A Serenissima, agora só com taxa de entrada!

 

Veneza quer  proteger sua geografia e sua historia

Para visitar Veneza, será agora obrigatório pagar uma taxa de entrada. A partir do próximo verão europeu, a Sereníssima vai cobrar de 2,5 à 10 Euros por cada visitante. Esperada há anos (em 1990 o então prefeito da cidade já tinha conversado do assunto com o embaixador da França na Itália), a medida foi votada a semana passada para enquadrar o turismo de massa que está asfixiando o centro histórico. Seguindo o exemplo das ilhas Eólicas e de Lampedusa, foi votada pela Câmara dos vereadores uma “contribuição de desembarque”. Será paga por todos os turistas que não pernoitarem, seja porque chegam de trem ou de vaporetto, seja porque desembarquem dos 600 navios de cruzeiros na Marritima ou, para os gigantes de mais de 96.000 toneladas, no novo terminal de Marghera.

A estação de trem, um dos pontos onde seria cobrada a taxa de entrada

Mesmo acusado de encontrar uma desculpa para criar mais um imposto desnecessário, o prefeito Luigi Brugnaro lembrou que os 50 milhões de Euros de receitas previstas permitirão cobrir os custos de limpeza, de manutenção e de segurança da cidade. Enquanto eram pagas somente pelos moradores, gerando incompreensões e conflitos, essas despesas serão agora divididas entre todos aqueles que aproveitam esse património único. O prefeito ainda não revelou as modalidades de cobrança dessa taxa, mas sendo quase descartadas o uso de catracas nas principais vias de acesso, a solução deve ser o pagamento pelas principais transportadoras, sejam operadoras de ónibus, trens, companhias aéreas ou companhias de cruzeiros.

Os navios gigantes vão agora atracar em Marghera

Já muito criticadas nos últimos anos pelo impacto dos navios gigantes no frágil equilíbrio da lagoa, a Cruise Lines International Association  declarou que ficou decepcionada com essa decisão mas que ia esperar as modalidades ante de dar uma resposta oficial. Destacando o fato que as companhias de cruzeiros já tinham aceitado a limitação do tamanho dos navios utilizados, reduzindo de 25% nos últimos quatro anos o número de cruzeiristas, a CLIA lembrou que Veneza era um destino único e que todos os seus membros eram consciente da necessidade de proteger o seu património cultural e sua sustentabilidade. O comunicado ainda reafirmou que Veneza era um tesouro e que tinha que ser mantido, pela felicidade dos seus moradores, dos seus visitantes e de todos aqueles que a amam.

Veneza, na hora de sair do overturismo que todos querem evitar

A Associação das Operadoras européias mostrou muito mais preocupação, especialmente para os tours de ônibus, viagens baratas para os quais o impacto financeiro será muito mais forte. Alem de criticar a prefeitura e de destacar o “duplo discurso de quem não quer que os turistas se hospedem para não impactar as moradias dos residentes, mas do outro lado não quer os excursionistas porque não gastam o suficiente”, os donos de ónibus estão mostrando muita preocupação com os procedimentos de cobrança. Reconhecendo que era necessário tomar medidas para aliviar as tensões entre moradores e turistas, eles querem não somente garantias da facilidade de pagamentos, mas também certeza que esse acréscimo no preço dos pacotes seja compensado para os visitantes por um melhoramento das visitas.

A Praça São Marco na hora do rush

Para os especialistas, e para os numerosos apaixonados pela Sereníssima, a medida é indispensável para evitar a degradação do centro histórico, especialmente em volta da praça São Marco onde o overturismo não deixa nenhuma outra opção já que Veneza não é um Disneylândia aonde a abertura de novas atrações permite aliviar os fluxos (com uma entrada custando 53 Euros). A geografia e a história criaram essa cidade única, as suas limitações  são parte da sua beleza comovente e devem ser respeitadas. A nova taxa de entrada podendo ajudar nisso..

Jean- Philippe Pérol

Cartagena das Índias: história, prazer de viver, arte e criatividade

O imponente Castelo San Felipe domina a cidade e o porto

Do terraço do Hotel Allure Canela, a visão do Castelo São Felipe de Barajas lembra ao visitante a potencia e a riqueza passadas da cidade de Cartagena das Índias. Construída a partir de 1656, depois dos ataques dos piratas ingleses – o famoso Drake saqueou a cidade em 1586 -, a fortaleza não evitou uma conquista francesa em 1697, mas protegeu perfeitamente depois dessa data o maior porto da América espanhola. Em baixo das suas muralhas e dos seus 73 canhões, passavam as exportações de ouro e prata vindo de Nova Granada, mas também do Equador e do Peru, bem como os terríveis comboios de escravos africanos mandados para as minas ou as plantações de cana de açúcar. Maior construção humana do continente americano, o Castelo é hoje Património da Humanidade.

Os casarões coloridas

O passado dourado de Cartagena encontra-se dentro dos onze quilômetros de muralhas que cercam a cidade fortificada. Nas ruas estreitas, cada casarão, cada varanda florida e cada portão de madeira maciça tem uma historia para contar que o turista vai descobrir caminhando nas ruas ou entrando nos pátios das casas antigas hoje transformadas em pousadas, lojas ou restaurantes. Os locais mais vibrantes são sem dúvidas as praças. Frente a igreja Santo Domingo e sua escultura de Botero, frente ao Palácio da Inquisição e seu parque arborizado, palenqueiras, músicos, camelôs, guias e garçons agitam a multidão onde se mistura moradores, turistas nacionais, ou visitantes liderados por americanos, franceses e brasileiros. Todos se encontrarão depois em cima das muralhas para apreciar o por do sol no Café del Mar.

Os animados por do sol do Café del Mar

 

O pátio onde o Sofitel Santa Clara esbanja beleza e arte de viver

Se por momentos ameaçada pelo overturismo – a concentração dos fluxos nas ruas do centro e a insistência dos camelôs podem incomodar -, Cartagena surpreende pela diversidade e a qualidade dos seus serviços, dos seus restaurantes e dos seus hotéis. Dentro do centro histórico, as opções de hospedagem não faltam, das tradicionais pousadas até os modernos e convenientes Allure, ou o antiquado mas charmoso Relais Chateaux Casa Pestagua. Mas, seja para uma estadia, uma refeição ou pelo menos uma visita, nenhum visitante pode deixar de conhecer o Sofitel Santa Clara, merecidamente consagrado como o melhor hotel da América do Sul. Antigo Convento das Irmãs Clarissas construído em 1621 – data agora lembrada pelo nome do imperdível, restaurante gastronômico-, o hotel esbanja beleza, bom gosto, e o cuidado permanente de um pessoal excepcionalmente atencioso.

A criatividade nas ruas de Cartagena

Orgulhosa da sua historia,  Cartagena mostra aos visitantes uma atualidade e uma criatividade que se encontram nas ruas, nos bares, nos restaurantes e mais ainda nas lojas. Os fãs de shopping ficam surpresos. Numa cidade turística onde seria esperado de encontrar somente o costumeiro “artesanato mundializado”, com seus objetos fabricados na Ásia ou copiados de reportagens da CNN, as boas surpresas não param. São bijuterias e jóias de ouro ou esmeraldas inspiradas tanto da ourivesaria precolombiana que das tendências atuais, são lojas e galeria de moda onde jovens designers apresentam roupas, chapéus, bolsas, acessórios  ou objetos de decoração juntando raízes – indígenas, coloniais ou “republicanas”- , e modernidade global. E mesmo se as boas praias deve ser procuradas fora da cidade – até Barranquilla ou Santa Marta– , os ritmos da cúmbia lembram que Cartagena é também a capital do Caribe colombiano.

Jean-Philippe Pérol

O St Dom concept store

 

A loja Lili Duran Studio

Frente as ameaças do overturismo, a França da cultura procura novas oportunidades

O Palácio de Versalhes já ameaçado pelo overturismo?

Galinha dos ovos de ouro de muitos museus, monumentos, concertos, ou exposições, o turismo estaria agora virando o vilão da cultura? Até pouco tempo, pelo menos na França, a pergunta podia parecer estranha e os responsáveis da cultura só se preocupavam em conquistar mais visitantes internacionais. No Louvre eles chegam a representar 70% das entradas – com destaque para o milhão de  americanos, os 600.000 chineses e os 290.000 brasileiros -, e mais ainda das receitas do museu e do centro comercial. E para a imensa maioria dos principais museus e monumentos franceses, os turistas são uma fonte de renda essencial, ajudando as vezes uma politica de gratuidade para os moradores ou os cidadãos  da União Europeia. A importância dos turistas para cultura foi claramente percebida em 2016 quando faltaram, e depois em 2017 e 2018 quando voltaram. Mas agora é o “overturismo” que preocupa as autoridades do setor.

O Louvre já preocupado com o overturismo

A Atout France, agencia de desenvolvimento do turismo da França, já está chamando a atenção sobre o problema, lembrando que não é imediato mas deve ser antecipado. O overturismo cultural está longe da realidade de 80% dos territórios que recebe somente 20% dos turistas internacionais, mas  ameaça especialmente  Paris onde quase todos os visitantes procuram os museus e monumentos das margens do Rio Sena. Ele preocupa também Versalhes e o Mont Saint Michel, ou até pequenos vilarejos como Saint Paul de Vence e sítios como os castelos do Loire. Todos devem preparar o futuro sabendo que a França vai receber 100 milhões de visitantes em 2020, e que a cidade de Paris, cuja população deve cair a menos de 2 milhões de habitantes, vai ver o seu números de turistas passar de 26 milhões esse ano para 54 milhões em 2050.

Veneza é o exemplo que todos querem evitar

Enquanto a cultura é a motivação principal de 50 à 70% dos turistas na França, exista mesmo uma urgência para encontrar soluções que não decepcionam os milhões de novos visitantes. Para facilitar os percursos nos sítios mais procurados, evitar as concentrações durante os grandes feriados e promover atrações culturais menos conhecidas, existem muitas experiências internacionais a ser analisadas. Firenze e Roma tentam impedir os piqueniques nas escadarias das praças ou das igrejas, Veneza experimenta bloqueios nos lugares mais procurados nas horas de pique, e destinos como Machu Pichu (Peru), Dubrovnik (Croácia), o Taj Mahal (índia), Santorini (Grécia) e a Ilha de Páscoa já tomaram medidas para reduzir o numero de turistas – quotas menores e tarifas mais altas sendo soluções cada vez mais avançadas.

O Louvre Lens, uma grande ideia para desviar fluxos de turismo cultural

Os grandes museus da França estão na mesma lógica que seus concorrentes internacionais. Todos temem que as frustrações dos amadores de arte e dos moradores frente as filas ou as confusões que fazem as galerias onde são expostas as obras mais procuradas aparecer shopping centers em tempos de promoções. Todos eles, sejam o National Gallery em Londres, o Prado em Madrid, o Ermitage em São Petersburgo ou o Metropolitan em Nova Iorque, estudam meios de canalizar os fluxos turísticos hoje imprescindíveis para suas sobrevivências financeiras: ampliar horários, melhorar acessos, orientar os fluxos, facilitar as reservas, abrir novas salas ou até criar “subsidiarias” -solução imaginada pelo Louvre em Lens e o Centro Pompidou em Metz. A médio prazo todos sabem porem que o aumento dos preços das entradas para os turistas não residentes, por discriminatório que pode parecer, é talvez a única solução que poderá tranquilizar os moradores e garantir aos visitantes o acesso a riquezas culturais que são a grande motivação do turismo internacional.

Jean-Philippe Pérol

O Met de Nova Iorque cobra agora 25 USD dos visitantes, exceto dos moradores

 

O morador é também turista!

Veneza, símbolo do divorcio entre moradores e turistas

Com o turismo mundial caminhando para 1,8 bilhões de turistas internacionais em 2030, e enquanto muitos destinos lutam para atrair mais visitantes, outros têm cada vez mais dificuldades para organizar a coabitação pacífica  de centenas de milhares de turistas sazonais com os moradores. Em algumas cidades como Veneza ou Barcelona, as autoridades se preocupam há anos em encontrar uma forma de equilibrar os benefícios econômicos e sociais do turismo com o respeito dos modos de viver e do bem estar dos habitantes. Algumas medidas como o pagamento de uma taxa de entrada ou a exigência de uma reserva de hospedagem chegaram a ser estudadas. Não vigoraram, mas a chegada da AirBnb, e o seu impacto sobre os alugueis, bem como o crescimento da consciência ecológica, aumentaram a urgência de responder as preocupações dos moradores com o “overturismo” em quase todos os grandes destinos.

Na Espanã, protesto dos moradores contre o turismo de massa

Na onda do turismo sustentável, o respeito do modo de viver das comunidades bem como a participação dos habitantes ao produto turístico do seu destino viraram imprescindíveis. O morador é hoje ator do turismo da sua terra, contribuindo com a qualidade do atendimento, e deve ser também seu embaixador, divulgando a sua imagem com a força da autenticidade. Fatores chaves da reconciliação com o turismo (e os turistas), essas tendências vão ser completadas e talvez superadas por um outro papel do morador: ser um consumidor reconhecido da oferta turística da sua comunidade. As pesquisas mostram que de 30 a 70% do consumo de turismo de uma região é realizado pelos habitantes do local ou dos arredores, um potencial cada vez mais valorizado pelos responsáveis públicos e os profissionais.

A loja Mazette no Cap Ferret, referencia de turistas e moradores

Muitas experiências de promoção do turismo local junta aos próprios moradores já viraram cases de sucesso, seja na França os exemplos de Only Lyon ou do Cap Ferret, no Brasil o de Recife ou de Foz de Iguaçu. Colocando o morador no coração da concepção e da comunicação do seu turismo, esses destinos ajudam hoje a definir os ingredientes de uma boa estratégia para satisfazer os clientes locais e os deixar conscientes e orgulhosos da atratividade turística da sua região. Com esse objetivo, o primeiro passo é sempre de conhecer melhor esse cliente, o seu perfil, as suas motivações, as suas exigências, seja o próprio morador como os seus familiares ou os donos de residências secundarias.

 

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Lyon publicando seus melhores endereços para moradores e turistas

Para convencer os moradores de participar ao turismo local, é preciso adotar uma comunicação especifica, mais regular, com dicas mais específicas e endereços mais atualizados e mais secretos. É o caso de  Only Lyon  que publica duas vezes por ano um magazine Collector que sugere as novidades e as tendências de restaurantes, espetáculos, eventos ou lojas para seus visitantes e seus habitantes. Para esses últimos, produtos e serviços específicos podem ser necessários, e tarifas exclusivas mais baratas  são hoje oferecidas, não somente pelos museus, monumentos e exposições, mas também nos hotéis e nos centros de lazer. Em Quebec, a start-up “M ta région” (Ame a sua região) conseguiu assim alistar mais de 1200 profissionais nessa campanha.

M ta région, incentivendo os moradores a visitar sua região

O relacionamento dos moradores e dos turistas é também facilitado pelos eventos organizados para essas duas clientelas, uma estratégia seguida com sucesso por muitos hoteleiros, inclusive a Accor com sua “La Nuit by Sofitel”. Algumas cadeias hoteleiras, como o Mob Hotel of People integraram essa miscigenação a seu próprio conceito empresarial. Favorecer encontros faz também parte da filosofia de centros de atendimento ao turista bem sucedidos como a loja Mazette, ponto incontornável do vilarejo de Cap Ferret, perto de Bordeaux. Essas experiências múltiplas mostram a evolução das relações entre o morador com o turismo. Antigamente ignorado pelos profissionais, ele é hoje respeitado e procurado não somente como consumidor e embaixador do seu território, mas também como co-criador do seu turismo. O fim do antagonismo?

Esse artigo foi inspirado de um artigo original de Maité Levasseur na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

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