Boicotar ou não boicotar os turistas russos?

Na França, Courchevel era um dos destinos favoritos dos Russos

No complicado contexto da invasão na Ucrânia,  a Rússia anunciou que o seu turismo emissivo atingiu em 2023 24 milhões de viagens internacionais, um crescimento de 16,4% em relação a 2022, mas um resultado ainda longe dos quase 48 milhões que saíram do país em 2019, antes do Covid-19 e dos boicotes impostos depois do início da guerra. Nessa época, o turismo russo representava 3% do turismo mundial. Os destinos vizinhos – Turquia, Finlândia, Cazaquistão, Ucrânia e Estônia- lideravam as preferencias dos russos, mas países ocidentais como França, Itália, Espanha e Suiça brigavam para atrair estes clientes prontos a gastar fortunas nos palácios das capitais ou nos resorts luxuosos de Courchevel, Ibiza, Saint Tropez, Marbella, Gstaadt ou Veneza.

A Riviera turca atraindo cada vez mais os turistas russos

Tudo mudou no dia 24 de fevereiro de 2022. A guerra levou quase todos os países da Europa e da América do Norte a um boicote quase total dos intercâmbios de transporte e de turismo com a Federação Russa. Essa decisão não somente atrasou a recuperação das viagens internacionais mas ainda modificou bastante os destinos desses polêmicos turistas, com um novo ranking mostrando claramente os ganhadores. São a Turquia, com 6,3 milhões de visitantes e um crescimento de +20,7% em relação a 2022, os Emirados Árabes com 1,7 milhão e +42,5%, a Tailândia com 1,48 milhão e +240,6%, o Egito com 1,28 milhão e +35,4%, a China com quase um milhão e + 420%, as Maldivas com 209.1oo e +3.6%, o Sri Lanka com 197.000 e +116,4%, Cuba com 185.000 e +240%, e a Indonésia com 160.000 e +115%. Com 106.000 chegadas, o Brasil recebe hoje 5 vezes mais russos que antes da crise.

Dubai tentando atrair turismo e negócios russos

Aproveitando este sucesso, vários destes destinos já anunciaram que querem se abrir ainda mais ao turismo russo. O Ministro do Turismo do Egito projeta 3 milhões de viajantes russos em 2028, a autoridade de turismo da Tailândia já anunciou uma meta de mais de 2 milhões de entradas logo em 2024, o governo de Cuba assinou um acordou para receber em média 500.000 turistas russos por ano, e a Turquia prevê um crescimento de 10 a 30% em 2024. Dubai oferece vantagens para as viagens de negócios combinando com luxo e segurança, a Tunísia liberou os vistos, e vários países como a Índia, Birmania, Omã, Sri Lanka, Irã e Marrocos estão conversando com o governo russo.

O turismo em Chipre sofreu com o fim dos passaportes dourados

Com motivos políticos ou éticos, o boicote teve consequências importantes para o turismo dos destinos que tinham mais investido no mercado russo. Assim nos Estados Unidos que passaram de 300.000 turistas russos em 2017 a menos de 50.000 em 2022, e em quase todos os países da União Europeia que perderam quase 85% desses fluxos, com um impacto forte nas receitas considerando a forte proporção do segmento luxo e o alto gasto médio por dia. Na Europa, Chipre foi um dos destinos mais impactados, com seu turismo dependendo mais de 30% dos russos, e o setor imobiliário tendo beneficiado dos “passaportes dourados” vendidos por Euros 2,5 milhões a ricos investidores.

Influenciadora russa teve que pedir perdão à arvore sagrada de Bali

Não se pode analisar o impacto destas brutais mudanças dos fluxo turísticos da Rússia sem considerar também o impacto que tiveram para as populações dos destinos e para as outras comunidades. Na hora do overturismo e da crescente preocupação pelo equilibro local, os novos turistas russos tiveram as vezes dificuldades para entender as exigências culturais ou religiosas dos moradores. Em Bali, na Índia ou no Sri Lanka, turistas e locais se desentenderam e as autoridades tiveram que interferir para colocar panos quentes. No Sri Lanka e no Egito, incidentes entre turistas russos e ucranianos tiveram que ser resolvidos. Nos países da Europa, mais implicados no boicote, a situação politica levou a incidentes discriminatórios contra os russos que deixarão marcas no futuro.

A Igreja Russa, um dos pontos esperando a volta dos turistas russos em Nice

O balanço do boicote é hoje difícil de fazer pelas suas múltiplas motivações. Mas, para o setor, ele representa em primeiro lugar um prejuízo importante para o turismo mundial – aproximadamente 20 milhões de viajantes e quase US$ 20 bilhões de receitas a menos, boa parte para os grandes destinos da União Europeia. Mesmo repudiando a guerra e a falta de respeito do direito internacional, os profissionais e os viajantes só podem lamentar que problemas políticos entre governos prejudiquem as atividades de milhares de profissionais que trabalham num setor que se caracteriza justamente por ser uma indústria de paz, de intercâmbio multicultural e de liberdade individual.

Jean Philippe Pérol

Olhando para China, quais novas rotas para retomada do turismo?

Turista chinesa em Pequim

Enquanto a WTTC alerta para a possibilidade de chegar a 75 milhões de desempregados no turismo mundial,  e que os profissionais brasileiros enfrentem a pior crise econômica e social vivida pelo setor desde a Segunda Guerra, deve ser lembrado que a extraordinária resiliência do turismo levará em breve a uma retomada que pode ser tão surpreendente que a paralização que estamos vivendo. Se é unfelizmente difícil de prever quando os turistas vão recomeçar a viajar, e quais mudanças nos comportamentos vão com certeza aparecer, já pode ser observados as primeiras tendências no mercado chinês. Na China, primeiro pais atingindo pelo virus, as grandes operadoras de turismo já estão assinalando as primeiras reservas de viagens nacionais e internacionais, mostrando os passos do caminho da retomada.

Ctrip Rebrands to Trip.com

Com a crise, Ctrip, agora Trip.com somente adiou as suas ambições

Qunar e Ctrip, duas das maiores agencias online chinesas, ficaram dois meses completamente paradas mas recomeçaram a aceitar reservas a semana passada, seja menos de quatro meses depois do inicio da crise em Wuhan. Na Qunar os clientes já podem escolher entre mil pacotes para todas as cidades ou regiões da China onde não existem restrições de viagens e onde os governos locais estão incentivando a reabertura , como Shanghai, o Xinjiang e o Sichuan. A Ctrip tem um aplicativo que  recomeçou a aceitar reservas, oferecendo passagens e pacotes para 1449 destinos turísticos chineses, seja 40% do total. Para esses dois lideres, e para outras grandes operadoras,  parece assim muito claro que a retomada vai privilegiar numa primeira fase o turismo domestico.

O Festival de Songkran na Tailândia

Os profissionais chineses esperam também uma retomada das viagens internacionais antes do final de Abril para os países que estarão prontos a reabrir suas fronteiras. Poderia ser o caso da Tailândia, onde o presidente da « Tourism Authority of Thailand » (TAT), está atuando junto com o governo, as autoridades sanitárias e os profissionais para ficar pronto antes do 13 de Abril, dia do ano novo budista. Muitos especialistas são mais cautelosos, os obstáculos sendo não somente  melhorar as normas e os controles sanitários, mas também conseguir ganhar a confiança dos turistas que são agora atentíssimos a estas questões, e temem participam de grandes agrupamentos. A Tailândia pode porem ser otimista, os destinos de proximidade devendo ser os primeiros a beneficiar da retomada das reservas de viagens internacionais.

Bleisure, this booming social style

O bleisure pode ser um dos primeiros segmentos a aproveitar a retomada

Se é impossível fazer previsão de datas, o exemplo chinês mostra que essa crise, como muitas outras antes, poderá começar a ser superada em quatro meses, e que a retomada deve ser concentrada em primeiro lugar no turismo nacional e nos destinos internacionais de proximidades. Alguns segmentos poderiam também recuperar mais rapidamente que os outros. A legitima vontade dos governos de priorizar a economia deve provavelmente favorecer as viagens de negócios, incluindo para as feiras internacionais que terão sido adiadas ou mantidas, as viagens individuais ou as viagens de “bleisure” combinando negócios com estadias de lazeres para esquecer os dias de confinamento.

Cruzeiros em navios menores pode ser uma das novas tendências

Assim como os responsáveis do turismo da Tailândia, os especialistas vão seguir com muita atenção a volta dos turistas chineses e as novas tendencias desenhadas pela crise do coronavirus, com mais preocupações referentes a saude, aos seguros de viagem, a qualidade dos equipamentos sanitários ou a higiene dos destinos. A crise poderia também levar a reavaliar as agremiações gigantes que mostraram fragilidade. O tempo poderia ser do “small is beautiful”, seja na escolha de cidades menores, de navios pequenos ou de eventos de tamanho mais humanos. O turismo vai com certeza se reerguer mais rapidamente que esperado, mas a retomada vai com certeza seguir novas rotas que devem ser antecipadas.

Esse artigo foi inspirado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line La Quotidienne

130 milhões de viagens de chineses em 2017, umas idéias para o Brasil?

Os chineses já representam 30% do turismo da Tailândia

As primeiras estimativas do turismo chinês para 2017 chegam a 130 millions de viajantes, com despesas globais de 285 bilhões de USD, mantendo a China como primeiro mercado mundial. As expectativas são hoje de 200 milhões de turistas chineses para 2020, turistas cobiçados por todos os grandes destinos. Mas a Europa terá talvez que esperar um pouco, a maioria deles escolhendo a Ásia, mais próxima e mais acessível. Assim a metade desses turistas não viajaram alem de Hong Kong (47 milhões), Macau (20 milhões) ou Taiwan, (3 milhões), e no Top 10 dos seus destinos preferidos, todos são asiáticos com exceção dos Estados Unidos e da França. No Top 20, também dominado pelos países vizinhos, só deveriam entrar ainda a Rússia, as Ilhas Maldivas, a Alemanha e a Suíça.

Oito países asiáticos no Top 10 dos viajantes chineses

Mesmo alem da grande China, essas viagens internacionais são concentradas em poucos destinos, cinco deles somando mais de 50% dos viajantes. Tailândia é hoje o destino que recebe mais turistas chineses, mais de 10 milhões. Representando quase um terço dos visitantes, eles empurraram o Reinado no Top 10 do turismo mundial e mais ainda no pódio nos países com as maiores receitas de turismo internacional, passando até a França. No Japão , os 7 milhões de visitantes vindo da China ajudaram o pais a virar em cinco anos um grande destino turístico.  Tradicionalmente muita apreciada pela sua cultura, a Coreia do Sul sofreu das ameaças de guerra com seu vizinho do Norte, e, se atraiu 4,2 milhões de chineses em 2017, deve ser esse ano passada pelo dinamismo do turismo vietnamita que cresceu 48,6%.

Turistas Chineses na Baia de Ha Long (Viet Nam)

Os vizinhos da China estão também tentando seduzir os seus turistas, investindo e antecipando as novas tendências: roteiros personalizados, serviços de melhor qualidade, menos shopping e mais experiências e intercâmbios. A Indonésia quer investir em dez “novas ilhas de Bali”. Os países da ASEAN vão investir mais de USD 100 bilhões para construir em aeroportos, ligações ferroviárias, hotéis e parques temáticos adaptados aos clientes chineses. Nos principais sítios turísticos do Japão, as lojas oferecem mais serviços em chinês, guias de compras em chinês estão sendo distribuídos, e milhares de comerciantes estão aderindo aos sistemas de pagamentos chineses Alipay e Wechat, aplicações multifunções que estão se espalhando em 30 países da região.

VisitBrasil marcando presencia na China

Para o Brasil, esses resultados impressionantes do primeiro parceiro dos BRICS deve levar a duas observações. A primeira é a fraqueza do fluxo de chineses para o Brasil, menos de 60.000. Um número difícil de comparar com os resultados dos países asiáticos ou dos grandes destinos europeus ou norte americanos, mas que fica complicado de entender quando se pensa no milhão de turistas chineses visitando a distante África do Sul. Para atingir a meta do plano Brasil Turismo, 12 milhões de visitantes até 2022, a China será com certeza a chave do sucesso. A segunda observação é o imensa potencial de viagens que os países vizinhos oferecem para um mercado emissor amadurecendo. Enquanto na China e no mundo inteiro 80% das viagens internacionais são concentrados em países limítrofes, no Brasil essa proporção é somente de 50%. Colômbia, Peru, Chile, Argentina ou Uruguai têm talvez ideias a buscar nos vizinhos da China …

Jean-Philippe Pérol

O turismo brasileiro para Colômbia dobrou em 5 anos