Festuris em Gramado, o turismo brasileiro que dá certo!

Mesmo esperado, o sucesso da Festuris impressionou

Pela sua 31° edição, o mais charmoso dos grandes encontros do turismo brasileiro bateu recordes e superou as expectativas. A FESTURIS, Feira Internacional de Turismo de Gramado, contou essa ano com 17 mil participantes, incluindo 11 mil visitantes profissionais, um crescimento global de 5% que mostrou que o evento deixou de ser limitado a região Sul do pais. 35% dos agentes registrados vieram dos outros estados do Brasil ou dos países do Mercosul . E nos 25 mil metros quadros do Serra Park, os organizadores celebraram a presença de 2.700 marcas expostas vindo dos quatro cantos do Brasil e de 65 destinos internacionais. Mostrando eficiência e produtividade, a FESTURIS teve também como destaque mais de 4 mil agendas de reuniões que geraram novos recordes de faturamento para os participantes.

Gramado e seus moradores são o primeiro fator de sucesso

Se o sucesso de FESTURIS se deve a vários fatores, o primeiro é sem dúvida a própria cidade de Gramado. Assim como Deauville para a  antiga Top Résa, Cannes para o ILTM, ou Marrakech para Pure Life Experience, Gramado oferece para o seu maior evento um quadro perfeito. São infraestruturas reunidas num espaço pequeno que facilitam os deslocamentos, hotéis de todos os níveis de conforto mas todos de qualidade, um palácio dos festivais  e um centro de convenções extremamente prático. Mas importante ainda para o viajante é a visível apropriação pelos moradores da vocação turística da cidade. Alem de limpeza e segurança, os Gramadenses oferecem aos visitantes um atendimento e um respeito que fazem das ruas da cidade locais aconchegantes onde multiples animações podem ser oferecidas.

O espaço Wedding foi um dos lançamentos mais bem sucedidos

Iniciada pelos organizadores há alguns anos, a segmentação das ofertas foi sem dúvidas uma visão de futuro. O turismo de niche e a procura de experiências especificas é uma grande tendência desses últimos anos, e FESTURIS soube responder com espaços personalizados respondendo as especificidades dos expositores de cada atividade ou segmento.  Ao tradicional Espaço Luxury, se somaram os espaços Termalismo e Bem-Estar, Viagem pela Cultura e Costumes, Business, Tech e Corporativo, Sustentabilidade e Acessibilidade, Entretenimento, Gastronomia, um muito concorrido salão Wedding e uma ampla area para o turismo LGBT. Esses espaços, bem como os potenciais de outras ofertas temáticas ou de outros segmentos de mercado, contribui muito ao sucesso de FESTURIS 2019.

No jantar do Guilherme Paulus, Eduardo Sanovicz, Magda Nassar, Newton Cardoso, Caroline Putnoki e Jean-Philippe Pérol

Durante as solenidades  da festa de abertura, nas emoções das entregas dos Troféus Amigos do Festuris, no concorrido e sofisticado jantar que Guilherme Paulus organiza no Saint Andrews, nas palestras ou nas mesas redondas da “Meeting Festuris”, nos encontros casuais nos corredores da feira, Marta Rossi e Eduardo Zorzanello souberam também criar um clima descontraído e profissional que atrai cada vez mais os lideres e os influenciadores do trade. Na competição entre as grandes feiras de turismo do Brasil, onde destacam-se outras fortes lideranças brasileiras como Carolina Perez, Luciana Leite e Magda Nassar, a capacidade de gerar encontros, debates, palestras e discussões informais, contribuindo assim a entender e definir as grandes tendencias do mercado, é hoje para FESTURIS um fator importante de sucesso.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Os cruzeiros apostando agora na sustentabilidade

Os veleiros da Star Clippers, campiões de sustentabilidade

Quase dobrando em dez anos, o mercado dos cruzeiros deve chegar este ano a 30milhões de pessoas, divididos em mais de 300 navios, dos charmosos veleiros da Star Clippers até os cada vez mais impressionantes gigantes da MSC Cruzeiros ou da Royal Caribbean. Construído em Saint Nazaire – o mesmo estaleiro francês que entregou em dezembro o badalado MSC Grandiosa -, o  Symphony of the Seas,da Royal Caribbean, atinge 362 metros de comprimento e 66 metros de largura. Para hospedar e divertir os 6314 passageiros, tem 2745 cabines, 20 restaurantes, 30 bares, 11 piscinas, simuladores de ondas para surfe, dois teatros, dois spas, um casino, um minigolfe, e uma pista de patinação, com 2394 tripulantes cuidando do conforto e da segurança de todos. Mais de 100 outros navios serão entregues até 2027, um investimento de US$ 65 milhões para uma capacidade de 130 mil cabinas.

O impressionante crescimento dos cruzeiros na China

O sucesso dos cruzeiros se mede também pela diversificação da clientela. Enquanto os norte americanos representavam mais de 90% dos 7 milhões cruzeiristas do século XX, essa proporção baixou para 83,9% em 2006, 69% em 2011 e menos de 50% hoje. Ainda predominantes, muito cortejados, o mercado dos Estados Unidos continua crescendo mas sem o dinamismo dos mercados europeus e asiáticos. Na Europa, os alemães e os ingleses já são 2 milhões a escolher cruzeiros para suas férias, abandonando talvez  em contrapartida grandes destinos na França ou na Itália que sofrem com essa concorrência. No outro lado do mundo, a China triplicou em cinco anos como mercado emissor, chegando esse ano a mais de 2,5 milhões de cruzeiristas. O Brasil também é destaque, com 16% de crescimento em 2019, 670 mil  cruzeiristas e boas perspectivas tanto nacionais como internacionais.

Os gases tóxicos são a principal preocupação dos moradores dos portos

Tamanho desempenho não podia não chamar a atenção sobre o impacto ecológico desses gigantes do mar. Com exceção de raros veleiros, os navios de cruzeiros são movidos a combustível pesado, um óleo quase bruto, barato, pagando pouquíssimos impostos, e extremamente poluidor. Chegando a queimar mais de 300 mil litros por dia, essas embracações são assim alguns dos maiores responsáveis pelas emissões de óxido de enxofre (segundo uma recente pesquisa da ONG T & E, os 94 navios da Carnival teriam emitidos em 2017 dez vezes mais desse gás tóxico que os 260 milhões de carros da União Européia), bem como de óxido de azoto e de partículas ultrafinas. Mais do que o despejo no mar de aguas não tratadas – hoje proibido pela Cruise Lines International Association (CLIA) -, são essas emissões de gases emitidos até nos portos 24 horas por dia que preocupam  ecologistas e autoridades sanitárias.

Cannes exige o respeito de um código de sustentabilidade

Frente a essas críticas, e para antecipar tanto as novas normas adotadas pela OMI (o regulador das Nações Unidas) que a multiplicação das areas de emissão “controladas” na América do Norte, no mar Báltico, no mar do Norte e em alguns portos do mar Mediterrâneo, as companhias de cruzeiros já estão reagindo. Segundo a CLIA, investimentos de US$ 6 bilhões já foram decididos para diminuir as emissoes de carbono dos motores atuais e para utilizar a energia elétrica fornecida pelos portos durante as escalas. Marselha anunciou assim que quer ser o primeiro porto 100% elétrico até 2025. A médio e longo prazos, os motores híbridos, ou funcionando com gás natural liquefeito (GNL), são a solução escolhida por várias companhias. Dois navios desse tipo, o Aida Nova e o Costa Smeralda, já estão navegando e 20 outros já foram encomendados.

O Roald Admunsen quer ser ecologicamente exemplar

As preocupações de sustentabilidade das grandes companhias de cruzeiros vão agora alem da redução das emissões de gas. A MSC está programando um objetivo “zero carbone print”, acreditando em novas tecnologias e com investimentos compensatórios em projetos carboneutros de grandes entidades internacionais. A Norwegian Cruise anunciou o fim dos plásticos de uso único nos seus navios, e Hurtigruten quer fazer do seu híbrido  “Roald Amundsen” um exemplo de boas práticas nas suas rotas polares. Mostrando que a sustentabilidade deve incluir responsabilidades globais, algumas companhias de cruzeiros  estão participando dos programas da Travel Corporation’s Treadright Foundation. Com importantes realizações, mas ainda com importante caminho a percorrer, o setor afirma agora ser convencido de fazer os investimentos necessários para atingir a exemplaridade ambiental e social que o sucesso requer.

Jean-Philippe Pérol

Do Reino Unido até o Brasil, o choque da queda de um ícone do turismo

A primeira viagem organizada pelo Thomas Cook

O anúncio da falência da Thomas Cook, a mais antiga operadora de turismo do mundo, foi um choque brutal não somente para os seus clientes – 600 mil dos quais vão ter que encontrar um meio de voltar das suas ferias-, para seus 22 mil funcionários, e para todos os profissionais. Para todos, é difícil entender como uma empresa nascida em 1841, ícone do setor e muito tempo pioneira, passou em poucos dias de uma situação de dificuldade financeira a uma verdadeira falência. Esquecendo famosos exemplos do setor – desde a Pan Am até a VARIG-, muitos pensaram até a última hora que o governo inglês iria injetar os 200 milhões de libras que ainda faltavam para fechar um plano de salvação da firma de Petersborough. Mas o governo simplesmente lembrou que o contribuinte não podia financiar “patos aleijados”.

A força da Fosun não foi suficiente para salvar o grupo

Com um prejuízo de 1,5 bilhão de libras em 2018, 15% do seu faturamento, a má situação financeira do grupo fundado em 1841 era conhecido de todos. Além da concôrrencia do outro gigante europeu, a TUI, das migrações dos clientes mais jovens para as vendas diretas on-line, do desafeto do mercado para os pacotes fechados, e do sucesso das companhias low cost, a Thomas Cook teve de enfrentar na Inglaterra as incertezas do Brexit e a queda da libra. Para se livrar do peso da sua dívida, o grupo ainda tentou durante o verão de renegociar com seus principais acionistas, o chinês Fosun, bancos ingleses e fundos americanos, um plano de reestruturação de 900 milhões de libras. Mas esta esperança sumiu na sexta-feira passada quando os “hedge funds” exigiram 200 milhões suplementares que inviabilizaram o projeto.

A agencia da Wagons lits//Cook no Brasil, Rio de Janeiro Abril 1936

Pela sua peculiar história, a Thomas Cook teve também uma presença no Brasil. Tendo sido comprada em 1928 pela Compagnie Internationale des Wagons lits et du tourisme, ela participou até os anos oitenta da sua epopeia. Fusionando as duas redes de agências, as duas empresas tinham divido o mundo entre a Wagons lits que operava na Europa e na América Latina, e a Thomas Cook que operava no Reino Unido, na América no Norte e nas antigas colônias inglesas. Assim as primeiras agências da Wagons lits abertas em 1934 no Rio de Janeiro e em 1936 em São Paulo se chamavam Wagons lits//Cook. Mudaram de nome somente em 1976 quando o acordo entre as duas empresas caducou, mas uma forte ligação foi ainda mantida durante mais de dez anos. As agências brasileiras – oito em 1980, treze em 1985- passaram a se chamar Wagons lits turismo, associadas a Thomas Cook.

As 430 agencias da Thomas Cook na França preocupadas com o futuro

Durante a década de 1980, as duas se separam completamente, assumindo escolhas estratégicas totalmente opostas. Após de passar sob o controle da SODEXO e depois da Accor, a Wagons lits fusionou com a americana Carlson, e abandonou suas agências e suas operadoras para se concentrar nos serviços corporate e virou a segunda maior empresa mundial neste setor. A Thomas Cook fez a escolha inversa, se aproximou da alemã Neckerman assim como da francesa Havas, e apostou nas agências e no turismo de lazer, favorecendo a verticalização com a compra de hotéis e o desenvolvimento da sua própria companhia aérea. Trinta anos depois, a situação das duas mostrou que a Accor e os então dirigentes da Wagons lits tinham feito a escolha certa.

As companhias aereas do grupo ainda esperam sobreviver

As consequências da falência serão pesadas para todo o setor, e em numerosos países onde a Thomas Cook era muito forte como a Alemanha, a Bélgica, a Índia, a França. Os hoteleiros dos destinos mais vendidos pelas suas agências – Espanha, Turquia, Tunisia – se preparam também para graves prejuízos diretos e indiretos, falta de pagamentos e dificuldades para encontrar como substituir as clientelas. Os administradores judiciais, Alix Partners e KPMG, deveriam agora tentar vender as atividades e as filiais separadamente, com prioridade para as companhias aéreas – especialmente a Condor- que ameaçam parar a qualquer momento. Longe de se alegrar, os grandes concorrentes estão também preocupados pela desconfiança dos investidores que a queda desse leader pode trazer para o turismo. Um fim triste depois de 178 anos de atividade.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

A Amazonia pode não estar em chamas, mas o turismo brasileiro não deve correr risco!

Tweet do Presidente francês ilustrando as queimadas de 2019

As fotos assustadoras de queimadas (antigas ou recentes) na Amazônia brasileira podem ser uma distorção da realidade – os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o número de focos de fogo está muito longe dos picos atingidos entre 2002 e 2007 –, mas são também, infelizmente, uma fonte de grande preocupação. Em primeiro lugar é a angústia dos moradores da região, sejam índios, caboclos ou habitantes das grandes cidades, que estão vendo o seu meio ambiente e a sua qualidade de vida ameaçados. É a tristeza de todos os brasileiros que ficam solidários e preocupados com o futuro desse patrimônio nacional cuja soberania traz a responsabilidade de proteger e desenvolver. É, no mundo inteiro, a incompreensão dos amigos do Brasil e dos defensores do meio ambiente que só recebem notícias distorcidas e ausências de soluções.

O Belle Amazon num dos roteiros nas comunidades do Tapajós

Além de compartilhar essa tristeza e essa solidariedade, os profissionais do turismo são também colocados à frente das consequências dessa emoção mundial sobre o setor, tanto emissivo quanto receptivo. As trocas de mensagens e de vexames entre os responsáveis políticos deixam apreensivos os viajantes brasileiros sobre o atendimento em vários países da linha de frente da luta ecológica, e muitos parceiros estrangeiros ficam preocupados em vir fazer promoção no Brasil para não associar a sua imagem a um assim chamado desastre ecológico. Para o turismo receptivo, as consequências dos artigos negativos das revistas do trade internacional podem ser maiores ainda, não somente na Amazônia mas também nas outras regiões do País.

80% dos desmatamentos ocorrem ao longo das estradas como a Cuiabá Santarém

Mesmo se as soluções estão muito além do turismo, os profissionais brasileiros devem também contribuir nesta batalha de comunicação. Não devem desprezar as críticas nem as suas fontes. Mesmo ilustradas com imagens antigas, mesmo baseadas em estatísticas distorcidas, mesmo motivadas pelo forte antagonismo político contra o atual governo, as emoções são sinceras e devem ser respondidas com atenção e pedagogia. A primeira reação deve ser, sem dúvida, de não negar o problema. Há, sim, incêndios na Amazônia, milhares de queimadas causadas pelo preparo das roças de índios ou caboclos até grandes ações de desmatamento ilegal. Estas últimas são reais no sul do Pará, no Acre ou em Rondônia e nas beiras das grandes estradas como a Cuiabá – Santarém, onde o cultivo da soja está se aproximando do Parque do Tapajós.

No Parque do Jaú, a imensidão das áreas protegidas

Mas é importante, ao mesmo tempo, informar as operadoras e agências de viagens da Europa ou América do Norte do tamanho exato do problema e, especialmente, do fato que 85% dos 4 milhões de quilômetros quadrados da Floresta Amazônica são ainda hoje completamente preservados, e que os 25 milhões de habitantes da região (dos quais 250 mil índios) estão comprometidos com o desenvolvimento sustentável. Devemos lembrar a todos que não houve incêndios incontroláveis na ilha de Marajó, nas margens do Tapajós ou do Rio Negro, e que Manaus e Belém não tiveram nenhuma destruição dos seus fascinantes patrimônios. A todos aqueles que querem ajudar a Amazônia devem dizer que o turismo é um dos setores mais envolvidos na valorização do meio ambiente, bem como na ajuda às comunidades ribeirinhas ou aos moradores das cidades da região. No Marajó, em Belém, no Tapajós, em Manaus, no Rio Negro, em Novo Airão, Barcelos ou no Acre, o turismo continua sendo uma formidável oportunidade de desenvolvimento que deve tirar as lições da crise atual, mas não merece ser afetada por ela.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Longe das queimadas, o Mercado Adolpho Lisboa, um dos mitos mor do turismo amazônico

 

Acordo Mercosul/ União Europeia: o turismo também?

Depois quase 20 anos, a perspectiva de um acordo histórico

Assinado  no último dia de Junho depois de quase 20 anos de negociação, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia não deixou ninguém indiferente. De ambos lados do Oceano Atlantico e do Ecuador, políticos e defensores de interesses corporativistas já estão brigando – muitas vezes sem nem ter lido o texto – para defender ou atacar a sua ratificação pelo 31 países da nova área de libre comercio. Trata-se de o intercambio comercial de Euros 122 bilhões entre o segundo e o sexto maiores blocos econômico do mundo, o acordo não toca o diretamente o turismo, porém vai tem um impacto significativo na vida (e, portanto, nas viagens) de quase 800 milhões de pessoas, cancelando 91% dos direitos alfandegários, cuidando de bem estar e de liberdade dos consumidores, assim como de proteção do meio ambiente.

Os vinhos e os queijos franceses devem beneficiar-se com a queda das taxas

Desta forma, o consumidor brasileiro vai ver nos próximos anos o preço dos carros, das roupas e dos sapatos europeus cair em 35%, dos queijos franceses ou holandeses em 28%, dos vinhos franceses, portugueses ou italianos em 27%, do chocolate belga em 20%, dos biscoitos dinamarqueses entre 16 a 18%, e dos remédios franceses ou alemães em 14%. Ao mesmo tempo, a Europa ampliará as cotas e acabará com as taxas que hoje bloqueiam as exportações de setores extremamente competitivos, principalmente (mesmo se não somente) o agronegócio cujas produções de frango, carne bovina ou suína, sucos naturais ou frutas, têm a qualidade, o preço e o respeito da sustentabilidade  para competir com os melhores produtos da agricultura europeia.

A competitividade do agronegócio brasileiro deve aproveitar a abertura

A proteção das origens é um ponto crucial do acordo, sejam geográficas (Parme, Porto, Camembert ou whisky irlandês) ou “apelações” especificas (cachaça brasileira, vinho de Mendoza argentino), bem como a proteção das marcas ou dos direitos autorais. De forma geral, os serviços, que representam hoje mais do quarto dos intercâmbios entre a Europa e o Mercosul, não foram esquecidos no acordo. Correios, bancos, seguros, telecomunicações, transportes, investimentos ou aberturas de filiais serão facilitados. A grande maioria das empresas tanto do Mercosul quanto da Europa sendo pequenas ou medias, é prevista uma série de medidas para melhorar a sua competitividade e para ajudá-las a aproveitar as novas oportunidades que surgirão.

O e-comercio deve ser muito impactado pelo acordo

Mesmo se as viagens internacionais e o turismo não são mencionados em lugar nenhum, o acordo deve, com certeza, impactá-los por duas series de razões. Em primeiro lugar algumas das medidas anunciadas se aplicam também ao setor. As novas regras referentes ao e-comercio, suprimindo bloqueios desnecessários, dando mais garantias jurídicas as empresas e protegendo os dados dos consumidores vão ter consequências para as OTA (agencias on line), as operadoras e até as agencias tradicionais. As novas regras referentes a circulação de profissionais, a instalação ou a transferência de funcionários  devem incentivar as viagens de negócios bem como multiplicar os encontros MICE. Em segundo lugar, e mais importante ainda, o acordo Mercosul- Europa deve criar um clima de segurança e de otimismo, fortalecendo o Real, impulsionando a Bolsa. Serão, com certeza, fatores essenciais para o tão esperado crescimento do turismo receptivo e exportativo entre ambos os blocos. Aos profissionais resta torcer pela ratificação para aproveitar essa imensa oportunidade.

Jean-Philippe Pérol

Em três números, os motivos para o Brasil ser otimista

O Tropical de Manaus, saudades de um sonho que não pode acabar

Frente as águas negras do Rio, o Tropical de Manaus

Que tristeza de ler hoje, no querido  jornal manauara A Critica, que o Tropical Hotel de Manaus irá a leilão no dia 25 de julho, e que valor arrecadado será utilizado para o pagamento de dívidas trabalhistas em processos que tramitam no tribunal regional do trabalho. Mesmo esperada desde a suspensão das atividades do hotel em maio – quando a luz foi cortada por falta de pagamento-, essa noticia abalou todos os profissionais do turismo bem como os apaixonados pela Amazonas. Emblemático da nossa saudosa VARIG, o Tropical de Manaus marcou os anos dourados do turismo de Manaus, quando o sucesso da Zona Franca, os oito voos diários para São Paulo, e as ligações internacionais da própria VARIG, mas também da Braniff, da LAP e da Air France atraiam turistas do mundo inteiro no coração da Amazônia brasileira.

O Presidente Giscard num seringal do Mamuri em 1978

A tristeza leva a perguntar quais são as razões que levaram a esse desastre. Alem do desaparecimento da VARIG e das dificuldades da Tropical hotéis, o hotel da Ponta Negra fechou também pelo paradoxo da queda do turismo na Amazonia brasileira num momento da historia aonde o eco-turismo e o turismo verde atraiam cada vez mais viajantes. Enquanto Manaus recebeu nos anos 70 e 80 o Presidente da França, o Rei da Suécia ou o Chanceler da Alemanha, enquanto artistas, escritores, ricos e famosos do mundo inteiro se hospedavam nos quartos do Tropical, são hoje os lodges da Costa Rica, do Vietnã ou da Indonesia  que recebem os maiores fluxos de ecoturistas. E quando esses escolham mesmo de ficar na Amazônia, percebe se a concorrência das Amazônias peruana, colombiana, equatoriana, surinamense ou até francesa.

O charme e o luxo sustentável do Mirante do Gavião

O turismo em Manaus tem porem umas imensas oportunidades com a atualidade das preocupações internacionais para preservar a floresta amazônica, e com a procura de destinos turísticos respondendo as novas tendências do ecoturismo. Num setor de concorrência extrema, o sucesso virá pelos números projetos que já existem, tanto de alojamento – do EcoPark ao Mirante do Gavião, do Juma Lodge ao Hotel Amazônia, ou do Anavilhanas Lodge ao novo Casa Perpetua-, de lazeres  – do Museu da Borracha e do MUSA ao Festival de Ópera-, de cruzeiros – da Katerre ao Aria ou ao Belle Amazon-, ou de restaurantes – do Caxirí ao Banzeiro-. Eles já estão mostrando que o setor soube evoluir, e criar produtos e serviços oferecendo as experiencias que os viajantes procuram.

A Pousada Uacari, a excelência em termo de turismo sustentável

Para crescer mesmo, e deixar a gente sonhar numa reabertura de um grande hotel international na Praia da Ponta Negra, o turismo na Amazônia terá talvez que aproveitar três ideias. A primeira é que a expectativa internacional de proteção do meio ambiente nessa região é imensa, trazendo um dever de excelência nesse setor. O desenvolvimento do turismo será olhada de muito perto, e qualquer desrespeito das práticas exemplares em termo de sustentabilidade, qualquer aceitação de atividades ecologicamente incorretas, terão um enorme impacto em comunicação, e afugentarão os viajantes. A segunda é que o turismo de Manaus só pode ser exclusivo, os fluxos serão sempre pequenos porque o acesso é difícil e as experiencias intimistas. Com poucos visitantes, devem se privilegiar o luxo e o charme. E os produtos e serviços têm que ser de forte valor agregado para trazer ao estado e aos  habitantes os retornos econômicos indispensáveis.

O Teatro Amazonas foi decisivo para construir o mito de Manaus

A terceira ideia é que, marcas excepcionalmente conhecidas no mundo inteiro, Manaus e a Amazônia devem. para voltar a atrair os fluxos de viajantes que necessitam, apostar não somente na natureza, nas matas e nos rios, mas também nas suas Historias – a riqueza do patrimônio, começando pelo Teatro, ou a força do passado terrível do ciclo da borracha-, e nos seus povos – tradições culturais ou, mais ainda, vida autentica das suas comunidades ribeirinhas. Morreu o Hotel Tropical, mas os ingredientes de um novo ciclo do turismo em Manaus existem e podem deixar acreditar que o Fenix pode talvez pousar um dia na praia da Ponta Negra.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Barco regional de alto padrão, o Belle Amazon navegue nos rios Amazonas, Tapajós e Rio Negro

No Vale de Colchagua chileno, liderança e diversidade do enoturismo

No Vale de Colchagua, paisagens que parecem ajudar os vinhos a se realizar

Já consagrado como produtor de alguns dos melhores vinhos do mundo, exportando a quase totalidade da produção dos seus 150.000 hectares de vinhedos espalhados em mais de 1000 quilômetros, o Chile está também virando nos últimos dez anos um dos maiores destinos do enoturismo internacional. Mas o número de vinícolas interessantes e acolhedoras, bem como as distancias, obrigam o viajante a escolher, da costa pacífica até os Andes e do Atacama até as terras austrais, quais vales e vinícolas ele deve visitar. Perto de Santiago, as opções são múltiplas e diversas, e as escolhas as vezes guiadas pelos encontros. Foi assim que, pelas premiações do Clos Apalta, a personalidade marcante do dono da Santa Cruz, as dicas recolhidas durante Invino e as sugestões personalizadíssimas  da especialista Carul Brugnara, esse roteiro se orientou para o Vale de Colchagua.

Frente ao Hotel Santa Cruz, a pitoresca Praça de Armas

Se varias propriedades da região oferecem excelentes opções de hospedagem – inclusive B&B de luxo ou hotéis boutique-, o Hotel Santa Cruz na praça principal da capital do Vale, agrade os viajantes que apreciam um estabelecimento a um preço razoável, num ambiente familiar – as crianças parecem extremamente bemvindas-, e extremamente chilena pela clientela, a decoração e o culinário. A localização central permite de aproveitar as lojas e os restaurantes de Santa Cruz, o museu ou o Casino. Ambos, bem como o Hotel e o vinhedo de Santa Cruz pertencem ao benfeitor da cidade, Carlos Cardoen, um chileno de origem belga com uma polémica carreira no comercio internacional, milionário até hoje perseguido pela justiça americana, mas que decidiu investir parte da sua fortuna num sonho de promoção da cultura chilena e da cidade de Santa Cruz.

Na sede da Santa Cruz, os Percherons esperando o passeio

A vinícola Santa Cruz guarda as características du grupo. A historia e a cultura chilenas são presentes com três pequenos ocas-museus sobre os povos rapa-nui, aimara, e mapuche, ou com um observatório acolhendo uma exposição permanente de meteoritos. As famílias gostam das atividades inesperadas: o teleférico com visão privilegiada das parreiras, um mini zoológico, uns passeios de carretas puxadas por cavalos “Percherons”, ou um museu automóvel. Mas a vinícola brilha também com destino de enoturismo pela qualidade dos seus vinhos, umas visitas e umas degustações no quadro acolhedora da casa grande, e um museu do vinho recém inaugurado. Construídos para o uso particular da família de Carlos Cardoen, um pequeno hotel boutique de três quartos está agora a disposição dos viajantes querendo silencio e privacidade entre os vinhedos e as trilhas percorrendo as colinas. 

A excelência do almoço harmonizado do Relais Châteaux Lapostolle

Produzindo o Clos Apalta, blend de Carmenere, Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot que foi considerado o melhor vinho do mundo em 2005, a vinícola Lapostolle/ Clos Apalta é uma das etapas imprescindíveis do enoturismo no Vale de Cochalgua. A vinícola surgiu da paixão de dois franceses, Alexandra Marnier-Lapostolle e Cyril de Bournet, que compraram a propriedade em 1994 e decidiram, com a ajuda do famoso enólogo Michel Rolland, construir um lugar de excelência tanto nos vinhos – hoje 100% orgânicos-, que na arquitetura -com as vigas de madeira da adega  erguidas para o ceu-, e até no processo sofisticado de produção utilizando a força da gravidade. O pequeno Hotel é um Relais & Châteaux, com somente 4 quartos mas que brilha pela atenção do seu serviço e a perfeição do seu almoço harmonizado com 4 vinhos excepcionais.

O imperdível restaurante de Mallmann na vinícola Montes

Moderna e marqueteira, a vinícola Montes alimenta também algumas polemicas. Críticos acham que o fogo as vezes queima, que as tradições orientais do Feng Shui não trouxeram nada a historia da vinicultura ou que a musica religiosa levanta mais a alma do que o vinho. A beleza, a criatividade e a qualidade do local mostram porem ao visitante que o local é imperdível na rota dos vinhos de Colchagua. O restaurante, com sua espetacular fogueira marca do Francis Mallmann, merece a sua fama gastronômica e ainda oferece uma vista excepcional. Com a sua decoração ousada de inspiração chinesa, a vinícola impressiona desde o inicio da visita. A degustação, realizada na adega com muita atenção e profissionalismo, é um momento de emoções não somente pela qualidade dos vinhos mas pela beleza dos barris pintados e a inspiração dos cantos gregorianos.

Na Casa Silva, vinho, tradições e ambiente de happy fe

Com seu próprio campo de polo, e um dos seus melhores vinhos glorificando as cinco gerações que se sucederam desde a chegada do pioneiro Emile Bouchon em 1892, a Casa Silva respira o sucesso familial e a tradição. Mais antiga vinícola do Vale, conseguiu fazer do seu Altura, blend de carmenere, cabernet sauvignon e petit verdot, produzido com safras excepcionais e envelhecido em barris de carvalho francês, um vinho respeitado no mundo inteiro. A historia é também presente no hotel, antiga casa da família de estilo colonial que se orgulha de ser centenário  e de manter a decoração e o requinte acumulados. Talvez justamente pelo caracter familial, é recomendado, para o restaurantes, os tours ou até as visitas, de fazer as reservas com antecedência. Será uma boa dica para uma nova viagem, necessária para conhecer melhor  esse Vale de Colchagua, justamente premiado como uma das melhores regiões vinícola e enoturistica da atualidade.

Jean-Philippe Pérol

Na volta, a difícil escolha: qual vinho beber primeiro?

Notre Dame de Paris abrindo um debate sobre monumentos históricos, cultura e turismo

5 anos e mais de um bilhão de Euros serão necessários para a reconstrução de Notre Dame de Paris

Apagado o incêndio, ficamos todos impressionados pelas polêmicas que estão surgindo em torno da reconstrução de Notre Dame de Paris. Será que as doações são indecentes? Será que deve ser dedutíveis dos impostos? Será que esse dinheiro não deveria ir para outros projetos? Será que o governo deve investir num edifício religioso? Será que a reconstrução deve respeitar o projeto original do século XII ou integrar as construções posteriores até o século XIX? Será que o arquiteto deve ser francês? Será que os carpinteiros devem voltar a utilizar carvalho ou encontrar uma solução ecológica? Será que a União Europeia deve pagar? E políticos ou associações radicais já estão fazendo a mais fundamental das perguntas: será que a catedral deve ser mesmo reconstruída?

Na beira do Tapajós, as ruínas descuidadas do sonho de Henry Ford

Se podem parecer esdrúxulas – e as vezes são-, essas perguntas devem levar a um debate mais fundamental ainda: qual deve ser o lugar do patrimônio histórico e cultural na sociedade do século XXI, e quem deve financiá-lo, o poder publico, os fiéis (quando tiver), os doadores privados ou os turistas? Essas perguntas estão surgindo agora, mas o debate tinha começado há tempo. Na França, em um livro de ficção política escrito em 1985, Gilbert Pérol imaginava que, por falta de dinheiro frente as impossíveis obras, as autoridades da União Europeia iam mandar destruir em 2030 as torres de todas as igrejas em mais de 30.000 vilarejos. Mas o debate é mundial, para monumentos tombados pela UNESCO ou humildes memórias de comunidades, de Veneza a Bâmiyân, de Palmira ao Rio de Janeiro, de Timbuktu ao Fordlândia.

No Museu Nacional, muitos acervos se foram com parte do prédio

Se muitas destruições se devem a trágicos acidentes ou a folia humana, não se deve esquecer que a falta de manutenção, bem como o abandono das autoridades, são causas sempre presentes. Um ano atrás, a revista Le Point já avisava que Notre Dame de Paris estava num estado calamitoso e que os 4 milhões de euros de verbas públicas anuais não cobravam 3% dos investimentos necessários. E a destruição do acervo do Museu Nacional se deve tanto ao incêndio que a falta de orçamento suficiente nos últimos anos. Na Europa, se o Presidente Macron sensibilizou Bruxelas sobre a necessidade de criar um fundo comum para financiar os monumentos ameaçados, é pouco provável que a situação financeira pós Brexit bem como as divergências culturais entre os 27 membros  levam a soluções rápidas.

Incendiado pelos ingleses em 1860, a Cidade Proibida é hoje o monumento mais visitado do mundo

O turismo deve e pode ser uma solução. Deve porque a cultura e os monumentos históricos são um dos maiores motivos de atratividades dos destinos, os 50 lugares mais visitados do mundo sendo, pelo menos fora dos Estados Unidos, grandes referencias culturais como a Cidade Proibida, os Souks de Istambul, Notre Dame, Montmartre, o Zocalo, o Louvre ou a Grande Muralha. E das 100 cidades mais visitadas do mundo, quase a metade têm como maior acervo turístico um ou vários monumentos culturais internacionalmente procurados. A cultura (e a religião) foi a primeira motivação de viagem da historia, e pegou hoje, com a procura de experiências pessoais e até de turismo transformacional, um impulso ainda maior.

Veneza já cobra uma taxa de entrada para financiar sua manutenção

Os profissionais do turismo devem assim mostrar que o setor é capaz de trazer soluções para salvar nossos monumentos. Três ideias podem ser trabalhadas. A primeira é o lobbying junto as autoridades para mostrar o impacto do patrimônio na atratividade e nas receitas dos destinos turísticos. A segunda é integrar, em proporção da sua capacidade financeira, as listas de doadores mobilizados para salvar as obras, inclusive oferecendo a seus clientes a possibilidade de participar, uma prática cada vez mais comum nos Estados Unidos e crescendo na Europa. Devemos enfim aceitar que muitos destinos têm como única opção de cobrar dos turistas uma taxa de entrada. Sejam igrejas ou templos, sejam cidades inteiras, o estão instalado pedágios para os turistas. Mesmo com taxas pequenas, as receitas representam valores consideráveis que, se bem utilizadas, ajudarão a evitar que outros dramas prejudicam o nosso patrimônio universal.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Notre Dame de Paris, depois da emoção e do choro, a difícil batalha da reconstrução!

O incêndio pouco antes da queda da flecha de 96 metros

Choramos, e choramos muito. Choramos logo no choque da noticia, quando as primeiras imagens da Catedral em chamas começar a circular em todos os canais de televisão bem como nas mídias sociais. E choramos mais ainda quando a queda da orgulhosa flecha atingiu o coração e a alma de milhões de espectadores que não podiam nem queriam acreditar nessa tragédia. Percebemos nesse instante que Notre Dame de Paris, não era somente uma das mais imponentes igrejas da Fé católica, mas era também um lugar icónico para o povo de Paris e a Nação Françesa. Monumento mais visitado da Europa (14 milhões de turistas o ano passado, sem contar os fieis), celebrado há oito séculos por escritores, pintores, cineastas ou políticos, era cravado na historia da humanidade e na cultura mundial.

A coroação de Napoleão, quadro do Louis David

Erguida a partir do século XII – numa cidade que nem contava 20.000 habitantes-, ela foi guardiã  da fé dos reis “muito católicos” da França. Se a primazia da Gália ficava em Lyon,  a cerimônia da coroação em Reims e os enterros reais em Saint Denis, Notre Dame de Paris sempre ficou mais carregada de símbolos. Foi lá que Saint Louis mandou guardar a coroa de espinhos do Cristo hipoteticamente trazida das Cruzadas, foi lá que Joana d’Arc foi reabilitada, foi lá que Henri IV festejou sua vitoria, foi lá que Napoleão se auto-coroou Emperador dos franceses na frente do então Papa Pio VII. Na Liberação de Paris do invasor alemão, foi lá que de Gaulle veio escutar o Te Deum da vitoria. Foi lá que o mesmo de Gaulle recebeu, no dia 12 de Novembro de 1970, uma última homenagem de uma plateia com mais de 80 imperadores, reis e presidentes vindo do mundo inteiro. E devemos lembrar que se Quasimodo e Esmeralda são personagens de ficção, foi com Notre Dame de Paris que Victor Hugo construiu parte da sua gloria.

A literatura e o cinema contribuíram a gloria de Notre Dame

Frente a emoção universal, o presidente francês já anunciou que o seu governo ia se empenhar para reerguer-la em cinco anos. A impressionante lista de contribuições que começar a chegar -quase um bilhão de Euros em menos de uma semana-, valores pequenas e grandes, doados por gente humildes ou famosos, católicos, muçulmanos, judeus ou ateus, vindo da Franca, dos Estados Unidos, do Marrocos ou do Brasil, deixam pensar que o maior desafio não será financeiro. Alem de encontrar as respostas tecnológicas, os arquitetos deverão também enfrentar a demagogia dos políticos que já iniciaram as polêmicas. Qual planta deve ser seguido, do século XII, XIII, XVIII ou XIX? O novo telhado deve ser ecologicamente correto? A nova flecha terá, assim que falou o Primeiro Ministro,  que se adaptar “aos desafios do século XXI”? A diversidade cultural deve integrar o novo projeto?

As quimeras de Notre Dame vigiando Paris

Notre Dame continua em pé, mas ainda não está salva. A herança milenar dos geniais construtores da Idade Media pode ser desnaturada por incultos marqueteiros do curto prazo. Passada a emoção, ainda tem risco de ver as obras entrar num ciclo sem fim de brigas politicas e de bloqueios de verbas que são a triste realidade de milhares de igrejas ou monumentos históricos esperando concertos ou renovações há anos. A mobilização dos parisienses e de todos aqueles que se emocionaram com eles será então fundamental para acompanhar a reconstrução. Na igreja de madeira que será provisoriamente construída no “Parvis”, na frente do portão de onde saiam simbolicamente todos as estradas ligando Paris ao resto da Franca, moradores e turistas vão poder, juntos, mostrar a sua determinação para que esse monumento da fé, da valentia e da beleza volta a integrar o patrimônio da Humanidade e a nossa própria Historia.

Jean-Philippe Pérol

De Haile Selassié a Nixon, de Senghor ao Shah, uma das maiores concentrações de chefes de estado da Historia

Coletes amarelos, para o turismo francês um golpe que os profissionais ainda querem reverter!

Os Champs Elysées foram um dos principais alvos das violências

Se o movimento dos coletes amarelos está afetando há dezenove semanas toda a economia francesa, impactando seu crescimento anual de 0,2% segundo as últimas estimativas oficiais, os profissionais do turismo já estão sofrendo um impacto muito maior. O setor está não somente sofrendo pelos quebra quebras dos black blocks que atacam em prioridade restaurantes e lojas dos setores turísticos. Foram 200 milhões de euros de destruições em 19 semaines. Nos tão procurados Champs Elysees, 50% das 180 lojas mais emblemáticas  foram atingidos e 10% foram parcialmente ou, assim como o Fouquet’s,  completamente destruídas. Já tendo avisado o governo em novembro das dificuldades dos hoteleiros, dos comerciantes e dos donos de restaurantes, as grandes federações profissionais estão pedindo medidas urgentes.

Muito seguido fora de Paris, o movimento foi em geral pacífico

Alem dos estragos materiais, o turismo está sofrendo com os cancelamentos de viagens programados – especialmente de europeus- e com a falta de reservas dos mercados distantes – inclusive do Brasil. Com uma queda de 5 à 10% por mês desde o inicio do movimento dos coletes amarelos, é certo que o recorde de 2018 (90 milhões de turistas?) não será mais superada e que a liderança mundial – frente aos concorrentes estadounidense, espanhol e chinês – está sendo ameaçada. O secretario de turismo, Jean Baptiste Lemoyne, já previu que o esse ano será um ano difícil para o setor. Mas a preocupação dos profissionais do turismo vai alem de 2019. As imagens dos choques, dos incêndios e dos quebra quebras poderiam também impactar de forma duradoura a própria imagem da França.

Desde o mês de Novembro, algumas medidas de apoio ao turismo foram anunciadas, mas são principalmente adiamentos de pagamentos de impostos e taxas que serão insuficientes para aliviar as perdas do setor, e mais ainda para tranquilizar a curto e médio prazo os turistas internacionais. O pedido mais urgente dos profissionais (e dos moradores) é a tolerância zero com a violência, uma mensagem que parece ter sido ouvida especialmente em Paris onde, depois de mudanças dos responsáveis da ordem pública, os últimos protestos foram perfeitamente controlados tanto pelos  coletes amarelos que pela policia, ambos os lados parecendo ter percebido as ambiguidades não beneficiam a ninguém.

Em Toulouse, os comerciantes chamando atenção para crise

Os atores do turismo esperam também que  o governo será capaz de responder as preocupações que levaram os coletes amarelos a descer na rua. Contando no inicio com forte apoios dos comerciantes -cansados uma das maiores pressões fiscais do mundo, dos aposentados preocupados com a desindexação das aposentadorias, dos moradores dos milhares de vilarejos abandonados pelos serviços públicos, ou dos desempregados vitimas da deslocalização das suas fabricas, o movimento perdeu seus apoios pela sua falta de liderança e incapacidade a impedir a violência. Parece porem claro que somente umas respostas concretas aos problemas levantados poderão apaziguar de vez os ânimos e acabar com os protestos.

Os profissionais esperam uma nova campanha de promoção internacional

As lideranças do turismo esperam também que o governo apoia uma nova campanha de promoção do destino. Enquanto cortes de 4 milhões de Euros já foram anunciados no orçamento 2019-2020 da Atout France, eles pedem não somente que essa decisão seja reconsiderada, mas ainda que seja feitos os investimentos necessários para reverter os estragos que impactam diretamente ou indiretamente quase dois milhões de empregos, prejudicam um setor chave da economia francesa, e afetam a própria imagem internacional da França. Enquanto está apenas começando a primavera, os otimistas pensam que 2019 pode ainda ser uma boa safra para o turismo francês.

Jean Philippe Pérol