Em Waterloo, os franceses vencendo … a licitação para gerenciar o Memorial da batalha!

Nas comemorações do bicentenário, a reconstituição da batalha

Em Waterloo, essa triste planície onde as tropas de Wellington e Blucher acabaram no dia 18 de Junho de 1815 com os sonhos franceses da Revolução e do Império, uma francesa conseguiu uma surpreendente vitória. Geneviéve Rossillon, presidente da operadora de sítios e monumentos turísticos Kleber Rossillon fundada pelo seu pai, venceu uma licitação da região belga da Valônia para administrar durante os próximos quinze anos o sitio da famosa e trágica batalha. Localizado a vinte minutos ao sul de Bruxelas, o Memorial 1815 inclui não somente os principais campos  e prédios que viram a heróica derrota dos soldados de Napoleão, mas também  um centro de informação e de interpretação  multimídia subterrâneo inaugurado durante as comemorações do bicentenário.

O Memorial 1815

A empresa Kleber Rossillon já administra nove sítios patrimoniais na Franca , recebendo mais de um milhões e meio de visitantes na Bretanha, no Vale do Loire e na Auvergne. Desde 2015 é responsável da famosa Grotte Chauvet 2, réplica fiel da gruta inscrita ao patrimônio da UNESCO pelas suas excepcionais  pinturas rupestres que nossos ancestrais deixaram há 36.000 anos. O Memorial de Waterloo sera o seu primeiro investimento fora da França. Genevieve Rossillon já mostrou grandes ambições com a sua vontade de quase dobrar o numero de visitas – passando de 170.000 a 300.000, contando  na contratação de quinze funcionários para melhorar o atendimento, na multiplicação dos eventos e das animações, e na ampliação da oferta cultural para todos os públicos

O Museu Wellington, último quartel geral do vencedor

Logo esse ano, já são previstas importantes comemorações, dia 18 de Maio com os 250 anos do nascimento do Duque de Wellington, e dia 15 de Agosto pelo aniversário do Napoleão. Perto do morro do Leão – monumento erguido pelos holandeses então ocupando a Bélgica -, serão realizadas a partir de junho varias reconstituições da batalha bem como da vida e do dia a dia das tropas. O novo Memorial terá também novidade nos seus dois restaurantes”, ambos com um decoração inspirada do ambiente na véspera da batalha . O  « Wellington » vai oferecer cardápios e preços tipo “Bistrô”, enquanto o mais requintado « Le Bivouac » apresentará uma cozinha mais gastronômica. Com essas novas ideias, a francesa Kleber Rossillon espera que a sua batalha de Waterloo será mesmo vitoriosa!

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo publicado na revista on-line Pagtour

Ethiopian Air Lines, a tragédia, o luto e as esperanças

Um Boeing da Ethiopian decolando de Addis Abeba

Se a aviação internacional é cada vez mais segura, com um numero de vítimas em diminuição constante desde os anos setenta, cada acidente continua sendo uma terrível tragédia. Assim foi o drama do  Boeing 737 MAX 8 da Ethiopian Airlines que levou a Etiópia a decretar ontem um luto nacional. Nesse voo de Addis Abeba a Nairobi, viajavam 157 passageiros e tripulantes, turistas e homens de negócios de 32 nacionalidades que morreram seis minutos após a decolagem, quando o avião em chamas caiu logo depois do piloto ter avisado que estava com problemas. Depois do luto e da prioridade dada aos parentes das vitimas, as autoridades vão aproveitar as duas caixas pretas para tentar explicar o acontecido, e assim definir exatamente as responsabilidades – e consequentemente as medidas necessários.

O Boeing 737 Max no centro das interrogações sobre o crash

A semelhança com o recente drama do voo da Lion Air na Indonésia – um outro 737 Max qui caiu em logo depois da decolagem quando o piloto tentava voltar para o aeroporto, leva muitos analistas a apontar para a Boeing. A própria Etiópia e a maioria dos países com companhias aéreas que já compraram esse aparelho – na Europa,  Austrália, China, Coreia, África do Sul, Singapura, e no Brasil-  já suspenderam os voos do. Talvez temendo um gravíssimo impacto financeiro sobre a construtora de Seattle, a  FAA demorou mas acabou tomando a mesma decisão. A informação da Boeing sobre uma atualização do sistema informática e do manual de formação dos pilotos, bem como novos relatórios de graves incidentes, vem confirmar as duvidas dos especialistas que pensam que a concorrência do Airbus 320neo obrigou a acelerar os primeiros voos comerciais do B 737 Max 8.

As caixas negras de um B737 Max

Assim que acontece a cada tragédia, o trabalho dos investigadores vai ser acompanhado de perto por representantes de todos as partes: as famílias, ansiosas de achar os responsáveis quem que foram, os governos, cuidadosos da segurança dos seus aeroportos e dos seus espaços aéreos, as companhias aéreas, atentas  em proteger seus passageiros, suas tripulações e seus agentes, e enfim os fabricantes, preocupados de descobrir possíveis defeitos dos seus aviões e de medir o impacto nas suas linhas de produção. Esses múltiplos atores são para os viajantes uma garantia de transparência da investigação e, mais importante ainda, da seriedade das decisões tomadas pelos responsáveis públicos ou privados para que um drama semelhante não se reproduz nunca mais nesse avião.

A atenção as tripulações, cuidado permanente da Ethiopian

Esse acidente afetou brutalmente uma companhia aérea com reputação de seriedade, aviões recentes, gestão exemplar e tripulações experientes, que deve agora assumir um luto para falhas técnicas que ja começam a ser esclarecidas e que os responsáveis devem corrigir com urgência. Enraizada na Etiópia, com sua cultura tão peculiar, sua excepcional herança imperial, sua reconhecida liderança africana, e seu impressionante sucesso econômico, a Ethiopian Air Lines  tem porem a capacidade de superar essa tragédia e de continuar a contribuir ao futuro da “terra das origens”.

Jean-Philippe Pérol

A Africa Hall, sede da Organização da União Africana em Addis Abeba

 

Invino Wine Travel Summit, a hora do enoturismo

Na Borgonha, um dos oito vinhedos do mundo tombado pela UNESCO

Faltando menos de um mês para a sua inauguração, a expectativa em torno da primeira edição do Invino Wine Travel Summit  já está mostrando que o enoturismo é mesmo um setor que despertou o interesse dos profissionais brasileiros do turismo e do vinho. Patrocinado pela Air France, a Chandon e a Bourgogne, apoiado pela Atout France,  a Wine Paths, o Palace Sources de Caudalie, a Guaspari, a Rouge Brasil, o Forum de Enoturismo e os Wines of Chile, beneficiando da experiência de palestrantes e expositores vindo do Chile, da França, da Argentina e do Brasil, Invino já confirmou as inscrições das mais destacadas operadoras e agencias do setor.

Tradição e qualidade nos vinhedos do Chile

O sucesso do enoturismo é um tendência internacional. Com um indiscutível pioneirismo das vinícolas da costa Oeste americana (líder mundial até hoje com 15 milhões de enoturistas, sendo 3 milhões de estrangeiros), os “Wine tours” se espalharam em todos os grandes destinos produtores, especialmente na França cujas vinícolas recebem 10 milhões de visitantes,  4,2 milhões vindo do exterior. Hoje o mundo tem mais de 40 milhões de enoturistas que  visitam o Stellenbosch ou a Napa Valley, a Rioja espanhola ou o Vale McLaren da Australia, os “climats da Borgonha” ou a rota dos vinhos do Vale Maipo, sem falar dos procuradíssimos  vinhedos da Toscana e da Provence. No Brasil também, o sucesso das rotas gaúchas, catarinenses ou paulistas já atrai mais de um milhão de visitantes por ano.

Les Sources de Caudalie, onde enoturismo combina com bem estar e gastronomia

Os encontros de Invino são importantes devido as evoluções do enoturismo. Para os produtores, o turismo passou da simples atividade complementar a uma ferramenta chave para incrementar e diferenciar a notoriedade das marcas, uma fonte de receitas representando até 20% ou mais das vendas totais. Se transformou em uma grande oportunidade de investimentos, seja nas próprias adegas seja na hotelaria ou no bem estar.  Os perfis dos enoturistas mudaram completamente também. Enquanto os pioneiros, enólogos ou enófilos, exigiam um atendimento completamente focado em numerosas visitas e degustações, o novo enoturista é simplesmente um “bon vivant” ou até um viajante a procura de novas emoções. O vinho vira assim um dos componentes de uma viagem que incorpora também experiências culturais e gastronómicas, momentos para compras e para bem estar, ou passeios para apreciar as belezas naturais de lugares as vezes tombados pela UNESCO.

As vinicolas de Mendonça combinam com proezas arquiteturais

Para os profissionais do turismo que precisam de novos produtos e serviços com forte valor agregado, Invino vai ser um momento privilegiado para descobrir valiosas experiências. Algumas operadoras tanto de receptivo que de exportativo já investiram há muitos anos no enoturismo, e o Brasil tem valiosas realizações em ambas atividades.  Mas um grande trabalho de capacitação ainda tem que ser feito para que os agentes consigam responder aos viajantes interessados, oferecendo o destino, o vinho e o produto mais adaptados para cada perfil.  O potencial é imenso, reforçado pelo fato que os grandes países de enoturismo são ,seja vizinhos – Chile, Argentina ou Uruguai -, seja muito familiares – EEUU, França, Portugal, Itália e Espanha. Mostrando os sucessos e os “savoir-faire” adquiridos, o Invino Wine Travel Summit pode ajudar as agencias a responder a essa nova grande tendência do turismo mundial.

Jean Philippe Pérol

 

A alegria do vinho nos roteiros gauchos

Visitar Marselha, a cidade rebelde

Brasil à Francesa

Foto: @blue_tinkerbell

Não é apenas por constar no badaladíssimo ranking do New York Times, “50 lugares para ir em 2019”, que Marselha é, sem duvidas, a cidade francesa a visitar este ano. Fundada por marinheiros gregos de Phocaea, chamada Massalía pelos romanos, ela foi desde a antiguidade não somente um importante porto comercial do Mediterrâneo mais ainda uma cidade multicultural e rebelde.

Miscigenação das culturas mediterrânicas, Marselha mudou nos últimos anos sua cara marcada por seu passado industrial e portuário e virou uma cidade de espetaculares renovações urbanas.

Com cinco dicas, convido você a descobrir os novos hotéis e restaurantes altamente frequentáveis, a incrível arquitetura e as ofertas culturais das mais vanguardistas na beira do Mar Mediterrâneo.

1. As Calanques,  enseadas as vezes acessíveis apenas pelo mar, merecem a viagem

Quando descobri Marselha há quinze anos atrás, eu fui impressionada por este cenário incrível de falésias calcárias dominando o azul…

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As megatendências e as inovações no turismo

Bem estar, respeito da natureza, umas da megatendência do turismo mundial

Se as viagens internacionais dependem a curto prazo do cambio das moedas e do otimismo dos consumidores, os fatores que impactarão o turismo nos próximos dez ou quinze anos são menos conhecidos.  Euromonitor internacional, empresa especializada em estudos estratégicos,  publicou agora uma pesquisa sobre essas megatendências que vão definir o mapa mundial das industrias turísticas durante os próximos anos. Essas megatendências são modificações fundamentais dos comportamentos ou das atitudes que são observados em todos os mercados e atingem todos os setores. Não são fenômenos conjunturais, mas mudanças que podem demorar anos para se concretizar. Todos os atores econômicos devem integrar-los nas suas estratégias, seja de inovação de produtos ou serviços, seja de busca de novos clientes, seja na definição de futuras ações de marketing.

Euromonitor tentou definir as megatendências até 2030

Euromonitor definiu as cinco principais fontes dessas  megatendências. As evoluções econômicas levarão os países emergentes – inclusive o Brasil- a representar seis das dez maiores economias mundiais, e dos potenciais de viajantes, em 2030. As  mudanças demográficas –  urbanização, migrações, queda da natalidade e crescimento da terceira idade – impactarão as modas de viver e de consumir. Do lado das tecnologias, os desenvolvimentos dos celulares e a explosão da inteligência artificial terão consequências arrasadoras nos modos de viver, consumir e trabalhar. Com a pressão crescente sobre o meio ambiente, os consumidores querem interagir, diminuindo seus consumos de energia, suas pegadas de CO2, e procurando novas formas de consumo. Enfim as crenças e os valores estão mudando, redefinindo prioridades, percepções, atitudes e motivações.

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As oito megatendências impactando o turismo

Source : Euromonitor International

Considerando esses fatores de mudanças, Euromonitor levantou vinte megatendências , sendo oito com um forte impacto sobre o turismo internacional.

  1. Mais experiências: mesmo procurando produtos ou serviços, os consumidores precisam de experiências interativas e multisensoriais. As empresas devem responder a essas procuras de emoção que viram lembranças compartilhadas e relações mais estreitas com os clientes.
  2. Upgrade dos serviços. Os consumidores querem níveis de serviços mais elevados e mais personalizados. Hoje, qualquer estratégia empresarial deve incluir uma melhoria na qualidade (até o luxo com um justo preço), na autenticidade e na procura de relação emocional duradoura.
  3. Evolução do mapa-mundi. Se certos mercados tradicionais na Europa ou na América do Norte estão se fechando, ou se restringindo a alguns segmentos jovens, outras regiões da Ásia, da América latina ou da África oferecem novas oportunidades que os avanços tecnologias ajudam a explorar.
  4. Consumidores conectados. Computadores, celulares,  leitores multimídias ou livros numéricos oferecem ao consumidores inúmeras ocasiões de descobrir novos conteúdos, de interagir com eles ou de comparar los.
  5. Hábitos éticos . Os consumidores bem como as empresas estão dando cada vez mais importância aos valores morais e a ética. Uma compra ou uma reserva pode ser comprometida se o bem ou o serviço não fica atento ao meio ambiente, ao bem estar animal, a valorização dos funcionários e dos moradores, ou a moral das relações comerciais.
  6. Jeito de viver mais sadio. O bem estar hoje virou mais global, sendo físico, moral e espiritual. Ele define um jeito de viver   e  caracteriza atitudes frente a saúde, a alimentação, a beleza, as atividades físicas ou as evoluções pessoais.
  7. Mudanças na classe media. Em forte expansão na Ásia e na América latina, a classe media está recuando nos países mais desenvolvidos. Assim mesmo, esses consumidores não são atraídos somente pelos preços, mas também pela qualidade, a praticidade ou a autenticidade.
  8. Shopping reinventado. As mudanças sociológicas e as inovações tecnológicas estão mudando os hábitos de compra. O consumidor de hoje não é mais fiel a um único modo de comprar. Os comerciantes e os distribuidores devem ser presentes em vários canais com diferentes níveis de valor agregado antes, durante e depois da compra.

Essas oito megatendências vão não somente mudar os comportamentos dos viajantes, mas também obrigar os profissionais do turismo a inventar os novos produtos e serviços que são anunciados e esperados.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Chantal Neault na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

Um túnel e uma ligação ferroviária atravessando o estreito de Gibraltar?

Em Gibraltar, os últimos canhões ingleses vigiando os últimos macacos, ou vice versa?

Assim com o Eurotunel, o seu precursor interligando a França e a Inglaterra, e antes mesmo de ter a sua construção confirmada, o túnel atravessando o estreito de Gibraltar já tem uma mitologia e uma longa historia. Reatando as duas colunas de Hércules, seguindo por baixo do mar a travessia vitoriosa das tropas do Tarik, lembrando para Espanha (e até para o Portugal) o seu épico passado nas costas marroquinas e ao Marrocos as suas ligações européias, o projeto tinha sido lançado em 1979.  Os reis Juan Carlos e Hassan II assinaram o acordo  no embalo da então candidatura do Marrocos a União europeia, e os primeiros estudos  definiram em 1994  o tipo de obra – o túnel e não uma ponte- bem como o trajeto, a profundidade submarina exigindo um túnel de 38 quilômetros dos quais 27 em baixo do mar, seguindo um itinerário, já imaginado em 1895, entre Tarifa e o cabo Malabata.

Da Andaluzia até a costa tangerina, 35.000 ferrys atravessam o estreito cada ano

O interesse de uma ligação terrestre entre a Espanha e o Marrocos ficou ainda maior com a abertura de negociações para relançar a ferrovia transmagrebina de 2350 quilômetros interligando o Marrocos, a Argélia e a Tunísia, muito ativa até os anos sessenta quando parou em consequência de vários conflitos. Com o apoio da União do Magrebe árabe, e um financiamento de 3,8 bilhões de dólares do Banco Africano de Desenvolvimento, as obras para sua reinauguração deveriam ser realizadas em três etapas: a reabilitação de 363 quilômetros da ferrovia Marrocos Argélia, fechada desde 1994 depois de conflitos políticos entre os dois países, a reabertura de 503 quilômetros da ferrovia Argélia Marrocos, suspensa em 2004 por motivos econômicos, e finalmente a interligação completa  da transmagrebina, incluindo um trecho de alta velocidade de Tanger a Casablanca.

O Marrocos quer fazer de Tanger um destino turístico completo

Interligando duas das maiores potencias turísticas do Mar Mediterrâneo, e dois grandes parceiros econômicos, o túnel tem muitos argumentos a seu favor. Segundo a estatal marroquina encarregada do projeto, os fluxos de passageiros e de carga, hoje de meio milhão de pessoas e de toneladas, poderiam ser multiplicados por 25 até o ano 2050. Os projetos de desenvolvimento econômico da região aproveitariam os novos fluxos vindo tanto da Europa como dos países vizinhos, reforçando a vocação de Tanger como cidade aberto ao mundo , dona de um imenso potencial especialmente turístico. Um projeto capaz, segundo o ex presidente do conselho espanhol José Zapatero, de mudar o futuro da Europa e da África.

Ceuta, um dos conflitos que pode bloquear o projeto

Os obstáculos até a inauguração são porem importantes. São em primeiro lugar as dificuldades técnicas para uma obra passando a quase 200 metros  abaixo do nível do mar, numa região de risco sísmico. São os problemas de financiamento de um projeto ainda não orçado mas que deve custar mais de 15 bilhões de euros que são poderão ser reunidos com um apoio maciço da União Européia e dos grandes bancos mundiais. Os maiores problemas parecem porem ser políticos: rivalidades dos países do Magrebe, conflitos territoriais persistentes em Ceuta, Melila ou Gibraltar, medos europeus da imigração clandestinas, criticas americanas ao trafico de drogas. Num projeto de tamanha importância econômica e geopolítica, terá que ser paciente.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista on-line La Quotidienne

Paloma, da onde sairia o túnel do lado espanhol

As ambições confirmadas da Espanha nos pódios do turismo mundial

A Plaza Mayor, coração turístico de Madrid

Dos três países que devem dividir em 2018 o pódio do turismo internacional, a Espanha foi a primeira a anunciar os seus resultados, um crescimento pequeno de 1,2 %  mas um novo recorde de 82,8 milhões de visitantes, provavelmente ainda atrás da França e numa briga apertada com os Estados Unidos pelo segundo lugar. O numero de excursionistas – visitantes sem pernoites, incluindo os cruzeiristas – também cresceu de 3,6%, chegando a  41,2 milhões. E com um gasto médio por pessoa de 1086 euros, as receitas estão se aproximando dos 90 bilhões de euros, recorde na Europa, somente superado a nível mundial pelas receitas do turismo norte americano. Talvez aproveitando as dificuldades politicas dos seus concorrentes francês e inglês, os resultados do mês de dezembro foram os mais espetaculares, com 9,7% de crescimento do numero de turistas.

Espanha faz parte de si, a campanha mundial de Turespaña

Os resultados por país de origem confirmam as previsões dos especialistas sobre a morosidade dos mercados da Europa, e o potencial dos BRICS. O Reino Unido se manteve na liderança com 18,5 milhões de turistas, mas em queda de 1,6%, uma queda observada também na Alemanha e nos países nórdicos. E com +0,7%, a França foi o único grande mercado de proximidade a ter um resultado positivo. Do lado dos mercados emergentes, a China cresceu de 3,9% – abaixo das expectativas das autoridades espanhóis, talvez por não ter conseguido resolver seus problemas de vistos, o México de 5,9% a Rússia de 6,3%, e a Índia de mais de 15%. O Brasil registrou um novo recorde, um impressionante crescimento de 19,1%. A surpresa mesmo foi porem as chegadas de turistas estadounidenses  que cresceram de mais de 12%, empurradas pela alta do dólar e  pela força crescente da comunidade hispânica naturalmente atraída pela Espanha.

A ministra Reyes Maroto apresentando os resultados do turismo 2018

Enquanto muitos países estão reduzindo as suas verbas ou até abandonando o marketing de destino, a ministra da industria, do comercio e do turismo, Reyes Maroto,  reafirmou que tinha um orçamento de 316 milhões de euros para não somente assegurar suas missões tradicionais mas ainda para reforçar algumas ações como a inovação tecnológica, a promoção internacional e os investimentos em novos modelos de destinos de turismo inteligente e sustentável. Verbas suplementares poderiam até ser mobilizadas se o impacto do Brexit se revelava muito negativo para o turismo inglês na Espanha. Lembrando que o turismo representava ao nível nacional 13% do Produto Interno Bruto, a ministra insistiu nas diferencias regionais que tem que ser consideradas para que o setor consegue continuar o seu papel no desenvolvimento dos territórios.

As Ilhas Canárias, onde o turismo internacional caiu 1,7% em 2018

As evoluções regionais  mostraram novas tendências do turismo na Espanha. Dos três destinos principais, as ilhas Canárias tiveram uma queda de 1,7%, as Baleares foram quase estáveis. O tradicional líder, a Catalunha,  parece porém ter recuperado nos últimos meses do ano o impacto negativo dos conflitos políticos e dos protestos dos moradores de Barcelona contra o overturismo. Mas foram nas outras comunidades que se encontraram os crescimentos mais significativos em 2018: +1,5%  na Andaluzia, +3,2% na Comunidade Valenciana, e um recorde de +6,3% no Grande Madrid que foi talvez o maior beneficiário do turismo vindo dos países emergentes. Para as autoridades e os profissionais espanhóis, umas boas noticias e a demonstração que suas anunciadas ambições de liderança do turismo europeu devem ser levadas a sério pelos seus concorrentes italiano e francês.

A Torre do Ouro na beira do Rio Guadalquivir em Sevilha

A crise do marketing de destino chega na França

Rendez vous en France, encontro dos parceiros franceses e internacionais

Alem de um brutal corte de orçamentos, a crise que explodiu a semana passada na Atout France, órgão oficial do turismo francês, significa talvez o fim de um modelo de parceria inventado pela equipe de um então ministro do governo Chirac. Exclusiva dos ministérios ou das administrações publicas desde as suas origens no inicio do século XX, a promoção do turismo internacional conheceu em 1987 uma verdadeira revolução. Agregando quatro órgãos oficiais preexistentes, o ministro Descamps convenceu setenta profissionais de entrar como parceiros numa nova estrutura co-gerenciada e co-financiada pelo governo federal e os profissionais públicos e privados do setor. Era o nascimento da Maison de la France,  uma associação que chegaria a juntar 1300 empresas francesas de turismo e a estabelecer relações estreitas com mais de mil operadoras em 35 países.

Com a mudança de 2009, Atout France integrou o Ministério das Relações exteriores

A Maison de la France acompanhou a volta da França na liderança do turismo mundial, e criou um novo modelo de parceria publico privado. Em 2009 virou Atout France, assumindo novas responsabilidades na planificação do turismo e na classificação hoteleira. Nessa trajetória de sucessos, as recentes decisões do governo chocaram os profissionais e a imprensa do trade e econômica. Atout France poderia ser obrigada a reduzir de um terço a sua presencia no exterior, encolhendo o seu quadro de colaboradores e talvez o numero de países onde está operando, um paradoxo para uma autarquia que depende agora do ministério das Relações Exteriores. As ambições do governo francês, 100 milhões de turistas em 2020 e 60 bilhões de euros de receitas, seriam então seriamente ameaçadas.

As campanhas B2C sofrem dos cortes de verbas

É certo que, mesmo se o corte de quatro milhões de Euros  pode parecer limitado porque representa somente 12% do aporte total do governo, as preocupações do setor devem ser tratadas com respeito e seu impacto não devem ser subestimado. Mas seria injusto de colocar toda a responsabilidade da situação nas últimas decisões do atual governo, isso por duas razões. Em primeiro lugar deve ser lembrado que os governos anteriores realizaram cortes mais importantes ainda nos últimos 15 anos, reduzindo de até 75% as verbas de promoção, e cortando de 80% o numero de funcionários públicos colocados gratuitamente a disposição da associação. A novas tarefas de engenharia e classificação, sem dúvidas muito gratificantes e estrategicamente interessantes, foram impostas sem nenhuma contrapartidas financeiras, aumentando mais os custos fixos.

Air France, desde as origens um apoio excepcional para o turismo francês

A redução dos gastos de promoção não foi também exclusiva do governo. As grandes empresas de viagens e turismo que investiam com força ao lado do governo, emprestando funcionários e participando de campanhas de imagem da França, reduziram suas participações.  Se o apoio da Air France continua sendo excepcional, grupos como Accor, Pierre et Vacances ou o Club Med representam hoje menos de um por cento das parcerias acumuladas. Os outros órgãos públicos de promoção, a níveis regionais ou municipais, também diminuíram as suas verbas, não somente porque falta dinheiro público, mas porque são cada vez mais preocupados promover suas próprias marcas com exclusividade, sem necessária associação com o destino França, desprezando as vezes a expertise que Atout France acumulou com seus colaboradores e seus contatos.

O apoio dos profissionais foi decisivo no sucesso da Atout France

Mostrando a insensibilidade do governo sobre a importância do setor, o choque levado pela Atout France com a redução das verbas públicas acelera as perguntas sobre o modelo criado em 1987. Os seus dois pilares, marketing e parcerias, não têm mais o mesmo apelo junto aos profissionais. O marketing perde força, exprimido entre o branding sempre muito ciumento e as vendas só interessadas por ações com resultados concretos e imediatos. Sem o atrativo do dinheiro publico e seu poder de impor mensagens claras, as parcerias são mais escassas  e as ações conjuntas cada vez mais complicadas. O novo modelo que tem que surgir não pode se restringir a uma (necessária) volta das verbas do governo, mas deve reinventar o posicionamento e os investimentos dos profissionais franceses e estrangeiros. Ao governo, sim, a responsabilidade de tomar a liderança dessa reconstrução, aproveitando as competências das suas equipes e as expectativas dos seus parceiros.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Sucesso de parceria público/privado, um modelo a reinventar?

A Guadalupe trazendo novas opções no Caribe

Na “Ponta dos castelos”, uma das mais bonitas paisagens da Guadalupe

Karukéra dos índios Caribe, Santa Maria de Guadalupe de Estremadura de Cristóvão Colombo, Guadeloupe dos franceses. Tendo conhecido, com o tabaco, a cana de açúcar, e depois a banana, vários ciclos econômicos e sociais, a ilha da Guadalupe parece hoje ter apostado de vez na sua identidade franco-caribenha e na sua vocação turística. Visitando a ilha desde os anos setenta, tendo o privilegio de ter conseguido grandes amizades com alguns dos mais dinâmicos atores do setor, fiquei muito impressionando na minha última viagem, em janeiro desse ano, pelos progressos realizados na consolidação do turismo. Se trata não somente de um upgrade nas suas ofertas de hospedagem, mas de uma abertura do seu leque de experiências culturais, e, mais ainda, de uma convincente qualidade do atendimento -tanto dos profissionais que dos próprios moradores.

A piscina infinita do La Toubana

A renovação da hotelaria na Guadalupe é liderada pelo grupo “Des hotels et des iles”, dono de vários dos mais charmosos hotéis da ilha: o La Creole Beach, ideal para grupos ou famílias com sua praia tranquila e organizada, um bar sempre animado onde turistas e moradores podem aproveitar o por do sol, um spa e dois restaurantes sendo um “gourmet” com um viveiro de lagostas; ou o intimo Jardins de Malanga, perfeito para lua de mel ou casais apaixonados, antiga casa grande escondida em cima de uma ladeira de Trois Rivières e com uma vista estupenda sobre as ilhas de Les Saintes.  O grupo é também dono do La Toubana, agarrado no morro de Saint Anne, com uma espetacular piscina infinita, um restaurante gastronômico, um SPA completamente renovado, e uma praia extremamente exclusiva, esse requintado hotel espera agora sua merecida quinta estrela . A reabertura do antigo Hotel Arawak em Gosier, e os projetos de reabilitação do tradicional La Vieille Tour mostram que outros investidores passaram também a acreditar no turismo local.

A beleza arquitetural do Mémorial ACTe de Pointe a Pitre

As múltiplas experiências culturais oferecidas aos visitantes são sem dúvidas uma das principais razões da atratividade da Guadalupe. Alem do conhecido Carnaval de rua, alguns grupos estão valorizando as danças tradicionais – onde consta até quadrilha!-, outros buscando inspiração, ritmos e coreografias nas raízes africanas como o surpreendente conjunto Akiyo cujos desfiles e espetáculos atraiam milhares de pessoas. Para os visitantes querendo entender a cultura da ilha, a novidade imperdível é porem o MemorialACTe de Pointe à Pitre. Construído no local de uma antiga fábrica de açúcar, inaugurado em 2015 pelo Presidente Hollande, é um lugar de informação, de memória e de pesquisa sobe a escravidão e o comercio triangular , focado no Caribe e na Guadalupe. Com uma exposição permanente sóbria e muita pedagógica, acessível a adultos e crianças, o Memorial inclui também espaços de exposições temporárias, um restaurante com vista sobre o porto e uma loja com excelente atendimento.

Nos pequenos restaurantes, o charme de um atendimento autentico

Peculiaridade do Caribe francês, o grande charme da Guadalupe é sem duvida a liberdade que ela oferece a seus visitantes. Liberdade de percorrer suas estradas para visitar a Pointe des Châteaux, parar na pequena praia de Anse Maurice, andar nas trilhas levando para o vulcão de La Souffrière ou tomar banhos de cachoeira do Parque Nacional. Liberdade de pegar com toda segurança um ferry para as ilhas de Les Saintes ou de Marie Galante. Liberdade de sentar tomar um café ou um Punch Coco, num barzinho de Saint Francois ou de Trois Rivières onde descobrirá que os Guadalupeenses têm paixão pelo Brasil . Liberdade de experimentar nos numerosos pequenos restaurantes dos vilarejos ou das praias um culinário peculiar, misturando numa “nouvelle cuisine creole” técnicas francesas, ingredientes dos quatro continentes e tradições caribenhas. Com um atendimento convincente, sempre muito aberto, permitindo intercâmbios sinceros, a Guadalupe traga agora novas opções para o turismo no Caribe.

Jean Philippe Pérol

Terre de haut (Les Saintes) visto do Fort Napoleon

A praia do La Creole Beach

Depois do Concorde, o sonho do Airbus 380 entra também na Historia

O Airbus A380 da Air France

Em novembro 2009, subindo a bordo do primeiro voo Nova Iorque Paris do A380 da Air France, a sensação era de participar, mais uma vez, do início de uma nova era do transporte aéreo internacional. Anunciado (e sendo) o avião mais silencioso e mais confortável do momento, capaz de transportar de 500 a 800 passageiros, o gigante da Airbus ia trazer para o transporte aéreo internacional uma revolução tão radical que o primeiro Jumbo 747 em 1969. O entusiasmo das 13 grandes companhias  participando em 1996 da primeira apresentação do então A3XX levaram a Airbus a lançar o programa em 2000, conseguindo logo 55 encomendas. A escolha do nome, A380 com o numero 8 vindo da numerologia chinesa, mostrava que a aposta principal era de se posicionar nos grandes hubs asiáticos.