Politica vai mesmo impactar o turismo no Brasil?

A imprensa internacional não poupou o vencedor da eleição presidencial

Lendo as grandes mídias internacionais, do New York Times a El Pais ou do Haaretz ao Le Monde, uma onda de reprovação contra o resultado das últimas eleições presidenciais no Brasil estaria chacoalhando a imagem do nosso Brasil, ameaçando também as nossas exportações e mais ainda o nosso turismo. No Brasil, a UOL deu espaço a essas noticias, focando na França e num possível  boicote de potenciais turistas franceses decepcionados, frustrados ou amedrontados pelas temáticas de campanha do Jair Bolsonaro. Várias ligações ou post nas redes sociais de amigos ou parentes preocupados com minha situação pessoal – como viver agora num país onde o exercito já estava nas ruas (!) e onde as liberdades mais fundamentais eram desrespeitadas (!) – me mostraram que as informações, reais ou fake, tinham de ser consideradas: a chegada de turistas estrangeiros poderão mesmo ser prejudicada?

Segurança é um critério chave para escolher ou não um destino de viagem

Se o fato de ser estrangeiro obriga a não opinar sobre os assuntos políticos brasileiros e a respeitar as escolhas democráticas, várias observações podem ser feitas a respeito do impacto para o turismo. A primeira é de lembrar que as decisões dos turistas ao escolherem as suas viagens internacionais dependem também de fatores objetivos, sendo para o Brasil especialmente a segurança e  os custos do aéreo. Ainda é cedo para saber se o próximo governo conseguirá melhorar essa situação, mas parece que está extremamente preocupado em conseguir resultados, tanto em reduzir a criminalidade que pesa nas vendas do Rio de Janeiro e das capitais nordestinas, tanto nos preços dos vôos internacionais e domésticos que prejudicam o pais inteiro e mais ainda destinos turísticos mais remotos na Amazônia, no Centroeste ou no Sul.

Nos EEUU de Trump, o turismo já mostrou ser maior que a política

Refletir sobre politica e turismo é também olhar o impacto mútuo que já marcou outros destinos. É lembrar o sucesso do turismo internacional em países cujo cunhos democráticos já foram (com ou sem razão) discutidos, seja destinos lideres como a China, a Tailândia, a Turquia ou a Malásia, seja destinos tradicionais como Cuba, Marrocos, Egito ou Israel, seja destinos novos como Vietnã, Maldivas ou Irã. Mais interessantes é comparar as perspectivas brasileiras com as consequências sobre o turismo de votos populares na Inglaterra ou nos EE-UU. Na primeira, a decisão do Brexit em 2016 foi anunciada pela mídia européia como um desastre para o turismo local.  Os números não concordaram, mostrando 4,3% de crescimento em 2017 e 4,4% em 2018. Nos Estados Unidos, teve um impacto negativo da eleição do Trump – somente 0,7% de crescimento em 2017-, mas se devia também a outros fatores como as restrições de vistos impostos a vários países, e as previsões para 2018 já superam 6%.

A alegria brasileira nas campanhas da Embratur

Mesmo limitadas nas suas consequências efetivas, as  declarações de boicote das viagens para o Brasil não devem ser desprezadas, mas até levadas em consideração nas futuras campanhas de promoção internacionais que o setor espera do novo governo. Para sair do patamar limitado de 7 milhões de turistas – e chegar aos 10 ou até 15 milhões que suas riquezas naturais, culturais e humanas merecem, o Brasil deverá  não somente convencer que as preocupações de insegurança e de carestia já pertencem ao passado, mas também mostrar que ele continua sendo o pais da alegria e da liberdade de viver, o pais onde cada visitante, qual que sejam suas origines ou suas opções pessoais, é mesmo recebido com um carinho único!

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Istambul e Turkish Airlines agora com um ambicioso aeroporto para 200 milhões de viajantes

Inaugurando o novo aeroporto de Istambul, o Presidente turco anunciou a ambição de chegar em dez anos ao primeiro lugar do pódio com 200 milhões de passageiros. Com uma capacidade atual de 90 milhões, esse “Ponto de encontro do mundo” deve logo chegar ao terceiro lugar do ranking dos aeroportos internacionais, atrás somente de Atlanta  (103,9 milhões ) e Pequim (95,7 milhões), na frente de Dubaï (88,2 milhões), Tóquio (85,4 milhões) e Los Angeles (84,5 milhões), e dos grandes concorrentes europeus de Londres Heathrow, Paris Charles de Gaulle ou Frankfurt. Com um investimento global de mais de 10 bilhões de USD, a Turquia mostrou que o projeto ia além do transporte aéreo, mas queria reforçar o papel da cidade herdeira de Constantinopla e dos seus três impérios, como ponto de encontro das rotas comerciais e turísticas entre a Europa, o Oriente Médio e a Ásia.

A torre de controle desenhada pela Pinafarina e inspirada da Tulipa otomana

Primeiro aeroporto construído numa nova localização (greenfield) nos últimos 20 anos, o aeroporto de Istambul impressiona pelos seus números, devendo chegar em 2028 com 76 km2 de superfície, 6 pistas, 4 terminais, 6 milhões de m3 de concreto, 53.000  m2 de lojas comerciais (o maior free shop do mundo), um investimento global de EUR$ 10,2 bilhões e … uma torre de controle inspirada da tulipa, a flor símbolo do império otomano. Por impressionantes que sejam, esses números acompanham o crescimento do trafego aéreo turco – 15,7% em 2018 – e as ambições da companhia nacional . Fundada em 1933, e com um crescimento acelerado nos últimos cinco anos, a Turkish Airlines deve transferir ainda esse ano a totalidade dos seus voos para o novo aeroporto, primeiro passo de um projeto que inclui chegar a 500 aviões e 120 milhões de passageiros em 2023.

Emirates, a companhia que segura o futuro do A 380

Com Istambul e a Turkish Airlines, a Air France ou a Lufthansa vão enfrentar um desafio ainda maior em relação a já problemática concorrência das companhias do Golfo. Tanto a Emirates, a Etihad e a Qatar Airways já tinham trunfos decisivos: hubs bem programados, serviços a bordo de grande qualidade, e aviões novos que lhes garantia a escolha dos viajantes, bem como pesos decisivos nas vendas de aviões da Boeing e mais ainda da Airbus que lhe asseguravam os apoios dos governos nas negociações de rotas. Mas, mesmo com os pesados (e bem sucedidos) investimentos de Abu Dhabi e mais ainda de Dubai para aumentar sua atratividade, a importância dos países da região como pólos turísticos depende muito das subvenções indiretas dos seus governos, e seus potenciais como mercados emissores ficam restritos pelas suas próprias demografias.

Antalya ja recebe mais de 10 milhões de turistas internacionais por ano

O hub de Istambul vai aproveitar do bom posicionamento da Turquia, em 2017 sexto destino turístico mundial com 37,6 milhões de visitantes, em forte crescimento nos últimos dois anos. Atraindo ao mesmo tempo russos e alemães, iranianos e israelenses, o turismo turco aproveita o apelo cultural de Istambul – uma das dez cidades mais visitadas no mundo – bem como a qualidade das praias de Antalya, para definir perspectivas de  42 milhões de turistas em 2018 e de 50 milhões em 2023. O novo aeroporto será também fortalecido pelo mercado emissor turco que deve ultrapassar em 2018 os 15 milhões de viajantes e chegar ao dobro nos próximos cinco anos. Juntando o potencial de mercado e de destino dos grandes países europeus com a dinâmica de hub e de companhias aérea dos países do golfo, a Turquia deve mesmo virar um dos maiores”players” do transporte aéreo internacional.

Jean-Philippe Pérol

Istambul guarda o fascinante acervo dos Romanos, dos Bizantinos e dos Otomanos

Na Polinésia francesa, o novo Paradigma do turismo de luxo

Na Ilha do Guy Laliberté, uma redefinição do turismo de luxo

Depois de quase dez anos de obras, o bilionário canadense Guy Laliberté abra agora para o publico sua ilha-refugio, Nukutépipi, um paraíso exclusivo combinando a preservação do ecosistema do Arquipélago das Tuamotu e a homenagem as tradições culturais dos Polinésios. O homem que criou o “Cirque du Soleil”, revolucionou o circo e inventou uma nova forma de lazer artístico, está redefinindo o turismo de luxo, juntando uma beleza natural e cultural exclusiva, com um atendimento excepcional num quadro perfeito reservado a uns “happy few”. A 700 quilômetros no sudeste de Tahiti, o atol quer assim ser um esconderijo autentico único no mundo onde pequenos grupos de até 52 pessoas podem viver juntos uma experiência de humildade e de perfeição frente aos azuis do mar e ao ecosistema da ilha, somente completados por serviços, obras de arte ou até sons cuidadosamente escolhidas.

Nukutépipi é um dos menores atóis da Polinésia

Com somente 2,7 quilômetros de comprimento, sendo um dos menores atóis da Polinésia francesa, e nunca tendo sido habitado de forma permanente,  Nukutépipi seduziu o Guy Laliberté pelos seus recifes de corais, suas praias virgens, sua lagoa protegida, e sua mata primária. Mesmo frágil, o ecosistema foi assim sempre protegido, oferecendo opções privilegiadas para mergulhar com peixes raros, nadar com as baleias, observar os pássaros ou simplesmente olhar a natureza desde um espetacular mirante. Escondidas na vegetação, seguindo a praia num total respeito ao meio ambiente, as construções combinam as tradições da Polinésia com a arte e o design contemporâneo. Concebido como sendo um refugio pessoal, a ilha conta com uma residência master de 647 m2 com quatro quartos, duas residências júnior de 247 m2 com dois quartos, e treze bangalôs de 70 m2, podendo hospedar com absoluto conforto 52 hospedes.

Obras de arte são espalhadas em vários cantos da ilha

Deslumbrante, exclusiva, e pioneira, Nukutépipi está sendo comercializada pela Sunset Luxury Villas, uma cadeia de destinos de exceção pertencendo a Guy Laliberté, e administrada pela SPM, companhia hoteleira representada no Brasil pela Cap Amazon. Para respeitar o espírito de esconderijo, e a sua dedicação a “ricos e famosos”, a ilha só pode ser reservada na sua totalidade. O preço de um milhão de Euros por semana inclui os voos desde e para Papeete, o pessoal, as refeições, as bebidas, as atividades, e os espetáculos. Mesmo se alguns privilegiados já tiveram a oportunidade de hospedar-se na ilha, a inauguração oficial está prevista para o primeiro semestre do ano que vêm, com uns convidados escolhidos a dedo nos principais países onde existem personalidades capazes de querer conquistar esse novo Paradigma do turismo de luxo. Influençiadores brasileiros já estão previstos para participar.
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Ia Ora Na em Nukutépipi!  

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Jean-Philippe Pérol

 

As construções respeitam as tradições da arquitetura da Polinésia

 

 

Villas e bangalôs têm sempre o seu acesso a praia

 

 

A Residência master e seus bangalôs

 

A mata primária seduziu o Guy Laliberté

 

A fauna do atol é a grande atração dos mergulhos

 

Por do sol em Nekutépipi

A  ilha de Nekutépipi na Polinésia francesa faz parte do portfolio da Sunset Luxury Villas, uma coleção de propriedades exclusivas concebidas pelo Guy Laliberté

Fotos Nukutépipi @ LM Chabot

Saudades da Bahia!

O Othon Palace Hotel em Ondina

Mesmo se, segundo a Globo News, 7000 hotéis e pousadas fecharam no Brasil nos últimos dois anos, o anuncio do fechamento do Bahia Othon Palace Hotel foi recebido com muita emoção pelos profissionais do setor. Aberto em 1975, hotel bandeira do grupo fundado em 1943 pelo empresário pernambucano Othon Bezerra,  marca do dinamismo excepcional que o turismo baiano conheceu durante três décadas,  ligado a muitos grandes eventos do trade brasileiro, incluindo vários saudosos congressos da ABAV, o estabelecimento da orla marítima de Ondina foi um símbolo de uma grande época. Alem de quartos, a cidade de Salvador perde também um centro de convenções e um ícone do turismo local cujo fechamento mostra a crise do setor.

O então Meridien Bahia

A emoção dos profissionais ficou maior ainda porque a perda do  Othon Palace  ocorreu quase três anos após o fechamento do Hotel Pestana, no bairro do Rio Vermelho, outro hotel emblemático da cidade que tinha sido inaugurado em 1974 como Meridien Bahia. Então filial a 100% da Air France, estrategicamente dirigida pelo alto comando da empresa que estava apostando forte no Brasil com a abertura do Concorde, os hotéis Meridien abriram naquela década dois espetaculares estabelecimentos no Rio de Janeiro e em Salvador. Ambos eram hotéis de grande porte – 500 quartos no Rio de Janeiro e 430 em Salvador-, ambos tinham restaurantes gastronômicos -o Saint Honoré do Rio de Janeiro contando com a grife do Bocuse e um jovem chef, Laurent Suaudeau, que virou depois o referente mor da gastronomia brasileira.  Ambos tinham uma agencia de viagem da Compagnie internationale des Wagons lits, e uma badalada boate da Regine –  então rainha das noites francesas.

O Saint Honoré, restaurante do Meridien do Rio então liderado pelo Chefe Laurent

Abandonado pela Air France em 1994, o Meridien deixou definitivamente o Brasil em  2007 quando seu último hotel brasileiro virou Iberostar, depois Windsor e agora Hilton. A rede Othon segue como uma das principais redes hoteleiras nacionais, e continua a oferecer seus serviços em  nove cidades do Brasil, no Rio de Janeiro e no Recife, em Macaé, São Paulo, Araraquara, São Carlos, Matão, Fortaleza, e Natal. Em Salvador, os dois outrora concorrentes só deixaram muitas lembranças  –  como a inesquecível alegria do bloco de carnaval que o Meridien organizava misturando hospedes e funcionários-, bem como a saudade de uma época gloriosa do turismo brasileiro, e, mais ainda, a esperança da abertura de um novo ciclo de crescimento.

Jean-Philippe Pérol

Ah, mas que saudade eu tenho da Bahia!

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Turismo e genealogia, uma viagem para descobrir sua própria história

O casamento do Jacques Maurice, irmão da minha tataravó, com a Guianesa Elisa Guisolphe em 1895

Descobrir as suas raízes, sejam familiares, religiosas ou culturais, foi na História uma das primeiras motivações de viagem bem como uma fonte de prosperidade para muitos destinos, de Efeso a Jerusalém, de Atenas a Meca ou de Roma a Tehotiuacán. Desde a Antiguidade, essas cidades sabiam que o prestigio cultural, a potencia religiosa ou a pressão demográfica eram fatores que atraíam os visitantes.  Nos últimos anos, com a forte tendência para dar as viagens um forte conteúdo enriquecedor ou até transformador, o turismo genealógico está atraindo viajantes a reencontrar as terras e as culturas dos seus ancestrais. Ele está crescendo, especialmente -mas não somente- nos países com uma longa historia de imigração, como na Oceania ou nas Américas, tanto para as populações de origem europeias como para aquelas cujos antepassados atravessaram os oceanos nos navios negreiros.

Casa do primeiro imigrante da família Tremblay em Randonnai (Normandia)

Um dos países onde esse turismo genealógico é o mais popular é o Canadá – Quebec. Os 7 milhões de descendentes dos 70.000 imigrantes que povoaram a “Nouvelle France” a partir de 1617 continuam a ter laços com seus vilarejos de origem. Incentivados pela Atout France que chegou até a montar um motor de pesquisa dando o local de origem de cada sobrenome do Quebec, milhares de viajantes vão assim procurar as suas raízes seguindo itinerários repletos de emoções. Na Normandia, no Poitou ou no Vale de Loire, prefeitos e profissionais de turismo de dezenas de pequenas cidades se mobilizam para receber esses primos da América, caminhar com eles nas ruas até encontrar a casa do primeiro imigrante, ou compartilhar com novos amigos e parentes distantes os pratos regionais, o vinho, e as tradições locais.

Uma família visitando a casa dos seus antepassados na Catalunha

Nos Estados Unidos muitas comunidades estão também se focando nessa procura de raízes. O turismo alemão foi talvez pioneiro, aproveitando as origens germânicas de  50 milhões de americanos para incentivar as buscas dos seus antepassados. Descobrindo numa pesquisa que 9% dos seus visitantes estavam querendo seguir os passos dos seus ancestrais, a Escócia colocou essa temática nas suas prioridades. Foi também o caso da Irlanda, dona de uma das mais fortes comunidades especialmente em Nova Iorque, Boston e Chicago, que juntou o turismo genealógico e a descoberta do patrimônio cultural nas suas promoções. A Espanha está interessada nos latinos que já representam quarenta milhões de pessoas com origens ibéricas, e a Sociedade catalã de genealogia está trabalhando em conjunto com o turismo espanhol, não somente nos Estados Unidos mas em todas as Américas.

Varias empresas oferecem ajudar para planificar uma viagem genealógica

Na onda do “turismo transformador”, uma viagem genealógica necessita um bom preparo, incluindo as vezes a ajuda de profissionais. No Quebec, a Sociedade genealógica dos canadenses franceses oferece um seminário aos viajantes interessados. Nos Estados Unidos Ancestry.com, maior empresa mundial de genealogia, tem várias propostas para responder aos pedidos dos seus associados, seja ajudando os viajantes individuais a preparar os seus roteiros, seja oferecendo circuitos acompanhados de um especialista – em cooperação com a operadora  EF Go Ahead Tours ou com os cruzeiros da Cunard. Para os norte-americanos, o preparo da viagem pode até incluir a realização de teste DNA com empresas especializadas,  23andMeAncestryDNA, ou o National Geographic tests d’ADN, bem como uma consulta na famosa Family History Library  de Salt Lake City.

Sites estão ajudando a preparar as viagens genealógicas

Os destinos estão ajudando os viajantes a otimizar as suas pesquisas e seus encontros. O apoio pode ser através dos sites oficiais de turismo como Visit Scotland , o Turismo alemão o a Normandia, a Catalunha ou o Basilicata. Países com historias de emigração oferecem também acervos de museus especializados como o museu do Centro histórico das famílias irlandesas  em Dublin na Irlanda, trabalham com agencias de viagens que oferecem roteiros personalizados, ou recomendam genealogistas como Tataranietos.com , empresa espanhola cujos clientes são em maioria latino-americanos, ou South Africa Genealogy. Mas para uma viagem tão impactante, serão as próprias pesquisas pessoais que assegurarão o sucesso: se informar sobre a historia da região, ter o máximo de nomes e dados dos parentes e ancestrais, saber quais foram os motivos que os levaram a deixar os seus lares.

Em Carghese, na Córsega, nos passos dos ancestrais gregos

O turismo genealógico pode levar a muitas viagens, cada uma seguindo as trilhas de um dos antepassados que terá sido identificado. Assim eu mesmo tive a chance de reencontrar, alem das minhas raízes na Combraille, os passos de um combatente grego radicado na Córsega, de um carbonaro napolitano exilado na Tunísia, de um revolucionário de Mainz seguidor de Napoleão, e de um engenheiro “auvergnat”  desbravando as minas de ouro da Guiana. A historia de cada um foi sem dúvidas para mim um incrível enriquecimento pessoal e uma abertura maior para o mundo. Ajudando a saber de onde a gente vem, o turismo pode assim ajudar a saber para onde a gente vai!

Jean Philippe Pérol

 

Para escolher o seu destino, os serviços que você não quer (e provavelmente não vai) usar são fundamentais

O Vale de Papenoo, a beleza selvagem do interior da ilha de Tahiti

Seja para aproveitar em família uma praia num all inclusive, seguir um grupo organizado num circuito continental, explorar  sozinho caminhos  exclusivos, sonhar a dois frente a paisagens românticos,  enriquecer sua cultura – e dos seus filhos-  em sítios marcantes ou eventos excepcionais, ou simplesmente seguir em liberdade a vida de um morador, a escolha de um destino turístico ainda é uma alquimia muito pessoal.  Os desejos e os gostos de cada viajante se misturam com a beleza do lugar, o património, os preços, as infraestruturas, os serviços, os lazeres, a acessibilidade, o imaginário, e, ultimamente, até a facilidade de ser explorado nas mídias sociais. Assim, buscando o destino com o máximo e o melhor dos critérios seus, o turista define o seu destino entre a Riviera maia, Lisboa, Machu Pichu, Tahiti, Paris ou Nova Iorque.

Ministerios das relações exteriores publicam mapas dos riscos por pais

A segurança virou nos últimos trinta anos um critério fundamental, o primeiro para 67% dos viajantes europeus e norte americanos. Um critério que as autoridades e as operadoras estão levando muito a sério. Ele explica em parte tanto as dificuldades dos países do sul do Mediterrâneo e da América Latina (inclusive o Brasil), que o sucesso crescente dos países da Europa do Norte ( Islândia, Noruega, Suécia, Dinamarca) ou da Oceania (Austrália, Nova Zelândia ou Polinésia francesa). A segurança é em primeiro lugar a tranquilidade em relações as agressões e a violência contra as pessoas, mas inclui também o recuso absoluto de enfrentar riscos climáticos ou sanitários. Esses desafios devem hoje ser integrados a qualquer politica de desenvolvimento turístico.

Serviços de urgência integram as preocupações dos profissionais e dos turistas

Mas tem mais um fator essencial que deve ser considerado na escolha de um destino, são as infraestruturas e os serviços de saúde. Tendo sido recentemente colocado frente a um banal mas grave acidente, percebi a que ponto era importante dispor de uma assistência total em termos de urgências, de médicos, ou de hospitais. Participando de um seminário de turismo na Polinésia francesa, e durante uma excursão de bicicleta elétrica, a minha esposa caiu numa descida do vale do Papenoo, e, mesmo usando capacete, teve um traumatismo craniano alem de varias fraturas das costas e da clavícula. Foi um acidente que precisava de tratamento de extrema urgência, uma operação complexa, devendo ser realizada no máximo cinco horas depois do choque, enquanto o local era um vale isolado no final de uma trilha onde os celulares não pegavam.

Do terraço do hotel, olhando para o mar e esperando os pulos das baleias jubarte

O happy end desse drama mostrou toda a importância de uma cadeia completa de serviços funcionando perfeitamente: bombeiros chegando a tempo no local com o material necessário, hospital com todos os equipamentos de neurologia, neurocirurgião altamente qualificado de plantão, UTI de padrão internacional, enfermeiras e médicos competentes e atenciosos. E ainda uma impressionante equipe de Europ Assistance que se encarregou de toda a parte administrativa e financeira, e ainda organizou o repatriamento com conforto e carinho. A eficiência do sistema de saúde francês, a competência e a gentileza dos colegas e atendentes de Tahiti foi apesar do estresse um excepcional reconforto.

O sorriso da criança com seu tambor chamando para gente voltar

Claro que não viajamos pensando em acidente ou em ficar doente. Mas na longa lista de critérios de escolha do destino da nossa próxima viagem, verificar se existe por perto as infraestruturas e as competências para qualquer eventualidade é uma garantia que a sua viagem sempre terá um final feliz. Foi o caso para nos essa vez, talvez ajudado pela força do Mana, esse axé da Polinésia sempre lembrado pelos moradores. Mauruuru Tahiti, voltaremos.
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Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

O morador é também turista!

Veneza, símbolo do divorcio entre moradores e turistas

Com o turismo mundial caminhando para 1,8 bilhões de turistas internacionais em 2030, e enquanto muitos destinos lutam para atrair mais visitantes, outros têm cada vez mais dificuldades para organizar a coabitação pacífica  de centenas de milhares de turistas sazonais com os moradores. Em algumas cidades como Veneza ou Barcelona, as autoridades se preocupam há anos em encontrar uma forma de equilibrar os benefícios econômicos e sociais do turismo com o respeito dos modos de viver e do bem estar dos habitantes. Algumas medidas como o pagamento de uma taxa de entrada ou a exigência de uma reserva de hospedagem chegaram a ser estudadas. Não vigoraram, mas a chegada da AirBnb, e o seu impacto sobre os alugueis, bem como o crescimento da consciência ecológica, aumentaram a urgência de responder as preocupações dos moradores com o “overturismo” em quase todos os grandes destinos.

Na Espanã, protesto dos moradores contre o turismo de massa

Na onda do turismo sustentável, o respeito do modo de viver das comunidades bem como a participação dos habitantes ao produto turístico do seu destino viraram imprescindíveis. O morador é hoje ator do turismo da sua terra, contribuindo com a qualidade do atendimento, e deve ser também seu embaixador, divulgando a sua imagem com a força da autenticidade. Fatores chaves da reconciliação com o turismo (e os turistas), essas tendências vão ser completadas e talvez superadas por um outro papel do morador: ser um consumidor reconhecido da oferta turística da sua comunidade. As pesquisas mostram que de 30 a 70% do consumo de turismo de uma região é realizado pelos habitantes do local ou dos arredores, um potencial cada vez mais valorizado pelos responsáveis públicos e os profissionais.

A loja Mazette no Cap Ferret, referencia de turistas e moradores

Muitas experiências de promoção do turismo local junta aos próprios moradores já viraram cases de sucesso, seja na França os exemplos de Only Lyon ou do Cap Ferret, no Brasil o de Recife ou de Foz de Iguaçu. Colocando o morador no coração da concepção e da comunicação do seu turismo, esses destinos ajudam hoje a definir os ingredientes de uma boa estratégia para satisfazer os clientes locais e os deixar conscientes e orgulhosos da atratividade turística da sua região. Com esse objetivo, o primeiro passo é sempre de conhecer melhor esse cliente, o seu perfil, as suas motivações, as suas exigências, seja o próprio morador como os seus familiares ou os donos de residências secundarias.

 

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Lyon publicando seus melhores endereços para moradores e turistas

Para convencer os moradores de participar ao turismo local, é preciso adotar uma comunicação especifica, mais regular, com dicas mais específicas e endereços mais atualizados e mais secretos. É o caso de  Only Lyon  que publica duas vezes por ano um magazine Collector que sugere as novidades e as tendências de restaurantes, espetáculos, eventos ou lojas para seus visitantes e seus habitantes. Para esses últimos, produtos e serviços específicos podem ser necessários, e tarifas exclusivas mais baratas  são hoje oferecidas, não somente pelos museus, monumentos e exposições, mas também nos hotéis e nos centros de lazer. Em Quebec, a start-up “M ta région” (Ame a sua região) conseguiu assim alistar mais de 1200 profissionais nessa campanha.

M ta région, incentivendo os moradores a visitar sua região

O relacionamento dos moradores e dos turistas é também facilitado pelos eventos organizados para essas duas clientelas, uma estratégia seguida com sucesso por muitos hoteleiros, inclusive a Accor com sua “La Nuit by Sofitel”. Algumas cadeias hoteleiras, como o Mob Hotel of People integraram essa miscigenação a seu próprio conceito empresarial. Favorecer encontros faz também parte da filosofia de centros de atendimento ao turista bem sucedidos como a loja Mazette, ponto incontornável do vilarejo de Cap Ferret, perto de Bordeaux. Essas experiências múltiplas mostram a evolução das relações entre o morador com o turismo. Antigamente ignorado pelos profissionais, ele é hoje respeitado e procurado não somente como consumidor e embaixador do seu território, mas também como co-criador do seu turismo. O fim do antagonismo?

Esse artigo foi inspirado de um artigo original de Maité Levasseur na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

Politica atrapalha o renascimento do turismo no Irã

Persepolis, antiga capital do império do Ciro o Grande

Seguindo as decisões politicas dos Estados Unidas, as mas noticias se acumulam para o turismo no Irã. Depois de Air France, KLM, Etihad, Air Astana e Austrian, a British Airways decidiu a suspensão dos seus voos para Teerã a partir do mês de Setembro. Algumas grandes companhias aéreas, lideradas pela Lufthansa e Alitalia, ainda não anunciaram as suas decisões, mas parece pouco provável que elas desafiam o boicote americano e arriscam pesadíssimas sanções econômicas. Num prazo de seis a oito semanas, o pais herdeiro do império de Ciro, cujos 2500 anos tinham sidos comemorados em 1971 com a presença de 60 chefes de estados, só será ligado aos países ocidentais pela companhias locais Mahan Air e Iran Air.

Os hotéis ibis e Novotel do grupo Accor em Teerã

Esse golpe chegou no ano excepcional para o turismo no Irã que cresceu  50% em 2017, passando os 6 milhões de visitantes, alastrando um otimismo tanto nos profissionais que no ministério que chegou a anunciar um objetivo de 20 milhões de entradas para 2025. Surfando no sucesso, Accor, Mélia e varias outras companhias hoteleiras internacionais tenham  investindo em novos estabelecimentos. Para eles, o futuro está agora incerto, assim que para os números pequenos bed and breakfast que empresários locais abriram nos últimos três anos. Se o site da AirBnb ainda oferece centenas de quartos e apartamentos no Irã, a permanecia dessa oferta está agora ameaçada pelo bloqueio das transações financeiras.

A praça Naqsh-e-Janan em Isfahan

Enquanto destinos exclusivos estão cada vez mais procurados para os viajantes que querem novidades e precisam fugir do “overturismo”, o Irã tinha – e tem- uma oferta que seduz tanto os turistas a forte motivação cultural que os backpackers aventureiros. As ruínas de Persépolis, a antiga capital do império persa (patrimônio mundial da UNESCO), as mesquitas, os jardins, e os museus de Isfahan ou Shiraz, os palácios de Teerã, os vilarejos do Mar Cáspio e os monumentos sagrados de Meshed carregam uma historia excepcional que muitas operadoras, na França, na Alemanha mas também no Brasil, estão promocionando com sucesso. Com um cambio muito favorável, e uma importante e segura oferta de hospedagem e restauração econômica, o pais foi classificado pelo World Economic Forum report  como o destino turístico mais barato de 2018.

A mesquita do Sheikh Lutfallah em Isfahan

Se é certo que a riqueza patrimonial e cultural do Irã lhe assegura a longo prazo um grande futuro no mapa do turismo mundial, e que os peregrinos ou aventureiros continuarão a visitar suas cidades santas ou seus sítios arqueológicos, a decisão  americana e a consecutiva impossibilidade de fluxos financeiros com o Irã, devem quase parar a curto prazo os fluxos vindo da Europa e das Américas. Para os hoteleiros e para as operadoras foi mais uma vez demonstrada a fragilidade da economia turística, sujeita as crises climáticas, sanitárias, econômicas ou militares, mas também aos jogos políticos. Para quem sonha em visitar ou fazer visitar o pais outrora conhecido como o ”Trono do Pavão”, a esperança será de lembrar que o turismo demostrou nas últimas décadas uma extraordinária resiliência, e que o prazo de recuperação dos destinos castigados está cada vez mas curto. Então, no ano que vem em Persépolis?

Jean Philippe Pérol

As ruínas de Naqsh-e Rostam perto de Shiraz

A torre Azadi em Teerã

O litoral francês, destino dos Brasileiros? – Brasil à Francesa

Nos anos 60, Brigitte Bardot já cantava a doçura do verão “na praia ensolarada” e a melodia nos transportava pelas estradas da França. Imaginávamos os parisienses fugindo coletivamente da cidade para ficarem aglutinados na Côte d’Azur ou nas praias da Aquitânia ou talvez em Búzios que encantava a artista.  Desde 1936  (data da lei sobre…
— À lire sur brasilafrancesa.com/2018/08/14/o-litoral-frances-destino-dos-brasileiros/

A ilha de Páscoa dos turistas voltando a ser também a Rapa Nui dos moradores?