Oslo mostra uma “contra-campanha” inovadora

Navio ou iceberg, o surpeendente Opera de Oslo

Enquanto o overturismo está monopolizando as mídias da Europa e dos Estados Unidos, paralisando a comunicação e a criatividade de muitos grandes destinos,  VisitOslo, organização encarregada do marketing da capital da Noruega, lançou uma (contra) campanha original pedindo para “ser honestos e não vir para cidade”.  Com um humor muito escandinavo e uma humildade bem calculada, um morador desiludido aparece num clip publicitário arriscado, para mostrar sem convicção as belezas naturais, o dinamismo cultural, a tranquilidade social e a simplicidade humana de Oslo que “nem parece ser uma cidade”.

Obra da agÊncia norueguesa NewsLab, a campanha teve um sucesso imediato nas mídias sociais, com 250.000 likes e 1,5 milhão de visualizações no TikTok,  70.000 likes, 1,2 milhão de visualizações na Instagram, e 6 milhões de visualizações na X (ex Twitter). VisitOslo conseguiu surpreender (e convencer) seu público com um jovem de 31 anos chamado Halfdan, o anti-herói da campanha,  falando com um tom amargo, sarcástico e até cínico. Ele finge desanimar os visitantes mostrando justamente os charmes da sua cidade natal, suas experiências autênticas e seu tamanho humano.

O Rio Akerselva traga a natureza dentro da cidade

Entrar num museu sem fazer fila durante algumas horas, encontrar um restaurante mesmo sem reservas e de última hora, tomar banho de mar no centro da cidade, cruzar durante uma caminhada na rua com o  primeiro ministro ou até o Rei: tudo parece possível, acessível e fácil. Mas Halfdan se queixa desta tranquilidade, achando incrível que atravessar a pé Tigerstaden (o outro nome de Oslo)  não leva mais de meia hora, uma façanha impossível de realizar em Istambul,  Nova Iorque ou Paris. Com este personagem antipático, VisitOslo quer convencer uma outra categoria de viajantes, aqueles que procuram autenticidade e encontros em destinos fora das rotas do overturismo.

O Grito  é o grande acervo do Museu Munch

August Jorfald, cenarista e realizador da campanha publicitária, falou numa entrevista com a BBC que a ideia deste clipe surgiu quando, de volta de uma viagem para Paris, percebeu que a sua estadia tinha sido um sucesso porque não tinha visto a Torre Eiffel.  August acha que as experiências marcantes são aquelas que não são feitas para os turistas. Nada de Disney World, ele tem preferencia momentos inesperados, sentar numa mesa com um desconhecido ou beber um vinho bom num copo comum. E mesmo quando se trata de arte, o Halfdan privilegia a simplicidade. Frente ao Grito do norueguês Edvard Munch, com o plano de fundo do fiorde de Oslo, ele ainda declara: “Não é mesmo a Mona Lisa” .

Nos restaurantes animadas, turistas e moradores se encontram

Nas mídias sociais, os internautas adoraram a campanha, elogiando o tom diferente e a simplicidade da mensagem. Na hora de uma procura cada vez maior pelos destinos menos ameaçados pelo aquecimento global, as viagens chamadas “coolcations”, neologismo americano de cool com vacations), a Noruega deve assim acelerar o impulso dado a seu turismo international. Muito impactado pela pandemia,  quando perdeu 75% dos seus 6 milhões de visitantes, o pais já vai passar de 8 milhões esse ano,  apostando num turismo de qualidade e sem medo do overturismo.

Amsterdã seguindo sua luta contra o overturismo, a qual custo?

Amsterdã quer reduzir a 20 milhões o número de turistas

Tendo sido pioneira na luta contra o overturismo desde 2016, quando anunciou que nada mais devia ser feito para atrair visitantes, Amsterdã voltou a lembrar que a prioridade da cidade era de ser um espaço para os moradores viver e trabalhar. As decisões anteriores – regulação dos cruzeiros, restrição a compra de maconha, projetos de mudança do distrito vermelho, limitação das autorizações de abertura de novos hotéis – não impedindo a volta de turistas e os conflitos com os moradores, a prefeitura decidiu ser mais rigorosa. Foi assim definido um teto anual de 20 milhões de visitantes (abaixo das 20,665 milhões registradas em 2023, e muita abaixo das 25,2 milhões atingidos em 2019, antes da pandemia).

O abertura do Rosewood não deveria ser impactada pelas novas regras hoteleiras

Para atingir esse objetivo decidido com os proprios moradores, foram anunciadas novas medidas referente a hotelaria, e aos cruzeiros fluviais. A construção  de novos hotéis estará agora proibida, a não ser que seja em substituição ao fechamento de um hotel antigo, o numero de quartos não podendo ser aumentado. As autorizações serão submetidas a melhoria de qualidade, de modernidade e de sustentabilidade do estabelecimento, e a preferencia será dada à localizações na periferia. Para não prejudicar os projetos já adiantados – 26 estão em fase de aprovação ou de realização, incluindo um muito esperado Rosewood de 134 quartos -, eles poderão por enquanto ser finalizados.

A prefeitura vai reduzir de 50% o número de cruzeiros fluviais

Varias medidas tinham sido tomadas o ano passado para proibir o acesso dos cruzeiros marítimos ao terminal do centro da cidade. Mas frente ao sucesso dos cruzeiros fluviais, um turismo que seduz cada vez mais os consumidores e que cresceu de forma excepcional nos últimos 12 anos, passando de 1.327 barcos em 2011 para 2.125 no ano passado, mais de 540.000 cruzeiristas que obrigaram a prefeitura a tomar novas providencias. Amsterdã vai assim reduzir pela metade o número de barcos autorizados a atracar. Frente as reclamações dos profissionais do setor que denunciaram as perdas financeiras, essa redução será realizada de forma progressiva até chegar ao objetivo de 1.150 em 2028.

A vontade da prefeitura de reduzir o overturismo para melhorar a qualidade de vida dos moradores e dos proprios visitantes vai também levar a outras ações. Mudanças importantes devem ser anunciadas sobre o projeto de deslocalização do bairro da Luz Vermelha e as campanhas promocionais para afastar os turistas indesejáveis podem ser reiniciadas. Lançadas em 2023 no mercado inglês, essas campanhas não tiveram os resultados esperados. Focando jovens ingleses de 18 a 35 anos atraídos pelas bebidas, a droga e o sexo, com a clara mensagem Stay Away ,  as 3,3 milhões de leituras não tiveram o impacto esperado. A campanha deve então ser reiniciada e mesmo reforçada.

A imagem jovem e festeira de Amsterdã será atingida pela nova politica

Aparentemente popular, essa luta pioneira contre o overturismo deixa porem varias perguntas em aberto. A primeira é o seu impacto econômico. Baixar de 25 a 20 milhões de visitantes vai representar para Amsterdã um prejuízo de quase um bilhão de euros, bloquear novos hotéis e reduzir os cruzeiros vai levar a uma perda de milhares de empregos. A imagem jovem, festiva, democrática e livre desta “Veneza do Norte” sera também impactada alem dos viajantes indesejáveis focados na campanha.  A indispensável luta contre o overturismo deve ainda achar novas ideias para combinar sustentabilidade e desenvolvimento, no respeito e no acesso de todos aos grandes valores do turismo.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Chegou a hora do “demarketing”?

O caminho Inca que leva somente 500 pax por dia para Machu Picchu

Mais de 1,4 bilhões de turistas viajaram pelo mundo em 2018, e, segundo a Oraganização Mundial do Turismo, serão 1,8 bilhão em 2030. Um crescimento que apavora muitos destinos, seja porque não possuíam as infraestruturas necessárias, seja porque os moradores já acham viver uma situação de overturismo. Para alguns especialistas, chegou a hora do “demarketing”, esse conceito inventado em 1971 por Philip Kotler e Sidney Levy que afirmavam que as superabundâncias podem ser tão problemáticas quanto as penúrias. Esses dois pesquisadores definiram então o demarketing com uma especialidade do marketing visando a desanimar os clientes – ou alguns segmentos- de consumir temporariamente ou definitivamente um produto ou um serviço. Já muito utilizado em setores como o cigarro, o álcool, ou o jogo, a demarketing chegou ao turismo.

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As famosas letras, agora deslocadas, do painel I am-sterdam

As estratégias de de-crescimento do demarketing seguem as mesmas receitas que o marketing tradicional e os “4P” (promoção, praça, produto e preço).  Num território que não consegue mais administrar os fluxos de visitantes e cujos atrativos estão saturados, a primeira sugestão  é de reduzir ou até de parar qualquer tipo de promoção. Isso foi experimento há pouco pela Holanda cujo órgão oficial de turismo decidiu que concentraria seus esforços na gestão dos destinos e não na promoção. Só serão agora promovidas em nível internacional as regiões desconhecidas, uma decisão que vem depois de outras como a promoção exclusiva da baixa estação, a relocalização das famosas letras « I am-sterdam » e a sensibilização dos turistas aos comportamentos inconvenientes.

Source de la vidéo : YouTube

O demarketing pode também ajudar algumas praças ou alguns lugares que sofrem de overturismo e onde o meio ambiente é ameaçado. Foi assim que o famoso Vale de Jackson Hole, no Wyoming, pede aos visitantes de não indicar as coordenadas exatas das suas fotos mais atraentes e de utilizar uma localização genérica. Nas Filipinas, o sítio de Puerto Princesa, tombado pela UNESCO, retirou os lugares mais frágeis dos roteiros e dos mapas produzidos pelo Ministério do turismo.  Uma outra estratégia mais conhecida de demarketing é a imposição de cotas de visitantes, uma medida já existindo há anos nas trilhas do caminho inca em Machu Picchu, hoje utilizada por vários destinos como o Parque nacional da Península Bruce, no Ontário ( Canada). E a cobrança ou o aumento de tarifas, tradicionalmente exclusivo dos lugares privados, está hoje cada vez mais comum em áreas públicas.

Com menos entradas de turistas, a França reforça sua escolha pelo “melhor turismo”

O demarketing pode certamente ser uma opção para gerenciar os fluxos nem sempre controlados. É, porém, uma solução de desespero, e as receitas perdidas podem faltar a economia local. Antes de chegar a essa solução radical, uma boa planificação dos fluxos de visitantes pode ser suficiente para antecipar as consequências do sucesso de um destino. Foi a estratégia escolhida na França há duas décadas, quando a então Maison de la France lembrava que o “melhor turismo” deveria  prevalecer sobre o “mais turismo”. A prioridade  não era de aumentar os fluxos, mas de melhorar as receitas com visitantes gastando mais, vindo durante as baixas temporadas, visitando lugares esquecidos pelo turismo de massa e escolhendo atividades com forte valor agregado.  Hoje, em tempo de overturismo, o “melhor turismo” pode ainda ser a opção antes da difícil escolha da hora do demarketing.

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Anne-Julie Dubois na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat