Para escolher o seu destino, os serviços que você não quer (e provavelmente não vai) usar são fundamentais

O Vale de Papenoo, a beleza selvagem do interior da ilha de Tahiti

Seja para aproveitar em família uma praia num all inclusive, seguir um grupo organizado num circuito continental, explorar  sozinho caminhos  exclusivos, sonhar a dois frente a paisagens românticos,  enriquecer sua cultura – e dos seus filhos-  em sítios marcantes ou eventos excepcionais, ou simplesmente seguir em liberdade a vida de um morador, a escolha de um destino turístico ainda é uma alquimia muito pessoal.  Os desejos e os gostos de cada viajante se misturam com a beleza do lugar, o património, os preços, as infraestruturas, os serviços, os lazeres, a acessibilidade, o imaginário, e, ultimamente, até a facilidade de ser explorado nas mídias sociais. Assim, buscando o destino com o máximo e o melhor dos critérios seus, o turista define o seu destino entre a Riviera maia, Lisboa, Machu Pichu, Tahiti, Paris ou Nova Iorque.

Ministerios das relações exteriores publicam mapas dos riscos por pais

A segurança virou nos últimos trinta anos um critério fundamental, o primeiro para 67% dos viajantes europeus e norte americanos. Um critério que as autoridades e as operadoras estão levando muito a sério. Ele explica em parte tanto as dificuldades dos países do sul do Mediterrâneo e da América Latina (inclusive o Brasil), que o sucesso crescente dos países da Europa do Norte ( Islândia, Noruega, Suécia, Dinamarca) ou da Oceania (Austrália, Nova Zelândia ou Polinésia francesa). A segurança é em primeiro lugar a tranquilidade em relações as agressões e a violência contra as pessoas, mas inclui também o recuso absoluto de enfrentar riscos climáticos ou sanitários. Esses desafios devem hoje ser integrados a qualquer politica de desenvolvimento turístico.

Serviços de urgência integram as preocupações dos profissionais e dos turistas

Mas tem mais um fator essencial que deve ser considerado na escolha de um destino, são as infraestruturas e os serviços de saúde. Tendo sido recentemente colocado frente a um banal mas grave acidente, percebi a que ponto era importante dispor de uma assistência total em termos de urgências, de médicos, ou de hospitais. Participando de um seminário de turismo na Polinésia francesa, e durante uma excursão de bicicleta elétrica, a minha esposa caiu numa descida do vale do Papenoo, e, mesmo usando capacete, teve um traumatismo craniano alem de varias fraturas das costas e da clavícula. Foi um acidente que precisava de tratamento de extrema urgência, uma operação complexa, devendo ser realizada no máximo cinco horas depois do choque, enquanto o local era um vale isolado no final de uma trilha onde os celulares não pegavam.

Do terraço do hotel, olhando para o mar e esperando os pulos das baleias jubarte

O happy end desse drama mostrou toda a importância de uma cadeia completa de serviços funcionando perfeitamente: bombeiros chegando a tempo no local com o material necessário, hospital com todos os equipamentos de neurologia, neurocirurgião altamente qualificado de plantão, UTI de padrão internacional, enfermeiras e médicos competentes e atenciosos. E ainda uma impressionante equipe de Europ Assistance que se encarregou de toda a parte administrativa e financeira, e ainda organizou o repatriamento com conforto e carinho. A eficiência do sistema de saúde francês, a competência e a gentileza dos colegas e atendentes de Tahiti foi apesar do estresse um excepcional reconforto.

O sorriso da criança com seu tambor chamando para gente voltar

Claro que não viajamos pensando em acidente ou em ficar doente. Mas na longa lista de critérios de escolha do destino da nossa próxima viagem, verificar se existe por perto as infraestruturas e as competências para qualquer eventualidade é uma garantia que a sua viagem sempre terá um final feliz. Foi o caso para nos essa vez, talvez ajudado pela força do Mana, esse axé da Polinésia sempre lembrado pelos moradores. Mauruuru Tahiti, voltaremos.
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Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

O morador é também turista!

Veneza, símbolo do divorcio entre moradores e turistas

Com o turismo mundial caminhando para 1,8 bilhões de turistas internacionais em 2030, e enquanto muitos destinos lutam para atrair mais visitantes, outros têm cada vez mais dificuldades para organizar a coabitação pacífica  de centenas de milhares de turistas sazonais com os moradores. Em algumas cidades como Veneza ou Barcelona, as autoridades se preocupam há anos em encontrar uma forma de equilibrar os benefícios econômicos e sociais do turismo com o respeito dos modos de viver e do bem estar dos habitantes. Algumas medidas como o pagamento de uma taxa de entrada ou a exigência de uma reserva de hospedagem chegaram a ser estudadas. Não vigoraram, mas a chegada da AirBnb, e o seu impacto sobre os alugueis, bem como o crescimento da consciência ecológica, aumentaram a urgência de responder as preocupações dos moradores com o “overturismo” em quase todos os grandes destinos.

Na Espanã, protesto dos moradores contre o turismo de massa

Na onda do turismo sustentável, o respeito do modo de viver das comunidades bem como a participação dos habitantes ao produto turístico do seu destino viraram imprescindíveis. O morador é hoje ator do turismo da sua terra, contribuindo com a qualidade do atendimento, e deve ser também seu embaixador, divulgando a sua imagem com a força da autenticidade. Fatores chaves da reconciliação com o turismo (e os turistas), essas tendências vão ser completadas e talvez superadas por um outro papel do morador: ser um consumidor reconhecido da oferta turística da sua comunidade. As pesquisas mostram que de 30 a 70% do consumo de turismo de uma região é realizado pelos habitantes do local ou dos arredores, um potencial cada vez mais valorizado pelos responsáveis públicos e os profissionais.

A loja Mazette no Cap Ferret, referencia de turistas e moradores

Muitas experiências de promoção do turismo local junta aos próprios moradores já viraram cases de sucesso, seja na França os exemplos de Only Lyon ou do Cap Ferret, no Brasil o de Recife ou de Foz de Iguaçu. Colocando o morador no coração da concepção e da comunicação do seu turismo, esses destinos ajudam hoje a definir os ingredientes de uma boa estratégia para satisfazer os clientes locais e os deixar conscientes e orgulhosos da atratividade turística da sua região. Com esse objetivo, o primeiro passo é sempre de conhecer melhor esse cliente, o seu perfil, as suas motivações, as suas exigências, seja o próprio morador como os seus familiares ou os donos de residências secundarias.

 

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Lyon publicando seus melhores endereços para moradores e turistas

Para convencer os moradores de participar ao turismo local, é preciso adotar uma comunicação especifica, mais regular, com dicas mais específicas e endereços mais atualizados e mais secretos. É o caso de  Only Lyon  que publica duas vezes por ano um magazine Collector que sugere as novidades e as tendências de restaurantes, espetáculos, eventos ou lojas para seus visitantes e seus habitantes. Para esses últimos, produtos e serviços específicos podem ser necessários, e tarifas exclusivas mais baratas  são hoje oferecidas, não somente pelos museus, monumentos e exposições, mas também nos hotéis e nos centros de lazer. Em Quebec, a start-up “M ta région” (Ame a sua região) conseguiu assim alistar mais de 1200 profissionais nessa campanha.

M ta région, incentivendo os moradores a visitar sua região

O relacionamento dos moradores e dos turistas é também facilitado pelos eventos organizados para essas duas clientelas, uma estratégia seguida com sucesso por muitos hoteleiros, inclusive a Accor com sua “La Nuit by Sofitel”. Algumas cadeias hoteleiras, como o Mob Hotel of People integraram essa miscigenação a seu próprio conceito empresarial. Favorecer encontros faz também parte da filosofia de centros de atendimento ao turista bem sucedidos como a loja Mazette, ponto incontornável do vilarejo de Cap Ferret, perto de Bordeaux. Essas experiências múltiplas mostram a evolução das relações entre o morador com o turismo. Antigamente ignorado pelos profissionais, ele é hoje respeitado e procurado não somente como consumidor e embaixador do seu território, mas também como co-criador do seu turismo. O fim do antagonismo?

Esse artigo foi inspirado de um artigo original de Maité Levasseur na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

Politica atrapalha o renascimento do turismo no Irã

Persepolis, antiga capital do império do Ciro o Grande

Seguindo as decisões politicas dos Estados Unidas, as mas noticias se acumulam para o turismo no Irã. Depois de Air France, KLM, Etihad, Air Astana e Austrian, a British Airways decidiu a suspensão dos seus voos para Teerã a partir do mês de Setembro. Algumas grandes companhias aéreas, lideradas pela Lufthansa e Alitalia, ainda não anunciaram as suas decisões, mas parece pouco provável que elas desafiam o boicote americano e arriscam pesadíssimas sanções econômicas. Num prazo de seis a oito semanas, o pais herdeiro do império de Ciro, cujos 2500 anos tinham sidos comemorados em 1971 com a presença de 60 chefes de estados, só será ligado aos países ocidentais pela companhias locais Mahan Air e Iran Air.

Os hotéis ibis e Novotel do grupo Accor em Teerã

Esse golpe chegou no ano excepcional para o turismo no Irã que cresceu  50% em 2017, passando os 6 milhões de visitantes, alastrando um otimismo tanto nos profissionais que no ministério que chegou a anunciar um objetivo de 20 milhões de entradas para 2025. Surfando no sucesso, Accor, Mélia e varias outras companhias hoteleiras internacionais tenham  investindo em novos estabelecimentos. Para eles, o futuro está agora incerto, assim que para os números pequenos bed and breakfast que empresários locais abriram nos últimos três anos. Se o site da AirBnb ainda oferece centenas de quartos e apartamentos no Irã, a permanecia dessa oferta está agora ameaçada pelo bloqueio das transações financeiras.

A praça Naqsh-e-Janan em Isfahan

Enquanto destinos exclusivos estão cada vez mais procurados para os viajantes que querem novidades e precisam fugir do “overturismo”, o Irã tinha – e tem- uma oferta que seduz tanto os turistas a forte motivação cultural que os backpackers aventureiros. As ruínas de Persépolis, a antiga capital do império persa (patrimônio mundial da UNESCO), as mesquitas, os jardins, e os museus de Isfahan ou Shiraz, os palácios de Teerã, os vilarejos do Mar Cáspio e os monumentos sagrados de Meshed carregam uma historia excepcional que muitas operadoras, na França, na Alemanha mas também no Brasil, estão promocionando com sucesso. Com um cambio muito favorável, e uma importante e segura oferta de hospedagem e restauração econômica, o pais foi classificado pelo World Economic Forum report  como o destino turístico mais barato de 2018.

A mesquita do Sheikh Lutfallah em Isfahan

Se é certo que a riqueza patrimonial e cultural do Irã lhe assegura a longo prazo um grande futuro no mapa do turismo mundial, e que os peregrinos ou aventureiros continuarão a visitar suas cidades santas ou seus sítios arqueológicos, a decisão  americana e a consecutiva impossibilidade de fluxos financeiros com o Irã, devem quase parar a curto prazo os fluxos vindo da Europa e das Américas. Para os hoteleiros e para as operadoras foi mais uma vez demonstrada a fragilidade da economia turística, sujeita as crises climáticas, sanitárias, econômicas ou militares, mas também aos jogos políticos. Para quem sonha em visitar ou fazer visitar o pais outrora conhecido como o ”Trono do Pavão”, a esperança será de lembrar que o turismo demostrou nas últimas décadas uma extraordinária resiliência, e que o prazo de recuperação dos destinos castigados está cada vez mas curto. Então, no ano que vem em Persépolis?

Jean Philippe Pérol

As ruínas de Naqsh-e Rostam perto de Shiraz

A torre Azadi em Teerã

O litoral francês, destino dos Brasileiros? – Brasil à Francesa

Nos anos 60, Brigitte Bardot já cantava a doçura do verão “na praia ensolarada” e a melodia nos transportava pelas estradas da França. Imaginávamos os parisienses fugindo coletivamente da cidade para ficarem aglutinados na Côte d’Azur ou nas praias da Aquitânia ou talvez em Búzios que encantava a artista.  Desde 1936  (data da lei sobre…
— À lire sur brasilafrancesa.com/2018/08/14/o-litoral-frances-destino-dos-brasileiros/

A ilha de Páscoa dos turistas voltando a ser também a Rapa Nui dos moradores?

A França, ainda líder do turismo mundial?

A França mais uma vez líder do turismo mundial em 2017

Mesmo publicadas com um pouco de atraso, as estatísticas 2017 do turismo francês são importantes para analisar a evolução do primeiro destino mundial. Com 86,9 milhões de entradas, a França continuou na liderança em entradas de turistas, na frente da Espanha (81,8 milhões, em expansão de 8,6% no conturbado mundo mediterrâneo) que passou na frente dos Estados Unidos (73,0 milhões, pagando talvez com uma queda de 3,8%  a rigidez migratória do Trump). Com um crescimento de 5,1% foi não somente borrada a queda provocada pelos terríveis atentados de novembro 2015 e julho 2016, mas também ultrapassado o recorde anterior de 2015. Anunciando com muito orgulho esse resultado, o ministro das relações exteriores e do turismo confirmou que a França deveria atingir em 2020 a meta de 100 milhões de entradas e consolidar sua liderança.

Com alta de 47%, o turismo russo foi o que mais cresceu

Se esse bom resultado era esperado, os profissionais ficaram surpresos pelo desempenho dos mercados internacionais. Os esperados turistas asiáticos ainda não recuperaram os níveis de 2015, a China crescendo pouco (4,9%), a Índia ainda caindo (-5,6%), e somente o Japão tendo um crescimento forte (17,8%). Os americanos (5,6%) e mais ainda os brasileiros (17,9%) voltaram com toda força, mas foi da Europa que foram registrados os maiores fluxos com destaque para Rússia (43,4%), Espanha (17,3%), Bélgica (9,6%). Primeiro mercado europeu, o Reino Unido não pareceu sofrer do Brexit se consolidou na frente da Alemanha, chegando a 12,7 milhões de entradas e  6%  de crescimento, uns números decisivos para oferecer a França o seu novo recorde de 2017.

EEUU lideram disparados o ranking das receitas do turismo internacional

O ranking do turismo mundial é porem bem diferente quando as receitas internacionais são o primeiro critério de classificação. A liderança disparada pertence nesse caso aos Estados Unidos com 190 bilhões de Euros, seguindo da Espanha com 60,3 bilhões. Mesmo tendo revisado os seus números e “re-encontrado” 10 bilhões de euros de receitas suplementares, a França fica somente em terceiro lugar com 54 bilhões de euros, uma posição ainda ameaçada pela China e pela Tailândia que poderiam subir no pódio já em 2018. Com a OMT projetando há 20 anos a chegada de  130 milhões de turistas na China em 2020, com os Estados Unidos e a Espanha num trend de forte crescimento, é certo que o título de pais mais visitado do mundo trocará de titular, e  que ambas lideranças em receitas e em entradas de turistas internacionais serão então perdidas.

Nas Sources de Caudalie, liderança em bem estar e enogastronomia

Na hora da sustentabilidade e da valorização do impacto econômico e social do turismo, os profissionais estranham a insistência dos políticos em se vangloriar de resultados quantitativos discutíveis. A França já  se posiciona como um grande líder mundial do “melhor turismo” em vez do “mais turismo”, respondendo as expectativas tanto dos seus turistas que dos seus moradores. Numa concorrência mundializada, três fatores diferenciantes contribuem a uma nova liderança: a imagem de um acervo cultural mundialmente reconhecido, um bem viver autêntico e protegido, uma oferta temática completa, especialmente nos segmentos com mais valor agregado (luxo, gastronomia, bem estar, enologia, esqui, congressos ou grandes eventos.

Nos vilarejos da Provence, as mesas esperam turistas e moradores

Se o seu primeiro lugar em números de chegadas de turistas não vigorará alem dessa década, a França pode guardar sua liderança como destino de “melhor turismo” frente as novas tendências que estão se desenhando hoje. Pode continuar liderando pelo seu forte conteúdo cultural, seu patrimônio , seus museus, sua arquitetura, mas também pela alternativa que ele oferece ao modelo do concorrente norte americano. Pode liderar pela especificidade do seu arte de viver, o seu estilo de vida autentico compartilhado entre os viajantes internacionais, os turistas locais (mais de dois terços do turismo francês é domestico) e os moradores. Pode liderar pelas suas normas sempre rígidas, protegendo o consumidor em termos de sustentabilidade, de uso do espaço público, de alimentação ou de ética social.

O Mont Saint Michel, patrimônio e fé no monumento mais visitado fora de Paris

A França vai também guardar a sua liderança pela riqueza da sua oferta turística. Com uns 40 destinos internacionais, consegue oferecer uma excepcional diversidade que inclui produtos e serviços de excelência em quase todos os segmentos. A Pirámida do Louvre, o Palácio dos Festivais de Cannes, as pistas de Courchevel, o Mont Saint Michel, os bangalós  de Bora Bora, os Hospices de Beaune, os vinhedos de Bordeaux, o bar do Lutetia, o Versailles do Ducasse, as adegas de Reims, os “bouchons”de Lyon, a vida de Saint Tropez, o castelo de Chenonceaux, o porto de Honfleur, o Hotel du Palais em Biarritz, ou as simples ruas e praças de Paris, Saint Paul de Vence, Saint Emilion ou Cap Ferret, são esses lugares de excelência, mais que números discutíveis, que ajudarão a França a liderar o turismo mundial.

Jean-Philippe Pérol

O porto de Honfleur, seduzindo os turistas pela sua luz e sua História

Esse artigo foi inicialmente publicado no “Blog Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Fortaleza, novo xodó dos turistas (e do turismo) franceses!

Primeiro pouso em Fortaleza da Air France/Joon no dia 3 de Maio

A espetacular abertura da linha Paris Fortaleza por duas companhias do grupo Air France mostrou o renovado interesse da França pelo Nordeste brasileiro, tanto como destino para os turistas franceses que como mercado emissor. Os voos para os grandes hubs da região não são porem uma novidade. A própria Air France herdou da Aerospatiale a inauguração de uma rota Natal Rio em Novembro 1927,  depois interligada com Dakar e Paris. Depois da segunda guerra, foi  Recife que foi escolhida para escala na rota Paris Rio, e depois abandonada em 1963 quando chegaram os Boeing 707. Quase escolhida em 1975 para receber o Concorde, Recife teve de novo a preferência em 1982 quando Air France voltou a pousar no Nordeste, mas o voo parou em 1995.

Beleza e autenticidade na praia do Iguape

Na competição entre os grandes hubs do Nordeste, a Air France escolheu essa vez Fortaleza. A rota mais curta para Paris, o dinamismo do Ceará e o apoio da Gol foram três fatores importantes numa briga que o peso das vendas locais não dava para desempatar. Para levar a decisão, a surpresa vem dos profissionais franceses que anunciaram claramente suas preferências pela capital cearense. Seu clima seco garantindo sol o ano inteiro, seu mar quente, suas praias de areia branco e seus passeios de buggy, sua infraestrutura hoteleiro e seus parques aquáticos já tinham seus fãs, especialmente os amadores de kite surf. Estão agora se popularizando, aparecendo nas paginas dos principais jornais e revistas franceses bem como nas prateleiras das agencias de viagem e das operadoras.

Cumbuco, balneario do Saint Tropez des Tropiques e do Vila Galês

Não é a primeira vez que o Ceará tenta atrair os turistas franceses. Já nos anos 70 a empresa hoteleira PLM tentou implantar no Brasil seu primeiro hotel, com a ideia de levar para Fortaleza parte dos enormes fluxos de turistas franceses indo para seus hotéis do Caribe. Nos anos 80 a operadora El Condor, então líder do mercado francês, lançou um charter bimensal para Fortaleza, planejando fazer do balneário do Cumbuco um novo ” Saint Tropez des Tropiques”. Mesmo com muitos poderosos padrinhos dos dois lados do Atlântico, incluindo o prefeito de Saint Tropez e o empresário franco-cearense Paul Mattei, o projeto não vigorou. Contribuiu porem a reforçar os laços com numerosos profissionais franceses do setor, ainda hoje muito presentes em Fortaleza.

Entre Nordeste e Amazônia, o inesperado deserto dos Lençóis Maranhenses

Fortaleza está também seduzindo os turistas franceses pela oportunidades de conexão que o hub da Gol oferece para outras atrações do nordeste e do norte. Mais que os destinos tradicionais, Salvador ou Recife, os novos roteiros estão incluindo Morro Branco, Prainha, Iguape, Cumbuco, Jericoacoara, paraíso dos kite surfistas, o delta do Parnaíba, e os surpreendentes Lençóis Maranhenses cujos lagos e dunas estão fascinando todos os visitantes. Talvez lembrando a historia da cidade fundada pelo francês Daniel de la Touche, os turistas franceses estão chegando em São Luiz, “jóia do Maranhão, herdeira da França equinocial, tombada pela UNESCO em 1997”. E as melhores ofertas de Belém, Alter do Chão ou Manaus, seja cruzeiros fluviais, hotéis de charme ou pousadas de selva, já estão medindo a nova empolgação trazida pelos voos Paris Fortaleza.

Nos Encontros 2018, os profissionais franceses atras do mercado nordestino

Novo xodó dos franceses, Fortaleza vai também surpreender pelo potencial de viajantes que o Nordeste pode gerar para Europa em geral e a França em particular. Até agora quase monopólio da Air Portugal, e com forte liderança de Lisboa, os fluxos de turistas já começaram a se redefinir, incluindo viajantes procurando experiências sofisticadas na cultura, na gastronomia ou no enoturismo. A Atout France, encarregada da promoção do turismo francês, já está acompanhando essa nova tendência, trazendo para Fortaleza o seu evento-mor “Encontros a francesa”. Alem dos encantos da capital e do litoral cearense, os 40 profissionais franceses convidados vão com certeza voltar convencidos que o Nordeste brasileiro vai em pouco anos dobrar seu fluxo de viajantes para França.

Jean-Philippe Pérol

O Teatro José de Alencar em Fortaleza (foto Casablanca turismo)

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Wine Paths trazendo experiências inovadoras para o mundo do enoturismo

 

Frente as Sources de Caudalies, as obras de arte dos vinhedos de Smith Haut Lafitte

Destacada nas pesquisas pelo seu vinho (o vinho francês mais popular no mundo e no Brasil, na frente do Champagne e do Bourgogne), Bordeaux sempre quis ser inovadora e multi cultural quando se tratou de enoturismo. Foi là que nasceu há quase 40 anos International Wine Tours, a primeira operadora especializada, então filial da Wagons lits, que oferecia roteiros em grandes regiões vinícolas dos cinco continentes. Agora na era das novas formas de distribuição e das plataformas receptivas,  esse pioneirismo se confirmou com a criação da Wine Paths, uma rede de profissionais do enoturismo oferecendo experiências personalizadas em 11 países do mundo.

Passeios a cavala nos vinhedos de Diamandes

As inovações da Wine Paths começam pelo cuidado em escolher os vinhedos e as adegas, uma tarefa que contou com a expertise do premiadíssimo enólogo Michel Rolland. Tendo participado a criação de vinhos em mais de 250 vinícolas de 21 países, ele fez questão de colocar seus favoritos na seleção da Wine Paths. Os serviços escolhidos são também marcados pela experiência do fundador da empresa, Stephane Tillement. Com 30 anos no turismo de luxo, dono desde 2002 da Mauriac voyages – uma das mais conceituadas agências de Bordeaux, Stephane criou relações de confiança com exigentes e criativos parceiros dos mundos do turismo, do vinho, dos destilados e da gastronomia.

Piquenique nos vinhedos da Barossa Valley (Australia)

Combinando desde a sua origem em 2017 os dois “savoir faire” do vinho e do turismo, a Wine Paths oferece experiências nos mais procurados destinos de enoturismo. São 150 vinícolas nas regiões produtoras da Argentina, da Austrália, do Chile, da Califórnia, da Nova Zelândia, da África do Sul, da Itália, do Portugal, da Espanha e da França, escolhidas não somente pelos seus vinhos, mas também pela qualidade dos serviços oferecidos nos arredores pelos parceiros locais. Foram assim selecionados hotéis, restaurantes estrelados, ou adegas capazes de propor emoções ou surpresas, desde um rali nos vinhedos do Franschhoek até uma aula de empanadas na Argentina ou um circuito de mountain bike nas estradas da Alsácia.

O restaurante Conversa em Valbuena, no Ribera del Duero

Com ambição de ser a mais internacional e a mais sofisticada das plataformas de enoturismo, a Wine Paths quer oferecer serviços extremamente personalizados. Cada proposta, seja um voo de balão em Cognac, um passeio a cavalo na Sicília, um itinerário de bicicleta na Rioja, ou um safári aéreo na Austrália, deve se adaptar a cada cliente específico. Essa exigência de qualidade atraiu os 284 parceiros, inclusive alguns que nunca tinham sido presentes numa plataforma de enoturismo, por exemplo os Champagne de Bollinger ou os vinhos do Château Mouton Rothschild. Novos parceiros deveriam ser anunciados esse ano, reforçando as ambições dos fundadores de fazer de Wine Paths um verdadeiro “Guia Michelin” do enoturismo.

Descobrir os vinhedos com luxo e criatividade

Para responder aos pedidos de viajantes procurando as melhores experiências de vinhos, de destilados ou de harmonizações gastronômicas, Wine Paths continua a sua procura de novas  parcerias internacionais. A Escócia -e suas rotas de uísque- é um dos projetos mais adiantados. Com quase um milhão de enoturistas e centenas de vinícolas abertas a visitas, o Brasil deve em breve integrar esses novos rumos, acessando as viagens luxuosas e criativas desenhadas pelos especialistas do grupo, e talvez amanhã colocar suas próprias rotas de vinho a disposição dos enoturistas do mundo inteiro nessa plataforma inovadora.

Jean Philippe Pérol

Na África do Sul, vinhedos pode combinar com aventura

Air France e o Brasil, uma longa história de amor, até quando?

A chegada do voo inaugural de Concorde no Rio

A Air France sempre foi no Brasil uma companhia aérea diferente. Me lembro duma pesquisa feito nos anos 70 que mostrava as imagens de dezoito grandes companhias internacionais operando no Brasil, então lideradas pela VARIG, a Pan Am, a TAP, a Iberia, a Lufthansa, a Alitalia e a BCAL. Todas elas eram avaliadas com uma série de critérios – da qualidade do serviço a bordo até a segurança-, e na avaliação geral a Air France só tinha um concurrente pela frente. Não era nenhuma companhia européia ou americana, era a própria VARIG. Os grandes eventos organizados pela empresa francesa – os  charmosos 2000 “muguets” distribuídos para o Primeiro de Maio, ou os baladíssimos “Prêmio Molière” de São Paulo, Rio e até Manaus- contribuíam a consolidar a imagem de uma empresa peculiar no coração dos brasileiros.

A Ponta da Air France em Fernão de Noronha

Essa ligação especial tem raízes na história da Air France no Brasil que começou em 1927 quando a então Aeropostale ligava Paris a Dakar e, depois de uma travessia do Atlantico em navios “aviso”, Natal a Rio de Janeiro. Os brasileiros viram os aviões da Air France sobrevoar Fernando de Noronha, pousar nas praias de Caravelas e  ter sua base carioca no Campo dos Afonsos. O pioneirismo da empresa voltou a empolgar o Brasil quando a companhia escolheu o Rio de Janeiro para inaugurar o primeiro voo comercial do Concorde no dia 21 de janeiro de 1976. Foi ainda a primeira companhia aérea que inaugurou no dia 31 de Março 1977 um voo internacional entre a Amazônia brasileira e a Europa, ligando Manaus a Paris duas vezes por semana. E, voltando para o Nordeste com sua parceira KLM no último 3 de Maio, fez agora de Fortaleza um novo hub de transporte aéreo internacional.

Jean-Marc Janaillac anunciou sua demissão dia 4 de Maio

Apoiada na excepcional posição da própria França – no Brasil, um dos dois primeiros destinos europeus -, e reforçada pela qualidade crescente dos seus serviços, esse lugar especial da Air France no coração dos brasileiros leve hoje a uma tristeza e uma preocupação frente aos recentes acontecimentos. As greves repetitivas lideradas por pilotos cujos salários podem ultrapassar 100.000 reais por mês, e o voto de 55% do pessoal contra o plano de reformas, levaram o novo Presidente, Jean Marc Janaillac, a pedir demissão, abrindo uma crise inédita e uma queda de mais de 10% das ações da empresa. Paradoxo da história, os funcionários da KLM, empresa comprada pela Air France em quase falência em 2004 mas que soube fazer as reformas necessárias, denunciaram a atitude irresponsável dos seus colegas.

Chegada em Fortaleza do primeiro voo Paris Fortaleza do grupo Air France

Já visto em muitas empresas aéreas, especialmente na América do Sul, o cenário de uma empresa do setor incapaz de aceitar as indispensáveis mudanças, e então desaparecendo, é muito conhecido. Do Brasil vimos assim sumir Cruzeiro do Sul, Transbrasil, VASP, VARIG, as vizinhas Pluna, LAP, LADECO, Ecuatorian, Fawcett ou VIASA, e as internacionais Pan Am, Braniff, SAS, BCAL, Swissair ou SABENA. O Ministro da fazenda da França, Bruno Lemaire, lembrou claramente que  a sobrevivência da empresa estava em questão e que o governo francês, dono de somente 14,3% do capital, não iria pagar os prejuízos e as dívidas da outrora companhia nacional. Mesmo recusados por todos e pouco prováveis, os piores cenários, a separação da KLM e um destino de tipo ALITALIA ou VARIG, foram imaginados por alguns analistas.

Um desafio: convencer os pilotos que Guiness de salários não permitem greves.

Em nome dos milhões de brasileiros que já voaram nas asas da Air France desde o Rio, São Paulo, Recife, Campinas, Belém, Brasília ou Fortaleza, em nome dos milhares de funcionários brasileiros que já trabalharam nos seus escritórios, nas suas escalas ou até a bordo, vamos torcer para que a crise atual seja superada e que nossa querida Air France volta com o pioneirismo, a criatividade, a seriedade, o bom atendimento e a fé no Brasil que ela sempre demonstrou. Sim, amamos a Air France, e queremos amar la para sempre!

Jean-Philippe Pérol

 

O Dreamliner agora nas rotas Brasil da Air France

 

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

130 milhões de viagens de chineses em 2017, umas idéias para o Brasil?

Os chineses já representam 30% do turismo da Tailândia

As primeiras estimativas do turismo chinês para 2017 chegam a 130 millions de viajantes, com despesas globais de 285 bilhões de USD, mantendo a China como primeiro mercado mundial. As expectativas são hoje de 200 milhões de turistas chineses para 2020, turistas cobiçados por todos os grandes destinos. Mas a Europa terá talvez que esperar um pouco, a maioria deles escolhendo a Ásia, mais próxima e mais acessível. Assim a metade desses turistas não viajaram alem de Hong Kong (47 milhões), Macau (20 milhões) ou Taiwan, (3 milhões), e no Top 10 dos seus destinos preferidos, todos são asiáticos com exceção dos Estados Unidos e da França. No Top 20, também dominado pelos países vizinhos, só deveriam entrar ainda a Rússia, as Ilhas Maldivas, a Alemanha e a Suíça.

Oito países asiáticos no Top 10 dos viajantes chineses

Mesmo alem da grande China, essas viagens internacionais são concentradas em poucos destinos, cinco deles somando mais de 50% dos viajantes. Tailândia é hoje o destino que recebe mais turistas chineses, mais de 10 milhões. Representando quase um terço dos visitantes, eles empurraram o Reinado no Top 10 do turismo mundial e mais ainda no pódio nos países com as maiores receitas de turismo internacional, passando até a França. No Japão , os 7 milhões de visitantes vindo da China ajudaram o pais a virar em cinco anos um grande destino turístico.  Tradicionalmente muita apreciada pela sua cultura, a Coreia do Sul sofreu das ameaças de guerra com seu vizinho do Norte, e, se atraiu 4,2 milhões de chineses em 2017, deve ser esse ano passada pelo dinamismo do turismo vietnamita que cresceu 48,6%.

Turistas Chineses na Baia de Ha Long (Viet Nam)

Os vizinhos da China estão também tentando seduzir os seus turistas, investindo e antecipando as novas tendências: roteiros personalizados, serviços de melhor qualidade, menos shopping e mais experiências e intercâmbios. A Indonésia quer investir em dez “novas ilhas de Bali”. Os países da ASEAN vão investir mais de USD 100 bilhões para construir em aeroportos, ligações ferroviárias, hotéis e parques temáticos adaptados aos clientes chineses. Nos principais sítios turísticos do Japão, as lojas oferecem mais serviços em chinês, guias de compras em chinês estão sendo distribuídos, e milhares de comerciantes estão aderindo aos sistemas de pagamentos chineses Alipay e Wechat, aplicações multifunções que estão se espalhando em 30 países da região.

VisitBrasil marcando presencia na China

Para o Brasil, esses resultados impressionantes do primeiro parceiro dos BRICS deve levar a duas observações. A primeira é a fraqueza do fluxo de chineses para o Brasil, menos de 60.000. Um número difícil de comparar com os resultados dos países asiáticos ou dos grandes destinos europeus ou norte americanos, mas que fica complicado de entender quando se pensa no milhão de turistas chineses visitando a distante África do Sul. Para atingir a meta do plano Brasil Turismo, 12 milhões de visitantes até 2022, a China será com certeza a chave do sucesso. A segunda observação é o imensa potencial de viagens que os países vizinhos oferecem para um mercado emissor amadurecendo. Enquanto na China e no mundo inteiro 80% das viagens internacionais são concentrados em países limítrofes, no Brasil essa proporção é somente de 50%. Colômbia, Peru, Chile, Argentina ou Uruguai têm talvez ideias a buscar nos vizinhos da China …

Jean-Philippe Pérol

O turismo brasileiro para Colômbia dobrou em 5 anos