Bilionários inaugurando mais uma vez o turismo espacial?

Dennis Tito, o primeiro turista espacial da história

Em 2002, na abertura da primeira edição do ILTM de Cannes, o Diretor do salão destacou um dos expositores que , segundo ele, mostra o caminho do turismo do futuro: era uma operadora que oferecia por uns 20 milhões de USD o primeiro passeio no espaço. Co-presidindo o evento, o então diretor geral da Maison de la France, fez questão de lembrar que era sem dúvidas um acontecimento, mas que com certeza os viajantes que aceitavam de pagar um tal preço par uma experiência de alguns minutos não representavam mais que uma micro-niche que não ia acrescentar muitas receitas ou muitos empregos ao desenvolvimento sustentável do turismo internacional.

Guerra de egos ou nova era do turismo mundial?

Quase vinte anos e dez clientes depois, o turismo espacial volta a ser noticia, essa vez como competição de ego três bilionários mediatizados, todos com grandes investimentos nos transportes para o espaço: Egon Musk da Tesla- que teria sempre sonhar em abrir a colonização da planeta Mars mas já conseguiu para SpaceX fabuloso contratos com a NASA-, Richard Branson da Virgin – interessado há anos pelas viagens supersônicas e as ascensões em balões através da Virgin Galactic-, e Steff Bezos da Amazon – sonhando desde 2000 com colônias espaciais flutuantes construídas e lançadas pela sua empresa especializada Blue Origin.

A largada do VSS Unity desde seu lançador

Se nenhum dos três poderá alegar ser o primeiro turista espacial ( Dennis Tito no 21 de Abril 2001, e depois dele uns dez milionários pagaram nos últimos vinte anos uns 20 milhões de USD para viajar a bordo de foguetes Soyuz), Richard Branson foi mesmo o primeiro a viajar a bordo do seu proprio navio espacial. No dia 11 de julho, o excêntrico empresário sai na frente com três outros passageiros e dois pilotos no VSS Unity, levado pelo lançador VSS Eve. Depois da largada, subiu até 90 quilômetros de altura -10 quilômetros acima do limite do espaço definido pela Aeronáutica estado-unidense – e foi pousar na base de Spaceport no Novo México onde nada menos que Elon Musk esperava para reservar uma vaga num próximo voo.

No deserto do Texas, o Blue Origin de Steff Bezos

Jeff Bezos saiu nove dias mais tarde, dia 20 de julho, com o seu foguete New Shepard, atingiu 107 quilômetros de altura, e depois de dez minutos voltou abrindo os três paraquedas da capsula para pousar no deserto do Texas. Se não foi na dianteira, Jeff levou vantagem sobre o seu rival. Em primeiro lugar ultrapassou a barreira do espaço, 100 quilômetros de altura segundo as convenções internacionais. Em segundo caprichou no conteúdo emocional, com a presencia a bordo de vários objetos carregados de símbolos fortes: colar da sua mãe, pedaço do avião dos irmãos Wright, medalhão de Montgolfier, e convite a pioneira da aviação americana Wally Funk, hoje com 82 anos.

Olivier Daemen junto com Jeff Bezos, Mark Bezos, e Wally Funk

Jeff Bezos superou também Richard Branson em levar um passageiro pagante – o montante exato, superior a 20 milhões de USD, não foi porem divulgado. O feliz escolhido foi um neerlandês de 20 anos, Oliver Daemen, que foi presenteado pelo pai, dono do hedge fund Somerset Capitol Partners. Oliver tinha chegado em segundo lugar num leilão disputadíssimo de 75 pessoas, mas o vencedor teve que adiar a viagem e seguirá nos outros voos programados, dois em 2021 e vários em 2022. Nessas previsões de turistas espaciais, a Blue Origin tem ambições mais modestas que a Virgin Atlantic que já vendeu mais de 600 passagens de USD 250.000 cada e está programando 400 voos comerciais nos próximos anos.

O impacto do turismo espacial já preocupa os ambientalistas

Mesmo se os três bilionários insistam na dimensão sustentável e social desses projetos, as reações da imprensa bem como das mídias sociais foram pelo menos cautelosas, pouco jornalistas ou influenciadores sendo convencidos que os bilhões gastos nesses voos ajudaram ou ajudarão a encontrar soluções as crises de curto ou longo prazo, e muitos deles achando que essas viagens não se encaixa nas novas tendencias de sustentabilidade e de responsabilidade social. Para os profissionais, mesmo nas hipóteses mais favoráveis de algumas centenas de passageiros nos próximos anos, o turismo espacial,  continua pertencendo ao distante futuro.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Na hora do underturismo, Serge Trigano aplaudindo o turismo de massa

Serge Trigano, fundador do grupo Mama Shelter

Filho do lendário Gilbert Trigano, e fundador do grupo Mama Shelter, o Serge Trigano publicou no Journal du Dimanche da França uma tribuna muito ousada sobre o tão criticado turismo de massa. “A pandemia, além de dramas e sofrimentos, mexeu com a vida e o trabalho de todos. Vamos sair das cidades grandes, privilegiar o teletrabalho, tentar deixar um mundo melhor para nossos filhos. Essas e outras tendências são compromissos que só podemos aplaudir. Mas ao mesmo tempo chegaram umas ideias negativas sobre o turismo de massa. Ele acabaria com as paisagens, destruiria o meio ambiente, prejudicaria as populações locais e ameaçaria os empregos turísticos”.

O Serge Trigano lembrou que nos anos 1960, as elites gozavam dos turistas americanos que visitavam a Europa correndo, chegando em Londres na segunda-feira, passando por Paris na quarta, em Roma na sexta e voltando no sábado para os Estados Unidos. Mas a nova geração já aprendeu a aproveitar suas viagens e a explorar as belezas dos destinos escolhidos. Por que razão deveria ser dada aos únicos clientes dos palaces Gritti, Danieli ou Cipriani a exclusividade das belezas de Veneza e da magia da Sereníssima, discriminando os grupos populares? Não se deve esquecer que esses visitantes, pertencendo as classes emergentes do mundo inteiro, têm também todo direito de fazer selfies com as pombas da Praça São Marcos.

É claro, segundo o Sergio, que as consequências negativas dos excessos do “overturismo” devem ser combatidas, e já foram alcançados resultados neste sentido. A Airbus está trabalhando no não poluente avião do futuro. As companhias de cruzeiros – seguindo o exemplo da Compagnie du Ponant – estão reduzindo de forma drástica o seu impacto no meio ambiente. Os grandes destinos turísticos estão se organizando – de Veneza a Paris e Amsterdã, passando por Barcelona ou Phuket – para limitar os exageros de alguns momentos de folia.

Viva o turismo, então, que oferece a oportunidade de visitar o outro sem dominá-lo, sem procurar invadi-lo ou submete-lo. O turismo é o contrário da guerra, e já por isso merece ser protegido. Viva o turismo então, incluindo o mais elitista – porque não?-, mas viva também o turismo popular, aquele que é chamado de forma depreciativa o turismo de massa.  Viva também esses milhões de turistas e de veranistas felizes que desfilam pacificamente em nossas cidades, de celulares na mão para tirar fotos.

Esse artigo foi traduzido de uma coluna original de Serge Trigano no jornal francês  on-line Le Journal du Dimanche

Arábia Saudita nos grandes destinos turísticos mundiais de 2030?

Madain Saleh, a Petra do sul onde nasceu a escritura árabe

O acordo assinado o mês passado pelo Diretor Geral de Cruise Saudi, e o Presidente de MSC, vai dar um impulso espetacular aos cruzeiros nessa região, dando ao MSC Magnifica a possibilidade de zarpar de Jeddah, segundo porto do Oriente Médio, cidade histórica tombada pela UNESCO e ponto tradicional de entrada dos peregrinos para Meca. Um segundo navio, o MSC Virtuosa, operando no Golfo Pérsico, vai enriquecer os seus itinerários com escalas em Damman, porto dando acesso ao oasis de Al Ahsa, um outro sítio inscrito no patrimônio mundial da UNESCO. Para a temporada 2021/2022, as duas empresas esperam receber até 170.000 novos turistas.

Nos arredores do porto de Al Wajh, o Mar Vermelho ainda virgem de turistas

Os roteiros do MSC Magnifica terão como ponto alto a visita do oasis de Al Ula, também tombada pela UNESCO. A vinte quilômetros do vilarejo, os surpreendentes atrativos da região são os 138 túmulos de Maidin Saleh, segunda capital dos Nabateus, as vezes chamada de “Petra do sul”, antiga capital troglodita de um reinado citado na Bíblia, etapa da “rota do incenso” que ligava a Palestina com o Hejaz. O acesso é possível pelo porto de Al Wajh, famoso pelo seu centro historico e seu litoral, onde os turistas levados pela MSC poderão desembarcar para descobrir esse impressionante e ainda desconhecido acervo da humanidade.

O projeto de hotel de Jean Nouvel em Sharaan

Toda região de Al Ula é o centro de um grande projeto de parque natural, arqueológico e turístico. Com o apoio da França, a Arábia Saudita está investindo na renovação desse conjunto excepcional, incluindo infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias  e hoteleiras. O projeto integrou uma extraordinário hotel troglodita desenhado pelo arquiteto francês Jean Nouvel. Totalmente integrado nas paisagens, com 40 quartos e três vilas esculpidas nos morros, varandas escondidas, e um imenso pátio central, deve abrir em 2024 e virar um dos símbolos do sucesso das ambições turísticas sauditas.

A Kaaba e o complexo hoteleiro de Meca com seu “Big Ben” gigante

A Arabia Saudita já é o vigésimo quinto destino turístico mundial, e recebeu em 2019 20 milhões de turistas internacionais – três vezes mais que o Brasil-, um pouco mais da metade sendo peregrinos indo para Meca.  Pouco conhecido fora do mundo muçulmano, esse turismo religioso foi também profundamente transformado nos últimos anos. Com grandes hotéis de luxo com vista direta sobre a Kaaba, o complexo de Abraj Al Bait revolucionou as infraestruturas locais e as receitas turísticas da cidade santa que chegam hoje a USD 4100 por pessoa. Segundo as autoridades locais, essa evolução vai seguir com o crescimento do número de peregrinos, projetado em 30 milhões para 2030.

O projeto Coral Bloom, luxo, meio ambiente e novas tendências

As ambições do turismo saudita abrangem também o turismo balneário, com a abertura de 50 resorts em 22 ilhas e 6 pontos do litoral, incluindo campos de golfe, marinas, e centros de lazer. O projeto mais espetacular, Coral Bloom, inclui 11 hotéis de alto luxo  concebido pelo estúdio Foster & Partners que está sendo desenhado para valorizar o extraordinário meio ambiente da ilha de Shurayrah. Sem prédios, construídos com materiais leves, com design incorporando as últimas tendencias do turismo pós covid, os estabelecimentos vão oferecer uma experiência inovadora de luxo responsável e  ecológico. Com aberturas programadas a partir de 2022, serão uma etapa chave para colocar a Arábia Saudita nos grandes destinos turísticos mundiais em 2030.

Jean-Philippe Pérol

Além do Covid, um “Brazilian bashing” ?

A variante brasileira do virus preocupa muito cientistas e políticos

O hashtag #VariantBresilien é talvez mais um exemplo da degradação da imagem do Brasil junto as opiniões públicas da América do Norte e da Europa ocidental. Empurrados pelo descontrole da pandemia, fakes ou verdadeiros, os rumores sobre as variantes “sul americanas” são motivos para discriminar brasileiros, bloquear ou suspender voos internacionais , ou simplesmente para  impedir a entrada de viajantes provenientes do Brasil. Em uma reportagem publicada no dia 18 de Abril, a Folha de São Paulo citou casos no Portugal, na Irlanda, na Holanda e na França, e lembrou o risco de xenofobia e de violências como foi o caso nos Estados Unidos com a comunidade chinesa.

A suspensão dos voos da Air France foi uma das decisões mais fortes

Na França, as medidas contre os viajantes provenientes da América do Sul foram endurecidas essa semana. Sem poder limitar as chegadas de vários países europeus – Suécia, Polônia ou Hungria- onde a pandemia tem índices muito mais altos que no Brasil ou no Chile, o governo impõe uma quarentena para todos os residentes de 4 países sul americanos, incluindo seus próprios cidadãos. As restrições contra o Brasil estão virando um assunto político, simpatias “latinas” virando suspeitas, viagens para América do Sul sendo julgadas escandalosas, a direita esquecendo a herança do de Gaulle e pedindo mais “firmeza”, a esquerda  confundindo proximidades políticas e relações com estados e povos.

As divergências sobre o futuro da Amazônia alimentam o “Brazilian bashing”

Se a situação sanitária e a preocupação com as variantes brasileiras do vírus são uma realidade, esse “Brazilian bashing” se inscreve infelizmente em uma tendência de vários anos. As mudanças na politica internacional do Brasil, suas evoluções sobre assuntos de sociedades, bem como o novo relacionamento do poder politico com a imprensa não foram sempre bem compreendidos pelas mídias que constroem a opinião mundial. E os crescentes mal-entendidos sobre a Amazônia, cuja realidade é parcialmente ou totalmente desconhecida pelos governos estrangeiros, pesam cada vez mais sobre a imagem do país, afetando a economia, as exportações, os investimentos e o turismo.

A volta dos brasileiros ajudará a imagem a dar a volta por cima

Mesmo com esse quadro negativo, os profissionais do turismo – especialmente aqueles que estão envolvidos nas relações com a França, devem acreditar que essa situação será superada, tendo várias razões para isso.

  • a pandemia é um fator importante da aceleração desse “Brazilian bashing”, mas as campanhas de vacinação bem sucedidas levarão ao final dessa crise, mesmo se pode demorar ainda vários meses.
  • a guerra verbal sobre a Amazônia vai ter que evoluir em uma cooperação respeitosa da soberania brasileira, assegurando os objetivos de luta contra as mudanças climáticas. Longe de ser um bloqueio ao desenvolvimento da região, um novo acordo internacional pode abrir oportunidades – inclusivo no turismo- e  ajudar a mudar a imagem do Brasil.
  • a relação especial entre os dois países tem raizes na história e na cultura, muito mais fortes que divergências pontuais. Auguste Comte e Santos Dumont sempre superaram o Conde d’Eu, o litígio do contestado ou a guerra da lagosta.
  • as mudanças politicas nas perspectivas de 2022, e a troca de ministro das relações exteriores, deveriam afastar a ideia que o Brasil vai aceitar de ser um pária através do mundo.
  • A França sempre foi um dos mais importantes destinos dos turistas brasileiros, e ser brasileiro sempre foi na França um motivo de atendimento especial (Como foi no Brasil  para os turistas franceses). Multiplicando os encontros e as relações pessoais, a retomada do turismo deve ser outro importante fator para acabar com esse triste “Brazilian bashing”.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

O turismo com 100 milhões de empregos a reconstruir

 

Egito, um dos destinos em destaque em 2021

Na véspera da alta temporada do hemisfério Norte, nos raros destinos internacionais abertos, os poucos viajantes vão com certeza amar os preços imbatíveis dos aviões e dos hotéis, a exclusividade das visitas de monumentos e atrações, a volta da natureza nos parques e jardins, ou a atenção especial dos guias e dos garçons. Menos visível para os visitantes, eles não poderão ver o outro lado da moeda desse “underturismo brutal”, o desaparecimento de muitos pequenos empregos que alegram o turista como motoristas, empregados, artesãos,  motoristas, vendedores de rua, artistas, animadores ou músicos.

Veneza saindo do overturismo e repensando uma nova relação entre turistas e moradores

Segunda uma estimativa do WTTC, o World Tourism and Travel Council, a queda de 74% do turismo internacional em 2020 já levou a destruição de 62 milhões de empregos, um número que poderia mesmo ter sido maior sem as medidas de apoio ao setor de muitos governos. A Organização Mundial do Turismo acredita porém que esses números são subestimados devido ao atraso da retomada, e já projeta para o final desse ano mais de 100 milhões de desempregados. Um cenário negro dentro do qual a OCDE teme que a metade das pequenas e médias empresas do setor desaparecem antes de 2022.  

As Ilhas do Tahiti souberam aproveitar o turismo para preservar seu patrimônio cultural

A crise do turismo impacta toda a economia de muitos países onde o setor representa não somente 10% do PIB, mas também a primeira fonte de divisas,  e até 25% dos empregos gerados nos últimos 5 anos. Em agosto 2020, um relatório da ONU chamou a atenção dos governos sobre a importância desses empregos, especialmente na África e na Oceania. Mesmo pouco qualificados, eles oferecem verdadeiras perspectivas de formação e de carreira para jovens sem diplomas, mulheres, populações rurais, povos autóctones e grupos marginalizados. São também essenciais a preservação do patrimônio natural e cultural. 

Os dois cenários da OMT para 2021

As perspectivas a curto prazo continuam pessimistas. Depois de anunciar uma queda de 87% do turismo internacional em janeiro, a OMT publicou dois cenários para 2021. O primeiro seria de uma retomada a partir de julho, com um aumento de 66% das chegadas em relação a 2020 – ainda inferior de 55% aos níveis anteriores a crise  O mais provável seria no entanto o segundo, uma volta ao normal a partir de setembro, um aumento das chegadas de somente 22% em relação a 2020 – inferior de 67% aos níveis de 2019.  A saída definitiva da crise seria assim projetada para janeiro ou abril de 2022. 

O turismo pos Covid ainda deve ser redesenhado

Com a normalidade ainda demorando a voltar, muitos dos seus profissionais obrigados a encontrar empregos em outras atividades ou perdendo fé no futuro do setor,  o turismo corre o risco de perder os homens e as mulheres que são a sua maior riqueza. Mesmo com as dramáticas circunstâncias atuais, ninguém deve porém perder a esperança. Em primeiro lugar porque os fluxos de turismo internacional vão voltar a crescer, a projeção da OMT de 1,8 bilhão de turistas para 2030 sendo somente recuada de dois ou três anos, permitindo a recuperação dos 100 milhões de empregos perdidos . Em segundo lugar porque o turismo vai acelerar uma extraordinária mutação – ecológica, social, cultural e comportamental- que vai ser para todos os profissionais do setor, e especialmente os mais jovens,  um desafio apaixonante.

Jean-Philippe Pérol

Emoções transformacionais e exclusividade,  tendências para ser respondidas

Veneza, parabens para os seus 1600 anos!

A tradição, ou a lenda, ensina que Veneza foi fundada no dia 25 de março de 421. Três cônsules, mandados pelo prefeito de Pádua, teriam iniciado neste dia a construção da igreja de San Giacometo do Rialto, ainda hoje considerada uma das mais antigas da cidade mesmo se datando provavelmente do século XI. Os historiadores são mais divididos, alguns escolhendo 452, quando a lagoa foi o refúgio dos sobreviventes da destruição da cidade vizinha de Aquileia pelas hordas de Átila, outros preferindo 697 quando o patrício Paulicius foi eleito e reconhecido pelo então soberano bizantino como primeiro “doge” (duque en lingua veneta).

San Giacometo do Rialto, lendário lugar de fundação da cidade

As comemorações dos 1600 anos começaram dia 25 de março na basílica San Marco, com uma missa celebrada pelo Patriarca Francesco Moraglia – retransmitida on-line para respeitar as rígidas normas sanitárias da Itália. As 4 da tarde, os sinos de todas as 84 igrejas da cidade tocaram juntos, e a rede nacional de televisão italiana apresentou um documentário em homenagem a Veneza com músicas, fotos e vídeos ilustrando a peculiar história da Serenissima. A prefeitura anunciou também muitas iniciativas culturais previstas para 2021 e 2022, misturando o virtual com o máximo de presencial se a pandemia deixar.

Os navios de cruzeiros devem agora ancorar fora da cidade histórica

Para seu aniversário, o primeiro presente que Veneza recebeu foi porem a proibição feita aos grandes navios de cruzeiro de entrar no Grande Canal. Anunciada de forma solene pelos ministros da cultura, do turismo, do meio ambiente e das infraestruturas, a decisão  tinha sida tomada em 2012 para “proteger um patrimônio pertencendo não somente a Italia mas a toda humanidade”, mas ainda não vigorava devido aos atrasos na construção de um porto alternativo.  A pressão dos moradores, as exigências da UNESCO, e a emoção provocada por dois incidentes graves em 2019 levaram o governo italiano a encontrar uma solução provisória no porto industrial e a efetivar a proibição.

235 projetos vão comemorar os 1600 anos

Além dos grandes eventos tradicionais como a famosa Biennale ou o Venice Boat Show, com numerosas ideias e propostas vindo não somente dos moradores mas do mundo inteiro, o  Comitê da comemorações dos 1600 anos  já selecionou 235 projetos para serem apoiados pela prefeitura. Nessa cidade que já sofreu do overturismo, mas cuja economia depende completamente dos visitantes, é certo que todos terão que seguir as novas tendências do turismo pós Covid. Um turismo construído com os moradores, mais ligado com os fluxos domésticos, espalhado em todos os cantos da cidade, privilegiando os pernoites e as estadias mais longas. Um turismo mais qualitativo a altura das esplendores que essa cidade mágica oferece a seus visitantes há 1600 anos!

Jean-Philippe Pérol

A retomada pode se projetar sem os excessos do overturismo?

A renovação urbana, grande vencedora da pandemia?

No coração de Manhattan, a 42nd é agora deserta

Apresentado um relatório sobre o crise do Covid nos centros urbanos, o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, lembrou que as grandes cidades são as mais atingidas, concentrando até 90% dos casos. Os confinamentos pararam com o coração das suas atividades. Com os trabalhadores, os visitantes, os estudantes e até os moradores cada vez mais raros nas ruas, comércios e restaurantes estão sofrendo com as indispensáveis precauções sanitárias, ou são obrigados a fechar pelo menos provisoriamente. Em muitos países,  ajudas governamentais ainda estão evitando fechamentos definitivos, mas a retomada será muito difícil.

A crise acelerou a popularidade das ciclovias

Muitas prefeituras tentaram com sucesso de adaptar a utilização do seu espaço público as necessidades da luta contre a epidemia, investindo em transporte mais seguros com a aceleração de projetos antigos ou o lançamento de novas iniciativas : ampliação das áreas pedestres e das ciclovias, construção de pontos de abastecimentos de veículos elétricos, aberturas de terraços nas calçadas e nas praças públicas. Em uma conjuntura normal, essas idéias encontram fortes resistências mas com a crise foram facilitados pela urgência de ajudar o acesso seguro aos comércios locais, elos chaves da vitalidade das ruas dos centros urbanos.

O centro histórico de Québec enfrenta a queda do turismo

Além do comércio e dos restaurantes, as prefeituras devem também agir para ajudar o setor hoteleiro dos centros urbanos que estão em situação crítica. Além de muitos hotéis fechados, as taxas de ocupação de 2020 estão raramente ultrapassando 40% nos dias de pique, e caindo a menos de 20% em destinos acostumados a receber turistas internacionais – 18% por exemplo em Montreal. 2021 começou pior ainda, e mesmo Paris, primeira cidade turística mundial, estava em janeiro com uma taxa oscilando entre 34% para os hotéis mais populares, até 7% para os 5 estrelas que são as maiores fontes de visitantes para as lojas e os restaurantes das ruas comerciais.

Montreal é a cidade mais verde do Canada

No Canadá, os profissionais pensam que a crise vai acelerar algumas tendências do urbanismo que já preexistiam: construções mais sustentáveis, desenvolvimento da agricultura urbana, ampliação dos parques e das áreas arborizadas, apoio a todos os tipos de transportes a propulsão elétrica. Um grupo de 50 especialistas e personalidades assinaram uma Declaração 2020 para a resiliência das cidades canadenses. Eles estão pedindo uma economia verde, limpa e com poucas emissões de carbone, listando 20 medidas para assegurar uma urbanização responsável, acelerar a “decarbonização” e aderir de vez ao crescimento sustentável.

Paris projetando um futuro dinâmico, acolhedor e verde

A agonia dos centros urbanos não começou com a pandemia. Os shopping centers das periferias bem como o e-comércio já estão esvaziando as ruas há anos. A crise do Covid acelerou o movimento mas provocou também uma maior conscientização e muitas vezes uma forte mobilização dos profissionais. No Canadá, foi publicado o relatório Devolvendo a rua principal que apresenta ações para dinamizar o coração das grandes cidades.  No Québec, uma outra iniciativa junta apresentações de projetos de cidades com centros renovados, dinâmicos, motores da  economia turística, onde cultura e gastronomia são autênticos e vibrantes, onde os moradores são felizes, orgulhosos de viver e de receber os turistas.

O Québec investindo em “rues conviviales” para renovar os centros urbanos

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Claudine Barry na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

Pesquisa internacional mostra um otimismo razoável sobre a retomada do turismo

A esperada pesquisa do “World Travel Monitor” sobre as viagens internacionais em 2020 confirmou os números já conhecidos, e deu algumas prudentes esperanças. O turismo foi mesmo um dos setores econômicos mais atingidos no mundo, com uma queda média das viagens internacionais de 70%, com diferenças significativas segundo os continentes. A queda foi mais importante na Ásia com quase 80% , depois na América Latina com 70%, na América do Norte com 69%, a Europa tendo a menor queda com 66%. A geografia explica talvez essas diferenças, as viagens de carro – mais importantes no turismo internacional na Europa- caindo somente de 58% enquanto as viagens de avião sofrem muito mais com um recuo de 74%.

A procura de viagens mudou com a crise

As viagens de lazer foram as mais atingidas, com uma queda de 71%, mais que as viagens de negócios que caíram de 67% (mas serão provavelmente mais penalizadas no médio e longo prazo), e mais as viagens de amigos e familiares que recuaram de  62%. Dentro das viagens de lazer, a queda foi bem menor para a procura de natureza(-53%). Como era de se esperar, o transporte aéreo sofreu o maior recuo mundial – 74%-, enquanto o transporte terrestre caiu de somente 58%. As diferenças foram também importantes nas hospedagens, com a hotelaria mostrando ocupações com queda recorde de 73%, muito superior a seus concorrentes, seja aparthotéis, AirBnb ou particulares . A pesquisa mostrou enfim que o viajante 2020 gastou 14% a menos, mas a queda foi principalmente a consequência do declíno das viagens intercontinentais.

Na Ásia, o turismo urbano deve ser a tendência 2021

Os resultados da pesquisa da IPK mostram um certo otimismo em relação a 2021. O grande obstáculo para a retomada sendo o Covid e não a crise econômica, e com 90% dos entrevistados aceitando de ser vacinados, os 62% que estão com vontade de viajar este ano dependem agora somente da disponibilidade da vacina. As intenções de viagem post Covid são mais fortes para as visitas a parentes e amigos, e para as férias na praia. Na Ásia, há uma tendência importante para o turismo urbano. Nos outros mercados, na Europa e nas Américas, como foi levantado em pesquisas no Brasil, nota-se também um crescimento da procura de ecoturismo e de bem estar.

Personalização, conteúdo e exclusividade são as tendências do turismo de luxo

Além desse otimismo razoável, e de novas exigências de sustentabilidade ou de turismo de luxo,  a  pesquisa destacou os destinos mais procurados para 2021. Nos cinco continentes, os turistas têm uma preferência marcada para os países próximos, mas essa tendência é muito mais forte na Europa. Os líderes do turismo europeu, a Espanha, da Itália, da França e da Alemanha devem assim ser os primeiros a aproveitar uma retomada cujo ritmo só será definido pela disponibilidade das vacinas: iniciada em 2021, seria completa em 2022 ou no mais tardar em 2023. Um otimismo (muito) razoável.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line Mister Travel

Agentes de viagens esperam recuperação mais lenta

 

Os agentes de viagens estão se mostrando mais pessimistas

A quinta rodada da pesquisa TERMÔMETRO DO TURISMO, uma parceria entre o MERCADO & EVENTOS e a CAP AMAZON, mostra que há uma incerteza muito grande por parte dos agentes de viagens em relação a recuperação do setor. Entre os respondentes, 32% acreditam que a retomada das viagens ocorrerá apenas no segundo semestre de 2021; 27% apostam no segundo trimestre e 26% acredita que isso ocorrerá apenas em 2022. Para 9% a retomada teve início em 2020 e os outros 6% disseram que a retomada ocorre neste primeiro trimestre. Os dados foram colhidos em fevereiro e os resultados englobam um universo de mais de 300 agências de todo o Brasil. Do total de empresas que responderam, 85% têm menos de dez funcionários; outros 9% têm de dez a 50 e os outros 6% contam com mais de 50 colaboradores. 76% são especializados em lazer, 12% corporativo e 12 em outros nichos específicos.

Gráfico 1

“Na última pesquisa, que foi feita entre novembro e dezembro, o mercado estava começando a esquentar e os agentes já estavam caminhando com clientes voltando a viajar. Desta vez, sentimos que a conjuntura é muito diferente, com esta nova onda da Covid-19 muitos países se fecharam e as restrições são enormes. Agora não é só não poder sair, também não tem muito onde ir. É um pessimismo que vai muito além do Turismo e atinge todos os setores”, destacou Jean-Phillipe Pérol, diretor da Cap Amazon. Para o diretor de Redação do M&E, Anderson Masetto, a situação é parecida com o início da pandemia, quando as principais notícias eram as de fechamento de fronteiras, hotéis e atrativos. “Estamos vendo notícias iguais no início da pandemia. Tudo isso começou com o surgimento das novas variantes, primeiro a do Reino Unido e depois a do Brasil. As fronteiras começara ser fechadas e temos hoje poucos países que aceitam receber pessoas que estiveram no Brasil. O fato é que as pessoas estão cansadas, mas enquanto a situação não estiver minimamente controladas, as viagens estarão cada vez mais restritas, infelizmente. Mas por outro lado, a campanha de vacinação já começou e vemos uma porta de saída”, afirmou.

Gráfico 4

O pessimismo se reflete também na previsão de faturamento. Embora o maior percentual (36%) acredite que será um pouco maior do que no ano passado, é necessário lembrar que a comparação é com 2020, quando as vendas despencaram. Outros 26% vêem um faturamento muito abaixo e 15% um pouco abaixo. Para 14% será igual e 6% um pouco acima. Faturamento menor também leva as agências a buscarem uma redução de custos. Gráfico 5O número de empresas operando em home office aumentou em relação a última pesquisa de 68% para 72%. 25% estão operando normalmente, enquanto 3% estão fechadas. “Mesmo antes da pandemia, esta era uma tendência observada em outros países e que a gente já esperava que fosse acontecer aqui. A pandemia acelerou esta tendência”, ressaltou Masetto. “Também acredito que a crise está acelerando fenômenos que já estavam a caminho. O crescimento dos chamados home agents é um fenômeno importante nos Estados Unidos e aqui é uma adaptação a evolução do mercado, não apenas por conta da pandemia”, complementou Pérol.

Gráfico 3

A pesquisa abordou ainda as tendências. Os agentes foram perguntados para quais destinos acreditam que a recuperação será mais rápida. O campeão, novamente, foi o Nordeste, com 65% das respostas, seguido do Sul com 16%, Sudeste com 14%, Centro Oeste com 3% e Norte com 2%.

Os destinos caribenhos – incluindo o México- seguem líderes das preferências

No caso do internacional, Caribe, incluindo o México, está na frente com 30%. Em seguida vem América do Sul, com 24%; Europa, com 23%; Europa, com 23%; e América do Norte em forte alta com 13%. Os demais destinos somaram 10%. O primeiro segmento a retomar, para as agências pesquisadas são o lazer com 44%, visita a familiares e amigos com 34%, corporativo com 15%, cruzeiros com 4%, e feiras e MICE, com 2%.

Novas tendências vão impactar a retomada

Na opinião das agências consultadas, a retomada é mais uma vez foi recuada, em média, para o segundo semestre deste ano, um pessimismo marcante em relação a pesquisa anterior. Por outro lado, ainda impactada pelo fechamento de fronteiras, a procura de destinos favorece o doméstico. “O pessimismo é também ligado ao fato que as os setores mais “agenciados” (corporativo, cruzeiros e internacional) não estão dando sinais significativos de saída da crise. Além disso, a retomada do doméstico é mais difícil de ser captada pelos agentes”, finalizou Pérol.

Veja aqui a apresentação completa dos resultados:

Homens e mulheres no coração do turismo pós crise …

Hoje não se vende as qualidades do hotel, se fala do hoteleiro @latoubana

Aceleradora de tendências, a crise do Covid obriga todos os profissionais a repensar suas ofertas, seus públicos alvo, bem como suas estratégias de marketing para responder às novas procuras dos viajantes que vão compor a retomada. Já anunciado há alguns anos, o foco no lado humano do turismo, dos consumidores até os funcionários e os moradores, o “marketing humanizado” está tomando uma dimensão fundamental. Segundo o marqueteiro Olivier Coullerez, presidente e fundador da agência Espresso Communications, «hoje a ideia não deve ser de vender as qualidades de um hotel, mas de falar do hoteleiro  ».

Para mostrar a resiliência do turismo, e a força do seus atores, a  GLP Films  realizou vários clipes mostrando homens e mulheres que tiveram papéis de destaque no desenvolvimento do seu destino. Com o hashtag  #TourismStrong , são assim popularizadas “success stories” de atores locais na Uganda, no Peru, na Costa Rica, no Brasil ou em Nova Iorque. Além da história de cada profissional envolvido, uma atenção particular é dada aos esforços que foram feitos para promover os “savoir-faire” regionais, através da criação de plataformas especializadas. No estado australiano do New South Wales por exemplo, a organização Culture Maps Central NSW promove as empresas locais de arte e cultura com um mapa interativo valorizando as ofertas.

Helsinki procurando turistas combinando com seus valores

Pensando na retomada, muitos destinos estão trabalhando em definir melhor os seus visitantes internacionais, destacando aqueles que se identificam com os valores da região ou das experiências propostas. Na Finlândia, Laura Aalto, diretora do turismo de Helsinki, lembra que a estratégia de marketing da cidade é construída em torno de visitantes fiéis que se identificam com seus valores: confiança, inovação, abertura de espírito, e sustentabilidade. Os visitantes devem também integrar a comunicação. Visit Florida desenvolveu uma parceria com Outbound Collective, uma operadora especializada em atividades esportivas. Para atrair novos clientes, 12 especialistas vindos de minorias hoje pouco representadas estão apresentando nas mídias sociais experiências personalizadas.

As novas oportunidades do teletrabalho

O turismo pós Covid vai também levar a uma gestão mais humana dos fluxos, espalhar os viajantes em regiões hoje menos visitadas, incentivar as visitas durante a baixa estação, e parar de promover os lugares e as datas que provocaram tensões com os moradores. Com a explosão do teletrabalho, a crise abriu novas oportunidades de longas estadias que alguns destinos, como  Barbados, a  Estónia  ou o Massif de Charlevoix, no Québec , e algumas plataformas ,como Booking.com, souberam aproveitar. O turismo de amanhã já está se definindo, sempre amarrado em experiências humanas, interativas, baseado no respeito de valores sociais sustentáveis e  autênticas que devem integrar não somente a oferta de produtos e serviços mas também a própria promoção.

 

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Fanny Beaulieu Cormier na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat  

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