As ambições confirmadas da Espanha nos pódios do turismo mundial

A Plaza Mayor, coração turístico de Madrid

Dos três países que devem dividir em 2018 o pódio do turismo internacional, a Espanha foi a primeira a anunciar os seus resultados, um crescimento pequeno de 1,2 %  mas um novo recorde de 82,8 milhões de visitantes, provavelmente ainda atrás da França e numa briga apertada com os Estados Unidos pelo segundo lugar. O numero de excursionistas – visitantes sem pernoites, incluindo os cruzeiristas – também cresceu de 3,6%, chegando a  41,2 milhões. E com um gasto médio por pessoa de 1086 euros, as receitas estão se aproximando dos 90 bilhões de euros, recorde na Europa, somente superado a nível mundial pelas receitas do turismo norte americano. Talvez aproveitando as dificuldades politicas dos seus concorrentes francês e inglês, os resultados do mês de dezembro foram os mais espetaculares, com 9,7% de crescimento do numero de turistas.

Espanha faz parte de si, a campanha mundial de Turespaña

Os resultados por país de origem confirmam as previsões dos especialistas sobre a morosidade dos mercados da Europa, e o potencial dos BRICS. O Reino Unido se manteve na liderança com 18,5 milhões de turistas, mas em queda de 1,6%, uma queda observada também na Alemanha e nos países nórdicos. E com +0,7%, a França foi o único grande mercado de proximidade a ter um resultado positivo. Do lado dos mercados emergentes, a China cresceu de 3,9% – abaixo das expectativas das autoridades espanhóis, talvez por não ter conseguido resolver seus problemas de vistos, o México de 5,9% a Rússia de 6,3%, e a Índia de mais de 15%. O Brasil registrou um novo recorde, um impressionante crescimento de 19,1%. A surpresa mesmo foi porem as chegadas de turistas estadounidenses  que cresceram de mais de 12%, empurradas pela alta do dólar e  pela força crescente da comunidade hispânica naturalmente atraída pela Espanha.

A ministra Reyes Maroto apresentando os resultados do turismo 2018

Enquanto muitos países estão reduzindo as suas verbas ou até abandonando o marketing de destino, a ministra da industria, do comercio e do turismo, Reyes Maroto,  reafirmou que tinha um orçamento de 316 milhões de euros para não somente assegurar suas missões tradicionais mas ainda para reforçar algumas ações como a inovação tecnológica, a promoção internacional e os investimentos em novos modelos de destinos de turismo inteligente e sustentável. Verbas suplementares poderiam até ser mobilizadas se o impacto do Brexit se revelava muito negativo para o turismo inglês na Espanha. Lembrando que o turismo representava ao nível nacional 13% do Produto Interno Bruto, a ministra insistiu nas diferencias regionais que tem que ser consideradas para que o setor consegue continuar o seu papel no desenvolvimento dos territórios.

As Ilhas Canárias, onde o turismo internacional caiu 1,7% em 2018

As evoluções regionais  mostraram novas tendências do turismo na Espanha. Dos três destinos principais, as ilhas Canárias tiveram uma queda de 1,7%, as Baleares foram quase estáveis. O tradicional líder, a Catalunha,  parece porém ter recuperado nos últimos meses do ano o impacto negativo dos conflitos políticos e dos protestos dos moradores de Barcelona contra o overturismo. Mas foram nas outras comunidades que se encontraram os crescimentos mais significativos em 2018: +1,5%  na Andaluzia, +3,2% na Comunidade Valenciana, e um recorde de +6,3% no Grande Madrid que foi talvez o maior beneficiário do turismo vindo dos países emergentes. Para as autoridades e os profissionais espanhóis, umas boas noticias e a demonstração que suas anunciadas ambições de liderança do turismo europeu devem ser levadas a sério pelos seus concorrentes italiano e francês.

A Torre do Ouro na beira do Rio Guadalquivir em Sevilha

Politica vai mesmo impactar o turismo no Brasil?

A imprensa internacional não poupou o vencedor da eleição presidencial

Lendo as grandes mídias internacionais, do New York Times a El Pais ou do Haaretz ao Le Monde, uma onda de reprovação contra o resultado das últimas eleições presidenciais no Brasil estaria chacoalhando a imagem do nosso Brasil, ameaçando também as nossas exportações e mais ainda o nosso turismo. No Brasil, a UOL deu espaço a essas noticias, focando na França e num possível  boicote de potenciais turistas franceses decepcionados, frustrados ou amedrontados pelas temáticas de campanha do Jair Bolsonaro. Várias ligações ou post nas redes sociais de amigos ou parentes preocupados com minha situação pessoal – como viver agora num país onde o exercito já estava nas ruas (!) e onde as liberdades mais fundamentais eram desrespeitadas (!) – me mostraram que as informações, reais ou fake, tinham de ser consideradas: a chegada de turistas estrangeiros poderão mesmo ser prejudicada?

Segurança é um critério chave para escolher ou não um destino de viagem

Se o fato de ser estrangeiro obriga a não opinar sobre os assuntos políticos brasileiros e a respeitar as escolhas democráticas, várias observações podem ser feitas a respeito do impacto para o turismo. A primeira é de lembrar que as decisões dos turistas ao escolherem as suas viagens internacionais dependem também de fatores objetivos, sendo para o Brasil especialmente a segurança e  os custos do aéreo. Ainda é cedo para saber se o próximo governo conseguirá melhorar essa situação, mas parece que está extremamente preocupado em conseguir resultados, tanto em reduzir a criminalidade que pesa nas vendas do Rio de Janeiro e das capitais nordestinas, tanto nos preços dos vôos internacionais e domésticos que prejudicam o pais inteiro e mais ainda destinos turísticos mais remotos na Amazônia, no Centroeste ou no Sul.

Nos EEUU de Trump, o turismo já mostrou ser maior que a política

Refletir sobre politica e turismo é também olhar o impacto mútuo que já marcou outros destinos. É lembrar o sucesso do turismo internacional em países cujo cunhos democráticos já foram (com ou sem razão) discutidos, seja destinos lideres como a China, a Tailândia, a Turquia ou a Malásia, seja destinos tradicionais como Cuba, Marrocos, Egito ou Israel, seja destinos novos como Vietnã, Maldivas ou Irã. Mais interessantes é comparar as perspectivas brasileiras com as consequências sobre o turismo de votos populares na Inglaterra ou nos EE-UU. Na primeira, a decisão do Brexit em 2016 foi anunciada pela mídia européia como um desastre para o turismo local.  Os números não concordaram, mostrando 4,3% de crescimento em 2017 e 4,4% em 2018. Nos Estados Unidos, teve um impacto negativo da eleição do Trump – somente 0,7% de crescimento em 2017-, mas se devia também a outros fatores como as restrições de vistos impostos a vários países, e as previsões para 2018 já superam 6%.

A alegria brasileira nas campanhas da Embratur

Mesmo limitadas nas suas consequências efetivas, as  declarações de boicote das viagens para o Brasil não devem ser desprezadas, mas até levadas em consideração nas futuras campanhas de promoção internacionais que o setor espera do novo governo. Para sair do patamar limitado de 7 milhões de turistas – e chegar aos 10 ou até 15 milhões que suas riquezas naturais, culturais e humanas merecem, o Brasil deverá  não somente convencer que as preocupações de insegurança e de carestia já pertencem ao passado, mas também mostrar que ele continua sendo o pais da alegria e da liberdade de viver, o pais onde cada visitante, qual que sejam suas origines ou suas opções pessoais, é mesmo recebido com um carinho único!

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”  do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

“Vive la différence”, o Brexit favorecendo o turismo?

Os clichês de Londres mais procurados depois do Brexit

Os clichês britânicos mais procurados depois do Brexit

Se os políticos e os economistas do mundo inteiro foram muito negativos sobre as consequências do Brexit, os turistas internacionais parecem ter aprovado a decisão dos ingleses. Aproveitando  uma queda da libra de quase 10% – a moeda atingiu seu nível mais baixo dos últimos 30 anos-, as entradas de turistas subiram de 4,3% em julho. Se as chegadas da Europa ainda são fracas (em recuo de 1,8% mas caiam de 6,8% antes do plebiscito) , a alta é puxada pelos os chineses, os americanos, os canadenses e a maior parte dos não-europeus que crescem de 8,6%. E se ainda é cedo para desenhar tendências a longo prazo, a alta deve se prolongar nos próximos meses: as reservas da International Net bookings, que eram em queda de 2,8% em maio, estão agora também em alta de 4,3%.

American tourist in London

Turista americano em Londres

Os americanos são há muito tempo os mais numerosos turistas internacionais na Inglaterra. Foram 3,3 milhões em 2015, um crescimento de 10% em relação a 2014, e, segundo Visit Britain – a agencia nacional de promoção do turismo, vários indicadores mostram que a popularidade do pais cresceu depois do Brexit. Os números estão bastante impressionante na Internet: 38% de visitantes a mais no próprio site da VisitBritain, mas também  138% a mais nas pesquisas no site da British Airways nos Estados Unidos, 30% a mais no site e nas vendas da Expedia. Os hoteleiros ingleses confirmam um crescimento das reservas, especialmente os “last minut bookings”.

O distrito financeiro de Londres

O distrito financeiro da City

A  fraqueza da libra depois do Brexit é dada pelos profissionais como a primeira razão desse crescimento surpreendente. Num destino visto há anos como muito caro, ela não somente impulsionou as reservas internacionais, mas impactou também as viagens dos próprios britânicos. Com um poder aquisitivo diminuído e já impactando os destinos ligados ao dólar,  eles estão  aumentando sua procura de viagens domésticos, e a  Airbnb já anunciou que a  procura de apartamentos no mercado inglês subiu de 122% desde o plebiscito. Essa tendência favorecendo as “staycations” está sendo observada também pela Expedia.

Abbey Road, um dos imperdíveis clichês de Londres

Abbey Road, um dos imperdíveis clichês

O maior impacto do Brexit sobre o turismo na Grã Bretanha deverá porem se medir em termo de imagem. Em primeiro lugar pelo reposicionamento em termo de preços que os hoteleiros já perceberam e ampliaram com uma seria de iniciativas para dar aos visitantes “more value for money”, oferecendo up-grades, diárias de cortesia ou serviços complementares. A libra barata reforça a atratividade da marca, e deve aumentar ainda mais sua força nas clientelas mais jovens e nos mercados emergentes. JPP LONDRESMas o maior impulso dado a imagem do pais será de mostrar a sua diferencia. Enquanto os destinos turísticos devem cada vez mostrar uma identidade forte e um conteúdo que justifica a escolha de viajantes internacionais cada vez mais experientes, o novo posicionamento britânico vai ser uma extraordinária oportunidade. Frente a uma Europa aonde a “harmonização” poderia levar a uma banalização, a Grã Bretanha poderá atrair ainda mais pelo sua peculiaridade. Para os destinos turísticos,  é importante  lembrar que “Vive la différence”.

Jean Philippe Pérol

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Entre a Europa e o mar aberto, a Grã Bretanha sempre deverá escolher o mar aberto

Esse artigo foi publicado na revista profissional Mercados e Eventos