Um túnel e uma ligação ferroviária atravessando o estreito de Gibraltar?

Em Gibraltar, os últimos canhões ingleses vigiando os últimos macacos, ou vice versa?

Assim com o Eurotunel, o seu precursor interligando a França e a Inglaterra, e antes mesmo de ter a sua construção confirmada, o túnel atravessando o estreito de Gibraltar já tem uma mitologia e uma longa historia. Reatando as duas colunas de Hércules, seguindo por baixo do mar a travessia vitoriosa das tropas do Tarik, lembrando para Espanha (e até para o Portugal) o seu épico passado nas costas marroquinas e ao Marrocos as suas ligações européias, o projeto tinha sido lançado em 1979.  Os reis Juan Carlos e Hassan II assinaram o acordo  no embalo da então candidatura do Marrocos a União europeia, e os primeiros estudos  definiram em 1994  o tipo de obra – o túnel e não uma ponte- bem como o trajeto, a profundidade submarina exigindo um túnel de 38 quilômetros dos quais 27 em baixo do mar, seguindo um itinerário, já imaginado em 1895, entre Tarifa e o cabo Malabata.

Da Andaluzia até a costa tangerina, 35.000 ferrys atravessam o estreito cada ano

O interesse de uma ligação terrestre entre a Espanha e o Marrocos ficou ainda maior com a abertura de negociações para relançar a ferrovia transmagrebina de 2350 quilômetros interligando o Marrocos, a Argélia e a Tunísia, muito ativa até os anos sessenta quando parou em consequência de vários conflitos. Com o apoio da União do Magrebe árabe, e um financiamento de 3,8 bilhões de dólares do Banco Africano de Desenvolvimento, as obras para sua reinauguração deveriam ser realizadas em três etapas: a reabilitação de 363 quilômetros da ferrovia Marrocos Argélia, fechada desde 1994 depois de conflitos políticos entre os dois países, a reabertura de 503 quilômetros da ferrovia Argélia Marrocos, suspensa em 2004 por motivos econômicos, e finalmente a interligação completa  da transmagrebina, incluindo um trecho de alta velocidade de Tanger a Casablanca.

O Marrocos quer fazer de Tanger um destino turístico completo

Interligando duas das maiores potencias turísticas do Mar Mediterrâneo, e dois grandes parceiros econômicos, o túnel tem muitos argumentos a seu favor. Segundo a estatal marroquina encarregada do projeto, os fluxos de passageiros e de carga, hoje de meio milhão de pessoas e de toneladas, poderiam ser multiplicados por 25 até o ano 2050. Os projetos de desenvolvimento econômico da região aproveitariam os novos fluxos vindo tanto da Europa como dos países vizinhos, reforçando a vocação de Tanger como cidade aberto ao mundo , dona de um imenso potencial especialmente turístico. Um projeto capaz, segundo o ex presidente do conselho espanhol José Zapatero, de mudar o futuro da Europa e da África.

Ceuta, um dos conflitos que pode bloquear o projeto

Os obstáculos até a inauguração são porem importantes. São em primeiro lugar as dificuldades técnicas para uma obra passando a quase 200 metros  abaixo do nível do mar, numa região de risco sísmico. São os problemas de financiamento de um projeto ainda não orçado mas que deve custar mais de 15 bilhões de euros que são poderão ser reunidos com um apoio maciço da União Européia e dos grandes bancos mundiais. Os maiores problemas parecem porem ser políticos: rivalidades dos países do Magrebe, conflitos territoriais persistentes em Ceuta, Melila ou Gibraltar, medos europeus da imigração clandestinas, criticas americanas ao trafico de drogas. Num projeto de tamanha importância econômica e geopolítica, terá que ser paciente.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista on-line La Quotidienne

Paloma, da onde sairia o túnel do lado espanhol

Mazagão, do Marrocos ao Amapá, a glória de São Tiago!

MazagãoVisitando no Marrocos a charmosa cidade balneária de Al Jadida, o viajante brasileira fica surpreso em saber que a memoria desse antigo presidio português continua até hoje num recanto do Amapá. A historia começou em 1502 quando os portugueses construíram em Mazagão, no littoral marroquino, um porto fortificado, com poderosas muralhas e cisternas de agua potável, citerne-el-jadida1que desafiou os reis mouros até 1769. Nessa data, o Portugal, enfraquecido depois da destruição de Lisboa, decidiu abandonar a cidade cercada por um imenso exercito. Mas o Marquês de Pombal queria que o extraordinário espírito de luta desse ultimo presidio português continuasse a vingar. Ele  decidiu então transferir as últimas 340 famílias do outro lado do Atlântico para ser os guardiões da margem norte do Rio Amazonas onde ingleses, franceses e holandeses realizavam incursões armadas.

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Depois de duas paradas em Lisboa e Belém, os 2000 sobreviventes chegaram perto de Macapá, e em 1773 Mazagão ressuscitou nas terras tupiniquins. Os colonos reconstruíram a catedral, um teatro, e trouxeram também as suas tradições. IMG-20101227-00067 Assim, desde o ano de 1777, os mazaganenses continuam encenando a batalha de Clavijo, em 844, quando a aparição de São Tiago como um soldado lutando ao lado dos cristãos deu a vitoria para as tropas do Rei Ramiro. Hoje as Festas de São Tiago, as mais antigas desse género no Brasil, correm durante a segunda quinzena de junho. Os traslados da estátua do santo para Macapá e Novo Mazagão (hoje sede do município), a encenação da batalha são momentos de muita emoção, sendo o momento mais esperado o juramento  do santo feito por um figurante,  distante herdeiro dos fidalgos portugueses transferidos para Amazônia: “Puxo a espada da bainha, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O juramento de SantiagoJuro pela cruz da minha espada, que só a colocarei na bainha quando pôr fim a essa batalha com a minha vitória”. A festa tem também grandes momentos de alegria com as danças do Vominê, o grande Baile das Mascaras ou a Festa das Crianças, uma programação rica e completa que poderá em breve ajudar a atrair para a “cidade que atravessou o Atlântico” turistas vindos do Sul do Brasil ou da Guiana francesa vizinha.

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 Longe do Amapá, Al Jadida é hoje um grande centro turístico internacional. A cidade é inscrita ao patrimônio mundial da UNESCO, e os maiores edifícios construídos pelos português, do Bastião de São Sebastião até a Capela da Inquisição, das cisternas até a Porta do Mar por onde fugiram os mazaganenses, são visitados por viajantes do mundo inteiro. Al Jadida, as praiasE, ao Norte, as praias de Azemmour oferecem alguns dos melhores resorts do Marrocos, incluindo um Pullman Royal Golf e SPA . Mas as festas dos cavaleiros marroquinos não homenageiam mais o vencedor de Clavijo, elas louvam as vitorias dos mouros, e quem procura os juramentos de São Tiago terá mesmo que ir para Mazagão Velho.

 Jean-Philippe Pérol

Fantasia em Al Jadida