Turismo ou tradições, as Maldivas numa encruzilhada

Desde 2008, o fim da ditadura favoreceu o crescimento dos islamistas

Se foram abertas ao turismo somente nos anos setenta, as Maldivas são consideradas hoje um paraíso turístico, , que atraiam pelas suas aguas turquesas, seus 26 atois de coral esticados de Ihavandhippolhu ao norte até Addu ao sul, seus hotéis de palafitas construídos em ilhas exclusivas, e seus sonhos de tranquilidade. Pequeno pais de 600.000 habitantes espalhados em 1100 ilhas (mas somente 20% tem populações permanentes), compete com Tahiti ou as Seychelles com grande destino de namoro e de lua de mel. E se o turismo já represente 40% do PIB, 60% das receitas internacionais e 90% do orçamento nacional,  o governo tem numerosos projetos de desenvolvimento, a maioria focada em estabelecimentos de luxo respeitosos do meio ambiente,  e planeja passar nos próximos 10 anos dos 1,5 milhões de visitantes a mais de 7,5 milhões.

O Raffles Meradhoo, uma das joias hoteleiras das Maldivas

Principal – e quase única- riqueza das Maldivas, o turismo é porem visto com um certo receio pelos moradores. Saindo de uma longa ditadura, o pais viveu o paradoxo de eleições democráticas que favorecerem os religiosos e levaram o congresso a incorporar em abril de 2014 a lei islâmica a constituição. Fora das ilhas-hoteis onde reina uma incontestável tolerância, o álcool é proibido, os corpos têm que ser cobertos, as mulheres devem usar véus, os comportamentos “indecentes” são punidos com chicotes, a homosexualidade é um crime, e a pena de morte pode ser aplicada a partir de 7 anos de idade.  Por revoltante que seja,  e mesmo se algumas personalidades chegaram a pedir um boicote do destino, a sharia não impediu o turismo de continuar a crescer, os turistas aproveitando a liberdade de áreas reservadas e tendo muito pouco contatos com os moradores.

A imponente mesquita do Rei Salmane em Malé

A eleição, em novembro 2018, de um presidente moderado que já declarou querer abolir as leis repressivas, restabelecer os direitos humanos  e liberalizar a sociedade, foi um passo importante para tranquilizar profissionais e turistas, mas a pressão dos islamistas continua. Nas mesquitas recente construídas pela Arabia Saudita, os imãs wahabistas pedem a permanência das leis de Deus, e  em Hulhumale, nos arredores da capital Malé, islamistas radicais apunhalaram dois chineses e um australiano. A reivindicação do atentado pelo Estado Islâmico, chamando os maldivenses a se levantar contre um governo “infiel”, preocupou as autoridades que sabem que 160 combatentes jihadistas ainda devem retornar do Iraq e da Síria e que outras ataques podem acontecer.

Um incidente mostrou essa semana que os conflitos entre turismo e tradições não são limitadas a alguns extremistas. A cidadã britânica  Cecilia Jastrzembska, famosa influenciadora de televisão, foi brutalmente levada para uma delegacia onde ficou presa  por ter andado de bikini numa estrada enquanto voltava da praia. A policia alegou que teria passado na frente de uma mesquita e de uma escola, e que o porte de bikini era proibido nessa área. Se foi liberada depois de duas horas, se o superintendente de policia das Maldivas reconheceu o erro, e se o presidente do Congresso pediu desculpe e convidou Cecilia a voltar, o video espalhado pelas mídias sociais mostrou que o pais ainda tinha muito trabalhar pela frente para harmonizar suas ambições turísticas e suas tradições.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line La Quotidienne

A Accor se firmando no luxo com os míticos Hotéis Raffles

Royal Monceau Rafes em Paris

Royal Monceau Raffles em Paris

Anunciando a compra da Fairmont Raffles Hotels International, Stéphane Bazin, CEO da Accor, confirmou não somente uma aquisição estimada em 2,9 bilhões de dólares, a maior da sua história, mas a entrada do grupo francês no seleto clube dos 5 grandes da hotelaria de luxo. Sebastien Bazin anunciando a compra da FairmontMesmo ficando longe do líder do setor, o Americano Marriott-Starwood, que junta 800.000 quartos, Accor pode contar agora com 100.000 apartamentos divididos em mais de 500 hotéis de luxo. Com três novas marcas, o grupo adquiriu também vários estabelecimentos de prestigio, como o “Palace” Royal Monceau em Paris, o Savoy em Londres ou o Raffles em Singapora, esse mítico estabelecimento aberto em 1887, orgulho do Império britânico, cujos hospedes refinados e fleumáticos chegaram em 1942 a exigir dos  soldados japoneses que invadiram o hotel  de deixar-los acabar o baile antes de ser presos.

O mítico Raffles Hotel de Singapura

O mítico Raffles Hotel de Singapura

Essa operação foi financiada em parte com uma entrada no capital do Qatar (Qatar Investment Authority) e da Arábia Saudita (Kingdom Holding Compagny) que virarão, se as autoridades anti-trust autorizaram, os dois maiores acionistas da Accor. O grupo vai assim reforçar sua posição no setor da hotelaria de luxo, aumentando seus lucros e permitindo uma projeção de 650 hotéis até 2020. O Bar do RafflesA compra da Fairmont vai ajudar a Accor a reequilibrar geograficamente suas atividades, hoje concentrada a 65% na Europa, para a América do Norte e a Ásia onde a Raffles, a Fairmont et a Swissôtel são mais presentes. Segundo o próprio Bazin, essa estratégia focada no luxo é também uma resposta ao crescimento da AirBnb que preocupa todas as grandes empresas hoteleiras, obrigando as marcas mais econômicas a se reposicionar,  mas ainda poupando os segmentos de prestigio menos sensíveis as guerras de tarifas ou aos charmes da Internet.

O Sofitel Copacabana

O Sofitel Copacabana

A aquisição das três marcas e dos 115 hoteis da Fairmont Raffles Hotels International deve então ser um sucesso decisivo na longa caminhada da Accor para se firmar no lucrativo segmento do luxo – com suas diárias acima de 500 dolares e suas margens de rentabilidade superiores a 5%. O grupo superou o fracasso de 1994, quando o então Presidente da Air France se recusou a vender a seus compatriotas os 60 hoteis da sua filial Le Meridien (Incluindo na época o Meridien Copacabana e o Meridien Salvador).Folheto do Le Meridien Copacabana A virada  começou em 2007, quando Accor firmou a escolha de uma cadeia de luxo excluindo 80 dos então 120 Sofitel. A nova estratégia apostou em hotéis definidos pela arte de viver a francesa, seu design, sua gastronomia e sua cultura, mas aproveitando também todas as características das suas localizações. E se na América Latina, o grupo jà conseguiu se posicionar com  hoteis prestigiosos em Cartagena, Buenos Aires, Montevideu, Rio ou Guarujà, a chegada da Raffles abrirá talvez novas perspectivas em São Paulo.

Jean-Philippe Pérol

O SPA "My blend" da Clarins no Royal Monceau

O SPA “My blend” da Clarins no Royal Monceau