No Les Sources de Caudalie, o luxo agora é emoção

Nascida nos vinhedos de Bordeaux, a visão de um turismo enraizado nos “terroirs” levou Alice e Jérôme Tourbier a desenvolver não somente o primeiro hotel categoria Palace da região, mas um verdadeiro conceito inovador e respeitoso do ecossistema. Também presidente de   Small Luxury Hotels of the World , Jérôme respondeu a uma entrevista sobre os desafios do turismo de luxo e a evolução do seu grupo hoteleiro .

Alice e Jérôme Tourbier, donos do grupo Les Sources de Caudalie

Vendom.jobs – Qual é sua apreciação sobre a situação da hotelaria de luxo na França?

Jérôme Tourbier – Há trê anos, no meu livro Turismo em perigo, eu chamava atenção sobre a necessidade de considerar o turismo como uma indústria estratégica e de apostar na criação de valor. Quis dizer que a França devia virar um destino de alto padrão, com o melhor ratio “custo /emoção”. Sendo um destino caro, devemos ter uma oferta de qualidade que marca emocionalmente o nosso visitante . Toda a oferta não pode ser de luxo, mas a emoção deve sempre estar presente para seduzir o viajante. Há hoje na França muitos empreendimentos de grande qualidade. Olhando agora além do lucro imobiliário, os investidores estão cada vez mais dispostos a apoiar esse tipo de projeto.

A piscina coberta de Les Sources de Caudalie

V. J. – Quais seriam as condições imprescindíveis para um turismo combinando qualidade e rentabilidade?

J. T. – Na França, se confunde as vezes turismo de alto padrão com consumidores ricos. Claro que todos querem receber o máximo de viajantes com muitos recursos, mas queremos priorizar também aqueles que são interessados pelo nosso patrimônio cultural. Esse equilíbrio é fundamental para valorizar nossa oferta e para proteger nosso savoir-faire. Desta forma, é possível sim ter estabelecimentos de alto padrão, podendo ou não ser de luxo. Existem no pais inteiro por exemple restaurantes com chefs implicados na procura de qualidade, a melhor prova sendo as recomendações do Bib Gourmand do Guia Michelin. A importância dessa oferta de qualidade, não somente gastronômica, é única no mundo.

Com Alice Tourbier frente a Ile aux Oiseaux das Sources de Caudalie

V. J. – A alma do Sources de Caudalie é a integração num patrimônio e num terroir, que trazem autenticidade e sustentabilidade?

J. T. – Quando o Les Sources de Caudalie foi reconhecido como o primeiro “palace” dos vinhedos, o fato de estar completamente integrado no terroir da região foi exatamente considerado excepcional. A nossa inspiração vem diretamente do vinhedo aonde nos constatamos nos últimos vinte anos que existe um luxo autentico diferente do das grandes cidades. Estamos procurando ir sempre mais longe na procura desse luxo, investindo na beleza e nas emoções. Os hóspedes não procuram somente um alojamento, mas querem atividades compartilhadas em volta do enoturismo que funciona como uma vitrine para os vinicultores, os artesãos, os artistas e os produtores locais.

Les Sources de Caudalie, “La Tour de la Dégustation”

V. J. – Pela sua experiência, quais são os próximos passos a seguir?

J. T. – Vimos que o luxo agora é emoção. Fora das capitais, acho que devemos insistir na autenticidade, sem cair na caricatura para poder aproveitar nossa realidade e nossa história  mas também levar em consideração as novas clientelas. Temos que mostrar a coerência dos nossos destinos, mas encontrar um equilíbrio combinando as atividades culturais, a gastronomia, o artesanato, a qualidade e a diversidade dos produtos. Um outro fator de crescimento é o numérico. Os profissionais do turismo estão acostumados a falar das consequências negativas da Internet, mas não devemos esquecer que foi ume revolução que criou extraordinárias oportunidades para promover novos destinos até então pouco aproveitados. Foi talvez o caso de Bordeaux.

O restaurante L’Étoile, do hotel Les étangs de Corot

V. J. – Quais são os principais projetos para o futuro do seu grupo hoteleiro?

J. T. – Especialistas do enoturismo, queremos investir em projetos nas grandes regiões vitícolas da França, começando no ano que vem com o Vale do Loire. Estamos acabando a construção do Les Sources de Cheverny, renovando um antigo castelo bem como uma vinícola, reabilitando um patrimônio histórico em total harmonia com as exigências de conforto mais contemporâneas. Nesta região que atrai numerosos turistas, esse novo estabelecimento terá a ambição de ajudar os hóspedes a descobrir as qualidades dos vinhos da região bem como as riquezas culturais dos castelos do Loire. Depois do Les Sources de Cheverny, outros projetos estão sendo estudados na Alsácia, na Borgonha, na Champagne e na Provence.

A suite Rouge Merlot das Sources de Caudalie

Este artigo foi traduzido e resumido de uma entrevista original de Jérôme Tourbier na revista on line Vendôm.jobs

Acordo Mercosul/ União Europeia: o turismo também?

Depois quase 20 anos, a perspectiva de um acordo histórico

Assinado  no último dia de Junho depois de quase 20 anos de negociação, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia não deixou ninguém indiferente. De ambos lados do Oceano Atlantico e do Ecuador, políticos e defensores de interesses corporativistas já estão brigando – muitas vezes sem nem ter lido o texto – para defender ou atacar a sua ratificação pelo 31 países da nova área de libre comercio. Trata-se de o intercambio comercial de Euros 122 bilhões entre o segundo e o sexto maiores blocos econômico do mundo, o acordo não toca o diretamente o turismo, porém vai tem um impacto significativo na vida (e, portanto, nas viagens) de quase 800 milhões de pessoas, cancelando 91% dos direitos alfandegários, cuidando de bem estar e de liberdade dos consumidores, assim como de proteção do meio ambiente.

Os vinhos e os queijos franceses devem beneficiar-se com a queda das taxas

Desta forma, o consumidor brasileiro vai ver nos próximos anos o preço dos carros, das roupas e dos sapatos europeus cair em 35%, dos queijos franceses ou holandeses em 28%, dos vinhos franceses, portugueses ou italianos em 27%, do chocolate belga em 20%, dos biscoitos dinamarqueses entre 16 a 18%, e dos remédios franceses ou alemães em 14%. Ao mesmo tempo, a Europa ampliará as cotas e acabará com as taxas que hoje bloqueiam as exportações de setores extremamente competitivos, principalmente (mesmo se não somente) o agronegócio cujas produções de frango, carne bovina ou suína, sucos naturais ou frutas, têm a qualidade, o preço e o respeito da sustentabilidade  para competir com os melhores produtos da agricultura europeia.

A competitividade do agronegócio brasileiro deve aproveitar a abertura

A proteção das origens é um ponto crucial do acordo, sejam geográficas (Parme, Porto, Camembert ou whisky irlandês) ou “apelações” especificas (cachaça brasileira, vinho de Mendoza argentino), bem como a proteção das marcas ou dos direitos autorais. De forma geral, os serviços, que representam hoje mais do quarto dos intercâmbios entre a Europa e o Mercosul, não foram esquecidos no acordo. Correios, bancos, seguros, telecomunicações, transportes, investimentos ou aberturas de filiais serão facilitados. A grande maioria das empresas tanto do Mercosul quanto da Europa sendo pequenas ou medias, é prevista uma série de medidas para melhorar a sua competitividade e para ajudá-las a aproveitar as novas oportunidades que surgirão.

O e-comercio deve ser muito impactado pelo acordo

Mesmo se as viagens internacionais e o turismo não são mencionados em lugar nenhum, o acordo deve, com certeza, impactá-los por duas series de razões. Em primeiro lugar algumas das medidas anunciadas se aplicam também ao setor. As novas regras referentes ao e-comercio, suprimindo bloqueios desnecessários, dando mais garantias jurídicas as empresas e protegendo os dados dos consumidores vão ter consequências para as OTA (agencias on line), as operadoras e até as agencias tradicionais. As novas regras referentes a circulação de profissionais, a instalação ou a transferência de funcionários  devem incentivar as viagens de negócios bem como multiplicar os encontros MICE. Em segundo lugar, e mais importante ainda, o acordo Mercosul- Europa deve criar um clima de segurança e de otimismo, fortalecendo o Real, impulsionando a Bolsa. Serão, com certeza, fatores essenciais para o tão esperado crescimento do turismo receptivo e exportativo entre ambos os blocos. Aos profissionais resta torcer pela ratificação para aproveitar essa imensa oportunidade.

Jean-Philippe Pérol

Em três números, os motivos para o Brasil ser otimista

Turismo, liberdade e responsabilidades nos destinos de risco

O Parque da Pendjari é uma das esperanças do turismo do Benim

O sequestro de dois turistas franceses no Benim (o outrora Daomé) levou um final feliz – a liberação dos reféns – mas no mesmo tempo trágico – a morte do guia de turismo que os acompanhava e de dois militares que participaram da operações de resgate.  Frente a presencia do Presidente Macron na recepção dos sobreviventes desses dramáticos acontecimentos, um duro debate está sendo travado na França sobre as responsabilidades desse drama. Será que pesam sobre os turistas que foram passear de forma irresponsável numa area desaconselhada, ou sobre do Ministério das Relações exteriores que desaconselhou, mas não proibiu, a seus cidadãos de viajar para um pais ameaçado pela guerrilha islamista?  Será que o governo pode proibir as viagens para algum lugar?

Os refens recebidos com honra mas responsabilizados

Na França, como nos Estados Unidos ou no Brasil, o governo publica informação sobre a segurança dos destinos. Lá foram definidos quatro níveis de risco para os viajantes: cuidados normais em verde, reforçados em amarelo, desaconselhados em laranja, e totalmente desaconselhados em vermelho.  Frente as criticas sobre essas informações meramente facultativas, o Ministro Jean-Yves Le Drian lembrou que sempre chamou a atenção das agências de viagens sobre as suas responsabilidades com os possíveis riscos. Falou que a legislação poderia ser reforçada, com mais regiões classificadas como totalmente desaconselhadas. Mas mesmo assim, descartou por enquanto a ideia de proibir a cidadãos franceses de viajar para esses lugares.

O mapa oficial da segurança na África ocidental

Os profissionais do turismo concordam com essa visão. Jean-Pierre Mas, Presidente da maior associação de agentes de viagens, se recusou a falar de proibição e mesmo de aumento das áreas totalmente desaconselhadas. Acha que as agencias têm que ser ligadas com a atualidade. Devem se recusar a oferecer pacotes para os destinos potencialmente perigosos, avisar os viajantes mas deixar para cada um a decisão final, aceitando ou não os riscos que existem em qualquer viagem de negocio ou de lazer. Grandes operadoras acham também que os avisos do Ministério são justificados e devem ser levados em consideração, mas que não são infalíveis. não podem ser responsabilizado. Numa sociedade que recusa hoje qualquer fatalidade, deve ser aceita  a ideia que a responsabilidade de uma viagem é do proprio viajante.

A liberação dos reféns foi uma operação complexa

O choque da morte dos dois militares levou porém muitos políticos a falar de proibição total das viagens nas zonas classificadas como totalmente perigosas, e o Ministro poderia encontrar nessa medida forte uma resposta a emoção da opinião pública. Cada viajante pode e deve ser colocado frente as suas responsabilidades, mas o direito de cada cidadão de ser protegido pelo seu governo não pode ser pago pela restrição do seu direito de ir e vir. Seria sem duvidas um golpe grave contra a liberdade e contra o turismo.

Jean Philippe Pérol

No site do Itamaraty, o Benim com nível 3 de segurança (alto grau de cautela)

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Notre Dame de Paris, depois da emoção e do choro, a difícil batalha da reconstrução!

O incêndio pouco antes da queda da flecha de 96 metros

Choramos, e choramos muito. Choramos logo no choque da noticia, quando as primeiras imagens da Catedral em chamas começar a circular em todos os canais de televisão bem como nas mídias sociais. E choramos mais ainda quando a queda da orgulhosa flecha atingiu o coração e a alma de milhões de espectadores que não podiam nem queriam acreditar nessa tragédia. Percebemos nesse instante que Notre Dame de Paris, não era somente uma das mais imponentes igrejas da Fé católica, mas era também um lugar icónico para o povo de Paris e a Nação Françesa. Monumento mais visitado da Europa (14 milhões de turistas o ano passado, sem contar os fieis), celebrado há oito séculos por escritores, pintores, cineastas ou políticos, era cravado na historia da humanidade e na cultura mundial.

A coroação de Napoleão, quadro do Louis David

Erguida a partir do século XII – numa cidade que nem contava 20.000 habitantes-, ela foi guardiã  da fé dos reis “muito católicos” da França. Se a primazia da Gália ficava em Lyon,  a cerimônia da coroação em Reims e os enterros reais em Saint Denis, Notre Dame de Paris sempre ficou mais carregada de símbolos. Foi lá que Saint Louis mandou guardar a coroa de espinhos do Cristo hipoteticamente trazida das Cruzadas, foi lá que Joana d’Arc foi reabilitada, foi lá que Henri IV festejou sua vitoria, foi lá que Napoleão se auto-coroou Emperador dos franceses na frente do então Papa Pio VII. Na Liberação de Paris do invasor alemão, foi lá que de Gaulle veio escutar o Te Deum da vitoria. Foi lá que o mesmo de Gaulle recebeu, no dia 12 de Novembro de 1970, uma última homenagem de uma plateia com mais de 80 imperadores, reis e presidentes vindo do mundo inteiro. E devemos lembrar que se Quasimodo e Esmeralda são personagens de ficção, foi com Notre Dame de Paris que Victor Hugo construiu parte da sua gloria.

A literatura e o cinema contribuíram a gloria de Notre Dame

Frente a emoção universal, o presidente francês já anunciou que o seu governo ia se empenhar para reerguer-la em cinco anos. A impressionante lista de contribuições que começar a chegar -quase um bilhão de Euros em menos de uma semana-, valores pequenas e grandes, doados por gente humildes ou famosos, católicos, muçulmanos, judeus ou ateus, vindo da Franca, dos Estados Unidos, do Marrocos ou do Brasil, deixam pensar que o maior desafio não será financeiro. Alem de encontrar as respostas tecnológicas, os arquitetos deverão também enfrentar a demagogia dos políticos que já iniciaram as polêmicas. Qual planta deve ser seguido, do século XII, XIII, XVIII ou XIX? O novo telhado deve ser ecologicamente correto? A nova flecha terá, assim que falou o Primeiro Ministro,  que se adaptar “aos desafios do século XXI”? A diversidade cultural deve integrar o novo projeto?

As quimeras de Notre Dame vigiando Paris

Notre Dame continua em pé, mas ainda não está salva. A herança milenar dos geniais construtores da Idade Media pode ser desnaturada por incultos marqueteiros do curto prazo. Passada a emoção, ainda tem risco de ver as obras entrar num ciclo sem fim de brigas politicas e de bloqueios de verbas que são a triste realidade de milhares de igrejas ou monumentos históricos esperando concertos ou renovações há anos. A mobilização dos parisienses e de todos aqueles que se emocionaram com eles será então fundamental para acompanhar a reconstrução. Na igreja de madeira que será provisoriamente construída no “Parvis”, na frente do portão de onde saiam simbolicamente todos as estradas ligando Paris ao resto da Franca, moradores e turistas vão poder, juntos, mostrar a sua determinação para que esse monumento da fé, da valentia e da beleza volta a integrar o patrimônio da Humanidade e a nossa própria Historia.

Jean-Philippe Pérol

De Haile Selassié a Nixon, de Senghor ao Shah, uma das maiores concentrações de chefes de estado da Historia

O Mickey, o herdeiro do Senhor d’Isigny promovendo as delicias dos queijos da Normandia

De Isigny a Disney, a epopeia normanda do Mickey

Quando embarcou com Guilherme o Conquistador para invadir a Inglaterra, o nobre francês Hugues Suhard, senhor d’Isigny, pensava provavelmente que suas façanhas militares ao lado do seu suserano normando iam dar uma grande fama a sua linhagem aristocrática. Mesmo depois de Hastings e da sua instalação na Inglaterra, tendo trocado a ortografia do apelido francês d’Isigny pela pronuncia inglesa Disney, a família dela não chegou porem a ser famosa. Com pouco dinheiro e muitos sonhos de aventura, um dos seus descendentes, Kepple Disney, acabou emigrando para os Estados Unidos em 1834, participando da corrida para o ouro da Califórnia. Não achou ouro, e seu filho Elias foi tentar a sorte em Chicago onde casou e teve um filho chamado Walt Disney.

O Jardim Disney de Isigny foi inaugurado em 2016

Genial invenção do Walt Disney, o Mickey nasceu em 1928 mas demorou para assumir suas origens normandas. O Walt tinha visitado a região durante a primeira guerra e fala-se que o castelo da Cinderela foi inspirado do Mont Saint Michel. Um primo da família, o general Paul Disney, participou do Dia D em Omaha Beach, e o sobrinho e herdeiro do Walt Disney, Roy, visitou Isigny em 1972. Foi porem somente em 2016 que o município d’Isigny e a Disney formalizaram o seu longo relacionamento com a inauguração de um “Jardim Disney”, na presencia do Mickey vindo especialmente de Disneyland Paris. Em 2018, ele voltou para  festejar seus 90 anos, apoiando o prefeito na inauguração de uma exposição de 6000 peças contando a historia de Disney na Normandia.

As caixas de Camembert Isigny estampadas com o Mickey

Numa região famosa pelos seus queijos, e a primeiro lugar pelo seu Camembert, o Mickey não podia deixar de ser explorada pelos marqueteiros. Lembrar a ligação com a Normandia do mais famoso camundongo do mundo foi uma ideia  da cooperativa de laticínios de Isigny-Sainte-Mère, que reúne 650 pequenos produtores da região, e transforme um dos melhores leites da França em produtos de qualidade exportados no mundo inteiro, inclusive no Brasil. A empresa lançou na França uma campanha de promoção dos seus queijos colocando a cara do Mickey em oito dos seus mais famosos produtos: quatro Camemberts, duas Mimolettes, um  “Pont-L’Évêque AOP”  um “Petit Sainte-Mère”. Em cada caixa é também colocada uma história em quadrinhos chamada “De Isigny até Disney, a surpreendente epopeia”. Quem teria mesmo previsto que a fama de um nobre companheiro de Guilherme o Conquistador seria um dia contado por um rato sorrindo numa caixa de Camembert?

Jean-Philippe Pérol

O Mont Saint Michel teria inspirado o castelo da Bela Adormecida

Coletes amarelos, para o turismo francês um golpe que os profissionais ainda querem reverter!

Os Champs Elysées foram um dos principais alvos das violências

Se o movimento dos coletes amarelos está afetando há dezenove semanas toda a economia francesa, impactando seu crescimento anual de 0,2% segundo as últimas estimativas oficiais, os profissionais do turismo já estão sofrendo um impacto muito maior. O setor está não somente sofrendo pelos quebra quebras dos black blocks que atacam em prioridade restaurantes e lojas dos setores turísticos. Foram 200 milhões de euros de destruições em 19 semaines. Nos tão procurados Champs Elysees, 50% das 180 lojas mais emblemáticas  foram atingidos e 10% foram parcialmente ou, assim como o Fouquet’s,  completamente destruídas. Já tendo avisado o governo em novembro das dificuldades dos hoteleiros, dos comerciantes e dos donos de restaurantes, as grandes federações profissionais estão pedindo medidas urgentes.

Muito seguido fora de Paris, o movimento foi em geral pacífico

Alem dos estragos materiais, o turismo está sofrendo com os cancelamentos de viagens programados – especialmente de europeus- e com a falta de reservas dos mercados distantes – inclusive do Brasil. Com uma queda de 5 à 10% por mês desde o inicio do movimento dos coletes amarelos, é certo que o recorde de 2018 (90 milhões de turistas?) não será mais superada e que a liderança mundial – frente aos concorrentes estadounidense, espanhol e chinês – está sendo ameaçada. O secretario de turismo, Jean Baptiste Lemoyne, já previu que o esse ano será um ano difícil para o setor. Mas a preocupação dos profissionais do turismo vai alem de 2019. As imagens dos choques, dos incêndios e dos quebra quebras poderiam também impactar de forma duradoura a própria imagem da França.

Desde o mês de Novembro, algumas medidas de apoio ao turismo foram anunciadas, mas são principalmente adiamentos de pagamentos de impostos e taxas que serão insuficientes para aliviar as perdas do setor, e mais ainda para tranquilizar a curto e médio prazo os turistas internacionais. O pedido mais urgente dos profissionais (e dos moradores) é a tolerância zero com a violência, uma mensagem que parece ter sido ouvida especialmente em Paris onde, depois de mudanças dos responsáveis da ordem pública, os últimos protestos foram perfeitamente controlados tanto pelos  coletes amarelos que pela policia, ambos os lados parecendo ter percebido as ambiguidades não beneficiam a ninguém.

Em Toulouse, os comerciantes chamando atenção para crise

Os atores do turismo esperam também que  o governo será capaz de responder as preocupações que levaram os coletes amarelos a descer na rua. Contando no inicio com forte apoios dos comerciantes -cansados uma das maiores pressões fiscais do mundo, dos aposentados preocupados com a desindexação das aposentadorias, dos moradores dos milhares de vilarejos abandonados pelos serviços públicos, ou dos desempregados vitimas da deslocalização das suas fabricas, o movimento perdeu seus apoios pela sua falta de liderança e incapacidade a impedir a violência. Parece porem claro que somente umas respostas concretas aos problemas levantados poderão apaziguar de vez os ânimos e acabar com os protestos.

Os profissionais esperam uma nova campanha de promoção internacional

As lideranças do turismo esperam também que o governo apoia uma nova campanha de promoção do destino. Enquanto cortes de 4 milhões de Euros já foram anunciados no orçamento 2019-2020 da Atout France, eles pedem não somente que essa decisão seja reconsiderada, mas ainda que seja feitos os investimentos necessários para reverter os estragos que impactam diretamente ou indiretamente quase dois milhões de empregos, prejudicam um setor chave da economia francesa, e afetam a própria imagem internacional da França. Enquanto está apenas começando a primavera, os otimistas pensam que 2019 pode ainda ser uma boa safra para o turismo francês.

Jean Philippe Pérol

Visitar Marselha, a cidade rebelde

Brasil à Francesa

Foto: @blue_tinkerbell

Não é apenas por constar no badaladíssimo ranking do New York Times, “50 lugares para ir em 2019”, que Marselha é, sem duvidas, a cidade francesa a visitar este ano. Fundada por marinheiros gregos de Phocaea, chamada Massalía pelos romanos, ela foi desde a antiguidade não somente um importante porto comercial do Mediterrâneo mais ainda uma cidade multicultural e rebelde.

Miscigenação das culturas mediterrânicas, Marselha mudou nos últimos anos sua cara marcada por seu passado industrial e portuário e virou uma cidade de espetaculares renovações urbanas.

Com cinco dicas, convido você a descobrir os novos hotéis e restaurantes altamente frequentáveis, a incrível arquitetura e as ofertas culturais das mais vanguardistas na beira do Mar Mediterrâneo.

1. As Calanques,  enseadas as vezes acessíveis apenas pelo mar, merecem a viagem

Quando descobri Marselha há quinze anos atrás, eu fui impressionada por este cenário incrível de falésias calcárias dominando o azul…

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A crise do marketing de destino chega na França

Rendez vous en France, encontro dos parceiros franceses e internacionais

Alem de um brutal corte de orçamentos, a crise que explodiu a semana passada na Atout France, órgão oficial do turismo francês, significa talvez o fim de um modelo de parceria inventado pela equipe de um então ministro do governo Chirac. Exclusiva dos ministérios ou das administrações publicas desde as suas origens no inicio do século XX, a promoção do turismo internacional conheceu em 1987 uma verdadeira revolução. Agregando quatro órgãos oficiais preexistentes, o ministro Descamps convenceu setenta profissionais de entrar como parceiros numa nova estrutura co-gerenciada e co-financiada pelo governo federal e os profissionais públicos e privados do setor. Era o nascimento da Maison de la France,  uma associação que chegaria a juntar 1300 empresas francesas de turismo e a estabelecer relações estreitas com mais de mil operadoras em 35 países.

Com a mudança de 2009, Atout France integrou o Ministério das Relações exteriores

A Maison de la France acompanhou a volta da França na liderança do turismo mundial, e criou um novo modelo de parceria publico privado. Em 2009 virou Atout France, assumindo novas responsabilidades na planificação do turismo e na classificação hoteleira. Nessa trajetória de sucessos, as recentes decisões do governo chocaram os profissionais e a imprensa do trade e econômica. Atout France poderia ser obrigada a reduzir de um terço a sua presencia no exterior, encolhendo o seu quadro de colaboradores e talvez o numero de países onde está operando, um paradoxo para uma autarquia que depende agora do ministério das Relações Exteriores. As ambições do governo francês, 100 milhões de turistas em 2020 e 60 bilhões de euros de receitas, seriam então seriamente ameaçadas.

As campanhas B2C sofrem dos cortes de verbas

É certo que, mesmo se o corte de quatro milhões de Euros  pode parecer limitado porque representa somente 12% do aporte total do governo, as preocupações do setor devem ser tratadas com respeito e seu impacto não devem ser subestimado. Mas seria injusto de colocar toda a responsabilidade da situação nas últimas decisões do atual governo, isso por duas razões. Em primeiro lugar deve ser lembrado que os governos anteriores realizaram cortes mais importantes ainda nos últimos 15 anos, reduzindo de até 75% as verbas de promoção, e cortando de 80% o numero de funcionários públicos colocados gratuitamente a disposição da associação. A novas tarefas de engenharia e classificação, sem dúvidas muito gratificantes e estrategicamente interessantes, foram impostas sem nenhuma contrapartidas financeiras, aumentando mais os custos fixos.

Air France, desde as origens um apoio excepcional para o turismo francês

A redução dos gastos de promoção não foi também exclusiva do governo. As grandes empresas de viagens e turismo que investiam com força ao lado do governo, emprestando funcionários e participando de campanhas de imagem da França, reduziram suas participações.  Se o apoio da Air France continua sendo excepcional, grupos como Accor, Pierre et Vacances ou o Club Med representam hoje menos de um por cento das parcerias acumuladas. Os outros órgãos públicos de promoção, a níveis regionais ou municipais, também diminuíram as suas verbas, não somente porque falta dinheiro público, mas porque são cada vez mais preocupados promover suas próprias marcas com exclusividade, sem necessária associação com o destino França, desprezando as vezes a expertise que Atout France acumulou com seus colaboradores e seus contatos.

O apoio dos profissionais foi decisivo no sucesso da Atout France

Mostrando a insensibilidade do governo sobre a importância do setor, o choque levado pela Atout France com a redução das verbas públicas acelera as perguntas sobre o modelo criado em 1987. Os seus dois pilares, marketing e parcerias, não têm mais o mesmo apelo junto aos profissionais. O marketing perde força, exprimido entre o branding sempre muito ciumento e as vendas só interessadas por ações com resultados concretos e imediatos. Sem o atrativo do dinheiro publico e seu poder de impor mensagens claras, as parcerias são mais escassas  e as ações conjuntas cada vez mais complicadas. O novo modelo que tem que surgir não pode se restringir a uma (necessária) volta das verbas do governo, mas deve reinventar o posicionamento e os investimentos dos profissionais franceses e estrangeiros. Ao governo, sim, a responsabilidade de tomar a liderança dessa reconstrução, aproveitando as competências das suas equipes e as expectativas dos seus parceiros.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Sucesso de parceria público/privado, um modelo a reinventar?

Quatro votos para o sucesso do turismo em 2019

O Rio de Janeiro antecipando um grande 2019?

No início de um Ano Novo de grandes esperanças e de grandes mutações para o Brasil, todos os viajantes e os profissionais têm seus votos para que 2019 seja favorável ao turismo, tanto domestico que internacional. Se muitos desses votos são comum a todos os setores econômicos,  as viagens são com certeza uma área mais sensível que tem suas próprias exigências. Alem do crescimento econômico e social ou da desburocratização, a estabilidade do cambio e um otimismo sobre o futuro do pais são fatores decisivos para o desenvolvimento das viagens. Olhando nas dificuldades encontradas em 2018 e nos últimos anos, quatro séries de fatores serão também importantes – sendo então quatro votos- para fazer de 2019 um grande safra do turismo brasileiro e internacional.

O “Filho do Krakatoa” provocou um arrasador tsunami na Indonésia

O primeiro é que vulcões, tsunami, tempestades, incêndios e terremotos não se repitam com a mesma brutalidade. Consequência ou não de um aquecimento global e das ações humanas, os desastres naturais, que afetaram o leste americano, o Japão, o Portugal, a Austrália, a Indonésia e a Califórnia, tiveram um impacto brutal para as populações e para suas atividades turísticas. Um 2019 vendo a natureza poupar os grandes destinos internacionais e brasileiros seria o primeiro voto para o ano novo.

Os turistas voltaram no Egito em 2018

A violência foi outro inimigo que o turismo encontrou esse ano. Se as guerras recuaram – inclusive no Oriente médio que aproveitou essa melhoria-, conflitos, atentados, greves ou protestos perturbaram os viajantes nos Estados Unidos, na Birmânia, na Catalunha, e mais ainda na França com o demorado conflito dos “coletes amarelos” que vai impactar a liderança do primeiro destino mundial. No México, na América central e infelizmente no Brasil, foram os níveis insuportáveis de delinquência que prejudicaram o turismo. E se um voto tem que ser priorizado para 2019, é a volta da segurança no Rio de Janeiro, no Nordeste e no Norte do Brasil, uma nova realidade que terá então que comunicar em todos os mercados potenciais -talvez tentando repetir o admirável “o único risco é de querer ficar” que nosso brilhantes colegas colombianos inventaram há mais de dez anos.

Com o Fairmont do Rio, Accor entra para valer no turismo de luxo no Brasil

2018 foi marcada no turismo mundial pela aceleração das concentrações e do gigantismo em todos os setores, da hotelaria ao tour-operating, do transporte aéreo regular até as OTA e das agencias de viagens tradicionais até as novas companhias low-cost. O turismo sai do seu conservadorismo fechado para aceitar novos horizontes e novos investidores (muitos, mesmo se não todos, sendo chineses). O nosso voto para esse movimento, irresistível mesmo no Brasil com os investimentos da CVC, da Accor e as expectativas em torno da Azul ou da Norwegian, é que ele se prolonga em 2019 num quadro de concorrência leal, sem destruir empregos, consolidando os direitos do consumidor, e beneficiando tanto os profissionais que os viajantes.

O Leão de França foi mais um que regularizou em 2018 as receitas AirBnb

O turismo mundial mostrou também sua resiliência pela progressiva aceitação do setor colaborativo. A globalização da AirBnb e da Uber se consolidou, mostrando sua capacidade de gerar empregos ou rendas para moradores, e tentando resolver, com os grandes municípios, os problemas de coabitação com moradores e de concorrência com outros setores. Devemos esperar para 2019 que as autoridades consigam impor regras justas e iguais que satisfazem tanto os novos atores que os profissionais tradicionais, um equilibro necessário para sair de vez de um corporativismo ilusório para entrar nessa nova economia aonde a satisfação final do consumidor é o primeiro critério de seleção.

Feliz 2019 para todos!

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Paris, cidade dos dois Napoleão, o Grande e o Pequeno?


Sainte Genevieve, enfrentou Átila e virou padroeira de Paris

Andando nas ruas de Paris, olhando os nomes  das ruas, das praças ou dos monumentos, o visitante é colocado frente a numerosos personagens que influenciaram os dois mil anos de vida dessa tão peculiar, orgulhosa e rebelde cidade. Assim Sainte Genevieve, Robert de Sorbon, Philippe le Bel, Etienne Marcel, Marie de Médicis, Louis XIV, Gavroche, Bienvenue, Gallieni, de Gaulle, Pompidou, Mitterand, têm os seus seguidores e deixaram suas marcas na sua cultura, no seu urbanismo e na sua arquitetura. Mas segundo o escritor Dimitri Casali, que publicou recentemente o livro “Paris Napoléon(s)”, são porem os dois imperadores da dinastia bonapartista que deixaram,  durante os seus reinados e até hoje, as maiores e mais impressionantes marcas na cidade luz que 35 milhões de turistas continuam a visitar nesse século XXI.

O Arc de Triomphe numa foto de 1913

As grandes mudanças da Paris moderna começaram com Napoleão que queria assim mostrar a potência do Império. Depois dos abandonos e das destruições que acompanharam a Revolução e a guerra civil, a volta da ordem e da prosperidade possibilitam grandes obras que perduram até hoje. O Louvre é renovado, e no seu pátio é inaugurado o Arc du Carrousel. São abertas ou ampliadas a Rue de Rivoli, a Rue de la Paix, a Rue de Castiglione, a Rue d’Ulm. Na Place Vendôme foi construída a famosa coluna com o bronze dos 1200 canhões tomados dos austro-russos na lendária vitoria de Austerlitz. São iniciadas as construções da igreja da Madeleine e da faixada do Palais-Bourbon, do Canal de Ourcq, da Bolsa de valores e, claro, do Arc de Triomphe. Foram também quatro pontes, duas das quais – Austerlitz e Iena – têm nomes de vitórias imperiais. E para que qualquer cidadão, qual que seja sua raça ou sua religião, pudesse ser enterrado decentemente,  Napoleão mandou construir em 1803 o famoso cemitério do Pere Lachaise.

A Praça Vendome e sua coluna fundida com os canhões de Austerlitz

Outras grandes ambições parisienses do Imperador foram abandonadas depois do desastre de Waterloo. No morro de Chaillot (onde  foi depois construído o Palais du Trocadero, e nos anos trinta, o Palais de Chaillot), devia ser erguido um gigantesco palácio para o seu filho, o Rei de Rome, com uma faixada de 400 metros de largura e um parque cobrindo todo o lado oeste de Paris, até Champs Elysées e o Bois de Boulogne. Mesmo se esse e alguns outros projetos foram esquecidos, a chegada ao poder em 1848 do sobrinho de Napoleão I, Napoleão III, vai relançar muitos outros, e dar a capital francesa o aspecto que ela guardou até hoje. Investindo o equivalente hoje a 120 bilhões de reais, misturando preocupações urbanísticas, socais e militares, ele vai confiar ao Prefeito de Paris, o Barão Haussmann, todos os poderes para levar ao fim a metamorfose da cidade.

A beleza imponente do Palais Garnier, a Opera de Paris

E, durante o Segundo império, Paris vai ver a abertura de grandes avenidas: boulevards Saint Germain, Saint Michel, Haussmann, Diderot, bem como Saint Michel e Sebastopol ampliando o eixo Norte Sul da capital. A avenida da Opera liga a nova Opera com o antigo Palais Royal. Para compensar a destruição de 20.000 casas ou sobrados, são construídos alojamentos novos para os operários nos bairros populares da zona leste bem como prédios modernos e elegantes nas áreas nobres da planície Monceau. O Louvre é enfim finalizado, e vários parques e praças são redesenhados. Ainda abertos hoje, dois grandes hotéis muito conhecidos dos brasileiros, o Hotel du Louvre e o Grande Hotel, são projetados e inaugurados seguindo as suas ordens.  Em 1870, quando Napoleão III abdica do poder depois da derrota militar contra a Prussia, ele deixa Paris com (quase) uma bela e moderna cara da capital mundial aonde o visitante do século XXI não ia se sentir perdido.

O Boulevard Saint Germain, herança do Haussmann e do Napoleão III

Talvez até hoje perseguido pelo ódio de Victor Hugo (que o chamava de Napoleão o Pequeno), o sucessor de Napoleão o Grande, depois de ter feito tanto pela sua capital, não conseguiu porem conquistar o coração dos parisienses, nem gravar o nome dele, a não ser uma praça minúscula entre um Mc Donald e a estação de trens Gare du Nord, em nenhum monumento da cidade que ele tanto embelezou. Se Paris deve muito aos dois imperadores, o segundo deveria talvez ser chamado de o injustiçado ….

Esse artigo foi adaptado de um artigo original na revista francesa Le Point

O Pont des Arts, toque de charme herdado do Napoleão o Grande

 

O Hotel du Louvre, projeto iniciado ao pedido do Napoleão III