Nas tendências da era pós Covid, a Escócia aposta numa retomada sustentável

A retomada do turismo não se percebe somente nos pedidos e nas reservas que estão se acelerando nas agências e nas operadoras, mas também nas campanhas de promoção que os destinos mais dinâmicos já estão desenvolvendo nos seus mercados emissores. Muitas mensagens divulgadas no inicio da crise eram de cautela – “Nos vemos logo” do México, “A España espera”, “Stay home” da Eslovénia, “Fica em casa” do Equador, “É tempo de parar” do Portugal -. Outros destinos apostavam na esperança ou no sonho – o Peru com “Saúde, sonho e depois viagem”, ou a Suíça com “Sonhe agora e viagem mais tarde”-.

Agora estão começando as campanhas da era pós Covid, com o objetivo direto de incentivar as viagens e de  apoiar os profissionais. É hora de valorizar as novas tendências, de ir direto ao essencial – a França fala assim de #Whatreallymatters”, “O que importa mesmo”. Para os marqueteiros e os comunicantes, é preciso sensibilizar o viajante com a nova normalidade sanitária e ecológica, e ao mesmo tempo comunicar para ele a certeza que essa nova normalidade não vai lhe prejudicar, e vai deixar o turismo trazer alegria, prazer, bem estar e convivialidade social.

Uma das campanhas mais marcantes foi agora lançada pela Visit Scotland para revigorar o seu turismo, antes da crise um setor de 11,5 bilhões de libras de receitas e cerca de 9% dos empregos escoceses, hoje completamente arrasado. “Now is your time” (“Agora é seu momento “) destaca o turismo responsável, com novos lugares para explorar e atrações já plebiscitadas, e mais ainda com novas atitudes para aceitar. Focando no mercado britânico, prevista para toda temporada, a campanha vai ser declinada para cinco tipos de atividades, desde o turismo de proximidade até os “short breaks”, as reuniões de familia, o turismo de aventuras e o bem estar.

Para que a retomada seja conforme a seus objetivos de segurança e sustentabilidade, Visit Scotland publicou três videos incentivando os turistas a viajar de forma responsável. Varias informações e dicas são também disponíveis no site Web  para ajudar os visitantes a proteger os ecosistemas e a valorizar o patrimônio natural e humano. Um foco especial é feito para o camping – de motorhome ou de barracas-, com recomendações para fazer suas reservas, organizar o seu itinerário, respeitar a fauna e a flora, e aproveitar os contatos com os moradores e as comunidades locais respeitando o Scottish Outdoor Access Code.

Valorizando as boas práticas e os novos protocolos, a campanha “Now is your time” corresponde perfeitamente a nova normalidade que chegou para ficar tanto para os viajantes que para os profissionais. O turismo vai ter que se adaptar a novas práticas sociais, novos comportamentos, mais transparência, mais proteção e mais responsabilidade. Na hora de um turismo mais intenso e mais seletivo, a Visit Scotland  quer agora assegurar a visibilidade e a notoriedade da Escócia comunicando sobre essas novas tendências. “Now is Scotland time?”

Este artigo adaptado de um artigo original de Fanny Beaulieu Cormier na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

Turismo na Amazônia é mesmo para crianças?

Árvores gigantes, igapós, mistérios e perigos no imaginário amazônico

“- Vão viajar nesse feriado?

– Vamos sim, viagem de barco com a nossa filha!

– Que bom! E vão para onde?

– Vamos para Amazônia.

– Com criança??? Mas é um perigo, tantos insetos, bichos, calor… E de barco ainda! Nem pensar!”

Entrosamento, compreensão e diversidade ajudam o sucesso da expedição

Quantas vezes ouvimos esses comentários falando com amigos sobre as maravilhosas viagens que podem ser organizadas no Rio Negro ou no Tapajós! Comentários tão distantes de uma realidade acolhedora, vibrante e instrutiva quando se tratar de viagens bem preparadas com profissionais da região. E quantas crianças voltaram de lá com experiências de natureza e de vida inesquecíveis depois de aproveitar as praias e as águas, de passear nas matas, de ver pássaros, macacos ou jacarés e de ter emocionantes momentos de compartilhamentos com outras crianças brasileiras nas comunidades caboclas ou indígenas.

O Jacaré Açú pronto para zarpar do Mirante do Gavião

Para uma menina de 5 anos na hora de zarpar do Mirante do Gavião em Nova Airão, a instalação no barco Jacaré Açu ,traz os primeiros momentos de deslumbramento. Na cabine, com sua cama dupla, sua janela panorâmica, suas paredes de madeira bruta e seu kit de bem-vinda, a preocupação sanitária combina com a promoção do artesanato da região. Na sala de jantar, com uma grande cesta cheias de balas, de chocolates e de pirulitos. No salão de jogo um imenso sofá e um telão de televisão parecem esperar a criançada. No deck é possível correr  da popa para proa, ou de bombordo a estibordo para encontrar as mais bonitas vistas sobre a cidade, o Rio Negro ou as Anavilhanas.

O bicho pau fascina pela sua fragilidade

Na primeira parada está sendo construído o hotel Madadá e os quatro quilômetros da trilha das Cavernas são o primeiro teste. As crianças fazem questão de não serem carregadas, e seguem com atenção às instruções de segurança: não tocar em nada, não sair da trilha, não fazer barulho e sempre andar perto de um adulto. Cada uma das grutas é uma descoberta e os morcegos sobrevoando o grupo só assustam alguns adultos. Se a falta de concentração é difícil para eles na procura de macacos na copa das árvores, os  pequenos são muito interessados pelas formigas, caranguejeiras, borboletas, bicho-paú ou lagartas, mais fácil de observar durante todo o percurso.

A magia do contato com os animais

Subindo o Rio Jauaperí, a vida selvagem não falta. Botos tucuxis ou cor de rosa  são visto desde o deck, os passeios nos igapós são ocasiões de ver macacos-prego ou macacos-aranha, tucános, araras, papagaios e gaviões. À noite jacarés e bacuraus são momentos de emoção, bem como os gritos dos guaribas, dos sapos e das ariranhas. Com a tranquilidade trazida pela experiência dos guias de selva e a proximidade dos pais, a curiosidade das crianças supera muito o possível medo. Assim, durante a única noite num acampamento montado na selva do Rio Xixuaú, escuta-se uma criança deitada na rede perguntando para o pai: “Papai, vamos pegar a lanterna e ir na mata procurar uma onça?”….

As delicias de um banho seguro nas águas do Rio Negro

Quentes, tranquilas, com muito areia e poucos bichos, as águas negras são perfeitas para nadar e mergulhar. Se as praias brancas, virgens e infinitas só aparecem a partir de agosto tanto no Rio Negro que no Jauaperí, é possível tomar banho o ano inteiro com as devidas precauções, escolhendo no rio principal ou nos igarapés, um lugar livre de galhos submersos, de lodo, de capim ou da presença de animais. Pulando do deck ou agarrados numa boia, nadando ou remando numa canoa, os rios amazônicos trazem às crianças e às famílias muitos momentos de alegria.

O intercãmbio com as comunidades é uma experiência única

Para crianças e adultos as maiores emoções numa viagem para Amazonia são os encontros. Tendo viajado com a mãe no mundo inteiro, a filha de uma das maiores figuras do trade brasileiro fala ainda dez anos depois dos momentos passados se pintando de urucú com uma menina que a levou na sua casa de palafitas: “foi a melhor experiencia de viagem da minha vida”. Brincando com crianças nas comunidades visitadas – essa vez de Xiparinã-,  conhecendo as suas moradias e modo de viver, compartilhando jogos ou atividades, a pequena viajante levou para São Paulo não somente emoções e alegrias, mas também uma visão muito melhor da realidade e do futuro do Brasil. Sim, turismo na Amazônia é mesmo para crianças.

Jean-Philippe Pérol

Olhar juntos as águas do Rio Negro ou do Tapajos, sempre um grande momento para pais e filhos

Na França, turismo e confinamento nos tempos de pandemia …

Para cada viajante, um decreto de confinamento com copias para desembargadores e juizes

Viajar é preciso, e mesmo como as restrições legitimamente impostas pela luta contre o Covid, alguns turistas estão se arriscando. Do Brasil, é assim possível ir nos Estados Unidos, se aceitar passar 14 dias de quarentena num destino aberto – o México por exemplo-, ou na França, se tiver um passaporte europeu  e aceitar passar 10 dias de confinamento na chegada. Aproveitando o fato que a Air France (quase) sempre manteve os seus voos para Paris, e já tendo recuado duas vezes a nossa viagem, decidimos de fazer essa experiência de turismo em família em tempo de pandemia, um roadtrip incluindo a Auvergne, a Borgonha, o Vale do Loire e Paris.

A Air France assegurando a ligação França-Brasil

A viagem começa bem – o pessoal de bordo da Air France fazendo o máximo de esforço para tirar o estresse dos poucos passageiros, até a chegada em Paris e o começo das dificuldades. Vindo do Brasil, os viajantes são colocados em longas filas, da polícia, do registro do lugar de confinamento, do teste PCR (brasileiros, franceses, indianos e sul africanos, negativos e positivos, bem juntinhos). E depois de duas horas e meio (para os primeiros, os últimos levaram mais de quatro horas), conseguimos sair com o imponente decreto de confinamento assinado pelo “Prefet” de policia de Paris, com cópia para dois desembargadores e dois presidentes de tribunais regionais.

Auzances, lugar escolhido para nosso confinamento

Com obrigação de ir diretamente para o lugar de confinamento, corremos na Hertz e saímos logo para a nossa casa da família, 350 quilômetros a fazer sem poder parar para respeitar o confinamento. Contornando Paris, o nosso itinerário nos leva até Orléans, atravessa o Rio Loire (sem ver os castelos) , e segue depois o vale do Rio Cher (o mesmo que passa em Chenonceaux), Bourges, a floresta de Tronçay com seus carvalhos pluri centenários, Montluçon e as últimas curvas atravessando as antigas minas de ouro. Com medo das multas de 1000 Euros para quem furar o confinamento e de 135 Euros para quem furar o toque de recolher, chegamos até adiantado no nosso destino, Auzances.

O impressionante empenho da PM local vigiando os confinados

Começou então a rotina do confinamento. Correr de manhã para aproveitar as duas horas (das 10:00 as 12:00) disponíveis para fazer as compras ou passear em um raio de um quilômetro, decisões dos sábios dos 27 comitês que administram na França a luta contre o Covid.  Descobrir logo a eficiência da PM que apareceu de manhã cedo para ter certeza que estávamos em casa, e do ministério da saude que ligou três vezes perguntando se eu era eu, e se minha esposa era minha esposa ….  pensei que era uma piada e perguntei para o atendente, mas era colombiano e não falava bem francês, só resolvemos falando em espanhol para a família ser checada e liberada.

Brinquedos no supermercados, nem pensar!

Confinamento é rotina, mas também confronto com a burocracia. Correndo para o supermercado, descobrimos que era possível comprar comida mas não eletrodomésticos, livros mas não brinquedos, e meias de crianças mas somente até dois anos. As sementes eram proibidas se for para plantar, mas liberadas para dar para seu canário. Não podia entrar em loja de móveis, mas fazendo a encomenda na hora pela internet, podia retirar o que for precisa. Nosso carro da Hertz pifou, mandaram o reboque mas para ser substituído era necessário buscar o novo a uma distancia de 60 quilômetros, sendo necessária então uma autorização excepcional que ninguém era competente para dar.

Mesmo a 1 km de casa, o campo é lindo mesmo

Estar trancado na casa de família tem seus momentos de alegria. É possível receber parentes ou amigos, até seis de uma vez e com máscaras, e a condição que o encontro não dure mais de quatro horas. É também a ocasião de novos encontros, por exemplo os PM da cidade vizinha que viram dar apoio a seus colegas daqui provavelmente cansados de passar quase todo dia sem deixar nem uma multa. E de reencontros, por exemplo uma velha amiga de infância, hoje enfermeira, que passou para recolher o material para nosso terceiro teste PCR em 10 dias – nenhuma exceção sendo prevista para os vacinados. E mesmo nos limites de um quilômetro, o campo da minha terra é lindo mesmo.

A lareira de casa, um lugar perfeito para viver um confinamento

Mas esse confinamento é mesmo cheio de emoção e raízes, um tempo para abraçar parentes, reforçar amizades, medir o carinho dos moradores e até da prefeita, jogar bola com minha filha na frente da igreja, ou olhar com minha esposa a fogueira na grande lareira que esquenta a casa desde o século XVI. No décimo dia de isolamento, depois de mais uma ligação do ministério da saúde, e esperando o último controle da PM, pensamos que finalmente  foi o justo preço a pagar para seguir o nosso roteiro para os vinhedos da Borgonha em  Beaune e Dijon, o SPA das Sources de Cheverny, e as novidades Parisienses, o Hotel de la Marine e a Bourse du Commerce. Viajar é preciso, mesmo nos tempos de pandemia.

Jean-Philippe Pérol

 

No castelo de Thoiry, nobreza e criatividade até no zoológico

A magia do solstício de verão no castelo de Thoiry

Ser o herdeiro de um castelo é um sonho que fascina, mas pode virar uma grande dor de cabeça quando a sua manutenção chega a custar centenas de milhares de euros . Foi assim para o Conde Paul de la Panouse, que teve em 1965, aos 21 anos, que encontrar meios de financiar o castelo de Thoiry, pertencendo a sua família há 400 anos. Começou recebendo visitantes, mas teve en seguido a ideia de aproveitar o parque de 40 hectares para abrir um zoológico. Com a ajuda de um amigo diretor de circo, arrumou os espaços, comprou um elefante, alguns ursos e duzentos animais vindo da África. Em maio de 1968, enquanto os estudantes parisienses construíam suas barricadas, os primeiros turistas descobriam a “Reserva africana de Thoiry”.

Os ursos são a grande atração das noites nas tocas

O impressionante sucesso – 500.000 visitantes em 2019 para encontrar os 750 animais espalhados em 400 hectares -, é sem dúvidas o fruto das inovações que o Conde e sua esposa, Anabelle, sempre trouxeram para o parque: jantar dos leões,  abertura no inverno, caminhão-seva, festival das luzes selvagens, túnel dos tigres, tirolesa dos leões, Safari Air Park, ou Wild Forest. Essa criatividade não parou com a crise. Procurando experiências exclusivas, Thoiry está programando a abertura en maio das “tocas de Thoiry”, vinte bangalós, palafitas escondidas onde os hóspedes poderão deitar olhando a vida noturna dos ursos e dos bisões, e serão acordados pelos rugidos dos leões, os berros dos elefantes ou os uivos dos lobos em liberdade.

Os bangalós são simples, sem calefação ou ar condicionado mas com cama king size e banheiro completo, e janelas especiais para poder observar os animais com a devida discrição. Reservar uma toca dá também direito a uma programação privilegiada. O visitante é recebido por um guia que entrega o equipamento  de sobrevivência, lanternas, binóculos, aparelhos de visão noturna necessários para aproximar-se dos animais. Depois de uma visita exclusiva do parque, é hora do churrasco e, de volta no bangaló, de aproveitar o concerto mágico dos gritos e barulhos próprios a cada espécie presente no zoológico.  E acordando cedo, é possível ainda de aproveitar para se despedir dos seus animais favoritos antes da abertura aos outros visitantes.

História e genealogia, as outras paixões do Conde de la Panouse

Se o sucesso de Thoiry veio pelo parque, não se deve esquecer o castelo, ainda habitado pela família. Construído a partir de 1559, suas dimensões seguem o numéro de ouro utilizado nas pirâmides, en harmonia com os ciclos solares , a sala central marcando os solstícios de inverno e de verão. Tendo ficado na mesma familia desde 1612, Thoiry abriga uma excepcional coleção de arquivos que Paul de la Panouse mostra com muito orgulho. São milhares de documentos lembrando uma impressionante genealogia, onde constam o rei Luis XV, um deputado da Revolução e um calife de Cordoba , bem como milhares de livros alimentado sua paixão pela leitura. A sua segunda paixão talvez, sendo a primeira esse excepcional parque que ele construi com ousadia e criatividade, e onde ele gosta de caminhar olhando os animais, conversando com uma familia e até servindo como guia de um grupo de visitantes que terão vivido uma excepcional experiência.

Jean-Philippe Pérol

Castelo, parque -e nobreza- são um assunto de familia juntando o Conde, sua esposa Annabelle, e a nova geração agora no comando

Não faltam hospedes brasileiros no parque!

Capivara com filhote

Tamanduá bandeira

Mico leão

De Alter do Chão a São Paulo, , um desafiador “roadtrip” brasileiro

Os encontros inesperados da Transpantaneira

Na hora das viagens domésticos, do ecoturismo e do turismo transformacional, os “roadtrips” estão virando uma das novas tendências do turismo brasileiro. Enquanto os destinos internacionais demoram para se abrir, e que viajantes cautelosos querem fugir das aglomerações, das praias ou dos destinos  superlotados, é tempo de (re)lembrar que o Brasil têm estradas surpreendentes, hotéis e pousadas de qualidade espalhados em lugares inesperados, gentes acolhedores, roteiros infinitos, e belezas as vezes desconhecidas nos seus 74 parques naturais. E, num pais continente, porque não apostar que a BR163 ou a BR364 podem um dia virar tão famosas que a Road66 estado-unidense?

Na estrada de piçarra para Fordlândia

Mesmo para quem tem experiências amazônicas na Belem Brasília, na Manaus Porto Velho e na Macapá Caiena, uma viagem de carro em família de Santarem para São Paulo é um grande desafio.  Nessa área do Brasil muito falada e pouco conhecida, é melhor reconhecer o caminho antes de iniciar a viagem. Saindo de Alter do Chão com esposa e filha de cinco anos, a rota já efetuada sozinho na ida a semana anterior ajudou a  definir as grandes etapas bem como as atrações e os hotéis. Pela atratividade, a qualidade da hospedagem, e as distancias a percorrer, foram escolhidos Fordlândia, a Cachoeira do Curuá, o Pantanal mato grossense (para passar o Reveillon) e o Parque Nacional das Emas.

Em Fordlândia, as marcas do fracasso de Henry Ford

A 320 km de Alter do Chão (45km sendo de terra), Fordlândia carrega a memória do grande fracasso do Henry Ford.  Seu projeto era não somente a produção de borracha, mas também a implantação na Amazônia de uma cidade ideal desenhada nos Estados Unidos. Alem das lagartas e dos fungos que acabaram com as seringueiras, a incapacidade de entender as condições naturais e humanas da região explicam porque Ford mudou para Belterra a partir de 1934 e se retirou em 1945. Hoje o viajante é surpreso pela pequena vila, erroneamente chamada de cidade fantasma, suas casas, seus comércios, seu restaurante e suas pousadas. A emoção é mesmo marcante nos cais do Rio Tapajos, nos galpões de vidros quebrados, na famosa caixa d’agua, nas mansões abandonadas surgidas do Middle West americano, ou nas duas igrejas católica e presbiteriana.

No Curuá, três cachoeiras de até 90 metros de altura

Deixando os sonhos de Ford, o “roadtrip” segue um pequeno trecho na Transamazônica, parte da qual de piçarra, antes de voltar para BR163 cruzando os caminhões que levem a soja para Santarem. O desmatamento, até então de um lado só para respeitar a Floresta nacional do Tapajos, se extende agora dos dois lados do irregular asfalto da estrada, em maioria para criações de gado. Com poucas planícies, muitos igarapés e mata ainda presente, as paisagens seguem ainda muito amazônicos, pelo menos até Novo Progresso. É nessa cidade que começa hoje a transição para o cerrado e o encontro com os povoamentos gauchos e paranaenses que marcam toda a travessia do Mato Grosso. As últimas etapas no Pará, a Fazenda Borbulha e a Cachoeira do Curuá, são dois lugares de belezas naturais e diversões aquáticas já característicos dessa transição.

 

O tuiuiú, o pássaro emblemático do Pantanal

Depois de uma longa etapa marcada pelo impressionante dinamismo da cidade de Sinop e o horizonte infinito das fazendas de soja, o Pantanal mato-grossense era mais um bioma para descobrir nesse roadtrip, com promessa de encontrar os animais que fizeram a fama do ecoturismo local. A 120 km de Cuiabá, a pousada do rio Mutum junta uma perfeito localização com uma boa estrutura e um atendimento perfeito para uma descoberta da região seja de barco, de carro ou a cavalo. Os terríveis incêndios recentes provocaram muitos estragos na vegetação e na vida animal, mas mesmo assim as arvores estão mostrando sua força, e encontra-se capivaras, tamanduás bandeira, jacarés, tatus, macacos, jabutís e numerosos pássaros – incluindo o emblemático tuiuiú. A pousada serve também de hospital veterinário e virou um verdadeiro zoológico com antas, caititus, guaribas, araras, mutuns e papagaios, vários em semi liberdade.

A entrada do Parque nacional das Emas

O caminho para reencontrar a BR364 é um pouco complicado, e a linda MT30 se perde as vezes na imensidão dos campos de soja. Depois da junção, dos dois lados da estrada, o cerrado segue coberto de plantações somente interrompidas pelas paisagens deslumbrantes da Serra da Petrovina onde o viajante parece de repente mergulhar numa “Monument Valley” a brasileira, com seus mirantes de horizonte infinito,  seus morros achatados e seus paredões de terra vermelha. Com imigração recente do sul do Brasil e até do exterior, todas as cidades atravessadas parecem ter nascidas do soja e do milho. Assim é Chapadão do Sul, portão de entrada do Parque nacional das Emas. Mesmo tendo sofrido varias queimadas devastadoras nos últimos anos, o Parque abriga uma importante variedade de espécies endêmicas do cerrado, com emas, veados campeiros e tatus sempre visíveis durante as visitas.

Céu e soja, as duas imensidões do cerrado

Na BR163, na Transamazônica, na BR364 ou na Rodovia Euclides da Cunha, um “roadtrip” é muito mais que uns sucessivos trajetos em estradas de terra ou de asfalto. São emoções frente as paisagens e as belezas naturais que compõem os seis diferentes biomas brasileiros – sendo quatro atravessados nessa viagem. São encontros com os pioneiros que vivem e trabalham em lugares onde se defina o futuro do Brasil, são momentos fortes de intercâmbio com os familiares que participam de uma aventura transformacional que seguirá cada um dos participantes pelo resto da sua vida. Então, prontos para as experiências de um “roadtrip” em família?

Jean Philippe Pérol

Os 3766 km do roadtrip em família

As hospedagens utilizados e/ou recomendados durante essa viagem foram os seguintes:

Nas águas do Tapajos, frente a praia de Alter, um descanso antes de partir por terra

Os guias de turismo são atores chaves do sucesso de algumas visitas:

  • Jean Pierre Schwarz em Alter do Chão e Fordlandia
  • Rose Santos no Parque Nacional das Emas

Encontros com amigos são uns grandes momentos da viagem

Em Novo Progresso, a fotografa Claudia Ross nos recebeu em família e deu as dicas sobre a Fazenda Borbulha e a Cachoeira do Curuá

Além de lua de mel ou de surfe, Tahiti para famílias?

Lua de mel em Bora Bora Foto @marcgerard

Quem sonha em lua de mel coloca Tahiti e suas ilhas, com certeza, como um dos destinos mais procurados do mundo. A beleza das paisagens de  Bora Bora ou Moorea, os tons de azul e a pureza das suas águas, a onipresença dos seus colares ou das suas coroas de flores, e o atendimento sempre carinhoso dos seus moradores criaram a imagem de romantismo desde a chegada dos primeiros europeus  que pensavam ter reencontrado uma nova Citera, a ilha de Vênus. E desde os anos 1960, quando a construção do aeroporto de Papeete abriu a região para o turismo internacional, a maioria dos visitantes que chega na Polinésia francesa são jovens que acabaram de se casar, ou menos jovens de todas as idades, nacionalidades ou comunidades que querem renovar seus votos de amor, combinando uma ocasião especial com um lugar único.

Desafio dos JO 2024, Teahupoo atrai surfistas do mundo inteiro

Nos últimos anos, o Tahiti seduziu porem outros viajantes. Foram com toda lógica aventureiros ou esportistas, mergulhadores procurando as emoções do recifes de corais de Rangiroa ou surfistas atrás das impressionantes ondas de Teahupoo (aquelas que já foram selecionadas para as provas de surfe dos Jogos Olímpicos de Paris 2024). Mais recentemente, apareceram visitantes até então inesperados, famílias com crianças  vindas não somente da França mas também da Europa, da América do norte, da Ásia e até do Brasil. Pertencendo a uma geração acostumado a viajar desde a adolescência, esses novos pais querem continuar a viajar mesmo com filhos pequenos, e escolheram o Tahiti pela tranquilidade, pelas atividades existantes, pelas facilidades de alojamento e ,mais ainda, pela atenção dada às crianças na cultura local.

Não tem idade para começar o caiaque

As crianças de todas as idades amam as areias cor-de-rosa de Tikehau e Rangiroa, brancas de Moorea e Bora Bora, ou até as pretas da ilha de Tahiti, as praias sempre tranquilas sem nenhuma preocupação de overturismo. As águas quentes e muito seguras são uma alegria para eles e uma tranquilidade para os pais. Muitas atividades náuticas podem ser feitas com crianças mesmo pequenas, seja observar baleias (em Tahiti, Rurutu ou Moorea) ou golfinhos (em Tahiti ou Rangiroa), alimentar arraias (em Bora Bora ou Moorea), seja simplesmente  nadar vendo os peixes coloridos em cima dos aquários naturais das lagoas cercadas de arrecifes de corais (Rangiroa, Bora Bora).  Essas atividades bem como todos os passeios de barco respeitam as rígidas normas francesas  de segurança, tendo sempre equipamentos adaptados aos turistas mirins.

Os quartos do Manava têm espaços para todos

Hospedagens e restaurantes deixam as famílias muito à vontade.  Com quartos geralmente espaçosos (não somente nos estabelecimentos de alto luxo, mas também em locais mais em conta como os hotéis Manava do Tahiti ou de Moorea, o Kia Ora de Rangiroa ou o Pearl de Tikehau), os hotéis são bem adaptados – sendo melhor pegar bangalôs na praia que sobre palafitas se as crianças foram muito pequenas. A grande oferta de AirBnb (mais de 300 opções) e as numerosas pensões de família são também opções interessantes se forem bem pesquisadas com um profissional antes de fazer a escolha. E se os pais podem confiar nos serviços de babysitters e aproveitar um jantar romântico a dois, as crianças amarão um piquenique em família num “motu” (por exemplo o Coco Beach de Moorea) ou uma refeição descontraída no ambiente popular das famosas “roulottes”.

Na lagoa de Rangiroa, a caminhada de mãe e filha

A tranquilidade das ilhas e a atenção dada às crianças na cultura local são os mais fortes argumentos para escolher o Tahiti e as suas ilhas como destino de uma viagem em família. Nos hotéis, nos restaurantes ou nas lojas, o pessoal sempre responde com gentileza e eficiência aos pedidos ou as exigências dos pequenos turistas. Os próprios taitianos, grandes consumidores de turismo local, em geral em família, aceitam com muita espontaneidade de enturmá-los seja para correr na areia, pular na piscina, brincar de pega pega perto das “roulottes” ou dividir os brinquedos. E a atenção dada as crianças vira também uma oportunidade  para um papo descontraído com os pais,  uma ocasião de descobrir que o Brasil, nessa região do mundo, continua com um extraordinário capital de simpatia dos moradores de todas as idades.

Jean Philippe Pérol

As areias brancas de Tikehau

 

No Kia Ora, pai e filha experimentando a moda tahitiana

Turismo para família combinando Disney, parques, outlets … e cultura? Paris Ile de France, claro!

Disneyland Paris, primeira atração turística da Europa

As comemorações dos 25 anos da Disneylândia Paris mostraram o sucesso desse empreendimento – hoje a atração turística mais visitada da Europa com 13,4 milhões de entradas -, bem como o impacto que ele teve sobre o turismo francês. O Mickey com sotaque atraiu novos perfis de visitantes e deu um novo impulso não somente nos mercados de proximidade mas também na Ásia e nas Américas. No Brasil, que até então dava para a Flórida a quase exclusividade dos parques de lazer, foram mais de 80.000 viajantes (um crescimento de quase 40%) que descobrirão em 2017 a Disney à francesa. A crescente presença de brasileiros nos grandes parques como Asterix, o Puy du Fou e o Futuroscope, ou nos 250 outros parques  espalhados na região Paris Ile de France e nas outras regiões francesas, mostram que a França é cada vez mais considerada no Brasil como um destino para famílias com crianças grandes ou pequenas.

A Fondation Vuitton, encostada no Jardin d’Acclimatation

Em 2018, a reabertura do saudoso Jardin d’Acclimatation, encostado na Fondation Vuitton e nas florestas urbanas do Bois e Boulogne, vai dar mais um impulso na atratividade da região para o turismo de famílias. O mais antigo parque de Paris, aberto em 1860 pelo Imperador Napoleão III, está sendo completamente renovado e o seu proprietário, o grupo de luxo LVMH, tem a ambição de atrair em breve mais de 2 milhões de visitantes. O projeto inclui a renovação do patrimônio arquitetural herdado do Império, dos estábulos, do pombal, e dos aviários, bem como a valorização das atrações mais queridas dos parisienses –  Trenzinho (aberto em 1878), Rio Encantado (aberto em 1927), ou Casa dos Espelhos. Além das 23 atrações já existentes, 17 serão abertas, todas no mesmo espírito “retro-futurista” inspirado em Jules Verne. Apostando na complementaridade com a Fondation Vuitton, combinando parque e cultura, a LVMH espera atrair turistas internacionais de todas as idades.

Grandes marcas e pequenos preços no outlet La Vallée Village

Não bastassem os parques, a região Paris Ile de France está agora seduzindo as famílias pelas opções de shopping. As medidas tomadas para facilitar as aberturas de loja nos domingos, bem como a simplificação dos procedimentos de reembolso de até 16 % de impostos já agradaram os turistas. A multiplicação dos outlets  foi mais um passo. A França tem hoje 21 “vilarejos de marcas”, sendo oito perto de Paris e três em Troyes, na Champagne vizinha. Os maiores, tais como o One Nation Paris, as Marques Avenues, o Usine Center, ou o Usine Mode et Maison, chegam a juntar lojas de fábricas, lojas de departamentos (inclusive cinco Galeries Lafayette) ou até lojas tradicionais, com preços de liquidações. Pela proximidade da Disney, ou talvez das 190 lojas do shopping Val d’Europe, hospedando 120 marcas francesas e internacionais, o La Vallée Village , que hospede 120 marcas francesas e internacionais, é o mais popular junto aos turistas brasileiros.

Em Vaux le Vicomte, cultura e diversão para toda família

Na concorrência com os grandes destinos de turismo em família curtidos pelos brasileiros, a região de Paris Ile de France tem acima de tudo um trunfo importante, um acervo cultural excepcional que surpreende pelas numerosas ofertas para crianças de todas as idades. Em Paris mesmo, a Cité des Sciences, o Palais de la découverte, o Musée des Arts forains são algumas opções para as famílias, bem como o Museu do Homem, o Museu da Marinha ou o próprio Louvre, se o roteiro escolhido for adaptado – mostrando que a cultura pode também ser atual e divertida. Nos arredores da capital, os mais prestigiosos castelos, incluindo Versalhes, Fontainebleau ou Vaux le Vicomte, oferecem animações ou eventos  para adultos e crianças. Para os turistas brasileiros, que exigem das suas viagens para França uma forte dimensão cultural, será talvez um argumento decisivo para escolher Paris e sua região como o outro destino para famílias juntando parques de lazer, shopping … e cultura.

Jean-Philippe Pérol

Os Etangs de Corot, exemplo de canto escondido de Paris Ile de France