Napoleão III (e Eugênia de Montijo) patrocinando mais um Palace francês…

Napoleão III e Eugênia de Montijo

Pelo número de estações turísticas inauguradas e de hotéis construídos durante o seu reinado, é de se perguntar se Napoleão III não foi de certa forma o pai do turismo francês. Foi por espírito pioneiro, por vontade de desenvolvimento, por favores concedidos a seus companheiros, ou por perdões a pedir à sua ciumenta esposa Eugênia de Montijo, que ele mandou criar ou ampliar estações como Biarritz, Deauville, Cabourg, Houlgate, Arcachon ou Le Touquet. Foi também para ela, madrinha do local que ela tinha descoberto durante uma viagem de Biarritz para sua Espanha natal, que ele decretou a abertura da estação termal de Eugénie-les-Bains. Recebendo hoje da Atout France a invejada distinção de Palace, o badaladíssimo hotel da cidade, os Prés d’Eugénie, se junta aos 24 hotéis franceses que beneficiam desse prestígio pelos próximos 5 anos.

Ambiance champêtre dans le parc. © Les Prés d'Eugénie.

O parque dos Prés d’Eugénie

Depois de um longo período de esquecimento, uma nova saga dos Prés d’Eugénie começou em 1966, quando a atual proprietária, Christine Guerard vem ajudar o seu pai a renovar o hotel e a se juntar aos Relais & Châteaux. Casada em 1972 com o brilhante chef Michel Guerard, ela conseguiu convencer o seu marido a deixar o já famoso bistrô estrelado que ele tinha aberto em Asnières, perto de Paris, e a experimentar as suas novas e revolucionárias ideias no restaurante do hotel. Chegando em Eugenie-les-Bains, e vendo os seus clientes tentarem seguir os regimes para emagrecer, ele inventou a “Grande Cuisine Minceur”, que logo conseguiu uma fama internacional. Recebendo uma primeira estrela Michelin em 1975, a segunda em 1976 e a terceira em 1977!

Michel Guérard dirige les cuisines. Depuis 1977, la Table des Prés d'Eugénie affiche 3 Macarons dans le guide Michelin. © C Clanet

Depois de muitas ampliações, os Prés d’ Eugénie são hoje um verdadeiro conjunto da excelência à francesa. Depois da restauração de um antigo convento do século XVIII em 1989, da Auberge de La Ferme aux Grives em 1993, da Ferme Thermale en 1996, dos Salões e das suítes da Imperatriz em 2009, do Instituto Michel Guerard e do Café Culinaire Mère Poule & Cie em 2013, os Prés d’Eugénie reúnem hoje uma equipe de 180 pessoas que gerenciam 5 prédios, 45 quartos e suítes, 8 jardins e parques, 3 restaurantes, um spa e um vinhedo, um total de 8 hectares de luxo e de elegância. E para quem não quer dispensar uma praia, Michel abriu no litoral dos Landes, a 100 quilômetros do hotel, um “Beach House”, onde os mais aventureiros encontrarão os mesmos valores.

O Beach House do Michel Guerard em Huchet

Às vezes desastroso e outras visionário, Napoleão III foi, sem dúvida, inspirado quando favoreceu o lançamento de Eugénie les Bains, sendo assim, um distante padrinho do Prés d’Eugénie, assim como ele havia sido o padrinho de outro hotel que viraria Palace, o hotel do Palais em Biarritz. Tendo incentivado a construção de numerosos hotéis, inclusive o Grand Hotel de Paris, onde um outro Imperador, Dom Pedro II, gostava de se hospedar, ele também ajudou na divulgação do turismo de praia e do termalismo, convidando políticos de toda Europa nas estações que ele frequentava. Foi assim a entrevista decisiva para o apoio da França, e a unidade italiana deve tudo à pequena cidade termal de Plombières, onde o Cavour conseguiu do Imperador o apoio militar necessário para liberar a Itália. Se esse papel do Napoleão III na promoção do turismo é, por vezes, esquecido, ele é sempre lembrado em Eugénie-les-Bains, nas comemorações da pequena cidade, na elegância ou no refinamento do Palace do Michel Guerard.
Jean-Philippe Pérol

A suíte imperial, homenageando Eugênia

A Historia do Brasil nas ruas de Paris

Opera Garnier em Paris

Opera Garnier, na Praça da Opera em Paris

Na terça-feira, 22 de maio de 1877, um visitante inesperado tocou a campainha do apartamento de Victor Hugo, 21 rua de Clichy em Paris. Dom Pedro IIQuando o então mais famoso escritor da França abriu a porta,  a surpresa foi imensa a ficar frente a frente com o Imperador do Brasil, Dom Pedro II. Mesmo sendo um republicano convicto,  Victor Hugo gostou tanto do encontro que passou alguns dias depois no Grand Hotel, na Praça da Ópera, e deixou   para o monarca uma foto com essa comovente homenagem : “Para aquele que tem Marco Aurélio como antepassado”. Essas anedotas, junto a muitas outras, estão no livro agradável e bem documentado de Maurício Torres Assunção, “A historia do Brasil nas ruas de Paris”. Nos 174 endereços listados,  o turista brasileiro vai encontrar novos motivos para gostar de Paris, bem como novos centros de interesses para definir  seus itinerários.

O bar do Jardin des Plantes

O bar do Jardin des Plantes

Se Dom Pedro I só ficou uma vez em Paris, depois da sua abdicação, convidado de palácio em palácio  pelo Rei Louis Philippe – mas preferindo se hospedar num palacete na rua de Courcelles, Dom Pedro II era apaixonado pela cidade. Marcou com a sua presencia todos os monumentos parisienses, especialmente nos bairros localizados entre o Louvre, a Opera e os Champs Elysées. Atrás de novidades técnicas ou científicas,  frequentou o Institut De France, o Jardin des Plantes e o Jardin d’Acclimatation, visitou os esgotos e financiou o Institut Pasteur. Em Paris, Amor, Ordem e ProgressoPara o viajante, a mais emocionante lembrança será talvez de caminhar pelo Parc Monceau onde ele gostava de andar, doente e sozinho, nos últimos dias do seu triste exílio. Por ironia da historia, os grandes inimigos do Império, os positivistas, estão também enraizados em Paris onde o movimento de “Amor, Ordem e Progresso” nasceu. No número 5 da rua Cayenne, no Marais, fica a Capela da Humanidade num prédio onde teria morada Clotide de Vaux de Ficquelmont, a musa do Auguste Comte!

O primeiro voo do Numero 14 bis, 13 de Setembro 1906

Santos Dumont (liderando, a direita) e o 14 bis

O mais parisiense dos brasileiros foi sem dúvida Santos Dumont, o “pequeno Santôs” como era carinhosamente chamado.La Grande Cascade Nos 22 anos que passou em Paris, são 39 lugares selecionados no livro de Maurício Torres, desde o Jardin d’Acclimation ou o Campo de Jogo de Bagatelle de onde saíram as suas aeronaves, até o Café de la Paix, a Grande Cascade ou o Maxim’s onde ele gostava jantar. Numerosas placas comemoram suas façanhas, o seu primeiro recorde histórico (em Bagatelle), o segundo (em Saint Cloud), o seu impressionante acidente (na avenida Presidente Kennedy) ou seu segundo domicilio nos Campos Elíseos 114, na frente do qual  pousava com seu pequeno balão “Baladeuse” ou, depois, com seu aviãozinho “Demoiselle”.

Sede do Partido Comunista Francês, projeto do Niemeyer

O pais que quase adotou a Marseillaise como hino oficial ainda marcou muitos lugares em Paris, nos passos de Villa-Lobos (Restaurante Le Boeuf sur le Toit, Salle Pleyel ou Maison de l’Amérique Latine), do Lucio Costa ( Maison du Brésil ou sede da UNESCO), Villa Lobos em Parisou do Oscar Niemeyer que afirmou suas ligações políticas desenhando a sede do Partido Comunista francês bem como a (antiga) sede do diário l’Humanité em Saint-Denis. Com fatos inéditos ou poucos conhecidos, o livro do Maurício revela com muito humor essas relações excepcionais entre Paris e alguns dos mais famosos Brasileiros. Para o visitante, os seus legados arquitecturais, científicos, sociais ou culturais, celebrados em placas, monumentos e nomes de ruas, podem assim fazer de uma estadia na Cidade Luz uma viagem pela historia do Brasil.

Jean-Philippe Pérol

 

A História do Brasil nas Ruas de Paris, de Maurício Torres Assunção. Editora Casa da Palavra.

O Parque Monceau

O Parque Monceau, onde passeava o Dom Pedro exilado

2025: a França voltando com o sonho das Exposições Universais!

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Sonhando com os 2 bilhões de turistas anunciados pela O.M.T. para daqui a 15 anos, o ministro francês Laurent Fabius acredita que a França só poderá manter a sua posição de primeiro destino turístico mundial se souber se organizar. Além de melhorar o atendimento, adaptar os grandes aeroportos e as principais estações de trens às exigências do viajante do século 21, ou mobilizar maiores recursos para a promoção, um dos grandes desafios será de atrair alguns dos grandes eventos internacionais previstos nos próximos anos. téléchargementDois encontros esportivos, a Eurocopa em 2016 e a Rydercopa (o encontro máximo do golfe) em 2018, já serão organizados na França. Mas lembrando o sucesso impressionante das comemorações do Bicentenário de 1789, ficou claro que o impulso duma grande manifestação cultural seria também considerável, ou até maior, tanto para renovar a imagem do pais como para ampliar os fluxos de turistas.

Uma das grandes oportunidades pela frente seria a Exposição Universal de 2025. A França está preparando a sua candidatura para esse grande evento que Paris já sediou seis vezes, mas sendo a ultima em 1900. Um relatório parlamentar que acabou de ser publicado por dois deputados, Fromantin et Leroux, lembrou que as exposições organizadas no século 19 foram ocasiões únicas tanto para a cultura da França como para suas indústrias e seu turismo.

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O projeto levanta um entusiasmo sincero de todos os atores até agora envolvidos, seja empresários ou políticos, que acreditam no seu impacto tanto na economia como na imagem do país. Para depositar um dossiê completo até o final de 2016 – a decisão do Bureau Internacional das Exposições é prevista no mais tardar em 2019 – , os parlamentares insistiram particularmente em dois pontos. France_Pavilion_of_Expo_2010O primeiro é a mobilização de todos, desde os moradores, que terão um papel chave especialmente no atendimento dos turistas, até o próprio Presidente da Republica que deverá convencer o Buró da fiabilidade dos compromissos de investimentos, especialmente nas grandes infraestruturas de transportes como o Grand Paris Express ou as novas ligações diretas para os aeroportos. A segunda ideia seria de renovar com criatividade o modelo tradicional das exposições tal que foi visto ainda recentemente em Xangai. Em vez dum único local onde seriam agrupados todos os pavilhões dos países participantes, a Expo France 2025 seria distribuída em círculos concêntricos: Paris intramuros, o Grande Paris e as cidades da periferia, utilizando o patrimônio existente, e oferecendo para os expositores espaços perto de lugares ou monumentos famosos.$T2eC16Z,!y4FI,d9-C9OBSc6hiDEWQ~~60_35 O Brasil, que foi destaque nas exposições universais parisienses do século 19, em 1867, em 1878 com o próprio imperador Dom Pedro II, e em 1889 com um pavilhão que incluiu até um lago artificial com vitórias-régias , talvez poderá em 2025 voltar a ter seu pavilhão na frente da Torre Eiffel ?

Assim que já foi visto no Brasil durante a Copa, ou que está sendo confirmado no Rio na preparação dos J.O., um projeto desse porte é também uma ocasião para reformar e aprimorar todos os serviços turísticos do pais. L-idee-d-une-exposition-universelle-a-Paris-fait-son-chemin_article_popinO ministro encontrará na preparação de ExpoFrance 2025, e nos 50 milhões de visitantes esperados, motivos para ampliar a capacidade hoteleira de Paris, autorizar a abertura de mais lojas e outlets nos domingos, desenvolver o ensino de línguas estrangeiras ou lançar uma grande campanha de sensibilização dos franceses a importância de melhorar ainda mais o atendimento aos turistas. A Air France, a Accor, a LVMH, a Renault e muitas grandes empresas já estão apoiando o projeto, e os parisienses, em geral muito relutantes, parecem gostar da ideia.

Jean-Philippe Pérol