereiro: “mesmo quando o turismo é o primeiro setor econômico da cidade, essa atividade é, para as populações, sinônima de invasão, de poluição, de insegurança e de preços altos.” E onde se viu que chamar alguém de “turista” era um cumprimento?

Para conseguir mais apoio público, é essa imagem que os profissionais devem reverter, convencendo os eleitores do fantástico potencial de empregos e de riqueza do setor turístico.arts_culture_20130911_DossierCTIGphoto004 Muitos destinos já investiram em campanhas e treinamentos para convencer os locais, incentivando inclusive a ser “turista na sua própria cidade” ou promovendo “staycation”. Na França por exemplo, a Guadalupe realiza há anos campanhas de sensibilização com resultados espetaculares. Para o turismo conseguir o lugar e as verbas que merece dentro dos investimentos públicos, a saída dos profissionais não é reclamar dos políticos, mas continuar a esclarecer os eleitores para o turismo ajudar a ganhar voto !

Jean-Philippe Pérol

PS: os filmes de sensibilização dos moradores realizados pela Publicis Caribead alguns anos atrás para Guadalupe valorizam a agricultura, a pesca e os transportes.