O turismo com 100 milhões de empregos a reconstruir

 

Egito, um dos destinos em destaque em 2021

Na véspera da alta temporada do hemisfério Norte, nos raros destinos internacionais abertos, os poucos viajantes vão com certeza amar os preços imbatíveis dos aviões e dos hotéis, a exclusividade das visitas de monumentos e atrações, a volta da natureza nos parques e jardins, ou a atenção especial dos guias e dos garçons. Menos visível para os visitantes, eles não poderão ver o outro lado da moeda desse “underturismo brutal”, o desaparecimento de muitos pequenos empregos que alegram o turista como motoristas, empregados, artesãos,  motoristas, vendedores de rua, artistas, animadores ou músicos.

Veneza saindo do overturismo e repensando uma nova relação entre turistas e moradores

Segunda uma estimativa do WTTC, o World Tourism and Travel Council, a queda de 74% do turismo internacional em 2020 já levou a destruição de 62 milhões de empregos, um número que poderia mesmo ter sido maior sem as medidas de apoio ao setor de muitos governos. A Organização Mundial do Turismo acredita porém que esses números são subestimados devido ao atraso da retomada, e já projeta para o final desse ano mais de 100 milhões de desempregados. Um cenário negro dentro do qual a OCDE teme que a metade das pequenas e médias empresas do setor desaparecem antes de 2022.  

As Ilhas do Tahiti souberam aproveitar o turismo para preservar seu patrimônio cultural

A crise do turismo impacta toda a economia de muitos países onde o setor representa não somente 10% do PIB, mas também a primeira fonte de divisas,  e até 25% dos empregos gerados nos últimos 5 anos. Em agosto 2020, um relatório da ONU chamou a atenção dos governos sobre a importância desses empregos, especialmente na África e na Oceania. Mesmo pouco qualificados, eles oferecem verdadeiras perspectivas de formação e de carreira para jovens sem diplomas, mulheres, populações rurais, povos autóctones e grupos marginalizados. São também essenciais a preservação do patrimônio natural e cultural. 

Os dois cenários da OMT para 2021

As perspectivas a curto prazo continuam pessimistas. Depois de anunciar uma queda de 87% do turismo internacional em janeiro, a OMT publicou dois cenários para 2021. O primeiro seria de uma retomada a partir de julho, com um aumento de 66% das chegadas em relação a 2020 – ainda inferior de 55% aos níveis anteriores a crise  O mais provável seria no entanto o segundo, uma volta ao normal a partir de setembro, um aumento das chegadas de somente 22% em relação a 2020 – inferior de 67% aos níveis de 2019.  A saída definitiva da crise seria assim projetada para janeiro ou abril de 2022. 

O turismo pos Covid ainda deve ser redesenhado

Com a normalidade ainda demorando a voltar, muitos dos seus profissionais obrigados a encontrar empregos em outras atividades ou perdendo fé no futuro do setor,  o turismo corre o risco de perder os homens e as mulheres que são a sua maior riqueza. Mesmo com as dramáticas circunstâncias atuais, ninguém deve porém perder a esperança. Em primeiro lugar porque os fluxos de turismo internacional vão voltar a crescer, a projeção da OMT de 1,8 bilhão de turistas para 2030 sendo somente recuada de dois ou três anos, permitindo a recuperação dos 100 milhões de empregos perdidos . Em segundo lugar porque o turismo vai acelerar uma extraordinária mutação – ecológica, social, cultural e comportamental- que vai ser para todos os profissionais do setor, e especialmente os mais jovens,  um desafio apaixonante.

Jean-Philippe Pérol

Emoções transformacionais e exclusividade,  tendências para ser respondidas

A renovação urbana, grande vencedora da pandemia?

No coração de Manhattan, a 42nd é agora deserta

Apresentado um relatório sobre o crise do Covid nos centros urbanos, o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, lembrou que as grandes cidades são as mais atingidas, concentrando até 90% dos casos. Os confinamentos pararam com o coração das suas atividades. Com os trabalhadores, os visitantes, os estudantes e até os moradores cada vez mais raros nas ruas, comércios e restaurantes estão sofrendo com as indispensáveis precauções sanitárias, ou são obrigados a fechar pelo menos provisoriamente. Em muitos países,  ajudas governamentais ainda estão evitando fechamentos definitivos, mas a retomada será muito difícil.

A crise acelerou a popularidade das ciclovias

Muitas prefeituras tentaram com sucesso de adaptar a utilização do seu espaço público as necessidades da luta contre a epidemia, investindo em transporte mais seguros com a aceleração de projetos antigos ou o lançamento de novas iniciativas : ampliação das áreas pedestres e das ciclovias, construção de pontos de abastecimentos de veículos elétricos, aberturas de terraços nas calçadas e nas praças públicas. Em uma conjuntura normal, essas idéias encontram fortes resistências mas com a crise foram facilitados pela urgência de ajudar o acesso seguro aos comércios locais, elos chaves da vitalidade das ruas dos centros urbanos.

O centro histórico de Québec enfrenta a queda do turismo

Além do comércio e dos restaurantes, as prefeituras devem também agir para ajudar o setor hoteleiro dos centros urbanos que estão em situação crítica. Além de muitos hotéis fechados, as taxas de ocupação de 2020 estão raramente ultrapassando 40% nos dias de pique, e caindo a menos de 20% em destinos acostumados a receber turistas internacionais – 18% por exemplo em Montreal. 2021 começou pior ainda, e mesmo Paris, primeira cidade turística mundial, estava em janeiro com uma taxa oscilando entre 34% para os hotéis mais populares, até 7% para os 5 estrelas que são as maiores fontes de visitantes para as lojas e os restaurantes das ruas comerciais.

Montreal é a cidade mais verde do Canada

No Canadá, os profissionais pensam que a crise vai acelerar algumas tendências do urbanismo que já preexistiam: construções mais sustentáveis, desenvolvimento da agricultura urbana, ampliação dos parques e das áreas arborizadas, apoio a todos os tipos de transportes a propulsão elétrica. Um grupo de 50 especialistas e personalidades assinaram uma Declaração 2020 para a resiliência das cidades canadenses. Eles estão pedindo uma economia verde, limpa e com poucas emissões de carbone, listando 20 medidas para assegurar uma urbanização responsável, acelerar a “decarbonização” e aderir de vez ao crescimento sustentável.

Paris projetando um futuro dinâmico, acolhedor e verde

A agonia dos centros urbanos não começou com a pandemia. Os shopping centers das periferias bem como o e-comércio já estão esvaziando as ruas há anos. A crise do Covid acelerou o movimento mas provocou também uma maior conscientização e muitas vezes uma forte mobilização dos profissionais. No Canadá, foi publicado o relatório Devolvendo a rua principal que apresenta ações para dinamizar o coração das grandes cidades.  No Québec, uma outra iniciativa junta apresentações de projetos de cidades com centros renovados, dinâmicos, motores da  economia turística, onde cultura e gastronomia são autênticos e vibrantes, onde os moradores são felizes, orgulhosos de viver e de receber os turistas.

O Québec investindo em “rues conviviales” para renovar os centros urbanos

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Claudine Barry na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

150 anos da “Commune”, a controvertida e fascinante história de Paris

O Palácio dos Tuileries teve que ser destruído depois do incêndio

No próximo dia 18 de Março, Paris vai começar a comemorar os 150 anos de uma das mais polêmicas e mais sangrentas páginas da sua história, quando as tropas do governo – os “Versaillais”- venceram os insurgentes “communards”, e fuzilaram mais de 30.000 homens, mulheres e crianças. Último episódio das revoluções patrióticas e democráticas que sacudiram a  França desde 1789, ou primeiro grande levante social da história contemporânea, a “Commune de Paris” ainda divide os políticos franceses, e mesma a saudosa canção “Le temps des cerises“, hino muito tempo proibido, ainda  não faz a unanimidade. Mas a prefeitura aprovou as comemorações, e  vai, até o 28 de Maio, organizar homenagens, palestras históricas, e exposições culturais, sempre adaptados ao contexto sanitário atual.

Louise Michel, ícone da Commune de Paris nos cartazes dos 150 anos

Os eventos têm uma forte dimensão politica, a prefeita socialista lembrando aos moradores que a revolta era democrática e social, e que algumas reivindicações eram surpreendentemente modernas. Além das violências – que provocaram muitas mortes mas também a destruição de monumentos simbólicos como o Palácio dos Tuileries ou a Prefeitura-, a “Commune” foi pioneira na gratuidade do ensino, na separação da igreja e do estado, no divorcio consensual, ou nos direitos das mulheres. Foi por sinal uma mulher icônica, Louise Michel, militante anarquista, combatente da linha de frente, exilada na Nova Caledônia depois da derrota, que foi escolhida no cartaz das comemorações.

A Commune começou nas ruas e nas praças de Montmartre

Vários eventos vão marcar o início da comemorações dia 18 de Março. Em Montmartre, onde a Commune começou, será reconstituída uma barricada e 50 parisienses foram selecionados para trazer 50 silhuetas  de revolucionários realizadas pelo artista  Dugudus. As peças representam personalidades anônimas ou famosas, como a anarquista Louise Michel, o pintor Gustave Courbet, ou o poeta Arthur Rimbaud, e serão depois expostas na Prefeitura. No mesmo dia, será inaugurada uma “Alameda da Ile dos Pins”, com os nomes dos numerosos revoltados, homens e mulheres, que foram deportados para essa ilha da Nova Caledônia depois da liquidação da revolta.

A Ile des Pins, Nova Caledônia, onde foram deportados mais de 3000 revoltados

Várias exposições serão também apresentadas.  O comitê histórico da prefeitura realizou “1871 : les 72 jours de la commune” que começará no bairro das Buttes Chaumont, depois continuará na biblioteca da Sorbonne e enfim  no Marais. Uma coleção de cartazes da época, batizada “A l’assaut du ciel” será exposta  em 20 escolas parisienses. São previstos espetáculos de rua da tropa artística nos principais bairros simbólicos da Commune, bem como vários roteiros turísticos acompanhados de guias, organizados pelas subprefeituras de Paris. Em parceria com associações, uma mapa interativo apresentará locais e personagens, conhecidos ou não, que tiveram um papel nos eventos da época.

A Praça de l’Hotel de Ville, lugar chave das comemorações

Alguns eventos serão encenados para atrair moradores e turistas. Dia 2 de Abril será reconstruído na frente da Prefeitura o julgamento da anarquista Louise Michel, com historiadores opondo os argumentos dos “Versaillais” e dos “Communards”. Se as condições sanitárias melhoraram, o julgamento será retransmitido em uma tela gigante na praça do Hotel de Ville, e os debates serão seguidos de de leituras e de cantos. Dia 28 de Maio, aniversário do último dia do levante, será realizado um espetáculo de sons e luzes “Le Pari de la Commune” na rua de la Fontaine du Roi, 17.  No mesmo lugar aonde tinha sido erguido a última barricada, comediantes e músicos encenarão  o final desse drama, parte da tão peculiar historia que faz de Paris uma cidade única.

Jean-Philippe Pérol

O Sacré Coeur, símbolo controvertido da derrota da Commune

A guerra do 5G chega nos aeroportos

Fator chave da guerra comercial entre as super potencias do século XXI, o 5G já começou a mexer com todos os setores econômicos. Trazendo imensas opções de comunicação ilimitadas para os atores do transporte e do turismo internacional, oferece assim para os aeroportos a possibilidade de virar verdadeiras cidades inteligentes. Veículos, funcionários, maquinas e passageiros serão todos interligados para ser acompanhados em tempo real, facilitando processos e controles. As autoridades aeronáuticas estão porem cautelosas, e um relatório da Direção da Aviação Civil da França enfureceu há duas semanas as operadoras telefônicas depois de levantar suspeitas sobre um risco trazido pelas antenas 5G.

As autoridades francesas estão cautelosas com as antenas 5G

Retomando acusações publicadas há dois meses num  relatório  americano, o comunicado das autoridades francesas afirma que a banda hertziana utilizada pelo 5G levanta um risco importante para o funcionamento dos radio altímetros dos aviões, aparelhos de bordo medindo as distâncias em relação ao solo que precisam dessa mesma frequências. Sem levar em consideração as prováveis dimensões políticas do relatório americano cujas empresas precisam de tempo para recuperar seu atraso tecnológico em relação a Europa e a China, foram assim pedidos mais análises técnicas, atrasando assim as autorizações das instalações das necessárias antenas.

O Brasil quer a maior concorrência entre os 4 grandes da 5G

A preocupação das operadoras telefônicas francesas vão alem dos aeroportos. Avisaram que a posição das autoridades  pode não somente prejudicar a chegada de novas tecnologias nos aeroportos, mas também impedir o acesso ao 5G das áreas urbanas próximas. Segundo um especialista, “as precauções são legitimas, mas 7% da população mundial já vive com o 5G, e nunca teve nenhum problema com os aviões. O maior risco, com essas dúvidas, é de ver as teorias complotistas, alimentadas pelo concorrência e por setores políticos extremos,  voltar com mais força. “Cientes do problema, as autoridades lembram que 96% das antenas necessárias a nível nacional já foram autorizadas e que uma solução para os aeroportos vai com certeza ser encontrada, assim como já foi na Alemanha.

Helsinki foi o primeiro aeroporto a ficar pronto para 5G

Quem quer que seja o vencedor da guerra tecnológica, as novas exigências operacionais e securitárias dos aeroportos vão precisar do 5G. Não terá mais cartão de embarque, mas câmeras com reconhecimento facial, as informações  poderão ser mandadas para cada passageiro de forma individualizada. Os tempos de espera e as filas nos controles – de policia, saúde, alfândega ou segurança- devem também ser muito reduzidos com os projetos de “One ID” com informações biométricas divididas entre os vários países do itinerário do viajante . Em Helsinki, Bruxelas, Londres, Bangkok, ou em Seul- pioneira nesse setor-, os aeroportos está trabalhando nesse sentido, aproveitando os recursos do 5G para melhorar a qualidade da experiência do passageiro bem como a segurança de todos.

O aeroporto de Seul é um pioneiro da tecnologia “One ID”

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line Mister Travel

Em Versailles ou no Louvre, o underturismo ameaça o patrimônio cultural e histórico nacional

O castelo de Versalhes ainda esperando americanos, chineses e brasileiros …

Em Tóquio, depois do Mundial de rugby, que venham os Jogos Olímpicos!

O Japão brilhou no campo e nas arquibancadas do Mundial de Rugby

Além de uma brilhante participação da sua seleção nacional, o Japão mostrou durante a última Copa do Mundo de Rugby que era um perfeito organizador de grande eventos esportivos. Pela enormee satisfação dos observadores do Comitê Olímpico, os organizadores souberam gerenciar as perturbações e os cancelamentos de jogos trazidos pelo furacão Hagibis. O Comité de Organização japonês constatou com satisfação que todas as entradas foram vendidas e que os estádios ficaram sempre cheios, mesmo nos jogos de menor expressão. Os jornalistas ficaram impressionados pelo fair-play dos espectadores que chegaram até a cantar os hinos nacionais dos adversários, e a policia conseguiu evitar qualquer distúrbio, resolvendo com tranquilidade os poucos casos de excesso de torcedores baderneiros.

O beisebol vai voltar nos JO depois de 12 anos

A abertura oficial dos Jogos Olímpicos de 2020 será no dia 24 de Julho (mesmo se os primeiros jogos de futebol serão dia 22), e as provas serão divididas entre nove áreas, sendo as duas mais importantes em Tóquio: a “Heritage Zone”,  que utilizou os prédios e as instalações renovados dos Jogos de 1964, e a “Bay Zone” que foi projetada para ser um modelo de desenvolvimento urbano criativo e inovador. Fora da capital, os sítios olímpicos incluem o Sapporo Dome na ilha de Hokkaido e o famoso Azuma Baseball Stadium de Fukushima que deve receber as provas de baseball/ softball, um dos cinco novos esportes destas olimpíadas – os outros são o skateboarding, o “sports climbing,” o surfe e o localmente esperadíssimo karaté.

Nove sítios olímpicos vão receber as provas

Sobre um total de 7,8 milhões de entradas, as primeiras vendas foram reservadas aos moradores, mas nesse último mês de agosto mais de 2 milhões já foram colocadas à venda nos mercados internacionais por meio de revendedores autorizados.  No Brasil foi nomeada a Match Hospitality,  com três subdistribuidores, a Ambiental Travel Experience, a Century Travel e a Quickly Travel.  Muito atento a transparência das compras e vendas, o Comité Olímpico proibiu completamente a revenda de entradas a não ser num site oficial que será aberto exclusivamente para este fim em abril de 2020, com os preços limitados aos valores faciais e um handling-fee predeterminado. E para quem não conseguir entradas, 30 Live Site” serão abertos aos tprcedores no Japão inteiro, com retransmissão ao vivo das provas, dos eventos culturais e das animações esportivos

Os preços dos hotéis capsula vão aumentar de até cinco vezes durante os JO

Com a expectativa de receber 10 milhões de turistas, as disponibilidades e as tarifas de hospedagem são as maiores preocupações de todos. Até nos “hotéis capsula”, com seis quartos de menos de quatro metros quadrados, as tarifas explodiram, passando de uma média de US$ 20 a mais de US$ 100 por noite. Nos hotéis tradicionais, os preços subiram também, e a estritas regras de segurança impossibilitam de prever três ou quatro hóspedes em quartos vendidos em single ou double. Para resolver a falta de apartamentos, a AirBnb aumentou muito a sua oferta, e alguns navios de cruzeiros deverão ser usados como hotéis flutuantes: a JTB já fretou o Sun Princess e negocia coma MSC o fretamento o MSC Lírica. Alternativas originais já estão sendo aproveitadas, como os “Love hotels” (os seguros e confortáveis motéis japoneses), ou até os Internet cafés, que oferecem normalmente pacotes de pernoites baratos para os moradores que perdem o seu último trem. 

Paris e 7 cidades francesas receberão a Copa de Rugby 2023

Copa do Mundo de Rugby e Jogos Olímpicos, o desafio de organizar dois eventos tão importantes dois anos seguintes vai atrair as atenções de turistas, esportistas, jornalistas e profissionais do mundo inteiro. Com a mesmo sequência chegando em 2023/2024, Paris vai com certeza tentar aproveitar da experiencia (certamente bem sucedida) dos dois comités organizadores japoneses, com o múltiplo desafio de uma perfeita organização esportiva, da satisfação dos visitantes, de um controle de custos eficiente, e da apropriação dos eventos pelos moradores- hoje japoneses e amanhã parisienses .

Depois de Tóquio, Paris será pela terceira vez a capital olímpica

Notre Dame de Paris, depois da emoção e do choro, a difícil batalha da reconstrução!

O incêndio pouco antes da queda da flecha de 96 metros

Choramos, e choramos muito. Choramos logo no choque da noticia, quando as primeiras imagens da Catedral em chamas começar a circular em todos os canais de televisão bem como nas mídias sociais. E choramos mais ainda quando a queda da orgulhosa flecha atingiu o coração e a alma de milhões de espectadores que não podiam nem queriam acreditar nessa tragédia. Percebemos nesse instante que Notre Dame de Paris, não era somente uma das mais imponentes igrejas da Fé católica, mas era também um lugar icónico para o povo de Paris e a Nação Françesa. Monumento mais visitado da Europa (14 milhões de turistas o ano passado, sem contar os fieis), celebrado há oito séculos por escritores, pintores, cineastas ou políticos, era cravado na historia da humanidade e na cultura mundial.

A coroação de Napoleão, quadro do Louis David

Erguida a partir do século XII – numa cidade que nem contava 20.000 habitantes-, ela foi guardiã  da fé dos reis “muito católicos” da França. Se a primazia da Gália ficava em Lyon,  a cerimônia da coroação em Reims e os enterros reais em Saint Denis, Notre Dame de Paris sempre ficou mais carregada de símbolos. Foi lá que Saint Louis mandou guardar a coroa de espinhos do Cristo hipoteticamente trazida das Cruzadas, foi lá que Joana d’Arc foi reabilitada, foi lá que Henri IV festejou sua vitoria, foi lá que Napoleão se auto-coroou Emperador dos franceses na frente do então Papa Pio VII. Na Liberação de Paris do invasor alemão, foi lá que de Gaulle veio escutar o Te Deum da vitoria. Foi lá que o mesmo de Gaulle recebeu, no dia 12 de Novembro de 1970, uma última homenagem de uma plateia com mais de 80 imperadores, reis e presidentes vindo do mundo inteiro. E devemos lembrar que se Quasimodo e Esmeralda são personagens de ficção, foi com Notre Dame de Paris que Victor Hugo construiu parte da sua gloria.

A literatura e o cinema contribuíram a gloria de Notre Dame

Frente a emoção universal, o presidente francês já anunciou que o seu governo ia se empenhar para reerguer-la em cinco anos. A impressionante lista de contribuições que começar a chegar -quase um bilhão de Euros em menos de uma semana-, valores pequenas e grandes, doados por gente humildes ou famosos, católicos, muçulmanos, judeus ou ateus, vindo da Franca, dos Estados Unidos, do Marrocos ou do Brasil, deixam pensar que o maior desafio não será financeiro. Alem de encontrar as respostas tecnológicas, os arquitetos deverão também enfrentar a demagogia dos políticos que já iniciaram as polêmicas. Qual planta deve ser seguido, do século XII, XIII, XVIII ou XIX? O novo telhado deve ser ecologicamente correto? A nova flecha terá, assim que falou o Primeiro Ministro,  que se adaptar “aos desafios do século XXI”? A diversidade cultural deve integrar o novo projeto?

As quimeras de Notre Dame vigiando Paris

Notre Dame continua em pé, mas ainda não está salva. A herança milenar dos geniais construtores da Idade Media pode ser desnaturada por incultos marqueteiros do curto prazo. Passada a emoção, ainda tem risco de ver as obras entrar num ciclo sem fim de brigas politicas e de bloqueios de verbas que são a triste realidade de milhares de igrejas ou monumentos históricos esperando concertos ou renovações há anos. A mobilização dos parisienses e de todos aqueles que se emocionaram com eles será então fundamental para acompanhar a reconstrução. Na igreja de madeira que será provisoriamente construída no “Parvis”, na frente do portão de onde saiam simbolicamente todos as estradas ligando Paris ao resto da Franca, moradores e turistas vão poder, juntos, mostrar a sua determinação para que esse monumento da fé, da valentia e da beleza volta a integrar o patrimônio da Humanidade e a nossa própria Historia.

Jean-Philippe Pérol

De Haile Selassié a Nixon, de Senghor ao Shah, uma das maiores concentrações de chefes de estado da Historia

São Paulo no ranking das viagens de negócios internacionais

Nova Iorque continua liderando os destinos de viagens de negócios

Depois da desanimadora pesquisa da Euromonitor que mostrava uma lista das 100 maiores cidades turísticas do mundo com o Rio de Janeiro sendo a única brasileira e só aparecia no nonagésimo lugar, a Egencia está repassando um pouco de otimismo para os profissionais do Brasil. Na pesquisa anual dessa OTA – subsidiaria corporativa da Expedia, São Paulo aparece numa honrada decima oitava posição. Mesmo devendo ser tomada com alguma cautela (Egencia, é presente somente em 65 países, e tem mais força junto as pequenas e medias empresas), a pesquisa fornece dados interessantes porque leve em consideração não somente as viagens corporativos, mas também os eventos, os seminários e o MICE, desenhando assim o novo mapa mundial das viagens de negócios internacionais.

As vinte mais das viagens de negócios no mundo

No pódio continuam as três cidades-mundo, com Nova Iorque em forte crescimento, superando Londres pelo quarto ano consecutivo. Paris, com um aumento de 20% das chegadas nos seus três aeroportos durante os últimos dois anos, se consolida em terceiro lugar e fica esperando que as transferência de sedes sociais consecutivas ao Brexit levam a melhorar ainda mais a sua posição em 2019. Talvez sinal de declínio da Europa nos negócios internacionais, nenhuma outra cidade europeia consta na lista, sendo a ausência da Alemanha e especialmente de Frankfurt (décimo quarto aeroporto mundial) uma das surpresas dessa pesquisa. 

La Défense, o bairro Business de Paris

Se a América do Norte ainda consegue colocar seis cidades alem de Nova Iorque nesse ranking ( quatro dos EE-UU e duas do Canadá: a anglófona Toronto e a francófona Montreal), o crescimento da Ásia é mais uma vez comprovado. Singapura registrou o mais forte aumento de trafico nos últimos quatro anos, mais de 200% e oito cidades asiáticas se destacam. Xangai, capital comercial da China, já está em quarto lugar, na frente de Hong Kong e Pequim, bem como de quatro outras cidades do continente: Singapura, Tóquio, Mumbai e Seul. Do outro lado da Ásia, Dubai conseguiu ficar em décimo primeiro lugar, não tanto pela sua atração nas viagens corporativos, mas pelo seu sucesso como destino de congressos e viagens de incentivo.

São Paulo, único destino destacado na América do Sul

A América Latina só conseguiu colocar duas cidades nesse ranking mundial, mostrando que ainda está longe de responder ao mesmo nível que a Ásia as esperanças dos grandes players dos negócios internacionais. A liderança regional ficou com México, homenagem a maior cidade latina com 23 milhões de habitantes.Mas São Paulo, listada em décimo oitavo lugar, poderia nos dois próximos anos aproveitar a volta do crescimento econômico do pais bem como as ambições da Egencia para conseguir subir no ranking.

 

 

Paris, cidade dos dois Napoleão, o Grande e o Pequeno?


Sainte Genevieve, enfrentou Átila e virou padroeira de Paris

Andando nas ruas de Paris, olhando os nomes  das ruas, das praças ou dos monumentos, o visitante é colocado frente a numerosos personagens que influenciaram os dois mil anos de vida dessa tão peculiar, orgulhosa e rebelde cidade. Assim Sainte Genevieve, Robert de Sorbon, Philippe le Bel, Etienne Marcel, Marie de Médicis, Louis XIV, Gavroche, Bienvenue, Gallieni, de Gaulle, Pompidou, Mitterand, têm os seus seguidores e deixaram suas marcas na sua cultura, no seu urbanismo e na sua arquitetura. Mas segundo o escritor Dimitri Casali, que publicou recentemente o livro “Paris Napoléon(s)”, são porem os dois imperadores da dinastia bonapartista que deixaram,  durante os seus reinados e até hoje, as maiores e mais impressionantes marcas na cidade luz que 35 milhões de turistas continuam a visitar nesse século XXI.

O Arc de Triomphe numa foto de 1913

As grandes mudanças da Paris moderna começaram com Napoleão que queria assim mostrar a potência do Império. Depois dos abandonos e das destruições que acompanharam a Revolução e a guerra civil, a volta da ordem e da prosperidade possibilitam grandes obras que perduram até hoje. O Louvre é renovado, e no seu pátio é inaugurado o Arc du Carrousel. São abertas ou ampliadas a Rue de Rivoli, a Rue de la Paix, a Rue de Castiglione, a Rue d’Ulm. Na Place Vendôme foi construída a famosa coluna com o bronze dos 1200 canhões tomados dos austro-russos na lendária vitoria de Austerlitz. São iniciadas as construções da igreja da Madeleine e da faixada do Palais-Bourbon, do Canal de Ourcq, da Bolsa de valores e, claro, do Arc de Triomphe. Foram também quatro pontes, duas das quais – Austerlitz e Iena – têm nomes de vitórias imperiais. E para que qualquer cidadão, qual que seja sua raça ou sua religião, pudesse ser enterrado decentemente,  Napoleão mandou construir em 1803 o famoso cemitério do Pere Lachaise.

A Praça Vendome e sua coluna fundida com os canhões de Austerlitz

Outras grandes ambições parisienses do Imperador foram abandonadas depois do desastre de Waterloo. No morro de Chaillot (onde  foi depois construído o Palais du Trocadero, e nos anos trinta, o Palais de Chaillot), devia ser erguido um gigantesco palácio para o seu filho, o Rei de Rome, com uma faixada de 400 metros de largura e um parque cobrindo todo o lado oeste de Paris, até Champs Elysées e o Bois de Boulogne. Mesmo se esse e alguns outros projetos foram esquecidos, a chegada ao poder em 1848 do sobrinho de Napoleão I, Napoleão III, vai relançar muitos outros, e dar a capital francesa o aspecto que ela guardou até hoje. Investindo o equivalente hoje a 120 bilhões de reais, misturando preocupações urbanísticas, socais e militares, ele vai confiar ao Prefeito de Paris, o Barão Haussmann, todos os poderes para levar ao fim a metamorfose da cidade.

A beleza imponente do Palais Garnier, a Opera de Paris

E, durante o Segundo império, Paris vai ver a abertura de grandes avenidas: boulevards Saint Germain, Saint Michel, Haussmann, Diderot, bem como Saint Michel e Sebastopol ampliando o eixo Norte Sul da capital. A avenida da Opera liga a nova Opera com o antigo Palais Royal. Para compensar a destruição de 20.000 casas ou sobrados, são construídos alojamentos novos para os operários nos bairros populares da zona leste bem como prédios modernos e elegantes nas áreas nobres da planície Monceau. O Louvre é enfim finalizado, e vários parques e praças são redesenhados. Ainda abertos hoje, dois grandes hotéis muito conhecidos dos brasileiros, o Hotel du Louvre e o Grande Hotel, são projetados e inaugurados seguindo as suas ordens.  Em 1870, quando Napoleão III abdica do poder depois da derrota militar contra a Prussia, ele deixa Paris com (quase) uma bela e moderna cara da capital mundial aonde o visitante do século XXI não ia se sentir perdido.

O Boulevard Saint Germain, herança do Haussmann e do Napoleão III

Talvez até hoje perseguido pelo ódio de Victor Hugo (que o chamava de Napoleão o Pequeno), o sucessor de Napoleão o Grande, depois de ter feito tanto pela sua capital, não conseguiu porem conquistar o coração dos parisienses, nem gravar o nome dele, a não ser uma praça minúscula entre um Mc Donald e a estação de trens Gare du Nord, em nenhum monumento da cidade que ele tanto embelezou. Se Paris deve muito aos dois imperadores, o segundo deveria talvez ser chamado de o injustiçado ….

Esse artigo foi adaptado de um artigo original na revista francesa Le Point

O Pont des Arts, toque de charme herdado do Napoleão o Grande

 

O Hotel du Louvre, projeto iniciado ao pedido do Napoleão III

Frente as ameaças do overturismo, a França da cultura procura novas oportunidades

O Palácio de Versalhes já ameaçado pelo overturismo?

Galinha dos ovos de ouro de muitos museus, monumentos, concertos, ou exposições, o turismo estaria agora virando o vilão da cultura? Até pouco tempo, pelo menos na França, a pergunta podia parecer estranha e os responsáveis da cultura só se preocupavam em conquistar mais visitantes internacionais. No Louvre eles chegam a representar 70% das entradas – com destaque para o milhão de  americanos, os 600.000 chineses e os 290.000 brasileiros -, e mais ainda das receitas do museu e do centro comercial. E para a imensa maioria dos principais museus e monumentos franceses, os turistas são uma fonte de renda essencial, ajudando as vezes uma politica de gratuidade para os moradores ou os cidadãos  da União Europeia. A importância dos turistas para cultura foi claramente percebida em 2016 quando faltaram, e depois em 2017 e 2018 quando voltaram. Mas agora é o “overturismo” que preocupa as autoridades do setor.

O Louvre já preocupado com o overturismo

A Atout France, agencia de desenvolvimento do turismo da França, já está chamando a atenção sobre o problema, lembrando que não é imediato mas deve ser antecipado. O overturismo cultural está longe da realidade de 80% dos territórios que recebe somente 20% dos turistas internacionais, mas  ameaça especialmente  Paris onde quase todos os visitantes procuram os museus e monumentos das margens do Rio Sena. Ele preocupa também Versalhes e o Mont Saint Michel, ou até pequenos vilarejos como Saint Paul de Vence e sítios como os castelos do Loire. Todos devem preparar o futuro sabendo que a França vai receber 100 milhões de visitantes em 2020, e que a cidade de Paris, cuja população deve cair a menos de 2 milhões de habitantes, vai ver o seu números de turistas passar de 26 milhões esse ano para 54 milhões em 2050.

Veneza é o exemplo que todos querem evitar

Enquanto a cultura é a motivação principal de 50 à 70% dos turistas na França, exista mesmo uma urgência para encontrar soluções que não decepcionam os milhões de novos visitantes. Para facilitar os percursos nos sítios mais procurados, evitar as concentrações durante os grandes feriados e promover atrações culturais menos conhecidas, existem muitas experiências internacionais a ser analisadas. Firenze e Roma tentam impedir os piqueniques nas escadarias das praças ou das igrejas, Veneza experimenta bloqueios nos lugares mais procurados nas horas de pique, e destinos como Machu Pichu (Peru), Dubrovnik (Croácia), o Taj Mahal (índia), Santorini (Grécia) e a Ilha de Páscoa já tomaram medidas para reduzir o numero de turistas – quotas menores e tarifas mais altas sendo soluções cada vez mais avançadas.

O Louvre Lens, uma grande ideia para desviar fluxos de turismo cultural

Os grandes museus da França estão na mesma lógica que seus concorrentes internacionais. Todos temem que as frustrações dos amadores de arte e dos moradores frente as filas ou as confusões que fazem as galerias onde são expostas as obras mais procuradas aparecer shopping centers em tempos de promoções. Todos eles, sejam o National Gallery em Londres, o Prado em Madrid, o Ermitage em São Petersburgo ou o Metropolitan em Nova Iorque, estudam meios de canalizar os fluxos turísticos hoje imprescindíveis para suas sobrevivências financeiras: ampliar horários, melhorar acessos, orientar os fluxos, facilitar as reservas, abrir novas salas ou até criar “subsidiarias” -solução imaginada pelo Louvre em Lens e o Centro Pompidou em Metz. A médio prazo todos sabem porem que o aumento dos preços das entradas para os turistas não residentes, por discriminatório que pode parecer, é talvez a única solução que poderá tranquilizar os moradores e garantir aos visitantes o acesso a riquezas culturais que são a grande motivação do turismo internacional.

Jean-Philippe Pérol

O Met de Nova Iorque cobra agora 25 USD dos visitantes, exceto dos moradores

 

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