Recorde de receitas turísticas preocupa a Espanha

O turismo espanhol deve ter em 2024 o melhor ano da sua história

As receitas turísticas da Espanha deveriam esse ano quebrar todos os recordes anteriores e chegar a € 202.651 bilhões, passando os 90 milhões de entradas de turistas (e chegando talvez ao primeiro lugar do turismo mundial em número de entradas contabilizadas). Com uma alta de 8,6% em relação ao ano 2023, que já tinha sido excepcional, o turismo representará 13,3% do Produto Interno Bruto do país. Anunciando a semana passada em Madri essas projeções históricas, José Luis Zoreda, vice-presidente da Exceltur (Alianza para la Excelencia Turística), associação das maiores empresas espanholas fundada em 2002 para ajudar ao desenvolvimento do setor, mostrava paradoxalmente pouca satisfação e muita preocupação.

Os novos trens da RENFE ajudaram no sucesso de 2023

Para Exceltur, esses números impressionantes são os resultados de vários fatores favoráveis. O primeiro é a situação política e a estabilidade da Espanha na hora de muitas perturbações nos grandes destinos concurrentes do Mar Mediterrâneo oriental, Turquia, Israel ou Egito.  O segundo é a retomada do turismo internacional não somente nos grandes mercados de proximidade – principalmente Reino Unido, Alemanha e França -, mas também nos mercados asiáticos. O terceiro fator favorável, em tempos de dificuldades de oferta de transportes, foi que a Espanha aproveitou bastante o crescimento das ligações aéreas bem como a chegada de novos operadores ferroviários.

Para afastar os turistas, Barcelona tirou um ónibus da Google map

José Luis Zoreda insistiu, porém, nas preocupações do setor frente às reações ao overturismo que vão crescendo no país inteiro, das Ilhas Baleares a Andaluzia, das Canárias a Barcelona e a vários lugares da Catalunha. Alugueis inflacionados, transportes urbanos saturados, falta de água em tempo de seca, alta dos preços dos produtos alimentares, muitos problemas da vida cotidiana são agora ligados nas mídias à “invasão” de turistas estrangeiros, às vezes  percebidos como invasores pelos moradores que esquecem em paralelo os benefícios trazidos em termos de empregos ou de infraestruturas públicas.

Exceltur quer ver a Espanha sair do turismo “sol y playa”

Frenteà rejeição dos turistas em varias regiões da Espanha, os profissionais  querem que o turismo continue de crescer além dos recordes de 2024, mas são extremamente conscientes que esse crescimento só será possível se for sustentável e assumido pelos moradores. Há anos, a Exceltur já tinha chamado a atenção das autoridades sobre a necessidade de sair do tradicional turismo de «sol y playa» e de espalhar mais os visitantes, seja em novos destinos do interior ainda pouco aproveitados, seja em épocas de baixa temporada. Para a associação, a Espanha deve agora ir mais longe e só aceitar um crescimento do turismo respeitoso dos lugares e trazendo benefícios claros para os moradores.

Jean-Philippe Pérol

Turismo de proximidade ou turismo internacional?

A Embratur apoiou o crescimento do turismo de proximidade

Valorizando viagens no raio máximo de 300 à 500 quilômetros da sua casa, de carro, de trem ou de ônibus, sem atravessar fronteiras e sem precisar de avião, o turismo de proximidade cresceu durante a pandemia. Foi para muitos destinos a única forma de manter alguma atividade no setor. E tradicionalmente focada nos mercados internacionais, as ações promocionais dos grandes atores mundiais voltaram para o turismo domestico. A Italia lançou o Bonus Vacanze para as famílias com baixa renda, a Malásia criou isenção fiscal para os gastos internos, a Costa Rica ampliou os feriados locais, a Atout France lançou  #CetÉtéJeVisiteLaFrance, e no Brasil, a Embratur realizou a campanha “ser brasileiro é estar sempre perto de um destino incrível”.

A França focou varias campanhas no turismo de proximidade

Na hora da retomada, o turismo de proximidade não perdeu essa dinâmica, encontrando importantes apoios junto a vários setores da sociedade. São em primeiro lugar os profissionais que nunca esquecerem que o turismo interno representa nos países da OCDE até 75% das receitas do setor, e que essas receitas são menos sujeitas as crises sanitárias, políticas ou climáticas que as receitas provenientes do turismo internacional. Mas dois fatores levaram o turismo de proximidade a novos apoios: os políticos, que viram num consumo local um meio de melhorar mais diretamente a vida dos moradores, e os defensores do meio-ambiente que mediram o menor impacto de um turismo utilizando menos transporte.

A rivalidade trem/avião é parte da briga proximidade/internacional

A valorização do turismo de proximidade está porem levando a alguns excessos. Regiões ou cidades estão escolhendo estratégias minorando o turismo internacional, e especialmente o turismo intercontinental, cortando as ações de promoção, reduzindo as ligações aéreas,  valorizando areas ou atividades pouco acessíveis a  uma clientela estrangeira. Os novos objetivos dessas políticas turísticas são claramente políticos. E mesmo quando só podem ser aplaudidos por todos – por exemplo quando favorecem a sustentabilidade, a inclusão ou os equilíbrios territoriais -, faltam as ações ou a comunicação para poder assim incrementar as experiências do viajante vindo do outro lado do mar.

Em Nova Iorque, os estrangeiros representam  20% dos visitantes e 80% das receitas

Na maioria dos grandes destinos, muitos atores do turismo não poderiam sobreviver a uma queda duradoura  dos fluxos internacionais que representam um terço das receitas do turismo global. Na França, líder mundial, os turistas internacionais representam 62% do total em Paris e mais de 30% nas capitais regionais. Nesse total, é importante anotar que os gastos médios dos viajantes intercontinentais – Chineses, Estado-unidenses, Japoneses ou Brasileiros- são pelo menos três vezes superiores aos gastos dos europeus, sendo imprescindíveis para os hotéis de luxo, os restaurantes estrelados ou as lojas especializadas.

Cidades catalãs apostam na proximidade

O turismo de proximidade e o turismo internacional não devem ser apresentados com escolhas conflitantes mas como estratégias complementares. Não somente por razões econômicas, mas pela natureza mesmo do turismo. O turismo nasceu como abertura ao mundo, descoberta e intercambio. Hoje ele integrou mais valores na sustentabilidade, no respeito das culturas locais e na vontade de convivência com os moradores. É essa diversidade que faz a atratividade dos grandes destinos turísticos. O crescimento do turismo de proximidade e o amadurecimento do turismo internacional, longe de ser opostos, deve então continuar a ser complementares.

Jean-Philippe Pérol

Segunda edição do Invino amplia mercado com novos players

Press release da Promonde, São Paulo, 28 de março de 2022

A Borgonha vai ser a grande vedete da segunda edicão do Invino

O francês Jean-Philippe Pérol, no Brasil desde 1976, sempre foi um visionário. Dirigiu os escritórios para as Américas da antiga Maison de la France, hoje Atout France, ocupando também a função de Diretor Geral em Paris da organização.  Foi o primeiro a acreditar nos anos 2000 na democratização das viagens internacionais para os brasileiros e apostar no potencial da então nova classe média para o turismo francês. Apaixonado por tecnologia, sempre alertou que as operadoras e agências de viagens eram os maiores parceiros dos Tourism Boards. Depois, no início dos anos 2010, entendeu a importância das mídias sociais, em especial o Instagram, como veículo de promoção de destinos, e criou campanhas icônicas com influenciadores digitais.

Vinho e turismo, o encontro de duas paixões

Quando deixou o turismo da França, apostou suas fichas na Amazônia e nas viagens com conteúdo. E percebeu, igualmente,  que o enoturismo no Brasil poderia ter um crescimento significativo ao longo dos anos. Criou, a partir daí, em 2019, o Invino Wine Travel Summit. A segunda edição acontecerá no Hotel Unique, no próximo dia 11 de abril. Abaixo ele explica o cenário atual das viagens de vinhos, a motivação para organizar a segunda edição e que novidades os profissionais de turismo poderão conhecer no evento. As inscrições estão abertas gratuitamente pelo site.

A pandemia causou uma paralisação das atividades turísticas. Por outro lado, essa cocoonização forçada promoveu o aumento no consumo de vinhos, inclusive com surgimento de um novo mercado. Quais as expectativas de vocês com relação ao enoturismo, nessa retomada das viagens?

JPP: A pandemia causou uma brutal retração de 84% do mercado mundial do turismo em 2020 passando de 1,5 bilhão a menos de 400 milhões. O enoturismo também sofreu, mas devemos ser otimistas porque as tendências surgidas com a crise vão dar um forte impulso nas viagens por três razões: o crescimento da gastronomia (e do vinho) nas motivações; a procura de temáticas e de conteúdos fortes e, por fim,  a resiliência do turismo de luxo que representa ume boa parte (mesmo se não a única) do enoturismo nacional e internacional no Brasil.

A Cité do Vin de Bordeaux, uma arquitetura enobrecendo o enoturismo

Um novo empreendimento turístico voltado para o universo do vinho surge na Borgonha. É a resposta da região à Cité du Vin, em Bordeaux, nessa saudável concorrência entre as duas regiões?

JPP: Na França, a questão Bourgogne/Bordeaux é tão viva quanto a direita/esquerda na politica ou PSG/Marselha no futebol. No contexto, Cité du Vin et la Gastronomie da Borgonha e da Cité des Cultures et des Civilisations du Vin, deve se anotar que são dois projetos totalmente diferentes. Com os dois estando presentes no evento de enoturismo Invino, o brasileiro poderá ver que são muito mais complementares que concorrentes.

Trata-se da segunda edição do evento. A Cap Amazon reuniu muitas informações sobre o mercado. Quem é hoje o brasileiro que consome enoturismo?

JPP: A primeira informação que devemos divulgar a nossos colegas do trade é o impressionante crescimento desse tipo de turismo no Brasil nos últimos anos. Quero especialmente destacar dois pontos que chamam minha atenção na preparação desta segunda edição. O primeiro, é que o consumo de vinho e de enoturismo atinge hoje uns perfis de consumidores muito mais largos, além dos tradicionais connaisseurs da elite social e econômica e dos descendentes de imigrantes europeus no sul do país. O segundo é que o enoturismo brasileiro é hoje uma grande realidade em São Paulo, no Sul e até no Nordeste, e que os agentes de viagens tem aí um grande potencial a longo mas também a curto prazo.

De Nordeste a Sul, o enoturismo brasileiro está em plena ascenção

Há uma diferença do enoturista brasileiro para o de outras nacionalidades?

JPP: Acho que temos que falar dos enoturistas brasileiros e não do enoturista brasileiro. Temos uma clientela tradicional e de alto padrão aquisitivo que procura um enoturismo de luxo e que costuma comprar muito vinho com grande rótulos. Essa clientela está crescendo, procurando novos destinos e sendo cada vez mais curiosa sobre vinhos diferentes. Mas temos também uma clientela nova, que precisa talvez ser mais acompanhada que os enoturistas franceses ou italianos, e é nesse momento que os agentes de viagens podem ter um papel muito importante!

Quais suas apostas em enoturismo para o próximo ano?

JPP: Muito Brasil. O doméstico vai ser sucesso no enoturismo, como o sul do país, mas São Paulo vai surpreender; a Argentina também, pela proximidade e preços interessantes; a França, claro. Países ou regiões menos conhecidas vão também aproveitar. A presença da Suíça e da Catalunha no Invino não são meras coincidências. Queria lamentar a esse respeito que a Moldavia teve que cancelar sua participação devido a guerra que está chegando a suas fronteiras orientais.

A Garzon virou um exemplo de sucesso enoturístico

Quais as novidades para a edição 2022 do Invino?

JPP: Uma edição mais internacional, com expositores vindo de 8 paises, e uma participação mais importante do trade do vinho – teremos por exemplo o  World Wine apresentando seus vinhos no coquetel de encerramento. A gastronomia vai ter também uma presença mais forte com um almoço do chef bourguignon Emmanuel Bassoleil, e – last but not least – uma apresentação dos Queijos da França que vão se harmonizar com os vinhos da Garzon, um encontro original entre o Velho e o Novo Mundo.

A quem o evento se destina e como se inscrever?

JPP: O Invino quer que os mundos do turismo e do vinho se encontrem mais e se conheçam melhor. Devemos, assim, contar com 80 buyers, agentes de viagens e operadoras querendo se implicar no enoturismo, e 40 jornalistas e influenciadores vindo tanto do turismo quanto do vinho. Os 30 expositores se dividem também entre os dois setores. A particularidade do Invino em misturar palestras, seminários e encontros com refeições harmonizadas e degustações vai ajudar a criar esse clima de intercâmbio e de convivialidade que tanto gostamos.

A Suiça se posiciona como um destino de enoturismo