Turismo, liberdade e responsabilidades nos destinos de risco

O Parque da Pendjari é uma das esperanças do turismo do Benim

O sequestro de dois turistas franceses no Benim (o outrora Daomé) levou um final feliz – a liberação dos reféns – mas no mesmo tempo trágico – a morte do guia de turismo que os acompanhava e de dois militares que participaram da operações de resgate.  Frente a presencia do Presidente Macron na recepção dos sobreviventes desses dramáticos acontecimentos, um duro debate está sendo travado na França sobre as responsabilidades desse drama. Será que pesam sobre os turistas que foram passear de forma irresponsável numa area desaconselhada, ou sobre do Ministério das Relações exteriores que desaconselhou, mas não proibiu, a seus cidadãos de viajar para um pais ameaçado pela guerrilha islamista?  Será que o governo pode proibir as viagens para algum lugar?

Os refens recebidos com honra mas responsabilizados

Na França, como nos Estados Unidos ou no Brasil, o governo publica informação sobre a segurança dos destinos. Lá foram definidos quatro níveis de risco para os viajantes: cuidados normais em verde, reforçados em amarelo, desaconselhados em laranja, e totalmente desaconselhados em vermelho.  Frente as criticas sobre essas informações meramente facultativas, o Ministro Jean-Yves Le Drian lembrou que sempre chamou a atenção das agências de viagens sobre as suas responsabilidades com os possíveis riscos. Falou que a legislação poderia ser reforçada, com mais regiões classificadas como totalmente desaconselhadas. Mas mesmo assim, descartou por enquanto a ideia de proibir a cidadãos franceses de viajar para esses lugares.

O mapa oficial da segurança na África ocidental

Os profissionais do turismo concordam com essa visão. Jean-Pierre Mas, Presidente da maior associação de agentes de viagens, se recusou a falar de proibição e mesmo de aumento das áreas totalmente desaconselhadas. Acha que as agencias têm que ser ligadas com a atualidade. Devem se recusar a oferecer pacotes para os destinos potencialmente perigosos, avisar os viajantes mas deixar para cada um a decisão final, aceitando ou não os riscos que existem em qualquer viagem de negocio ou de lazer. Grandes operadoras acham também que os avisos do Ministério são justificados e devem ser levados em consideração, mas que não são infalíveis. não podem ser responsabilizado. Numa sociedade que recusa hoje qualquer fatalidade, deve ser aceita  a ideia que a responsabilidade de uma viagem é do proprio viajante.

A liberação dos reféns foi uma operação complexa

O choque da morte dos dois militares levou porém muitos políticos a falar de proibição total das viagens nas zonas classificadas como totalmente perigosas, e o Ministro poderia encontrar nessa medida forte uma resposta a emoção da opinião pública. Cada viajante pode e deve ser colocado frente as suas responsabilidades, mas o direito de cada cidadão de ser protegido pelo seu governo não pode ser pago pela restrição do seu direito de ir e vir. Seria sem duvidas um golpe grave contra a liberdade e contra o turismo.

Jean Philippe Pérol

No site do Itamaraty, o Benim com nível 3 de segurança (alto grau de cautela)

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Notre Dame de Paris abrindo um debate sobre monumentos históricos, cultura e turismo

5 anos e mais de um bilhão de Euros serão necessários para a reconstrução de Notre Dame de Paris

Apagado o incêndio, ficamos todos impressionados pelas polêmicas que estão surgindo em torno da reconstrução de Notre Dame de Paris. Será que as doações são indecentes? Será que deve ser dedutíveis dos impostos? Será que esse dinheiro não deveria ir para outros projetos? Será que o governo deve investir num edifício religioso? Será que a reconstrução deve respeitar o projeto original do século XII ou integrar as construções posteriores até o século XIX? Será que o arquiteto deve ser francês? Será que os carpinteiros devem voltar a utilizar carvalho ou encontrar uma solução ecológica? Será que a União Europeia deve pagar? E políticos ou associações radicais já estão fazendo a mais fundamental das perguntas: será que a catedral deve ser mesmo reconstruída?

Na beira do Tapajós, as ruínas descuidadas do sonho de Henry Ford

Se podem parecer esdrúxulas – e as vezes são-, essas perguntas devem levar a um debate mais fundamental ainda: qual deve ser o lugar do patrimônio histórico e cultural na sociedade do século XXI, e quem deve financiá-lo, o poder publico, os fiéis (quando tiver), os doadores privados ou os turistas? Essas perguntas estão surgindo agora, mas o debate tinha começado há tempo. Na França, em um livro de ficção política escrito em 1985, Gilbert Pérol imaginava que, por falta de dinheiro frente as impossíveis obras, as autoridades da União Europeia iam mandar destruir em 2030 as torres de todas as igrejas em mais de 30.000 vilarejos. Mas o debate é mundial, para monumentos tombados pela UNESCO ou humildes memórias de comunidades, de Veneza a Bâmiyân, de Palmira ao Rio de Janeiro, de Timbuktu ao Fordlândia.

No Museu Nacional, muitos acervos se foram com parte do prédio

Se muitas destruições se devem a trágicos acidentes ou a folia humana, não se deve esquecer que a falta de manutenção, bem como o abandono das autoridades, são causas sempre presentes. Um ano atrás, a revista Le Point já avisava que Notre Dame de Paris estava num estado calamitoso e que os 4 milhões de euros de verbas públicas anuais não cobravam 3% dos investimentos necessários. E a destruição do acervo do Museu Nacional se deve tanto ao incêndio que a falta de orçamento suficiente nos últimos anos. Na Europa, se o Presidente Macron sensibilizou Bruxelas sobre a necessidade de criar um fundo comum para financiar os monumentos ameaçados, é pouco provável que a situação financeira pós Brexit bem como as divergências culturais entre os 27 membros  levam a soluções rápidas.

Incendiado pelos ingleses em 1860, a Cidade Proibida é hoje o monumento mais visitado do mundo

O turismo deve e pode ser uma solução. Deve porque a cultura e os monumentos históricos são um dos maiores motivos de atratividades dos destinos, os 50 lugares mais visitados do mundo sendo, pelo menos fora dos Estados Unidos, grandes referencias culturais como a Cidade Proibida, os Souks de Istambul, Notre Dame, Montmartre, o Zocalo, o Louvre ou a Grande Muralha. E das 100 cidades mais visitadas do mundo, quase a metade têm como maior acervo turístico um ou vários monumentos culturais internacionalmente procurados. A cultura (e a religião) foi a primeira motivação de viagem da historia, e pegou hoje, com a procura de experiências pessoais e até de turismo transformacional, um impulso ainda maior.

Veneza já cobra uma taxa de entrada para financiar sua manutenção

Os profissionais do turismo devem assim mostrar que o setor é capaz de trazer soluções para salvar nossos monumentos. Três ideias podem ser trabalhadas. A primeira é o lobbying junto as autoridades para mostrar o impacto do patrimônio na atratividade e nas receitas dos destinos turísticos. A segunda é integrar, em proporção da sua capacidade financeira, as listas de doadores mobilizados para salvar as obras, inclusive oferecendo a seus clientes a possibilidade de participar, uma prática cada vez mais comum nos Estados Unidos e crescendo na Europa. Devemos enfim aceitar que muitos destinos têm como única opção de cobrar dos turistas uma taxa de entrada. Sejam igrejas ou templos, sejam cidades inteiras, o estão instalado pedágios para os turistas. Mesmo com taxas pequenas, as receitas representam valores consideráveis que, se bem utilizadas, ajudarão a evitar que outros dramas prejudicam o nosso patrimônio universal.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Notre Dame de Paris, depois da emoção e do choro, a difícil batalha da reconstrução!

O incêndio pouco antes da queda da flecha de 96 metros

Choramos, e choramos muito. Choramos logo no choque da noticia, quando as primeiras imagens da Catedral em chamas começar a circular em todos os canais de televisão bem como nas mídias sociais. E choramos mais ainda quando a queda da orgulhosa flecha atingiu o coração e a alma de milhões de espectadores que não podiam nem queriam acreditar nessa tragédia. Percebemos nesse instante que Notre Dame de Paris, não era somente uma das mais imponentes igrejas da Fé católica, mas era também um lugar icónico para o povo de Paris e a Nação Françesa. Monumento mais visitado da Europa (14 milhões de turistas o ano passado, sem contar os fieis), celebrado há oito séculos por escritores, pintores, cineastas ou políticos, era cravado na historia da humanidade e na cultura mundial.

A coroação de Napoleão, quadro do Louis David

Erguida a partir do século XII – numa cidade que nem contava 20.000 habitantes-, ela foi guardiã  da fé dos reis “muito católicos” da França. Se a primazia da Gália ficava em Lyon,  a cerimônia da coroação em Reims e os enterros reais em Saint Denis, Notre Dame de Paris sempre ficou mais carregada de símbolos. Foi lá que Saint Louis mandou guardar a coroa de espinhos do Cristo hipoteticamente trazida das Cruzadas, foi lá que Joana d’Arc foi reabilitada, foi lá que Henri IV festejou sua vitoria, foi lá que Napoleão se auto-coroou Emperador dos franceses na frente do então Papa Pio VII. Na Liberação de Paris do invasor alemão, foi lá que de Gaulle veio escutar o Te Deum da vitoria. Foi lá que o mesmo de Gaulle recebeu, no dia 12 de Novembro de 1970, uma última homenagem de uma plateia com mais de 80 imperadores, reis e presidentes vindo do mundo inteiro. E devemos lembrar que se Quasimodo e Esmeralda são personagens de ficção, foi com Notre Dame de Paris que Victor Hugo construiu parte da sua gloria.

A literatura e o cinema contribuíram a gloria de Notre Dame

Frente a emoção universal, o presidente francês já anunciou que o seu governo ia se empenhar para reerguer-la em cinco anos. A impressionante lista de contribuições que começar a chegar -quase um bilhão de Euros em menos de uma semana-, valores pequenas e grandes, doados por gente humildes ou famosos, católicos, muçulmanos, judeus ou ateus, vindo da Franca, dos Estados Unidos, do Marrocos ou do Brasil, deixam pensar que o maior desafio não será financeiro. Alem de encontrar as respostas tecnológicas, os arquitetos deverão também enfrentar a demagogia dos políticos que já iniciaram as polêmicas. Qual planta deve ser seguido, do século XII, XIII, XVIII ou XIX? O novo telhado deve ser ecologicamente correto? A nova flecha terá, assim que falou o Primeiro Ministro,  que se adaptar “aos desafios do século XXI”? A diversidade cultural deve integrar o novo projeto?

As quimeras de Notre Dame vigiando Paris

Notre Dame continua em pé, mas ainda não está salva. A herança milenar dos geniais construtores da Idade Media pode ser desnaturada por incultos marqueteiros do curto prazo. Passada a emoção, ainda tem risco de ver as obras entrar num ciclo sem fim de brigas politicas e de bloqueios de verbas que são a triste realidade de milhares de igrejas ou monumentos históricos esperando concertos ou renovações há anos. A mobilização dos parisienses e de todos aqueles que se emocionaram com eles será então fundamental para acompanhar a reconstrução. Na igreja de madeira que será provisoriamente construída no “Parvis”, na frente do portão de onde saiam simbolicamente todos as estradas ligando Paris ao resto da Franca, moradores e turistas vão poder, juntos, mostrar a sua determinação para que esse monumento da fé, da valentia e da beleza volta a integrar o patrimônio da Humanidade e a nossa própria Historia.

Jean-Philippe Pérol

De Haile Selassié a Nixon, de Senghor ao Shah, uma das maiores concentrações de chefes de estado da Historia

Coletes amarelos, para o turismo francês um golpe que os profissionais ainda querem reverter!

Os Champs Elysées foram um dos principais alvos das violências

Se o movimento dos coletes amarelos está afetando há dezenove semanas toda a economia francesa, impactando seu crescimento anual de 0,2% segundo as últimas estimativas oficiais, os profissionais do turismo já estão sofrendo um impacto muito maior. O setor está não somente sofrendo pelos quebra quebras dos black blocks que atacam em prioridade restaurantes e lojas dos setores turísticos. Foram 200 milhões de euros de destruições em 19 semaines. Nos tão procurados Champs Elysees, 50% das 180 lojas mais emblemáticas  foram atingidos e 10% foram parcialmente ou, assim como o Fouquet’s,  completamente destruídas. Já tendo avisado o governo em novembro das dificuldades dos hoteleiros, dos comerciantes e dos donos de restaurantes, as grandes federações profissionais estão pedindo medidas urgentes.

Muito seguido fora de Paris, o movimento foi em geral pacífico

Alem dos estragos materiais, o turismo está sofrendo com os cancelamentos de viagens programados – especialmente de europeus- e com a falta de reservas dos mercados distantes – inclusive do Brasil. Com uma queda de 5 à 10% por mês desde o inicio do movimento dos coletes amarelos, é certo que o recorde de 2018 (90 milhões de turistas?) não será mais superada e que a liderança mundial – frente aos concorrentes estadounidense, espanhol e chinês – está sendo ameaçada. O secretario de turismo, Jean Baptiste Lemoyne, já previu que o esse ano será um ano difícil para o setor. Mas a preocupação dos profissionais do turismo vai alem de 2019. As imagens dos choques, dos incêndios e dos quebra quebras poderiam também impactar de forma duradoura a própria imagem da França.

Desde o mês de Novembro, algumas medidas de apoio ao turismo foram anunciadas, mas são principalmente adiamentos de pagamentos de impostos e taxas que serão insuficientes para aliviar as perdas do setor, e mais ainda para tranquilizar a curto e médio prazo os turistas internacionais. O pedido mais urgente dos profissionais (e dos moradores) é a tolerância zero com a violência, uma mensagem que parece ter sido ouvida especialmente em Paris onde, depois de mudanças dos responsáveis da ordem pública, os últimos protestos foram perfeitamente controlados tanto pelos  coletes amarelos que pela policia, ambos os lados parecendo ter percebido as ambiguidades não beneficiam a ninguém.

Em Toulouse, os comerciantes chamando atenção para crise

Os atores do turismo esperam também que  o governo será capaz de responder as preocupações que levaram os coletes amarelos a descer na rua. Contando no inicio com forte apoios dos comerciantes -cansados uma das maiores pressões fiscais do mundo, dos aposentados preocupados com a desindexação das aposentadorias, dos moradores dos milhares de vilarejos abandonados pelos serviços públicos, ou dos desempregados vitimas da deslocalização das suas fabricas, o movimento perdeu seus apoios pela sua falta de liderança e incapacidade a impedir a violência. Parece porem claro que somente umas respostas concretas aos problemas levantados poderão apaziguar de vez os ânimos e acabar com os protestos.

Os profissionais esperam uma nova campanha de promoção internacional

As lideranças do turismo esperam também que o governo apoia uma nova campanha de promoção do destino. Enquanto cortes de 4 milhões de Euros já foram anunciados no orçamento 2019-2020 da Atout France, eles pedem não somente que essa decisão seja reconsiderada, mas ainda que seja feitos os investimentos necessários para reverter os estragos que impactam diretamente ou indiretamente quase dois milhões de empregos, prejudicam um setor chave da economia francesa, e afetam a própria imagem internacional da França. Enquanto está apenas começando a primavera, os otimistas pensam que 2019 pode ainda ser uma boa safra para o turismo francês.

Jean Philippe Pérol

Ethiopian Air Lines, a tragédia, o luto e as esperanças

Um Boeing da Ethiopian decolando de Addis Abeba

Se a aviação internacional é cada vez mais segura, com um numero de vítimas em diminuição constante desde os anos setenta, cada acidente continua sendo uma terrível tragédia. Assim foi o drama do  Boeing 737 MAX 8 da Ethiopian Airlines que levou a Etiópia a decretar ontem um luto nacional. Nesse voo de Addis Abeba a Nairobi, viajavam 157 passageiros e tripulantes, turistas e homens de negócios de 32 nacionalidades que morreram seis minutos após a decolagem, quando o avião em chamas caiu logo depois do piloto ter avisado que estava com problemas. Depois do luto e da prioridade dada aos parentes das vitimas, as autoridades vão aproveitar as duas caixas pretas para tentar explicar o acontecido, e assim definir exatamente as responsabilidades – e consequentemente as medidas necessários.

O Boeing 737 Max no centro das interrogações sobre o crash

A semelhança com o recente drama do voo da Lion Air na Indonésia – um outro 737 Max qui caiu em logo depois da decolagem quando o piloto tentava voltar para o aeroporto, leva muitos analistas a apontar para a Boeing. A própria Etiópia e a maioria dos países com companhias aéreas que já compraram esse aparelho – na Europa,  Austrália, China, Coreia, África do Sul, Singapura, e no Brasil-  já suspenderam os voos do. Talvez temendo um gravíssimo impacto financeiro sobre a construtora de Seattle, a  FAA demorou mas acabou tomando a mesma decisão. A informação da Boeing sobre uma atualização do sistema informática e do manual de formação dos pilotos, bem como novos relatórios de graves incidentes, vem confirmar as duvidas dos especialistas que pensam que a concorrência do Airbus 320neo obrigou a acelerar os primeiros voos comerciais do B 737 Max 8.

As caixas negras de um B737 Max

Assim que acontece a cada tragédia, o trabalho dos investigadores vai ser acompanhado de perto por representantes de todos as partes: as famílias, ansiosas de achar os responsáveis quem que foram, os governos, cuidadosos da segurança dos seus aeroportos e dos seus espaços aéreos, as companhias aéreas, atentas  em proteger seus passageiros, suas tripulações e seus agentes, e enfim os fabricantes, preocupados de descobrir possíveis defeitos dos seus aviões e de medir o impacto nas suas linhas de produção. Esses múltiplos atores são para os viajantes uma garantia de transparência da investigação e, mais importante ainda, da seriedade das decisões tomadas pelos responsáveis públicos ou privados para que um drama semelhante não se reproduz nunca mais nesse avião.

A atenção as tripulações, cuidado permanente da Ethiopian

Esse acidente afetou brutalmente uma companhia aérea com reputação de seriedade, aviões recentes, gestão exemplar e tripulações experientes, que deve agora assumir um luto para falhas técnicas que ja começam a ser esclarecidas e que os responsáveis devem corrigir com urgência. Enraizada na Etiópia, com sua cultura tão peculiar, sua excepcional herança imperial, sua reconhecida liderança africana, e seu impressionante sucesso econômico, a Ethiopian Air Lines  tem porem a capacidade de superar essa tragédia e de continuar a contribuir ao futuro da “terra das origens”.

Jean-Philippe Pérol

A Africa Hall, sede da Organização da União Africana em Addis Abeba

 

Invino Wine Travel Summit, a hora do enoturismo

Na Borgonha, um dos oito vinhedos do mundo tombado pela UNESCO

Faltando menos de um mês para a sua inauguração, a expectativa em torno da primeira edição do Invino Wine Travel Summit  já está mostrando que o enoturismo é mesmo um setor que despertou o interesse dos profissionais brasileiros do turismo e do vinho. Patrocinado pela Air France, a Chandon e a Bourgogne, apoiado pela Atout France,  a Wine Paths, o Palace Sources de Caudalie, a Guaspari, a Rouge Brasil, o Forum de Enoturismo e os Wines of Chile, beneficiando da experiência de palestrantes e expositores vindo do Chile, da França, da Argentina e do Brasil, Invino já confirmou as inscrições das mais destacadas operadoras e agencias do setor.

Tradição e qualidade nos vinhedos do Chile

O sucesso do enoturismo é um tendência internacional. Com um indiscutível pioneirismo das vinícolas da costa Oeste americana (líder mundial até hoje com 15 milhões de enoturistas, sendo 3 milhões de estrangeiros), os “Wine tours” se espalharam em todos os grandes destinos produtores, especialmente na França cujas vinícolas recebem 10 milhões de visitantes,  4,2 milhões vindo do exterior. Hoje o mundo tem mais de 40 milhões de enoturistas que  visitam o Stellenbosch ou a Napa Valley, a Rioja espanhola ou o Vale McLaren da Australia, os “climats da Borgonha” ou a rota dos vinhos do Vale Maipo, sem falar dos procuradíssimos  vinhedos da Toscana e da Provence. No Brasil também, o sucesso das rotas gaúchas, catarinenses ou paulistas já atrai mais de um milhão de visitantes por ano.

Les Sources de Caudalie, onde enoturismo combina com bem estar e gastronomia

Os encontros de Invino são importantes devido as evoluções do enoturismo. Para os produtores, o turismo passou da simples atividade complementar a uma ferramenta chave para incrementar e diferenciar a notoriedade das marcas, uma fonte de receitas representando até 20% ou mais das vendas totais. Se transformou em uma grande oportunidade de investimentos, seja nas próprias adegas seja na hotelaria ou no bem estar.  Os perfis dos enoturistas mudaram completamente também. Enquanto os pioneiros, enólogos ou enófilos, exigiam um atendimento completamente focado em numerosas visitas e degustações, o novo enoturista é simplesmente um “bon vivant” ou até um viajante a procura de novas emoções. O vinho vira assim um dos componentes de uma viagem que incorpora também experiências culturais e gastronómicas, momentos para compras e para bem estar, ou passeios para apreciar as belezas naturais de lugares as vezes tombados pela UNESCO.

As vinicolas de Mendonça combinam com proezas arquiteturais

Para os profissionais do turismo que precisam de novos produtos e serviços com forte valor agregado, Invino vai ser um momento privilegiado para descobrir valiosas experiências. Algumas operadoras tanto de receptivo que de exportativo já investiram há muitos anos no enoturismo, e o Brasil tem valiosas realizações em ambas atividades.  Mas um grande trabalho de capacitação ainda tem que ser feito para que os agentes consigam responder aos viajantes interessados, oferecendo o destino, o vinho e o produto mais adaptados para cada perfil.  O potencial é imenso, reforçado pelo fato que os grandes países de enoturismo são ,seja vizinhos – Chile, Argentina ou Uruguai -, seja muito familiares – EEUU, França, Portugal, Itália e Espanha. Mostrando os sucessos e os “savoir-faire” adquiridos, o Invino Wine Travel Summit pode ajudar as agencias a responder a essa nova grande tendência do turismo mundial.

Jean Philippe Pérol

 

A alegria do vinho nos roteiros gauchos

A crise do marketing de destino chega na França

Rendez vous en France, encontro dos parceiros franceses e internacionais

Alem de um brutal corte de orçamentos, a crise que explodiu a semana passada na Atout France, órgão oficial do turismo francês, significa talvez o fim de um modelo de parceria inventado pela equipe de um então ministro do governo Chirac. Exclusiva dos ministérios ou das administrações publicas desde as suas origens no inicio do século XX, a promoção do turismo internacional conheceu em 1987 uma verdadeira revolução. Agregando quatro órgãos oficiais preexistentes, o ministro Descamps convenceu setenta profissionais de entrar como parceiros numa nova estrutura co-gerenciada e co-financiada pelo governo federal e os profissionais públicos e privados do setor. Era o nascimento da Maison de la France,  uma associação que chegaria a juntar 1300 empresas francesas de turismo e a estabelecer relações estreitas com mais de mil operadoras em 35 países.

Com a mudança de 2009, Atout France integrou o Ministério das Relações exteriores

A Maison de la France acompanhou a volta da França na liderança do turismo mundial, e criou um novo modelo de parceria publico privado. Em 2009 virou Atout France, assumindo novas responsabilidades na planificação do turismo e na classificação hoteleira. Nessa trajetória de sucessos, as recentes decisões do governo chocaram os profissionais e a imprensa do trade e econômica. Atout France poderia ser obrigada a reduzir de um terço a sua presencia no exterior, encolhendo o seu quadro de colaboradores e talvez o numero de países onde está operando, um paradoxo para uma autarquia que depende agora do ministério das Relações Exteriores. As ambições do governo francês, 100 milhões de turistas em 2020 e 60 bilhões de euros de receitas, seriam então seriamente ameaçadas.

As campanhas B2C sofrem dos cortes de verbas

É certo que, mesmo se o corte de quatro milhões de Euros  pode parecer limitado porque representa somente 12% do aporte total do governo, as preocupações do setor devem ser tratadas com respeito e seu impacto não devem ser subestimado. Mas seria injusto de colocar toda a responsabilidade da situação nas últimas decisões do atual governo, isso por duas razões. Em primeiro lugar deve ser lembrado que os governos anteriores realizaram cortes mais importantes ainda nos últimos 15 anos, reduzindo de até 75% as verbas de promoção, e cortando de 80% o numero de funcionários públicos colocados gratuitamente a disposição da associação. A novas tarefas de engenharia e classificação, sem dúvidas muito gratificantes e estrategicamente interessantes, foram impostas sem nenhuma contrapartidas financeiras, aumentando mais os custos fixos.

Air France, desde as origens um apoio excepcional para o turismo francês

A redução dos gastos de promoção não foi também exclusiva do governo. As grandes empresas de viagens e turismo que investiam com força ao lado do governo, emprestando funcionários e participando de campanhas de imagem da França, reduziram suas participações.  Se o apoio da Air France continua sendo excepcional, grupos como Accor, Pierre et Vacances ou o Club Med representam hoje menos de um por cento das parcerias acumuladas. Os outros órgãos públicos de promoção, a níveis regionais ou municipais, também diminuíram as suas verbas, não somente porque falta dinheiro público, mas porque são cada vez mais preocupados promover suas próprias marcas com exclusividade, sem necessária associação com o destino França, desprezando as vezes a expertise que Atout France acumulou com seus colaboradores e seus contatos.

O apoio dos profissionais foi decisivo no sucesso da Atout France

Mostrando a insensibilidade do governo sobre a importância do setor, o choque levado pela Atout France com a redução das verbas públicas acelera as perguntas sobre o modelo criado em 1987. Os seus dois pilares, marketing e parcerias, não têm mais o mesmo apelo junto aos profissionais. O marketing perde força, exprimido entre o branding sempre muito ciumento e as vendas só interessadas por ações com resultados concretos e imediatos. Sem o atrativo do dinheiro publico e seu poder de impor mensagens claras, as parcerias são mais escassas  e as ações conjuntas cada vez mais complicadas. O novo modelo que tem que surgir não pode se restringir a uma (necessária) volta das verbas do governo, mas deve reinventar o posicionamento e os investimentos dos profissionais franceses e estrangeiros. Ao governo, sim, a responsabilidade de tomar a liderança dessa reconstrução, aproveitando as competências das suas equipes e as expectativas dos seus parceiros.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Sucesso de parceria público/privado, um modelo a reinventar?

A Guadalupe trazendo novas opções no Caribe

Na “Ponta dos castelos”, uma das mais bonitas paisagens da Guadalupe

Karukéra dos índios Caribe, Santa Maria de Guadalupe de Estremadura de Cristóvão Colombo, Guadeloupe dos franceses. Tendo conhecido, com o tabaco, a cana de açúcar, e depois a banana, vários ciclos econômicos e sociais, a ilha da Guadalupe parece hoje ter apostado de vez na sua identidade franco-caribenha e na sua vocação turística. Visitando a ilha desde os anos setenta, tendo o privilegio de ter conseguido grandes amizades com alguns dos mais dinâmicos atores do setor, fiquei muito impressionando na minha última viagem, em janeiro desse ano, pelos progressos realizados na consolidação do turismo. Se trata não somente de um upgrade nas suas ofertas de hospedagem, mas de uma abertura do seu leque de experiências culturais, e, mais ainda, de uma convincente qualidade do atendimento -tanto dos profissionais que dos próprios moradores.

A piscina infinita do La Toubana

A renovação da hotelaria na Guadalupe é liderada pelo grupo “Des hotels et des iles”, dono de vários dos mais charmosos hotéis da ilha: o La Creole Beach, ideal para grupos ou famílias com sua praia tranquila e organizada, um bar sempre animado onde turistas e moradores podem aproveitar o por do sol, um spa e dois restaurantes sendo um “gourmet” com um viveiro de lagostas; ou o intimo Jardins de Malanga, perfeito para lua de mel ou casais apaixonados, antiga casa grande escondida em cima de uma ladeira de Trois Rivières e com uma vista estupenda sobre as ilhas de Les Saintes.  O grupo é também dono do La Toubana, agarrado no morro de Saint Anne, com uma espetacular piscina infinita, um restaurante gastronômico, um SPA completamente renovado, e uma praia extremamente exclusiva, esse requintado hotel espera agora sua merecida quinta estrela . A reabertura do antigo Hotel Arawak em Gosier, e os projetos de reabilitação do tradicional La Vieille Tour mostram que outros investidores passaram também a acreditar no turismo local.

A beleza arquitetural do Mémorial ACTe de Pointe a Pitre

As múltiplas experiências culturais oferecidas aos visitantes são sem dúvidas uma das principais razões da atratividade da Guadalupe. Alem do conhecido Carnaval de rua, alguns grupos estão valorizando as danças tradicionais – onde consta até quadrilha!-, outros buscando inspiração, ritmos e coreografias nas raízes africanas como o surpreendente conjunto Akiyo cujos desfiles e espetáculos atraiam milhares de pessoas. Para os visitantes querendo entender a cultura da ilha, a novidade imperdível é porem o MemorialACTe de Pointe à Pitre. Construído no local de uma antiga fábrica de açúcar, inaugurado em 2015 pelo Presidente Hollande, é um lugar de informação, de memória e de pesquisa sobe a escravidão e o comercio triangular , focado no Caribe e na Guadalupe. Com uma exposição permanente sóbria e muita pedagógica, acessível a adultos e crianças, o Memorial inclui também espaços de exposições temporárias, um restaurante com vista sobre o porto e uma loja com excelente atendimento.

Nos pequenos restaurantes, o charme de um atendimento autentico

Peculiaridade do Caribe francês, o grande charme da Guadalupe é sem duvida a liberdade que ela oferece a seus visitantes. Liberdade de percorrer suas estradas para visitar a Pointe des Châteaux, parar na pequena praia de Anse Maurice, andar nas trilhas levando para o vulcão de La Souffrière ou tomar banhos de cachoeira do Parque Nacional. Liberdade de pegar com toda segurança um ferry para as ilhas de Les Saintes ou de Marie Galante. Liberdade de sentar tomar um café ou um Punch Coco, num barzinho de Saint Francois ou de Trois Rivières onde descobrirá que os Guadalupeenses têm paixão pelo Brasil . Liberdade de experimentar nos numerosos pequenos restaurantes dos vilarejos ou das praias um culinário peculiar, misturando numa “nouvelle cuisine creole” técnicas francesas, ingredientes dos quatro continentes e tradições caribenhas. Com um atendimento convincente, sempre muito aberto, permitindo intercâmbios sinceros, a Guadalupe traga agora novas opções para o turismo no Caribe.

Jean Philippe Pérol

Terre de haut (Les Saintes) visto do Fort Napoleon

A praia do La Creole Beach

Depois do Concorde, o sonho do Airbus 380 entra também na Historia

O Airbus A380 da Air France

Em novembro 2009, subindo a bordo do primeiro voo Nova Iorque Paris do A380 da Air France, a sensação era de participar, mais uma vez, do início de uma nova era do transporte aéreo internacional. Anunciado (e sendo) o avião mais silencioso e mais confortável do momento, capaz de transportar de 500 a 800 passageiros, o gigante da Airbus ia trazer para o transporte aéreo internacional uma revolução tão radical que o primeiro Jumbo 747 em 1969. O entusiasmo das 13 grandes companhias  participando em 1996 da primeira apresentação do então A3XX levaram a Airbus a lançar o programa em 2000, conseguindo logo 55 encomendas. A escolha do nome, A380 com o numero 8 vindo da numerologia chinesa, mostrava que a aposta principal era de se posicionar nos grandes hubs asiáticos.

De Porto Rico a Salvador, e de Olkhon a Tahiti, os 52 destinos 2019 do New York Times

Salvador, único destino brasileiro da lista

Publicando a sua seleção 2019 dos 52 destinos sugeridos para o ano, o New York Times conseguiu mais uma vez inovar e surpreender. Iniciada em outubro, e liderado pela editora chefe do caderno de turismo do jornal, o processo mobilizou não somente a equipe nova iorquina mas os correspondentes, jornalistas e fotógrafos que o NYT tem nos cinco continentes. Alem dos critérios próprios de cada destino, foram também avaliados as novidades do local, o seu acervo cultural, a sua sustentabilidade, bem como os seus cuidados com o overturismo. É provável que nenhum turista – a não ser Sebastian Modak, o jornalista que foi escolhido para isso – vai visitar esses 52 lugares, mas a lista será sem dúvidas uma fonte de inspiração para muitos viajantes que querem seguir os novos trends do turismo mundial.

A Grécia, um dos destinos esquecidos nessa seleção 2019

O sério do jornal e a transparência do processo não impedem as primeiras críticas sobre as escolhas feitas. A lista é sem dúvidas muito “americana” com 11 destinos estadounidenses e 2 canadenses. A Europa é bem representada com 19 destinos, mas a Ásia (6), a América latina (4), a África (2), e o Oriente Medio (4) não parecem despertar o mesmo interesse. E se alguns destinos são incontestáveis boas dicas para 2019, outras parecem ter sido escolhidas somente para esbanjar originalidade, impedindo talvez a entrada de concorrentes mais atraentes e mais promissores. A notoriedade do New York Times e a qualidade do trabalho da equipe da editora chefe fazem assim mesmo da publicação das “52 places to go in 2019” um evento para todos aqueles que querem seguir os novos trends do turismo mundial.

Porto Rico liderando os destinos 2019 do NYT

Porto Rico, Hampi (na Índia) e Santa Barbara são os três destinos que dividem o pódio. Porto Rico parece ter sido mais premiado pela sua garra em se recuperar dos estragos feitos pelo furacão Maria, já que nenhuma das três novidades anunciadas – A programação do  Centro de Bellas Artes Luis A. Ferré , o anuncio do novo centro de lazer de San Juan, o District Live! , ou a nova escala dos navios de cruzeiros em Port das Américas, no litoral sul da ilha-, parece justificar a transformação do pequeno Estado associado na maior e mais excitante atração do turismo mundial. Hampi, sitio  tombada pela UNESCO agora mais acessível e com algumas infraestruturas novas, merece atrair os apaixonados de cultura indiana com suas mil construções preservadas desde o século XVI. Ao contrario parece surpreendente que um simpático foodie market seja suficiente  para por Santa Barbara em terceiro lugar.

As Ilhas de Tahiti foram merecidamente confirmadas na lista

A lista muitos acertos merecedores. O New York Times premiou alguns destinos tradicionais mas que devem ser relembrado como os Açores, Zadar e a costa da Croácia, o Irã, Tunis, Cadiz, ou as Ilhas de Tahiti. Lembrou também que grandes experiências podem ser vividas fora das grandes capitais, em Plovdiv na Bulgária, em Lyon ou Marselha na França, em Aalborg na Dinamarca ou em Perth na Austrália. Deve ser anotado alguns premios de criatividade, como as Ilhas Maluinas, a trilha de Paparoa (na Nova Zelândia), a ilha de Olkhon (no meio do lago Baical), ou o vale de Elqui no deserto do Atacama. O Brasil só teve um destino na lista, Salvador de Bahia, mas com um brilhante décimo quarto lugar apoiado na sua nova Casa do Carnaval , na abertura dos Fera Palace Hotel e do Fasano Salvador, ou do sucesso da franco-brasileira  Regata Transat Jacques Vabre. E agora, quais destinos brasileiros entrarão na lista 2020?

Jean-Philippe Pérol

Olkhon no lago Baical, uma escolha prêmio de criatividade!