As duas memórias de Montmartre

Dominando Paris, o Sacré Coeur de Montmartre

Dia 12 de Outubro, a Câmara Municipal de Paris aprovou um pedido de tombamento da basílica do Sacré Coeur de Montmartre. Aparentemente técnica, com o objetivo de conseguir verbas do governo para as obras de restauração do edifício, a decisão reabriu uma violenta polémica. Deixando do lado a discussão em volta do estilo romano-bizantino escolhido pelo arquiteto Paul Labadie, que venceu a licitação frente a mais de 70 concorrentes, a briga é antes de tudo política, fruto das divisões entre direita conservadora e esquerda revolucionaria que começaram em 1789 e culminaram em 1871 com a repressão sangrante da Commune de Paris.

Salvar Roma e a França, a esperança de Legentil e Fleury

Se foi no século III que o Monte dos Martírios ganhou esse nome com a morte do bispo São Dênis, a história do Sacré Coeur começou en dezembro 1870. Convencido que a derrota dos exércitos franceses frente aos alemães era  a consequência  dos pecados acumulados pelos franceses desde a Revolução, dois católicos sinceros, Alexandre Legentil e Hubert Rohault de Fleury fizeram a promessa de construir em Montmartre uma igreja consagrada ao Coração de Jesus. Financiado por pequenas e grandes contribuições de quase dez milhões de fieis, o santuário traria o perdão divino e acabaria com as desgraças da França.

O Montmartre dos moinhos, com os canhões da Commune

A guerra civil atrasou o projeto, e ampliou os antagonismos. Estes ficaram mais fortes ainda quando o governo conservador escolheu de dar para construção o exato local onde o povo de Paris tinha iniciado o seu levante. Desde então, o Sacré Coeur ficou associado a ordem moral e a repressão social. Durante toda a construção – que demorou 48 anos-, políticos e historiadores se dividirem entre aqueles que apoiavam mais um voto de fé da França “filha primogénita da Igreja” e outros que achavam que a basílica era uma afronta a memória dos 30.000 parisienses massacrados durante a semana sangrenta de maio de 1871, um rastro através os monumentos de Paris, até os últimos fuzilamentos no cemitério do Père Lachaise.

Frente a basílica, a praça Louise Michel

A decisão da Câmara Municipal de Paris reacendeu o debate entre as duas Franças. Mas mesmo com a ferrenha oposição da esquerda e a incerta abstenção dos ecologistas, o Sacré Coeur é agora monumento historico. Para o reitor da basílica, os 11 milhões de visitantes vão poder aproveitar a decisão com varias melhorias, incluindo a abertura de novos acessos para pessoas com deficiência e a renovação do órgão. Outros projetos deveriam também ser anunciados em breve, ajudando Montmartre a ser inscrita no patrimônio mundial da UNESCO. E para reconciliar ambas as partes, a prefeitura lembrou que a área tombada incluiu a praça Louise Michel, homenagem a mais emblemática heroína da Commune de Paris.

Jean-Philippe Pérol

O Sacré Coeur dominando Paris

Boicotar a Copa?

O famoso estádio Al Janoub

12 anos depois da decisão da FIFA atribuindo o Mundial 2022, e a menos de dois meses do jogo de abertura, personalidades da cultura, do esporte e da politica estão  apoiando um movimento de boicote da Copa do Mundo no Qatar. Lançada na India, o ideia pegou força na Europa e na América do Norte, atraindo algumas importantes lideranças regionais e municipais, especialmente na Alemanha (Berlim), na Bélgica (Bruxelles) e na França (Lille, Lyon, Marselha, Bordeaux e Paris). Se é difícil antecipar até onde essa onda pode subir, é certo que ela já preocupa organizadores, patrocinadores, jogadores, autoridades e operadoras!

2 Dezembro 2010, a FIFA anunciando a escolha do Qatar

Logo que foi anunciada, a escolha do Qatar foi muito polémica. Mesmo sabendo que depois do Brasil em 2014 e da Russia em 2018, era logicamente a vez de um pais da Ásia, mesmo reconhecendo a popularidade do futebol no mundo árabe, mesmo com a qualidade do projeto, a decisão foi imediatamente criticada por vários motivos: um pais muito pequeno para um evento tão grande,  a ausência de tradição esportiva, um clima muito quente para atletas de alto nível, uma segurança complicada nessa região perturbada, e as rigorosas normas alimentares (proibição do alcool) ou comportamentais (restrições temidas para mulheres).

O estádio Lusail onde será jogada a final

O movimento para o boicote se apoia porem em primeiro lugar nas condições desumanas que teriam sido impostas aos imigrantes que construíram os estádios. A partir de fontes paquistaneses e indianas, o jornal The Guardian anunciou em fevereiro 2021 que um mínimo de 6.751 operários estrangeiros tinham morridos em consequências de maus tratamentos ou acidentes. Mesmo se o Qatar e depois a FIFA apresentaram números bem diferentes – 37 mortes nos últimos 11 anos, sendo 34 de doenças e 3 de acidentes-, e se a legislação trabalhista local melhorou no período, essa terrível denuncia foi, e ainda é, o primeiro incentivo para o boicote.

O Hamad Airport foi premiado em 2021 como o melhor do mundo

O outro grande argumento preocupante é um impacto ambiental do evento, devido a necessária refrigeração dos estádios mas também ao grande número de voos fretados. Muitos dos 1,2 milhão de visitantes devendo se hospedar fora do pais, são esperados 160 voos diários vindo dos países vizinhos. O Qatar já garantiu que o evento terá um balance carbone neutro, mas não conseguiu convencer os críticos, enfrentando uma oposição crescente dos ecologistas. Para o Presidente do comité de organização, o sucesso do evento será a melhor forma de convencer para os opositores, e contribuirá a rebater muitos argumentos as vezes discriminatórios.

O Hotel Souk e a Ilha do divertimento

Boicotar ou não? É surpreendente de levantar essa bandeira 12 anos depois da decisão da FIFA. Quais que foram os critérios da época, a escolha do Qatar levou a Copa para novos lugares e homenageou o crescimento do futebol no mundo árabe. E se os progressos podem ser julgados insuficientes, as condições trabalhistas, ambientais e societais são hoje melhores do que eram antes. Boicotar em nome da política, ato contrário aos ideais esportivos desde a Grécia antiga, significaria penalizar os atletas que estão se preparando há 4 anos, bem como mandar um recado de desconfiança para os organizadores e os patrocinadores dos futuros grandes eventos ou dos Jogos Olímpicos.

Al Barari, o novo conceito de balneário do deserto

Mas são sem dúvidas os atores do turismo que seriam os mais prejudicados com o eventual boicote. Os turistas, que estão esperando esta festa, muitas vezes com amigos ou familiares. As operadores e as agências de viagem internacionais, que já investiram há anos na compra das entradas, na consolidação de pacotes e na comercialização. As companhias aéras que já fechar as suas programações de voos regulares ou de voos fretados. Os profissionais do turismo Qatari que investiram em empreendimentos que devem fazer do pais um novo destino turístico, com parques temáticos, museus, e complexos hoteleiros espalhados nas praias e no deserto.

A FIFA pediu que os comportamentos respeitam tanto as tradições dos moradores que os direitos dos visitantes

Recusar o boicote não é porém negar os progressos que os grandes atores da Copa devem com certeza fazer nas questões que preocupam os viajantes, seja no bem estar dos trabalhadores, no respeito das metas ambientais, na luta contre as discriminações e a favor da diversidade, ou na transparência da informação. Esse recado deve ser mandado para o Qatar para a Copa de 2022, mas o principal destinatário deve ser a FIFA, para que as futuras Copas sejam atribuídas na base de critérios claros, menos mercantis, integrando os valores sem as quais nem os grandes eventos nem mesmo os destinos turísticos do século XXI não poderão mais existir.

Katara Towers, um dos prédios icônico da Copa

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Megalópoles ou lugares exclusivos, surpresas para quem quer viajar falando francês

Paris, agora segunda cidade mundial onde se fala francês

Falado por  mais de 320 milhões de pessoas, o francês é o quinto idioma mais falado no mundo, o segundo na Europa e o quarto mais utilizado na Internet. Uma longa História, uma cultura outrora universal, um extenso passado colonial  e uma pequena emigração explicam que 93 milhões de jovens estudam em francês e que 50 milhões escolham de aprender a “língua de Molière” no colégio ou na universidade. 59 países são membros plenos da Organização internacional da Francofonia, dos quais 29 utilizam o francês como idioma oficial. E algumas projeções antecipam que o dinamismo demográfico africano deve levar a mais de um bilhão de francófonos antes do final do século.

Nas margens do Rio Congo, a maior cidade francófona do mundo

O crescimento do francês na África explica também o novo mapa das grandes aglomerações urbanas aonde se fala e se vive em francês. Se Paris era até alguns anos atrás a maior cidade francófona do mundo, a cidade luz perdeu a posição há cinco ano para Kinshasa. Com mais de 13 milhões de moradores, capital da República democrática do Congo onde 51% dos 90 milhões de habitantes falam francês diariamente, a cidade fundada em 1881 pelos colonizadores belgas consta agora em primeiro lugar deste ranking segundo as estatísticas da  Organização internacional da Francofonia.

Em Casablanca, a força da cultura marroquina combina com a francofonia

Kinshasa não é por sinal a única cidade da África que consta nesse ranking das dez maiores cidades francófonas  do mundo. Além de Casablanca e de Alger, na África do Norte, constam também nesta lista cinco capitais de países da África ao Sul do Saara:  Abidjan, Yaoundé, Bamako, Uagadugu e Dakar. A Africa já é o primeiro continente onde se fala francês com 47% do total, frente a Europa (incluindo então a própria França) com 46%. Ainda segundo a Organização internacional da francofonia, a América do Norte -principalmente o Quebec e a Luisiana- representa 4 %, a América latina e o Caribe – com Haiti, o Caribe francês e a vizinha Guiana- 2 %, e a Ásia Oceania – incluindo as Ilhas de Tahiti- 1 %.

Montreal, capital do francês do Novo Mundo

Assim as dez maiores megalópoles francófonas  são hoje as seguintes:

  • 1. Kinshassa (República democrática do Congo)
  • 2. Paris (França)
  • 3. Abidjan (Costa de Marfim)
  • 4. Yaoundé (Camarões)
  • 5. Casablanca (Marrocos)
  • 6. Bamako (Mali)
  • 7. Uagadugu (Burquina Fasso)
  • 8. Alger (Algéria)
  • 9. Dakar (Senegal)
  • 10. Montreal (Quebec, Canadá)

Terceira megalópole francófona, Abidjan surpreende pelo dinamismo

Para os 220.000 brasileiros que falam francês, e todos aqueles que amam a França, são assim mais destinos de viagens onde o intercâmbio com os moradores e o mergulho na cultura local viram ocasiões de experiências mais ricas e interessantes, com mais opções que se pode imaginar. Aos destinos tradicionais como Paris, Genebra, Bruxelas ou Montreal já se juntaram Nova Orleans, Casablanca, o Caribe francês ou as Ilhas Seychelles. A Tunísia ou o Benim atraiam agora seus primeiros brasileiros, e devemos ver amanhã muitas cidades africanas apostar em fluxos de turistas interessados em descobrir os novos rumos da francofonia do século XXI.

Jean-Philippe Pérol

Em Tunis, a catedral ainda conta a história do protetorado

Qual país será líder do turismo internacional em 2022?

A Grécia deve ser um dos grandes sucessos da temporada de 2022

Enquanto nem acabou a temporada de verão do hemisfério Norte, a briga pela liderança do turismo mundial já recomeçou e os principais destinos do turismo internacional já publicaram suas previas e suas análises dos resultados 2022. Os responsáveis políticos são unânimes a destacar a resiliência do setor, com resultados já próximos dos recordes de 2019, e apontam para algumas das tendências já  destacadas pelos profissionais. As lições da crise bem como as ações a priorizar divergem porém de um pais para o outro, bem como as projeções para o segundo semestre. Uma competição que deixa quase completamente abertas as apostas para as lideranças, tanto em numero de turistas que em receitas.

A Torre Eiffel voltou com uma atratividade renovada

A ministra francesa, Olivia Grégoire, anunciou na semana passada que o país devia receber esse ano de 65 a 70 milhões de visitantes. Seriam 20% a menos que os 89 milhões anunciados em 2019, mas, segundo ela, o suficiente para deixar a França na liderança mundial en numero de entradas turísticas. Dos visitantes internacionais, que representaram um terço do faturamento do setor, os mais numerosos  foram os europeus que já tinham voltado o ano passado. Mas o crescimento mais espetacular vem das Americas. O “revenge travel” e a fraqueza do euro deram um impulso espetacular a chegada de estado-unidenses (e de brasileiros) que compensaram em parte a ausência de chineses, japoneses e russos.

Cannes e a Riviera foram destaques da temporada de verão

Sem estatísticas convincentes, é ainda cedo para definir quais regiões francesas, além de Paris e da Riviera,  foram as mais beneficiadas pela retomada. Algumas tendências fortes foram porém destacadas pela ministra: as viagens de trem, o turismo de proximidade, o turismo rural, ou o turismo itinerante. O sucesso do turismo de luxo, especialmente em Paris, levou a uma alta dos preços de mais de 35% nos hotéis e terá um impacto positivo nas receitas turísticas que deveriam atingir os níveis de 2019. Para confirmar as projeções otimistas da ministra, a França deverá porem superar os problemas do setor: falta de mão de obra, inflação ameaçando principalmente o turismo dos seniors, e lentidão da incerta retomada das viagens de negócios.

A Espanha deve receber mais de 65 milhões de turistas

A Espanha publicou também seus resultados dos sete primeiros meses do ano, com números detalhados e projeções mais cautelosas dos profissionais. 39,3 milhões de turistas estrangeiros já chegaram no país até o final de Julho, 300% a mais que em 2021, mas ainda 17% abaixo dos números atingidos em 2019.  As estatísticas da Frontur  mostram que o primeiro mercado volta a ser o Reino Unido com 8,4 milhões de viajantes, seguido da Alemanha com 5,5 milhões e da França com 5,3 milhões. As regiões mais beneficiadas foram a Catalunha com 8 milhões de visitantes, as Ilhas Baleares com 7,5 milhões e as Ilhas Canárias com 6,8 milhões. As receitas turísticas são estimadas a final de Julho em 47 Bilhões de Euros, uns 10% abaixo dos recordes de 2019.

O turismo estado-unidense quer privilegiar a qualidade

Com os Estados Unidos insistindo mais em resultados qualitativos – somente 55,4 milhões de turistas internacionais mas umas receitas devendo chegar a  USD 200 bilhões, os três grandes líderes do turismo mundial já anunciaram suas estimativas de resultados para 2022, e os dois pódios (número de turistas e volume de receitas) estão se definindo. Para as receitas de turismo internacionais, os estado-unidenses devem seguir na absoluta liderança, seguindo da Espanha, mas a França deveria se aproximar do segundo lugar devido a seus excelentes resultados no turismo de luxo.

Na era do turismo sustentável, um novo ranking dos destinos lideres?

Para os números de turistas internacionais, o terceiro lugar ficará com os Estados Unidos (em parte por escolha própria), mas a briga pelo primeiro lugar será certamente muita apertada entre os franceses e os espanhóis. Lamentando o foco dado aos resultados quantitativos pelos políticos e pela mídia,  muitos consumidores, moradores e profissionais desses dois países pensam porém que a verdadeira liderança do turismo internacional deveria ser definida somente por critérios econômicos, sociais e ambientais. O novo pódio poderá assim ficar aberto a muitos novos competidores.

Jean Philippe Pérol

 

Chateau Malartic Lagravière , uma aventura dos dois mundos

Uma maquete de galião conta as origens da aventura do Chateau Malartic

Nas garrafas de Chateau Malartic Lagravière, um galeão de três mastros e três fileiras de canhões lembra que esse grand cru de Pessac Leognan tem uma historia peculiar. No final do século XVIII, o vinhedo foi comprado pelo Conde de Malartic, almirante do Rei Luis XV, que lutou do Quebec até as ilhas Mascarenhas onde morreu. Seus herdeiros administraram a propriedade até 1850 quando foi vendida para a Senhora Arnaud Ricard,  uma empresaria cujo padrasto era comandante da marinha mercante. Foi ele que levou para a propriedade a maquete do navio “Marie Elizabeth” que ele comandava e dentro do qual  envelheciam os barris de la Gravière.

O castelo continua sendo a residência familial

Os atuais proprietários, a família Bonnie, compraram o Château Malartic Lagravière em 1997. Seduzidos pela localização ensolarada dos 53 hectares, e pela classificação tanto dos tintos que dos brancos como Grand Cru Classé, tiveram logo a ambição de devolver a este vino um lugar de destaque, investindo em tecnologias inovadoras e savoir faire reconhecidos. Depois dos pais, Alfred et Michèle , são agora os dois filhos, Véronique et Jean-Jacques, que administram a propriedade, com duas grandes prioridades: preparar os vinhedos para as mudanças climáticas, ambientais e sociais,  e desenvolver o enoturismo oferecendo aos visitantes umas inesquecíveis experiências.

A reconhecida preocupação ambiental vai alem do vinhedo

O respeito pelo meio ambiente integra todo o processo de produção. O trabalho do solo com material orgânico, a aração das parcelas (algumas delas com cavalos), bem como o tratamento das parreiras sem inseticidas e sem herbicidas seguem as recomendações da agricultura racional. Foi assim que o Château Malartic Lagravière conseguiu em 2015 a classificação de « Haute Valeur Environnementale » (Alto valor ambiental), o mais alto dos certificados de boas práticas ambientais outorgados pelo Ministério francês da Agricultura. A família foi mais longe, levando as boas práticas para as construções, a fauna, a flora e a gestão dos riachos que atravessam os vinhedos, conseguindo assim uma certificação ISO 14001 (gestão ambiental).

Severine Bonnie, comentando pessoalmente as degustações com os visitantes

O Château Malartic-Lagravière ampliou a partir de 2019 sua oferta de enoturismo, focando experiências personalizadas e exclusivas. Devendo ser feitas com reserva antecipada, as visitas são organizadas pela equipe de Severine Bonnie. Com vários itinerários, « Premium Château », « Atelier fromages », ou « Cépages & Découverte », a descoberta das parcelas e das adegas sempre acaba com uma degustação. As ofertas mais procuradas são os cursos de cozinha com harmonizações que foram premiado em 2020 pelo Award Best of Wine Tourism  dos Great Wine Capitals.  Focando na gastronomia, Severine lançou também durante a pandemia “As 4 estações de Malartic”, um livro com 24 receitas de família que podem ser preparadas e degustadas durante os cursos, uma ideia criativa que foi consagrada com a entrega do Trofeu Enoturismo 2022. 

No pé da cordilheira, a aventura argentina do Chateau Malartic

A nova aventura do Chateau Malartic não podia ser limitada nas colinas da região de Graves. Em 2005 os Bonnie comprar perto de Mendoza, nos pés da Cordilheira, 130 hectares  no deslumbrante Clos de los Siete. Tendo aproveitado o savoir-faire acumulado pela família em Bordeaux, a bodega DiamAndes  se destaca hoje pela excelência dos seus vinhos elaborados com Malbec, Cabernet Sauvignon, Viognier ou Chardonnay. A imponência da sua arquitetura, sua imenso terraço com vista para os Andes e seus vinhedos, suas obras de arte, seu bar-restaurante aconchegante e sua adega impressionam o visitante fascinado por esse novo mundo do vinho.

O acerto na data das vindimas é a chave da qualidade do vinho

A retomada, num mundo do turismo mais caro e mais exclusivo

A Nova Zelândia deixou claro que não quer atrair mochileiros

Característica importante da retomada no Brasil, a explosão dos preços das viagens, tanto nacionais que internacionais,  parece mesmo ser uma tendência global. Na Europa, nos Estados Unidos e até na Nova Zelândia, autoridades e profissionais estão anunciando que os custos que dispararam com a pandemia e a guerra vão inviabilizar muitas práticas de turismo “low cost”. Foi assim por exemplo que o presidente da Ryan Air, Michael O’Leary anunciou essa semana que os tempos de vendas de passagens promocionais a 10 euros ou menos, outrora bandeira-mor da empresa e da sua rival Easy Jet, já tinham acabado.

Reabrindo seu pais depois de dois anos de isolamento sanitário, o ministro neo-zelandês do turismo foi ainda mais longe (ou pelo menos mais claro). Numa entrevista com o  The Guardian , Stuart Nash declarou ter “nojo de viajantes sem dinheiro” e que não queria mais “atrair turistas que gastam USD 10 por dia, comendo macarrão pré-cozido“. Afirmou que não devia ter vergonha de uma nova estratégia de marketing, focada em atrair turistas “de alta qualidade”, seja gastando muito dinheiro e contribuindo assim a melhorar a economia do pais. 

Nova Zelandia quer rentabilizar as suas belezas

As declarações do ministro já abriram uma polémica. Profissionais do setores já lembraram que os turistas mais humildes têm um papel importante. Seus gastos globais podem ser mais importantes porque as estadias muito mais longas compensam o baixo nível de gasto diário. Alem disso muitas atividades tem preços fixos e não dependem do poder aquisitivo de cada um. É o caso dos museus, dos parques, dos transportes públicos ou dos teleféricos. Com menos recursos, os viajantes de classe media têm em geral um impacto menor sobre o meio ambiente, especialmente nas pegadas de carbone.

Rentabilidade, democracia, liberdade e meio ambiente no debate do turismo exclusivo

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Jean Philippe Pérol
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Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Os EE-UU apresentam uma estratégia inovadora para o turismo pos crise

Gina Raimondo, Secretaria de Comercio, apresentou sua estratégia inovadora

A secretária de Comércio dos Estados Unidos, Gina M. Raimondo, anunciou a semana passada uma nova estratégia nacional para indústria das viagens e do turismo. Aproveitando as lições da crise, e as novas exigências dos turistas, dos profissionais e dos moradores, ela reafirmou os esforços do governo federal para apoiar o setor, e anunciou suas novas metas. No prazo de 5 anos, o objetivo  é de atrair 90 milhões de visitantes internacionais por ano, de chegar a receitas internacionais de US$ 279 bilhões anualmente, e de conseguir que essas receitas apoiam a criação de empregos em todos o território  estadounidense.

Atropelados pela crise, os grandes destinos aderiram as novas ideias

Esse nova estratégia é uma virada em relação a politica mais quantitativa definida em 2012 pelo administração Obama, que tinha o objetivo de 100 milhões de visitantes mas previa gerar somente US$ 250 bilhões de receitas por ano. A Secretária enfatizou também que a retomada oferecia uma oportunidade única de construir uma industria turística mais inclusiva, mais justa, mais responsável e mais resiliente, com resultados concretos atrelados a quatro metas: promover o destino, facilitar as viagens, desenvolver novos lugares ou comunidades, e focar um turismo mais sustentável.

Brand USA CEO Chris Thompson speaking at the IPW conference in Orlando.

Thompson, CEO de Brand USA, convenceu os profissionais durante o IPW

Sem ser uma novidade (nos anos 90, Malta se destacou anunciando que queria 20% de turistas a menos e 20% de receitas a mais. Nos anos 2000, a França já tinha definido a ambição do “mieux tourisme” para substituir o “plus tourisme“), a virada para uma politica mais qualitativa foi elogiada pelos profissionais. Falando no US Travel Association’s IPW, o CEO de Brand USA lembrou que somente 79 milhões de turistas visitaram o pais em 2019 e que, mesmo sem a crise que cortou 75% dos fluxos, os  100 milhões de turistas não teriam sido atingidos. E concluiu: ” Nosso objetivo agora não é de acolher o mundo inteiro, é de maximizar o turismo como uma exportação, sendo as receitas o primeiro indicador a ser seguido.”

O Museu do Primeiros Americanos em Okhlahoma City

A nova estratégia confirme o papel central de Brand USA na promoção internacional, em estreita ligação com os profissionais e com o apoio de outros órgãos do governo como Homeland Security ou o State Department. Essas sinergias são desenvolvidas a todos os níveis, inclusive dos vistos, um gargalho importante em alguns consulados. Mas a prioridade dada ao turismo pelo governo federal foi alem de medidas pontuais, o turismo foi também beneficiado com um fundo especial  viabilizando todo o projeto e votado de forma bipartidária. Com o Restoring Brand USA Act, foram então um recorde de US$ 250 milhões que o Presidente Biden colocou a disposição da retomada do setor.

Biden assinando o pacote incluindo o Brand USA Recovery Act

Num turismo pos Covid que está ainda se definindo, frente aos países europeus que parecem hesitar a escolher seu caminho e a assumir os investimentos indispensáveis, frente a novos concorrentes da Asia ou do Oriente Medio que conseguem definir novas estratégias e achar os financiamentos, os Estados Unidos impressionaram  tanto pela virada estratégica que pelos meios mobilizados para atingir metas claras com datas definidas, em sinergia total com os profissionais do setor . Ao final de contas, os viajantes terão assim múltiplas oportunidades de viver novas experiências nesse grande destino turístico.

Jean Philippe Pérol

 

 

Nice lamentando a ausência dos turistas russos

A igreja Saint Nicolas, testemunha de uma longa amizade franco-russa

Turismo de proximidade ou turismo internacional?

A Embratur apoiou o crescimento do turismo de proximidade

Valorizando viagens no raio máximo de 300 à 500 quilômetros da sua casa, de carro, de trem ou de ônibus, sem atravessar fronteiras e sem precisar de avião, o turismo de proximidade cresceu durante a pandemia. Foi para muitos destinos a única forma de manter alguma atividade no setor. E tradicionalmente focada nos mercados internacionais, as ações promocionais dos grandes atores mundiais voltaram para o turismo domestico. A Italia lançou o Bonus Vacanze para as famílias com baixa renda, a Malásia criou isenção fiscal para os gastos internos, a Costa Rica ampliou os feriados locais, a Atout France lançou  #CetÉtéJeVisiteLaFrance, e no Brasil, a Embratur realizou a campanha “ser brasileiro é estar sempre perto de um destino incrível”.

A França focou varias campanhas no turismo de proximidade

Na hora da retomada, o turismo de proximidade não perdeu essa dinâmica, encontrando importantes apoios junto a vários setores da sociedade. São em primeiro lugar os profissionais que nunca esquecerem que o turismo interno representa nos países da OCDE até 75% das receitas do setor, e que essas receitas são menos sujeitas as crises sanitárias, políticas ou climáticas que as receitas provenientes do turismo internacional. Mas dois fatores levaram o turismo de proximidade a novos apoios: os políticos, que viram num consumo local um meio de melhorar mais diretamente a vida dos moradores, e os defensores do meio-ambiente que mediram o menor impacto de um turismo utilizando menos transporte.

A rivalidade trem/avião é parte da briga proximidade/internacional

A valorização do turismo de proximidade está porem levando a alguns excessos. Regiões ou cidades estão escolhendo estratégias minorando o turismo internacional, e especialmente o turismo intercontinental, cortando as ações de promoção, reduzindo as ligações aéreas,  valorizando areas ou atividades pouco acessíveis a  uma clientela estrangeira. Os novos objetivos dessas políticas turísticas são claramente políticos. E mesmo quando só podem ser aplaudidos por todos – por exemplo quando favorecem a sustentabilidade, a inclusão ou os equilíbrios territoriais -, faltam as ações ou a comunicação para poder assim incrementar as experiências do viajante vindo do outro lado do mar.

Em Nova Iorque, os estrangeiros representam  20% dos visitantes e 80% das receitas

Na maioria dos grandes destinos, muitos atores do turismo não poderiam sobreviver a uma queda duradoura  dos fluxos internacionais que representam um terço das receitas do turismo global. Na França, líder mundial, os turistas internacionais representam 62% do total em Paris e mais de 30% nas capitais regionais. Nesse total, é importante anotar que os gastos médios dos viajantes intercontinentais – Chineses, Estado-unidenses, Japoneses ou Brasileiros- são pelo menos três vezes superiores aos gastos dos europeus, sendo imprescindíveis para os hotéis de luxo, os restaurantes estrelados ou as lojas especializadas.

Cidades catalãs apostam na proximidade

O turismo de proximidade e o turismo internacional não devem ser apresentados com escolhas conflitantes mas como estratégias complementares. Não somente por razões econômicas, mas pela natureza mesmo do turismo. O turismo nasceu como abertura ao mundo, descoberta e intercambio. Hoje ele integrou mais valores na sustentabilidade, no respeito das culturas locais e na vontade de convivência com os moradores. É essa diversidade que faz a atratividade dos grandes destinos turísticos. O crescimento do turismo de proximidade e o amadurecimento do turismo internacional, longe de ser opostos, deve então continuar a ser complementares.

Jean-Philippe Pérol

O novo turismo de luxo é também brasileiro!

O Rosewood do Cidade Matarazzo, novo ícone do luxo paulista

O sucesso do último ILTM LATAM mostrou que a retomada do turismo de luxo é agora um fato consumado. Enquanto a China continua quase fechada e lutando para manter seu zero Covid, a Russia paralizada com os boicotes ligado a guerra, e o Japão sempre cauteloso em tempo de incerteza, o Brasil está virando o segundo mercado internacional. E em muitas capitais europeias ou americanas, os brasileiros já estão representando mais de 10% da clientela dos palácios, dos shoppings ou dos restaurantes estrelados. A explosão dos preços das passagens saindo do Brasil – e as dificuldades para encontrar vagas nos aviões – parecem também confirmar essa euforia.

Nos “palaces” parisienses, mais de 10% de clientes brasileiros

Essa volta do luxo é mundial, a previsão é de chegar em 2025 a US$ 10 trilhões, o dobro do faturamento pre-Covid, com uma media superior a sete viagens de lazer por ano para as classes A+. Mas no mesmo tempo essas viagens vão seguir as novas tendências que vão impactar as escolhas dos destinos. Hoje a  segurança deve ser total, sanitária e pessoal, a personalização requerida por 80% dos viajantes deve incluir sob-medida e flexibilidade. A sustentabilidade deve incluir um intercambio com a cultura e a população local, e as experiencias – autenticas, exclusivas, e transformadoras- devem  ser o grande foco – incluindo o Wow factor– de cada viagem.

Luxo e sustentabilidade no Mirante do Gavião

As viagens de luxo dos brasileiros deve também seguir uma outra tendência marcante do turismo mundial,  o crescimento das viagens domésticas e/ou de proximidade. Nos Estados Unidos, na França, na Espanha e em todos os países onde coabitam um importante mercado emissor e destinos turísticos atrativos, o turismo domestico deu um pulo impressionante. E está sendo assim no Brasil. Xodó dos ecologistas pelo baixo impacto de carbono, seduzindo os políticos pelo impacto direto nos moradores e nos eleitores, o turismo doméstico seduziu até mais de 90% dos viajantes durante a crise. As pesquisas feitas no ano passado, e as recentes estatísticas da BRAZTOA, mostraram que essa tendência vem para ficar.

Nas aguas do Tapajós, exclusividade e experiências transformadoras

Um novo olhar vai valorizar destinos jà conhecidos mas ainda com grande potencial de turismo de luxo. A poucas horas de avião, em Fernão de Noronha, nos Lençóis, no Pantanal, nas Missões, nas Chapadas, em Jericoacoara, nas Cataratas de Iguaçu, frente as Anavilhanas ou nas margens do Tapajós, paisagens excepcionais e experiências únicas em condições exclusivas esperam o viajante mais exigente. Mesmo acostumado a se emocionar com outros destinos internacionais,  poderá encontrar nas paisagens do Brasil o mesmo “Wow” ou o mesmo momento instagramável.

Em Ilha Bela, um luxo caribenho a três horas de São Paulo

Membros ou não da pioneira BLTA   , dezenas de hotéis, pousadas ou lodges já oferece um atendimento do mais alto padrão. O Mirante do Gavião, o Saint Andrews, o Txai, o Ponto do Gancho empurraram Nova Ayrão, Gramado, Itacaré ou Florianópolis como destinos de luxo. E o litoral paulista, de Ilha Bela a Paraty, ainda oferece muitos “best kept secret in town” para ricos e famosos que querem alternativas acessíveis de caro. Nos grandes destinos tradicionais, o luxo ganhou o novo impulso no urbanismo e na arquitetura, na cultura e nos grandes eventos, e uma riqueza gastronômica reconhecida pela própria Michelin. Ganhou com a abertura de novos hotéis, como recentemente o Fairmont do Rio ou o Rosewood de São Paulo que já conseguiram uma notoriedade internacional. Um argumento a mais para convencer os viajantes de classe A+ que o turismo de luxo é também brasileiro!

Jean Philippe Pérol

De Valencia ao Rio de Janeiro, o genio de Calatrava

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