Na hora do underturismo, Serge Trigano aplaudindo o turismo de massa

Serge Trigano, fundador do grupo Mama Shelter

Filho do lendário Gilbert Trigano, e fundador do grupo Mama Shelter, o Serge Trigano publicou no Journal du Dimanche da França uma tribuna muito ousada sobre o tão criticado turismo de massa. “A pandemia, além de dramas e sofrimentos, mexeu com a vida e o trabalho de todos. Vamos sair das cidades grandes, privilegiar o teletrabalho, tentar deixar um mundo melhor para nossos filhos. Essas e outras tendências são compromissos que só podemos aplaudir. Mas ao mesmo tempo chegaram umas ideias negativas sobre o turismo de massa. Ele acabaria com as paisagens, destruiria o meio ambiente, prejudicaria as populações locais e ameaçaria os empregos turísticos”.

O Serge Trigano lembrou que nos anos 1960, as elites gozavam dos turistas americanos que visitavam a Europa correndo, chegando em Londres na segunda-feira, passando por Paris na quarta, em Roma na sexta e voltando no sábado para os Estados Unidos. Mas a nova geração já aprendeu a aproveitar suas viagens e a explorar as belezas dos destinos escolhidos. Por que razão deveria ser dada aos únicos clientes dos palaces Gritti, Danieli ou Cipriani a exclusividade das belezas de Veneza e da magia da Sereníssima, discriminando os grupos populares? Não se deve esquecer que esses visitantes, pertencendo as classes emergentes do mundo inteiro, têm também todo direito de fazer selfies com as pombas da Praça São Marcos.

É claro, segundo o Sergio, que as consequências negativas dos excessos do “overturismo” devem ser combatidas, e já foram alcançados resultados neste sentido. A Airbus está trabalhando no não poluente avião do futuro. As companhias de cruzeiros – seguindo o exemplo da Compagnie du Ponant – estão reduzindo de forma drástica o seu impacto no meio ambiente. Os grandes destinos turísticos estão se organizando – de Veneza a Paris e Amsterdã, passando por Barcelona ou Phuket – para limitar os exageros de alguns momentos de folia.

Viva o turismo, então, que oferece a oportunidade de visitar o outro sem dominá-lo, sem procurar invadi-lo ou submete-lo. O turismo é o contrário da guerra, e já por isso merece ser protegido. Viva o turismo então, incluindo o mais elitista – porque não?-, mas viva também o turismo popular, aquele que é chamado de forma depreciativa o turismo de massa.  Viva também esses milhões de turistas e de veranistas felizes que desfilam pacificamente em nossas cidades, de celulares na mão para tirar fotos.

Esse artigo foi traduzido de uma coluna original de Serge Trigano no jornal francês  on-line Le Journal du Dimanche

O Hotel La Ponche, o espírito de Saint Tropez


A pequena mas muito badalada praia da La Ponche

Em Saint Tropez, frente a pequena praia do mesmo nome, o lendário hotel La Ponche está reabrindo depois de oito meses de obras. O La Ponche é um dos hotéis icônicos da Riviera francesa, onde os artistas chegaram já nos anos 50, antes e depois de ter hospedado a equipe do filme « E Deus criou a mulher». Passaram ai muitas vedetes das artes, da política e do cinema: Boris Vian, Michel Piccoli, Pierre Brasseur, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pompidou, Kenzo, Jack Nicholson, Catherine Deneuve. Vários casais famosos se esconderam nos seus quartos: Brigitte Bardot e Gunter Sachs, Bernard Buffet e  Annabel, Romy Schneider e Daniel Biasini.

No lobby, a Provence, o verão, o farniente e os anos 60

Renovar uma lenda foi o desafio imposto a Fabrizio Casiraghi, o arquiteto responsável das obras e da nova decoração do hotel. Ele foi buscar nos brechós e nos antiquários objetos, poltronas, luminárias, o Sul, a Dolce Vita, os anos 60, o mar e as férias, para criar um ambiente misturando a Provence e o verão. Nos 21 quartos (incluindo 5 suites), as paredes são brancas e as madeiras de nogueira preta. Os pisos são de terracota e nas paredes são pendurados quadros de Cordier e litografias originais de Picasso. O quarto excepcional é o numero 8, aquele onde sempre se hospedavam a Romy Schneider e o Daniel Biasini. O terraço é do mesmo tamanho que o quarto e domina os telhados de Saint Tropez, a cidadela, a torre da igreja e o mar.

Do restaurante, uma vista mágica para o Mar Mediterráneo

Com somente  29 anos, o chef Thomas Danigo, calmo e rigoroso, viajou no mundo inteiro, trabalhou em Chartres e Paris, mas voltou para propor um cardápio mediterrâneo valorizando os legumes da região, os peixes e as vibrações cotidianas da feira livre. « Sem frescuras e sem exageros, uma cozinha virada para os produtos e os sabores regionais ». Oferece gaspacho de ervilhas frescas, lagosta grelhada, a famosa “bouillabaisse”, pratos do dia no forno de carvão e sobremesas trabalhadas com frutas da estação. Para o almoço, são servidos no terraço os pratos tradicionais da casa, enquanto o cardápio valorise na hora do jantar as criações pessoais do chef num ambiente mas sofisticado.

O novo Bar Saint Germain desenhado pelo do Fabrizio Casiraghi

Para sentir o espirito de um hotel, o melhor lugar é sem dúvidas o bar. A história – e o sucesso- do hotel começaram no Saint-Germain-des-Prés-La Ponche, ponto de encontro de pescadores e de artistas, cuja renovação foi muito caprichada pelo Fabrizio Casiraghi. Levou uma parede de espelhos atrás do bar, instalou umas luminárias para valorizar as garrafas, cobriu o teto com nogueira preta, e escolheu um piso de azulejos pretos e brancos. A lareira, as mesas de ferro forjado e as poltronas criaram um ambiente aconchegante para aproveitar a qualquer hora do dia ou da noite um surpreendente cardápio de cocktails e de fingerfood, um ambiente digno do passado do La Ponche e da Dolce Vita.

No porto de Saint Tropez, o luxo e a simplicidade

A nova diretora, Audrey Brémond, é uma “tropezienne” da gema que já trabalhou no grupo Oetker. Teve experiências bem sucedidas em Courchevel, em Vence e nos hotéis Monsieur, « boutiques-hôtels » parisienses pertencendo a empresa HN6 ACTIVE, hoje também proprietária do La Ponche. Mesmo se tomou a decisão de sair da cadeia Esprit de France, a empresa liderada pelo empresário Nicolas Saltiel quer dar uma nova vida para o La Ponche, reencontrar o borbulho das origens e o ambiente dos anos 60, o hino ao sol, a simplicidade, ao Mediterrâneo, ultrapassar a simple noção de hospedagem para liberar a dimensão cultural de uma experiência peculiar com o espirito de Saint Tropez.

Jean-Philippe Pérol

“E Deus criou a mulher”, inicio do namoro da Brigitte Bardot com Saint Tropez

 

Viagens de negócios e video-conferências, qual futuro depois da retomada?

Montpellier, cidade sede da Chaire Pegase de pesquisa turística

Representando 25% dos viajantes e gastando mundialmente USD 1.400 bilhões por ano, os homens e as mulheres de negócios contribuíam por 55 à 75% das receitas das companhias aéreas. Com a crise do Covid, e a redução dos riscos e gastos das empresas, essas viagens despencaram de mais de 70%, numa clara ameaça a economia do setor. Enquanto a retomada parece por enquanto limitada ao lazer, e a video-conferencia instalada para ficar, a Chaire Pégase, centro de pesquisas da universidade de turismo de Montpellier na França, publicou um estudo mostrando as tendências e as consequências dessa competição entre o video e o presencial .

Video-conferências entraram para ficar

Antes da crise, 35% das empresas já tinham começado a utilizar as video-conferências, para reduzir seus custos financeiros, humanos e ambientais. Mas a tendência se acelerou. Nos últimos 15 meses, a maioria das viagens de negócios foram canceladas, seja por necessidade de redução de custos (31%), por precaução sanitária (71%), impossibilidade de viajar (55%), ou vontade de contribuir ao meio ambiente (22%). Em 53% dos casos, essas viagens foram substituídas por video-conferências, os participantes elogiando essa evolução por ser menos cansativa (65%), e permitindo um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (66%). Mas a substituição tem seus inconvenientes, 82% dos interessados são saturados com as video-conferências, a falta de comunicação com os colegas (73%), a perda de oportunidades para atingir suas metas (64%), e as dificuldades de ganho de novos clientes (60%).

As grandes feiras são um dos setores mais ameaçados

A pesquisa da Chaire Pegase mostra porém uma grande diversidade de opiniões e de comportamentos em função dos tipos de viagens, do setor econômico e do tamanho da empresa. Para os entrevistados, as viagens ligados a intervenções técnicas (59%), a prospeção comercial e as vendas (59%), bem como ao relacionamento com os clientes  (50%) serão os mas rápidos a recomeçar. Devem seguir depois as reuniões internas nas filiais pertencendo a um mesmo grupo. Os eventos profissionais, feiras, salões, conferências (27%), e os incentivos (30%) voltarão somente num segundo tempo, bem como os eventos ligados a formação (21%) que podem ser realizados em formatos híbridos.

Reuniões internos são as mais propicias a video-conferencias

A retomada das viagens de negócios depende também dos setores de atividades das empresas. Segundo a McKinsey, as construtoras, as imobiliárias, as farmacêuticas devem ser as primeiras a liberar as viagens enquanto os setores energético e têxtil devem demorar mais, bem como os serviços e a pesquisa científica que terão mais facilidade para seguir nas video-conferencias. O tamanho das empresas sera um outro fator diferenciador. Com mais recursos, as grandes empresas vão poder reiniciar suas viagens de negócios logo depois da crise, enquanto as pequenas estruturas terão que reconstruir os seus caixas antes de pensar em investir mais que o mínimo indispensável

40% das viagens de negócios substituídas por video-conferencias?

As video-conferencias mudaram  mesmo a economia do setor. No curto prazo, 70% dos entrevistados pensam viajar menos até o final da crise, e 42% acham que essa situação vai perdurar. A pesquisa da Chaire Pégase prevê no logo prazo uma queda 40% das viagens de negócios enquanto o turismo de lazer vai recuperar a partir de 2024 as previsões de crescimento anterior a crise. Uma boa noticia para as companhias low cost, mas uma forte preocupação para as companhias aéreas tradicionais como Air France ou Lufthansa que construíram seus modelos econômicos em cima desses viajantes. No mundo pós Covid, terão não somente de repensar os serviços oferecidos aos homens de negócio  com  uma melhor segmentação, mas também dar uma atenção muito maior aos turistas de lazer que o sucesso das video-conferencias não deveria atingir.

Jean-Philippe Pérol

United Airlines apostando mesmo no supersônico?

Um sucessor para o Concorde em 2029?

A companhia aérea United Airlines e a start-up Boom Supersonic anunciaram um acordo viabilizando a volta dos voos comerciais supersônicos graças à encomenda de 15 aparelhos – com opção de mais 35- e a um impressionante investimento em tecnologias sustentáveis. Chamado Overture, o avião seria apresentado em 2025, decolaria pela primeira vez em 2026 e começaria a operar comercialmente em 2029. Voando a Mach 1,7 , poderia levar 55 passageiros de Nova Iorque a Londres ou Paris em 3 horas e meio, bem como de São Francisco a Tóquio em 6 horas. Incluindo uma encomenda anterior da Japan Air Lines, e uma possível opção da Virgin, as pre- vendas estão agora chegando a 70 aparelhos.

Além de ser a mais importante encomenda de avião supersônico dos últimos 50 anos, a grande novidade do acordo é a exigência de net-zero carbone a ser respeitada desde o primeiro dia do projeto, tanto na construção quanto no uso exclusivo de combustíveis sustentáveis (SAF, sustainable aviation fuel). Segundo o Presidente da United, Scott Kirby, o Overture deve não somente encurtar da metade os tempos de voos, mas também oferecer aos passageiros umas experiências de voo completamente diferentes: sensação “espacial” de voar a 18 quilômetros de altura, conforto de cadeiras inovadoras com tecnologias sem contato, largos espaços individuais.

O Overture projetado num galpão da United

Com a desistência da start-up concurrente Aerion -apoiada pela Boeing- , o Overture seria então o primeiro avião oferecendo voos comerciais supersônicos desde o último voo do Concorde da Air France no dia 31 de Maio de 2003. Os grandes desafios que o projeto franco-britânico encontrou – autorizações de sobrevoo, consumo excessivo de combustível e conforto aquém das expectativas- ainda deverão ser superados. Se a Boom Supersonic já levantou USD 270 milhões com vários parceiros, incluindo o inglês Rolls Royce, os especialistas estão estimando a mais de USD 10 bilhões os investimentos necessários para viabilizar o projeto, um montante que assustou até a Boeing.

O conforto a bordo será uma exigência imprescindível

Se ainda têm muitos desafios para vencer, a saudade do Concorde e o apelo para um novo avião supersônico comercial é forte. A United acredita que o Overture vai atrair viajantes com possibilidades de aproveitar esse luxo, homens de negócios com pressa mas querendo encontros presenciais mais produtivos, ou turistas abastados querendo relaxar em destinos distantes. Sabendo das dificuldades enfrentadas nas vendas, a Boom Supersonics já está fazendo ofertas para clientes mais específicos: chefes de estado querendo modernizar seus aviões presidenciais, ou até forças armadas querendo enviar de forma emergencial unidades especializadas para frentes de operações.

Jean-Philippe Pérol

Arábia Saudita nos grandes destinos turísticos mundiais de 2030?

Madain Saleh, a Petra do sul onde nasceu a escritura árabe

O acordo assinado o mês passado pelo Diretor Geral de Cruise Saudi, e o Presidente de MSC, vai dar um impulso espetacular aos cruzeiros nessa região, dando ao MSC Magnifica a possibilidade de zarpar de Jeddah, segundo porto do Oriente Médio, cidade histórica tombada pela UNESCO e ponto tradicional de entrada dos peregrinos para Meca. Um segundo navio, o MSC Virtuosa, operando no Golfo Pérsico, vai enriquecer os seus itinerários com escalas em Damman, porto dando acesso ao oasis de Al Ahsa, um outro sítio inscrito no patrimônio mundial da UNESCO. Para a temporada 2021/2022, as duas empresas esperam receber até 170.000 novos turistas.

Nos arredores do porto de Al Wajh, o Mar Vermelho ainda virgem de turistas

Os roteiros do MSC Magnifica terão como ponto alto a visita do oasis de Al Ula, também tombada pela UNESCO. A vinte quilômetros do vilarejo, os surpreendentes atrativos da região são os 138 túmulos de Maidin Saleh, segunda capital dos Nabateus, as vezes chamada de “Petra do sul”, antiga capital troglodita de um reinado citado na Bíblia, etapa da “rota do incenso” que ligava a Palestina com o Hejaz. O acesso é possível pelo porto de Al Wajh, famoso pelo seu centro historico e seu litoral, onde os turistas levados pela MSC poderão desembarcar para descobrir esse impressionante e ainda desconhecido acervo da humanidade.

O projeto de hotel de Jean Nouvel em Sharaan

Toda região de Al Ula é o centro de um grande projeto de parque natural, arqueológico e turístico. Com o apoio da França, a Arábia Saudita está investindo na renovação desse conjunto excepcional, incluindo infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias  e hoteleiras. O projeto integrou uma extraordinário hotel troglodita desenhado pelo arquiteto francês Jean Nouvel. Totalmente integrado nas paisagens, com 40 quartos e três vilas esculpidas nos morros, varandas escondidas, e um imenso pátio central, deve abrir em 2024 e virar um dos símbolos do sucesso das ambições turísticas sauditas.

A Kaaba e o complexo hoteleiro de Meca com seu “Big Ben” gigante

A Arabia Saudita já é o vigésimo quinto destino turístico mundial, e recebeu em 2019 20 milhões de turistas internacionais – três vezes mais que o Brasil-, um pouco mais da metade sendo peregrinos indo para Meca.  Pouco conhecido fora do mundo muçulmano, esse turismo religioso foi também profundamente transformado nos últimos anos. Com grandes hotéis de luxo com vista direta sobre a Kaaba, o complexo de Abraj Al Bait revolucionou as infraestruturas locais e as receitas turísticas da cidade santa que chegam hoje a USD 4100 por pessoa. Segundo as autoridades locais, essa evolução vai seguir com o crescimento do número de peregrinos, projetado em 30 milhões para 2030.

O projeto Coral Bloom, luxo, meio ambiente e novas tendências

As ambições do turismo saudita abrangem também o turismo balneário, com a abertura de 50 resorts em 22 ilhas e 6 pontos do litoral, incluindo campos de golfe, marinas, e centros de lazer. O projeto mais espetacular, Coral Bloom, inclui 11 hotéis de alto luxo  concebido pelo estúdio Foster & Partners que está sendo desenhado para valorizar o extraordinário meio ambiente da ilha de Shurayrah. Sem prédios, construídos com materiais leves, com design incorporando as últimas tendencias do turismo pós covid, os estabelecimentos vão oferecer uma experiência inovadora de luxo responsável e  ecológico. Com aberturas programadas a partir de 2022, serão uma etapa chave para colocar a Arábia Saudita nos grandes destinos turísticos mundiais em 2030.

Jean-Philippe Pérol

As camélias da Chanel virando atração turística na França

Coco Chanel nunca explicou a sua paixão pelas camélias

Se a camélia era a flor preferida de Coco Channel, há anos que sua famosa maison de alta costura não a encontrava mais na França. Perto de Biarritz, cidade pela qual Mademoiselle Chanel se apaixonou em 1915 e que inspirou um dos seus perfumes, a Maison Chanel lançou em 2018 um projeto de “fazenda das camélias”.  Na cidade de Gaujacq, famosa pelo seu castelo do século XVII, uma área de 40 ha virou um verdadeiro laboratório, produzindo milhares de flores sem produtos químicos, no respeito dos ecosistemas e da biodiversidade, e sob a direção do viveirista e pesquisador Jean Thoby.

A Camellia japonica Alba Plena introduzida em Gaujacp

Foi Jean Thoby que convenceu a Chanel de escolher Gaujacq, pequeno vilarejo da 450 habitantes onde ele trabalha há vinte anos num excepcional “Plantarium”de 2000 variedades de camélias, inclusive a variedade branca que Coco Chanel tinha escolhido.  Na terra rica dessa região, março é o pique da florada da « Camellia Japonica Alba Plena ». É a época da colheita dessas flores brancas, delicadas mas sem perfume, que devem ser colhidas manualmente. Serão necessárias 2200 flores para cada kilo do ativo hidratante que entram na composição da linha de cremes lançada em 2009.

O Plantarium de Jean Thoby

Jean Thoby gosta de lembrar que a Alba Plena é muito difícil de plantar, e que foi necessário dez anos de trabalho, e que sem o patrocínio da Chanel essa variedade teria desaparecido. O sucesso só chegou depois de muitos testes. Foi necessário encontrar uma região com o clima adequado, e trazer as primeiras mudas. Elas vieram de um viveiro da família em Nantes, onde existiam varios pés adquiridos do fornecedor da Exposição universal de Paris de 1900. Os pais do Thoby contavam que a Coco Chanel teria visto as camélias durante uma visita, ou numa floricultura da rua Cambon em Paris que tinha o mesmo fornecedor.

O castelo de Gaujacq, tombado pelo patrimônio histórico

O projeto da Chanel ainda não aparece nas rotas turísticas,  mas o proprietário do castelo de Gaujacq já está aproveitando a notoriedade internacional que tragam novos turistas para as visitas guiadas desse monumento com arquitetura original e apartamentos mobiliados. Chanel ajudou também nos investimentos, financiou a renovação dos salões de festas que serão em contrapartida exclusivamente utilizados para os eventos do grupo ou para exposições culturais abertas ao público. As obras do caminho de ronda das camélias e uma nova sinalização turística, informando sobre as variedades da flor, vão facilitar as visitas.

Não se sabe porque a Coco Chanel tinha escolhida as camélias  como suas flores favoritas.  Solidariedade com o trágico destino da heroína do livro “La Dame aux camélias” do Alexandre Dumas, homenagem a liberdade associada com essa flor pela Princesa Isabel, saudade do primeiro buquê oferecido pelo seu grande amor Boy Capel, ou referência ao escritor Marcel Proust, Chanel nunca explicou as razões da sua paixão. É porem certo que ela utilizou essas flores em todas as suas coleções tanto de moda que de joalharia. Agora vindo de Gaujacq, as camélias vão continuar a estar presentes nos seus cosméticos e nos seus perfumes.

Biarritz reencontra o seu icônico Palace

O Hotel do Palais é desde as origens a alma de Biarritz

Se muitos hotéis no mundo podem ser chamados de “palace” – 31 na França, o único pais do mundo onde a categoria é regulamentada- , uns poucos são verdadeiros mitos, com prédios centenários, localizações excepcionais, histórias de empreendedores, de artistas ou de políticos. Trazem as suas cidades notoriedade e atratividade, são pontos icônicos para os visitantes que juntam na mesma motivação o destino e o hotel. Assim Singapura com o Raffles, Marrakech com a Mamounia, Deauville com o Normandy, Veneza com o Danieli, Iguaçu com o Cataratas,  Nice com o Negresco, Paris com o Ritz, Londres com o Savoy, Rio com o Copa, Nova Iorque com o Pierre, ou Cannes com o Carlton. 

Durante o G7 de 2019, o hotel foi surpreendido com um almoço histórico

Reinaugurado dia 26 de Março depois de 3 anos de obras, o Hotel do Palais é um desses mitos. Sua história em Biarritz começou como Villa Eugénie, homenagem do Napoleão III a sua esposa espanhola Eugenia de Montijo. Vendido e transformado em Hotel Cassino em 1880, rebatizado em 1893  Hotel du Palais, ele foi completamente reconstruído em 1903 com uma a faixada de estilo “neo-Louis XIII” inspirada do palacete original. Virou ponto de encontro de reis e presidentes como Alfonso XIII da Espanha, Eduardo VII da Inglaterra ou Clemenceau, recebeu celebridades como Coco Chanel, Ernest Hemingway ou Frank Sinatra.

O espetacular lobby do Hotel depois da renovação

Propriedade do município, ele está sendo administrado desde 2018 pelo grupo Hyatt sob a bandeira da Unbound Collection que monitorou a impressionante renovação. O visitante é impactado logo na entrada, com as imensas janelas do restaurante La Rotonde para aproveitar a vista para o mar. No lobby, o branco das paredes deu uma nova vida as tapeçarias, aos lustres, aos pilares de mármore escuro e aos móveis dourados do Conde Orloff. As abelhas imperiais se destacam nos carpetes azuis da escada nobre e dos corredores que foram restaurados, assim como os tecidos, a mobilia centenária e os “trompe l’oeil”,  por artesãos especializados.

As suites honram o passado imperial do hotel

O Hotel du Palais dispõe agora de 86 quartos e 56 suítes, com superfícies de 28 à 100 metros quadrados e vista espetacular sobre a cidade de Biarritz ou o Oceano Atlântico. Os arquitetos e decoradores dos Monumentos Históricos e do Atelier COS, responsáveis pelo projeto,  foram fiéis ao estilo “Segundo Império” e a própria história do Palace. Cada quarto sendo único, uma atenção especial foi dada aos móveis, as cores, aos tecidos e aos quadros. Nos quartos do último andar, inspirados pelas janelas arredondadas e as escotilhas, foi reconstituído um espetacular ambiente marina  lembrando os barcos de cruzeiros.

Das mesas exclusivas do restaurante, a impressionante vista para o Oceano

Quase lotado no primeiro final de semana da reabertura, o Hotel du Palais reabriu respeitando os protocolos sanitários impostos pela pandemia. A piscina californiana de água do mar tem um acesso limitado, a academia está fechada, bem como o cabeleireiro e  o SPA de 3000 metros quadrados da Guerlain.  O restaurante ainda tem restrições e o jovem chef Aurélien Largeau, que sonha em recuperar a estrela Michelin perdida antes das obras, está servindo o seu menu gastronômico nos quartos. Para quem teve o ano passado que improvisar um almoço de última hora e uma mesa no terraço para Trump e Macron, são desafios normais que um hotel mítico deve saber superar.

Jean-Philippe Pérol

O Villa Eugenie Lounge

 
 

O turismo com 100 milhões de empregos a reconstruir

 

Egito, um dos destinos em destaque em 2021

Na véspera da alta temporada do hemisfério Norte, nos raros destinos internacionais abertos, os poucos viajantes vão com certeza amar os preços imbatíveis dos aviões e dos hotéis, a exclusividade das visitas de monumentos e atrações, a volta da natureza nos parques e jardins, ou a atenção especial dos guias e dos garçons. Menos visível para os visitantes, eles não poderão ver o outro lado da moeda desse “underturismo brutal”, o desaparecimento de muitos pequenos empregos que alegram o turista como motoristas, empregados, artesãos,  motoristas, vendedores de rua, artistas, animadores ou músicos.

Veneza saindo do overturismo e repensando uma nova relação entre turistas e moradores

Segunda uma estimativa do WTTC, o World Tourism and Travel Council, a queda de 74% do turismo internacional em 2020 já levou a destruição de 62 milhões de empregos, um número que poderia mesmo ter sido maior sem as medidas de apoio ao setor de muitos governos. A Organização Mundial do Turismo acredita porém que esses números são subestimados devido ao atraso da retomada, e já projeta para o final desse ano mais de 100 milhões de desempregados. Um cenário negro dentro do qual a OCDE teme que a metade das pequenas e médias empresas do setor desaparecem antes de 2022.  

As Ilhas do Tahiti souberam aproveitar o turismo para preservar seu patrimônio cultural

A crise do turismo impacta toda a economia de muitos países onde o setor representa não somente 10% do PIB, mas também a primeira fonte de divisas,  e até 25% dos empregos gerados nos últimos 5 anos. Em agosto 2020, um relatório da ONU chamou a atenção dos governos sobre a importância desses empregos, especialmente na África e na Oceania. Mesmo pouco qualificados, eles oferecem verdadeiras perspectivas de formação e de carreira para jovens sem diplomas, mulheres, populações rurais, povos autóctones e grupos marginalizados. São também essenciais a preservação do patrimônio natural e cultural. 

Os dois cenários da OMT para 2021

As perspectivas a curto prazo continuam pessimistas. Depois de anunciar uma queda de 87% do turismo internacional em janeiro, a OMT publicou dois cenários para 2021. O primeiro seria de uma retomada a partir de julho, com um aumento de 66% das chegadas em relação a 2020 – ainda inferior de 55% aos níveis anteriores a crise  O mais provável seria no entanto o segundo, uma volta ao normal a partir de setembro, um aumento das chegadas de somente 22% em relação a 2020 – inferior de 67% aos níveis de 2019.  A saída definitiva da crise seria assim projetada para janeiro ou abril de 2022. 

O turismo pos Covid ainda deve ser redesenhado

Com a normalidade ainda demorando a voltar, muitos dos seus profissionais obrigados a encontrar empregos em outras atividades ou perdendo fé no futuro do setor,  o turismo corre o risco de perder os homens e as mulheres que são a sua maior riqueza. Mesmo com as dramáticas circunstâncias atuais, ninguém deve porém perder a esperança. Em primeiro lugar porque os fluxos de turismo internacional vão voltar a crescer, a projeção da OMT de 1,8 bilhão de turistas para 2030 sendo somente recuada de dois ou três anos, permitindo a recuperação dos 100 milhões de empregos perdidos . Em segundo lugar porque o turismo vai acelerar uma extraordinária mutação – ecológica, social, cultural e comportamental- que vai ser para todos os profissionais do setor, e especialmente os mais jovens,  um desafio apaixonante.

Jean-Philippe Pérol

Emoções transformacionais e exclusividade,  tendências para ser respondidas

A renovação urbana, grande vencedora da pandemia?

No coração de Manhattan, a 42nd é agora deserta

Apresentado um relatório sobre o crise do Covid nos centros urbanos, o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, lembrou que as grandes cidades são as mais atingidas, concentrando até 90% dos casos. Os confinamentos pararam com o coração das suas atividades. Com os trabalhadores, os visitantes, os estudantes e até os moradores cada vez mais raros nas ruas, comércios e restaurantes estão sofrendo com as indispensáveis precauções sanitárias, ou são obrigados a fechar pelo menos provisoriamente. Em muitos países,  ajudas governamentais ainda estão evitando fechamentos definitivos, mas a retomada será muito difícil.

A crise acelerou a popularidade das ciclovias

Muitas prefeituras tentaram com sucesso de adaptar a utilização do seu espaço público as necessidades da luta contre a epidemia, investindo em transporte mais seguros com a aceleração de projetos antigos ou o lançamento de novas iniciativas : ampliação das áreas pedestres e das ciclovias, construção de pontos de abastecimentos de veículos elétricos, aberturas de terraços nas calçadas e nas praças públicas. Em uma conjuntura normal, essas idéias encontram fortes resistências mas com a crise foram facilitados pela urgência de ajudar o acesso seguro aos comércios locais, elos chaves da vitalidade das ruas dos centros urbanos.

O centro histórico de Québec enfrenta a queda do turismo

Além do comércio e dos restaurantes, as prefeituras devem também agir para ajudar o setor hoteleiro dos centros urbanos que estão em situação crítica. Além de muitos hotéis fechados, as taxas de ocupação de 2020 estão raramente ultrapassando 40% nos dias de pique, e caindo a menos de 20% em destinos acostumados a receber turistas internacionais – 18% por exemplo em Montreal. 2021 começou pior ainda, e mesmo Paris, primeira cidade turística mundial, estava em janeiro com uma taxa oscilando entre 34% para os hotéis mais populares, até 7% para os 5 estrelas que são as maiores fontes de visitantes para as lojas e os restaurantes das ruas comerciais.

Montreal é a cidade mais verde do Canada

No Canadá, os profissionais pensam que a crise vai acelerar algumas tendências do urbanismo que já preexistiam: construções mais sustentáveis, desenvolvimento da agricultura urbana, ampliação dos parques e das áreas arborizadas, apoio a todos os tipos de transportes a propulsão elétrica. Um grupo de 50 especialistas e personalidades assinaram uma Declaração 2020 para a resiliência das cidades canadenses. Eles estão pedindo uma economia verde, limpa e com poucas emissões de carbone, listando 20 medidas para assegurar uma urbanização responsável, acelerar a “decarbonização” e aderir de vez ao crescimento sustentável.

Paris projetando um futuro dinâmico, acolhedor e verde

A agonia dos centros urbanos não começou com a pandemia. Os shopping centers das periferias bem como o e-comércio já estão esvaziando as ruas há anos. A crise do Covid acelerou o movimento mas provocou também uma maior conscientização e muitas vezes uma forte mobilização dos profissionais. No Canadá, foi publicado o relatório Devolvendo a rua principal que apresenta ações para dinamizar o coração das grandes cidades.  No Québec, uma outra iniciativa junta apresentações de projetos de cidades com centros renovados, dinâmicos, motores da  economia turística, onde cultura e gastronomia são autênticos e vibrantes, onde os moradores são felizes, orgulhosos de viver e de receber os turistas.

O Québec investindo em “rues conviviales” para renovar os centros urbanos

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Claudine Barry na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

O novo Puy du Fou, lazer e cultura num parque genuinamente espanhol

O Puy du Fou levando a sua fé para Toledo

No próximo dia 27 de março, perto de Toledo, nos montes dominando o rio Tejo, os visitantes poderão viajar no tempo e reviver algumas das lendas e das glórias da história espanhola. A menos de uma hora de Madri, dois anos depois da abertura do espetacular e já famoso show noturno « El Sueño de Toledo », o Puy du Fou Espanha amplia suas instalações com a abertura de mais de 30 hectares de cultura e natureza, a inauguração de quatro aldeias combinando restaurantes, artesanatos e ateliês de artistas, bem como o lançamento de novos espetáculos.

Em Burgos, a estatua do Cid Campeador

Famílias de moradores e de turistas poderão mergulhar durante o dia em quatro das grandes epopéias que construíram a Espanha:

    • El Ultimo Cantar : um espetáculo épico e emocionante sobre a vida do Cid Campeador, o herói cujos amores com a Ximena e vitórias militares contre os mouros até depois de morto inspiraram cavalheiros e escritores durante séculos.
    • A Pluma y Espada : uma aventura emocionante inspirada das façanhas de Lope de Vega, imenso escritor espanhol do século XVI, que não somente teve uma contribuição impressionante a literatura mundial, mais ainda foi um ator importante da vida política e militar do Reinado.
    • Cetrería de Reyes : uma batalha aérea entre o Calife e um cavalheiro de Castille, unidos pela paixão dos pássaros e da falcoaria. Centenas de aves de rapina caíam do céu para desenhar entre os dois amigos e a cabeça dos espectadores um surpreendente balé.
    • Allende la Mar Oceana : a bordo da Santa Maria, os espectadores segue a odisséia autoritária e incerta de Cristóvão Colombo, saindo de Palos para Cipangó até chegar em Guanahani/São Salvador.

El Arrabal é uma das quatro aldeias do Parque

Quatro aldeias reconstruídas servem de palco para os espetáculos, e abrigam lojas, restaurantes ou galerias de arte.

    • L’Arrabal : Em frente a Puerta del Sol, perto das muralhas, os feirantes oferecem churrascos e mercadorias em um mercado medieval festejando a gastronomia espanhola .
    • La Puebla Real : Colado no « Castillo de Vivar », o castelo do espetáculo « El Ultimo Cantar », esse vilarejo do século XIII têm ruas estreitas e uma praça central onde os artesãos mostram os seus talentos.
    • La Venta de Isidro : Nesse fazenda do século XVIII, lavradores criam seus animais, cultivam seus legumes e preparam queijos que os visitantes podem saborear.
    • El Askar Andalusí : Em volta do espetáculo « Cetrería de Reyes », os Mouros instalaram seu acampamento, com barracas coloridas servindo de lojas de artesanato ou de restaurantes.

El Sueno de Toledo já foi visto por 120.000 visitantes

A noite, « El Sueño de Toledo », segue sua trajetória de sucesso. Mais de 120.000 espectadores já assistiram a essa reconstituição de grandes momentos da história da Espanha, através de personagens como o rei Al-Mamoun, a rainha Isabela, o imperador Carlos V, ou de grandes eventos como as Navas de Tolosa, a descoberta da América ou a chegada do trem. Inspirado dos 43 anos da experiência criativa do seu irmão da Vendée, o Puy du Fou Espanha soube virar um parque de cultura e de lazer genuinamente espanhol.  Impactando a economia local com um investimento de EUR 242 milhões e com 687 empregos, os dirigentes franceses e espanhóis acreditam no sucesso desse modelo original, com previsões de um milhão de visitantes em 2021, um e meio em 2025 e dois milhões em 2028. Uma visão e um otimismo que o turismo precisa.

Jean-Philippe Pérol