Segunda edição do Invino amplia mercado com novos players

Press release da Promonde, São Paulo, 28 de março de 2022

A Borgonha vai ser a grande vedete da segunda edicão do Invino

O francês Jean-Philippe Pérol, no Brasil desde 1976, sempre foi um visionário. Dirigiu os escritórios para as Américas da antiga Maison de la France, hoje Atout France, ocupando também a função de Diretor Geral em Paris da organização.  Foi o primeiro a acreditar nos anos 2000 na democratização das viagens internacionais para os brasileiros e apostar no potencial da então nova classe média para o turismo francês. Apaixonado por tecnologia, sempre alertou que as operadoras e agências de viagens eram os maiores parceiros dos Tourism Boards. Depois, no início dos anos 2010, entendeu a importância das mídias sociais, em especial o Instagram, como veículo de promoção de destinos, e criou campanhas icônicas com influenciadores digitais.

Vinho e turismo, o encontro de duas paixões

Quando deixou o turismo da França, apostou suas fichas na Amazônia e nas viagens com conteúdo. E percebeu, igualmente,  que o enoturismo no Brasil poderia ter um crescimento significativo ao longo dos anos. Criou, a partir daí, em 2019, o Invino Wine Travel Summit. A segunda edição acontecerá no Hotel Unique, no próximo dia 11 de abril. Abaixo ele explica o cenário atual das viagens de vinhos, a motivação para organizar a segunda edição e que novidades os profissionais de turismo poderão conhecer no evento. As inscrições estão abertas gratuitamente pelo site.

A pandemia causou uma paralisação das atividades turísticas. Por outro lado, essa cocoonização forçada promoveu o aumento no consumo de vinhos, inclusive com surgimento de um novo mercado. Quais as expectativas de vocês com relação ao enoturismo, nessa retomada das viagens?

JPP: A pandemia causou uma brutal retração de 84% do mercado mundial do turismo em 2020 passando de 1,5 bilhão a menos de 400 milhões. O enoturismo também sofreu, mas devemos ser otimistas porque as tendências surgidas com a crise vão dar um forte impulso nas viagens por três razões: o crescimento da gastronomia (e do vinho) nas motivações; a procura de temáticas e de conteúdos fortes e, por fim,  a resiliência do turismo de luxo que representa ume boa parte (mesmo se não a única) do enoturismo nacional e internacional no Brasil.

A Cité do Vin de Bordeaux, uma arquitetura enobrecendo o enoturismo

Um novo empreendimento turístico voltado para o universo do vinho surge na Borgonha. É a resposta da região à Cité du Vin, em Bordeaux, nessa saudável concorrência entre as duas regiões?

JPP: Na França, a questão Bourgogne/Bordeaux é tão viva quanto a direita/esquerda na politica ou PSG/Marselha no futebol. No contexto, Cité du Vin et la Gastronomie da Borgonha e da Cité des Cultures et des Civilisations du Vin, deve se anotar que são dois projetos totalmente diferentes. Com os dois estando presentes no evento de enoturismo Invino, o brasileiro poderá ver que são muito mais complementares que concorrentes.

Trata-se da segunda edição do evento. A Cap Amazon reuniu muitas informações sobre o mercado. Quem é hoje o brasileiro que consome enoturismo?

JPP: A primeira informação que devemos divulgar a nossos colegas do trade é o impressionante crescimento desse tipo de turismo no Brasil nos últimos anos. Quero especialmente destacar dois pontos que chamam minha atenção na preparação desta segunda edição. O primeiro, é que o consumo de vinho e de enoturismo atinge hoje uns perfis de consumidores muito mais largos, além dos tradicionais connaisseurs da elite social e econômica e dos descendentes de imigrantes europeus no sul do país. O segundo é que o enoturismo brasileiro é hoje uma grande realidade em São Paulo, no Sul e até no Nordeste, e que os agentes de viagens tem aí um grande potencial a longo mas também a curto prazo.

De Nordeste a Sul, o enoturismo brasileiro está em plena ascenção

Há uma diferença do enoturista brasileiro para o de outras nacionalidades?

JPP: Acho que temos que falar dos enoturistas brasileiros e não do enoturista brasileiro. Temos uma clientela tradicional e de alto padrão aquisitivo que procura um enoturismo de luxo e que costuma comprar muito vinho com grande rótulos. Essa clientela está crescendo, procurando novos destinos e sendo cada vez mais curiosa sobre vinhos diferentes. Mas temos também uma clientela nova, que precisa talvez ser mais acompanhada que os enoturistas franceses ou italianos, e é nesse momento que os agentes de viagens podem ter um papel muito importante!

Quais suas apostas em enoturismo para o próximo ano?

JPP: Muito Brasil. O doméstico vai ser sucesso no enoturismo, como o sul do país, mas São Paulo vai surpreender; a Argentina também, pela proximidade e preços interessantes; a França, claro. Países ou regiões menos conhecidas vão também aproveitar. A presença da Suíça e da Catalunha no Invino não são meras coincidências. Queria lamentar a esse respeito que a Moldavia teve que cancelar sua participação devido a guerra que está chegando a suas fronteiras orientais.

A Garzon virou um exemplo de sucesso enoturístico

Quais as novidades para a edição 2022 do Invino?

JPP: Uma edição mais internacional, com expositores vindo de 8 paises, e uma participação mais importante do trade do vinho – teremos por exemplo o  World Wine apresentando seus vinhos no coquetel de encerramento. A gastronomia vai ter também uma presença mais forte com um almoço do chef bourguignon Emmanuel Bassoleil, e – last but not least – uma apresentação dos Queijos da França que vão se harmonizar com os vinhos da Garzon, um encontro original entre o Velho e o Novo Mundo.

A quem o evento se destina e como se inscrever?

JPP: O Invino quer que os mundos do turismo e do vinho se encontrem mais e se conheçam melhor. Devemos, assim, contar com 80 buyers, agentes de viagens e operadoras querendo se implicar no enoturismo, e 40 jornalistas e influenciadores vindo tanto do turismo quanto do vinho. Os 30 expositores se dividem também entre os dois setores. A particularidade do Invino em misturar palestras, seminários e encontros com refeições harmonizadas e degustações vai ajudar a criar esse clima de intercâmbio e de convivialidade que tanto gostamos.

A Suiça se posiciona como um destino de enoturismo

Vinhos, turismo e preços, um ranking original da Europa enoturística

Smith Haut-Laffite, uma vinícola de Bordeaux onde enoturismo combina com cultura

Com mais de 15 milhões de reservas de apartamentos por ano em parceria com grandes empresas, – Booking, Interchalet, TUI, Housetrip ou Trip Advisor-, a plataforma Holidu publicou um ranking “cientifico” e popular das regiões europeias de enoturismo. A pesquisa levou em consideração não somente a qualidade e a variedade dos vinhos produzidos, as infraestruturas turísticas e o numero de vinícolas abertas os visitantes, mas também o consumo de vinho per capita, o preço medio das garrafas consumidas no local, assim que o número de entregas de diplomas de sommeliers nos centros locais de capacitação. A lista que foi estabelecida mostrou lógica e surpresas.

A “Cité du Vin”, monumento a Bordeaux cidade mundial do vinho

  • Nova-Aquitânia – França

A lógica levou a Nouvelle Aquitaine para o primeiro lugar. A região de Bordeaux, de Cognac e de Bergerac tem mais de 11.000 vinícolas, muitos dos mais famosos vinhos do mundo, e oferece preços atrativos com seus “vinhos de mesa”. As infraestruturas turísticas são de qualidade, o patrimônio cultural invejável, e a fama da sua gastronomia e das suas paisagens é mais que merecida. A dica da Holidu : Ir até a lagoa de Arcachon e provar as ostras locais com um Pessac Leognan branco (por exemplo um Hauts de Smith) .

Nos arredores do Etna, os vinhos de “lava”

  • Sicília – Itália

A surpresa já apareceu com o segundo lugar da Sicília. Mas, conhecida pela sua longa história, seu rico património e sua cultura peculiar, a ilha se posiciona cada vez mais no enoturismo. Vinhos como o Malvasia, o Novello e o Catarratto Bianco são algumas das maravilhas a ser descobertas . A dica da Holidu : nos arredores  do famoso vulcão  Etna, 18 hectares de vinhedos produzem desde o século XVII um vinho escuro  que pode ser provado depois da visita, acompanhando as “polpette”, as tradicionais bolinhas de carne.

Vinhedos e moinhos em Castilha La Mancha

  • Castilha-La Mancha – Espanha

Primeira região produtora da Espanha, a Castilha La Mancha se destaca pela grande variedade de uvas, Grenache, Syrah, Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Merlot, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Macabeu ou Airén. Na terra dos moinhos, os tintos, rosés ou brancos impressionam pela qualidade e pela excelente relação preço/ qualidade. A dica da Holidu : antes de começar as visitas das adegas, visitar a “cidade encantada” no parque natural da Serranía de Cuenca.

Em Pompei, o vinho tem uma longa história

  • Campania – Itália

Quase chegando no pódio desse ranking, a Campania ainda é pouca conhecida do mundo do vinho, mas tem uma tradição vinícola de 3200 anos, e uma excepcional riqueza turística. Vários dos seus vinhos devem ser degustados, por exemplo o Greco, o Asprinio, o Pallagrello branco, o Fiano, o Falanghina, o Coda di Volpe, o Forastera ou o Biancolella. A dica da Holidu: não esquecer de visitar as ruinas de Pompei, uma experiencia única no mundo ainda enriquecida pelas recentes descobertas arqueológicas.

Entre Lácio e Toscana, a surpreendente Úmbria

  • Úmbria – Itália

Outra surpresa da lista é o quinto lugar da Úmbria, mais conhecida pelas suas riquezas culturais. Entre Roma e Florença, o coração verde da Itália, trabalha varias uvas de qualidade, locais como o Sagrantino, o Sangiovese ou o Colorino, mas também internacionais como o Merlot e o Cabernet Sauvignon. A dica da Holidu : não perder a “Galleria Nazionale dell’Umbria”, localizada no “Palazzo dei Priori”, um dos mais imponentes prédios históricos de Perugia.

O charme irresistível de Chenonceau, o Castelo das 3 Damas

  • Vale do Rio Loire – França

Seguindo o Vale do Rio Loire, 2000 vinícolas se espalham entre a costa do Oceano Atlântico e a Auvergne. Famosa pelos seus vinhos alegres e fáceis de beber, sejam brancos como o Muscadet, o Sancerre ou o Pouilly, sejam tintos como o Saumur Champigny, sejam espumante como. A (merecida) fama dos Castelos do Loire explica também o sucesso do enoturismo da região.  A dica da Holidu: o itinerário tem que ser feito para combinar vinhedos e castelos, sendo que Chambord, Azay le Rideau, Cheverny, e mais ainda Chenonceau, são imperdíveis.

Vinhedos perto de Valencia

  • Valencia – Espanha

Dona de uma oferta turística muito completa, orgulhosa da sua cultura preservada, a região de Valencia colocou mais uma vez a Espanha no Top 10 da Holidu. Alem de uma grande variedade de uvas (Monastrell, Tempranillo, Cabernet Sauvignon e Merlot), o sucesso valenciano deve muito aos preços extremamente competitivo dos seus vinhos – os mais baratos da lista. A dica da Holidu: Visitar a cidade medieval de Bocairente e seus arredores.

Os incomparáveis paisagens da Toscana

  • Toscana – Itália

Pioneira do enoturismo, a Toscana ficou famosa pelo Chianti desde o século XIV, explorando uma grande diversidade de uvas:  Sangiovese, Canaiolo, Cabernet Sauvignon, Merlot, Trebbiano e Malvasia. Com cidades e vilarejos esbanjando história e cultura,  um clima  e uma luz excepcionais, a região oferece uma grande diversidade a todos os públicos.  A dica da Holidu: Aproveitar um passeio de bicicleta para mergulhar na cultura local e marcar atividades  com os moradores.

Os jardins da Quinta da Bacalhôa em Setubal

  • Setúbal – Portugal

Sendo os portugueses os maiores consumidores de vinho per capita da Europa, um ranking europeu de enoturismo devia ter uma região portuguesa, e foi Setúbal que se destacou com seus vinhos originais. Tradicional produtor de prestigiosos, incluindo o famoso Moscatel de Setúbal, a região produz também vinhos tinto exportados no mundo inteiro como o Periquita ou o Bacalhôa. A dica da Holidu: vale a pena seguir as rotas ou trilhas túristicas em volta das quais são organizadas muitas atividades, incluindo para as famílias.

Trufa branca e vinhedos do Piemonte

  • Piemonte – Itália

Uma quinta região italiana fecha o ranking da Holidu: o Piemonte. Famosa pela qualidade (e o preço) dos seus vinhos proveniente de uvas locais  (Nebbiolo, dolcetto, brachetto ou cortese), a região produz os famosos Barolo, Gattinara, Ghemme e Barbaresco, bem como os mundialmente conhecidos Asti Spumante. Em Alba, é certamente um deles que será recomendado para uma harmonização com a famosa trufa branca, A dica da Holidu: aproveitar as numerosas atividades náuticas oferecidas na região, canoa, vela ou  windsurf.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original na revista francesa profissional on-line Mister Travel

Em Nice, o pioneirismo no turismo virando patrimônio da UNESCO

A orla marítima da cidade é o coração do projeto

Na lista dos 34 sítios promovidos pela UNESCO no último dia 27 de Julho, constam não somente o jardim Roberto Burle Marx do Rio de Janeiro, legado do paisagista brasileiro que criou o conceito de jardim tropical moderno, mas  também três maravilhas culturais da França. Viraram assim patrimônio da humanidade o farol de Cordouan ,- construído perto de Bordeaux, na foz do rio Gironde, no final do século XVIII-, a cidade termal de Vichy,- com seus 2000 anos de termalismo e seu urbanismo misturando Segundo Império e Art Nouveau-, e parte da área urbana de Nice, premiada pela sua arquitetura de estância de inverno que nasceu aproveitando o clima e as paisagens excepcionais da Riviera.

A igreja Saint Nicolas num cartão postal de 1932

Trabalhando há 13 anos sobre essa nomeação, o prefeito de Nice, Christian Estrosi, comemorou um evento excepcional, único na historia de “Nissa la bella” pela sua repercussão internacional. Extremamente detalhada, a decisão da UNESCO não se refere a toda cidade, mas exclusivamente as áreas urbanizadas desde o final do século XVIII, bairros onde os primeiros turistas deixaram um rico patrimônio. Eram aristocratas ingleses ou russos, milionários  austríacos ou americanos, que seguiam os passos da Imperatriz Josephine, dos tsars da Russia e da Rainha Vitória, construindo palácios, casas, hotéis ou igrejas, com uma arquitetura cosmopolita original.

O Castelo do inglês (ou Castelo cor de rosa), folia arquitetural de 1856

Icomos, o conselho internacional dos monumentos e sítios que analisou o dossiê, deu a maior importância a definição do perímetro escolhido – que devia ser estritamente ligado ao desenvolvimento turístico da cidade-, e aos esforços bem sucedidos pela sua preservação – garantido pelos compromissos da prefeitura nesse sentido. Foi necessário fortes apoios dos países participando do voto – especialmente da Russia, muito ligado a essa página da história de Nice– para chegar ao compromisso final, a escolha de uma área de 522 hectares de património mundial cercada de 4.243 hectares de áreas protegendo a coerência arquitetural e urbanística do conjunto.

A beleza natural do parc da Colline du Château

Para inscrever Nice na lista do Patrimônio mundial, a UNESCO destacou seu pioneirismo e seus atrativos específicos. A cidade aproveita uma paisagem excepcional e um clima ensolarado. O urbanismo  aproveita harmoniosamente a localização entre mar e montanhas, com avenidas e passeios concebido desde 1831 para atrair os visitantes. Nice foi pioneira em “vegetalizar” suas ruas, plantando arvores e palmeiras, bem como um imenso jardim botânico. O patrimônio arquitetural impressiona, tanto pelas origens italianas, russas, ou inglesas, que pela diversidade de estilos, neo-classicismo, Art Nouveau, Art Déco ou modernismo, que esbanjam um peculiar arte de viver, um exotismo e um bem estar que sempre fascinou turistas e artistas do mundo inteiro.

A praça Massena, o “filho querido da vitória”

A área inscrita pela UNESCO inclui desde uma parte da cidade medieval, com o Cours Sleya, os Ponchettes, a Opera, e toda a orla até a icônica Promenade des Anglais, e o Cours Albert 1ero. Não podia deixar de fora a famosa Place Massena – nome do general mais querido do Napoleão, o “filho querido da Vitória”. E pela outrora Avenida da Vitória, hoje chamada de Jean Medecin, chega-se a Basílica Nossa Senhora da Assunção e, depois de entrar na Avenida Thiers, a estacão de trem e a Basílica russa de Saint Nicolas. A UNESCO aceitou também de incluir alguns pontos mais periféricos como o bairro de Cimiez, suas arenas romanas e seu (ex) hotel Excelsior Regina que hospedou três vezes a Rainha Vitória.

Na praça Garibaldi, a estátua do herói dos dois mundo

Gauchos e catarinenses  lamentarão (juntos com uruguaios, italianos, franceses e amantes da Liberdade do mundo inteiro) que a praça Garibaldi não foi inclusa nessa área. Mesmo com muita insistência da delegação francesa, os especialistas alegaram que, mesmo batizada do nome do herói dos dois mundos, a praça foi inaugurada em 1773, seja antes da era do turismo de estância de inverno que a UNESCO premiou. O prefeito prometeu porem que vai tentar uma redefinição do perímetro premiado até o próximo mês de dezembro. Candidata a capital europeia da cultura em 2028, Nice terá ainda muitas ocasiões de prestigiar o mais famoso dos seus filhos.

Jean-Philippe Pérol

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O Hotel La Ponche, o espírito de Saint Tropez


A pequena mas muito badalada praia da La Ponche

Em Saint Tropez, frente a pequena praia do mesmo nome, o lendário hotel La Ponche está reabrindo depois de oito meses de obras. O La Ponche é um dos hotéis icônicos da Riviera francesa, onde os artistas chegaram já nos anos 50, antes e depois de ter hospedado a equipe do filme « E Deus criou a mulher». Passaram ai muitas vedetes das artes, da política e do cinema: Boris Vian, Michel Piccoli, Pierre Brasseur, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pompidou, Kenzo, Jack Nicholson, Catherine Deneuve. Vários casais famosos se esconderam nos seus quartos: Brigitte Bardot e Gunter Sachs, Bernard Buffet e  Annabel, Romy Schneider e Daniel Biasini.

No lobby, a Provence, o verão, o farniente e os anos 60

Renovar uma lenda foi o desafio imposto a Fabrizio Casiraghi, o arquiteto responsável das obras e da nova decoração do hotel. Ele foi buscar nos brechós e nos antiquários objetos, poltronas, luminárias, o Sul, a Dolce Vita, os anos 60, o mar e as férias, para criar um ambiente misturando a Provence e o verão. Nos 21 quartos (incluindo 5 suites), as paredes são brancas e as madeiras de nogueira preta. Os pisos são de terracota e nas paredes são pendurados quadros de Cordier e litografias originais de Picasso. O quarto excepcional é o numero 8, aquele onde sempre se hospedavam a Romy Schneider e o Daniel Biasini. O terraço é do mesmo tamanho que o quarto e domina os telhados de Saint Tropez, a cidadela, a torre da igreja e o mar.

Do restaurante, uma vista mágica para o Mar Mediterráneo

Com somente  29 anos, o chef Thomas Danigo, calmo e rigoroso, viajou no mundo inteiro, trabalhou em Chartres e Paris, mas voltou para propor um cardápio mediterrâneo valorizando os legumes da região, os peixes e as vibrações cotidianas da feira livre. « Sem frescuras e sem exageros, uma cozinha virada para os produtos e os sabores regionais ». Oferece gaspacho de ervilhas frescas, lagosta grelhada, a famosa “bouillabaisse”, pratos do dia no forno de carvão e sobremesas trabalhadas com frutas da estação. Para o almoço, são servidos no terraço os pratos tradicionais da casa, enquanto o cardápio valorise na hora do jantar as criações pessoais do chef num ambiente mas sofisticado.

O novo Bar Saint Germain desenhado pelo do Fabrizio Casiraghi

Para sentir o espirito de um hotel, o melhor lugar é sem dúvidas o bar. A história – e o sucesso- do hotel começaram no Saint-Germain-des-Prés-La Ponche, ponto de encontro de pescadores e de artistas, cuja renovação foi muito caprichada pelo Fabrizio Casiraghi. Levou uma parede de espelhos atrás do bar, instalou umas luminárias para valorizar as garrafas, cobriu o teto com nogueira preta, e escolheu um piso de azulejos pretos e brancos. A lareira, as mesas de ferro forjado e as poltronas criaram um ambiente aconchegante para aproveitar a qualquer hora do dia ou da noite um surpreendente cardápio de cocktails e de fingerfood, um ambiente digno do passado do La Ponche e da Dolce Vita.

No porto de Saint Tropez, o luxo e a simplicidade

A nova diretora, Audrey Brémond, é uma “tropezienne” da gema que já trabalhou no grupo Oetker. Teve experiências bem sucedidas em Courchevel, em Vence e nos hotéis Monsieur, « boutiques-hôtels » parisienses pertencendo a empresa HN6 ACTIVE, hoje também proprietária do La Ponche. Mesmo se tomou a decisão de sair da cadeia Esprit de France, a empresa liderada pelo empresário Nicolas Saltiel quer dar uma nova vida para o La Ponche, reencontrar o borbulho das origens e o ambiente dos anos 60, o hino ao sol, a simplicidade, ao Mediterrâneo, ultrapassar a simple noção de hospedagem para liberar a dimensão cultural de uma experiência peculiar com o espirito de Saint Tropez.

Jean-Philippe Pérol

“E Deus criou a mulher”, inicio do namoro da Brigitte Bardot com Saint Tropez

 

Caroline Putnoki e sua paixão pela cozinha francesa

por Claudio Schapochnik

Travessa com canelés (Claude Alleva/Pixabay), doce típico de Bordeaux,

A cultura do bem comer e beber é um dos pilares da chamada arte de viver da França e dos franceses. Desde cedo, o povo francês aprende — e leva a sério — sobre qualidade, ingredientes da fauna e flora, culinária, pratos, receitas e costumes locais e regionais e se apaixona pelo tema. Além disto, a gastronomia é um dos pontos fundamentais de uma viagem, ou seja, do turismo. Para falar sobre estas características tão fortes e marcantes na cultura francesa, o Que Gostoso! entrevistou por email a diretora para América do Sul da Agência de Desenvolvimento Turístico da França (Atout France), Caroline Putnoki.

Caroline Putnoki junto a um vinhedo na Borgonha em recente viagem (foto Instagram)

Num bate papo dinâmico e muito interessante, Caroline (ou Caro, que na pronúncia francesa fala-se “Carrô”) fala sobre sua paixão de cozinhar e da alimentação como um todo. Quase sempre na sua casa, em São Paulo, e muitas vezes com a ajuda da sua filha, Iris, Caro faz pratos da cuisine française com amor e usando muito de suas lembranças familiares — sobretudo do pai, nascido na Hungria. “Quando cozinho, sempre penso no meu pai e tento reproduzir os sabores da minha infância. A cozinha é sempre uma busca dos sabores e cheiros da nossa infância”, diz Caro.

Tarte fine aux pommes feita por Caro (foto Instagram)

Bastante ativa no Instagram, onde mantém a página Blog Brasil à Francesa, Caro posta seus textos, suas fotos e seus vídeos de várias receitas e vários pratos (salgados e doces) franceses, sobretudo, e de outras origens também. Pra quem gosta de cultura alimentar francesa e turismo francês, recomendo segui-la.Nascida na Guiana francesa e casada com o também francês Jean-Philippe Pérol, Caro é graduada em marketing de destino na França (Bordeaux e Angers). Após 17 anos no Canadá, onde ela iniciou sua careira no turismo — trabalhou no importante grupo turistíco Transat e dirigiu a filial da Atout France no país —, chegou no Brasil há dez anos e fundou a empresa de marketing Cap Amazon, que representa marcas de turismo, alimentos e vinícolas.

Segue abaixo a entrevista, recheada de dicas de comidas e bebidas, emoções, lembranças e bom humor. Aproveite!

Caro em sua casa em São Paulo (foto Instagram)

QUE GOSTOSO! De onde vem a sua paixão por cozinhar? Desde quando?
Caroline Putnoki “Caro” — Minha paixão me foi transmitida pelo meu pai, que era um verdadeiro chef em casa. Aprendi com ele, ajudando e vendo ele fazer suas receitas, desde criança. Em casa, só ele cozinhava e cuidava de tudo que era comida! Ele acordava muito cedo na manhã para deixar tudo preparado para o almoço e o jantar, para as mulheres dele, esposa mais três filhas!

QUE GOSTOSO! O gosto pelo comer/beber bem e, muitas vezes, por cozinhar faz parte da essência francesa? Por quê?
Caro — Sim, os franceses são apaixonados pela comida, pelos alimentos de boa qualidade, pelo vinho, pois faz parte do cotidiano deles. Sem perceber, às vezes, eles estão cercados por uma riqueza e uma abundância de alimentos de alta qualidade, o que faz do francês um paladar extremamente exigente e crítico!

Pissaladière (foto http://www.lespetitssecretsdelolo.com): prato apreciado e feito por Caro

QUE GOSTOSO! O teu gosto por cozinhar teve influências familiares e dos países de onde você e seus pais nasceram?
Caro — Sim, claro que minha infância na Guiana Francesa, onde eu nasci, me influenciou muito! Era bastante original viver na Guiana Francesa com um pai húngaro apaixonado da culinária francesa e uma mãe parisiense.
Meu pai cozinhava, misturando todas essas influencias. Também na Guiana Francesa, tivemos bastante contato com a culinária vietnamita, o que explica meu gosto pela cozinhas asiáticas, particularmente da Tailândia e Índia. Hoje quando viajo para Paris, faço questão de jantar pelo menos uma vez no 13º Arrondissement num restaurante asiático onde eu posso comer os famosos “nems” e “bo-bun”!
Quando cozinho, sempre penso no meu pai e tento reproduzir os sabores da minha infância. A cozinha é sempre uma busca dos sabores e cheiros da nossa infância.

QUE GOSTOSO! Cozinhar leva tempo. Onde você o arruma, já que você é também mãe e uma executiva bem sucedida na área do turismo?
Caro — Realmente não sei. Aprendi a cozinhar muito rápido… E também sempre tenho uns ingredientes prontos na geladeira tipo uns pimentões assados, ótimos como entrada com anchovas ou como aperitivo com um pão fresquinho. Também faço um molho de tomate que pode entrar numas receitas como massa, sopa… E também cozinho muito no final de semana para adiantar a semana seguinte! Para mim, é vital de comer bem, então a organização é fundamental para justamente conciliar tudo, ainda mais nesse período de home-office.

Caroline Putnoki e sua paixão pela cozinha francesa

Caro na entrada de uma vinícola na Borgonha, em recente viagem (foto Instagram)

QUE GOSTOSO! Por falar em maternidade, vejo nas suas redes sociais que, muitas vezes, sua filha te ajuda na preparação dos pratos. Exemplo é tudo.
Caro — Sim, acho muito legal cozinhar com minha filha, pois é durante a infância que os sabores ficam registrados, que o gosto se forma. Dessa maneira, ela me vê cozinhar o tempo todo, e ela está registrando os sabores e pratos… É isso o objetivo: abrir o leque de sabores e gostos dela. E a melhor recompensa é quando ela me fala “Maman, você é a melhor cozinheira do mundo!”. É muito importante insistir, mesmo de leve, para que nossos filhos provem ingredientes novos e sabores que eles não conhecem e ajudar a formar o paladar mais diversificado possível.

QUE GOSTOSO! Com a sua ascendência e você sendo francesa da Guiana Francesa, seu marido, sendo francês nascido na Tunísia e radicado na região Auvergne-Rhône-Alpes e sua filha, sendo francesa nascida no Brasil, enfim, com tantas influências, como é a escolha dos pratos que você vai preparar? Ou, na maioria dos casos, é algo francês mesmo?
Caro — É uma mistura total. Posso fazer uma chakchuka, prato típico da Tunísia que aprendi nas minhas viagens e com as lembranças do Pérol que ele tinha da sua infância… Posso cozinhar uma moqueca ou um prato da Hungria (com muita páprika!) como o frango à páprika ou talvez um prato crioulo da Guiana francesa (Colombo, um tipo de curry), ou uns pratos típicos da França… Minhas receitas são muito diversas e de muitas origens. Tudo depende dos ingredientes que encontro, do meu humor, para quem cozinho. Também, com o confinamento que vivemos há mais de um ano, muita gente começou a cozinhar em casa e a quantidade de receitas acessíveis por meio das redes sociais explodiu. É muito fácil hoje de ter acesso à receitas do mundo inteiro e de poder aprender assim, com esses vídeos no You Tube ou Instagram. A informação disponível é incrível e não tem desculpas para não cozinhar, mesmo começando com receitas simples.

Crêpe suzette (foto Pixabay)

Travessa com chouquettes (Wikipedia): doce apreciado e feito por Caro

QUE GOSTOSO! São Paulo tem tudo, ou quase tudo, no que toca a produtos alimentícios de outros países. Você consegue achar os ingredientes para seus pratos? Houve vezes que teve de fazer adaptações e deu certo? Qual prato foi esse?
Caro — Sim, em São Paulo, temos quase tudo. Mas eu lembro de uma receita que “abrasileirei” para fazer um biscoito chamado financier. Usei farinha de castanha do pará em vez de farinha de amêndoa e deu super certo. Era para um jantar, onde recebia em casa um grande chef, que chegou com um sorvete de doce de leite. A combinação com meu financier brasileiro foi espetacular!

QUE GOSTOSO! Seu prato francês principal é a Tarte Tatin mesmo? E quais são os Top 5 (cinco doces e cinco salgados franceses)?
Caro — A Tarte Tatin é uma receita que sempre amei fazer, mas que aperfeiçoei após uma aula on-line dada pelo chef Laurent Suaudeau, onde ele explicou o jeito dele de preparar a Tatin. Quando fiz a receita dele, foi a Tatin mais incrível que já tinha feito!
Então é verdade que essa Tatin ficou registrada no meu Top 5 até hoje! Por sinal, adoro fazer tortas em geral, tortas de frutas, quiches, com massa folhada ou brisée, adoro tortas!
Tem uma “tarte fine aux pommes” que sempre faço para um amigo nosso quando ele vem jantar em casa, virou uma tradição! Muito simples com massa folhada e maçãs cortadas fininhas… Mas como tudo na cozinha, a técnica é muito importante, além de tomar o tempo, ter os bons ingredientes e o bom material…
Na categoria de doces, adoro fazer crêpes suzette, que é sempre um sucesso com os convidados e, no final de semana, gosto de preparar os Canelés de Bordeaux e as Chouquettes. São clássicos franceses.
Na categoria de salgados, fiz recentemente um robalo em crosta de sal delicioso que também ficou registrado. Adoro a pissaladière da Provence que faço sempre – tipo de pizza com massa pão, só com cebolas, anchovas e azeitonas. Pimentões recheados à maneira do meu pai. E talvez, minha receita assinatura é um pato laqueado às especiarias, com mangas.

O chef Laurent Suaudeau, que tem a admiração de Caro, vive e trabalha no Brasil desde 1991 e é um dos nomes mais importantes da cozinha francesa no País. Natural de Cholet, na região francesa do Pays de la Loire, ele foi dono e chef do restaurante Laurent (1991-2005) em São Paulo com grande sucesso. Atualmente dirige uma escola de gastronomia com seu nome na capital paulista (foto Facebook)

Caro exibe a Tarte Tatin que fez com os ensinamentos do chef Suaudeau (foto Instagram)

QUE GOSTOSO! Você é super ativa no Instagram (parabéns!) também em relação à sua atividade de culinária. Como você vê essa atividade? Seus seguidores fazem as receitas, comentam? Pedem sugestões?
Caro — Sim, adoro compartilhar minhas experiências — e receitas — no Instagram, principalmente. Acho muito divertido e com a pandemia, as redes sociais ficaram ainda mais importantes para se manter em contato com os amigos e seguidores. A cozinha foi uma das grandes escapadas dessa nova vida confinada! Também comecei a seguir ainda mais cozinheiros e chefs de restaurantes do mundo inteiro e abri muito meu horizonte culinário.
Descobri novas receitas e muitos truques gastronômicos. E passei também várias receitas e dividi essas descobertas.
Sim, bastante seguidores comentam, compartilham e fazem as receitas. Também uso o Instagram profissionalmente para ficar em contato com os profissionais do turismo e apaixonados da França.

Outra torta feita por Caro: a de ameixas (foto Instagram)

Bolo de limão e papoula: outra criação de Caro (foto Instagram)

QUE GOSTOSO! Ultimamente você fez um curso de panificação e começou a apresentar suas criações no Instagram. Por que fez o curso? Por que a panificação te atraiu?
Caro — Não fiz nenhum curso de panificação. Queria fazer pão há anos e um dia, um amigo chef de cozinha me passou o “levain” (fermento natural), junto com algumas dicas e daí mergulhei no mundo da panificação! Era um sonho e realmente me apaixonei. Aprendi com as redes sociais e lendo muito sobre o assunto. Acho fascinante o que é possível de fazer só com farinha e água… e também, claro, técnica, tempo e dedicação.
E fazer um pão saudável, sem conservantes ou químicos e poder dividir isso com a família e os amigos é uma satisfação muito grande. Fazer pão é muito especial, é nobre e universal. Você tem a sensação de continuar uma tradição milenar que atravessou as civilizações e os séculos.

QUE GOSTOSO! Quais são os pães que você mais gosta de fazer?
Caro — Eu sempre faço um pão metade com farinha branca metade farinha integral, que combina com tudo. Pode acompanhar aperitivos, patês ou queijos mas também sopas…
Quando recebo convidados — o que é raro esses dias — às vezes faço pão com sementes de abóbora ou uvas passas.

Caro exibe o primeiro pão que fez, em 2020 (foto Instagram): gosto pela panificação (fotos Instagram)

Detalhe do pão caseiro da Caro

QUE GOSTOSO! Talvez não agora, mas você pretende trabalhar profissionalmente com a culinária? Abrir um negócio, como um “Bistrot da Caro” ou uma delikatessen, para vender as receitas que você faz tão bem e que parecem ser todas muito deliciosas? Por quê?
Caro — Ha ha ha… Muito obrigada pelos cumprimentos, Schapo! Acho que para preservar minha paixão e o prazer que tenho em cozinhar, melhor não virar profissional! Cozinheiro é um “métier” muito difícil que necessita muito tempo, muita dedicação e disciplina. Meu grande prazer é receber os amigos que gostam da minha cozinha. Isso não tem preço! Dividir é um prazer enorme e quando dá certo e que a receita encanta as papilas… É como se você oferece uma parte de você. É um ato puro de generosidade e de amor.

QUE GOSTOSO! Brasileiros têm pensamentos, muitas vezes equivocados, em relação à comida francesa. Por exemplo: que é cara, que é sofisticada, que vinho francês é caro e que restaurante francês é caro, que a porção é pequena… Qual é a sua opinião sobre esses pré conceitos?
Caro — Hummm…. Acho que é complicado resumir a cozinha francesa. Ela é tão diversificada. Ela pode ser sofisticada e simples. Mas acredito que a sua riqueza vem em primeiro lugar dos produtos, diversos e com sabores incríveis.
A França é abençoada pela natureza com pastagens e terras férteis capazes de produzir uns dos melhores alimentos do mundo. Mas o que realmente faz a diferença é essa técnica desenvolvida através dos séculos pelas cozinheiras e pelos cozinheiros franceses e que o mundo inteiro reconhece como sendo a referência.

Na cozinha do hotel La Mirande, em Avignon, na França — fotos Instagram

Uma aula para preparar o famoso doce francês madeleine — fotos Instagram

QUE GOSTOSO! Para o brasileiro que, após a pandemia, viajar pela primeira vez à França (vamos imaginar Paris): dê cinco dicas gastronômicas para ele.
Caro — Um doce: um Paris-Brest. Um hábito: sentar num terraço de um café (Les Deux Magots) e pedir um espresso com croissant na manhã ou um kir (bebida aperitivo) antes do jantar. Um restaurante: Le Violon d´Ingres. Um bairro: Saint-Germain-des-Prés. Um museu: Musée des Arts Décoratifs.
Os dois lugares novos a visitar absolutamente na sua próxima viagem: a Bourse du Commerce e o Hôtel de la Marine.

Fachada de um dos cafés preferidos por Caro na capital francesa (foto site)

Pâté en croûte do restaurante Le Violon d´Ingres, em Paris (foto site)

O doce Paris-Brest, admirado por Caro (Dominyka Idzelyte/Pixabay)

QUE GOSTOSO! Jogo rápido: a) o que não pode faltar na sua cozinha (três produtos)?; b) páprika: doce ou picante? c) receita desafiadora salgada que ainda vai fazer? d) receita desafiadora doce que ainda vai fazer? e) azeite de oliva ou manteiga? f) queijos franceses: seus Top 5.
Caro — A) mostarda artesanal da Borgonha (cuidado, Dijon não vem necessariamente de Dijon!), ras-el-hanout (especiaria para fazer o cuscus marroquino), açúcar perolado (para fazer as chouquettes). B) Páprika doce e picante, os dois, mas tem que ser a verdadeiro páprika da Hungria! C) O pâté de pommes de terre com trufas do Périgord. D) Um sorvete de café. E) Os dois! F) Comté (da Franche-Comté), Saint-Nectaire (da Auvergne), Roquefort (da cidade homônima), Ossau-Iraty (do País Basco) e Sainte-Maure (de cabra, da Touraine).

Esse artigo foi reblogado da revista on-line Que gostoso do jornalista Claudio Schapochnik

 

Na França, turismo na Borgonha em tempo de pandemia

Os mágicos telhados dos Hospices de Beaune reabriram dia 19 de Maio

Em tempo de pandemia, depois de 10 dias de quarentena, ganha-se o direito de andar pela França. Nesse momento, pegar um carro e seguir estradas turísticas em total liberdade é uma das melhores formas de viajar e de acumular experiências únicas em tempo de pandemia. E para quem procura seguir com antecipação as novas tendências esperadas para o novo mundo pós covid, combinar   bem estar, cultura e enologia leva com tranquilidade a escolher a Borgonha,- Dijon, Beaune, sua fé e seus vinhedos-, como coração de um roteiro em família cheio de experiências e de boas surpresas.

Boas surpresas nas ruas pedestres do centro histórico de Dijon,

Ponto de partida da “Route des grands crus”, Dijon, capital dos duques de Borgonha reservou aos pedestres todo o seu centro histórico. Sempre mais rica em informações com um guia, a visita segue o “itinerário da coruja”, a ave símbolo da cidade, escolhida ou por ser associada a sabedoria da deusa Atena, ou por se chamar em francês “grande duque” . Alternando belezas arquiteturais – com destaques para o Palácio dos Duques, a catedral Santa Benina e a torre de Philippe le Bon-, para algumas curiosidades – a menor loja do mundo-, e para lojas de especialidades – mostardas, cremes de cassis ou doces-, o circuito mistura  imprescindíveis clichês, surpresas, e encontros com moradores sempre atenciosos.

O Clos des Issarts, um Gevrey-Chambertin 1er Cru

Borgonha é mesmo enoturismo, e os primeiros vinhedos começam no próprio município de Dijon com o Marsannay  e o Fixin, duas apelações pouco conhecidas  mas coloridas, frutadas e poderosas, alguns dos seus “climats”  tentando atingir em breve o selo de premier cru. No Château de Marsannay, a primeira degustação do dia (com um anfitrião fã do Brasil) mostrou que essas ambições eram legítimas. O vinho rei da Côtes de nuits, é porém o Gevrey-Chambertin, favorito do Napoleão, e, segundo nosso guia, muito procurado pelos brasileiros. E na adega do Philippe Leclerc, produtor local e onde fizemos uma segunda generosa degustação, o Brasil é mesmo uma das esperanças da retomada do enoturismo.

A 2CV, prazer, saudade e emoção nos vinhedos

Se os passeios de bicicleta são uma das grandes tendências do turismo na Borgonha, o visitante sem pressa tem uma outra opção emocionante: a 2CV “My French tour” da Mélanie. Nas pequenas estradas da “Route des Grands Crus”, o nosso barulhento, lento, apertado mas charmosíssimo carrinho dos anos 50 passou por Pommard, Volnay, Meursault, Puligny-Montrachet, et Chassagne-Montrachet. Paramos para ver o espetáculo dos “climats”, esses vinhedos definidos pela geologia dos solos, a exposição a luz do sol e aos savoir-faire de gerações de viticultores. Paramos para visitar uma “cabotte”- casinha de pedras multi-centenária- e uma estátua de São Cristovão. Paramos mais ainda para visitar as adegas  do Castelo de La Crée.

O Hotel Le Cep foi uma das boas surpresas da viagem

Outra boa surpresa da viagem foi o Hotel Le Cep em Beaune. Mesmo sabendo que era um dos melhores hotéis da Borgonha, sua arquitetura, seus espaços e especialmente seu atendimento ficaram acima das expectativas. Construído com a interligação de vários prédios, incluindo dois casarões do século XVI, encostado e com acesso as antigas muralhas da cidade, o hotel tem o charme da sua história: torres, escadas, pátios, quartos diferenciados, salões prestigiando de tenentes de Luis XIV até celebridades do jazz. Infelizmente não tivemos tempo de experimentar os dois SPAs, e o restaurante gastronômico do grupo Bernard Loiseau estava fechado devido pandemia, no entanto a adega foi o quadro impressionante de grandes momentos de convivialidade enológica .

Em Aloxe Corton, o castelo domina os 2000 anos de vinhedos

Viajar em tempo de pandemia é sem dúvidas complicado, mas dá também uma intensidade trazida pelas relações peculiares nesses momentos de crise bem como a garra e alegria dos atores do turismo que atuam pela retomada. De cada parada dessa viagem, da Borgonha e depois das Sources de Cheverny ou de Paris, levamos a certeza que o turismo pós pandemia será ainda mais imprescindível e mais transformacional.

Jean-Philippe Pérol

 

 

 

Na França, turismo e confinamento nos tempos de pandemia …

Para cada viajante, um decreto de confinamento com copias para desembargadores e juizes

Viajar é preciso, e mesmo como as restrições legitimamente impostas pela luta contre o Covid, alguns turistas estão se arriscando. Do Brasil, é assim possível ir nos Estados Unidos, se aceitar passar 14 dias de quarentena num destino aberto – o México por exemplo-, ou na França, se tiver um passaporte europeu  e aceitar passar 10 dias de confinamento na chegada. Aproveitando o fato que a Air France (quase) sempre manteve os seus voos para Paris, e já tendo recuado duas vezes a nossa viagem, decidimos de fazer essa experiência de turismo em família em tempo de pandemia, um roadtrip incluindo a Auvergne, a Borgonha, o Vale do Loire e Paris.

A Air France assegurando a ligação França-Brasil

A viagem começa bem – o pessoal de bordo da Air France fazendo o máximo de esforço para tirar o estresse dos poucos passageiros, até a chegada em Paris e o começo das dificuldades. Vindo do Brasil, os viajantes são colocados em longas filas, da polícia, do registro do lugar de confinamento, do teste PCR (brasileiros, franceses, indianos e sul africanos, negativos e positivos, bem juntinhos). E depois de duas horas e meio (para os primeiros, os últimos levaram mais de quatro horas), conseguimos sair com o imponente decreto de confinamento assinado pelo “Prefet” de policia de Paris, com cópia para dois desembargadores e dois presidentes de tribunais regionais.

Auzances, lugar escolhido para nosso confinamento

Com obrigação de ir diretamente para o lugar de confinamento, corremos na Hertz e saímos logo para a nossa casa da família, 350 quilômetros a fazer sem poder parar para respeitar o confinamento. Contornando Paris, o nosso itinerário nos leva até Orléans, atravessa o Rio Loire (sem ver os castelos) , e segue depois o vale do Rio Cher (o mesmo que passa em Chenonceaux), Bourges, a floresta de Tronçay com seus carvalhos pluri centenários, Montluçon e as últimas curvas atravessando as antigas minas de ouro. Com medo das multas de 1000 Euros para quem furar o confinamento e de 135 Euros para quem furar o toque de recolher, chegamos até adiantado no nosso destino, Auzances.

O impressionante empenho da PM local vigiando os confinados

Começou então a rotina do confinamento. Correr de manhã para aproveitar as duas horas (das 10:00 as 12:00) disponíveis para fazer as compras ou passear em um raio de um quilômetro, decisões dos sábios dos 27 comitês que administram na França a luta contre o Covid.  Descobrir logo a eficiência da PM que apareceu de manhã cedo para ter certeza que estávamos em casa, e do ministério da saude que ligou três vezes perguntando se eu era eu, e se minha esposa era minha esposa ….  pensei que era uma piada e perguntei para o atendente, mas era colombiano e não falava bem francês, só resolvemos falando em espanhol para a família ser checada e liberada.

Brinquedos no supermercados, nem pensar!

Confinamento é rotina, mas também confronto com a burocracia. Correndo para o supermercado, descobrimos que era possível comprar comida mas não eletrodomésticos, livros mas não brinquedos, e meias de crianças mas somente até dois anos. As sementes eram proibidas se for para plantar, mas liberadas para dar para seu canário. Não podia entrar em loja de móveis, mas fazendo a encomenda na hora pela internet, podia retirar o que for precisa. Nosso carro da Hertz pifou, mandaram o reboque mas para ser substituído era necessário buscar o novo a uma distancia de 60 quilômetros, sendo necessária então uma autorização excepcional que ninguém era competente para dar.

Mesmo a 1 km de casa, o campo é lindo mesmo

Estar trancado na casa de família tem seus momentos de alegria. É possível receber parentes ou amigos, até seis de uma vez e com máscaras, e a condição que o encontro não dure mais de quatro horas. É também a ocasião de novos encontros, por exemplo os PM da cidade vizinha que viram dar apoio a seus colegas daqui provavelmente cansados de passar quase todo dia sem deixar nem uma multa. E de reencontros, por exemplo uma velha amiga de infância, hoje enfermeira, que passou para recolher o material para nosso terceiro teste PCR em 10 dias – nenhuma exceção sendo prevista para os vacinados. E mesmo nos limites de um quilômetro, o campo da minha terra é lindo mesmo.

A lareira de casa, um lugar perfeito para viver um confinamento

Mas esse confinamento é mesmo cheio de emoção e raízes, um tempo para abraçar parentes, reforçar amizades, medir o carinho dos moradores e até da prefeita, jogar bola com minha filha na frente da igreja, ou olhar com minha esposa a fogueira na grande lareira que esquenta a casa desde o século XVI. No décimo dia de isolamento, depois de mais uma ligação do ministério da saúde, e esperando o último controle da PM, pensamos que finalmente  foi o justo preço a pagar para seguir o nosso roteiro para os vinhedos da Borgonha em  Beaune e Dijon, o SPA das Sources de Cheverny, e as novidades Parisienses, o Hotel de la Marine e a Bourse du Commerce. Viajar é preciso, mesmo nos tempos de pandemia.

Jean-Philippe Pérol

 

As camélias da Chanel virando atração turística na França

Coco Chanel nunca explicou a sua paixão pelas camélias

Se a camélia era a flor preferida de Coco Channel, há anos que sua famosa maison de alta costura não a encontrava mais na França. Perto de Biarritz, cidade pela qual Mademoiselle Chanel se apaixonou em 1915 e que inspirou um dos seus perfumes, a Maison Chanel lançou em 2018 um projeto de “fazenda das camélias”.  Na cidade de Gaujacq, famosa pelo seu castelo do século XVII, uma área de 40 ha virou um verdadeiro laboratório, produzindo milhares de flores sem produtos químicos, no respeito dos ecosistemas e da biodiversidade, e sob a direção do viveirista e pesquisador Jean Thoby.

A Camellia japonica Alba Plena introduzida em Gaujacp

Foi Jean Thoby que convenceu a Chanel de escolher Gaujacq, pequeno vilarejo da 450 habitantes onde ele trabalha há vinte anos num excepcional “Plantarium”de 2000 variedades de camélias, inclusive a variedade branca que Coco Chanel tinha escolhido.  Na terra rica dessa região, março é o pique da florada da « Camellia Japonica Alba Plena ». É a época da colheita dessas flores brancas, delicadas mas sem perfume, que devem ser colhidas manualmente. Serão necessárias 2200 flores para cada kilo do ativo hidratante que entram na composição da linha de cremes lançada em 2009.

O Plantarium de Jean Thoby

Jean Thoby gosta de lembrar que a Alba Plena é muito difícil de plantar, e que foi necessário dez anos de trabalho, e que sem o patrocínio da Chanel essa variedade teria desaparecido. O sucesso só chegou depois de muitos testes. Foi necessário encontrar uma região com o clima adequado, e trazer as primeiras mudas. Elas vieram de um viveiro da família em Nantes, onde existiam varios pés adquiridos do fornecedor da Exposição universal de Paris de 1900. Os pais do Thoby contavam que a Coco Chanel teria visto as camélias durante uma visita, ou numa floricultura da rua Cambon em Paris que tinha o mesmo fornecedor.

O castelo de Gaujacq, tombado pelo patrimônio histórico

O projeto da Chanel ainda não aparece nas rotas turísticas,  mas o proprietário do castelo de Gaujacq já está aproveitando a notoriedade internacional que tragam novos turistas para as visitas guiadas desse monumento com arquitetura original e apartamentos mobiliados. Chanel ajudou também nos investimentos, financiou a renovação dos salões de festas que serão em contrapartida exclusivamente utilizados para os eventos do grupo ou para exposições culturais abertas ao público. As obras do caminho de ronda das camélias e uma nova sinalização turística, informando sobre as variedades da flor, vão facilitar as visitas.

Não se sabe porque a Coco Chanel tinha escolhida as camélias  como suas flores favoritas.  Solidariedade com o trágico destino da heroína do livro “La Dame aux camélias” do Alexandre Dumas, homenagem a liberdade associada com essa flor pela Princesa Isabel, saudade do primeiro buquê oferecido pelo seu grande amor Boy Capel, ou referência ao escritor Marcel Proust, Chanel nunca explicou as razões da sua paixão. É porem certo que ela utilizou essas flores em todas as suas coleções tanto de moda que de joalharia. Agora vindo de Gaujacq, as camélias vão continuar a estar presentes nos seus cosméticos e nos seus perfumes.

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