Uma retomada começando pelo turismo domestico, apenas em 2021 e fugindo do overturismo?

 
Pesquisa foi feira em parceria pelo M&E e pela Cap Amazon

Mais uma rodada da pesquisa TERMÔMETRO DO TURISMO, realizada em parceria pelo Mercado & Eventos e pela Cap Amazon, foi divulgada nesta quarta-feira (30). Os resultados mostram que s agentes de viagens estão mais pessimistas em relação a retomada do que nos levantamentos anteriores. Para 45% dos profissionais que responderam o questionário, a volta das viagens e das vendas ocorrerá no primeiro semestre de 2021, 19% apostam no segundo semestre do ano que vem, enquanto outros 19% apontam o mês de dezembro. Foram ouvidos cerca de 300 profissionais de todo o Brasil, com ênfase em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre, Manaus e Belém. Das agências pesquisadas, 74% são especializadas em lazer, 9% em corporativo e 17% especializada em nichos específicos. A grande maioria (90%) tem menos de dez funcionários, 8% de dez a 50% e 2% mais de 50. As respostas foram colhidas entre os dias 10 a 30 de setembro. “Lá no começo da pandemia, todos achavam que era uma crise forte, mas que iria passar em um tempo menos. Agora, os agentes de viagens estão percebendo que as perspectivas são muito imprevisíveis”, disse Jean Phillipe Pérol, diretor da Cap Amazon. “Os agentes estão bastante pessimistas se compararmos com a primeira pesquisa, realizada em maio”, completou o executivo, lembrando que na época a maioria apontou que a retomada teria início no mês de setembro.

Anderson Masetto, editor chefe do Mercado & Eventos, acredita que os resultados atuais apontam mais para uma realidade mais clara do que um aumento do pessimismo. “Em maio, tínhamos o exemplo de países que já tinham saído da crise. Na China, onde tudo começou, por exemplo, ela demorou um tempo menor. Agora, as vendas já estão acontecendo e, por isso, o agente de viagens consegue ter uma perspectiva melhor sobre o que deve acontecer nos próximos meses”, explicou. Outra hipótese levantada por Pérol é o fato da retomada já ter começado e estar sendo encaminhada pelos destinos domésticos, uma vez que – antes da pandemia – muitas destas vendas acabavam não passando pelas mãos dos agentes de viagens. “A diferença de percepção da retomada em maio e agora pode vir deste fato”, disse. A oferta de produtos é outro fator que também pode justificar este pessimismo maior do agente de viagens. Segundo Pérol, os voos, por exemplo estão acontecendo, mas em um volume muito menor do que em 2019.

Nas pesquisas anteriores, os agentes de viagens apontaram as viagens pelo Brasil como o principal carro-chefe da retomada. Por isso, nesta terceira rodada foi incluída uma pergunta sobre quais regiões do País teriam uma volta mais rápida do fluxo de turistas. Como esperado o Nordeste ficou na liderança, com 37%, seguido do Sudeste, com 30%, Sul com 22% e Norte com 8%. O Centro Oeste ficou com 2%. “O doméstico é, de longe, o que está mais adiantado em termos de retomada. Aparentemente, o Nordeste é aquele que está aproveitando isso melhor”, destacou Pérol. “Nenhuma surpresa em ver o Nordeste na frente, mas é importante destacar o Sudeste em segundo lugar com 30%. A região é o maior pólo emissor do País e isso reflete a tendência de viagens a lugares próximos neste início de retomada, como o paulista viajando pelo próprio estado, por exemplo”, complementou Masetto. Para Pérol, existem dois fatores que podem ser explicados neste resultado. O primeiro é a viagem para a visita de familiares e amigos, colocada como uma das primeiras modalidades a retornar. O outro, que é um fenômeno mundial, são as viagens de carro para destinos a até 250 quilômetros de distância. “Isso aumentou muito e substitui, em muitos casos, a viagem de avião. Acredito que há muito mais paulistas que viajam para as praias próximas e interior hoje e o mesmo ocorre em outros estados. As pessoas estão indo conhecer pontos turísticos mais próximos”, contou. “Acredito que esta tendência irá continuar no pós-pandemia”, completou.

No caso das viagens internacionais, Portugal “roubou” a primeira colocação da América do Sul nesta terceira rodada. 21% dos agentes de viagens acredita que este será o destino a se recuperar mais rápido. Os destinos sulamericanos vêm em seguida com 19%, seguidos de América do Norte (18%) e Caribe (18%). 14% escolheram outro destino da Europa e 4% outros. Embora isso seja também reflexo da desaceleração da pandemia na Europa, o editor chefe do M&E acredita que estes resultados têm relação também com a oferta de voos. “Embora o desenrolar da pandemia pese, temos visto que as pessoas tem tido confiança nos protocolos e vão viajar. E, em paralelo a isso, os voos estão voltando, com companhias da Europa voltando a operar no Brasil e muitas que não voltaram ainda, já marcaram data. Portanto, é também uma questão de mobilidade. Antes não era possível chegar porque não tinha voos. Agora os voos estão aumentado gradativamente”, afirmou. Para Pérol outro ponto que contribui é que boa parte dos países da América do Sul permanece com as fronteiras fechadas. “Com a falta de previsão de abrir, a América do Sul caiu muito. Outro fator é que a Europa se tornou mais atraente do que os Estados Unidos por vários motivos, um deles é que a imagem do País caiu muito e a pandemia não está controlada, além do fato das fronteiras estarem fechadas”, explicou. “Outro fator é que há um número muito grande de brasileiros com passaporte europeu. Então, eles podem viajar com mais facilidade na Europa”, adicionou.

O primeiro segmento a viajar, para os agentes que participaram da pesquisa, é o lazer, com 41%, seguido da visita a família e amigos, com 35% e do corporativo com 16%. Os cruzeiros são apontados por 5%, feiras e MICE por 2% e 1% outros. O destaque é a queda do corporativo que registrou 30% em maio, 23% em julho e agora caiu ainda mais. “No início da crise os especialistas já diziam isso, mas na nossa pesquisa os agentes de viagens se mostraram mais otimistas. Agora, sentimos uma preocupação muito grande, porque pode ser um fenômeno que vai durar, uma vez que muitas empresas perceberam que podem substituir parte das viagens por reuniões virtuais”, reiterou Pérol. “Este foi o segmento mais atingido e deve passar por algumas mudanças mesmo no pós-pandemia”, completou.

Em relação a motivação e os temas das viagens, não há uma mudança significativa em relação as pesquisas anteriores. Entre as temáticas mais procuradas, os agentes de viagens apontam o Bem Estar (27%) como o preferido. Em seguida vem o Ecoturismo empatado com Negócios, ambos com 13%. Depois Cultura com 12% e Gastronomia com 9% são os mais citados. “O bem estar veio para ficar. Será uma condição básica para qualquer viagem. Esta é uma tendência muito forte que envolve spas e tudo que é ligado a saúde”, destacou Pérol.

Entre as novas tendências, 35% dos agentes de viagens acreditam que os destinos menos procurados terão a preferência no período pós-covid. Ao mesmo tempo, 34% cita a preocupação com a saúde e 20% a segurança. “Há uma evolução em relação ao overturismo. Isso já era tendência, mas hoje se tornou essencial. Acredito que esta é uma grande oportunidade para receptivos, pois isso vai aumentar o interesse para cidades menores e menos frequentados”, ressaltou Pérol.

O noticiário mostra o início de uma segunda onda da pandemia em diversos países da Europa. Os responsáveis pela pesquisa foram, então, questionados se isso pode se refletir nesta retomada e nos resultados do próximo TERMÔMETRO DO TURISMO. Para Masetto, a resposta é não. Para ele, há uma confiança muito grande nos protocolos e estão voltando às atividades que faziam antes, inclusive viajar. “Já foi muito noticiado o quanto é seguro estar dentro de um avião e também sobre a capacidade de proteção das máscaras. A não ser que as fronteiras sejam fechadas, as pessoas não irão mais adiar os seus planos”, ressalta. Pérol também é enfático. Para ele, “a retomada é irreversível”. Para ele, é claro que as pessoas irão escolher os destinos em função da situação sanitária dos países. “Estamos vendo na Europa que há uma resistência muito grande em fechar restaurantes e comércio para enfrentar esta segunda onda”, lembrou.

Veja como foi a apresentação dos resultados:

 

 

Depois da crise, o agente de viagens , o preço e o sonho

No inicio da Jet Tours em 1973, Roger Pinson avisava: Vendemos sonhos!

 Se ainda é cedo para medir todas as consequências do Covid 19 sobre o turismo global, é certo que a crise sanitária virou um extraordinário catalizador. Overturismo, turismo de massa, turismo transformador, sustentabilidade, pegada carbone e intercambio com os moradores já eram  mudanças já exigidas pelos viajantes, mas a urgência foi acelerada durante o confinamento. Para responder a esses novos clientes, e frente as transformações que seus parceiros aéreos, marítimos ou hoteleiros estão sofrendo, operadoras e agencias de viagens vão ter que reimaginar um novo modelo que responde as novas aspirações dos clientes, mas que defina também claramente o valor agregado – e o futuro- de cada um dos atores.

A longa historia da Thomas Cook, encerrada antes da crise

Antes mesmo da crise, muitos deles já estavam perdendo dinheiro, e todos se lembram da espetacular falência do grupo Thomas Cook, pioneira do turismo há 158 anos. No mundo inteira a situação piorou com o Covid19. Na Europa, o líder TUI, acostumado a gerar quase um bilhão de euros de lucro anual, só foi salvo com um surpreendente empréstimo de 2 bilhões do governo alemão. Na França, estima se que mais de 20% das agencias podem não sobreviver se não tiver ajuda. A situação no Brasil caminha na mesma direção, inclusive para operadoras de primeira linha como foi tristemente demonstrado essa semana pelo pedido de recuperação judicial da conceituadíssima Queensberry.

OTA versus hotels, uma briga que deixa os agentes do lado?

Toda a cadeia do modelo tradicional parece ameaçada. Os destinos se queixam do baixo nível medio dos gastos, grande parte deles ficando nos países de origem dos turistas. Da França até os Estados Unidos e mesmo na Alemanha, as companhias aéreas têm as maiores dificuldades para sobreviver sem ajuda dos governos, e as novas normas sanitárias e ecológicas podem a medio prazo piorar a situação. Os hoteleiros não estão em situações muito melhores, tendo alem disso suas receitas drasticamente reduzidas pelas exigências e as margens as vezes insustentáveis dos únicos atores que parecem aproveitar economicamente do turismo: os GAFA e as grandes OTA mundiais. Frente a corrida aos preços baixos e as compras impulsivas, agencias e operadoras devem se reinventar.

Novos valores de ecologia e ética  devem ser incluidas nas ofertas de serviços

As soluções são difíceis de encontrar, mas duas ideias já parecem se destacar. A primeira é de priorizar o “melhor turismo” em vez do “mais turismo”. Os destinos devem parar com a lógica dos números globais, privilegiando as receitas, os territórios ou as temporadas. As companhias aéreas e os hotéis devem enfrentar custos maiores e capacidades reduzidas que só podem ser equilibradas com preços mais justos e reformulações do yield. Os agentes de viagens devem ajudar nessa transformação, recusando as lógicas do tudo-pelo-mais-barato carregadas pelas OTA. Popularizando os novos valores, cultura, ecologia, ética e responsabilidade social, podem assim também demonstrar a importância das suas intermediações.

Tahiti sempre liderou os destinos de sonho  @marcgerard

A segunda é de trazer de volta as operadoras e as agencias para a essência mesma da sua profissão: vender sonho. Com viagens internacionais menos frequentes e frente a globalização tecnológica,  devem lembrar que viajar é muito mais que uma passagem de avião e umas noites de hotel, tão bem escolhidas que sejam. Viajar é realizar um sonho, viajar é descobrir novos lugares e realizar novos encontros, viajar é viver experiências únicas, viajar é voltar com imagens e lembranças transformadoras. Mas do que nunca, quando a crise passar, a magia – e a razão- do apaixonante  trabalho dos agentes de viagens voltarão a ser de ajudar a realizar esse sonho.

Jean Philippe Pérol

O Club Med nunca esqueceu de lembrar que viajar era sonhar

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Longe das multidões, as tendências pós crise abram oportunidades para destinos mais exclusivos

 

Há 675 anos, o castelo de la Treyne domina o vale do rio Dordogne

Nas novas tendências que se destacam nas viagens pós Covid 19, uma das mais fortes parece ser a fobia do “overturismo”, a procura de destinos turísticos fugindo as grandes multidões, a preferência anunciada por hospedagens, restaurantes, ou eventos de menores tamanhos, mas com sérias garantias de saúde ou segurança. A primeira vista parece ser um paradoxo, os grandes destinos tradicionais, Estados Unidos, Italia ou França serem ,talvez, os grandes favorecidos por essa revolução. A França por exemplo têm alguns lugares sofrendo de overturismo, mas 80% do seu território recebem somente 20% dos turistas enquanto essas mesmas regiões escondem lugares excepcionais pelas suas riquezas naturais, culturais ou humanas.

Stéphanie Gombert em La Treyne com Jean-Philippe Pérol e Caroline Putnoki

Assim o vale do rio Dordogne, terra de castelos que se estendea da Auvergne até  Bordeaux, onde o turista pode se emocionar com as pinturas pré-históricas da gruta de Lascaux, sentir a espiritualidade de Rocamadour ou das capelas dos caminhos de Santiago, descobrir os vinhedos de Cahors e o Malbec original, ou confirmar se o “foie gras” e as trufas do Perigord são as melhores da França. Os hotéis da região são sempre pequenas unidades, aproveitando antigas fazendas ou castelos onde a imponência da arquitetura foi combinada com o conforto moderno. No mais prestigioso estabelecimento do vale, o Château de la Treyne, a proprietária Stéphanie Gombert aceitou de explicar como a crise está transformando o turismo na região.

O parque, um dos cenários do almoço pique nique chique

Jean-Philippe Pérol: Você vai reabrir em julho o Château de la Treyne. Como vai ser essa reabertura pós covid 19 e quais vão ser as mudanças no atendimento e nos serviços?

Stéphanie Gombert: O nosso atendimento será ainda mais caloroso e tivemos que ser criativos. As normas sanitárias obrigam todos os funcionários a usar luvas e mascaras, e a ter menos proximidade. Assim quando um hospede será acompanhado até o seu quarto, teremos que ficar do lado de fora. No restaurante, as regras obrigam a muitas mudanças. Reduzimos de 50% o número de mesas para respeitar uma distança minima de um metro e meia, cancelamos os cardápios e colocamos tudo em QR code para evitar contatos desnecessários. Para o almoço, inventamos de propor um pique nique chique, com dez mesas espalhadas nos 120 hectares da propriedade, uma no terraço, uma em baixo do tricentenário cedro-do-Libano do parque, uma na pequena praia de frente para o rio Dordogne. O almoço será colocado na mesa de uma vez para reduzir os contatos. Para os cafés da manhã, Yvonne, nossa responsável, nunca gostou de bufês e sempre servimos nas mesas.Agora que virou obrigatório, vimos que fomos pioneiros.

O restaurante redesenhado para respeitar as novas normas sanitárias

JPP: A volta a normalidade deve ser demorada, e vai começar com os clientes de proximidades. Quando espera rever as clientelas distantes, incluindo os brasileiros, e que ações podem acelerar essa volta?

SG: Temos sorte porque o mercado francês representa 50% dos nossos visitantes, e vamos logo contar com eles. Os brasileiros são uns dos nossos melhores clientes vindo de longe, que gostam da nossa natureza, das belezas da nossa arquitetura, das nossas paisagens e mais ainda da cozinha francesa. Queremos que eles voltem o mais rapidamente possível, mas sabemos que isso vai depender da retomada e das condições dos voos transatlânticos. Os voos devem ficar mais caros, com mais normas sanitárias, e as contrapartidas das ajudas governamentais devem ser mais investimentos na sustentabilidade – e mais aumentos dos preços das passagens.  É provável que não vamos ter brasileiros esse ano, mas contamos com eles para 2021, se o transporte aéreo ajudar.

Todos diferentes, os quartos homenageam a história do castelo

JPP: Em uma pesquisa recente, os agentes de viagens brasileiros definiram com uma forte tendência o recuso do overturismo e a procura de destinos seguros mas longe das multidões. Você acha que o Château de la Treyne está pronto para aproveitar essa oportunidade?

SG: Nosso castelo pertence desde 1992 a uma maravilhosa associação, Relais & Châteaux, que tem 580 membros no mundo inteiro. A grande maioria desses hotéis e restaurantes estão localizados no campo, cercados pela natureza e com capacidade média de 30 quartos. Com uma localização exclusiva, La Treyne tem 17 suites, bem longe do turismo de massa. Nossos clientes estão procurando beleza, sinceridade, “savoir-vivre”, autenticidade até na originem dos produtos que oferecemos. Há anos começamos a trabalhar com pequenos produtores da região que abastecem o hotel em frutas e verduras, seguindo o ritmo das estações.

Em Rocamadour, as emoções da Fé

JPP: A mesma pesquisa mostra que as viagens serão ainda mais valorizados depois da crise, e que os viajantes vão querer mais experiências “transformacionais”. Quais são as dicas de atividades marcantes que você pode aconselhar a seus visitantes brasileiros?

SG: O Château de La Treyne fica em cima de um barranco caindo no rio Dordogne, uma biosfera excepcional tombada pela UNESCO, onde muitas atividades esportivas e náuticas podem ser praticadas. A natureza oferece outras emoções excepcionais nas grutas como Padirac, ou nas reproduções de arte rupestre de Lascaux 4.  A região esbanja uma cultura e uma arquitetura peculiar em cidades pequenas como Sarlat ou Les Eyzies. A espiritualidade se encontra em inúmeros trechos dos caminhos de Santiago que podem ser percorridos nos arredores, e mais ainda no extraordinário santuário de Rocamadour que foi na Idade Media o mais importante da França e que hoje ainda mexe com a fé do viajante.

Jean-Philippe Pérol

Stéphanie Gombert e seu marido Philippe são proprietários do Château de la Treyne. Alemã radicada na França, encontrou seu futuro marido quando preparava um master de história e literatura na Universidade de Paris Sorbonne. Depois de uma experiência de quinze anos no setor de eventos, é desde 2003 diretora do Hotel e Restaurante  Château de la Treyne (www.chateaudelatreyne.com) e duas residências exclusivas  (www.chateaudubastit.fr & www.chartreusedecales.com.).  

Pesquisa mostra que os agentes de viagens esperam retomada para setembro

 

Jean-Philippe Perol, da Cap Amazon e Roy Taylor, do M&E

Jean-Philippe Perol, da Cap Amazon e Roy Taylor, do M&E

Os agentes de viagens são responsáveis por mais de 80% das vendas no setor do Turismo. E, nesta crise sem precedentes, eles ainda não tinham sido ouvidos. M&E e Cap Amazon resolveram dar voz a estes profissionais que movem a indústria do Turismo em uma pesquisa inédita. Entre os dias 27 de abril e 11 de maio, cerca de 400 agentes responderam ao questionário e os resultados demonstram um sentimento otimista.

Entre os respondentes, 54,1% esperam que as viagens retomem no mês de setembro. Em segundo lugar, com 16,9%, vêm aqueles que acreditam em uma volta apenas em 2021. Em seguida, 13,4% responderam dezembro e 11,4% julho. Os outros 5,2% esperam que as pessoas voltem a viajar já no mês de junho. “Já tínhamos ouvido bastante a opinião de especialistas, que é em geral mais pessimistas e também dos clientes. Os agentes são otimistas, mas cautelosos, sendo que a metade deles espera uma retomada para setembro. Alguns pensam um pouco antes e uma boa parte que será no fim do ano”, disse Jean-Philippe Pérol, diretor da Cap Amazon. Para o editor-chefe do M&E, Anderson Masetto, para que as viagens realmente retornem em setembro, há todo um movimento que deve acontecer antes disso. “Hoje as prateleiras das agências estão vazias, com hotéis fechados e voos suspensos. Se as viagens começam em setembro, a promoção e as vendas têm início um ou dois meses antes”, concluiu.

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Já sobre as preferências dos clientes, os agentes puderam indicar até duas alternativas. Quase 300 deles indicaram o turismo doméstico como aquele que dominará as vendas pós-pandemia. Ao mesmo tempo, 250 agentes apostam também em destinos da América do Sul. Menos de 50 profissionais colocaram Europa e Estados Unidos como opção. “A opinião dos agentes bate com tudo que se fala no mercado. É uma maioria muito forte para o mercado doméstico e também com o que está acontecendo na China, onde tudo começou, que já teve 100 milhões viagens domésticas”, destacou Pérol. “Há também a questão financeira. Por conta das viagens domésticas serem mais baratas, é certo que serão as primeiras a serem retomadas”, completou Masetto. Pérol destacou ainda que hoje entre os viajantes brasileiros 50% viaja para perto e 50% para longe, diferente de outros grandes mercados, onde apenas 20% vai para destinos mais distantes. Para ele, isso deve mudar e países vizinhos, como Argentina, Chile, Perú e Colômbia, por exemplo, devem receber mais brasileiros.

A mesma metodologia, permitindo duas respostas foi aplicada para que os pesquisados apontassem qual segmento será o primeiro a retomar. Com quase 200 respostas, o lazer ficou na frente, seguido por viagens para visitar amigos e parentes e depois pelo corporativo. Feiras, eventos e congressos, bem como os cruzeiros marítimos, tiveram menos de 50 respostas. “Este foi um resultado surpreendente e mostrou que os três principais segmentos, lazer, visita a amigos e familiares e corporativo tiveram resultados parecidos, na casa dos 30%. Outro ponto é o ‘família e amigos’, que às vezes a gente esquece e será muito importante. Será mais um nicho para os agentes explorarem quando acabar o confinamento”, disse Pérol. “As empresas irão em busca de diminuir despesas e hoje as viagens podem estar até em segundo lugar nos gastos das companhias, portanto, podem sofrer cortes”, completou Masetto.

Com a premissa de que os viajantes darão prioridade a novos hábitos, perguntamos aos agentes de viagens qual serão as temáticas de viagens mais procuradas. Cada um dos pesquisados podia apontar até três alternativas e, disparado, os dois primeiros colocados foram Bem Estar e Ecoturismo, seguido de Cultura, Gastronomia e Luxo. Uma particularidade do turista brasileiro, Compras, ficou a frente, por exemplo de Negócios.

Ainda sobre os hábitos dos viajantes, os agentes apostam que a maior preocupação do viajantes no pós-crise será com a Saúde, seguida por destinos menos frequentados e por um maior interesse no Turismo Nacional.

As respostas nos permitem concluir que, na visão das agências de viagens, a retomada deve acontecer antes do fim do ano e será, provavelmente, mais rápida e mais larga que se pensa. O consumidor vai mudar, mas as mudanças serão lentas e serão, em grande parte, prorrogações de tendências já existentes, como a busca pelo bem estar, por exemplo.

Nessas novas tendências, os destaques devem ser a exigência de valorização da viagem, e a procura de destinos com menor aglomeração, fugindo do chamado overtourism, que vinha sendo muito discutido nos últimos anos.

Acreditamos, ainda, que essas novas exigências, bem como o provável aumento dos preços das viagens devem levar a um papel reforçado dos agentes, uma vez que as preocupações do consumidor irão além do preço e qualidade dos serviços contratados. Eles serão mais exigentes no que diz respeito a informações prévias dos destinos, segurança etc, e sobre condições de adiamentos e cancelamentos.

Veja aqui a apresentação completa da pesquisa em live apresentada pelo jornalista Igor Regis e com a participação de Jean-Philippe Pérol e Anderson Masetto:

Depois da crise, o transporte aéreo acabando com o turismo de massa?

Agora aposentado, o B747 foi decisivo na democratização do turismo

Na história dos últimos 50 anos, a aviação foi o setor que mais influenciou as evoluções do turismo. Com a criação da classe econômica em 1958, o lançamento do Jumbo em 1969, e a multiplicação dos charters nos anos 70, a queda impressionante do preço das passagens levou centenas de milhões de viajantes para destinos distantes. No Brasil por exemplo, a tarifa YE, a mais barata ida e volta para Paris, custava USD 1250 em 1973. Esse valor atualizado com a inflação seria hoje de USD 7905, enquanto essas passagens, para o mesmo destino e na mesma classe podiam ser encontradas, ha poucos meses, a menos de USD 800, ou seja 10 vezes menos. Essa impressionante democratização foi possível  graças aos avanços tecnológicos, mas também por conta da densificação dos aviões – com coeficientes de ocupação passando de 60% para mais de 90%.

Na retomada, sair do underturismo sem voltar ao overturismo?

Levando o turismo de massa para lugares cada vez mais distantes, as companhias aéreas  tiveram um crescimento de 5% ao ano, dobrando os fluxos a cada 12 anos. Em 2020, já eram projetados pela IATA um recorde de 8 bilhões de viajantes com uma receita de USD 1,6 trilhão, e, de Veneza a Machu Pichu, de Roma a Bangkok, de Barcelona a Amsterdã, ou do Mont Saint Michel a Ilha de Páscoa, o overturismo era um dos maiores desafios levantados pelos destinos turísticos. A chegada do coronavirus mudou essa realidade, 80% da frota mundial de aviões está imobilizada, o tráfego aéreo internacional caiu de mais de 90%, hotéis, parques e restaurantes estão fechados, e os turistas confinados  só podem sonhar com impossíveis viagens e esperar que a retomada se apoie em conceitos inovadores  aproveitando tarifas aéreas sempre mais baratas.

As tarifas pos crise parecem  inacreditavéis

Olhando as ofertas de passagens para os próximos meses, pode-se pensar que as guerras tarifárias vão continuar. Alguns analistas pensam de fato que os viajantes vão demorar mesmo para entrar nos aviões, que os homens de negócios vão priorizar as reuniões virtuais, e que as perdas de renda da classe média vão impactar diretamente no turismo. Enquanto as crises anteriores – internacionais, financeiras, politicas, sanitárias ou ecológicas – sempre foram superadas em três, quatro ou seis meses, essa seria mais duradoura. Com clientes relutantes e precisando de cash depois de meses paradas, as companhias aéreas, sejam low costs ou tradicionais, prosseguiriam com suas politicas de promoções excepcionais, pelo menos até que o mercado volta a normalidade.

A Virgin Austrália é uma das companhias que foi a falência

Mesmo se ainda é cedo para antecipar o mundo do “day after” coronavirus, essa hipóteses é  porém  pouco provável. Três fatores devem impedir a queda das tarifas e a alavancagem do crescimento do turismo internacional. O primeiro é que muitas companhias aéreas não vão sair ilesas da crise. Algumas ja quebraram, outras encolheram, outras ainda só serão salvas por aportes maciços de financiamentos públicos. Assim o governo americano prometeu USD 25 bilhões para as companhias americanas, a França USD 7,7 bilhões para Air France, os Países Baixos USD 2,2 bilhões para KLM, e anúncios similares foram feitos pelos Emirados, Colombia, Singapura, Australia, China, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e a Dinamarca. Não se tem dúvidas que essas ajudas terão claras contrapartidas de rentabilidade e de respeito a novas normas que deverão ser conciliadas.

O governo francês anunciou 7 bilhões para Air France com condições rigorosas

Duas exigências dos governos estão aparecendo e vão puxar as tarifas para cima. As novas normas de segurança vão exigir investimentos em novos equipamentos para proteger os funcionários e os clientes, e, para respeitar o distanciamento social, os números de assentos utilizados nos aviões deverão ser reduzidos, com um impacto direto sobre os preços das passagens. Frente à neutralização possível de até um terço dos lugares da classe econômica,  Ryan Air já anunciou que neste caso teria que rever até o seu próprio business modelo. Os empréstimos públicos podem ainda ter outras consequências, a pressão crescente das exigências ecológicas. Redução dos números de slots nos grandes aeroportos, normas de poluição mais rigorosas, e novas taxas “verdes” são algumas das medidas esperadas que vão atingir diretamente ou indiretamente o turismo.

Ryan poderia até parar se as cadeiras do meio fossem neutralizadas

Frente a essas novas despesas, as companhias terão que reverter a tendência de baixa das tarifas, e o « yield management » de não aceitar mais de vender abaixo dos preços de custo. Se o crescimento do turismo,  e as previsões da OMT de 1,8 bilhão de turistas internacionais até 2030, terão com certeza que ser revistas, a nova situação pode também gerar consequências tanto para as companhias aéreas – colocando a concorrência mais em relação à qualidade dos serviços do que em relação aos preços – quanto  para os agentes de viagem cujos conselhos serão ainda mais importantes para ajudar os viajantes a escolherem as melhores ofertas. E se o turismo de massa deve sofrer um certo recuo, a resiliência do setor,  bem como a vontade de experiências transformacionais, podem surpreender no momento da retomada.

 

Jean Philippe Pérol

O coronavirus e o underturismo

O Louvre fechado por causa de coronavirus

Verdadeiro choque para os profissionais do mundo inteiro, o cancelamento do salão Internacional do Turismo de Berlim virou o símbolo da crise que a economia turística está atravessando. A recessão já atingiu os grandes mercados da Asia, quatro dos quais – a China, a Coreia, o Japão e Taiwan- sendo listados no top ten dos  países emissores publicado pela Mastercard. A progressão do virus na Europa, e especialmente na Itália, está agora atingindo em cheio os maiores mercados receptivos do mundo, e as praças desertas de Veneza ou o fechamento do Louvre ilustram o impacto  do coronavirus. Para as empresas do setor, as ameaças sobre as receitas do setor (somente na França as perdas são estimadas a um bilhão de euros por mês), e mais ainda sobre milhões de empregos, mostram de forma espetacular os riscos do “underturismo”. 

Veneza abandonada pelos turistas

É verdade que até a explosão da epidemia na Italia, as preocupações públicas giravam mais em torno do problemas que o turismo de massa estava trazendo, o overturismo era o a ameaça-mor. Em Barcelona, Amsterdão, Roma, Veneza ou Paris, os responsáveis procuravam, as vezes com sucesso, soluções criativas para conciliar visitantes, moradores e profissionais do setor, e permitir aos grandes destinos turísticos internacionais de escolher os “melhores” turistas em função das suas despesas, das suas sazonalidades, dos destinos associados ou das atividades procuradas. Os problemas perduram, e moradores e profissionais exigem com razão soluções duradouras e sustentáveis. A brutal queda das reservas lembram agora as autoridades, aos empresários e a todos os funcionários do setor, que o turismo do século XXI  pode também ser ameaçado pelo sumiço dos viajantes, e que o “underturismo” é tão preocupante que o overturismo.

As companhias aéreas sofrem com os cancelamentos de viagens

Os esforços dos médicos, as medidas dos governos, e a chegada da primavera no hemisfério norte, vão com certeza conseguir vencer a crise do coronavirus. A resiliência extraordinária do turismo vai com certeza trazer de volta em alguns meses os fluxos a seus níveis anteriores, e até ajudar a recuperar perdas. Mas, com a mesma certeza, é possível antecipar que todos os atores que foram castigados com a queda dos fluxos turísticos  -companhias aéreas, hotels, museus, espetáculos, parques ou comercio – vão integrar as suas visões do futuro do setor umas importantes lições. Sem discutir a necessidade de trazer soluções para o overturismo, a economia dos destinos, o sucesso dos empresários, os empregos e a vida dos moradores, vão pressionar para que este novo turismo, focado em experiencias sustentáveis e respeitosas dos moradores, descarta tambem de vez o risco de “underturismo”.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Amsterdão insistindo em apostar na era do “melhor turismo”

Amsterdão querendo virar a pagina do overturismo

Amsterdão está mostrando uma impressionante criatividade e uma notável persistência para encontrar meios de substituir o “mais turismo” pelo “melhor turismo”. Depois das iniciativas do governo dos Países Baixos cancelando as verbas de promoção turística dos lugares mais visitados, é agora a vez da prefeita Femke Halsema de tentar acabar com duas das mais icônicas atrações da cidade junto aos jovens vindos da Europa e até das Américas. Seguindo o exemplo de Haia que já adotou medidas similares, a prefeita quer proibir o acesso de estrangeiros aos famosos coffee shops, esses bares aonde é possível, desde 1976, comprar e consumir maconha de forma perfeitamente legal. É também estudada uma limitação dos acessos ao famoso distrito da Luz Vermelha e as suas sex-shops que foram muito tempo – e as vezes ainda são- um dos (discutíveis) cartões postais da cidade.

Os Coffee shops são a primeira atração da cidade

Preocupada com as possíveis consequências sobre a economia da cidade que depende em grande parte dos seus 17 milhões de visitantes,  a prefeita encomendou a seu departamento de estudos, informação e estatísticas uma pesquisa de impacto cujos resultados acabaram de ser publicados. A pesquisa mostra que uma mudança na legislação dos coffee shops tiraria o ânimo de 34% dos visitantes e que 11% não voltariam nunca mais. Para os ingleses, que são mais de um milhão a visitar a cidade, o impacto seria ainda maior, 42% deles diminuiriam suas visitas e 12% não voltariam mais. A prefeita deve também ter ficada surpresa de ler que 60% dos turistas que declaram voltar em caso de proibição  responderam que, assim mesmo, continuarão a consumir drogas na cidade, se for necessário mandando amigos holandeses fazer suas compras nos coffee shops. …

O bairro da Luz Vermelha vai ser vetado para grupos organizados

A pesquisa destacou que a liberdade de fumar drogas doces era a motivação principal de  22% dos visitantes internacionais – e mesmo de 33% dos britânicos-, seguindo das vitrinas de sex-shops e na frente dos passeios de bicicletas. Mas, convencida da necessidade de lutar contra o overturismo que esta asfixiando o centro historico da cidade, a prefeita manteve sua estratégia e já tomou as primeiras medidas. A partir do próximo mês de Abril, os grupos organizados estão assim proibidos de visitar o distrito da Luz Vermelha, uma medida que deve, segundo a prefeitura, “não somente reduzir os fluxos turísticos mas ainda proteger os trabalhadores do sexo das humilhações ou faltas de respeito impostas pelos visitantes”.  Na mesma linha, as visitas das ruas onde existam vitrinas expondo prostitutas serão vetadas aos grupos, e outras áreas necessitarão autorizações especiais.

A prefeita quer mesmo acabar com o overturismo na cidade

Alem dessas restrições impostas aos visitantes “sexo e drogas”, Amsterdão está também estudando outras medidas para lutar contre o overturismo. Uma taxa de três euros por pessoa e por dia vai ser cobrada nos hotéis e alojamentos. Indo mais longe ainda, a prefeita pediu  que seja estudado o impacto dos voos low costs sobre a economia local e o bem estar dos moradores, querendo reavaliar os apoios institucionais dados a essas companhias aéreas,  deixando claro que a escolha agora será mesmo pelo “melhor turismo”.

O “New York Times” e o “Le Monde”, duas visões das tendências turísticas de 2020

Não mencionada pelo NYT, Olinda seduziu o júri do Le Monde

Enquanto os 52 destinos do New York Times já são uma seleção consagrada, destacando tendências antecipadas pelos leitores, os profissionais do setor turístico e um comité de jornalistas especializados, o  prestigioso jornal francês Le Monde decidiu publicar agora uma seleção de 20 destinos escolhidos com critérios novadores. Sem recorrer aos leitores, mas consultando especialistas,  levaram em consideração não somente beleza, novidade e conteúdo cultural, mas também a “consciência ecológica ” e a pegada carbone de cada viagem, favorecendo as estadas longas e as distancias curtas. Os dois ranking são assim completamente diferentes, mas é interessante de constatar  que algumas escolhas são bem próximas, que algumas temáticas estão virando tendências internacionais, e que três destinos constam das duas listas.

Casas tradicionais nas Ilhas Faroe

Americanos e franceses concordaram na escolha de algumas regiões,  mas com destaques diferentes. Foi assim nas ilhas do litoral atlântico da França onde o NYT escolheu a surpreendentemente  “perfeita” Belle Ile en Mer na Bretanha, enquanto o Le Monde preferiu o charme escondido e a tranquilidade fora-do-tempo da ile d’Aix. Na Scandinavia,  o NYT destacou as surpresas arquiteturais de Jevnaker na Noruega e as trilhas da Suécia ocidental, enquanto o Le Monde ficou fascinado pela beleza selvagem, os pássaros e as tradições culturais das Ilhas Faroe. Menos esperada, a Polonia ficou também nas preferencias dos dois júris, porem foi Cracóvia, sua arquitetura e sua bem sucedida reconversão industrial, que levou as preferencias dos americanos, a escolha  dos franceses sendo a cidade de Gdansk (outrora a alemã Danzig),  seu urbanismo medieval e a longa historia do seu porto hanseático.

Inventada antes dos barros gauleses, a vinificação da Georgia utiliza jarras de barro chamadas kveris

Ambas listas mostram algumas tendências das viagens internacionais. A primeira é a importância cada vez maior dos meios de transportes alternativos. O sucesso do trem explica o destaque dado a Suíça e ao Bernina Express e aos seus 152 quilômetros de trilhos atravessando uma área tombada pela UNESCO, a procura de lugar “bike friendly” está valorizando a Holanda e sua capital Haia. A segunda tendência é o força das viagens temáticas, com destaque para o enoturismo e as vinícolas. Sem nenhum chauvinismo, os franceses escolheram assim a Georgia e os vinhedos da Cachétia. Perto do Mar Negro, vinhos bem peculiares são produzidos com umas técnicas milenares, amadurecendo em jarras de barro enterradas no solo. Já servidos na corte do imperador da Persia no século V, esses vinhos são degustados por enoturistas do mundo inteiro.

Washington foi escolhida pelos dois júris

Num ano de eleição, quando a capital americana vira o centro do mundo e mergulha num ambiente digno deHouse of Cards, era lógico que tanto o New York Times que o Le Monde escolhesse Washington como um destino incontornável. Em 2020, não se deve perder o memorial de Lincoln, o Capitol, ou os tesouros artísticos da  National Gallery of Art (NGA). A cidade  está mudando, com novos museus, incluindo o “Smithsonian National Museum of African American History and Culture” inaugurado em 2016 e já constando como um dos mais procurado. Os jovens da cidade gostam de levar os visitantes até a U Street, num bairro afro-americano repleto de galerias de arte, de bares e de restaurantes ligados. De noite, o bairro residencial de  Dupont Circle vira uma trepidante área de vida noturna com famosos estabelecimentos LGBT e bares esportivos animadíssimos. 

Nas ruinas de Gondar, as marcas da herança portuguesa

Destino fora do comum, a Etiopia  ganhou um nova impulse esse ano com o premio Nobel da Paz do seu primeiro ministro Abiy Ahmed. “Terra das origens”, esse pais peculiar deve ter fascinado os jornalistas de Paris e Nova Iorque da humanidade pelas suas beleza naturais, da grande falha até o deserto do pais Dankali e as cataratas do Nilo azul. Mais antigo estado cristão do mundo com a Arménia, o antigo Reinado do Preste João oferece ao turista suas quatro antigas capitais, Axum nos passos da Rainha de Sabá, Lalibela e as igrejas monolíticas dos usurpadores Zagué , Gondar e sua arquitetura influenciada pelos então aliados portugueses liderados pelo filho de Vasco da Gama, e Addis Abeba, a “nova flor”  do emperador Menelik II, hoje a borbulhante metrópole de um pais de mais de 100 milhões de habitantes .

A escolha de Minorca pelos dois júris foi uma surpresa

É talvez por ser muito menos famosa que suas duas irmãs, Maiorca e Ibiza, que Minorca foi selecionada como uma das tendências 2020. Terra de camponeses e de fazendas, a pequena ilha das Baleares tem menos de 100 000 habitantes e mais de 200 praias, abertas ou escondidas. Passeando a cavalo pelo caminho costeiro  « Cami de Cavalls », o visitante descobre a areia vermelha da praia de Cavalleria, as aguas turquesa da Cala Mitjana, ou as dunas selvagens da Cala de Algarien. Com a capital Port Mahon, sua igreja, sua prefeitura e sua fortaleza, e com a força do seu agroturismo de luxo desenvolvido em estabelecimentos muito badalados como  a finca Torre Vella ou a antiga fazenda Menorca Experimental, Minorca seduz por ter escapada do overturismo que tanto preocupa as outras ilhas da região. Um sucesso que os jurados tanto do New York Times que do Le Monde querem talvez ver se espalhar para outros destinos em 2021.

Jean-Philippe Pérol

Os jornalistas do NYT acreditam na trilha da mata atlântica

 

 

 

Na Holanda, o melhor turismo passa pelos Países Baixos

Os canais de Utrecht, uma alternativa ganhadora

Se a Holanda é chamada desta forma nas mídias internacionais, e as vezes na própria comunicação, o seu nome oficial sempre foi Países Baixos. Desde 1579 – quando se revoltaram contra o então domínio espanhol-, as Províncias Unidas eram sete. Passaram hoje a ser doze, mas a Holanda continua sendo somente uma delas, mesmo se a mais importante pela potência da sua economia e a predominância das suas três cidades, Amsterdã, Roterdã e Haia. Até agora tolerante com essa dualidade de nomes, o governo decidiu que a partir do primeiro de janeiro de 2020, os documentos oficiais dos ministérios, das universidades, das embaixadas e das empresas públicas  terão obrigação de utilizar exclusivamente o nome Países Baixos. Um novo logotipo, combinando as iniciais NL com a tulipa cor de laranja  já simboliza a mudança.

O antigo e o novo logotípo do turismo dos Paises Baixos

A medida vai ter muitas consequências, algumas das quais ainda não resolvidas, especialmente na área esportiva que vai ter como prioridade definir o nome da equipe nacional de futebol que vai estrear na Copa Euro 2020 no próximo mês de junho. Mas a clara intenção do governo com essa mudança de nome é de valorizar o interior, especialmente quando se trata de turismo. No setor, a primeira mudança será de mudar (ou não?) o nome do site oficial do turismo “holland.com”. Preocupado com  o overturismo em Amsterdã – a cidade de um milhão de habitantes recebe hoje 17 milhões de turistas- e com as projeções de crescimento do turismo internacional no país que passaria de 19 a 29 milhões nos próximos dez anos, os Países Baixos, que já pararam de promover seu turismo no Exterior, querem mudar completamente a sua estratégia no setor.

Amsterdão não aceita mais o overturismo

A cidade de Amsterdã já tinha tomado varias medidas contra o overturismo, começando com uma regulamentação drástica (mas pouco eficiente) das atividades de AirBnb, reforçou as restrições. Foi assim decidida a redução dos transportes coletivos para os turistas como os barcos táxis, os segways ou as carruagens. As excursões de barco – os “bateaux-mouches”- não poderão mais parar no centro da cidade, os barcos hotéis não serão mais autorizados, e os navios de cruzeiro já foram avisados que não serão mais bem vindos. Ao mesmo tempo, antecipando a notoriedade crescente do destino, o Netherlands Board for Tourism & Conventions (NBTC) anunciou uma nova politica de segmentação dos mercados para espalhar os fluxos turísticos e ainda melhorar os impactos sobre a economia nacional.

Maastricht seduziu os exigentes redatores da Lonely P;anet

O NBTC deveria assim fechar seus escritórios da Itália, da Espanha e do Japão, ampliar suas ações na China e reforçar suas campanhas na Alemanha, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Bélgica e na França. A prioridade será de atrair viajantes experientes,  já conhecendo a Holanda, querendo descobrir os Países Baixos além de Amsterdão, em cidades históricas como Maastricht, Groningen ou Arnhem, e valorizando os produtos artesanais de todas as regiões do pais, sejam tulipas, queijos, tamancos, porcelanas ou obras artísticas contemporâneas. Com US$ 10 milhões de verbas do governo, essa nova e corajosa política de “melhor turismo”, combinando apoio à economia local, luta contra o overturismo e “upgrade” do destino, deve ajudar os Países Baixos a melhorar ainda mais seu ranking dentro do turismo mundial.

Jean-Philippe Pérol

Da sustentabilidade ao “slow travel”, o trem abraçando as novas tendências do turismo!

A primeira viagem de trem organizada pelo Thomas Cook

Desde 1842, quando Thomas Cook inventou o turismo moderno numa Maria Fumaça fretada de Leicester a Loughborough, o trem foi sempre, na Europa, pioneiro nas grandes ou pequenas revoluções do setor. Suas performances ecológicas exemplares, sua rede interligando não somente os grandes centros mas umas 10 mil cidades ou vilarejos nos 38 países europeus, sua autenticidade enraizada nas tradições ferroviárias, e sua flexibilidade o colocam outra vez nas mais recentes tendências seguidas pelos viajantes internacionais. Seja nos TGV ou nas ferrovias regionais, viajar de trem significa sair do centro das cidades, poder relaxar desde o embarque até a chegada, aproveitar a paisagem, entrar em contatos com outros viajantes ou moradores, escolher com facilidade o ritmo das suas experiências.

Dos Alpes da Provence até Nice, o famoso Train des Pignes

Um pesquisa da Virtuoso mostrou que 37% dos consumidores privilegiam as empresas investindo na sustentabilidade, e que os viajantes “eco-conscientes” são quase todos convencidos que o trem é o mais eficiente dos meios de transporte quando se trata de consumo de energia, de gases do efeito estufa ou de sustentabilidade. Nos Estados Unidos, 71% dos compradores de “Eurailpass” declaram que as baixas pegadas carbono foram decisivas na escolha do trem. A geração dos Millenials é a mais comprometida com a ecologia – três vezes mais que a geração X, seguido dos baby boomers e da geração Z-, mas todos  parecem prontos a mudar seus comportamentos afim de reduzir o impacto das suas viagens sobre o meio ambiente.

O overturismo aumentou a urgência de novos destinos

O overturismo foi incluído este ano pela primeira vez na pesquisa anual da MMGY sobre o perfil do viajante estadunidense. Cerca de 60% dos respondentes concordaram com a afirmação que o turismo de massa e a superlotação vão ter uma influencia importante na escolha dos lugares que visitarão nos próximos dez anos. E 73% já tentam evitar destinos superpovoados durante as altas temporadas. Mesmo se o trem oferece aos viajantes a possibilidade de chegar diretamente nos centros das grandes cidades, ele dá também a opção de visitar lugares menos acessíveis, menos conhecidos, mais íntimos, onde é possível mergulhar na cultura local  sem sofrer dos desgastes humanos e financeiros do overturismo,

Os trens suiços dão acessos aos lugares mais escondidos do país

Os destinos menos conhecidos onde o trem pode levar o viajante não são somente ajudam a escapar ao overturismo, mas permitem descobrir pequenas cidades ou vilarejos para experiências autênticas e mais oportunidades de interagir com os habitantes. No relatório Luxe Report 2019, a Virtuoso coloca agora o encontro e a convivência com moradores como uma das cinco maiores motivações de viagem. Os  trens regionais ou “intercity” são ocasiões de descobrir novas paisagens, novas culturas diferentes e novos encontros enriquecedores. Nos pequenos vilarejos, encontra se o tempo para  conversar com os “habitués”de um bistrô, descobrir um prato regional com ingredientes da própria fazenda, ir na feira livre para fazer as compras, visitar uma surpreendente igreja romana cujas chaves são guardadas pela vizinha, ou fazer uma degustação de vinhos com um pequeno produtor.

A Itália logo associou slow travel com trem

O trem combina também com a nova tendência do Slow Travel, a descoberta de destinos a um ritmo bem tranquilo, tomando o tempo necessário para conhecer seus atrativos e sua gente e fazendo da própria viagem (de trem!)  um momento descontraído e relaxante. Pioneira, a Itália fez de 2019 o ano do seu “slow tourism,” focando sua promoção em atrações culturais e turísticas de regiões menos conhecidas do pais. As operadoras e as agências de viagens foram incentivadas a diversificar seus roteiros, multiplicando as paradas em vez de ligar diretamente as grandes cidades italianas. O trem ficou assim uma escolha natural, relaxante, que alegra os clientes menos apressados do “slow travel”, jovens estudantes ou aposentados da melhor idade que querem viajar a seu ritmo, almoçar sem pressa ou parar de repente para aproveitar um pôr do sol.

©SNCF Mediatheque/Alex Profit

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