O Turismo Francês acreditando no Brasil há 45 anos

Caroline Putnoki na inauguração do novo escritorio da Atout France

Teve muita emoção na terça feira passada, dia 24 de Setembro, durante a inauguração da nova sede da Atout France, a Agência de Desenvolvimento do Turismo Francês no Brasil. Mais de 50 jornalistas, influenciadores e profissionais ficaram impressionados pelos escritórios cujo tamanho, design e modernidade mostravam que a França continuava a acreditar no turismo brasileiro e queria mesmo brigar pela liderança para Europa. O local anterior, na Avenida Paulista, tinha sido ocupado desde da abertura da representação oficial, em 1982. Lá passaram seis diretores da então Maison de la France e depois da Atout France, desde Christian Lepage até Caroline Putnoki, incluindo Alain Roman, Patrice Doyon, Vincent Toulotte, e Emmanuel Marcinkowski, além de Jean Philippe Pérol que ocupou duas vezes a função de 1990 até 1996 e de 2011 até 2017.

Com a Maison de la France, o Turismo Francês acelerou seu crescimento

Antes de ter um escritório próprio, o Turismo Francês já era representado no Brasil. Desde 1976, a Diretoria Air France no Rio de Janeiro tinha uma funcionária oficialmente encarregada de promover o destino junto aos agentes de viagens. Mas nessa época distante, com telex e sem celular ou whatsapp, os controles eram muito distantes e o trabalho de representação muito distante. A dita encarregada nem sabia dessa função e descobriu o seu verdadeiro empregador na véspera de uma auditoria. Naquele momento o seu chefe teve de confessar que ela não era a sua secretária, mas uma funcionária do Ministério do Turismo da França e que, juntos, tiveram de encher as paredes do seu escritório com cartazes das regiões da França, e as prateleiras com folhetos turísticos.

A parceria com Air France faz a força do Turismo Francês há 45 anos

A forte implicação do Turismo Francês no mercado brasileiro é impressionante pela duração – 45 anos- e pela importância – cinco funcionários em 1982, sete em 2019-, mas também pelo seu destaque frente a concorrência. Portugal abriu mais cedo mas acabou integrando o turismo à sua representação comercial, a Itália trabalhou muito tempo desde o seu escritório de Buenos Aires, o Reino Unido sempre hesitou entre Rio de Janeiro, São Paulo e Miami. Depois de apostar na Argentina, a Suíça transferiu o escritório para São Paulo, com grandes investimentos em marketing mas uma estrutura pequena. Outros países europeus – Alemanha, Áustria, Noruega ou Republica Tcheca- trabalham o mercado por meio de agentes integrando câmaras de comércio ou agências de marketing. Junto com a Espanha, a França foi assim a única a sempre investir em uma presência forte e direta no Brasil.

A integração com o trade sempre foi um ponto de destaque do Turismo Francês

Além dos endereços e das equipes, a história da representação do Turismo Francês – dos “Escritório de Turismo do governo francês” até a Maison de la France e depois a Atout France- seguiu também a evolução das tarefas, evolução visível no novo escritório da Alameda Jaú. Outrora principalmente encarregada de distribuir folhetos ao público ou durante as feiras profissionais – no Brasil mais de 20 toneladas por ano-, a equipe concentra agora seus esforços nos eventos próprios e nas mídias sociais, duas atividades onde conseguiram um grande know how e uma reconhecida liderança. Continua por outro lado, há 45 anos, com seus dois grandes trunfos : uma perfeita integração com o trade brasileiro e um suporte que nunca falhou da sua companhia aérea, “la Compagnie Nationale Air France”.

Jean-Philippe Pérol

Das revistas aos influenciadores, a evolução das ações de comunicação

A crise do marketing de destino chega na França

Rendez vous en France, encontro dos parceiros franceses e internacionais

Alem de um brutal corte de orçamentos, a crise que explodiu a semana passada na Atout France, órgão oficial do turismo francês, significa talvez o fim de um modelo de parceria inventado pela equipe de um então ministro do governo Chirac. Exclusiva dos ministérios ou das administrações publicas desde as suas origens no inicio do século XX, a promoção do turismo internacional conheceu em 1987 uma verdadeira revolução. Agregando quatro órgãos oficiais preexistentes, o ministro Descamps convenceu setenta profissionais de entrar como parceiros numa nova estrutura co-gerenciada e co-financiada pelo governo federal e os profissionais públicos e privados do setor. Era o nascimento da Maison de la France,  uma associação que chegaria a juntar 1300 empresas francesas de turismo e a estabelecer relações estreitas com mais de mil operadoras em 35 países.

Com a mudança de 2009, Atout France integrou o Ministério das Relações exteriores

A Maison de la France acompanhou a volta da França na liderança do turismo mundial, e criou um novo modelo de parceria publico privado. Em 2009 virou Atout France, assumindo novas responsabilidades na planificação do turismo e na classificação hoteleira. Nessa trajetória de sucessos, as recentes decisões do governo chocaram os profissionais e a imprensa do trade e econômica. Atout France poderia ser obrigada a reduzir de um terço a sua presencia no exterior, encolhendo o seu quadro de colaboradores e talvez o numero de países onde está operando, um paradoxo para uma autarquia que depende agora do ministério das Relações Exteriores. As ambições do governo francês, 100 milhões de turistas em 2020 e 60 bilhões de euros de receitas, seriam então seriamente ameaçadas.

As campanhas B2C sofrem dos cortes de verbas

É certo que, mesmo se o corte de quatro milhões de Euros  pode parecer limitado porque representa somente 12% do aporte total do governo, as preocupações do setor devem ser tratadas com respeito e seu impacto não devem ser subestimado. Mas seria injusto de colocar toda a responsabilidade da situação nas últimas decisões do atual governo, isso por duas razões. Em primeiro lugar deve ser lembrado que os governos anteriores realizaram cortes mais importantes ainda nos últimos 15 anos, reduzindo de até 75% as verbas de promoção, e cortando de 80% o numero de funcionários públicos colocados gratuitamente a disposição da associação. A novas tarefas de engenharia e classificação, sem dúvidas muito gratificantes e estrategicamente interessantes, foram impostas sem nenhuma contrapartidas financeiras, aumentando mais os custos fixos.

Air France, desde as origens um apoio excepcional para o turismo francês

A redução dos gastos de promoção não foi também exclusiva do governo. As grandes empresas de viagens e turismo que investiam com força ao lado do governo, emprestando funcionários e participando de campanhas de imagem da França, reduziram suas participações.  Se o apoio da Air France continua sendo excepcional, grupos como Accor, Pierre et Vacances ou o Club Med representam hoje menos de um por cento das parcerias acumuladas. Os outros órgãos públicos de promoção, a níveis regionais ou municipais, também diminuíram as suas verbas, não somente porque falta dinheiro público, mas porque são cada vez mais preocupados promover suas próprias marcas com exclusividade, sem necessária associação com o destino França, desprezando as vezes a expertise que Atout France acumulou com seus colaboradores e seus contatos.

O apoio dos profissionais foi decisivo no sucesso da Atout France

Mostrando a insensibilidade do governo sobre a importância do setor, o choque levado pela Atout France com a redução das verbas públicas acelera as perguntas sobre o modelo criado em 1987. Os seus dois pilares, marketing e parcerias, não têm mais o mesmo apelo junto aos profissionais. O marketing perde força, exprimido entre o branding sempre muito ciumento e as vendas só interessadas por ações com resultados concretos e imediatos. Sem o atrativo do dinheiro publico e seu poder de impor mensagens claras, as parcerias são mais escassas  e as ações conjuntas cada vez mais complicadas. O novo modelo que tem que surgir não pode se restringir a uma (necessária) volta das verbas do governo, mas deve reinventar o posicionamento e os investimentos dos profissionais franceses e estrangeiros. Ao governo, sim, a responsabilidade de tomar a liderança dessa reconstrução, aproveitando as competências das suas equipes e as expectativas dos seus parceiros.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos 

Sucesso de parceria público/privado, um modelo a reinventar?