A KLM festejando 100 anos com muito para comemorar

 

A KLM fez questão de festejar os seus 100 anos

A KLM festejou seu centenário, querendo mostrar um pouco do seu passado e muito do seu futuro, analisando o desenvolvimento da empresa ao longo das décadas e o papel que desempenhou na aviação civil internacional antes e depois da associação com a Air France. Uma associação que não quer apagar as diferenças. Assim, enquanto a Air France, com a extraordinária herança francesa e latino americana da Latecoere e da Aeropostale, começou sua história em 1918, Koninklijke Luchtvaart Maatschappij revindica com justo orgulho de ser a mais velha companhia aérea que não trocou de nome. Foi em 1919 que oito investidores criaram a KLM e pediram ao jovem aviador Albert Plesman ser o primeiro diretor da empresa. Um ano depois, o 17 de Maio 1920, o piloto  Jerry Shaw realizava, num De Havilland DH-16, o primeiro voo da empresa entre os aeroportos de Londres e de Amsterdã.

“O centésimo aniversário é uma homenagem aos pioneiros da aviação da KLM, que literalmente colocaram a aviação civil no mapa em todo o mundo. Podemos nos orgulhar de nossa longa lista de conquistas”, declarou Pieter Elbers, presidente e CEO, que lembrou o nem sempre conhecido espirito pioneiro da sua empresa. KLM foi antes da guerra a primeira empresa a ter tripulação comercial especializada, foi em novembro 1945 a primeira a abrir as rotas do Extremo Oriente, e foi, em maio 1946, a primeira a abrir a rota entre a Europa Ocidental e a América do Norte. Nos anos 1970 foi a primeira empresa a participar da aventura do B747-200 que revolucionou o transporte (e o turismo) internacional e  fez disparar o crescimento do transporte de passageiros e de carga.

Dois aviões da Air France e da KLM em Schiphol no dia da OPA

Os anos 1980 e 1990 foram de muitas mudanças, com os choques do desenvolvimento do hub de Schiphol e do acordo com a companhia americana Northwest. O tráfego de passageiros dobrou de 1980 a 1990, mas a rentabilidade não seguiu acompanhando, a KLM tendo pouco viajantes para Amsterdã, e sendo mais procurada pelas passagens baratas  oferecidas aos mochileiros e aos religiosos (no Brasil então com a Raptim). Quando em abril 2004, a Air France lançou sua amigável oferta de compra, a empresa holandesa apresentava um pesado prejuízo de EUR 416 milhões para um volume de vendas de EUR 6,48 bilhões, enquanto a companhia nacional francesa se orgulhava de uma imagem e uma notoriedade excepcionais, com um lucro de EUR 120 milhões para EUR 12,68 bilhões de vendas.

O pessoal se orgulhou da volta por cima

A KLM aproveitou as oportunidades da generosa aliança com a Air France para se reerguer. Em 2019, destacando uma margem bruta de 9,8% contra somente 1,7% da companhia francesa, os resultados se inverteram, e a empresa holandesa se destacou também pela qualidade dos seus serviços e sua notoriedade. O governo holandês, com a cumplicidade dos dirigentes e dos pilotos da KLM, aumentou então a sua participação no capital da Air France-KLM sem avisar o governo francês. A paridade entre os dois países (cada um com 14% das ações do grupo) é a melhor demonstração do extraordinário caminho percorrido pela KLM. Na festa do centenário, o CEO Peter Elbers podia mesmo pedir  aos seus funcionários de ser “enérgicos e confiantes, prontos para enfrentar com otimismo os desafios da sustentabilidade e da inovação do novo século”.

Nos 100 anos da KLM, a tradicional casa Delftware é um palácio. Uma mensagem?

Desde a década de 1950, a KLM apresenta em torno do seu aniversário  casas em miniatura de porcelana Delftware, especialmente projetadas para os 800.000 passageiros da World Business Class em voos intercontinentais, com novas miniaturas adicionadas anualmente. De acordo com a tradição,  a KLM marcou seu centésimo aniversário com a apresentação de uma  nova casa de Delftware, aguardada ansiosamente por colecionadores fiéis em todo o mundo. A centésima miniatura  é uma réplica do Palácio Huis ten Bosch em Haia, o palácio do rei Willem-Alexander e sua família, cujo primeiro exemplar foi presenteada ao Ministro das Finanças dos Países Baixos  Wopke Hoekstra. Presente nas comemorações, Ben Smith, presidente do grupo Air France KLM, lembrou que era normal que cada governo protegesse a sua companhia de bandeira.

Esse artigo foi traduzido e inspirado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line La Quotidienne

 

 

 

Virada de mesa nos ceús brasileiros

A Delta anunciou a decisão estratégica de entrar na LATAM

Mesmo se os líderes de todos os atores brasileiros desta grande jogada afirmam que a situação continua sendo de “business as usual”, o surpreendente anúncio pela Delta Air Lines da aquisição de 20% da Latam vai ter um impacto profundo e duradouro sobre a aviação internacional e até doméstica no Brasil. Aproveitando a boa saúde financeira para consolidar sua rede, a companhia estaunidense anunciou que colocava na mesa US$ 1,9 bilhão para adquirir 20% da LATAM, a maior empresa aérea da América do Sul, membro de One World e aliado de longa data da American Airlines. No mesmo comunicado, a Delta anunciou que ia se desfazer da participação de 9,4% na Gol, deixando inesperadamente a sua parceira Air France sozinha com a jovem líder das viagens domésticas no Brasil.

A Latam vai chegar tambem nos planos da AF KLM?

Mesmo se o anúncio surpreendeu o trade aeronáutico, o mercado já esperava notícias do Chile, já que a Corte Suprema daquele país tinha cassado em maio um projeto de acordo entre Latam, American Airlines, British Airways e Iberia que infringiu, segunda a  decisão, as leis antitruste. Era uma oportunidade para Delta que escolheu, anos atrás, de reforçar a aliança Sky Team com participações financeiras. A companhia adquiriu assim 10% do Grupo Air France KLM (a Air France tem 49% e KLM 31%), 36% da Aeromexico, 10% da Alitalia, e 3,55% da China Eastern. No novo conselho de administração da Latam, os dois representantes da Delta vão curiosamente sentar juntos com um representante da Qatar Airways, dona desde 2016 de 10% das ações e membro da agora concorrente Oneworld.

Delta “moving the people who move the world”

No anúncio ao mercado, a Delta insistiu na parceria estratégica que essa participação na Latam significava, incluindo com um investimento suplementar de US$ 350 milhões que deixa muito provável a entrada da Latam na Sky Team. A aliança deve sair reforçada mesmo se sob a liderança, agora indiscutível, da empresa estadosunidense. A Delta é agora a primeira companhia mundial em volume de vendas, transporta cerca de 200 milhões de passageiros/ano para perto de 300 destinos em 50 países, tem uma frota de quase 1000 aviões (sendo um terço de Airbus) e emprega 80 mil funcionários. A entrada na Latam deve reforçar essa liderança não somente na América do sul (com um reposicionamento no impreterível gateway de Miami) mas também no mundo inteiro.

LATAM, lider tambem no Ecuador e nos demais paises latinos

O gigante criado em 2012 com a absorção da TAM pela LAN Chile transporta 71 milhões de passageiros/ano para 25 países com suas frotas de 350 aviões (sendo dois terços de Airbus). Com as outras suas subsidiarias LATAM Airlines, na Colômbia, no Perú, na Argentina, no Equador e no Paraguai, virou a maior empresa aérea da America do Sul. No Brasil, devemos porem lamentar que a herança do Comandante Rolim não foi talvez muito bem respeitada. Assim não foram transferidas para nova empresa nem a ousadia de management – que levantou a TAM dos Táxi Aéro Marilia até os Transportes Aéros Mercosul-, nem a prioridade ao cliente – que levava o proprio Rolim a entregar suas cartas aos passageiros em Congonhas-, nem a qualidade do serviço – com o tapete vermelho e sem filas de espera nos check-in.

As famosas presencias do Rolim no pé das escadas dos seus aviões

Sem poder ainda medir todos as consequências no Brasil dessa grande jogada da Delta, podemos talvez somente destacar a elegantíssima reação da Gol Linhas Aéreas Inteligentes que, mesmo sendo extremamente prejudicada com essa reviravolta (e ver seus títulos na bolsa despencarem o dia do anúncio), declarou: “a Delta foi uma ótima parceira da Gol e desejamos-lhes sucesso. Valorizamos nossa parceria com a Delta e estamos felizes em ver essa contínua confiança no mercado de aviação da América Latina”.

Esse artigo foi adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista on-line La Quotidienne

O Turismo Francês acreditando no Brasil há 45 anos

Caroline Putnoki na inauguração do novo escritorio da Atout France

Teve muita emoção na terça feira passada, dia 24 de Setembro, durante a inauguração da nova sede da Atout France, a Agência de Desenvolvimento do Turismo Francês no Brasil. Mais de 50 jornalistas, influenciadores e profissionais ficaram impressionados pelos escritórios cujo tamanho, design e modernidade mostravam que a França continuava a acreditar no turismo brasileiro e queria mesmo brigar pela liderança para Europa. O local anterior, na Avenida Paulista, tinha sido ocupado desde da abertura da representação oficial, em 1982. Lá passaram seis diretores da então Maison de la France e depois da Atout France, desde Christian Lepage até Caroline Putnoki, incluindo Alain Roman, Patrice Doyon, Vincent Toulotte, e Emmanuel Marcinkowski, além de Jean Philippe Pérol que ocupou duas vezes a função de 1990 até 1996 e de 2011 até 2017.

Com a Maison de la France, o Turismo Francês acelerou seu crescimento

Antes de ter um escritório próprio, o Turismo Francês já era representado no Brasil. Desde 1976, a Diretoria Air France no Rio de Janeiro tinha uma funcionária oficialmente encarregada de promover o destino junto aos agentes de viagens. Mas nessa época distante, com telex e sem celular ou whatsapp, os controles eram muito distantes e o trabalho de representação muito distante. A dita encarregada nem sabia dessa função e descobriu o seu verdadeiro empregador na véspera de uma auditoria. Naquele momento o seu chefe teve de confessar que ela não era a sua secretária, mas uma funcionária do Ministério do Turismo da França e que, juntos, tiveram de encher as paredes do seu escritório com cartazes das regiões da França, e as prateleiras com folhetos turísticos.

A parceria com Air France faz a força do Turismo Francês há 45 anos

A forte implicação do Turismo Francês no mercado brasileiro é impressionante pela duração – 45 anos- e pela importância – cinco funcionários em 1982, sete em 2019-, mas também pelo seu destaque frente a concorrência. Portugal abriu mais cedo mas acabou integrando o turismo à sua representação comercial, a Itália trabalhou muito tempo desde o seu escritório de Buenos Aires, o Reino Unido sempre hesitou entre Rio de Janeiro, São Paulo e Miami. Depois de apostar na Argentina, a Suíça transferiu o escritório para São Paulo, com grandes investimentos em marketing mas uma estrutura pequena. Outros países europeus – Alemanha, Áustria, Noruega ou Republica Tcheca- trabalham o mercado por meio de agentes integrando câmaras de comércio ou agências de marketing. Junto com a Espanha, a França foi assim a única a sempre investir em uma presência forte e direta no Brasil.

A integração com o trade sempre foi um ponto de destaque do Turismo Francês

Além dos endereços e das equipes, a história da representação do Turismo Francês – dos “Escritório de Turismo do governo francês” até a Maison de la France e depois a Atout France- seguiu também a evolução das tarefas, evolução visível no novo escritório da Alameda Jaú. Outrora principalmente encarregada de distribuir folhetos ao público ou durante as feiras profissionais – no Brasil mais de 20 toneladas por ano-, a equipe concentra agora seus esforços nos eventos próprios e nas mídias sociais, duas atividades onde conseguiram um grande know how e uma reconhecida liderança. Continua por outro lado, há 45 anos, com seus dois grandes trunfos : uma perfeita integração com o trade brasileiro e um suporte que nunca falhou da sua companhia aérea, “la Compagnie Nationale Air France”.

Jean-Philippe Pérol

Das revistas aos influenciadores, a evolução das ações de comunicação

O Tropical de Manaus, saudades de um sonho que não pode acabar

Frente as águas negras do Rio, o Tropical de Manaus

Que tristeza de ler hoje, no querido  jornal manauara A Critica, que o Tropical Hotel de Manaus irá a leilão no dia 25 de julho, e que valor arrecadado será utilizado para o pagamento de dívidas trabalhistas em processos que tramitam no tribunal regional do trabalho. Mesmo esperada desde a suspensão das atividades do hotel em maio – quando a luz foi cortada por falta de pagamento-, essa noticia abalou todos os profissionais do turismo bem como os apaixonados pela Amazonas. Emblemático da nossa saudosa VARIG, o Tropical de Manaus marcou os anos dourados do turismo de Manaus, quando o sucesso da Zona Franca, os oito voos diários para São Paulo, e as ligações internacionais da própria VARIG, mas também da Braniff, da LAP e da Air France atraiam turistas do mundo inteiro no coração da Amazônia brasileira.

O Presidente Giscard num seringal do Mamuri em 1978

A tristeza leva a perguntar quais são as razões que levaram a esse desastre. Alem do desaparecimento da VARIG e das dificuldades da Tropical hotéis, o hotel da Ponta Negra fechou também pelo paradoxo da queda do turismo na Amazonia brasileira num momento da historia aonde o eco-turismo e o turismo verde atraiam cada vez mais viajantes. Enquanto Manaus recebeu nos anos 70 e 80 o Presidente da França, o Rei da Suécia ou o Chanceler da Alemanha, enquanto artistas, escritores, ricos e famosos do mundo inteiro se hospedavam nos quartos do Tropical, são hoje os lodges da Costa Rica, do Vietnã ou da Indonesia  que recebem os maiores fluxos de ecoturistas. E quando esses escolham mesmo de ficar na Amazônia, percebe se a concorrência das Amazônias peruana, colombiana, equatoriana, surinamense ou até francesa.

O charme e o luxo sustentável do Mirante do Gavião

O turismo em Manaus tem porem umas imensas oportunidades com a atualidade das preocupações internacionais para preservar a floresta amazônica, e com a procura de destinos turísticos respondendo as novas tendências do ecoturismo. Num setor de concorrência extrema, o sucesso virá pelos números projetos que já existem, tanto de alojamento – do EcoPark ao Mirante do Gavião, do Juma Lodge ao Hotel Amazônia, ou do Anavilhanas Lodge ao novo Casa Perpetua-, de lazeres  – do Museu da Borracha e do MUSA ao Festival de Ópera-, de cruzeiros – da Katerre ao Aria ou ao Belle Amazon-, ou de restaurantes – do Caxirí ao Banzeiro-. Eles já estão mostrando que o setor soube evoluir, e criar produtos e serviços oferecendo as experiencias que os viajantes procuram.

A Pousada Uacari, a excelência em termo de turismo sustentável

Para crescer mesmo, e deixar a gente sonhar numa reabertura de um grande hotel international na Praia da Ponta Negra, o turismo na Amazônia terá talvez que aproveitar três ideias. A primeira é que a expectativa internacional de proteção do meio ambiente nessa região é imensa, trazendo um dever de excelência nesse setor. O desenvolvimento do turismo será olhada de muito perto, e qualquer desrespeito das práticas exemplares em termo de sustentabilidade, qualquer aceitação de atividades ecologicamente incorretas, terão um enorme impacto em comunicação, e afugentarão os viajantes. A segunda é que o turismo de Manaus só pode ser exclusivo, os fluxos serão sempre pequenos porque o acesso é difícil e as experiencias intimistas. Com poucos visitantes, devem se privilegiar o luxo e o charme. E os produtos e serviços têm que ser de forte valor agregado para trazer ao estado e aos  habitantes os retornos econômicos indispensáveis.

O Teatro Amazonas foi decisivo para construir o mito de Manaus

A terceira ideia é que, marcas excepcionalmente conhecidas no mundo inteiro, Manaus e a Amazônia devem. para voltar a atrair os fluxos de viajantes que necessitam, apostar não somente na natureza, nas matas e nos rios, mas também nas suas Historias – a riqueza do patrimônio, começando pelo Teatro, ou a força do passado terrível do ciclo da borracha-, e nos seus povos – tradições culturais ou, mais ainda, vida autentica das suas comunidades ribeirinhas. Morreu o Hotel Tropical, mas os ingredientes de um novo ciclo do turismo em Manaus existem e podem deixar acreditar que o Fenix pode talvez pousar um dia na praia da Ponta Negra.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Barco regional de alto padrão, o Belle Amazon navegue nos rios Amazonas, Tapajós e Rio Negro

Invino Wine Travel Summit, a hora do enoturismo

Na Borgonha, um dos oito vinhedos do mundo tombado pela UNESCO

Faltando menos de um mês para a sua inauguração, a expectativa em torno da primeira edição do Invino Wine Travel Summit  já está mostrando que o enoturismo é mesmo um setor que despertou o interesse dos profissionais brasileiros do turismo e do vinho. Patrocinado pela Air France, a Chandon e a Bourgogne, apoiado pela Atout France,  a Wine Paths, o Palace Sources de Caudalie, a Guaspari, a Rouge Brasil, o Forum de Enoturismo e os Wines of Chile, beneficiando da experiência de palestrantes e expositores vindo do Chile, da França, da Argentina e do Brasil, Invino já confirmou as inscrições das mais destacadas operadoras e agencias do setor.

Tradição e qualidade nos vinhedos do Chile

O sucesso do enoturismo é um tendência internacional. Com um indiscutível pioneirismo das vinícolas da costa Oeste americana (líder mundial até hoje com 15 milhões de enoturistas, sendo 3 milhões de estrangeiros), os “Wine tours” se espalharam em todos os grandes destinos produtores, especialmente na França cujas vinícolas recebem 10 milhões de visitantes,  4,2 milhões vindo do exterior. Hoje o mundo tem mais de 40 milhões de enoturistas que  visitam o Stellenbosch ou a Napa Valley, a Rioja espanhola ou o Vale McLaren da Australia, os “climats da Borgonha” ou a rota dos vinhos do Vale Maipo, sem falar dos procuradíssimos  vinhedos da Toscana e da Provence. No Brasil também, o sucesso das rotas gaúchas, catarinenses ou paulistas já atrai mais de um milhão de visitantes por ano.

Les Sources de Caudalie, onde enoturismo combina com bem estar e gastronomia

Os encontros de Invino são importantes devido as evoluções do enoturismo. Para os produtores, o turismo passou da simples atividade complementar a uma ferramenta chave para incrementar e diferenciar a notoriedade das marcas, uma fonte de receitas representando até 20% ou mais das vendas totais. Se transformou em uma grande oportunidade de investimentos, seja nas próprias adegas seja na hotelaria ou no bem estar.  Os perfis dos enoturistas mudaram completamente também. Enquanto os pioneiros, enólogos ou enófilos, exigiam um atendimento completamente focado em numerosas visitas e degustações, o novo enoturista é simplesmente um “bon vivant” ou até um viajante a procura de novas emoções. O vinho vira assim um dos componentes de uma viagem que incorpora também experiências culturais e gastronómicas, momentos para compras e para bem estar, ou passeios para apreciar as belezas naturais de lugares as vezes tombados pela UNESCO.

As vinicolas de Mendonça combinam com proezas arquiteturais

Para os profissionais do turismo que precisam de novos produtos e serviços com forte valor agregado, Invino vai ser um momento privilegiado para descobrir valiosas experiências. Algumas operadoras tanto de receptivo que de exportativo já investiram há muitos anos no enoturismo, e o Brasil tem valiosas realizações em ambas atividades.  Mas um grande trabalho de capacitação ainda tem que ser feito para que os agentes consigam responder aos viajantes interessados, oferecendo o destino, o vinho e o produto mais adaptados para cada perfil.  O potencial é imenso, reforçado pelo fato que os grandes países de enoturismo são ,seja vizinhos – Chile, Argentina ou Uruguai -, seja muito familiares – EEUU, França, Portugal, Itália e Espanha. Mostrando os sucessos e os “savoir-faire” adquiridos, o Invino Wine Travel Summit pode ajudar as agencias a responder a essa nova grande tendência do turismo mundial.

Jean Philippe Pérol

 

A alegria do vinho nos roteiros gauchos

A crise do marketing de destino chega na França

Rendez vous en France, encontro dos parceiros franceses e internacionais

Alem de um brutal corte de orçamentos, a crise que explodiu a semana passada na Atout France, órgão oficial do turismo francês, significa talvez o fim de um modelo de parceria inventado pela equipe de um então ministro do governo Chirac. Exclusiva dos ministérios ou das administrações publicas desde as suas origens no inicio do século XX, a promoção do turismo internacional conheceu em 1987 uma verdadeira revolução. Agregando quatro órgãos oficiais preexistentes, o ministro Descamps convenceu setenta profissionais de entrar como parceiros numa nova estrutura co-gerenciada e co-financiada pelo governo federal e os profissionais públicos e privados do setor. Era o nascimento da Maison de la France,  uma associação que chegaria a juntar 1300 empresas francesas de turismo e a estabelecer relações estreitas com mais de mil operadoras em 35 países.

Com a mudança de 2009, Atout France integrou o Ministério das Relações exteriores

A Maison de la France acompanhou a volta da França na liderança do turismo mundial, e criou um novo modelo de parceria publico privado. Em 2009 virou Atout France, assumindo novas responsabilidades na planificação do turismo e na classificação hoteleira. Nessa trajetória de sucessos, as recentes decisões do governo chocaram os profissionais e a imprensa do trade e econômica. Atout France poderia ser obrigada a reduzir de um terço a sua presencia no exterior, encolhendo o seu quadro de colaboradores e talvez o numero de países onde está operando, um paradoxo para uma autarquia que depende agora do ministério das Relações Exteriores. As ambições do governo francês, 100 milhões de turistas em 2020 e 60 bilhões de euros de receitas, seriam então seriamente ameaçadas.

As campanhas B2C sofrem dos cortes de verbas

É certo que, mesmo se o corte de quatro milhões de Euros  pode parecer limitado porque representa somente 12% do aporte total do governo, as preocupações do setor devem ser tratadas com respeito e seu impacto não devem ser subestimado. Mas seria injusto de colocar toda a responsabilidade da situação nas últimas decisões do atual governo, isso por duas razões. Em primeiro lugar deve ser lembrado que os governos anteriores realizaram cortes mais importantes ainda nos últimos 15 anos, reduzindo de até 75% as verbas de promoção, e cortando de 80% o numero de funcionários públicos colocados gratuitamente a disposição da associação. A novas tarefas de engenharia e classificação, sem dúvidas muito gratificantes e estrategicamente interessantes, foram impostas sem nenhuma contrapartidas financeiras, aumentando mais os custos fixos.

Air France, desde as origens um apoio excepcional para o turismo francês

A redução dos gastos de promoção não foi também exclusiva do governo. As grandes empresas de viagens e turismo que investiam com força ao lado do governo, emprestando funcionários e participando de campanhas de imagem da França, reduziram suas participações.  Se o apoio da Air France continua sendo excepcional, grupos como Accor, Pierre et Vacances ou o Club Med representam hoje menos de um por cento das parcerias acumuladas. Os outros órgãos públicos de promoção, a níveis regionais ou municipais, também diminuíram as suas verbas, não somente porque falta dinheiro público, mas porque são cada vez mais preocupados promover suas próprias marcas com exclusividade, sem necessária associação com o destino França, desprezando as vezes a expertise que Atout France acumulou com seus colaboradores e seus contatos.

O apoio dos profissionais foi decisivo no sucesso da Atout France

Mostrando a insensibilidade do governo sobre a importância do setor, o choque levado pela Atout France com a redução das verbas públicas acelera as perguntas sobre o modelo criado em 1987. Os seus dois pilares, marketing e parcerias, não têm mais o mesmo apelo junto aos profissionais. O marketing perde força, exprimido entre o branding sempre muito ciumento e as vendas só interessadas por ações com resultados concretos e imediatos. Sem o atrativo do dinheiro publico e seu poder de impor mensagens claras, as parcerias são mais escassas  e as ações conjuntas cada vez mais complicadas. O novo modelo que tem que surgir não pode se restringir a uma (necessária) volta das verbas do governo, mas deve reinventar o posicionamento e os investimentos dos profissionais franceses e estrangeiros. Ao governo, sim, a responsabilidade de tomar a liderança dessa reconstrução, aproveitando as competências das suas equipes e as expectativas dos seus parceiros.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Sucesso de parceria público/privado, um modelo a reinventar?

Depois do Concorde, o sonho do Airbus 380 entra também na Historia

O Airbus A380 da Air France

Em novembro 2009, subindo a bordo do primeiro voo Nova Iorque Paris do A380 da Air France, a sensação era de participar, mais uma vez, do início de uma nova era do transporte aéreo internacional. Anunciado (e sendo) o avião mais silencioso e mais confortável do momento, capaz de transportar de 500 a 800 passageiros, o gigante da Airbus ia trazer para o transporte aéreo internacional uma revolução tão radical que o primeiro Jumbo 747 em 1969. O entusiasmo das 13 grandes companhias  participando em 1996 da primeira apresentação do então A3XX levaram a Airbus a lançar o programa em 2000, conseguindo logo 55 encomendas. A escolha do nome, A380 com o numero 8 vindo da numerologia chinesa, mostrava que a aposta principal era de se posicionar nos grandes hubs asiáticos.

Istambul e Turkish Airlines agora com um ambicioso aeroporto para 200 milhões de viajantes

Inaugurando o novo aeroporto de Istambul, o Presidente turco anunciou a ambição de chegar em dez anos ao primeiro lugar do pódio com 200 milhões de passageiros. Com uma capacidade atual de 90 milhões, esse “Ponto de encontro do mundo” deve logo chegar ao terceiro lugar do ranking dos aeroportos internacionais, atrás somente de Atlanta  (103,9 milhões ) e Pequim (95,7 milhões), na frente de Dubaï (88,2 milhões), Tóquio (85,4 milhões) e Los Angeles (84,5 milhões), e dos grandes concorrentes europeus de Londres Heathrow, Paris Charles de Gaulle ou Frankfurt. Com um investimento global de mais de 10 bilhões de USD, a Turquia mostrou que o projeto ia além do transporte aéreo, mas queria reforçar o papel da cidade herdeira de Constantinopla e dos seus três impérios, como ponto de encontro das rotas comerciais e turísticas entre a Europa, o Oriente Médio e a Ásia.

A torre de controle desenhada pela Pinafarina e inspirada da Tulipa otomana

Primeiro aeroporto construído numa nova localização (greenfield) nos últimos 20 anos, o aeroporto de Istambul impressiona pelos seus números, devendo chegar em 2028 com 76 km2 de superfície, 6 pistas, 4 terminais, 6 milhões de m3 de concreto, 53.000  m2 de lojas comerciais (o maior free shop do mundo), um investimento global de EUR$ 10,2 bilhões e … uma torre de controle inspirada da tulipa, a flor símbolo do império otomano. Por impressionantes que sejam, esses números acompanham o crescimento do trafego aéreo turco – 15,7% em 2018 – e as ambições da companhia nacional . Fundada em 1933, e com um crescimento acelerado nos últimos cinco anos, a Turkish Airlines deve transferir ainda esse ano a totalidade dos seus voos para o novo aeroporto, primeiro passo de um projeto que inclui chegar a 500 aviões e 120 milhões de passageiros em 2023.

Emirates, a companhia que segura o futuro do A 380

Com Istambul e a Turkish Airlines, a Air France ou a Lufthansa vão enfrentar um desafio ainda maior em relação a já problemática concorrência das companhias do Golfo. Tanto a Emirates, a Etihad e a Qatar Airways já tinham trunfos decisivos: hubs bem programados, serviços a bordo de grande qualidade, e aviões novos que lhes garantia a escolha dos viajantes, bem como pesos decisivos nas vendas de aviões da Boeing e mais ainda da Airbus que lhe asseguravam os apoios dos governos nas negociações de rotas. Mas, mesmo com os pesados (e bem sucedidos) investimentos de Abu Dhabi e mais ainda de Dubai para aumentar sua atratividade, a importância dos países da região como pólos turísticos depende muito das subvenções indiretas dos seus governos, e seus potenciais como mercados emissores ficam restritos pelas suas próprias demografias.

Antalya ja recebe mais de 10 milhões de turistas internacionais por ano

O hub de Istambul vai aproveitar do bom posicionamento da Turquia, em 2017 sexto destino turístico mundial com 37,6 milhões de visitantes, em forte crescimento nos últimos dois anos. Atraindo ao mesmo tempo russos e alemães, iranianos e israelenses, o turismo turco aproveita o apelo cultural de Istambul – uma das dez cidades mais visitadas no mundo – bem como a qualidade das praias de Antalya, para definir perspectivas de  42 milhões de turistas em 2018 e de 50 milhões em 2023. O novo aeroporto será também fortalecido pelo mercado emissor turco que deve ultrapassar em 2018 os 15 milhões de viajantes e chegar ao dobro nos próximos cinco anos. Juntando o potencial de mercado e de destino dos grandes países europeus com a dinâmica de hub e de companhias aérea dos países do golfo, a Turquia deve mesmo virar um dos maiores”players” do transporte aéreo internacional.

Jean-Philippe Pérol

Istambul guarda o fascinante acervo dos Romanos, dos Bizantinos e dos Otomanos

Saudades da Bahia!

O Othon Palace Hotel em Ondina

Mesmo se, segundo a Globo News, 7000 hotéis e pousadas fecharam no Brasil nos últimos dois anos, o anuncio do fechamento do Bahia Othon Palace Hotel foi recebido com muita emoção pelos profissionais do setor. Aberto em 1975, hotel bandeira do grupo fundado em 1943 pelo empresário pernambucano Othon Bezerra,  marca do dinamismo excepcional que o turismo baiano conheceu durante três décadas,  ligado a muitos grandes eventos do trade brasileiro, incluindo vários saudosos congressos da ABAV, o estabelecimento da orla marítima de Ondina foi um símbolo de uma grande época. Alem de quartos, a cidade de Salvador perde também um centro de convenções e um ícone do turismo local cujo fechamento mostra a crise do setor.

O então Meridien Bahia

A emoção dos profissionais ficou maior ainda porque a perda do  Othon Palace  ocorreu quase três anos após o fechamento do Hotel Pestana, no bairro do Rio Vermelho, outro hotel emblemático da cidade que tinha sido inaugurado em 1974 como Meridien Bahia. Então filial a 100% da Air France, estrategicamente dirigida pelo alto comando da empresa que estava apostando forte no Brasil com a abertura do Concorde, os hotéis Meridien abriram naquela década dois espetaculares estabelecimentos no Rio de Janeiro e em Salvador. Ambos eram hotéis de grande porte – 500 quartos no Rio de Janeiro e 430 em Salvador-, ambos tinham restaurantes gastronômicos -o Saint Honoré do Rio de Janeiro contando com a grife do Bocuse e um jovem chef, Laurent Suaudeau, que virou depois o referente mor da gastronomia brasileira.  Ambos tinham uma agencia de viagem da Compagnie internationale des Wagons lits, e uma badalada boate da Regine –  então rainha das noites francesas.

O Saint Honoré, restaurante do Meridien do Rio então liderado pelo Chefe Laurent

Abandonado pela Air France em 1994, o Meridien deixou definitivamente o Brasil em  2007 quando seu último hotel brasileiro virou Iberostar, depois Windsor e agora Hilton. A rede Othon segue como uma das principais redes hoteleiras nacionais, e continua a oferecer seus serviços em  nove cidades do Brasil, no Rio de Janeiro e no Recife, em Macaé, São Paulo, Araraquara, São Carlos, Matão, Fortaleza, e Natal. Em Salvador, os dois outrora concorrentes só deixaram muitas lembranças  –  como a inesquecível alegria do bloco de carnaval que o Meridien organizava misturando hospedes e funcionários-, bem como a saudade de uma época gloriosa do turismo brasileiro, e, mais ainda, a esperança da abertura de um novo ciclo de crescimento.

Jean-Philippe Pérol

Ah, mas que saudade eu tenho da Bahia!

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Os pedestres, novos reis dos destinos turísticos?

A Rue Cremieux, rua de pedestres em Paris

Quando fundou, em parceria com a Air France uma agencia de receptivo onde queria mostrar sua reconhecida criatividade, Gilbert Trigano fez questão de colocar os passeios guiados a pé como alguns dos produtos bandeira da nova empresa. Era o ano de 1976, e mais uma vez, ele foi pioneiro a se lançar numa aventura que a Tourisme France International continuou durante quase trinta anos. Mesmo na época dos ônibus de turismo ou dos carros de aluguel, o  inventor do Club Med já tinha percebido que os passeios a pé eram para o visitante a melhor forma de explorar um destino, de assimilar o seu ambiente, de sentir os seus cheiros, de vibrar aos sons da sua música, de mergulhar na sua cultura e de se comunicar com os seus moradores. Quarenta anos depois, reforçada pelas exigências ambientais e a procura de exercícios físicos, a ideia seduziu muitos grandes destinos que estou desenvolvendo a sua “caminhabilidade”.

A rua Saint Paul no centro histórico de Montreal

Cada vez mais preocupadas pela sua sustentabilidade, muitas cidades estão relembrando que andar a pé é o jeito mais simples de se locomover, tanto para os moradores que para os turistas. Elas desenvolvem a sua “caminhabilidade” – termo traduzido do inglês walkability, a capacidade para um destino de facilitar  a locomoção dos pedestres. Para o trabalho, os estudos ou os lazer, andar a pé necessita segurança, distancias curtas, serviços e meio ambiente agradáveis.  O site Walk Score classifica as cidades americanas, canadenses a australianas em função dessa “walkability” (tendo também outros ranking sobre a qualidade do transito urbano e as facilidades para os ciclistas). Cada cidade recebe uma nota em função das infraestruturas ajudando os pedestres a caminhar, bem como da proximidade dos serviços e das lojas, sejam padarias, supermercados, farmácias, bancos, restaurantes, shopping e parques.

Mais de 500 cidades já assinaram a carta Walk21

Sendo 100 a nota máxima, as cidades com índice superior a 90 são consideradas os paraísos dos pedestres, aquelas com índices de 70 a 89 muito boas para caminhar. Com menos de 50, uma cidade privilegia o papel dos carros e dos transportes coletivos. Nessa classificação, Montreal conseguiu em julho desse ano chegar a 70 pontos, fruto de um longo trabalho que começou em 2006, com a Declaração dos direitos do Pedestre  (Charte du piéton). Depois de dez anos, a prefeitura lançou um  Programa de implantação de ruas para pedestres ou para usos mistos para ajudar os distritos da cidade nos seus projetos  de infraestruturas viárias, de arquitetura urbana, de arborização, de parques ou até de animações artísticas ou musicais. 45 ruas já foram assim entregas para pedestres, representando quase sete quilômetros de caminhadas (e de alegrias) para os moradores e os visitantes.

Nova Iorque amplia as áreas reservadas aos pedestres

Nos Estados Unidos, o ranking de Walkscore coloca Nova Iorque em primeiro lugar com 89,2 pontos, na frente de San Francisco (86) e de Boston (80,9). A Big Apple começou a sua transformação urbana em 2007 com a ampliação da área pedestre de Times Square. Durante o verão 2009, Broadway foi fechada para o transito, e foram construídas áreas exclusivas temporárias ou permanentes. Foi também em 2009 que foi aberto o primeiro trecho da Highline, esse viaduto abandonado pelos trens que virou uma das mais concorrida caminhada dos nova-iorquinos e dos visitantes. Outras áreas de pedestres foram instaladas na cidade, por exemplo na 23, nos arredores do edifício Flatiron, onde a Prefeitura instalou verdadeiras praças para pedestres com mesas, cadeiras e guarda-sóis. 

Os Champs Elysées só para pedestres

Em Paris, a prefeita anunciou em 2017 o projeto “Paris piétons”, uma série de medidas incluindo a assinatura da Carta Internacional Walk21. Vários projetos foram lançados: travessias do anel rodoviário, trilhas verdes aproveitando as grandes avenidas, uma grande área exclusiva para pedestres no bairro do Marais. Algumas áreas serão fechadas ao transito durante os finais de semana, outras durante alguns feriados excepcionais, incluindo os próprios Champs Elysées, ampliando experiências anteriores. Painéis com mapas especificos e sugestões de roteiros para caminhadas turísticas ajudarão visitantes e moradores a descobrir a cidade luz de forma diferente, aquela mesma que o Trigano tinha imaginado há mais de 40 anos.
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Esse artigo foi adaptado de um artigo original de Chantal Neault na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat