Lá vem o Click and Boat, o AirBnb dos barcos de lazer?

A barcaça no Rio Sena, primeira sede da Click and Boat

A procura de aluguéis de barcos levou a importantes mudanças no setor, sendo a principal o surgimento da empresa francesa Click and Boat como líder mundial. Fundada  em 2013 pelos empresários Jeremy Bismuth e Edouard Gorioux, a então startup parisiense dispõe hoje de uma frota de 45.000 unidades – barcos, veleiros ou iates-, tem ofertas em 550 portos de 26 países, inclusive no Brasil, e atende agora um milhão de clientes por ano. Se as reservas pararam durante o confinamento, elas estão agora com um crescimento de 60% em relação ao ano passado, e o faturamento deve passar de 50 milhões de Euros em 2019 a 80 milhões este ano.

As compras de concorrentes diversificou a oferta de barcos

No início era uma simples plataforma colaborativa francesa onde os donos podiam oferecer os seus barcos (em geral muito pouco utilizados, na França em torno de 10 dias por ano),e a Click and Boat oferecia a seus parceiros rentabilidade, confiança e segurança.  O sucesso se espalhou pela Europa com a compra de vários concorrentes: Sailsharing em 2016,  Captain’Flit em 2018 , Océans Evasion em 2019 e a alemã Scansail em janeiro desse ano. Foi porém durante a pandemia que foi realizada a maior aquisição, a compra da espanhola Nautal, sediada em Barcelona, com 40 colaboradores, um faturamento de 13 milhões de Euros e uma rede de parceiros internacionais.
click-and-boat-acquiert-sailsharing-1280x720

45.000 proprietários já assinaram com a Click and Play

Oferecendo uma experiencia turística misturando privacidade, praias, natureza, ecologia, bem estar, família ou amigos, a Click and Boat antecipa um forte crescimento em 2021, 150 colaboradores, uma oferta chegando a 50.000 barcos e um faturamento passando dos 100 milhões de Euros. A chegada de um novo sócio, o navegador francês François Gabart, a diversificação das bases na Espanha, na Italia, na Grécia, na Croácia ou no Brasil, e o sucesso dos barcos ou iates com tripulação, deixam pensar que as ambições de virar uma verdadeira AirBnb dos barcos de lazer estão ao alcance da outrora pequena startup!
Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo da redação da revista profissional on-line Mister Travel

La Badira, a Tunisia com luxo e bem estar

O outrora Palacio do deserto, o Sahara Palace de Tozeur

Não precisa ter nascido na Tunísia para amá-la, seu povo tolerante e acolhedor, e suas riquezas turísticas ainda pouco ou mal exploradas. Mas precisa ter viajado pra là há muitos anos para lembrar dos estabelecimentos de luxo que fizeram o sucesso de alguns dos seus cantos mais bonitos. Foi o caso por exemplo da oásis de Tozeur, frente ao deserto e a imensidão salgada do Chott el Jerid, quando o mítico Sahara Palace recebia jet setters vindo do mundo inteiro. O “Palácio do deserto” decaiu nos anos noventa e fechou de vez em 2008, mas a Tunísia parece hoje decidida a relançar a sua oferta de luxo e de bem estar, dessa vez na beira do mar Mediterrâneo.

A kasbah de Hammamet na hora do por do sol

Foi frente a praia de Hammamet, a dez minutos da famosa kasbah, a meia hora de Nabeul, capital tunisiana da cerâmica, e a uma hora de Tunis, que surgiu há dois anos o La Badira hotel e Spa. Localizado no norte da cidade, longe dos bairros turísticos superlotados, La Badira , cujo nome significa em árabe “tão luminosa que a lua cheia”, é um prédio branco com todos suas 130 suites e seus dois terraços com vista  para o mar e as duas praias privativas. Exclusivo para maiores de 16 anos, esbanjando serenidade até nos jogos de luzes e de sombras, o La Badira é não somente o primeiro 5 estrelas da região mas também o único hotel da Tunisia pertencendo ao prestigioso grupo internacional The Leading Hotels of the World.

Nessa volta da Tunísia para o luxo e o bem estar, o La Badina quer aproveitar o rico passado da cidade que foi um balneário glamoroso no início do século XX, nos tempos do protetorado francês, quando importantes comunidades francesas e européias influenciavam a arquitetura, a decoração, o artesanato e a vida social de Hammamet. Alternando com um estilo tunisiano moderno e sofisticado, a decoração do hotel lembra o universo das viagens da época quando a beleza e a luz do local atraiu pintores, escritores e artistas. As 6 suites master homenageiam personalidades que foram então  emblemáticas, assim como o poeta francês Jean Cocteau, a princesa inglesa Wallis Simpson ou a atriz italiana natural da Túnísia Claudia Cardinale.

No SPA, ambiente oriental e produtos Clarins

O SPA junta o “savoir-faire” de Clarins e alguns produtos tradicionais como o rhassoul , uma argila naturalmente rica em ferro e em magnésio que as mulheres da África do Norte sempre utilizaram para tratar o corpo e os cabelos. Em volta de uma piscina aberta para o mar, as paredes de mármore cor de rosa, os grandes sofas e o sensual hamam criam um ambiente das Mil e uma noites. E como outro piscar de olhos ao Oriente, esse SPA oferece um equipamento único na África, um “flottarium”, piscina de água com uma salinidade extremamente forte, e onde podem ser aproveitados os mesmos tratamentos e vividas as mesmas experiências que no Mar Morte.

Hammamet é também um ponto de gastronomia, incluindo o imperdível restaurante Barberousse, localizado na Medina e que carrega o nome do famoso almirante tunisiano. Aberto em 1960, ele é famoso pelos seu pescado do dia em crosta de sal, seu tempurá de camarões ou seu carpaccio de robalo. No hotel, nada de all-inclusive, mas três restaurantes, Adra,  Kamilah, e o Beach Grill. O chef Slim Bettaieb, apaixonado pelas especiarias e os sabores locales, oferece uma cozinha tunisiana, revisitando todos os grandes clássicos tradicionais, da “Brik” até a Mloukhia, e do Carneiro assado durante sete horas até o Cuscus de peixe. Mas para muitos hóspedes, a melhor experiência será talvez o luxo e o bem estar de um café da manha servido na luminosa areia da praia…

Luxo e bem estar mesmo é o café da manhã servido na praia

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo da redação da revista profissional on-line Mister Travel

Santa Sofia, a história e o turismo se juntando frente a política?

Erdogan reinaugurando Santa Sofia como mesquita

A notícia da reabertura de Santa Sofia como mesquita levantou uma onda de emoções no mundo inteiro. Não foi tanto pelo fato de ouvir as rezas nesse local que foi consagrado pelo Islã durante quase cinco séculos, até que Mustafa Kemal a transformou em museu. Chocante foi o discurso do Presidente da Turquia, Recep Erdogan, que colocou claramente o evento na sequência do confronto entre o Oriente e o Ocidente, querendo repetir o drama de 1453, o saque da cidade e o fim do último emperador romano Constantino XI.  A memória do gesto de Mehmet II entrando na basílica mostrava a vontade do Erdogan de lembrar o papel da Turquia na humilhação e na queda de Constantinopla, uma das datas mais importantes para a  história do mundo moderno.

Herdeira de três impérios, Istambul atrai 10 milhões de turistas por ano

Para quem já visitou Istambul, as impressões trazidas são no entanto completamente opostas. O fascínio da basílica como da própria cidade vem justamente das múltiplas culturas e das heranças dos três impérios – romano, bizantino e otomano- que surgem em cada um dos seus cantos, se sobrepondo sem se ocultar, se seguindo e se completando para mexer com o visitante. Assim, como museu, e antes de voltar a ser mesquita, Santa Sofia, a jóia de Justiniano, glória da igreja ortodoxa, fascinava pela audácia da arquitetura inspirada do Panteão de Roma, pelos  mosaicos e as pinturas cristãs, mas também pelos quatro minaretes escalando o céu do Bósforo, pelas caligrafias sagradas dos oito escudos pendurados nos pilares ou pelo sumptuoso mirhab.

Os mosaicos agora vedados nos dias de reza

Esse multiculturalismo não se encontra somente na  Santa Sofia. O viajante é  impressionado pela riqueza e o tamanho do palácio otomano de Topkapi, mas também pela igreja bizantina de Santa Irene que fica em um dos seus pátios, ou pelas cisternas que o abastecia em água e que foram construídas pelo imperador Justiniano. As imperdíveis muralhas que cercam a cidade histórica, legado do imperador romano Teodose, contam aos turistas mil anos de façanhas dos defensores que foram vencidos somente duas vezes, pelos cruzados e depois pelos turcos. E na outra margem do Chiffre de Ouro, os 30 metros da torre de Galata lembram as ligações especiais que os genoveses católicos mantiveram tanto com os bizantinos quanto com os otomanos.

A magia única da catedral mesquita de Cordoba

Todos os amantes dessa fascinante cidade esperam que a herança de Santa Sofia será preservada, que o acesso dos turistas será garantido, e que seus tesouros – especialmente os mosaicos e as pinturas ameaçados pelo rigorismo religioso- não serão de novo escondidos.  Se o destino de um monumento hoje turco só pode ser decidido pelas autoridades turcas, podemos esperar que  levarão em consideração os 10 milhões de visitantes que pesam na economia e na vida da cidade. O Presidente Erdogan poderia também decidir entrar na historia vendo Santa Sofia com o mesmo olhar que o imperador Carlos Quinto deu um dia na mesquita catedral de Cordoba, impedindo a sua destruição e deixando para a humanidade um grande exemplo de multiculturalismo.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inspirado de uma ideia de Jacques Baschieri na revista profissional on-line Mister Travel