Napoleão III (e Eugênia de Montijo) patrocinando mais um Palace francês…

Napoleão III e Eugênia de Montijo

Pelo número de estações turísticas inauguradas e de hotéis construídos durante o seu reinado, é de se perguntar se Napoleão III não foi de certa forma o pai do turismo francês. Foi por espírito pioneiro, por vontade de desenvolvimento, por favores concedidos a seus companheiros, ou por perdões a pedir à sua ciumenta esposa Eugênia de Montijo, que ele mandou criar ou ampliar estações como Biarritz, Deauville, Cabourg, Houlgate, Arcachon ou Le Touquet. Foi também para ela, madrinha do local que ela tinha descoberto durante uma viagem de Biarritz para sua Espanha natal, que ele decretou a abertura da estação termal de Eugénie-les-Bains. Recebendo hoje da Atout France a invejada distinção de Palace, o badaladíssimo hotel da cidade, os Prés d’Eugénie, se junta aos 24 hotéis franceses que beneficiam desse prestígio pelos próximos 5 anos.

Ambiance champêtre dans le parc. © Les Prés d'Eugénie.

O parque dos Prés d’Eugénie

Depois de um longo período de esquecimento, uma nova saga dos Prés d’Eugénie começou em 1966, quando a atual proprietária, Christine Guerard vem ajudar o seu pai a renovar o hotel e a se juntar aos Relais & Châteaux. Casada em 1972 com o brilhante chef Michel Guerard, ela conseguiu convencer o seu marido a deixar o já famoso bistrô estrelado que ele tinha aberto em Asnières, perto de Paris, e a experimentar as suas novas e revolucionárias ideias no restaurante do hotel. Chegando em Eugenie-les-Bains, e vendo os seus clientes tentarem seguir os regimes para emagrecer, ele inventou a “Grande Cuisine Minceur”, que logo conseguiu uma fama internacional. Recebendo uma primeira estrela Michelin em 1975, a segunda em 1976 e a terceira em 1977!

Michel Guérard dirige les cuisines. Depuis 1977, la Table des Prés d'Eugénie affiche 3 Macarons dans le guide Michelin. © C Clanet

Depois de muitas ampliações, os Prés d’ Eugénie são hoje um verdadeiro conjunto da excelência à francesa. Depois da restauração de um antigo convento do século XVIII em 1989, da Auberge de La Ferme aux Grives em 1993, da Ferme Thermale en 1996, dos Salões e das suítes da Imperatriz em 2009, do Instituto Michel Guerard e do Café Culinaire Mère Poule & Cie em 2013, os Prés d’Eugénie reúnem hoje uma equipe de 180 pessoas que gerenciam 5 prédios, 45 quartos e suítes, 8 jardins e parques, 3 restaurantes, um spa e um vinhedo, um total de 8 hectares de luxo e de elegância. E para quem não quer dispensar uma praia, Michel abriu no litoral dos Landes, a 100 quilômetros do hotel, um “Beach House”, onde os mais aventureiros encontrarão os mesmos valores.

O Beach House do Michel Guerard em Huchet

Às vezes desastroso e outras visionário, Napoleão III foi, sem dúvida, inspirado quando favoreceu o lançamento de Eugénie les Bains, sendo assim, um distante padrinho do Prés d’Eugénie, assim como ele havia sido o padrinho de outro hotel que viraria Palace, o hotel do Palais em Biarritz. Tendo incentivado a construção de numerosos hotéis, inclusive o Grand Hotel de Paris, onde um outro Imperador, Dom Pedro II, gostava de se hospedar, ele também ajudou na divulgação do turismo de praia e do termalismo, convidando políticos de toda Europa nas estações que ele frequentava. Foi assim a entrevista decisiva para o apoio da França, e a unidade italiana deve tudo à pequena cidade termal de Plombières, onde o Cavour conseguiu do Imperador o apoio militar necessário para liberar a Itália. Se esse papel do Napoleão III na promoção do turismo é, por vezes, esquecido, ele é sempre lembrado em Eugénie-les-Bains, nas comemorações da pequena cidade, na elegância ou no refinamento do Palace do Michel Guerard.
Jean-Philippe Pérol

A suíte imperial, homenageando Eugênia

Diversificação da hospedagem virou chave do sucesso do turismo francês!

Paris plage, uma nova imagem da cidade luz!      @Loic Lagarde

Enquanto a França reencontra os turistas internacionais – 6% de crescimento das chegadas no primeiro semestre, com um destaque especial para o Brasil que teve um aumento de 22,7%, e um novo recorde de 89 milhões de turistas anunciados pelo ministro das relações exteriores-, uma das suas principais ambições é de oferecer hospedagens em sintonia com as novas exigências dos viajantes. Junto com os investimentos para melhorar a qualidade e a quantidade, os esforços bem sucedidos para diversificar as hospedagens são uma das principais razões da volta dos turistas tanto em Paris que nos principais destinos franceses.

O Restaurante do Mama Shelter de Paris

A criatividade dos novos alojamentos turísticos pode ser comprovada em muitos projetos, dos hotéis boutique até os “Mama Shelter” ou os “glamping”, mas duas categorias estão se destacando nesses esforços bem sucedidos combinando iniciativa dos profissionais e responsabilidade das autoridades para ampliar uma oferta respondendo a procura de viajantes  cada vez mais diversificados. O sucesso da “Distinction Palace” contribuiu muito para consolidar a liderança de Paris e da França na hotelaria de altíssimo padrão. Criada em 2014, essa categoria muito especial, premiando estabelecimentos já titulares de 5 estrelas assim selecionados por uma comissão de personalidades independentes, ja reune 23 hotéis – 10 em Paris, 12 nos outros destinos da Franca metropolitana e um em Saint Barthelemy.

As Sources de caudalie, um dos Palaces premiados em 2016

Exclusividade francesa, os “Palaces” foram não somente um reconhecimento do “savoir faire” desses profissionais do luxo, mas também um forte incentivo a renovação ou até a abertura de novos estabelecimentos. Em 2016, sete hotéis ganharam a distinção, vários deles muito acostumados  com brasileiros como o Eden Roc na Riviera, o Cheval d’Argent en Saint Barthelemy ou as Sources de Caudalie perto de Bordeaux. Para 2017 e 2018 mais candidatos estão se preparando, especialmente os lendários Hotel Lutetia e Hotel de Crillon. Construído em 1758, essa prestigiosa mansão, que foi transformado em hotel de luxo em 1909 e participou da aventura da Route du Bonheur e dos Relais & Châteaux, reabriu agora depois de dois anos de renovação.

O Hotel de Crillon agora renovado

As obras combinaram o total respeito da faixada e das partes tombadas do Hotel, as necessárias inovações para atender as exigências dos viajantes do século 21, e criatividade de grandes designers para os restaurantes (Minossian), os quartos (Vergniol) e as suites assinadas pelo Karl Lagerfeld que dedicou uma delas a sua gata Choupette …. O novo Crillon tem assim menos quartos (124 em vez de 147), mas com 33 suites e 10 suites “Signature” de altíssimo padrão. O restaurante gastronômico não fica mais no salão dos Embaixadores mas numa sala menor chamada L’Ecrin com o jovem chef Christopher Hache e uma adega de 43.000 garrafas. Nas novidades mais esperadas constam um bar espetacular,  uma piscina e um spa (num segundo subsolo cavado especialmente), bem como um “cigar loundge” para os amadores de charutos. Detalhes que ajudarão a reforçar a imagem de Paris no segmento de turismo de luxo.

Bordeaux, cidade pioneira na regulamentação dos alugueis C2C

Mas o provável novo recorde de turistas internacionais que a França deve atingir esse ano se deve também ao espetacular sucesso  de hospedagens alternativos que mostram a forte diversificação da oferta francesa. Assim a hospedagem não comercial (parentes e amigos), que chega a 34% dos pernoites, com um forte crescimento nos últimos anos  junto aos viajantes vindo da Asia ou das Américas ((o não comercial representa hoje 22,5% dos 8,2 milhões de pernoites de turistas brasileiros na França).  Assim os alugueis “de pessoa a pessoa” da AirBnb e dos seus concorrentes. Representando hoje 26,7% dos pernoites comerciais, essa forma de hospedagem atrai especialmente os  turistas provenientes dos Estados Unidos, da Australia e do Brasil (seriam mais de 1,5 milhões de pernoites de brasileiros). Agora mais regulamentada para respeitar tanto os concorrentes que os moradores, ela deve continuar a crescer, contribuindo a ampliar e diversificar a oferta de hospedagem na França. Uma diversificação que atrai novos viajantes e  consolida a  liderança francesa no turismo mundial.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

O glamping, glamour e camping, chegou com toda força

Mais três “Palaces” em Paris, na “Côte d’Azur” e no Caribe francês

Le Cheval Blanc Saint Barth Isle de France, primeiro Palace do Caribe francês

Le Cheval Blanc Saint Barth Isle de France, primeiro Palace do Caribe francês

A mais espetacular novidade da classificação hoteleira francesa foi sem duvidas a inauguração em 2010 de uma categoria “Palace”, uma exclusividade mundial concebida pela Atout France, a agência de desenvolvimento turístico da França. Premiando hotéis 5 estrelas com uma situação geográfica excepcional, um interesse histórico e patrimonial, um serviço perfeito e uma fama internacional, a distinção é atribuída por 5 anos por uma comissão de personalidades da cultura, da imprensa, da economia e do turismo. Depois da sua ultima reunião, foi anunciado dia 22 de Julho que o restrito clube dos Palaces franceses estava se abrindo para três novos estabelecimentos em Paris, na Côte d’Azur e em Saint Barthelemy.

O Peninsula renovando a tradição do Majestic

O Peninsula renovando a tradição do Majestic

Em Paris, foi destacado o Peninsula, hotel da avenida Kleber pertencendo ao grupo de Hong Kong que já abriu dez hotéis de luxo em Xangai, Chicago, Tókio, ou Nova Iorque. O novo Península reabriu em 2014  num dos prédios com a mais prestigiosa historia da hotelaria parisiense. Construído no local de um palácio pertencendo à rainha da Espanha, ele foi inaugurado em 1908 com o nome de Hotel Majestic, ponto de encontro da alta sociedade da Belle Époque. Depois da segunda guerra virou um centro de congressos internacionais do ministério das Relações exteriores (aí foram negociados os acordos de paz finalizando a guerra do Vietnã), foi reaberto como hotel depois de uma longa, criativa, requintada e espetacular renovação que o deixou com 200 quartos sofisticadas e um requinte de “Palace” muito parisiense.

 

O Eden Roc, o lendário hotel da Côte d'Azur

O Cap Eden Roc, o lendário hotel da Côte d’Azur

Na Côte d’Azur, a Riviera Francesa, é o hotel Cap Eden Roc de Antibes que recebeu a distinção, construído em 1870, pelo fundador do famoso diário francês Le Figaro, Hippolyte de Villemessant, o hotel, então chamado de Villa Soleil, foi desde a sua inauguração um refugio para artistas, escritores e celebridades. Quartos e salões lembram as estadias de hóspedes como Marc Chagall, o duque e a duqueza de Windsor, George Bernard Shaw, Francis Fitzgerald, ou os grandes eventos que marcaram o hotel e suas dependências. Hoje pertencendo ao grupo Oetker Collection, o Cap Eden Roc terminou em 2013 uma longa renovação  que o projetou como um irresistível candidato para a distinção de Palace.

O luxo do Cheval Blanc frente a praia de Saint Barthelemy

O Cheval Blanc frente a baia dos Flamengos em Saint Barthelemy

Enquanto os “Palaces” reconhecidos até hoje são todos localizados na França “europeia”, a comissão decidiu pela primeira vez premiar um hotel localizado no Caribe francês, na exclusiva ilha de Saint Barthelemy já famosa por hospedar sete hotéis de cinco estrelas – incluindo o Guanahani, o Eden Roc ou o Sereno–  nos seus procuradíssimos 21 quilômetros quadrados (é menor que Fernando de Noronha). A comissão entregou para o hotel Cheval Blanc Saint Barth a primeira distinção Palace ultra-marina. Comprado em 2013 pelo grupo LVMH, o novo Palace é um pequeno hotel de 40 quartos localizado na Baia dos Flamengos, no norte da Ilha. Famoso pelo seu SPA e pela qualidade do seu restaurante franco caribenho, ele é o segundo hotel do grupo a conseguir a prestigioso distinção já alcançada pelo Le Cheval Blanc de Courchevel. Um sucesso que levará sem dúvidas vários prestigiosos concorrentes a se preparar para a próxima reunião da comissão de atribuicão da distinção Palace, já anunciada pelo Secretario do Turismo francês Mathias Fekl.

O Cheval Blanc de Courchevel, primeiro Palace do grupo LVMH

O Cheval Blanc de Courchevel, primeiro Palace do grupo LVMH

19 estabelecimentos receberam até hoje a distinção  “Palace” :
– Hôtel du Palais – Biarritz
– Hôtel Les Airelles – Courchevel
– Hôtel Le Cheval Blanc – Courchevel
– Hôtel Le K2 – Courchevel
– Hôtel Four Seasons George V – Paris
– Hôtel Le Bristol – Paris
– Hôtel Le Mandarin Oriental – Paris
– Hôtel Le Meurice – Paris
– Hôtel Le Park Hyatt Paris Vendôme – Paris
– Hôtel Le Plaza Athénée – Paris
– Hôtel Le Royal Monceau – Raffles Paris – Paris
– Hôtel Le Shangri-La – Paris
– Hôtel Le Peninsula – Paris
– L’hôtel La Réserve – Ramatuelle
– Hôtel Le Grand-Hôtel du Cap-Ferrat – Saint-Jean-Cap-Ferrat
– Hôtel Le Cap Eden Roc – Antibes
– Hôtel Le Byblos – Saint-Tropez
– Le Château de la Messardière – Saint-Tropez
– Hôtel Le Cheval Blanc Saint-Barth Isle de France – Saint-Barthélemy

 

O Ritz voltando com seus mitos, sua história e sua excelência

A praça Vendôme e sua coluna comemorando as vitorias do Napoleão

A praça Vendôme e a coluna comemorando as vitórias do Napoleão

Honrando sua lendária discrição, e agora esperando a sua classificação de Palace , o Hotel Ritz reabriu suas portas Place Vendôme no último dia 14 de Junho depois de quatro anos (e de 400 milhões de Euros) de completa renovação. A inauguração do Ritz em 1898Se o mais famoso dos hotéis de Paris não pertence mais, desde 1979, a família do seu fundador, o novo proprietário, o excêntrico empresário britânico Mohamed Al Fayed, fez questão de conservar os valores que o Cesar Ritz exigiu de seguir nas obras de 1897, a elegância do classicismo e o conforto da modernidade. Transformando os então Hotel de Gramont, residência de prestigio do final do século XVIII, num grande hotel de luxo, Ritz respeitou a arquitetura original, mobiliou os salões e os quartos com moveis da época, mas exigiu que não faltassem as novidades tecnológicas de 1898: elevadores, telefones, luz elétrica e banheiros em cada um dos 159 quartos.

O Hotel Ritz renovado abriu com 17 quartos a menos, mas com a mesmo vontade de reinventar uma experiência  combinando seus três séculos de tradições com as mais modernas tecnologias do terceiro milênio. Para entrar no hotel, conservaram a tradicional porta giratória, mesmo se agora automatizada, e o lobby continua localizado na famosa galeria, mas abriu-se um novo espaço, o salão Marcel Proust, uma grande biblioteca onde será servido chá “a francesa” acrescentado com as “madeleines” favoritas do grande escritor. IMG_8501Um novo pátio, o terraço Vendôme, separa dois jardins de inverno com inovadores tetos retráteis que ampliam o bar Vendôme e o restaurante gastronômico L’Espadon. Em volta das mesas, a decoração manteve as tradicionais poltronas Luis XV, com seus ganchinhos de pendurar bolsas que o Cesar Ritz se orgulhava de ter inventado. E no famosíssimo Bar Hemingway, o hotel faz questão de confirmar que tudo foi refeito mas que absolutamente nada mudou, inclusive o bar-tender e sua fama de melhor bar-tender do mundo. Uma fama que o Colin Field merece, tanto pela qualidade dos coquetéis que ele colocou no seu cardápio que pelas historias que ele conta com prazer e talento para os seus visitantes.

O Bar Hemingway

O Bar Hemingway

Para subir para os quartos, a escada monumental do Ritz é impressionante de grandeza com seu corrimão  de ferro forjado e cobre, e seu tapete vermelho estampado com barras de latão . No primeiro andar fica a suite Imperial, com seis metros de pé direito, seus tecidos de seda selvagem e sua cama isolada do resto do quarto com uma balaustrada. A suite Vendôme do RitzNo segundo andar destaque-se a suite Coco Chanel com moveis dos anos 50, e um biombo de laca chinesa. Nas suites, e também nos quartos, peças de arte ou moveis únicos personalizam cada ambiente. A tecnologia é presente em todo os detalhes – luzes, cortinas, televisão, som ou ar-condicionado – mas o designer fez questão de guardar as caixinhas com botão inventadas pelo próprio Ritz para chamar as camareiras.

Coco Chanel num salão do Ritz

Coco Chanel num salão do Ritz

Mas o Ritz não deve somente a sua fama a seus quartos ou aos seus bares ou restaurantes, mas as personalidades que marcaram a sua historia e, em alguns casos, construíram o seu mito. A historia confirma que personalidades famosas como Jean Cocteau, Colette, Vanderbilt, Rockefeller, Hemingway, Scott Fitzgerald, Charlie Chaplin  ou Otto de Habsburg frequentaram o hotel.  HemingwayDurante a Primeira Guerra virou hospital militar, e foi ocupado durante a Segunda pelos alemães, um deles sendo o amante da Coco Chanel que morou mesmo durante 37 anos em varias suites do hotel. O Hemingway contribui ao mito, inventando que tinha pessoalmente liberado o Ritz en agosto 1944 com um grupo da Resistência francesa, deixando uma conta de 51 dry Martinis no Bar que hoje tem o seu nome, e no qual escreveu uma linda declaração de amor para esse hotel fora do comum: “Quando eu sonho do Paraíso, a historia sempre acontece no Ritz de Paris.”

Jean-Philippe Pérol

O Spa agora administrado pela Chanel

O Spa, agora oferecendo produtos da Chanel

A Accor se firmando no luxo com os míticos Hotéis Raffles

Royal Monceau Rafes em Paris

Royal Monceau Raffles em Paris

Anunciando a compra da Fairmont Raffles Hotels International, Stéphane Bazin, CEO da Accor, confirmou não somente uma aquisição estimada em 2,9 bilhões de dólares, a maior da sua história, mas a entrada do grupo francês no seleto clube dos 5 grandes da hotelaria de luxo. Sebastien Bazin anunciando a compra da FairmontMesmo ficando longe do líder do setor, o Americano Marriott-Starwood, que junta 800.000 quartos, Accor pode contar agora com 100.000 apartamentos divididos em mais de 500 hotéis de luxo. Com três novas marcas, o grupo adquiriu também vários estabelecimentos de prestigio, como o “Palace” Royal Monceau em Paris, o Savoy em Londres ou o Raffles em Singapora, esse mítico estabelecimento aberto em 1887, orgulho do Império britânico, cujos hospedes refinados e fleumáticos chegaram em 1942 a exigir dos  soldados japoneses que invadiram o hotel  de deixar-los acabar o baile antes de ser presos.

O mítico Raffles Hotel de Singapura

O mítico Raffles Hotel de Singapura

Essa operação foi financiada em parte com uma entrada no capital do Qatar (Qatar Investment Authority) e da Arábia Saudita (Kingdom Holding Compagny) que virarão, se as autoridades anti-trust autorizaram, os dois maiores acionistas da Accor. O grupo vai assim reforçar sua posição no setor da hotelaria de luxo, aumentando seus lucros e permitindo uma projeção de 650 hotéis até 2020. O Bar do RafflesA compra da Fairmont vai ajudar a Accor a reequilibrar geograficamente suas atividades, hoje concentrada a 65% na Europa, para a América do Norte e a Ásia onde a Raffles, a Fairmont et a Swissôtel são mais presentes. Segundo o próprio Bazin, essa estratégia focada no luxo é também uma resposta ao crescimento da AirBnb que preocupa todas as grandes empresas hoteleiras, obrigando as marcas mais econômicas a se reposicionar,  mas ainda poupando os segmentos de prestigio menos sensíveis as guerras de tarifas ou aos charmes da Internet.

O Sofitel Copacabana

O Sofitel Copacabana

A aquisição das três marcas e dos 115 hoteis da Fairmont Raffles Hotels International deve então ser um sucesso decisivo na longa caminhada da Accor para se firmar no lucrativo segmento do luxo – com suas diárias acima de 500 dolares e suas margens de rentabilidade superiores a 5%. O grupo superou o fracasso de 1994, quando o então Presidente da Air France se recusou a vender a seus compatriotas os 60 hoteis da sua filial Le Meridien (Incluindo na época o Meridien Copacabana e o Meridien Salvador).Folheto do Le Meridien Copacabana A virada  começou em 2007, quando Accor firmou a escolha de uma cadeia de luxo excluindo 80 dos então 120 Sofitel. A nova estratégia apostou em hotéis definidos pela arte de viver a francesa, seu design, sua gastronomia e sua cultura, mas aproveitando também todas as características das suas localizações. E se na América Latina, o grupo jà conseguiu se posicionar com  hoteis prestigiosos em Cartagena, Buenos Aires, Montevideu, Rio ou Guarujà, a chegada da Raffles abrirá talvez novas perspectivas em São Paulo.

Jean-Philippe Pérol

O SPA "My blend" da Clarins no Royal Monceau

O SPA “My blend” da Clarins no Royal Monceau

Biarritz: Luxo, surfe, samba e golfe nos passos da Imperatriz Eugenia!

Hotel du Palais

O Hotel du Palais, cartão postal de Biarritz

Martinho da Vila e a Vila Isabel ovacionados numa aristocrática cidade do litoral atlântico da França?  A insólita noticia só podia chamar a atenção do Brasil para a cidade de Biarritz e seu festival do Filme Sul-americano onde estreou na semana passada o filme “O Samba”. téléchargementMais insólito ainda era o fato que algumas semanas antes, em Anglet, um subúrbio norte da aglomeração,  o surfista brasileiro Bino Lopes  tinha também se destacado ganhando a etapa do WSL Qualifying Series 2015, derrotando o francês Andy Crière nas ondas da praia chamada de “La Chambre D´Amour”. Se tanto o surfe como o samba pode parecer destoar nessa sofisticada cidade balneária do Pais Basco francês, Biarritz sempre foi – e ainda é- um destino que gosta de surpreender seus visitantes, seja a Rainha Vitoria, a Imperatriz Sissi e a princesa imperial russa Youriewski  nos anos 1890, ou o Martinho da Vila hoje.

A imponente casa onde ficou a Rainha Vitoria

A historia de Biarritz é mesmo imperial, quando foi escolhida como residência de verão pela bela Eugenia, esposa espanhola do Napoleão III, que gostava desse então vilarejo de caçadores de baleias, próximo da fronteira com a sua terra natal. Saloes do Hotel du PalaisA lenda conta que, para se fazer perdoar suas aventuras amorosas extra-conjugais, o Imperador lhe ofereceu em 1854 um palacete, a Villa Eugénie, com uma vista excepcional da beira mar, que virou logo um ponto de encontro de toda nobreza da Europa. Vendido e transformado em Hotel Cassino em 1880, tendo adotado em 1893 o nome atual de Hotel du Palais, ele foi completamente reconstruído depois de um incêndio em 1903 com uma planta em “E” para homenagear a Eugenia. O Spa do Hotel du PalaisHoje distinguido com o titulo de “Palace” outorgado através da Atout France, o Hotel du Palais é o símbolo mais forte do destino Biarritz, o lugar imperdível para passar pelo menos uma noite, aproveitando a decoração inspirada do “Secundo Império”, a faixada de estilo “neo-Louis XIII” inspirada do palacete original, ou um dos restaurantes com o cardápio assinado pelo chefe Jean-Marie Gauthier.

Golfe do Farol em Biarritz

O campo de golfe do Farol

A sofisticação de Biarritz vem também dos seus campos de golfe, o Campo do Farol, o segundo mais antigo da Europa depois do lendário Saint Andrews, o Campo de Chiberta na descontraída Anglet ou o Campo de Ilbarritz com seu barranco caindo para o Oceano. Chique pode ser andar num velho 2CV da CitröenO chique pode também ser sair nas estradas do Pais Basco – nas trilhas outrora usadas pelo contrabandistas – para visitar os pequenos vilarejos vermelhos e brancos, dirigindo um velho 2CV amarelo da Citröen. Chique pode ser simplesmente caminhar na beira-mar, andar na passarela construída em 1887 pelo Gustave Eiffel para chegar até a espetacular Roca da Virgem, padroeira dos caçadores de baleias, e suas pedras furadas enfrentando as ondas. rocher-de-la-viergeE quando chega a noite, Biarritz volta a ter a saudade das festas da Imperatriz. Se o Hotel do Palais hospede muitos dos numerosos grandes eventos organizados na cidade, o Cassino fica agora no imponente edifício “art nouveau” construído em 1929 diretamente na areia da mesma praia, com um concorrido restaurante aberto para o mar e um imponente salão do Embaixadores. Saudade da Eugenia?

Jean-Philippe Pérol

Cassino de Biarritz

O Cassino de Biarritz

 

Surfistas em Biarritz

Novos investidores nos mais tradicionais hotéis e palaces de Paris!

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Aproveitando desde 2008 incentivos fiscais muito favoráveis, investidores internacionais estão tomando posse dos mais prestigiosos hotéis e palaces de Paris. Entre os mais dinâmicos, destaquem se as monarquias do Golfo, o sultão de Brunei e recentemente os chineses. Com impressionantes programas de renovação, trazendo novas bandeiras, deixaram as criticas do lado e estão ajudando a consolidar Paris como um dos destinos no mundo com a melhor hotelaria.…

Os qataris estão liderando com três estabelecimentos. O primeiro é o Le Grand Hotel. Com sua excepcional localização frente ao Opera de Paris, ele foi inaugurado em 1862, junto com o seu Café de la Paix, pela imperatriz Eugenie, esposa do Napoleon III, o imperador que mandou o Barão Haussmann redesenhar Paris e construir a Opera Garnier. cafe_de_la_paix_paris_france_optDepois de varias renovações, o hotel era desde 1982 propriedade e bandeira da Intercontinental. A bandeira vai ficar mais 30 anos com o grupo americano, mas o hotel pertence desde dezembro de 2014 ao Fundo qatari Constellation que pagou 330 milhões de Euro, inclusivo 60 milhões para a renovação dos 400 quartos e das 70 suites. Esse mesmo fundo do Qatar já tinha comprado em 2013 varios grandes hotéis franceses tais como o Concorde Lafayette, o Hotel do Louvre ou o Martinez em Cannes.

Os qataris investiram também em 2010 no Royal Monceau, um “Palace” parisiense construído em 1928. Depois de uma renovação completa assinada pelo grande designer francês Philippe Starck, ele tinha reaberto em 2010 com a bandeira da Raffles Hotels de Singapora. Le_Royal_Monceau_Raffles_Paris_-_Le_Restaurant_Italien_Il_Carpaccio_2-resizeO fundo soberano do Qatar seria também dono do prestigioso Ritz, na praça Vendôme. Atualmente em renovação, esse hotel espera ganhar a prestigiosa distinção de “Palace” que ele ainda não tem. Com a ajuda de uma historia impressionante – destacando-se as figuras de Coco Chanel e Ernest Hemingway- e do grande arquiteto designer Thierry Despont, a reabertura no primeiro semestre 2015 será sem duvidas espetacular.

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Os sauditas compraram dois dos mais famosos hotéis de Paris. O primeiro é o Crillon, ícone da praça da Concorde e fundador da aventura dos Relais Chateaux. Hoje fechado para obras, deve reabrir esse ano com uma bandeira americana, Rosewood Hotels and Resorts. O segundo é o George V, construído em 1928 perto dos Champs Elysees, que pertence por parte ao príncipe Talal e por parte a Bill Gates. Ele é administrado pela Four Seasons e conseguiu também a distinção de “Palace”.

Muito criticado na imprensa pela sua politica interna muito rigorista, o Sultão de Brunei é outro grande investidor nos “Palaces” de Paris. É hoje dono do Meurice, tradicional estabelecimento aberto em 1835 frente aos Jardins des Tuileries, e do Plazza Athénée, endereço muito querido da alta sociedade brasileira, com seu restaurante do Alain Ducasse e sua adega de 35.000 garrafas. Ambos hotéis fazem parte do Dorchester Group.

MandarinLobby

Em julho 2014, a admissão do Shangri-La e do Mandarin Oriental no fechadíssimo grupo dos “Palaces” parisienses chamou a atenção sobre os investimentos chineses nos hotéis de Paris. Com o outrora Hotel Majestic, que reabriu como Península, são três grandes estabelecimentos parisienses comprados por empresas de Hong Kong.

Com os mais lindos hotéis de Paris pertencendo a esses novos investidores (inclusive 6 dos 8 “Palaces”, o Bristol sendo o único a pertencer a uma família do velho continente), e todos com bandeiras estrangeiras, não faltaram vozes para se preocupar com a autenticidade e/ou o charme francês do serviço oferecido aos turistas. CONCIERGEMas quem teve a sorte de hospedar num desses hotéis pode confirmar que todos eles continuam de oferecer o melhor do “savoir-faire” à francesa, e pode assegurar que cada detalhe, da arquitetura da faixada até as dicas do concierge, respeita o inigualável charme de Paris, o mesmo que atraiu esses novos e bemvindos investidores.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original do Serge Fabre publicado no site da Pagtur 

Magia do luxo agora nas paginas economicas!

Mostrando, se precisava, a importância que o turismo de luxo està tomando, Valor econômico publicou ontem um destacado artigo ilustrando as tendências do publico brasileiro, e as oportunidades da França nesse setor onde hotéis de luxo e ‘palaces’ estão acreditando no Brasil !
Extravagância é o que não falta no reduto cada vez mais amplo da chamada hotelaria de luxo. De jatinhos usados para translado, decorados com os mesmos adereços das suítes, a tendas armadas no meio da floresta para agradar a quem busca experiências insólitas, não há limites quando a ideia é capturar o público endinheirado. Fato é que de uma década para cá, a hotelaria de luxo transita da antiga aspiração aristocrática para uma realidade na qual o dinheiro dos emergentes é quem dita as regras. Com a banalização crescente de conceitos como “luxo” e “novo luxo”, para muita gente que atua no setor, talvez seja a hora de rever o significado desses standards.

“O tempo e o uso inadequado fazem algumas palavras adquirirem um tom meio pejorativo. Luxo é uma delas”, diz Lucita Marques da Costa, diretora da X-Mart Consultoria e Marketing em turismo. “A palavra costuma ser usada pela indústria de turismo para vender hotéis, onde basta ter uma piscina, lustres falsos de cristal – na verdade, de plástico – e imitações de obras de arte, para que tudo seja ‘um luxo’. No Brasil, o mesmo acontece com a palavra resort. Não a uso de jeito nenhum. Pois resort é sinônimo de áreas de lazer imensas, multidão, aulas e atividades de todo o tipo.”

Numa avaliação mais criteriosa, o que poderia ser considerado luxo na hotelaria é o encontro entre a paisagem e o produto. Nesse sentido, além da localização e de instalações adequadas, o hotel deve ter um staff capaz não só de servir bem, mas de ajudar o visitante a conhecer a região pelos olhos de quem a habita. Isso inclui informações e sugestões de programas que vão além do bê-á-bá dos guias mais conhecidos.

Se o desafio é reavaliar o conceito, uma das formas passa por estabelecer uma distinção entre o que é luxo material e subjetivo. E, antes de tudo, lembrar: os hóspedes que frequentam hotéis que, pelo preço, se enquadram nessa categoria, já possuem tudo o que encontrarão no quarto – televisores de grandes dimensões, canais internacionais à disposição, lençóis de mil fios de algodão egípcio e banheiros com produtos de grife.

“O luxo tem que ter um pouco de magia. Não uma louça de US$ 1 milhão”, acredita Jean-Philippe Pérol, diretor da Atout France para as Américas. Para ele, o refinamento pede um substrato cultural. “Há dois caminhos. Você pode pensar no Ritz como um produto perfeito. Ou conseguir visitar a gruta de Lascaux, algo dificílimo, e entender isso como um luxo extraordinário.”

Discutir esse assunto no Brasil é fundamental, diz Pérol, já que o país se tornou um ator importante na hotelaria de luxo internacional. “Os brasileiros, nos últimos anos, oscilam entre o quinto e sexto lugar entre os principais clientes do turismo de luxo. Se a gente pensar, existe algo engraçado nisso: sempre há mais brasileiros do que alemães nos hotéis de luxo de Paris, mas a cidade tem 20 vezes mais turistas alemães do que brasileiros.”

A França é o único país a ter regulamentada uma categoria hoteleira fora da classificação por estrelas. É o segmento “palace”. Há 14 hotéis-palácio, que obtiveram essa distinção não só por questões arquitetônicas e históricas ou por cumprir exigências técnicas. Todos foram avaliados em visitas anônimas e foram aprovados por um júri, presidido por um acadêmico.
Jean-Philippe Pérol

O artigo completo da Maria da Paz Trefaut está em http://www.valor.com.br/cultura/3356452/para-quem-se-da-ao-luxo#ixzz2m8OGiybS