80 anos da Liberação da França: em Oradour-sur-Glane, o turismo é memoria

Na entrada da cidade martirizada, um pedido para o visitante: Lembre-se

No dia 6 de junho, a Normandia vai festejar o octogésimo aniversário do Dia D, uma comemoração excepcional, sendo talvez a última a qual participarão alguns dos heróis desta grande batalha. Com festas, fogos de artifícios, pulos de paraquedas, bailes populares, concertos e exposições, turistas e moradores vão comemorar este evento que foi um dos mais marcantes da liberação da França da dramática ocupação alemã. Mas, mesmo se não tão conhecidas, outras regiões e outras cidades vão lembrar dos acontecimentos heróicos, dramáticos ou trágicos do verão de 1944. Assim, perto de Limoges, o Centro da Memória do vilarejo de Oradour-sur-Glane comemora também em junho os 80 anos do maior massacre cometido na França pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

O bairro da Boucherie é um testemunho da historia de Limoges

Com 1.500 habitantes, Oradour-sur-Glane era um centro animado, atraindo novos habitantes bem como visitantes da vizinhança. Eles gostavam da animação comercial, das atividades agrícolas e artesanais, da proximidade com Limoges onde muitos moradores trabalhavam, e aproveitavam um bondinho que interligava as duas cidades. Mesmo com a presencia crescente do alemães, a vida continuava. Dia 6 de junho, com a notícia do desembarque dos aliados,  a região inteira ia porém mergulhar brutalmente na guerra. A resistência armada, muito forte nas planícies do Limousin, recebeu instruções de atrasar os movimentos das tropas inimigas que tentavam se juntar a batalha da Normandia. A reação dos alemães foi terrível. A divisão SS Das Reich deixou um rastro de terror e de crimes maciços contra as populações civis, enforcando, fuzilando ou deportando centenas de inocentes. Chegando em Limoges Dia 9 de junho, o general alemão Lammerding tomou a decisão de fazer um exemplo mais drástico ainda para aterrorizar a resistência, e a primeira cidade no seu caminho era Oradour-sur- Glane. 

No final da tarde do 10 de junho, somente sobravam as ruinas da cidade

Dia 10 de junho, as 14:00, 200 soldados SS cercam a cidade e obrigaram todos os habitantes a se agrupar na praça central, matando quem resistiu. Os homens foram separados e isolados em cinco lugares fechados, as mulheres e as crianças foram trancadas na igreja. As 16:00 os homens foram todos fuzilados e os soldados jogaram explosivos na igreja. Vendo que ainda tinham sobreviventes, eles atiraram pelas janelas e incendiaram o edifício cujo telhado caiu. Em seguida saquearam e incendiaram todas as casas da aldeia. Voltaram o dia seguinte para jogar os corpos num fossa coletiva antes de ir embora para participar da batalha da Normandia, deixando 643 vítimas e somente 6 sobreviventes (5 homens e uma mulher).

A nova igreja parece vigiar as marcas do drama

Frente a tamanho horror, o governo francês decidiu conservar Oradour-sur-Glane exatamente no estado que os alemães tinham deixado, e de reconstruir um novo vilarejo na periferia. As ruinas da cidade devia assim ficar para sempre como uma homenagem ao martírio dos seus habitantes, símbolo da França ferida pela ocupação alemã. Visitando o local em março 1945, o então Presidente de Gaulle lembrou como este patrimônio coletivo era importante para recordar a tragédia coletiva, mas também a vontade coletiva e a esperança coletiva. O ano seguido Oradour-sur-Glane foi tombada pelo Patrimônio histórico e foi aberta as visitas, desde então mais de 300.000 por ano. O novo vilarejo cresceu, têm hoje mais de 5.000 habitantes, e atraiu novas atividades, inclusive as famosas porcelanas Bernardaud.

O Centro de Memória é o início de uma experiência emocionante

Aberto em 1999, o Centro da Memória quer preparar o visitante ao choque emocional da visita da cidade que ficou no exato estado onde os alemães a deixaram no dia 10 de junho de 1944. A arquitetura do centro, os materiais escolhidos, as luzes do subterrâneo de acesso, os mapas e as fotos expostas, tudo é focada na informação e na transmissão da memória.  Enquanto ficam poucas semanas para as comemorações, o ministério da Cultura está acelerando as obras para restaurar várias construções do local e para  proteger o acervo de móveis e de objetos. Em parceria com a fundação Dassault Histoire et Patrimoine – o fundador da  famosa empresa aeronáutica foi um herói da Resistência francesa-, o projeto foi elaborado com a Associação nacional das famílias dos martírios. Juntas com o Dia D na Normandia, as liberações de Paris e Estrasburgo e o desembarque da Provence, as comemorações do massacre de Oradour-sur-Glane são os cinco grandes eventos que serão celebrados em 2024 para os 80 anos da liberação da França.

Jean Philippe Pérol

A Normandia será, com Oradour e 3 outras locais, destaque dos 80 anos

Nas águas e nas terras do Limousin, algumas raízes do luxo francês …

Indo dos confins da Auvergne até os vinhedos de Bordeaux, o viajante olha umas paisagens de colinas verdes e de rios de águas pretas, campos de gado charolês ou limousin, e casas simples com paredes de granito. Ele nem sempre sabe que está atravessando uma da regiões que mais influenciou a industria do luxo francês, sendo até líder em setores específicos como a cerâmica – em Limoges – , a tapeçaria – em Aubusson-, e o couro – sapatos da Weston, luvas Morand ou cintos Daguet. Se foram por muito tempo ignorados ou até desprezados, os produtos locais conseguiram se impôr pela sua qualidade e sua autenticidade, e muitas grandes marcas do luxo, incluindo Prada ou Hermès, estão hoje valorizando o “made in Limousin“.

Serviço "Boulle"de Bernardaud

Serviço “Boulle”de Bernardaud

Foi no século XVIII, nas  minas de kaolim, quartz ou fedspath, que nasceu a porcelana de Limoges, e foi em 1842, com a chegada do americano David Haviland, que ela ficou conhecida no mundo inteiro tanto pela qualidade da própria parcela que pelas sutilezas das decorações – feitas com pincéis ou em cromolitografia- ou a nobreza das suas incrustações de ouro ou platina.Loja de fabrica da Bernardaud A fama do “Limoges” cresceu com a colaboração das principais fábricas com artistas conhecidos como Lalique, Dufy ou Sandoz, ou mais recentemente com grandes designers como Gagnère, Jeff Koons, ou Sophie Calle… A marca mais emblemática é sem duvidas Bernardaud, empresa criada em 1863 e pertencendo hoje a quinta geração da família . A antiga fábrica ainda pode ser visitada e lá se tem uma exposição de peças raras e uma imperdível loja de vendas diretas. Outras marcas de porcelanas famosas, como Haviland (Pavilhão da porcelana)  ou  Médard de Noblat (Espaço do mesmo nome) também recebem os visitantes.

Campanha publicitaria dos mocassins da Weston

Campanha publicitaria da coleção “Le Moc” da Weston

Se as águas negras e ácidas do seus rios explicam a longa tradição de curtume do Limousin, a qualidade e o luxo dos seus produtos de couro vem ainda mais do savoir-faire dos seus artesãos e do talento de gerações de empresários. Botas de tira de cano curto da WestonAssim é a J.M.Weston, a incomparável marca de sapatos cuja fábrica foi fundada em 1891 pelo Edouard Blanchard, pegando o nome atual em 1904 quando o seu filho Eugene voltou dum estágio na empresa Goodyear em Weston, perto de Boston! Orgulhosa de continuar a trabalhar da forma mais tradicional – são 192 operações manuais para finalizar um par de sapatos-, a marca concentra sua produção nos modelos emblemáticos como os mocassins Le Moc’ – vedetes dos anos 60 – ou as botas de cano curto com suas tiras características . Hoje nome prestigioso do luxo francês, a Weston lançou em 2012 uma nova linha de produtos incluindo bolsas, cintos e carteiras que também pode ser encontrada na loja da fábrica de Limoges.

No ateliê da Agnelle

No ateliê da Agnelle

A 30 quilômetros de Limoges, uma outra surpresa espera o viajante em Saint-Junien, capital da luva de luxo francesa desde a idade média. Na pequena cidade encontram as mais tradicionais fábricas como Georges Morand, fornecendo hoje marcas famosas como Inès de la Fressange, Nina Ricci, Sonia Rykiel, e Thierry Muggler, ou Agnelle que produzem os modelos de Jean-Paul Gaultier, Christian Dior ou John Galliano, bem como o fabricante de cintos Daguet, todos com lojas de fábrica. A nova coleção DaguetO anúncio da Hermès, que já encomendava suas luvas na cooperativa “Ganterie de Saint Julien” mas que prepara a inauguração esse ano de um ateliê de fabricação de carteiras, mostrou que as mais famosas marcas mundiais estão acreditando na região. E se espera que a inauguração em Julho da ” Cité Internationale de la Tapisserie ” em Aubusson ajude a atrair também empresas do setor da lã e da moda. Enquanto os valores que definam o verdadeiro luxo estão mudando, deixando o “bling-bling” para voltar a autenticidade, a discrição, e a tranquilidade, os vales do Limousin vão atrair viajantes interessados em descobrir algumas inesperadas raízes do  luxo francês.

 Jean-Philippe Pérol

As aguas taninas debaixo da ponte de Senoueix

Águas pretas e taninas do Rio Thaurion  debaixo da ponte de Senoueix