O Trump favorecendo o turismo europeu?

A imagem do Presidente sempre impactou o turismo para os Estados Unidos

Vendo o impacto da presidência do George Bush sobre os fluxos turísticos internacionais dos brasileiros, um diretor do turismo francês sugeriu na época que a Franca entregasse para ele a “Medalha do turismo”. De fato, enquanto a Europa e os Estados Unidos eram tradicionalmente empatados nos mercados sul- americanos, as medidas restritivos e as vezes vexatórias visando os viajantes chegando (ou transitando) nos aeroportos estadunidenses deram naquele momento um impulso excepcional  aos destinos europeus. Nesses ciclos marcando a rivalidade turística entre os Estados Unidos e a Europa, a volta do Trump, independentemente das opiniões politicas de cada um, poderá de novo favorecer fortemente o velho continente bem como o Canadá.

Novo travel ban preocupa os profissionais americanos

Com as primeiras medidas da nova presidência, o impacto negativo sobre o turismo já se baseia em fatos objetivos preocupando e até desanimando os viajantes: controles mais rigorosos nas fronteiras e prazos de concessões de vistos mais longos devido a cortes de pessoal, reativações de proibições de viagem para cidadãos de países considerados com riscos (uma medida já tomada pelo Trump em 2017), restrições aos passaportes sem indicações de género, preocupações sobre a saude pública com a retirada da Organização Mundial da Saude e as possíveis epidemias, ou o crescente  mal estar  dos ambientalistas com a retirada dos Estados Unidos dos acordo de Paris.

Na Alemanha, os viajantes estão trocando os Estados Unidos pelo Canada

Outras medidas ainda são esperadas e poderiam prejudicar mais ainda o setor do turismo estadunidense – a possível proibição de TikTok preocupando os jovens viajantes que não imaginam viagens sem posts nas mídias sociais, e os aumentos de preços que as taxas sobre os navios de bandeiras estrangeiras, anunciadas pela nova administração, podendo impactar as vendas de cruzeiros. No primeiro mandato do Presidente Trump, medidas menos drásticas já tinham provocadas uma queda dos fluxos de visitantes de mais de 10%, e os profissionais estadunidenses estão agora preocupados com consequências ainda mais fortes enquanto o objetivo era de chegar a 90 milhões de visitantes com o impulso da Copa do mundo FIFA 2026.

Será que Trump vai merecer a medalha do turismo dos destinos concorrentes?

Alem das medidas, o turismo pode também ser prejudicado pela rápida degradação da imagem  dos Estados em mercados chaves, especialmente no Canada, no Mexico e na Europa do Norte, mas também na China, nos países árabes ou no Brasil. Observadores otimistas esperam ainda que alguns fatores positivos podem reverter em parte essas tendencias: simpatias politicas com o novo modelo de governo, vistos facilitados para grandes investidores, impostos menores para as pequenas empresas que são a força do trade turístico,  energia mais barata e talvez um dolar enfraquecido. Mas no geral é porem provável que os fatores negativos não sejam compensados, e que as viagens internacionais privilegiam seja o Canada seja a Europa.

Jean Philippe Pérol

 

 

Os Jogos de Paris 2024, um sucesso de futuro para o turismo francês

Na Place de la Concorde, um espaço de convivialidade olímpica

Se os Jogos de Paris 2024 acabarão oficialmente somente dia 8 de setembro no encerramento dos Paralímpicos, os especialistas já estão brigando para saber se o evento foi ou não o sucesso esperado pelos profissionais e anunciados pelos políticos. Os resultados são fáceis de medir quando se trata de medalhas – a França conseguiu bater seu recorde com 64 , sendo 16 de ouro-, ou quando se trata de custos financeiros – quase 10 bilhões de Euros para uma previsão inicial de 6-, mas é difícil de apreender quando se trata de turismo devido às diversidades de indicadores. São mais difíceis ainda de analisar quando se trata de turismo internacional.

Os profissionais fizeram o máximo para seduzir atletas e visitantes

Para os profissionais do setor, teve, como sempre nos grandes eventos, muitas expectativas, e, como sempre nos grandes eventos, muitas decepções. Os números globais ainda não podem ser medidos, mas serão com certeza em recuo, como foi o caso em Londres, já que o milhão e meio de visitantes “olímpicos” estiveram presentes, mas desanimaram o mesmo tanto de turistas regulares que se assustaram com os altos preços anunciados para hospedagens ou com a complexidade da mobilidade em Paris. As quedas de 30% observadas nos restaurantes e nos comércios, de 20% nos parques e nos museus, impactaram brutalmente um setor ainda em recuperação das traumas da pandemia. E se os hotéis e os apartamentos alugados tiveram uma alta de 10% da taxa de ocupação a partir do 26 de julho, os empreendimentos tiveram que reajustar os preços para baixo depois de um mês de junho muito abaixo do normal.

Os parisienses pedem a permanência do balão da chama olímpica

Mas, por importantes que sejam esses problemas, o Jogos foram mesmo um sucesso excepcional, incluído para o setor do turismo que vai beneficiar a longo, médio e curto prazos, dos investimentos em infraestruturas, comunicação e capacitação que foram realizados. Os futuros visitantes poderão aproveitar as renovações de muitos pontos de atração, as inovações em transportes, segurança ou em equipamentos indispensáveis para futuros grandes eventos que a França mostrou ter capacidade para organizar.

O surfe brasileiro imortalizado na onda de Teahupo’o

Os Jogos ofereceram também para Paris e para toda França uma extraordinária visibilidade em toda a mídia internacional. A ousada escolha de localizar o máximo de provas frente aos grandes monumentos históricos ou em lugares inesperados gerou no mundo inteiro momentos inesquecíveis; o vôlei de praia em frente da Torre Eiffel, o hipismo nos jardins de Versailles, a esgrima em baixo do domo do Grand Palais, o triatlo nas águas do Rio Sena, o surfe na mítica praia polinésio de Teahupo’o ….

A magia criativa de Zeus na cerimônia de abertura

O maior impacto sobre o turismo  virá de uma nova imagem que a França conseguiu consolidar com os Jogos. A cerimônia de abertura – mesmo com alguns erros que serão esquecidos porque criatividade é sinônimo de aceitação de risco-  mostrou para cerca de um bilhão de telespectadores um destino inovador, surpreendente, orgulhoso da sua história mas aberto, inclusivo, detalhista e alegre. Os visitantes internacionais presentes – entre eles 107.000 brasileiros entusiastas, muitos jovens e muitas famílias -anotaram também o bom atendimento e até a gentileza dos profissionais, dos voluntários e dos próprios moradores. Com eles, a França pode sair dos Jogos com mais otimismo sobre seu futuro de primeiro destino internacional de turismo.

Jesan-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

 

 

Táxis voadores durante os Jogos Olímpicos?

Volocopter deve experimentar seus taxis voadores durante os JO

Sonhos dos filmes de ficção científica, os táxis voadores nunca estiveram tão perto de virar realidade, pelo menos nos céus de Paris. Poucas semanas antes da abertura dos Jogos Olímpicos e Para-Olímpicos de Paris, no último dia 12 de junho, o Ministério francês dos transportes, autorizou um serviço experimental, e as autoridades aeronáuticas tanto da Europa como dos Estados Unidos anunciaram ter feito mais um passo na certificação dos “Vertical Take Off and Landing” ( VTOL), os aviões elétricos, a decolagem e aterrissagem vertical. Se tudo correr bem, os primeiros táxis voadores deverão então estar a disposição dos visitantes  em Paris para a tão esperada cerimônia do dia 26 de Julho.

Mesmo com demonstrações bem sucedidas, os oponentes ainda são numerosos

Porém, se trata somente de uma experiência, e não de comercialização. O Aeroporto de Paris, promotor da operação, teve que superar muitos obstáculos. A Agência Europeia de Segurança Aérea  exigiu dos fabricantes normas de seguranças tão rígidas que para a aviação comercial,  seja na área técnica que em termos administrativos e até políticos. O Ministério do meio-ambiente achou que não podia autorizar essas aeronaves elétricas que tinham um alto consumo de energia e uma alta poluição sonora. A Prefeita de Paris tentou bloquear o projeto, achando que ele era uma absurdidade tecnológica e uma aberração ecológica. Mesmo assim, o Ministério autorizou a experiencia de taxis voadores, não sendo agora possível a comercialização.

O primeiro vertiporto será instalado frente a Cité du design et de la mode

Logo dada a autorização, o Aeroporto de Paris começou a construção de um “vertiporto” numa balsa ancorada do lado da estação de trem Austerlitz, frente a “Cité du design et de la mode” de Paris. Aqui será instalada a primeira base dos táxis voadores “Volocity” do fabricante alemão Volocopter, aparelhos intermediários entre os drones e os helicópteros. Durante os Jogos, poderão ser experimentados durante voos com duas pessoas, um piloto e um passageiro. Esses  VTOL interligarão Austerlitz com os outros quatros “vertiportos” que estão sendo preparados na região de Paris, em  Saint-Cyr-l’Ecole, Issy-les-Moulineaux, bem como nos aeroportos de Le Bourget e de Roissy-Charles-de-Gaulle. Por motivo de segurança, os táxis voadores não cruzarão os céus da cidade, mas entrarão em Paris sobrevoando o Rio Sena.

Depois da certification, um traslado a 110 Euros?

O vertiporto deve normalmente ser desmontado (e reciclado) antes do final do ano. et recyclé, selon la promesse du gestionnaire d’aéroports. Até là o Aeroporto de Paris e seus parceiros querem demonstrar o potencial tecnológico e comercial dos táxis voadores. Com a certificação, e a autorização de sobrevoar as áreas urbanas da capital, seriam oferecidos traslados rápidos para os aeroportos a preços muito competitivos (por volta de 110 Euros). E ,aproveitando a localização do vertiporto de Austerlitz perto do hospital de La Pitié Salpetrière , um dos melhores e maiores de Paris, os promotores do projeto também destacam os serviços de ambulâncias que os aviões elétricos VTOL irão oferecer.

Dubai pode ser a próxima cidade a autorizar os taxis voadores

A certificação comercial está sendo esperada para outubro, depois dos Jogos, e liberará a possibilidade de iniciar serviços de táxis voadores pagos. As autorizações parecem bem encaminhadas, tanto na Agência Europeia de Segurança Aérea  (AESA) que na Agência  Federal Americana de Aviação (FAA). A FAA já publicou uma diretiva com algumas características a serem respeitadas, com um máximo de 6 pessoas a bordo e um peso total limitado a  5.670 kilos. A França quer ser pioneira, já que a Califórnia e os Emirados estão com projetos bem adiantados. É porém provável que o Aeroporto de Paris ainda deverá enfrentar a ferrenha oposição dos ecologistas que criticam o suporte ao transporte para privilegiados, com um custo ambiental elevado. Um batalha que eles perderam devido ao entusiasmo da vitrina olímpica, mas que eles devem reiniciar depois dos Jogos.

 

 

Fretamentos de iates: a Grécia enfrenta novos concorrentes

Segundo os dados publicados pela empresa Riginos Yachts,  líder do setor, os aluguéis de iates tiveram uma alta espetacular  nos últimos anos em todos os portos do Mar Mediterrâneo. Para as embarcações de lazer de mais de 20 metros de comprimento – o principal critério definindo a categoria-, os pedidos passaram de 2350 fretamentos em 2020 para 5800 em 2021, e 7200 em 2022,  se estabilizando a 7100 em 2023. Além da vitalidade do turismo de luxo, e da procura para este tipo de serviços muito exclusivos, o diretor da empresa, Konstantinos Angelopoulos atribui o sucesso da Riginos ao dinamismo de vários mercados, principalmente a Alemanha, a França, a Espanha e a Austrália.

Luxo e exclusividade em todos os iates da Reginos

Mas não é somente na Grécia que os aluguéis de iates estão crescendo. Seguindo as novas tendências do turismo, o fretamento de um barco de luxo com parentes ou amigos é uma oportunidade de viver experiências únicas e de descobrir destinos nem sempre acessíveis de outras formas, isso com o conforto e os serviços de um hotel de 5 estrelas. A Grécia já era líder mundial em 2022 com 26% da procura de iates, e a França e a Itália vinham logo em seguido com 17% cada uma. As tendências se confirmaram em 2023. No Mar Mediterrâneo, a Grécia passou a deter 31% do mercado enquanto a França e a Itália chegaram respetivamente a 20% e 19%. Esses resultados  devem muito, segundo Konstantinos Angelopoulos as isenções de taxas sobre combustível dadas pelo governo grego que compensaram a concorrência de iates mais diversificados e mais modernos oferecidos nos portos italianos e franceses.

O serviço a bordo é fundamental para experiência no iate

Assim, enquanto se trata do número de iates disponíveis para aluguéis em 2023, a Itália ficou em primeiro lugar com 450, seguida da França com 430, a Grécia aparecendo somente em terceiro lugar com 400, e o resto do mundo com 820. Esses números devem continuar a crescer em 2024 com a evolução das vendas, tanto para os barcos novos que para os barcos de segunda mão, dobrando para os iates de mais de 30 metros  e triplicando para os iates de mais de 60 metros. O mesmo crescimento é observado nos estaleiros. Segundo Merjin de Waard, fundador de Superyacht Times e membro do conselho da “Superyacht Life Fondation”, o número de iates de mais de 30 metros em construção passou de 480 em 2021, para 604 em 2022 e 648 em 2023. A maioria dos estaleiros estão sem disponibilidade, e alguns só aceitam encomendas para 2028.

@francisco viana

Paisagens exclusivos e encontros autênticos caracterizam os cruzeiros amazônicos

Alem dos portos tradicionais,  do Mediterrâneo e  do Caribe, os aluguéis de iates estão também crescendo em outros destinos, na Tailândia, na Indonésia, no Emirados, na Arabia Saudita e mais ainda na China que está se projetando como o primeiro mercado mundial para próxima década. O Brasil, com a riqueza do seu litoral e o imenso potencial dos rios amazônicos, é sem dúvidas já candidato para constar nesta lista do destinos inovadores para amadores de iates e de experiências autênticas e exclusivas.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original da revista francesa profissional on-line Mister Travel  

O Forum Econômico Mundial de Davos ajuda a redefinir a “turistabilidade”

O World Economic Forum de Davos, momento chave da liderança mundial 

Publicado pela segunda vez pelo World Economic Forum de Davos, mas existindo de forma diferente  desde 2007, o Travel & Tourism Development Index 2024 (IDTT) sai da rotina instantânea e quantitativa  das maiorias dos rankings existentes. Com prestigiosos padrinhos, ele oferece uma análise prospectiva dos fatores e das estratégias de desenvolvimento sustentáveis do setor turístico dos 119 países estudados, definindo o que pode ser chamada de “turistabilidade” dos destinos. Realizado em colaboração com o World Tourism and Travel Council (WTTC), o esperado relatório apoia a sua classificação com cinco categorias de critérios divididos em 17 pilares indispensáveis ao setor.

  • o ambiente favorável aos negócios é definido pela política econômica do país, a segurança pública, as condições de saúde, os recursos humanos e as tecnologias de comunicações.
  • a política do turismo é julgado pela prioridade dada ao setor, a abertura internacional e o nível de preços dos serviços.
  • as infraestruturas indispensáveis são os aeroportos, os portos e as rodovias, bem como os equipamentos turísticos.
  • os recursos incluem as belezas naturais, as riquezas culturais e outras, fora o setor de lazer.
  • a sustentabilidade leva em consideração a política energética e a proteção do meio ambiente, o impacto social do turismo, e a gestão dos riscos do overturismo.

O ranking destaca o domínio dos países mais desenvolvidos e mais ricos. Assim, os dez primeiros são os Estados Unidos, a Espanha, o Japão, a França, a Austrália, a Alemanha, o Reino Unido, a China, a Itália e a Suiça. Nos trinta primeiros aparecem 19 países da Europa, 7 da Ásia- Oceania, 1 do Oriente Médio e 3 das Américas ( Estados Unidos, Canadá e Brasil), países que representam 75% da indústria mundial do turismo e 70% do crescimento nos últimos dois anos. Se os países ricos ainda são hoje os pesos pesados do setor, o dinamismo dos anos pós-covid parece muito mais diversificado, favorecendo o “Sul global”. Os campeões do crescimento foram assim o Uzbekistão (+7.8%, ganhou 16 lugares), a Costa de Marfim(+6.4%, 2 lugares), a Albania (+5.9%, 12 lugares), a Arabia Saudita (+5.7%, 9 lugares),  a Tanzânia (+4.5%, 7 lugares), a Indonesia (+4.5%, 14 lugares), os Emirados (+4.4%, 7 lugares), o Egito (+4.3%, 5 lugares),  a Nigeria (+4.2%, 1 lugar) e El Salvador (+4.0%, 4 lugares).

As excepcionais riquezas naturais do Brasil são destaque da sua “turistabilidade”

O Brasil, já primeiro destino latino americano do ranking global, se saiu  bem em termos  de crescimento, com uma taxa  de +3.3%, é um pulo de 12 lugares, da 34a posição para a  26a. Este bom desempenho junto  ao índice do World Economic Forum, se deve principalmente a quatro destaques: riquezas naturais consideradas excepcionais (5as dos 119 destinos listados), um forte impacto social nas comunidades ,  preços atrativos e um bom domínio das tecnologias de informação e comunicação (ICT). A “turistabilidade” do Brasil só não foi melhor pelos pontos negativos: o difícil ambiente para os negócios, as infraestruturas insuficientes nos portos e nas estradas, a segurança pública, e as deficiências em equipamentos e serviços de turismo.

Os desordens climáticos  também prejudicaram o turismo

O relatório do World Economic Forum não deixa de ser otimista sobre o desenvolvimento do setor a curto e longo prazo, lembrando que os níveis de 2019 vão ser ultrapassados em 2024. Puxado por uma procura extremamente resiliente, o turismo conseguiu superar as crises políticas, a inflação dos preços, o custo da energia, a falta de mão de obra,  as catástrofes climáticas e a volta do overturismo – pontual mas impactante em algumas regiões. Para continuar a crescer – especialmente nos países em desenvolvimento, serão porém necessários  investimentos importantes no aproveitamento dos recursos naturais e culturais,  nas infraestruturas de comunicações, de transporte e de turismo,  nas legislações empresariais e trabalhistas, na abertura internacional e na promoção.

Longe das atuais projeções, o turismo do futuro ainda deve ser inventado

Chamando atenção sobre os principais riscos que podem ameaçar o futuro do setor – as mudanças climáticas, as fakenews e as reações contre o overturismo, o relatório destaca também alguns pontos chaves  para o sucesso: fazer (ou refazer) o turismo uma prioridade de governo, favorecer as parcerias público-privado, investir na capacitação de todos os atores, e colocar as comunidades locais no coração das estratégias de desenvolvimento. Além do ranking (cujos critérios podem ser ainda discutidos), o Travel & Tourism Development Index 2024 (IDTT) é assim um documento valioso para inspirar governos e profissionais e definir uma nova “turistabilidade”.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado & eventos

Boicotar ou não boicotar os turistas russos?

Na França, Courchevel era um dos destinos favoritos dos Russos

No complicado contexto da invasão na Ucrânia,  a Rússia anunciou que o seu turismo emissivo atingiu em 2023 24 milhões de viagens internacionais, um crescimento de 16,4% em relação a 2022, mas um resultado ainda longe dos quase 48 milhões que saíram do país em 2019, antes do Covid-19 e dos boicotes impostos depois do início da guerra. Nessa época, o turismo russo representava 3% do turismo mundial. Os destinos vizinhos – Turquia, Finlândia, Cazaquistão, Ucrânia e Estônia- lideravam as preferencias dos russos, mas países ocidentais como França, Itália, Espanha e Suiça brigavam para atrair estes clientes prontos a gastar fortunas nos palácios das capitais ou nos resorts luxuosos de Courchevel, Ibiza, Saint Tropez, Marbella, Gstaadt ou Veneza.

A Riviera turca atraindo cada vez mais os turistas russos

Tudo mudou no dia 24 de fevereiro de 2022. A guerra levou quase todos os países da Europa e da América do Norte a um boicote quase total dos intercâmbios de transporte e de turismo com a Federação Russa. Essa decisão não somente atrasou a recuperação das viagens internacionais mas ainda modificou bastante os destinos desses polêmicos turistas, com um novo ranking mostrando claramente os ganhadores. São a Turquia, com 6,3 milhões de visitantes e um crescimento de +20,7% em relação a 2022, os Emirados Árabes com 1,7 milhão e +42,5%, a Tailândia com 1,48 milhão e +240,6%, o Egito com 1,28 milhão e +35,4%, a China com quase um milhão e + 420%, as Maldivas com 209.1oo e +3.6%, o Sri Lanka com 197.000 e +116,4%, Cuba com 185.000 e +240%, e a Indonésia com 160.000 e +115%. Com 106.000 chegadas, o Brasil recebe hoje 5 vezes mais russos que antes da crise.

Dubai tentando atrair turismo e negócios russos

Aproveitando este sucesso, vários destes destinos já anunciaram que querem se abrir ainda mais ao turismo russo. O Ministro do Turismo do Egito projeta 3 milhões de viajantes russos em 2028, a autoridade de turismo da Tailândia já anunciou uma meta de mais de 2 milhões de entradas logo em 2024, o governo de Cuba assinou um acordou para receber em média 500.000 turistas russos por ano, e a Turquia prevê um crescimento de 10 a 30% em 2024. Dubai oferece vantagens para as viagens de negócios combinando com luxo e segurança, a Tunísia liberou os vistos, e vários países como a Índia, Birmania, Omã, Sri Lanka, Irã e Marrocos estão conversando com o governo russo.

O turismo em Chipre sofreu com o fim dos passaportes dourados

Com motivos políticos ou éticos, o boicote teve consequências importantes para o turismo dos destinos que tinham mais investido no mercado russo. Assim nos Estados Unidos que passaram de 300.000 turistas russos em 2017 a menos de 50.000 em 2022, e em quase todos os países da União Europeia que perderam quase 85% desses fluxos, com um impacto forte nas receitas considerando a forte proporção do segmento luxo e o alto gasto médio por dia. Na Europa, Chipre foi um dos destinos mais impactados, com seu turismo dependendo mais de 30% dos russos, e o setor imobiliário tendo beneficiado dos “passaportes dourados” vendidos por Euros 2,5 milhões a ricos investidores.

Influenciadora russa teve que pedir perdão à arvore sagrada de Bali

Não se pode analisar o impacto destas brutais mudanças dos fluxo turísticos da Rússia sem considerar também o impacto que tiveram para as populações dos destinos e para as outras comunidades. Na hora do overturismo e da crescente preocupação pelo equilibro local, os novos turistas russos tiveram as vezes dificuldades para entender as exigências culturais ou religiosas dos moradores. Em Bali, na Índia ou no Sri Lanka, turistas e locais se desentenderam e as autoridades tiveram que interferir para colocar panos quentes. No Sri Lanka e no Egito, incidentes entre turistas russos e ucranianos tiveram que ser resolvidos. Nos países da Europa, mais implicados no boicote, a situação politica levou a incidentes discriminatórios contra os russos que deixarão marcas no futuro.

A Igreja Russa, um dos pontos esperando a volta dos turistas russos em Nice

O balanço do boicote é hoje difícil de fazer pelas suas múltiplas motivações. Mas, para o setor, ele representa em primeiro lugar um prejuízo importante para o turismo mundial – aproximadamente 20 milhões de viajantes e quase US$ 20 bilhões de receitas a menos, boa parte para os grandes destinos da União Europeia. Mesmo repudiando a guerra e a falta de respeito do direito internacional, os profissionais e os viajantes só podem lamentar que problemas políticos entre governos prejudiquem as atividades de milhares de profissionais que trabalham num setor que se caracteriza justamente por ser uma indústria de paz, de intercâmbio multicultural e de liberdade individual.

Jean Philippe Pérol

Fim da linha para a “Compagnie Internationale des Wagons-lits et du tourisme” …

CARLOS III não visitou por acaso os vinhedos de Smith Haut Lafitte

Carlos III na degustacao de SHL com o casal Cathiard  @quentin charpentier

Numa esperada visita histórica na Franca, marcada por um deslumbrante jantar no Palácio de Versalhes, o Rei Carlos III e a Rainha Camilla fizeram questão de ir para Bordeaux. Alem de ser uma cidade onde a inflencia inglesa sempre foi muito marcante, foi incluída no roteiro do casal real para poder organizar uma visita dos vinhedos de Smith Haut Lafitte em Martillac. “Grand cru” de Graves, na apelação de origem controlada Pessac-Léognan, esse castelo foi cuidadosamente selecionado pelos seus princípios de agricultura biológica e de biodinâmica. Muito interessado por essas ideias, o Rei queria observar as técnicas de produção que foram estabelecidas há mais de 30 anos por Florence e Daniel Cathiard, proprietários do Château Smith Haut Lafitte.

A visita mostrou todos os detalhes do processo de vinificação @guillaume bonnaud

 Desde o início da sua vida pública, Carlos III sempre deu um destaque a natureza, e nunca perdeu ocasiões de incentivar a sua preservação. Verdadeiro ecologista antes da hora, o então Principe investiu nos jardins da sua propriedade de Highgrove House para criar um jardim ecológico, educativo e economicamente rentável, um modelo que deu certo. Nos 364 hectares de terras, hortas, jardim selvagem e florestas abrigam por volta de cem tipos de plantas ou arvores diferentes, uma fazenda sustentável cujos produtos são vendidos no local. A propriedade é aberta para as visitas dos grupos escolares, com programas de iniciação e de sensibilização dos jovens as exigências ecológicas. O sucesso de Highgrove House, agora, o primeiro empregador do Gloucestershire,  impacta hoje toda a vida econômica de toda a região.

O casal real com Alice e Jérôme Tourbier  @quentin charpentier

Assim como o Rei Carlos III em Highgrove House, Florence e Daniel Cathiard foram também pioneiros com o envolvimento do Château Smith Haut Lafitte na luta da biodiversidade logo no inicio do anos noventa. Acreditando na biodinâmica, o casal  adotou os processos mais inovadores da agricultura biológica tanto nos vinhedos quanto nas adegas. Para proteger as uvas dos parasitas, os produtos químicos foram substituídos por compostos orgânicos 100% naturais,  fabricados com plantas preferidas pelos viticultores do castelo, que ajudam a proteger a biodiversidade. Os cuidados com as hortas, os pomares, as colmeias e a floresta enriquecem o meio ambiente em volta dos vinhedos. A paixão do bio foi transmitido pelos Cathiard a suas duas filhas, Mathilde que criou os cosméticos Caudalie, e Alice, fundadora do complexo hoteleiro 5 estrelas Les Sources de Caudalie.

Personalização e exclusividade são as tendências do turismo de luxo

Alice, junto com seu marido Jérôme Tourbier, militam pelo turismo sustentável desde a abertura do hotel 5 estrelas Les Sources de Caudalie em 1999. A ambição do casal era criar um local dedicado aos visitantes procurando uma arte de viver única, completamente virado para natureza, mantendo a excelência com permanentes inovações. Hoje Les Sources de Caudalie é um verdadeiro vilarejo com 61 quartos e suites, bem como três restaurantes: La Grand’Vigne** (duas estrelas Michelin), La Table du Lavoir et ROUGE, todos abastecidos com legumes bios produzidos nas próprias hortas. No conjunto, abriu também um SPA Vinothérapie , que ofere tratamentos com extratos de vinhas ou de sementes de uva. Em harmonia com a natureza, a filosofia do hotel é de utilizar a riqueza dos vinhedos, das uvas e do “terroir” para oferecer a experiência de um luxo discreto, personalizado e respeitoso.

Les Sources de Caudalie, primeiro palace a receber o “Europe Ecolabel”

Hoje classificado Palace, Les Sources de Caudalie foram os primeiros a receber a distinção « Europe Ecolabel » depois de ser comprovados seus compromissos: reduzir a pegada de carbono, proteger a biodiversidade, reduzir o consumo de água e de energia, reciclar os dejetos, e enfim incluir os fornecedores e os parceiros nessa politica. Os gestos ecológicos se encontram também nos quartos. Os produtos cosméticos são a 95% de origem natural, produzidos na França, oferecidos em frascos  reciclados e recicláveis. As amenities podem ser reutilizadas. A água mineral é servida em garrafas de vidro. A limpeza das roupas de cama tem cuidados especiais, e os chinelos oferecidos pelo hotel são biodegradáveis. Muitas atenções para fazer deste Palace um exemplo real de sustentabilidade.

Frente as Sources de Caudalies, as obras de arte dos vinhedos de Smith Haut Lafitte 

A Chartreuse, licores cada vez mais exclusivos

O Maciço da Chartreuse, onde são recolhidas as plantas da antiga receita

Elaborados desde 1840 pelos monges cartuxos do mosteiro da Grande Chartreuse, os dois famosos licores – Chartreuse amarela e Chartreuse verde– eram na época herdeiros de uma longa tradição de poções milagrosas e bebidas medicinais. Hoje são bebidas finas, conhecidas e procuradas no mundo inteiro, e o mistério das plantas colhidas a mão usadas na sua destilação só serve para aumentar a sua procura. Durante um histórico leilão no último mês de março, 1500 garrafas de grande safras do precioso elixir foram assim vendidas por mais de 1,6 milhão de Euros a um grupo de conhecedores estadunidenses.

A Grande Chartreuse é, e quer ficar, em primeiro lugar um mosteiro

Mas enquanto a produção atual (1,5 milhão de litros em 2022) já não satisfaz mais a procura, o mosteiro acabou de tomar uma surpreendente decisão: não aumentar mais a produção, assumir um desenvolvimento controlado e uma oferta limitada para o futuro. Os monges deram varias razões para essa decisão, sendo a primeira a vontade de respeitar o equilíbrio de vida do mosteiro baseado, desde a sua fundação em 1084, na solidão e nas orações, devendo limitar o número de religiosos envolvidos na fabricação dos licores. O objetivo anunciado foi  também de guardar uma empresa respeitando as relações humanas, favorecendo a economia local e preservando a biodiversidade.

Os monges ainda guardam o segredo lista das 130 plantas da receita

Desde 1605, quando o superior dos Cartuxos recebeu do Marechal d’Estrées, irmão da amante do rei Henrique IV, o manuscrito sobre o “Elixir vegetal de longa vida da Grande Chartreuse”, a receita foi cuidadosamente guardada, sem que a origem do documento, às vezes localizada em Constantinopla, seja plenamente esclarecida. Em 1764 foi levada para o famoso mosteiro dos Alpes franceses onde o monge Jérôme Maubec trabalhou a melhorar os processos. A partir de 1840, foi decidido que somente três monges teriam acesso a lista das 130 plantas e das proporções necessárias para a fabricação dos dois licores, que até hoje são produzidos seguindo a mesma receita.

Os “foudres”, barris gigantes onde são envelhecidas as Chartreuse

No mosteiro, os monges realizam a preparação da mistura,  escolhendo e separando as plantas colhidas nas montanhas dos arredores. Essa mistura é depois levada para a distilaria de Aiguenoire, localizada a 12 quilômetros, onde é completado o processo  com a infusão, a distilação e até a extração. Começa depois o envelhecimento, um processo muito exclusivo para um licor, primeiro em barris de carvalho gigantes (os “foudres”) e depois na próprias garrafas que devem guardadas em pé e não deitadas. O prazo de envelhecimento varia de 3 anos para a Chartreuse amarela a 15 anos para a raríssima Chartreuse verde VEP.

Mais forte e menos doce, a Chartreuse verde é a mais vendida

Se os monges têm o controle da produção, eles entregaram a promoção e a comercialização dos seus licores para a empresa “Chartreuse diffusion”, propriedade dos cartuxos, que virou a primeira fonte de renda dos 22 mosteiros da Ordem. Foi com ela que foram definidas as novas orientações: reforçar as vendas diretas, em estreita ligação com o turismo local, trabalhar a elaboração de novos produtos – safras especiais ou chás aromáticos-, e voltar a promover o Elixir original. Gerenciando o sucesso da marca, mas agora com uma produção limitada, a “Chartreuse diffusion” terá agora o desafio de acompanhar produtos cada vez mais exclusivos

A Chartreuse VEP, com 15 anos de envelhecimento, um licor cada vez mais exclusivo

A “baguette” entrando no patrimônio mundial, justo homenagem ou clichê redutor?

Macron chamou a baguette de magia e perfeição do quotidiano

Na cidade de Rabat (Marrocos), na sua primeira reunião presencial depois de dois anos de pandemia, o Comitê da UNESCO colocou a icônica “baguette” parisiense na lista do patrimônio culturel imaterial da humanidade.  A decisão homenageou um “savoir faire” dos padeiros franceses, destacando todas as fases da fabricação, desde os quatro ingredientes (farinha, água, sal e levedura), até a fermentação, o preparo e o cozimento varias vezes ao dia em pequenos fornos.  Uma receita de extrema simplicidade com a qual cada artesão padeiro consegue chegar a um produto único, fruto da sua técnica, dos produtos selecionados, bem como da temperatura e da humidade do seu local de trabalho.

A baguette modificou até as prateleiras das padarias 

A UNESCO lembrou o impacto da baguette na vida social. Seis bilhões são fabricadas e compradas cada ano, cem por cada Francês, com práticas de consumo diferentes dos outros pães.  A baguette tem que ser produzida e comprada cada dia, e mesmo duas vezes por dia, para guardar seu frescor. Sendo fina e comprida (uma media de 65 cm de comprimento para um diâmetro de 6 à 7 cm), ela é fácil de transportar (sendo a mão, num saquinho ou numa folha de papel), e tem variedades suficientes para cada parisiense escolher a sua: clássica, tradição, moulée, viennoise, bem passada … Algumas padarias aceitam de vender meia baguette, outras produzem a sua irmã menor (a “ficelle”) ou seu irmão maior (o “batard”).

A padaria do austríaco Zang, um dos possíveis pais da baguette

Na sua decisão, os sábios do Comitê não oficializaram nenhum das lendas urbanas sobre a origem da baguette: pão de forma oval já produzido em Paris no inicio do século XVII, evolução do “Pain Egalité” votado pelos revolucionários de 1793, criação dos padeiros de Napoleão para ser mais fácil a transportar pelos soldados que a tradicional “miche” redonda e mais pesada, lançamento inspirado do austríaco August Zang na abertura da sua padaria parisiense em 1839, ou pedido dos construtores do metrô de Paris que queria um pão que pudesse ser compartilhado sem precisar da faca também usada pelos operários para brigas mortais.

Uma da três padarias de Auzances, vilarejo da família do autor

Qual que seja a sua origem, a baguette virou um ícone de Paris a partir dos anos 20, quando os turistas internacionais – especialmente os ingleses e os estado-unidenses – se apaixonaram por esse pão sofisticado, tão diferente da “miche” pesada e grosseira que se comia no campo.  Foram eles que fizeram da baguette um símbolo da França eterna tão forte (mas tão saudosista) que Edith Piaf, a boina, o camembert e o salsichão. Se a delegação francesa no Marrocos festejou a decisão da UNESCO, os criticas em gastronomia foram mais cautelosos. Muitos acharam que a distinção deveria ter sido mais específica, somente a baguette tradição (com a levedura tradicional), com uma escolha de ingredientes mais rigorosamente codificada, merecendo ser destacada.

Os 76 pães da famosa carta de Poilane

Outros especialistas levantaram que muitos outros pães eram mais significativos da excelência das padarias francesas, tanto pelas suas qualidades gustativas que pelas suas raizes nos “terroirs” de muitas regiões onde 76 tipos de pães contribuam a riqueza cultural local, incorporando novidades trazidas pelo bio e pela procura crescente pela qualidade. Um reconhecimento de todos teria sido importante frente as ameaças que pesam sobre o setor. Nos últimos 50 anos, 20.000 padarias fecharam na França, outras viraram simples distribuidoras de pães industrializados. Na hora do bio, da qualidade e da excelência francesa, a França deve com certeza comemorar a decisão da UNESCO, mas deve também lembrar que a baguette é o fruto de técnicas, de tradições, de ingredientes, e de criatividade da padaria francesa, junto com muitos outros pães para ser comemorados.

Jean-Philippe Pérol