A ilha de Páscoa dos turistas voltando a ser também a Rapa Nui dos moradores?

Quais orientações para o turismo em 2015?

Courchevel e AirBnB, uma nova e surpreendente promoção.

Courchevel e AirBnB, uma nova e surpreendente promoção.

Em toda o planeta turismo, observadores, profissionais e viajantes tentam adivinhar as grandes orientações de 2015. No Brasil as primeiras análises parecem pessimistas, ninguém se arrisca a prever um crescimento tanto das chegadas de turistas internacionais quanto das viagens dos brasileiros para o exterior. CB_GUEULETON_CR_UNE_2-400x400As transportadoras já esperam uma super capacidade da oferta, as operadoras e as agências só mostrarão previsões de altas com crescimentos externos alegrando as Bolsas mas não aumentando o número de clientes. A morosidade dos viajantes não impede porém novas mudanças que continuam revolucionando o setor. Pelo terceiro ano, o seminário organizado no Quebec pelo Paul Arseneault, da Universidade do Quebec em Montreal, e  o Pierre Bellerose, de Tourisme Montréal, tentou apontar as ideias marcantes para 2015, algumas já influenciando o mercado brasileiro do turismo.

O turismo virou imagens que devem contar historias personalizadas. O viajante quer bater fotos, fazer selfies, mandar vídeos onde ele vai ser valorizado, essa valorização pessoal sendo quase tão importante quanto o próprio destino escolhido. As informações correm rápido, no Facebook, no Youtube ou no Instagram, e a viagem deve permitir não somente  contar mas construir essa historia. Essa nova atitude deve ser respeitada logo na promoção, a hiper-personalização fazendo de cada cliente uma “nicho” de mercado e matando o marketing de massa.

Os serviços devem sempre incluir qualidade, conforto, criatividade e experiência global. Essas são agora exigências com as quais todos devem se submeter. Em um hotel se espera não somente um colchão de qualidade, um wifi grátis e de alta velocidade, mas um checkin relâmpago, o respeito ao meio ambiente e até uma integração da comunidade local. O restaurante tem que trabalhar com produtos e pratos regionais, oferecer uma verdadeira experiência gastronômica e saber gerenciar as exigências de reservas. Exif_JPEG_PICTUREOs novos conceitos atingem até os aeroportos. Ai o viajante não é mais somente um passageiro com um checkin beneficiado pelas novas tecnologias, cartão de embarque no smartfone e chips para identificar a mala. Ele é um consumidor passeando  em um shopping gigante, comendo em restaurantes ou se divertindo aproveitando um wifi grátis.

As agências tradicionais e as agencias on-line vão se reaproximar. Neste fim da época de ouro do crescimento com dois dígitos, as agencias on-line estão reinventando o seu relacionamento com seus clientes. Frente a agencias tradicionais agora mais consolidadas, convergências vão aparecer. As experiências físicas e virtuais vão se tornar complementares com o uso de todos os canais – on line em computadores, tablets ou celulares , agências, centrais telefônicas, entrega a domicilio. A aparição de uma nova ferramenta da Apple para gerenciar a globalidade das viagens é também uma possibilidade.

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O turismo colaborativo vai continuar a crescer, pelo menos na hospedagem e no transporte. Mesmo com uma forte hostilidade dos outros atores do setor – agências, hotéis ou táxis -, e com necessários acertos com as autoridades – controle de qualidade, taxas ou impostos-, a oferta de serviços colaborativos convenceu os usuários do mundo inteiro. As plataformas de hospedagens e de transporte urbano vão continuar a se expandir, e outros setores, como as visitas com guia ou até a alimentação, podem seguir.

Norte do Peru

Mesmo com uma economia parada e um crédito escasso, as novas tendências vão se firmar no Brasil, cada uma no seu ritmo. A força das mídias sociais, o potencial de algumas operadoras, a recente privatização dos aeroportos vão até acelerar certas mudanças apontadas no exterior. A provável apatia do mercado vai do seu lado dificultar a aparição de novos destinos. JPP NO LES SOURCES DE CAUDALIESCom menos reais e um dólar caríssimo, o crescimento da América do Sul (Chile, Bolívia ou Peru),  e a consolidação dos grandes destinos tradicionais na Europa ( Itália com Milão e Roma, França com Paris, o Mont Saint Michel, Bordeaux ou a Borgonha) devendo ser as tendências mais marcantes.

Jean-Philippe Pérol

Ilha de Páscoa, nos confins do mundo uma experiência que mexe com o viajante!

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Desde que foi descoberta em 1722 , essa Ilha perdida, a 3600 km das costas chilenas e a 4000 km de Tahiti, sempre fascinou os seus visitantes.IMG_1625 Se sua gente, sua língua e parte da sua cultura são, sem dúvida, oriundas da Polinésia, a beleza das suas paisagens, o gigantismo imponente e tranquilo dos seus Moai, e a força das suas tradições que vencerem massacres e etnocídios, fazem de “Rapa Nui” um destino único, um lugar “onde sopra o espírito”.

Esperando uma paisagem quase deserta depois do desastre ecológico que marcou o fim da era dos Moai, o viajante fica surpreso com as plantações de eucaliptos, com a onipresença das flores e com o trabalho de preservação das espécies nativas nos três vulcões da  ilha. Surpresa também é a pequena praia, a mesma onde desembarcaram o rei Hotu Matua e os primeiros polinésios. Os seis moai que dominam as dunas estão virando as costas, mas, com areia branca e ondas turquesa, o lugar é o convite ao mergulho para quem não tem medo de água fria. IMG_1808Do alto da cidade sagrada de Orongo, outra vista excepcional espera os visitantes: os ilhotes isolados onde os guerreiros mais valentes iam buscar o primeiro ovo de Manutara para que o vencedor se tornasse o “homem pássaro”, senhor do ano novo.

Os momentos mais fortes para o viajante são os encontros com os Moai. Nos arredores da “fábrica”, eles parecem um exército de gigantes saindo do solo para enfrentar um inimigo vindo do mar. Ainda deitados na pedreira, outros nos deixam imaginar a violência da crise ecológica e humana que varreu esse período da civilização Rapa Nui. IMG_1664Dois outros lugares são, sem dúvida, imperdíveis. Em Tonga Riki fica o mais impressionante dos alinhamentos: quinze moai nesse Ahu reconstruído em 1990 depois de um terrível tsunami. A 15 km da “fábrica”, o sítio de de Ahu Akivi só tem sete moai, mas uma historia ainda mais comovente: eles representam os sete primeiros navegadores que chegaram na Ilha, os únicos gigantes a olhar para o mar. Viram chegar o rei, mas depois as ondas só trouxeram sofrimentos e horrores, os saques dos marinheiros americanos ou alemães, a escravidão dos piratas peruanos e a segregação das companhias inglesas.IMG_1942

Cercado por esse passado de grandezas e de tragédias – em 1900, só tinham sobrevivido 111 ilhenos-,  o visitante fica impressionado pela sobrevivência e a força da cultura Rapa Nui. Reforçados com imigrantes vindos da Polinésia francesa, os pascuanos mantiveram a sua língua, seu artesanato e muitas das suas tradições. Se o sentido dos petroglifos se perdeu, a História tão peculiar da Ilha é um patrimônio que os habitantes dividam com prazer e orgulho.

Com muitas opções de hospedagem – do muito bem pensado Hanga Roa Eco village and Spa, com sua arquitetura inspirada de Orongo e das ocas tradicionais, até um acampamento de barracas-,  a Ilha oferece também uma grande escolha de pequenos bares e restaurantes, incluindo dois franceses, o “Au bout du monde” e a “Taverne du Pêcheur”, todos com uma qualidade surpreendente considerando as dificuldades de abastecimento. IMG_2102Em um destino com uma História e tradições tão ricas , o viajante deverá dar uma atenção muito especial a seu guia. Se cada encontro com o patrimônio da Ilha de Páscoa é um choque de emoções, ele vira mágico quando os comentários ajudam a  conhecer melhor a trajetória desses polinésios que conseguiram, nesses confins do mundo, construir monumentos dignos de virar patrimônio da Humanidade.

Jean-Philippe Pérol

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Da Copa para os Jogos, lucros e lições para o turismo brasileiro !

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Segundo o jornal l’Equipe, a Copa 2014 mereceu o título de Copa mais bonita da história, homenagem merecida de uma mídia que chegou a ser muito negativa mas soube reconhecer o sucesso do Brasil. Mag_1_20140712_1669_Page001No embalo do indiscutível impacto positivo sobre a economia das grandes cidades sede, os responsáveis do turismo chegam a anunciar números impressionantes para economia do setor para qual o evento teria gerado um milhão de turistas internacionais ou três bilhões de dólares de receitas . Talvez ainda seja cedo para tirar todas as conclusões sobre o impacto global da Copa, mas algumas tendências e lições confiáveis  podem ser tiradas dos primeiros resultados, para o turismo internacional tanto receptivo que  exportativo.

 Um milhão de turistas internacionais chegaram no Brasil em junho e julho, seja 35% a mais que o ano passado. Mas a Copa só durou um mês, com 530.000 chegadas, das quais  70% eram ligadas ao evento. Um total de 360.000 turistas “Copa” confirmados pelos 840.000 ingressos  colocados a disposição pela FIFA  numa média de 2,4 jogos por torcedor. fotoPode parecer decepcionante para alguns, mas a experiência das Copas e dos Jogos anteriores, assim que o forte impacto negativo sobre os turistas afugentados pelos grandes eventos, seus preços e suas multidões (uma queda estimada em mais de 30%), mostram que os números são satisfatórios. Serão mais satisfatórios ainda a médio prazo pelos investimentos em infraestruturas e pela extraordinária visibilidade positiva que o Brasil ganhou com o sucesso da organização ” encantadora” e “maravilhosa” do segundo maior evento do Planeta. Se os crescimentos observados em outros mercados se verificaram, pode-se esperar, assim que anunciou a Embratur, passar dos 10 milhões de visitantes antes do fim da década. Os números da Copa mostraram também que os países vizinhos, não somente Argentina mas também Chile, Colômbia, Peru e México, que representaram mas de 50% dos clientes “Copa”, ainda tem um potencial excepcional, especialmente se a oferta de produtos se diversificar melhor tanto no segmento de luxo que nos segmentos populares.

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O bom desempenho do turismo receptivo, e os 500 milhões de novas receitas internacionais  anunciadas, não se encontraram infelizmente no turismo emissivo. O fortíssimo impacto da Copa sobre as viagens dos brasileiros não foi com certeza bastante antecipada. Nem no turismo doméstico que só ficou estável, as viagens de torcedores e os preços tardiamente reajustados afugentando os turistas tradicionais, com queda de 20 à 40% das vendas das operadoras. Nem no turismo internacional no qual as altas de preços das passagens, a prioridade dada pelas companhias aéreas a visitantes estrangeiros, a vontade de viver a Copa com amigos e familiares, levaram a uma queda de mais de 10%  das viagens. téléchargementEssa decepção, prolongada nos meses de julho e agosto, se deve também a retração da economia brasileira e as incertezas eleitorais. Mas ficou claro que produtos e promoções diferenciadas deverão ser imaginadas para que os próximos grandes eventos sejam no futuro um sucesso para todos os atores do turismo no Brasil, pela satisfação de todos os viajantes, brasileiros ou estrangeiros, turistas ou torcedores.

Jean-Philippe Pérol