Na hora do underturismo, Serge Trigano aplaudindo o turismo de massa

Serge Trigano, fundador do grupo Mama Shelter

Filho do lendário Gilbert Trigano, e fundador do grupo Mama Shelter, o Serge Trigano publicou no Journal du Dimanche da França uma tribuna muito ousada sobre o tão criticado turismo de massa. “A pandemia, além de dramas e sofrimentos, mexeu com a vida e o trabalho de todos. Vamos sair das cidades grandes, privilegiar o teletrabalho, tentar deixar um mundo melhor para nossos filhos. Essas e outras tendências são compromissos que só podemos aplaudir. Mas ao mesmo tempo chegaram umas ideias negativas sobre o turismo de massa. Ele acabaria com as paisagens, destruiria o meio ambiente, prejudicaria as populações locais e ameaçaria os empregos turísticos”.

O Serge Trigano lembrou que nos anos 1960, as elites gozavam dos turistas americanos que visitavam a Europa correndo, chegando em Londres na segunda-feira, passando por Paris na quarta, em Roma na sexta e voltando no sábado para os Estados Unidos. Mas a nova geração já aprendeu a aproveitar suas viagens e a explorar as belezas dos destinos escolhidos. Por que razão deveria ser dada aos únicos clientes dos palaces Gritti, Danieli ou Cipriani a exclusividade das belezas de Veneza e da magia da Sereníssima, discriminando os grupos populares? Não se deve esquecer que esses visitantes, pertencendo as classes emergentes do mundo inteiro, têm também todo direito de fazer selfies com as pombas da Praça São Marcos.

É claro, segundo o Sergio, que as consequências negativas dos excessos do “overturismo” devem ser combatidas, e já foram alcançados resultados neste sentido. A Airbus está trabalhando no não poluente avião do futuro. As companhias de cruzeiros – seguindo o exemplo da Compagnie du Ponant – estão reduzindo de forma drástica o seu impacto no meio ambiente. Os grandes destinos turísticos estão se organizando – de Veneza a Paris e Amsterdã, passando por Barcelona ou Phuket – para limitar os exageros de alguns momentos de folia.

Viva o turismo, então, que oferece a oportunidade de visitar o outro sem dominá-lo, sem procurar invadi-lo ou submete-lo. O turismo é o contrário da guerra, e já por isso merece ser protegido. Viva o turismo então, incluindo o mais elitista – porque não?-, mas viva também o turismo popular, aquele que é chamado de forma depreciativa o turismo de massa.  Viva também esses milhões de turistas e de veranistas felizes que desfilam pacificamente em nossas cidades, de celulares na mão para tirar fotos.

Esse artigo foi traduzido de uma coluna original de Serge Trigano no jornal francês  on-line Le Journal du Dimanche

Mama shelter, mais um success story dos Trigano!

As barracas foram o primeiro sucesso da família Trigano

A historia da família Trigano é sempre associado ao génio criativo do Gilbert, o homem que projetou o Club Med e o transformou na “mais bela ideia desde a invenção da felicidade”, tentou empurrar a paz no Oriente Medio com sua Universidade franco-israelo-palestina, e se destacou como o maior empresario do turismo francês – chegando a presidir a Maison de la France. Mas não se deve esquecer que o sobrenome Trigano deve ser associado a outros sucessos. Foi assim em 1935, quando Raymond Trigano com seus dois filhos lançaram as barracas populares que viraram durante três décadas sinônimas de turismo popular na França e na Europa, barracas que eram então vendidas para primeiro dono do Club Med, o suíço Gerard Blitz. E hoje, com essa imponente herança de criatividade, a nova geração de Trigano esta associada a um novo conceito hoteleiro que esta seduzindo tanto os viajantes quanto os investidores.

O design “millennial” dos Mama Shelter

Lançado em 2008 num bairro do Leste parisiense, Mama Shelter é uma das mais atraentes pequenas bandeiras da hotelaria do século XXI. Com a abertura em dezembro passado do segundo hotel em Paris, o grupo conta hoje com 12 estabelecimentos. Escolhendo endereços populares e “trendy”, apostando nos talentos do famoso designer Philippe Stark,  com restaurantes animados e comida “festiva”, os “Mama” estão agora espalhados na França (Marselha, Lyon, Bordeaux, Lille e Toulouse) e também nos Estados Unidos (Los Angeles), na Sérvia (Belgrado),na Inglaterra (Londres), na República Tcheca (Praga) e no Brasil (Rio de Janeiro).  Reencontrando o espirito dos primeiros Club Med, apertando os preços, Serge Trigano se orgulha de juntar millenials, turistas de lazer ou jovens executivos que gostam desse novo “lifestyle” à francesa.

O primeiro Mama do Brasil fica em Santa Teresa, no Rio de Janeiro

Enquanto foi as vezes acusado de ser um péssimo administrador, Trigano mostrou logo no primeiro ano que o novo conceito podia ser rentável. Em 2014, conseguiu atrair no capital da empresa o grupo Accor Hotels que viabilizou combinar criatividade, ousadia e crescimento rápido: 35% realizados em 2019, 50% estimados para 2020 e uma previsão de 100% cada três anos no plano estratégico. O número de hotéis deve chegar a 21 em 2022 e 45 em 2025, com aberturas em novos países como Luxemburgo, Bahrein, Romênia, Itália, Líbano, Senegal, Chili ou Colômbia. Alem da França, os Estados Unidos e o Brasil são dois mercados chaves para o grupo se consolidar antes de atacar os países da Ásia. Esta estratégia de crescimento combina com as ambições da Accor que subiu em 2018 a participação de 35% para 49% e firmou com Trigano um acordo que lhe dará em 2020 o controle de 70% da Mama Shelter.

Serge, Jeremie e Benjamin , a terceira e a quarta geração dos Trigano

Mesmo se a Accor deixar aos Trigano – Serge como Presidente, Jérémie como Diretor Geral e Benjamin como Diretor artístico – toda liberdade para administrar o grupo, o novo controle acionista vai levar a mudanças na liderança. Com 73 anos, Trigano é convencido que o sucesso da Mama Shelter está garantindo – inclusive nos Estados Unidos, um sonho que ele carregou desde os tempos do Club Med- , e já pensa em outros investimentos. Com a venda das suas ações, ele deve continuar a tradição familiar e levar adiante outros projetos nas áreas da hotelaria e do turismo. Sem a mínima vontade de se aposentar, depois do lifestyle econômico a francesa para os “millenials”, estaria trabalhando num novo conceito de resorts de luxo, sendo o primeiro projeto em Portugal.

Jean-Philippe Pérol