Amsterdão insistindo em apostar na era do “melhor turismo”

Amsterdão querendo virar a pagina do overturismo

Amsterdão está mostrando uma impressionante criatividade e uma notável persistência para encontrar meios de substituir o “mais turismo” pelo “melhor turismo”. Depois das iniciativas do governo dos Países Baixos cancelando as verbas de promoção turística dos lugares mais visitados, é agora a vez da prefeita Femke Halsema de tentar acabar com duas das mais icônicas atrações da cidade junto aos jovens vindos da Europa e até das Américas. Seguindo o exemplo de Haia que já adotou medidas similares, a prefeita quer proibir o acesso de estrangeiros aos famosos coffee shops, esses bares aonde é possível, desde 1976, comprar e consumir maconha de forma perfeitamente legal. É também estudada uma limitação dos acessos ao famoso distrito da Luz Vermelha e as suas sex-shops que foram muito tempo – e as vezes ainda são- um dos (discutíveis) cartões postais da cidade.

Os Coffee shops são a primeira atração da cidade

Preocupada com as possíveis consequências sobre a economia da cidade que depende em grande parte dos seus 17 milhões de visitantes,  a prefeita encomendou a seu departamento de estudos, informação e estatísticas uma pesquisa de impacto cujos resultados acabaram de ser publicados. A pesquisa mostra que uma mudança na legislação dos coffee shops tiraria o ânimo de 34% dos visitantes e que 11% não voltariam nunca mais. Para os ingleses, que são mais de um milhão a visitar a cidade, o impacto seria ainda maior, 42% deles diminuiriam suas visitas e 12% não voltariam mais. A prefeita deve também ter ficada surpresa de ler que 60% dos turistas que declaram voltar em caso de proibição  responderam que, assim mesmo, continuarão a consumir drogas na cidade, se for necessário mandando amigos holandeses fazer suas compras nos coffee shops. …

O bairro da Luz Vermelha vai ser vetado para grupos organizados

A pesquisa destacou que a liberdade de fumar drogas doces era a motivação principal de  22% dos visitantes internacionais – e mesmo de 33% dos britânicos-, seguindo das vitrinas de sex-shops e na frente dos passeios de bicicletas. Mas, convencida da necessidade de lutar contra o overturismo que esta asfixiando o centro historico da cidade, a prefeita manteve sua estratégia e já tomou as primeiras medidas. A partir do próximo mês de Abril, os grupos organizados estão assim proibidos de visitar o distrito da Luz Vermelha, uma medida que deve, segundo a prefeitura, “não somente reduzir os fluxos turísticos mas ainda proteger os trabalhadores do sexo das humilhações ou faltas de respeito impostas pelos visitantes”.  Na mesma linha, as visitas das ruas onde existam vitrinas expondo prostitutas serão vetadas aos grupos, e outras áreas necessitarão autorizações especiais.

A prefeita quer mesmo acabar com o overturismo na cidade

Alem dessas restrições impostas aos visitantes “sexo e drogas”, Amsterdão está também estudando outras medidas para lutar contre o overturismo. Uma taxa de três euros por pessoa e por dia vai ser cobrada nos hotéis e alojamentos. Indo mais longe ainda, a prefeita pediu  que seja estudado o impacto dos voos low costs sobre a economia local e o bem estar dos moradores, querendo reavaliar os apoios institucionais dados a essas companhias aéreas,  deixando claro que a escolha agora será mesmo pelo “melhor turismo”.

Na Holanda, o melhor turismo passa pelos Países Baixos

Os canais de Utrecht, uma alternativa ganhadora

Se a Holanda é chamada desta forma nas mídias internacionais, e as vezes na própria comunicação, o seu nome oficial sempre foi Países Baixos. Desde 1579 – quando se revoltaram contra o então domínio espanhol-, as Províncias Unidas eram sete. Passaram hoje a ser doze, mas a Holanda continua sendo somente uma delas, mesmo se a mais importante pela potência da sua economia e a predominância das suas três cidades, Amsterdã, Roterdã e Haia. Até agora tolerante com essa dualidade de nomes, o governo decidiu que a partir do primeiro de janeiro de 2020, os documentos oficiais dos ministérios, das universidades, das embaixadas e das empresas públicas  terão obrigação de utilizar exclusivamente o nome Países Baixos. Um novo logotipo, combinando as iniciais NL com a tulipa cor de laranja  já simboliza a mudança.

O antigo e o novo logotípo do turismo dos Paises Baixos

A medida vai ter muitas consequências, algumas das quais ainda não resolvidas, especialmente na área esportiva que vai ter como prioridade definir o nome da equipe nacional de futebol que vai estrear na Copa Euro 2020 no próximo mês de junho. Mas a clara intenção do governo com essa mudança de nome é de valorizar o interior, especialmente quando se trata de turismo. No setor, a primeira mudança será de mudar (ou não?) o nome do site oficial do turismo “holland.com”. Preocupado com  o overturismo em Amsterdã – a cidade de um milhão de habitantes recebe hoje 17 milhões de turistas- e com as projeções de crescimento do turismo internacional no país que passaria de 19 a 29 milhões nos próximos dez anos, os Países Baixos, que já pararam de promover seu turismo no Exterior, querem mudar completamente a sua estratégia no setor.

Amsterdão não aceita mais o overturismo

A cidade de Amsterdã já tinha tomado varias medidas contra o overturismo, começando com uma regulamentação drástica (mas pouco eficiente) das atividades de AirBnb, reforçou as restrições. Foi assim decidida a redução dos transportes coletivos para os turistas como os barcos táxis, os segways ou as carruagens. As excursões de barco – os “bateaux-mouches”- não poderão mais parar no centro da cidade, os barcos hotéis não serão mais autorizados, e os navios de cruzeiro já foram avisados que não serão mais bem vindos. Ao mesmo tempo, antecipando a notoriedade crescente do destino, o Netherlands Board for Tourism & Conventions (NBTC) anunciou uma nova politica de segmentação dos mercados para espalhar os fluxos turísticos e ainda melhorar os impactos sobre a economia nacional.

Maastricht seduziu os exigentes redatores da Lonely P;anet

O NBTC deveria assim fechar seus escritórios da Itália, da Espanha e do Japão, ampliar suas ações na China e reforçar suas campanhas na Alemanha, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Bélgica e na França. A prioridade será de atrair viajantes experientes,  já conhecendo a Holanda, querendo descobrir os Países Baixos além de Amsterdão, em cidades históricas como Maastricht, Groningen ou Arnhem, e valorizando os produtos artesanais de todas as regiões do pais, sejam tulipas, queijos, tamancos, porcelanas ou obras artísticas contemporâneas. Com US$ 10 milhões de verbas do governo, essa nova e corajosa política de “melhor turismo”, combinando apoio à economia local, luta contra o overturismo e “upgrade” do destino, deve ajudar os Países Baixos a melhorar ainda mais seu ranking dentro do turismo mundial.

Jean-Philippe Pérol

Chegou a hora do “demarketing”?

O caminho Inca que leva somente 500 pax por dia para Machu Picchu

Mais de 1,4 bilhões de turistas viajaram pelo mundo em 2018, e, segundo a Oraganização Mundial do Turismo, serão 1,8 bilhão em 2030. Um crescimento que apavora muitos destinos, seja porque não possuíam as infraestruturas necessárias, seja porque os moradores já acham viver uma situação de overturismo. Para alguns especialistas, chegou a hora do “demarketing”, esse conceito inventado em 1971 por Philip Kotler e Sidney Levy que afirmavam que as superabundâncias podem ser tão problemáticas quanto as penúrias. Esses dois pesquisadores definiram então o demarketing com uma especialidade do marketing visando a desanimar os clientes – ou alguns segmentos- de consumir temporariamente ou definitivamente um produto ou um serviço. Já muito utilizado em setores como o cigarro, o álcool, ou o jogo, a demarketing chegou ao turismo.

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As famosas letras, agora deslocadas, do painel I am-sterdam

As estratégias de de-crescimento do demarketing seguem as mesmas receitas que o marketing tradicional e os “4P” (promoção, praça, produto e preço).  Num território que não consegue mais administrar os fluxos de visitantes e cujos atrativos estão saturados, a primeira sugestão  é de reduzir ou até de parar qualquer tipo de promoção. Isso foi experimento há pouco pela Holanda cujo órgão oficial de turismo decidiu que concentraria seus esforços na gestão dos destinos e não na promoção. Só serão agora promovidas em nível internacional as regiões desconhecidas, uma decisão que vem depois de outras como a promoção exclusiva da baixa estação, a relocalização das famosas letras « I am-sterdam » e a sensibilização dos turistas aos comportamentos inconvenientes.

Source de la vidéo : YouTube

O demarketing pode também ajudar algumas praças ou alguns lugares que sofrem de overturismo e onde o meio ambiente é ameaçado. Foi assim que o famoso Vale de Jackson Hole, no Wyoming, pede aos visitantes de não indicar as coordenadas exatas das suas fotos mais atraentes e de utilizar uma localização genérica. Nas Filipinas, o sítio de Puerto Princesa, tombado pela UNESCO, retirou os lugares mais frágeis dos roteiros e dos mapas produzidos pelo Ministério do turismo.  Uma outra estratégia mais conhecida de demarketing é a imposição de cotas de visitantes, uma medida já existindo há anos nas trilhas do caminho inca em Machu Picchu, hoje utilizada por vários destinos como o Parque nacional da Península Bruce, no Ontário ( Canada). E a cobrança ou o aumento de tarifas, tradicionalmente exclusivo dos lugares privados, está hoje cada vez mais comum em áreas públicas.

Com menos entradas de turistas, a França reforça sua escolha pelo “melhor turismo”

O demarketing pode certamente ser uma opção para gerenciar os fluxos nem sempre controlados. É, porém, uma solução de desespero, e as receitas perdidas podem faltar a economia local. Antes de chegar a essa solução radical, uma boa planificação dos fluxos de visitantes pode ser suficiente para antecipar as consequências do sucesso de um destino. Foi a estratégia escolhida na França há duas décadas, quando a então Maison de la France lembrava que o “melhor turismo” deveria  prevalecer sobre o “mais turismo”. A prioridade  não era de aumentar os fluxos, mas de melhorar as receitas com visitantes gastando mais, vindo durante as baixas temporadas, visitando lugares esquecidos pelo turismo de massa e escolhendo atividades com forte valor agregado.  Hoje, em tempo de overturismo, o “melhor turismo” pode ainda ser a opção antes da difícil escolha da hora do demarketing.

Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Anne-Julie Dubois na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

A KLM festejando 100 anos com muito para comemorar

 

A KLM fez questão de festejar os seus 100 anos

A KLM festejou seu centenário, querendo mostrar um pouco do seu passado e muito do seu futuro, analisando o desenvolvimento da empresa ao longo das décadas e o papel que desempenhou na aviação civil internacional antes e depois da associação com a Air France. Uma associação que não quer apagar as diferenças. Assim, enquanto a Air France, com a extraordinária herança francesa e latino americana da Latecoere e da Aeropostale, começou sua história em 1918, Koninklijke Luchtvaart Maatschappij revindica com justo orgulho de ser a mais velha companhia aérea que não trocou de nome. Foi em 1919 que oito investidores criaram a KLM e pediram ao jovem aviador Albert Plesman ser o primeiro diretor da empresa. Um ano depois, o 17 de Maio 1920, o piloto  Jerry Shaw realizava, num De Havilland DH-16, o primeiro voo da empresa entre os aeroportos de Londres e de Amsterdã.

“O centésimo aniversário é uma homenagem aos pioneiros da aviação da KLM, que literalmente colocaram a aviação civil no mapa em todo o mundo. Podemos nos orgulhar de nossa longa lista de conquistas”, declarou Pieter Elbers, presidente e CEO, que lembrou o nem sempre conhecido espirito pioneiro da sua empresa. KLM foi antes da guerra a primeira empresa a ter tripulação comercial especializada, foi em novembro 1945 a primeira a abrir as rotas do Extremo Oriente, e foi, em maio 1946, a primeira a abrir a rota entre a Europa Ocidental e a América do Norte. Nos anos 1970 foi a primeira empresa a participar da aventura do B747-200 que revolucionou o transporte (e o turismo) internacional e  fez disparar o crescimento do transporte de passageiros e de carga.

Dois aviões da Air France e da KLM em Schiphol no dia da OPA

Os anos 1980 e 1990 foram de muitas mudanças, com os choques do desenvolvimento do hub de Schiphol e do acordo com a companhia americana Northwest. O tráfego de passageiros dobrou de 1980 a 1990, mas a rentabilidade não seguiu acompanhando, a KLM tendo pouco viajantes para Amsterdã, e sendo mais procurada pelas passagens baratas  oferecidas aos mochileiros e aos religiosos (no Brasil então com a Raptim). Quando em abril 2004, a Air France lançou sua amigável oferta de compra, a empresa holandesa apresentava um pesado prejuízo de EUR 416 milhões para um volume de vendas de EUR 6,48 bilhões, enquanto a companhia nacional francesa se orgulhava de uma imagem e uma notoriedade excepcionais, com um lucro de EUR 120 milhões para EUR 12,68 bilhões de vendas.

O pessoal se orgulhou da volta por cima

A KLM aproveitou as oportunidades da generosa aliança com a Air France para se reerguer. Em 2019, destacando uma margem bruta de 9,8% contra somente 1,7% da companhia francesa, os resultados se inverteram, e a empresa holandesa se destacou também pela qualidade dos seus serviços e sua notoriedade. O governo holandês, com a cumplicidade dos dirigentes e dos pilotos da KLM, aumentou então a sua participação no capital da Air France-KLM sem avisar o governo francês. A paridade entre os dois países (cada um com 14% das ações do grupo) é a melhor demonstração do extraordinário caminho percorrido pela KLM. Na festa do centenário, o CEO Peter Elbers podia mesmo pedir  aos seus funcionários de ser “enérgicos e confiantes, prontos para enfrentar com otimismo os desafios da sustentabilidade e da inovação do novo século”.

Nos 100 anos da KLM, a tradicional casa Delftware é um palácio. Uma mensagem?

Desde a década de 1950, a KLM apresenta em torno do seu aniversário  casas em miniatura de porcelana Delftware, especialmente projetadas para os 800.000 passageiros da World Business Class em voos intercontinentais, com novas miniaturas adicionadas anualmente. De acordo com a tradição,  a KLM marcou seu centésimo aniversário com a apresentação de uma  nova casa de Delftware, aguardada ansiosamente por colecionadores fiéis em todo o mundo. A centésima miniatura  é uma réplica do Palácio Huis ten Bosch em Haia, o palácio do rei Willem-Alexander e sua família, cujo primeiro exemplar foi presenteada ao Ministro das Finanças dos Países Baixos  Wopke Hoekstra. Presente nas comemorações, Ben Smith, presidente do grupo Air France KLM, lembrou que era normal que cada governo protegesse a sua companhia de bandeira.

Esse artigo foi traduzido e inspirado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line La Quotidienne

 

 

 

Turismo de aventura no coração das grandes cidades

Stand Up Paddle nos canais de Amsterdão

Se o turismo de aventura era exclusivo do campo, da serra ou da praia, ele está agora invadido os centros das grandes cidades, dando aos moradores e aos visitantes a possibilidade de descobrir esses ambientes urbanos de forma diferente. Essas experiências insólitas podem começar logo na hospedagem com as opções de camping urbano, assim por exemplo em Paris no Camping des Grands Voisins ou no Camping de Paris.  Com as grandes cidades interessadas em oferecer novas sensações, algumas atividades já são oferecidas há anos, como é o caso do jogging – hotéis e ofícios de turismo oferecendo itinerários e as vezes guias, por exemplo em Québec e em Montréal, ou da bicicleta – também com tours ou sugestões de circuitos, os hotéis Westin tendo sido pioneiros.

Pescador em Stockholm

Mas recentes são os esforços dessas grandes cidades para devolver aos turistas e aos habitantes as beiras de rio, construindo parques e favorecendo atividades náuticas. Hoje, é possível andar de caiaque em Nova Iorque, saindo do Brooklyn Bridge Park, ou em Minneapolis com um aluguel de caiaque a disposição no Rio Mississipi. O sucesso do Stand Up Paddle se verifica nos rios urbanos ou nos canais de Amsterdão, de Veneza, de San Antonio ou de Montréal. Os pescadores são bem-vindos  no centro de Stockholm, ou nos portos de Montreal, de Quebec ou de Marselha. Em Chicago, é possível mergulhar no lago Michigan onde há vários navios que naufragaram durante o século XIX, isso abre muitas opções de mergulho na frente da cidade.

Subir na ponte do porto de Sydney é uma grande aventura urbana

A escalada também virou um esporte urbano. Em Stockholm, é possível viver uma experiência nos telhados da cidade histórica num tour acompanhado de um guia experimentado . Em Sydney, os visitantes podem fazer uma excursão na famosa ponte Sydney Harbour, com um panorama excepcional sobre o porto e a Ópera. Em Quebec, a operadora local Décalade, oferece descidas de paredes de prédios urbanos, e em Marselha Urban Elements  virou uma festa anual das atividades de aventuras urbanas – com destaques para escalada artificial e slackline. E depois do sucesso  da Slotzilla Freemont Street experience de Las Vegas, tirolesas permanentes ou temporárias estão sendo exploradas em Montreal, Panamá, Kiev ou Londres.

O sucesso do Parkour chega no turismo

Na procura de sensações originais, o sucesso do Parkour abriu  novas opções de turismo de aventura para moradores e visitantes de cidades grandes ou pequenas. É possível seguir aulas desse novo esporte em Paris, Montreal, Nova Iorque ou São Paulo. Na França várias cidades menores oferecem circuitos com guias especializados, “traceurs”ou “traceuses”. Perto de Montpellier, em Clermont-L’Hérault, um Parkour Artistik ajuda a descobrir o patrimônio cultural seguindo uma coreografia combinando com a arquitetura do local. Perto de Lille, Roubaix seguiu o mesmo caminho com um circuito Parkour59. O sucesso do turismo de aventura urbano é tão rápido que novas ofertas estão pipocando no mundo inteiro, podendo hoje fazer até surfe em Montreal ou aproveitar a tradição de “Downhill” do Zoobomb  em Portland.

Esse artigo foi  traduzido e adaptado de um artigo original de Claudine Barry na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

Caiaque em Nova Iorque

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