Os EE-UU apresentam uma estratégia inovadora para o turismo pos crise

Gina Raimondo, Secretaria de Comercio, apresentou sua estratégia inovadora

A secretária de Comércio dos Estados Unidos, Gina M. Raimondo, anunciou a semana passada uma nova estratégia nacional para indústria das viagens e do turismo. Aproveitando as lições da crise, e as novas exigências dos turistas, dos profissionais e dos moradores, ela reafirmou os esforços do governo federal para apoiar o setor, e anunciou suas novas metas. No prazo de 5 anos, o objetivo  é de atrair 90 milhões de visitantes internacionais por ano, de chegar a receitas internacionais de US$ 279 bilhões anualmente, e de conseguir que essas receitas apoiam a criação de empregos em todos o território  estadounidense.

Atropelados pela crise, os grandes destinos aderiram as novas ideias

Esse nova estratégia é uma virada em relação a politica mais quantitativa definida em 2012 pelo administração Obama, que tinha o objetivo de 100 milhões de visitantes mas previa gerar somente US$ 250 bilhões de receitas por ano. A Secretária enfatizou também que a retomada oferecia uma oportunidade única de construir uma industria turística mais inclusiva, mais justa, mais responsável e mais resiliente, com resultados concretos atrelados a quatro metas: promover o destino, facilitar as viagens, desenvolver novos lugares ou comunidades, e focar um turismo mais sustentável.

Brand USA CEO Chris Thompson speaking at the IPW conference in Orlando.

Thompson, CEO de Brand USA, convenceu os profissionais durante o IPW

Sem ser uma novidade (nos anos 90, Malta se destacou anunciando que queria 20% de turistas a menos e 20% de receitas a mais. Nos anos 2000, a França já tinha definido a ambição do “mieux tourisme” para substituir o “plus tourisme“), a virada para uma politica mais qualitativa foi elogiada pelos profissionais. Falando no US Travel Association’s IPW, o CEO de Brand USA lembrou que somente 79 milhões de turistas visitaram o pais em 2019 e que, mesmo sem a crise que cortou 75% dos fluxos, os  100 milhões de turistas não teriam sido atingidos. E concluiu: ” Nosso objetivo agora não é de acolher o mundo inteiro, é de maximizar o turismo como uma exportação, sendo as receitas o primeiro indicador a ser seguido.”

O Museu do Primeiros Americanos em Okhlahoma City

A nova estratégia confirme o papel central de Brand USA na promoção internacional, em estreita ligação com os profissionais e com o apoio de outros órgãos do governo como Homeland Security ou o State Department. Essas sinergias são desenvolvidas a todos os níveis, inclusive dos vistos, um gargalho importante em alguns consulados. Mas a prioridade dada ao turismo pelo governo federal foi alem de medidas pontuais, o turismo foi também beneficiado com um fundo especial  viabilizando todo o projeto e votado de forma bipartidária. Com o Restoring Brand USA Act, foram então um recorde de US$ 250 milhões que o Presidente Biden colocou a disposição da retomada do setor.

Biden assinando o pacote incluindo o Brand USA Recovery Act

Num turismo pos Covid que está ainda se definindo, frente aos países europeus que parecem hesitar a escolher seu caminho e a assumir os investimentos indispensáveis, frente a novos concorrentes da Asia ou do Oriente Medio que conseguem definir novas estratégias e achar os financiamentos, os Estados Unidos impressionaram  tanto pela virada estratégica que pelos meios mobilizados para atingir metas claras com datas definidas, em sinergia total com os profissionais do setor . Ao final de contas, os viajantes terão assim múltiplas oportunidades de viver novas experiências nesse grande destino turístico.

Jean Philippe Pérol

 

 

Nice lamentando a ausência dos turistas russos

A igreja Saint Nicolas, testemunha de uma longa amizade franco-russa

Turismo de proximidade ou turismo internacional?

A Embratur apoiou o crescimento do turismo de proximidade

Valorizando viagens no raio máximo de 300 à 500 quilômetros da sua casa, de carro, de trem ou de ônibus, sem atravessar fronteiras e sem precisar de avião, o turismo de proximidade cresceu durante a pandemia. Foi para muitos destinos a única forma de manter alguma atividade no setor. E tradicionalmente focada nos mercados internacionais, as ações promocionais dos grandes atores mundiais voltaram para o turismo domestico. A Italia lançou o Bonus Vacanze para as famílias com baixa renda, a Malásia criou isenção fiscal para os gastos internos, a Costa Rica ampliou os feriados locais, a Atout France lançou  #CetÉtéJeVisiteLaFrance, e no Brasil, a Embratur realizou a campanha “ser brasileiro é estar sempre perto de um destino incrível”.

A França focou varias campanhas no turismo de proximidade

Na hora da retomada, o turismo de proximidade não perdeu essa dinâmica, encontrando importantes apoios junto a vários setores da sociedade. São em primeiro lugar os profissionais que nunca esquecerem que o turismo interno representa nos países da OCDE até 75% das receitas do setor, e que essas receitas são menos sujeitas as crises sanitárias, políticas ou climáticas que as receitas provenientes do turismo internacional. Mas dois fatores levaram o turismo de proximidade a novos apoios: os políticos, que viram num consumo local um meio de melhorar mais diretamente a vida dos moradores, e os defensores do meio-ambiente que mediram o menor impacto de um turismo utilizando menos transporte.

A rivalidade trem/avião é parte da briga proximidade/internacional

A valorização do turismo de proximidade está porem levando a alguns excessos. Regiões ou cidades estão escolhendo estratégias minorando o turismo internacional, e especialmente o turismo intercontinental, cortando as ações de promoção, reduzindo as ligações aéreas,  valorizando areas ou atividades pouco acessíveis a  uma clientela estrangeira. Os novos objetivos dessas políticas turísticas são claramente políticos. E mesmo quando só podem ser aplaudidos por todos – por exemplo quando favorecem a sustentabilidade, a inclusão ou os equilíbrios territoriais -, faltam as ações ou a comunicação para poder assim incrementar as experiências do viajante vindo do outro lado do mar.

Em Nova Iorque, os estrangeiros representam  20% dos visitantes e 80% das receitas

Na maioria dos grandes destinos, muitos atores do turismo não poderiam sobreviver a uma queda duradoura  dos fluxos internacionais que representam um terço das receitas do turismo global. Na França, líder mundial, os turistas internacionais representam 62% do total em Paris e mais de 30% nas capitais regionais. Nesse total, é importante anotar que os gastos médios dos viajantes intercontinentais – Chineses, Estado-unidenses, Japoneses ou Brasileiros- são pelo menos três vezes superiores aos gastos dos europeus, sendo imprescindíveis para os hotéis de luxo, os restaurantes estrelados ou as lojas especializadas.

Cidades catalãs apostam na proximidade

O turismo de proximidade e o turismo internacional não devem ser apresentados com escolhas conflitantes mas como estratégias complementares. Não somente por razões econômicas, mas pela natureza mesmo do turismo. O turismo nasceu como abertura ao mundo, descoberta e intercambio. Hoje ele integrou mais valores na sustentabilidade, no respeito das culturas locais e na vontade de convivência com os moradores. É essa diversidade que faz a atratividade dos grandes destinos turísticos. O crescimento do turismo de proximidade e o amadurecimento do turismo internacional, longe de ser opostos, deve então continuar a ser complementares.

Jean-Philippe Pérol

O novo turismo de luxo é também brasileiro!

O Rosewood do Cidade Matarazzo, novo ícone do luxo paulista

O sucesso do último ILTM LATAM mostrou que a retomada do turismo de luxo é agora um fato consumado. Enquanto a China continua quase fechada e lutando para manter seu zero Covid, a Russia paralizada com os boicotes ligado a guerra, e o Japão sempre cauteloso em tempo de incerteza, o Brasil está virando o segundo mercado internacional. E em muitas capitais europeias ou americanas, os brasileiros já estão representando mais de 10% da clientela dos palácios, dos shoppings ou dos restaurantes estrelados. A explosão dos preços das passagens saindo do Brasil – e as dificuldades para encontrar vagas nos aviões – parecem também confirmar essa euforia.

Nos “palaces” parisienses, mais de 10% de clientes brasileiros

Essa volta do luxo é mundial, a previsão é de chegar em 2025 a US$ 10 trilhões, o dobro do faturamento pre-Covid, com uma media superior a sete viagens de lazer por ano para as classes A+. Mas no mesmo tempo essas viagens vão seguir as novas tendências que vão impactar as escolhas dos destinos. Hoje a  segurança deve ser total, sanitária e pessoal, a personalização requerida por 80% dos viajantes deve incluir sob-medida e flexibilidade. A sustentabilidade deve incluir um intercambio com a cultura e a população local, e as experiencias – autenticas, exclusivas, e transformadoras- devem  ser o grande foco – incluindo o Wow factor– de cada viagem.

Luxo e sustentabilidade no Mirante do Gavião

As viagens de luxo dos brasileiros deve também seguir uma outra tendência marcante do turismo mundial,  o crescimento das viagens domésticas e/ou de proximidade. Nos Estados Unidos, na França, na Espanha e em todos os países onde coabitam um importante mercado emissor e destinos turísticos atrativos, o turismo domestico deu um pulo impressionante. E está sendo assim no Brasil. Xodó dos ecologistas pelo baixo impacto de carbono, seduzindo os políticos pelo impacto direto nos moradores e nos eleitores, o turismo doméstico seduziu até mais de 90% dos viajantes durante a crise. As pesquisas feitas no ano passado, e as recentes estatísticas da BRAZTOA, mostraram que essa tendência vem para ficar.

Nas aguas do Tapajós, exclusividade e experiências transformadoras

Um novo olhar vai valorizar destinos jà conhecidos mas ainda com grande potencial de turismo de luxo. A poucas horas de avião, em Fernão de Noronha, nos Lençóis, no Pantanal, nas Missões, nas Chapadas, em Jericoacoara, nas Cataratas de Iguaçu, frente as Anavilhanas ou nas margens do Tapajós, paisagens excepcionais e experiências únicas em condições exclusivas esperam o viajante mais exigente. Mesmo acostumado a se emocionar com outros destinos internacionais,  poderá encontrar nas paisagens do Brasil o mesmo “Wow” ou o mesmo momento instagramável.

Em Ilha Bela, um luxo caribenho a três horas de São Paulo

Membros ou não da pioneira BLTA   , dezenas de hotéis, pousadas ou lodges já oferece um atendimento do mais alto padrão. O Mirante do Gavião, o Saint Andrews, o Txai, o Ponto do Gancho empurraram Nova Ayrão, Gramado, Itacaré ou Florianópolis como destinos de luxo. E o litoral paulista, de Ilha Bela a Paraty, ainda oferece muitos “best kept secret in town” para ricos e famosos que querem alternativas acessíveis de caro. Nos grandes destinos tradicionais, o luxo ganhou o novo impulso no urbanismo e na arquitetura, na cultura e nos grandes eventos, e uma riqueza gastronômica reconhecida pela própria Michelin. Ganhou com a abertura de novos hotéis, como recentemente o Fairmont do Rio ou o Rosewood de São Paulo que já conseguiram uma notoriedade internacional. Um argumento a mais para convencer os viajantes de classe A+ que o turismo de luxo é também brasileiro!

Jean Philippe Pérol

De Valencia ao Rio de Janeiro, o genio de Calatrava

O turismo e o boicote dos Jogos Olímpicos

The flags of China and the Olympics are seen being raised before the handover ceremony in Athens

Na entrega da chama em Olimpia, as bandeiras da China e do C.O.I.

As tentativas de boicote não afetavam muito os Jogos Olímpicos da Grécia antiga. De 776 a.C. até 393 d.C, foram somente três tentativas, duas por motivos políticos e uma por motivo de corrupção, cada uma referente a exclusão de uma cidade, e todas fracassadas. Os espartanos  em 420 a.C., os acadianos em 364 a.C. e os atenienses em 332 a.C. acabaram participando, seja por medo de um conflito armado, seja para não ofender os deuses ou seja para seguir a vontade popular para qual esse trégua devia ser, a cada 4 anos, um momento sagrado de comunhão do mundo helénico.

Os Jogos de Moscou sofreram o maior boicote da historia olímpica

Os Jogos modernos foram ao contrario marcadas por muitas polémicas políticas.  Em varias ocasiões países insatisfeitos cancelaram sua participação (Turquia em 1896, Taiwan em 1952, China em 1958  ou Coreia do Norte em 1988), países foram excluídos (os vencidos das guerras mundiais em 1920 e 1948, a Africa do Sul em 1964), e três olimpíadas foram marcadas por boicotes maciços: Montreal 1976 (países africanos protestando contra a apartheid), Moscou 1980 (Estados Unidos e aliados protestando contre a invasão do Afeganistão) e Los Angeles 1984 (países comunistas retalhando 1980).

A ceremônia de abertura é sempre um grande momento dos J.O.

Enquanto a pandemia já vai impedir aos espectadores, tanto estrangeiros que chineses, o acesso aos estádios e aos centros de competição, os profissionais do turismo só podem lamentar esse novo golpe para o setor, as reservas perdidas e o clima de retomada mais uma vez adiado. Alem do impacto sobre esses Jogos de Inverno, o boicote só vai ajudar a aumentar as incertezas referentes a outros grandes eventos esportivas que exigem pesados investimentos dos hoteleiros e das operadoras, bem como decisões muito antecipadas dos viajantes.

Os Jogos de 2024 já mobilizam os parisienses

Torcer para o sucesso dos Jogos de Inverno 2022 não é um ato político, é uma homenagem aos atletas olímpicos e paraolímpicos que trabalham há quatro anos para isso, símbolo da resiliência de toda a humanidade frente a pandemia. Para o turismo, não se trata somente de torcer para o sonho olímpico de Pequim, mas de contribuir, fora da política, a um clima de segurança, de estabilidade e de tolerância que vai acelerar a retomada e ajudar  todos os profissionais que trabalham para os grandes eventos que estão chegando – Copa do Mundo no Qatar 2022 ou Jogos de Paris 2024 -, e de muitos outros para vir.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Na nova era pos pandemia, o agente de viagem voltando com mais legitimidade

No pos Covid, um turismo a reinventar

Se ainda existam dúvidas sobre o calendário da retomada – as viagens internacionais sendo muito perturbadas pela nova variante-, os profissionais são todos convencidos de uma coisa: o mundo do turismo pos Covid está renascendo com profundas mudanças. Essas mudanças vão impactar os consumidores, as companhias aéreas, os hotéis, os restaurantes e as atrações. Para as agencias de viagens é sem dúvidas uma verdadeira revolução que deve ser esperada, mas as consequências podem talvez ser mais positivas do que podia se esperar no auge da crise.

A pandemia prejudicou todos os setores do turismo

No mundo inteiro, as agencias enfrentaram queda de atividade de até 80%, prejuízos financeiros, demissões forçadas . 70% delas ficaram temporariamente fechadas e as previsões mais pessimistas  projetam que  20% delas não vão reabrir. No Brasil a última pesquisa Cap Amazon/ Mercado & Eventos projetava que 7% das agencias ficaria fechadas, mas  indicava  que 27% iam ficar virtuais. Mesmo com a retomada virando uma realidade, a primeira revolução da nova era pos Covid parece mesmo ser uma queda do numero de agencias, reforçada com uma queda do numero de funcionários – e mais ainda de funcionários em carteira.
Credito: DepositPhoto

Os novos viajantes voltam nas agencias tradicionais

Por difícil que seja, algumas agências vejam no novo quadro do turismo umas oportunidades. Profissionais estão vendo e-consumidores voltando para o presencial depois de meses de dificuldades enfrentando inteligências artificiais on-line. Num clima de incertezas, de cancelamentos ou de regras sanitárias mudando diariamente,  a presencia humana informa e tranquiliza melhor que o “aperto 1, aperto 2, aperta *”. Claro que não se trata de questionar a força do digital, mas de constatar que o conselho, a personalização e a reatividade vão agora levar a uma coabitação perene entre o físico e o on-line.

A então agência Wagons lits//Cook no RIo em 1934

A coabitação entre o assistante virtual das OTA e o “Travel advisor” das agências vai talvez ser ajudado pela nova importância dos “home agents”. Outra consequência da pandemia e das demissões em massa de funcionários, o número de agentes independentes, trabalhando em casa em relação ou não com agencias de viagens tradicionais, está crescendo. Seguindo o modelo da América do Norte, pode chegar a representar quase a metade dos empregos do setor. Com toda sua legitimidade vindo da sua capacitação profissional e do perfeito conhecimento dos seus clientes aos quais ele oferece um serviço extremamente personalizado, o “home  agent” vai ser um ator incontornável da retomada.

Nas novas agencias, experiências digitais e virtuais

Carregando a bandeira da defesa do consumidor, oferecendo uma experiência de serviço logo na preparação da viagem, oferecendo uma verdadeira “expertise” na escolha e na negociação do itinerário, as agencias estão investindo em vendas multicanais, mas também em locais de atendimento mais aconchegantes e renovados com recursos tecnológicos. Enquanto seu desaparecimento já foi anunciado varias vezes no passado, na época do corte das comissões ou mais recentemente com o crescimento das OTA e dos sites comparativos, o agente de viagens – agora Travel advisor, Travel planner ou até Travel designer-  vai mostrar na era da pos pandemia que ganhou mais legitimidade, sendo o verdadeiro Fenix de um setor que vai rapidamente recuperar todo seu peso econômico, social e humano.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

 

Em Glascow, o turismo ganhando um novo impulso

Reunindo mais de 20.000 participantes vindo de 197 paises, a COP26 foi não somente momento chave no consenso internacional sobre a luta contre as mudanças climáticas, mas também um encontro marcante para o turismo global. Frente as perspectivas de dois bilhões de turistas em 2030 – a democratização das viagens e a chegada dos emergentes aumentando o risco de overturismo-, muitas vezes acusados de ser uns dos grandes responsáveis da poluição  e das emissões de CO2, 300 atores do setor foram reunidos em Glasgow pela Organização Mundial do Turismo para discutir de medidas concretas e de planos de ações imediatas.

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A “declaração de Glascow” lembra em primeiro lugar que os signatários acreditam que os combustíveis fósseis, a agricultura não sustentável e os modos de consumo descontrolados contribuam para as mudanças climáticas, para a poluição e para a diminuição da diversidade biológica. Reequilibrar a relação com a natureza é fundamental não somente para a saude dos ecosistemas e para o bem estar  pessoal, social e econômico de todos, mas também para a retomada sustentável e o proprio futuro do setor. A declaração lembra também que as ações escolhidas deverão contribuir a reduzir de 50% as emissões de CO2 até 2030 e de 100% até 2050,  e se encaixar nos objetivos do Acordo de Paris.

O turismo marcou presencia na COP26

Os profissionais recusam que o setor seja culpabilizado, e eles acreditam que o turismo pode ser na vanguarda de um futuro de baixo carbone. O setor – suas empresas e seus empregos- poderá assim crescer preservando suas atividades, suas infraestruturas, os ecosistemas onde são localizadas, bem como o bem estar doa moradores e das populações impactadas. A força dos compromissos assumidos pela OMT e seus 300 membros ficou clara, tanto pela transparência do processo iniciado -já prevendo a publicação de relatórios anuais- , que pelas medidas anunciadas agrupadas em cinco eixos de trabalho e iniciadas nos próximos doze meses .

A descarbonização foi um dos pontos principais discutidos em Glasgow

Medir : Medir e publicar todas as emissões ligadas a viagens e turismo, com metodologias seguindo as diretivas da Conferência para medição, relatórios e controles, sendo todos transparentes e acessíveis.

Decarbonizar : Definir e atingir objetivos conforme aos conhecimentos atualizados para acelerar a transição no turismo, incluindo o transporte, as infraestruturas, as hospedagens, as atividades, os restaurantes, e a gestão dos dejetos. A compensação pode ter um papel subsidiária mas somente como complemento de  realizações comprovadas.

Regenerar : Proteger os ecosistemas, favorecer as capacidades de absorção de carbone da natureza. Preservar a biodiversidade, a segurança alimentar e  o abastecimento de agua.  Nas regiões onde o impacto climatico é mais forte, informar os visitantes e ajudar os moradores a se adaptar as mudanças.

Colaborar : Comunicar os dados sobre os riscos e as precauções para todos os envolvidos, trabalhar para que os planos de emergencia sejam o mais completos e eficientes. Reforçar a capacidade de ação com as autoridades, as associações, as empresas, os moradores e os visitantes.

Financiar : Conseguir os recursos e as capacidades operacionais suficientes para atingir os objetivos, especialmente na capacitação, na pesquisa, e das ações anunciadas nos planos apresentados.

A declaração de Glagow marca um passo importante da retomada do turismo

Lógica e necessária pelo impacto existencial que a sustentabilidade terá sobre seu futuro, a “declaração de Glascow”, ja foi assinada pela OMT, o PNUD e os participantes constando nesta lista (ainda com poucos brasileiros a não ser o grupo ACCOR).  A declaração ainda deve ser completada, especialmente no que trata dos impactos dessas medidas sobre os custos para os milhões de turistas provenientes das classes medias dos países desenvolvidos bem como das classes emergentes dos países en desenvolvimento. Como lembrava o Gilbert Trigano, fundador do Club Mediterranée, o turismo é um formidável fator de felicidade e de momentos de igualdade social. O turismo sustentável deverá crescer com tranquilidade e segurança, guardando essas características.

Jean-Philippe Pérol

 

As novas tendencias do turismo de luxo

As Sources de Caudalie, um Palace homenageando enoturismo e bem estar

Depois de quase dois anos de turismo reprimido, a esperada corrida para o exterior começou a virar uma realidade, mas seguindo ritmos muito diferentes, seja nos destinos – a abertura das fronteiras ainda sendo lenta- , ou seja nas motivações dos viajantes. Enquanto o setor corporativo recomeça com muita cautela, o lazer parece querer recuperar o tempo perdido e os países abertos para os brasileiros – ontem Mexico e Oriente Medio, hoje França, Portugal ou Suíça, amanha Estados Unidos e talvez América do Sul- estão sendo retribuídos com níveis de reservas até superior a 2019.

O Museu da Marinha, de guarda moveis dos Reis a templo do luxo francês

Se todos as viagens de lazer estão aproveitando essa onda, um setor parece aproveitar ainda mais essa fome de viajar: o luxo. O sucesso de dois eventos profissionais, France Excellence e o ILTM, mostrou que o luxo parece viver um momento privilegiado junto aos “key players” do turismo brasileiro. Focado na excelência francesa, o primeiro foi marcado por palestrantes que mostraram novas tendências do luxo – as vezes, assim como o diretor da Hermès para América do Sul- preferindo evitar a palavra luxo e falar somente de alta qualidade.  No último debate do evento, Caroline Putnoki, diretora da Atout France, e Alexandre Allard, criador do projeto Matarazzo, concordaram em dizer que luxo é, antes de tudo, cultura e exclusividade.

O Sofitel Legend conta a glória de Cartagena de las Indias

Tendo deixado a Bienal de Ibirapuera pelos salões do Tivoli, o ILTM foi uma outra demonstração da confiança dos profissionais internacionais na resiliência do mercado das viagens de luxo. “Palaces” e hotéis de luxo de Paris, Londres, Nova Iorque ou Lisboa festejam a volta do seus tradicionais hospedes brasileiros, e as reservas para os próximos vezes deixam esperar para 2022 níveis superiores a 2019. Estações de esqui dos Alpes franceses ou suíços, operadores do Portugal, do Egito, ou dos Estados Unidos confirmaram essas tendências. O otimismo geral terá agora que ser confirmado pelas companhias aéreas por enquanto muito discretas e que ainda devem dobrar sua oferta de assentos para voltar aos níveis anteriores a crise.

O Rosewood São Paulo, luxo juntando assinaturas de Nouvel e Stark

Mas alem da retomada dos próximos meses, os profissionais devem também aproveitar os encontros realizados nesses eventos – France Excellence, ILTM ou em breve Festuris– para responder as novas exigências do turismo de luxo. Os hotéis vão precisar ainda mais de inovação e de serviços personalizados, com vantagem para aqueles que têm uma historia própria ou um patrimônio arquitetural excepcional e souberam valorizar-los. Os agentes deverão propor experiências novas extremamente customizadas, e acima de tudo com conteúdos culturais valorizantes e se possíveis exclusivos.

Nas Ilhas de Tahiti, o Brando combina alto luxo e sustentabilidade

Um quarto pilar do turismo de luxo sai reforçado da crise: a atenção especial dada a sustentabilidade. Trata se de se assegurar de todas as componentes da viagem, dos cuidados com os transportes utilizados, da certeza dos processos dos hotéis reservados. É também de dar um verdadeiro conteúdo de respeito do meio ambiente e dos moradores, incluindo opções de compensação de emissão de carbone, ou em alguns casos envolvimento em projetos locais. Cauteloso com bling-bling, rico em conteúdos, o novo turismo de luxo oferece assim experiencias com quatro pilares: alta qualidade, exclusividade, cultura e sustentabilidade.

Jean-Philippe Pérol

 

Exclusive meetings in the Belmont Savute

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Turismo na Amazônia é mesmo para crianças?

Árvores gigantes, igapós, mistérios e perigos no imaginário amazônico

“- Vão viajar nesse feriado?

– Vamos sim, viagem de barco com a nossa filha!

– Que bom! E vão para onde?

– Vamos para Amazônia.

– Com criança??? Mas é um perigo, tantos insetos, bichos, calor… E de barco ainda! Nem pensar!”

Entrosamento, compreensão e diversidade ajudam o sucesso da expedição

Quantas vezes ouvimos esses comentários falando com amigos sobre as maravilhosas viagens que podem ser organizadas no Rio Negro ou no Tapajós! Comentários tão distantes de uma realidade acolhedora, vibrante e instrutiva quando se tratar de viagens bem preparadas com profissionais da região. E quantas crianças voltaram de lá com experiências de natureza e de vida inesquecíveis depois de aproveitar as praias e as águas, de passear nas matas, de ver pássaros, macacos ou jacarés e de ter emocionantes momentos de compartilhamentos com outras crianças brasileiras nas comunidades caboclas ou indígenas.

O Jacaré Açú pronto para zarpar do Mirante do Gavião

Para uma menina de 5 anos na hora de zarpar do Mirante do Gavião em Nova Airão, a instalação no barco Jacaré Açu ,traz os primeiros momentos de deslumbramento. Na cabine, com sua cama dupla, sua janela panorâmica, suas paredes de madeira bruta e seu kit de bem-vinda, a preocupação sanitária combina com a promoção do artesanato da região. Na sala de jantar, com uma grande cesta cheias de balas, de chocolates e de pirulitos. No salão de jogo um imenso sofá e um telão de televisão parecem esperar a criançada. No deck é possível correr  da popa para proa, ou de bombordo a estibordo para encontrar as mais bonitas vistas sobre a cidade, o Rio Negro ou as Anavilhanas.

O bicho pau fascina pela sua fragilidade

Na primeira parada está sendo construído o hotel Madadá e os quatro quilômetros da trilha das Cavernas são o primeiro teste. As crianças fazem questão de não serem carregadas, e seguem com atenção às instruções de segurança: não tocar em nada, não sair da trilha, não fazer barulho e sempre andar perto de um adulto. Cada uma das grutas é uma descoberta e os morcegos sobrevoando o grupo só assustam alguns adultos. Se a falta de concentração é difícil para eles na procura de macacos na copa das árvores, os  pequenos são muito interessados pelas formigas, caranguejeiras, borboletas, bicho-paú ou lagartas, mais fácil de observar durante todo o percurso.

A magia do contato com os animais

Subindo o Rio Jauaperí, a vida selvagem não falta. Botos tucuxis ou cor de rosa  são visto desde o deck, os passeios nos igapós são ocasiões de ver macacos-prego ou macacos-aranha, tucános, araras, papagaios e gaviões. À noite jacarés e bacuraus são momentos de emoção, bem como os gritos dos guaribas, dos sapos e das ariranhas. Com a tranquilidade trazida pela experiência dos guias de selva e a proximidade dos pais, a curiosidade das crianças supera muito o possível medo. Assim, durante a única noite num acampamento montado na selva do Rio Xixuaú, escuta-se uma criança deitada na rede perguntando para o pai: “Papai, vamos pegar a lanterna e ir na mata procurar uma onça?”….

As delicias de um banho seguro nas águas do Rio Negro

Quentes, tranquilas, com muito areia e poucos bichos, as águas negras são perfeitas para nadar e mergulhar. Se as praias brancas, virgens e infinitas só aparecem a partir de agosto tanto no Rio Negro que no Jauaperí, é possível tomar banho o ano inteiro com as devidas precauções, escolhendo no rio principal ou nos igarapés, um lugar livre de galhos submersos, de lodo, de capim ou da presença de animais. Pulando do deck ou agarrados numa boia, nadando ou remando numa canoa, os rios amazônicos trazem às crianças e às famílias muitos momentos de alegria.

O intercãmbio com as comunidades é uma experiência única

Para crianças e adultos as maiores emoções numa viagem para Amazonia são os encontros. Tendo viajado com a mãe no mundo inteiro, a filha de uma das maiores figuras do trade brasileiro fala ainda dez anos depois dos momentos passados se pintando de urucú com uma menina que a levou na sua casa de palafitas: “foi a melhor experiencia de viagem da minha vida”. Brincando com crianças nas comunidades visitadas – essa vez de Xiparinã-,  conhecendo as suas moradias e modo de viver, compartilhando jogos ou atividades, a pequena viajante levou para São Paulo não somente emoções e alegrias, mas também uma visão muito melhor da realidade e do futuro do Brasil. Sim, turismo na Amazônia é mesmo para crianças.

Jean-Philippe Pérol

Olhar juntos as águas do Rio Negro ou do Tapajos, sempre um grande momento para pais e filhos

Bilionários inaugurando mais uma vez o turismo espacial?

Dennis Tito, o primeiro turista espacial da história

Em 2002, na abertura da primeira edição do ILTM de Cannes, o Diretor do salão destacou um dos expositores que , segundo ele, mostra o caminho do turismo do futuro: era uma operadora que oferecia por uns 20 milhões de USD o primeiro passeio no espaço. Co-presidindo o evento, o então diretor geral da Maison de la France, fez questão de lembrar que era sem dúvidas um acontecimento, mas que com certeza os viajantes que aceitavam de pagar um tal preço par uma experiência de alguns minutos não representavam mais que uma micro-niche que não ia acrescentar muitas receitas ou muitos empregos ao desenvolvimento sustentável do turismo internacional.

Guerra de egos ou nova era do turismo mundial?

Quase vinte anos e dez clientes depois, o turismo espacial volta a ser noticia, essa vez como competição de ego três bilionários mediatizados, todos com grandes investimentos nos transportes para o espaço: Egon Musk da Tesla- que teria sempre sonhar em abrir a colonização da planeta Mars mas já conseguiu para SpaceX fabuloso contratos com a NASA-, Richard Branson da Virgin – interessado há anos pelas viagens supersônicas e as ascensões em balões através da Virgin Galactic-, e Steff Bezos da Amazon – sonhando desde 2000 com colônias espaciais flutuantes construídas e lançadas pela sua empresa especializada Blue Origin.

A largada do VSS Unity desde seu lançador

Se nenhum dos três poderá alegar ser o primeiro turista espacial ( Dennis Tito no 21 de Abril 2001, e depois dele uns dez milionários pagaram nos últimos vinte anos uns 20 milhões de USD para viajar a bordo de foguetes Soyuz), Richard Branson foi mesmo o primeiro a viajar a bordo do seu proprio navio espacial. No dia 11 de julho, o excêntrico empresário sai na frente com três outros passageiros e dois pilotos no VSS Unity, levado pelo lançador VSS Eve. Depois da largada, subiu até 90 quilômetros de altura -10 quilômetros acima do limite do espaço definido pela Aeronáutica estado-unidense – e foi pousar na base de Spaceport no Novo México onde nada menos que Elon Musk esperava para reservar uma vaga num próximo voo.

No deserto do Texas, o Blue Origin de Steff Bezos

Jeff Bezos saiu nove dias mais tarde, dia 20 de julho, com o seu foguete New Shepard, atingiu 107 quilômetros de altura, e depois de dez minutos voltou abrindo os três paraquedas da capsula para pousar no deserto do Texas. Se não foi na dianteira, Jeff levou vantagem sobre o seu rival. Em primeiro lugar ultrapassou a barreira do espaço, 100 quilômetros de altura segundo as convenções internacionais. Em segundo caprichou no conteúdo emocional, com a presencia a bordo de vários objetos carregados de símbolos fortes: colar da sua mãe, pedaço do avião dos irmãos Wright, medalhão de Montgolfier, e convite a pioneira da aviação americana Wally Funk, hoje com 82 anos.

Olivier Daemen junto com Jeff Bezos, Mark Bezos, e Wally Funk

Jeff Bezos superou também Richard Branson em levar um passageiro pagante – o montante exato, superior a 20 milhões de USD, não foi porem divulgado. O feliz escolhido foi um neerlandês de 20 anos, Oliver Daemen, que foi presenteado pelo pai, dono do hedge fund Somerset Capitol Partners. Oliver tinha chegado em segundo lugar num leilão disputadíssimo de 75 pessoas, mas o vencedor teve que adiar a viagem e seguirá nos outros voos programados, dois em 2021 e vários em 2022. Nessas previsões de turistas espaciais, a Blue Origin tem ambições mais modestas que a Virgin Atlantic que já vendeu mais de 600 passagens de USD 250.000 cada e está programando 400 voos comerciais nos próximos anos.

O impacto do turismo espacial já preocupa os ambientalistas

Mesmo se os três bilionários insistam na dimensão sustentável e social desses projetos, as reações da imprensa bem como das mídias sociais foram pelo menos cautelosas, pouco jornalistas ou influenciadores sendo convencidos que os bilhões gastos nesses voos ajudaram ou ajudarão a encontrar soluções as crises de curto ou longo prazo, e muitos deles achando que essas viagens não se encaixa nas novas tendencias de sustentabilidade e de responsabilidade social. Para os profissionais, mesmo nas hipóteses mais favoráveis de algumas centenas de passageiros nos próximos anos, o turismo espacial,  continua pertencendo ao distante futuro.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

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