No Benim, turismo de memória e trilhas espirituais nas raizes do Candomblé

Uidá, a porta do não retorno

Da cidade de Abomei, até o porto de Uidá, uma trilha de 125 quilometros é a grande esperança do turismo do Benim. Seguindo um traçado definido por um sobrevivente da última travessia de um navio negreiro americano, Cudjo Lewis, essa trilha foi o caminho onde pisaram mais de um milhão de escravos vendidos pelos Reis do Daomé aos traficantes portugueses, ingleses, holandeses, franceses, dinamarqueses e brasileiros instalados no então Forte de São João Baptista de Ajudá. E durante duzentos anos, apoiados num temido exercito cujas tropas de elite eram amazonas guerreiras, a dinastia Fon jogou nesses caminhos escravos capturados no Norte do pais ou nos estados vizinhos de Allada, Oyo ou Ketu.

Os palacios dos Reis de Abomei, inscritos no patrimonio mundial

O patrimônio cultural do Benim faz sonhar os profissionais do turismo que já viram as chegadas internacionais  aumentar de 25% nos últimos seis anos. No inicio da trilha, em Abomei, os palácios dos doze reis que se sucederam de 1625 à 1900, seus recintos e seus baixos relevos, já foram restaurados e são agora inscritos pela UNESCO ao património mundial da humanidade. E em Uidá os fãs do turismo memorial poderão não somente visitar a cidade velha ou o antigo Forte português, mas também passar por baixo da “Porta do não-retorno”, erguida em 1995 pela própria UNESCO em homenagem as vítimas do comercio atlântico de escravos.

Influência brasileira na peculiar mesquita de Porto Novo

Alem do turismo de memória, o Benim é também para o turista brasileiro um destino único pela influência que o Brasil teve nas populações e na cultura local. Descendentes de escravos libertados ou de traficantes, milhares de beninenses se orgulham das suas origens brasileiras, começando com mais de 400 sobrenomes de origem portuguesa. Alguns deles – os chamados “Agudás” – festejam o Carnaval e homenageiam a Nossa Senhora do Bonfim. Em Porto Novo, a influencia da arquitetura colonial luso-brasileira é visível em varias casas  do século bem como na surpreendente mesquita construída a partir de 1911, inspirada da Catedral de Salvador da Bahia. E algumas casas antigas de Uidá teriam acolhidas os exilados da Revolta dos Malês.

Templo de Legba (Exú) em Abomei

Alem do turismo memorial e de intercâmbio cultural, o Benim oferece ao turista brasileiro uma volta para as raízes das religiões afro-brasileiras. A trilha definida pelo Cudjo Lewis começa em Abomei perto de um templo de Legba (Exú) e acaba em Uidá no Templos das serpentes, com dezenas de pitões vivos honrando Dan/Oxumaré, e um iroko sagrado velho de 600 anos. No nome das batalhas dos guerreiros da etnia Fon (Jejê), encontra se a origem dos escravos mandados para o Brasil – Oyo, Ketu, Abeokuta …- que levaram do outro lado do Atlântico os seus orixás. A grande festa do vodú é o dia 10 de janeiro, um festival onde os brasileiros vão reconhecer sem dificuldades o nome das divinidades locais, como Ogum, deus do Ferro, ou Xangô, deus do Trovão.

Templo vodú em Uidá

Hoje o maior edifício religioso de Uidá é a basílica da Imaculada Conceição, mas o Benim continua guardando uma especificidade espiritual que deve muito a seu passado afro-brasileiro.  E se o pais conta agora com 30% de católicos, 20% de muçulmanos e alguns protestantes, ele tem também 100% de “vodunsi”. Uma unanimidade espiritual que ajuda a esquecer as feridas do passado.

Jean Philippe Pérol

Os Agudás festejando o Bonfim

 

Chacha I, brasileiro, mestiço, traficante mas vice rei e heroi dos Agudás

 

 

 

 

 

 

Parabens para o Turismo do Portugal!

Os cais da Ribeira e a ponte Dom Luis no Porto

Ganhando o título de melhor destino europeu nos World Travel Awards 2017 no último mês de Setembro na Rússia, o Portugal confirmou brilhantemente os seus sucessos dos últimos anos como estrela crescente do turismo europeu. Depois de levar 14 Oscars do turismo em 2015, e 24 em 2016, os profissionais portugueses conseguiram a façanha inédita de levar 37 prêmios, incluindo o melhor terminal de cruzeiros (Lisboa), a melhor ilha turística (Madeira), o melhor destino de praia (Algarve), o melhor orgão oficial de turismo (Turismo de Portugal), bem como varios destaques para a TAP, os hotéis Pestana, Quinta do Lago e Vila Joya. Os World Travel Awards recompensaram assim o Portugal pela sua nova imagem, sua segurança e seus preços competitivos, e o atendimento dado seus 21 milhões de turistas.

A Secretária Ana Godinho recebendo o WTA 2017

Se os World Travel Awards foram um justo reconhecimento dos sucessos do turismo português ao nível internacional, o Brasil é sem dúvidas um dos países onde a progressão foi a mais espetacular, tanto pela mudança radical na imagem que pelos resultados. Quem se lembra do mercado brasileiro dos anos 90 sabem que o Portugal nem aparecia no pódio dos principais destinos europeus. O Portugal só vinha em quinto lugar das preferências dos brasileiros, atrás da França, da Itália, da Espanha e até da Inglaterra. O Brasil era então uma exceção na América Latina como o único pais a não dar uma posição de destaque para sua ex potencia colonizadora, todos os “hermanos” escolhendo a Espanha como primeiro destino.

O Palácio da Pena em Sintra

A imagem do Portugal – então considerado antiquado, atrasado e depreciativo – era a primeira responsável por essa singular colocação, e impactava todos os profissionais lusitanos, as vezes com maiores injustiças. Lembro assim duma pesquisa feita pela Air France nos anos setenta sobre a imagem das companhias aéreas no Brasil. Destacava a força global da Varig e logo depois da Air France, única transportadora estrangeira a se aproximar da saudosa Viação Riograndense, mas classificava também as  empresas por cada fator de julgamento. Assim em termo de segurança, a TAP era considerada a menos seguras da 15 companhias internacionais operando no Brasil, enquanto era a única da lista a nunca ter sofrido um único acidente (a primeira colocada era uma empresa americana que tinha lamentada 5 acidentes naquele ano …).

Roof top bar em Lisboa

Mas hoje o quadro mudou completamente, a imagem do país passou a ser moderna, segura, acolhedora e descontraída. A TAP quase virou uma companhia nacional brasileira, com mais de 70 voos semanais saindo de 10 capitais. Destino na moda para jovens, ativos ou aposentados, o Portugal lidera agora os destinos europeus favoritos dos brasileiros. Desde 2016 passou na frente da França, líder histórico, crescendo de 13,7% mesmo com a crise e chegando então a 625.000 visitantes.  Os números de 2017  deverão mostrar novo recorde histórico e talvez ultrapassar os 700.000 visitantes, consolidando o primeiro lugar nas preferências dos viajantes. A tendência deveria continuar em 2018, os bookings das grandes centrais de reservas internacionais são promissores, e o jornal Estado de São Paulo já definiu no seu suplemento Viagem que o Portugal será o melhor destino de 2018, na frente da Rússia e do Canadá. Parabéns para o Turismo do Portugal!

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Norwegian Argentina abrindo caminho para novos destinos, com oportunidades para Tahiti e o Caribe francês

A Norwegian Air Argentina chegando com rotas inéditas

Enquanto as companhias low-costs estão multiplicando as aberturas de linhas entre a Europa e as Américas, incluindo o Brasil com os voos da Joon/Air France para Fortaleza, a Norwegian quer fazer de 2018 o ano de todos os sucessos. Hoje terceira low cost europeia, anunciou a abertura de mais 12 rotas para os Estados Unidos, saindo de Amsterdã, Madri e Milão. De Paris, a  dinâmica companhia norueguesa anunciou agora voos diretos para oito aeroportos americanos: Nova Iorque (JFK e Newark), Boston, Fort Lauderdale, Orlando, Denver, Los Angeles e Oakland. Norwegian surpreendo também seus concorrentes com o lançamento de uma classe Premium, com mais de um metro de espaço para as pernas, novos equipamentos de vídeo e wifi a bordo.

Buenos Aires Londres, primeiro voo programado, no dia da Saint Valentin

Mas a grande novidade para Norwegian será o inicio das operações da sua filial argentina, aberta em setembro do ano passado e que vai começar a voar de Buenos Aires para Londres no dia 14 de fevereiro , oferecendo passagens a partir de 340 Euros. O projeto argentino, onde será investido 4,3 bilhões de USD nos próximos dez anos, é extremamente ambicioso, as previsões para 2024 sendo de 70 aviões, com uma rede regional, sul-americana e intercontinental para quatro continentes, e um total de 17 milhões de passageiros. As autorizações dadas em dezembro pelo ministério argentino dos transportes surpreenderam pelo numero de rotas concedidas, um total de 152, com 72 domesticas e 80 internacionais, 51 das quais estão hoje sem concorrente.

Os argentinos já lideram as 100.000 chegadas internacionais em Fortaleza

O Brasil pode talvez lamentar que um investimento desta importância escapou para o vizinho “hermano”, especialmente quando se sabe que os primeiros estudos e contatos tinham sido feitos há três anos no Brasil pelos executivos europeus e norte americanos da empresa. Mas,  mesmo sediada em Buenos Aires, a Norwegian Air Argentina deve trazer uma grande contribuição para o turismo brasileiro, abrindo mais ainda o seu maior . São previstas 13 voos saindo de Buenos Aires para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Natal, Maceió, Porto Alegre,Porto Seguro, Salvador e Recife. Dois voos sairiam de Córdoba para São Paulo e Salvador, e um de Mendonza para São Paulo.

Tahiti e suas ilhas (acima Tikehau) no calendário da Norwegian

As novas rotas planejadas pela Norwegian vão também trazer novas ofertas de voos mais diretos (especialmente se a empresa consegue autorizações de “quinta liberdade”da ANAC)  e/ou mais baratos para os brasileiros. Alem de destinos tradicionais como Paris, Miami, Nova Iorque, Roma ou Madri, aonde a competição será acirrada com LATAM ou Aerolínas,  são programadas novidades como Moscou, Perth, Honolulu, Kiev, Oslo ou Tel Aviv, hoje sem concorrentes diretos. A França “ultramarina” poderia também ser uma das grandes favorecida pelo dinamismo da companhia norueguesa. Papeete, na Polinésia francesa, é uma das rotas autorizadas – um incremento da oferta atual que poderia consolidar o impressionante sucesso de Taiti nos últimos dois anos.

O hotel La toubana, charme e bom gosto na Guadalupe

O Caribe francês poderia também ganhar uma grande oportunidade no mercado Argentino (e talvez no Brasil). A Norwegian vai competir na rota de Saint Martin, destino bem conhecido dos argentinos, tanto do lado francês que do lado holandês, tanto como ponto de transito para Saint Barthelemy que de saída para numerosos cruzeiros. Já bem instalada na Martinica e na Guadalupe, onde opera rotas para Estados Unidos, Canadá e França, a nova low-cost conseguiu autorizações para Fort de France e Pointe à Pitre. Para essas ilhas francesas que sempre sonharam em receber turistas da América do Sul, mas nunca tiveram ligações regulares (Saint Martin e a Guadalupe tiveram só charters, a Martinica tem um charter semanal da MSC), a chegada da Norwegian Air Argentina pode ser o inicio de uma grande arrancada tanto na Argentina que no Brasil.
Jean-Philippe Pérol

La Samanna em Saint Martin, com reabertura prevista nos próximos meses

 

 

Muitas tendencias para o ano novo, e o robô com destaque do turismo em 2018?

A Islandia, um dos destinos de frio destaques de 2018

Com o ano novo, os viajantes procuram inspirações e ideias para definir quais são as tendências que guiarão nos próximos meses as suas escolhas de destinos, de temáticas ou de tipo de hospedagem. American Express, Booking, Virtuoso, Voyageurs du Monde, USA today, USTOA, Pinterest ou le Journal de Montréal, são muitos jornais, mídias, agencias de viagens, operadoras ou associações profissionais  divulgam listas prospectivas. As escolhas são as vezes esperadas, as vezes surpreendentes, devido não somente aos mercados onde são feitas, mas também as metodologias utilizadas: reservas já realizadas, pesquisas de opinião junto a turistas potenciais, mesas redondas de técnicos ou de profissionais, ou simplesmente  opinião pessoal dos editores ou dos promotores. Mas mesmo com bases nem sempre científicas, essas listas deixam aparecer tendências fortes que impactaraõ o turismo em 2018.

Malta, destino exclusivo e capital europeia da cultura em 2018

As primeiras tendências são os grandes destinos que vão se consolidar, voltar ou aparecer esse ano.  O Portugal, a Itália, a França, os EE UU, o Reino Unido e o Japão ficam assim na liderança, mas outsiders muito dinâmicos estão crescendo. É o caso dos destinos de clima frio, com um destaque para Islândia, mas também da Noruega, da Alaska, do Groenlândia, da Rússia, das Ilhas Feroé ou da Patagônia. Capital Europeia da cultura, Malta deve consolidar sua posição de destino sofisticado no Mediterrâneo, mas a Eslovénia e  o Montenegro, a Tunísia e Chipre se juntaram aos lugares do momento. Na Ásia outro evento – os Jogos de inverno- deve favorecer a Coreia do Sul, e nas Américas a onda do enoturismo explica o sucesso do Chile e da Napa Valley. 2018 deve consolidar vários destinos exóticos, do Omã ao Irã, do Vietnã a Bali, da Polinésia francesa até a Nova Zelândia e a Ilha Mauritius.

O enoturismo, uma temática destacada nas tendências 2018

Os mesmos analistas se arriscaram também a adivinhar as temáticas que vão atrair os viajantes. A cultura e a historia continuam a ser as maiores motivações, seguidas do culinário, e dos grandes eventos culturais ou esportivos. Ricos em experiências, o enoturismo, o ecoturismo, o turismo de bem-estar, o turismo religioso e os cruzeiros vão continuar em forte crescimento. Dando conteúdos emocionais as viagens, estão aparecendo e/ou reaparecendo o turismo genealógico – nos passos dos seus ancestrais-, o turismo “vintage” – nos passos da sua própria infância- , ou o turismo de “pop cultura” – nos passos dos seus personagens de filmes, de série ou de telenovelas. Para viver essas experiências, os viajantes vão cada vez mais privilegiar pequenos grupos de familiares, misturando até três gerações, ou grupos de amigos, esses incluindo as crescentes ” viagens de amigas”. 

O Glamping juntando glamour e camping, aqui na Australia

Se os profissionais do turismo deverão sem dificuldades se adaptar a esses  pedidos dos viajantes, duas novas tendências destacadas para 2018 vão exigir mais evoluções dos agentes e dos hoteleiros. Para esses, e mesmo com a grande criatividade que tiveram nos seus produtos, a diversificação da hospedagem segue crescendo. Mesmo com regras fiscais e operacionais cada vez mais rígidas, os alugueis de apartamentos e casas – AirBnb ou outros- está atraindo agora 33% dos viajantes, e novas ofertas – o glamping por exemplo- estão surpreendendo.

Robôs agora invadindo a industria do turismo

Mas o grande assunto para 2018 será talvez o Robô. Alguns analistas anunciam que eles vão tomar conta da industria do turismo. Os “bots” oferecem até serviços de concierge personalizados. Buscando informações na nossa intimidade no web, eles vão agora ir bem além das tradicionais reservas. Novos aplicativos como Google Trips são capazes de propor destinos, alojamentos, restaurantes ou atividades correspondendo ao perfil de cada viajante, e de planificar a viagem escolhida, oferecendo ainda apoio, dicas e serviços durante a viagem. Claro que essas novas tecnologias poderão tambem ajudar o proprio agente a melhorar os serviços dado a seus clientes. Mas a criatividade, a capacitação, e o domínio desses novos ferramentas  serão chaves para evitar que um Robô ganha o prêmio de agente de viagem 2018.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Sucessos, alegrias e grandes experiências de viagens, nossos votos para 2018!

 

Foto: Ruy Tone

Para todos nossos amigos e colegas do trade turístico, para todos nossos amigos que gostam de viajar, esperamos que 2018 seja um grande ano para o turismo, levando muitos brasileiros nos quatro cantos do Brasil e do mundo, e trazendo na Amazônia, em Fortaleza, no Rio ou no Sul do pais os turistas internacionais que o Brasil merece.  Para todos, desejamos um ano de sucessos profissionais, de realizações pessoais, de muitos momentos de alegria, e de grandes experiências de viagens.

Bonne Année!

 

 

Vendas diretas das operadoras, uma tendência irresistível?

Consumidor europeu na briga das agencias e das companhias pelas vendas diretas

Com viajantes cada vez mais informados e mais atentos para encontrar o melhor preço, as vendas diretas viraram um assunto de primeira importância para todos os atores do trade. No meio de uma polêmica com as agências europeias sobre a transparência e o custo de tais vendas, as companhias aéreas vêem nessa comercialização sem intermediários não somente um meio de reduzir seus custos, mas também uma ferramenta para criar ligações diretas com seus clientes.  Segundo um estudo da IATA de 2016,  as companhias aéreas já antecipam para 2021 a seguinte repartição de suas vendas: 9% de vendas com as OTA (-2%), 21% com as agências corporate (+1%), 16% com as agências tradicionais (que teriam uma queda de 4% de sua participação no mercado) e 52% de vendas diretas (+5%), um número que até pode ser superado no Brasil, onde algumas companhias já passam de 45%.

O espaço Braztoa no WTM Latin América

A batalha das vendas diretas deve em breve mudar de campo e as Operadoras serão, talvez, os atores que irão enfrentar agora as maiores mudanças. Sempre discretas sobre seus projetos de desenvolvimento em direção ao consumidor – e ainda no Brasil muito respeitosas às agências de viagem -, elas podem antecipar as evoluções olhando as tendências dos grandes mercados emissores. Assim, na França, a Associação das Operadoras (SETO, equivalente da BRAZTOA) mostrou as mudanças dos comportamentos de compra dos viajantes nos últimos cinco anos e a conclusão mais forte foi um espetacular crescimento das vendas diretas, que passaram de 31% a 45% entre 2012 e 2017, e até de 56% a 68% se incluir as agências pertencentes a estas operadoras.

Evolução por canal das vendas das operadoras francesas de 2012 a 2016

Os grandes vencedores desse novo mapa da distribuição são os sites B2C das operadoras, que dobraram sua faixa de mercado. As agências tradicionais continuam sendo o primeiro canal de vendas – especialmente nos pacotes mais caros-, mas são as grandes perdedoras, com uma queda de 27,3% em quatro anos. Estas evoluções não impedem, porém, as operadoras de serem muito cautelosas e de respeitar os comportamentos dos viajantes. Consumidores cada vez mais atentos, eles seguem utilizando vários canais, procurando na web, olhando nas mídias sociais, pedindo conselhos e dicas a um agente capacitado, reservando no call center ou se juntando a um grupo organizado por sua empresa. E, se o crescimento das vendas diretas é uma tendência irresistível nos mercados internacionais, os agentes tradicionais deveriam continuar a atrair os consumidores mais exigentes.

Jean-Philippe Pérol

Com 335.000 pacotes, as Ilhas Canárias são o destino mais vendido pelas operadoras francesas

30 anos de turismo francês, evoluindo com os atores do trade e os proprios viajantes!

O bicentenário de 1789 foi um dos maiores impulsos para o turismo francês

Deixando esse mês a Diretoria Américas da Atout France, fico impressionado com a importância das mudanças que o “marketing de destino” enfrentou no Brasil nos últimos 30 anos. Além do cotidiano, comparando o primeiro escritório da Maison de la France, onde duas funcionárias distribuíam duas toneladas de folhetos por mês, a toda informação e à comunicação que hoje são concentradas na nova plataforma web onde está sendo hospedado o site france.fr, o novo banco de dados e a gestão das mídias sociais, com nosso milhão de fãs brasileiros. Três evoluções do setor turístico no Brasil transformaram completamente o papel da Agência de Desenvolvimento Turístico da França e das secretarias de turismo dos seus principais concorrentes.

Os novos viajantes empurrando o Brasil como terceiro mercado fora da UE

A primeira foi o crescimento do Brasil como mercado emissor para a França, passando de menos de 200.000 turistas a quase 700.000, sendo somente ultrapassado, fora da Europa, pela China e pelos Estados Unidos. Esse crescimento não foi somente quantitativo, mas gerou novos perfis de viajantes. A França manteve seus clientes tradicionais – casais ou pequenos grupos de amigos da classe A,  francófilos e bons conhecedores da arte de viver à francesa -, mas agora também recebe outros brasileiros. Os novos turistas são mais novos, pertencem às classes A ou B, precisam de mais apoio, viajam mais em grupo, visitam mais países na Europa, voando para outras capitais ou rodando de ônibus. Com muita vontade de viajar pelo mundo, mas como menos de 10% deles fazem uma viagem internacional por ano, eles representam o maior potencial para os 1,5 milhões de turistas que a França tem como objetivo no Brasil.

Hotel Urbano, um dos novos atores mudando a distribuição

A segunda grande mudança foi da distribuição. A França era principalmente comercializada através de grandes operadores europeias de circuitos (Polvani, Melia, Pullmantur, Marsans, Abreu, Transocean), ou através de operadoras brasileiras especializadas, tais como Bon Voyage, Imperial, Elantur, Oremar, Wagons-lits, Renocar. Se hoje o DNA da Atout France continua sendo uma forte ligação com operadoras e agências, os atores mudaram. A brasileiríssima CVC ficou em um disparado primeiro lugar com a metade dos pacotes para França, as agências on-line pegaram a sua fatia do mercado. As operadoras tradicionais devem contar com concorrentes criativos, tais como Hotel Urbano, mas também com novos canais de distribuição: blogueiros, plataformas de receptivo ou atores da economia colaborativa.

Parceria com o trade, especificidade e força da Atout France

A Atout France teve também que se adaptar a uma profunda evolução das expectativas dos seus parceiros. Enquanto a estratégia da Maison de la France era de atrair empresas de turismo para construir com elas ações de marketing, duas novas exigências tiveram que ser integradas aos planos da Atout France. A crescente necessidade de medir os resultados de cada investimento levaram a privilegiar as ações de vendas com retorno imediato.  E a importância estratégica do “branding” leva cada empresa e cada destino  a administrar com muito ciúme sua imagem, aceitando com dificuldade que ela seja diluída em uma ação coletiva, campanha de publicidade ou até evento. O marketing do destino França teve, então, que evoluir, se apoiando cada vez mais em produtos e declinando a marca França em cerca de 40 “brands”, de Bordeaux à Toulouse-Pyrénées, dos Alpes-Mont Blanc à Guiana Amazônia, ou de Biarritz Pays Basque à Normandia.

Esse capacidade de evoluir em função das novas expectativas dos turistas e de acompanhar as mutações do trade é, sem dúvidas, responsável pelo sucesso da França como grande destino turístico – esse ano será quebrado um novo recorde, com 89 milhões de entradas. Frente a nossos grandes concorrentes, especialmente os Estados Unidos e a China, ela será também a chave para se manter no primeiro lugar dos desejos dos viajantes.

Jean-Philippe Pérol

Perto de Bordeaux, a primeira experiência de uma viajante brasileira de amanhã

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Saint Martin: depois das primeiras urgências, a certeza de uma reconstrução rápida e sustentável!

 

Saint Martin, a ilha amiga no Caribe francês

De Anguilla a Key West, passando pelas Ilhas Virgens e Cuba, o furacão Irma deixou uma trilha de devastação material e de dramas humanos, arrasando regiões muito queridas no Brasil, tanto pela proximidade geográfica e cultural que pela familiaridade com os seus grandes destinos turísticos. As ilhas francesas de Saint Martin e Saint Barthelemy, visitadas a cada ano por mais de 10.000 brasileiros, foram duramente atingidas. Mas depois do choque, começou uma impressionante operação de ajuda que levou o proprio Presidente da Republica francesa a visitar as duas ilhas para mostrar o seu apoio às populações. Daniel Gibbs, Presidente da Coletividade de Saint-Martin, descreveu  a situação de seu território após a passagem do furacão no último dia 6 de setembro de 2017, anunciando as três etapas da reconstrução que as autoridades já estão liderando.

A primeira fase da organização pós-furacão consistiu em gerenciar  as urgências dos cuidados às pessoas feridas, doentes ou em dificuldades, e na evacuação dos turistas ainda bloqueados nas ilhas – quase todos eles já tendo sido repatriados para seus países de origem. Foi também assegurada a segurança do território através da chegada de importantes reforços do Exército e da polícia militar da França. Essa primeira Fase já está concluída e a segurança do território está sob controle. O Presidente e sua equipe trabalham agora com seus parceiros na segunda fase da organização pós-furacão,  dando priorizando a limpeza dos escombros, dos itens volumosos e dos detritos gerados e transportados pelo furacão, a distribuição de água, comida e de material, assim como a reabilitação das redes de água, saneamento básico e eletricidade.

A terceira fase das ações da coletividade será lançar o mais rapidamente possível a reconstrução do território para a população e as empresas poderem retomar as suas atividades habituais. O encontro com o presidente francês, Emmanuel Macron, na última terça-feira 12 de setembro de 2017 permitiu ao presidente Gibbs expor as necessidades urgentes, bem como as medidas de acompanhamento que devem ser negociadas entre a França e a Coletividade. Nesta fase, ainda em curso, a recuperação do turismo é uma prioridade, e um conjunto de peritos deve avaliar o estado dos hotéis, residências e guest houses para ajudar na reconstrução das infraestruturas turísticas.

O trabalho do Presidente da coletividade de Saint Martin e das suas equipes têm agora dois objetivos maiores: o acompanhamento de todos os momentos dos moradores, com foco  na ajuda aos trabalhadores desempregados e no apoio às empresas, e a reconstrução rápida e durável do território para que Saint-Martin possa retomar sua atividade econômica. O presidente Gibbs e sua equipe farão de tudo que está em seus poderes para que o território retome sua atratividade. Ele agradece calorosamente a todos os parceiros e operadores de turismo que se mobilizaram para Saint-Martin e que acompanham agora os são-martinhenses para que a “Ilha amiga do Caribe francês” volte a ser um dos destinos mais apreciados do Caribe.

Vista aérea de Saint Martin

 

 

Rangiroa, do outro lado do mundo, enoturismo com golfinhos e baleias!

Entre a lagoa e o Oceano, os vinhedos de Rangiroa

Para quem gosta de vinhos diferentes, o “Special Blend” da Bodega del fin del Mundo é sem dúvida uma excelente opção. Nos confins da Patagônia Argentina, em San Patricio del Chanar, alguns pioneiros conseguiram colher uvas dos melhores vinhedos da região – Malbec, Cabernet Sauvignon e Merlot – e compor o vinho único, aromático, tânico e sensual, que seduz não somente pela sua potência, mas também pela sua origem tão peculiar. Mas, pelo menos pela geografia, esse vinho da Patagônia tem agora um concorrente muito sério para o título de vinho proveniente da última adega do fim do mundo. Na ilha de Rangiroa, no arquipélago das Tuamutus, na Polinésia Francesa, um destemido empreendedor, Dominique Auroy, e um enólogo vindo da Alsácia, Sebastien  Thepenier, estão produzindo três brancos e um rosé, única vinícola num raio de 5 a 10 mil quilômetros nesses confins do mundo do Pacífico Sul.

Os quatro rótulos produzidos em Rangiroa

Depois de experimentar dezenas de uvas em várias ilhas da Polinésia, Dominique Auroy ficou convencido de que o terroir de coral de Rangiroa era o melhor lugar para implantação dos vinhedos, selecionando três variedades para compor o seu “Vin de Tahiti”: Carignan, Grenache e  Muscat. O clima regular e com pouca chuva oferece também a possibilidade de duas safras por ano. O sucesso foi rápido, e a produção subiu para 38.000 garrafas. Depois de descartar os tintos que não chegavam à qualidade requerida, quatro rótulos se destacaram: o “Blanc de Corail”, muito mineral mas com sabores de agrumas, e o “Clos du Récif” , com notas de baunilha, sendo os dois premiados em 2008 e 2009 com a medalha de prata das Vinalies Internationales. O rosé “Nacarat” tem sabores de frutas vermelhas, e o branco doce é um perfeito companheiro para um aperitivo ou um prato tahitiano de frutos do mar.

Le mur de requins de Rangiroa @GIE Tahiti tourisme/Philippe Bacchet

 Mas se Rangiroa pode ser colocada agora nos roteiros do enoturismo internacional, a fama da ilha vem em primeiro lugar pelos seus extraordinários spots de mergulho. Para principiantes ou profissionais, a lagoa oferece emoções múltiplas com muitos tipos de peixes, tubarões, barracudas, golfinhos, tartarugas, desde o spot tranquilo do “Aquarium” para um snorking em família, até a “parede de tubarões” que encontra-se a uns 50 metros de profundidade, perto da famosa passe de Tiputa. É nessa passe, bem como na segunda passe do atol – Avatoru -, que são organizadas as principais saídas dos seis clubes de mergulho. Qual que seja a excursão escolhida, e a hora do dia ou da tarde, a caçada dos tubarões (ponta negra, cinza, martelo, seboso ou limão) é sempre o momento mais espetacular, quando eles espalham as “perches pagaies”, os  “chinchars”, as  “caranges”, ou os “napoleões”.

Golfinho pulando na passe Tiputa

Além do enoturismo e do mergulho, Rangiroa, segundo maior atol de coral do mundo com mais de 250 quilômetros de circunferência, vale também pelas suas belezas naturais. A lagoa azul – uma pequena lagoa dentro da lagoa principal – ou as areias cor-de-rosa, são os passeios mais procurados pelos numerosos casais em lua-de-mel. E, para quem quiser mesmo descansar, que tal tomar um copo de “Blanc de Corail” nas famosas cadeiras laranja da Pousada “Le Relais de Josephine”, esperando uma baleia ou olhando para os golfinhos que brincam de entrar e sair pela passe de Tiputa.

Manuia!*

Jean-Philippe Pérol

*Saude em tahitiano

No Relais de Josephine, o lugar certo para esperar baleias e golfinhos

Turismo para família combinando Disney, parques, outlets … e cultura? Paris Ile de France, claro!

Disneyland Paris, primeira atração turística da Europa

As comemorações dos 25 anos da Disneylândia Paris mostraram o sucesso desse empreendimento – hoje a atração turística mais visitada da Europa com 13,4 milhões de entradas -, bem como o impacto que ele teve sobre o turismo francês. O Mickey com sotaque atraiu novos perfis de visitantes e deu um novo impulso não somente nos mercados de proximidade mas também na Ásia e nas Américas. No Brasil, que até então dava para a Flórida a quase exclusividade dos parques de lazer, foram mais de 80.000 viajantes (um crescimento de quase 40%) que descobrirão em 2017 a Disney à francesa. A crescente presença de brasileiros nos grandes parques como Asterix, o Puy du Fou e o Futuroscope, ou nos 250 outros parques  espalhados na região Paris Ile de France e nas outras regiões francesas, mostram que a França é cada vez mais considerada no Brasil como um destino para famílias com crianças grandes ou pequenas.

A Fondation Vuitton, encostada no Jardin d’Acclimatation

Em 2018, a reabertura do saudoso Jardin d’Acclimatation, encostado na Fondation Vuitton e nas florestas urbanas do Bois e Boulogne, vai dar mais um impulso na atratividade da região para o turismo de famílias. O mais antigo parque de Paris, aberto em 1860 pelo Imperador Napoleão III, está sendo completamente renovado e o seu proprietário, o grupo de luxo LVMH, tem a ambição de atrair em breve mais de 2 milhões de visitantes. O projeto inclui a renovação do patrimônio arquitetural herdado do Império, dos estábulos, do pombal, e dos aviários, bem como a valorização das atrações mais queridas dos parisienses –  Trenzinho (aberto em 1878), Rio Encantado (aberto em 1927), ou Casa dos Espelhos. Além das 23 atrações já existentes, 17 serão abertas, todas no mesmo espírito “retro-futurista” inspirado em Jules Verne. Apostando na complementaridade com a Fondation Vuitton, combinando parque e cultura, a LVMH espera atrair turistas internacionais de todas as idades.

Grandes marcas e pequenos preços no outlet La Vallée Village

Não bastassem os parques, a região Paris Ile de France está agora seduzindo as famílias pelas opções de shopping. As medidas tomadas para facilitar as aberturas de loja nos domingos, bem como a simplificação dos procedimentos de reembolso de até 16 % de impostos já agradaram os turistas. A multiplicação dos outlets  foi mais um passo. A França tem hoje 21 “vilarejos de marcas”, sendo oito perto de Paris e três em Troyes, na Champagne vizinha. Os maiores, tais como o One Nation Paris, as Marques Avenues, o Usine Center, ou o Usine Mode et Maison, chegam a juntar lojas de fábricas, lojas de departamentos (inclusive cinco Galeries Lafayette) ou até lojas tradicionais, com preços de liquidações. Pela proximidade da Disney, ou talvez das 190 lojas do shopping Val d’Europe, hospedando 120 marcas francesas e internacionais, o La Vallée Village , que hospede 120 marcas francesas e internacionais, é o mais popular junto aos turistas brasileiros.

Em Vaux le Vicomte, cultura e diversão para toda família

Na concorrência com os grandes destinos de turismo em família curtidos pelos brasileiros, a região de Paris Ile de France tem acima de tudo um trunfo importante, um acervo cultural excepcional que surpreende pelas numerosas ofertas para crianças de todas as idades. Em Paris mesmo, a Cité des Sciences, o Palais de la découverte, o Musée des Arts forains são algumas opções para as famílias, bem como o Museu do Homem, o Museu da Marinha ou o próprio Louvre, se o roteiro escolhido for adaptado – mostrando que a cultura pode também ser atual e divertida. Nos arredores da capital, os mais prestigiosos castelos, incluindo Versalhes, Fontainebleau ou Vaux le Vicomte, oferecem animações ou eventos  para adultos e crianças. Para os turistas brasileiros, que exigem das suas viagens para França uma forte dimensão cultural, será talvez um argumento decisivo para escolher Paris e sua região como o outro destino para famílias juntando parques de lazer, shopping … e cultura.

Jean-Philippe Pérol

Os Etangs de Corot, exemplo de canto escondido de Paris Ile de France