De Alter do Chão a São Paulo, , um desafiador “roadtrip” brasileiro

Os encontros inesperados da Transpantaneira

Na hora das viagens domésticos, do ecoturismo e do turismo transformacional, os “roadtrips” estão virando uma das novas tendências do turismo brasileiro. Enquanto os destinos internacionais demoram para se abrir, e que viajantes cautelosos querem fugir das aglomerações, das praias ou dos destinos  superlotados, é tempo de (re)lembrar que o Brasil têm estradas surpreendentes, hotéis e pousadas de qualidade espalhados em lugares inesperados, gentes acolhedores, roteiros infinitos, e belezas as vezes desconhecidas nos seus 74 parques naturais. E, num pais continente, porque não apostar que a BR163 ou a BR364 podem um dia virar tão famosas que a Road66 estado-unidense?

Na estrada de piçarra para Fordlândia

Mesmo para quem tem experiências amazônicas na Belem Brasília, na Manaus Porto Velho e na Macapá Caiena, uma viagem de carro em família de Santarem para São Paulo é um grande desafio.  Nessa área do Brasil muito falada e pouco conhecida, é melhor reconhecer o caminho antes de iniciar a viagem. Saindo de Alter do Chão com esposa e filha de cinco anos, a rota já efetuada sozinho na ida a semana anterior ajudou a  definir as grandes etapas bem como as atrações e os hotéis. Pela atratividade, a qualidade da hospedagem, e as distancias a percorrer, foram escolhidos Fordlândia, a Cachoeira do Curuá, o Pantanal mato grossense (para passar o Reveillon) e o Parque Nacional das Emas.

Em Fordlândia, as marcas do fracasso de Henry Ford

A 320 km de Alter do Chão (45km sendo de terra), Fordlândia carrega a memória do grande fracasso do Henry Ford.  Seu projeto era não somente a produção de borracha, mas também a implantação na Amazônia de uma cidade ideal desenhada nos Estados Unidos. Alem das lagartas e dos fungos que acabaram com as seringueiras, a incapacidade de entender as condições naturais e humanas da região explicam porque Ford mudou para Belterra a partir de 1934 e se retirou em 1945. Hoje o viajante é surpreso pela pequena vila, erroneamente chamada de cidade fantasma, suas casas, seus comércios, seu restaurante e suas pousadas. A emoção é mesmo marcante nos cais do Rio Tapajos, nos galpões de vidros quebrados, na famosa caixa d’agua, nas mansões abandonadas surgidas do Middle West americano, ou nas duas igrejas católica e presbiteriana.

No Curuá, três cachoeiras de até 90 metros de altura

Deixando os sonhos de Ford, o “roadtrip” segue um pequeno trecho na Transamazônica, parte da qual de piçarra, antes de voltar para BR163 cruzando os caminhões que levem a soja para Santarem. O desmatamento, até então de um lado só para respeitar a Floresta nacional do Tapajos, se extende agora dos dois lados do irregular asfalto da estrada, em maioria para criações de gado. Com poucas planícies, muitos igarapés e mata ainda presente, as paisagens seguem ainda muito amazônicos, pelo menos até Novo Progresso. É nessa cidade que começa hoje a transição para o cerrado e o encontro com os povoamentos gauchos e paranaenses que marcam toda a travessia do Mato Grosso. As últimas etapas no Pará, a Fazenda Borbulha e a Cachoeira do Curuá, são dois lugares de belezas naturais e diversões aquáticas já característicos dessa transição.

 

O tuiuiú, o pássaro emblemático do Pantanal

Depois de uma longa etapa marcada pelo impressionante dinamismo da cidade de Sinop e o horizonte infinito das fazendas de soja, o Pantanal mato-grossense era mais um bioma para descobrir nesse roadtrip, com promessa de encontrar os animais que fizeram a fama do ecoturismo local. A 120 km de Cuiabá, a pousada do rio Mutum junta uma perfeito localização com uma boa estrutura e um atendimento perfeito para uma descoberta da região seja de barco, de carro ou a cavalo. Os terríveis incêndios recentes provocaram muitos estragos na vegetação e na vida animal, mas mesmo assim as arvores estão mostrando sua força, e encontra-se capivaras, tamanduás bandeira, jacarés, tatus, macacos, jabutís e numerosos pássaros – incluindo o emblemático tuiuiú. A pousada serve também de hospital veterinário e virou um verdadeiro zoológico com antas, caititus, guaribas, araras, mutuns e papagaios, vários em semi liberdade.

A entrada do Parque nacional das Emas

O caminho para reencontrar a BR364 é um pouco complicado, e a linda MT30 se perde as vezes na imensidão dos campos de soja. Depois da junção, dos dois lados da estrada, o cerrado segue coberto de plantações somente interrompidas pelas paisagens deslumbrantes da Serra da Petrovina onde o viajante parece de repente mergulhar numa “Monument Valley” a brasileira, com seus mirantes de horizonte infinito,  seus morros achatados e seus paredões de terra vermelha. Com imigração recente do sul do Brasil e até do exterior, todas as cidades atravessadas parecem ter nascidas do soja e do milho. Assim é Chapadão do Sul, portão de entrada do Parque nacional das Emas. Mesmo tendo sofrido varias queimadas devastadoras nos últimos anos, o Parque abriga uma importante variedade de espécies endêmicas do cerrado, com emas, veados campeiros e tatus sempre visíveis durante as visitas.

Céu e soja, as duas imensidões do cerrado

Na BR163, na Transamazônica, na BR364 ou na Rodovia Euclides da Cunha, um “roadtrip” é muito mais que uns sucessivos trajetos em estradas de terra ou de asfalto. São emoções frente as paisagens e as belezas naturais que compõem os seis diferentes biomas brasileiros – sendo quatro atravessados nessa viagem. São encontros com os pioneiros que vivem e trabalham em lugares onde se defina o futuro do Brasil, são momentos fortes de intercâmbio com os familiares que participam de uma aventura transformacional que seguirá cada um dos participantes pelo resto da sua vida. Então, prontos para as experiências de um “roadtrip” em família?

Jean Philippe Pérol

Os 3766 km do roadtrip em família

As hospedagens utilizados e/ou recomendados durante essa viagem foram os seguintes:

Nas águas do Tapajos, frente a praia de Alter, um descanso antes de partir por terra

Os guias de turismo são atores chaves do sucesso de algumas visitas:

  • Jean Pierre Schwarz em Alter do Chão e Fordlandia
  • Rose Santos no Parque Nacional das Emas

Encontros com amigos são uns grandes momentos da viagem

Em Novo Progresso, a fotografa Claudia Ross nos recebeu em família e deu as dicas sobre a Fazenda Borbulha e a Cachoeira do Curuá

Caribe Amazônico: ninguém vai acreditar!

No Rio Tapajós, praias de cair o queixo! Credito imagem Claudia Buss

Alguns anos atrás, querendo mudar a sua imagem carregada dos sofrimentos do famoso “Papillon” imortalizado pelo Steve McQueen, a Guiana Francesa lançou uma campanha cujo lema era “Ninguém vai acreditar”. Os visuais mostravam como era possível, na Amazônia francesa, andar de canoa numa correnteza, caminhar no meio duma imensidão verde, beijar um filhote de jacaré, seguir os passos de uma tartaruga na praia ou dormir olhando para um céu estrelado. Aquém do Oiapoque, seria mesmo possível de pegar o mesmo lema, adicionando ainda muitas experiências que só podem ser vividas nos rios, nas matas, nas praias, nas cidades ou nas comunidades da Amazônia brasileira.

÷ A Guiana francesa  já apostou nas inacreditáveis experiências amazônicas

Na Amazônia brasileira, algumas das mais inacreditáveis experiências podem ser vividas na região de Alter do Chão, nas águas do rio Tapajós e dos seus afluentes, ou nas florestas preservadas – parques naturais, reservas extrativistas, reservas indígenas, ou terras quilombolas –  que tocam as suas margens e seus arredores. A imensidão desses rios é sem dúvida a maior especificidade amazônica, oferecendo a oportunidade de chegar a pontos mais exclusivos, de desfrutar de paisagens mágicos e de chegar as comunidades mais distantes para intercambiar com os moradores sobre a sua cultura, o seu artesanato, a sua culinária ou simplesmente descobrir o modo de vida desse Brasil tão peculiar. 

Batismo no encontro das águas, o grupo em volta das madrinhas do Dolphin . Credito imagem Claudia Buss

Ninguém vai acreditar que nesses rios podem agora encontrar o conforto e até o luxo de dois barcos de turismo, mas é porém a oferta feita pela Amazon Rio Negro em parceria com a Turismo Consciente. O Belle Amazon, há dois anos navegando no Tapajós, ganhou agora uma irmão maior. No dia 2 de Novembro, no encontro das águas azuis do Tapajós e das águas barrentas do Amazonas, as madrinhas Andrea Delfino e Caroline Putnoki batizaram o todo reformado Amazon Dolphin com a tradicional explosão de uma garrafa de Chandon e os aplausos de participantes dentre dos quais o empresário Raimundo Delfino, amigo e compadre, o Laurent Suaudeau, chef e consultor gastronômico, e o Ruy Tone da Turismo Consciente. 

Dá para acreditar? Credito imagem Claudia Buss

O que ninguém mesmo vai acreditar sobre esse Caribe da Amazônia, são as praias exclusivas, de águas translúcidas, azuis ou alaranjadas, mas sempre de areia branca, onde o Amazon Dolphin pode agora levar os visitantes. Para relaxar depois de percorrer uma trilha ou de visitar uma comunidade, para desfrutar do sol e da água quente olhando os seus filhos brincar, ou para tomar um aperitivo servido junto com bolinhos de piracuí ou macaxeira frita, o comandante vai saber escolher o ponto certo para atracar e aproveitar o serviço atencioso e eficiente da equipe de bordo. E, acredite ou não, cada refeição é a ocasião de provar e harmonizar um prato da prestigiosa cozinha paraense, porque não um pato no tucupí com um Pinot noir de Provence?

Jean Philippe Pérol

 

Os 36 metros e as 12 cabines de charme e conforto do Amazon Dolphin Credito imagem Claudia Buss

Lá vem o Click and Boat, o AirBnb dos barcos de lazer?

A barcaça no Rio Sena, primeira sede da Click and Boat

A procura de aluguéis de barcos levou a importantes mudanças no setor, sendo a principal o surgimento da empresa francesa Click and Boat como líder mundial. Fundada  em 2013 pelos empresários Jeremy Bismuth e Edouard Gorioux, a então startup parisiense dispõe hoje de uma frota de 45.000 unidades – barcos, veleiros ou iates-, tem ofertas em 550 portos de 26 países, inclusive no Brasil, e atende agora um milhão de clientes por ano. Se as reservas pararam durante o confinamento, elas estão agora com um crescimento de 60% em relação ao ano passado, e o faturamento deve passar de 50 milhões de Euros em 2019 a 80 milhões este ano.

As compras de concorrentes diversificou a oferta de barcos

No início era uma simples plataforma colaborativa francesa onde os donos podiam oferecer os seus barcos (em geral muito pouco utilizados, na França em torno de 10 dias por ano),e a Click and Boat oferecia a seus parceiros rentabilidade, confiança e segurança.  O sucesso se espalhou pela Europa com a compra de vários concorrentes: Sailsharing em 2016,  Captain’Flit em 2018 , Océans Evasion em 2019 e a alemã Scansail em janeiro desse ano. Foi porém durante a pandemia que foi realizada a maior aquisição, a compra da espanhola Nautal, sediada em Barcelona, com 40 colaboradores, um faturamento de 13 milhões de Euros e uma rede de parceiros internacionais.
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45.000 proprietários já assinaram com a Click and Play

Oferecendo uma experiencia turística misturando privacidade, praias, natureza, ecologia, bem estar, família ou amigos, a Click and Boat antecipa um forte crescimento em 2021, 150 colaboradores, uma oferta chegando a 50.000 barcos e um faturamento passando dos 100 milhões de Euros. A chegada de um novo sócio, o navegador francês François Gabart, a diversificação das bases na Espanha, na Italia, na Grécia, na Croácia ou no Brasil, e o sucesso dos barcos ou iates com tripulação, deixam pensar que as ambições de virar uma verdadeira AirBnb dos barcos de lazer estão ao alcance da outrora pequena startup!
Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo da redação da revista profissional on-line Mister Travel