Turismo e genealogia, uma viagem para descobrir sua própria história

O casamento do Jacques Maurice, irmão da minha tataravó, com a Guianesa Elisa Guisolphe em 1895

Descobrir as suas raízes, sejam familiares, religiosas ou culturais, foi na História uma das primeiras motivações de viagem bem como uma fonte de prosperidade para muitos destinos, de Efeso a Jerusalém, de Atenas a Meca ou de Roma a Tehotiuacán. Desde a Antiguidade, essas cidades sabiam que o prestigio cultural, a potencia religiosa ou a pressão demográfica eram fatores que atraíam os visitantes.  Nos últimos anos, com a forte tendência para dar as viagens um forte conteúdo enriquecedor ou até transformador, o turismo genealógico está atraindo viajantes a reencontrar as terras e as culturas dos seus ancestrais. Ele está crescendo, especialmente -mas não somente- nos países com uma longa historia de imigração, como na Oceania ou nas Américas, tanto para as populações de origem europeias como para aquelas cujos antepassados atravessaram os oceanos nos navios negreiros.

Casa do primeiro imigrante da família Tremblay em Randonnai (Normandia)

Um dos países onde esse turismo genealógico é o mais popular é o Canadá – Quebec. Os 7 milhões de descendentes dos 70.000 imigrantes que povoaram a “Nouvelle France” a partir de 1617 continuam a ter laços com seus vilarejos de origem. Incentivados pela Atout France que chegou até a montar um motor de pesquisa dando o local de origem de cada sobrenome do Quebec, milhares de viajantes vão assim procurar as suas raízes seguindo itinerários repletos de emoções. Na Normandia, no Poitou ou no Vale de Loire, prefeitos e profissionais de turismo de dezenas de pequenas cidades se mobilizam para receber esses primos da América, caminhar com eles nas ruas até encontrar a casa do primeiro imigrante, ou compartilhar com novos amigos e parentes distantes os pratos regionais, o vinho, e as tradições locais.

Uma família visitando a casa dos seus antepassados na Catalunha

Nos Estados Unidos muitas comunidades estão também se focando nessa procura de raízes. O turismo alemão foi talvez pioneiro, aproveitando as origens germânicas de  50 milhões de americanos para incentivar as buscas dos seus antepassados. Descobrindo numa pesquisa que 9% dos seus visitantes estavam querendo seguir os passos dos seus ancestrais, a Escócia colocou essa temática nas suas prioridades. Foi também o caso da Irlanda, dona de uma das mais fortes comunidades especialmente em Nova Iorque, Boston e Chicago, que juntou o turismo genealógico e a descoberta do patrimônio cultural nas suas promoções. A Espanha está interessada nos latinos que já representam quarenta milhões de pessoas com origens ibéricas, e a Sociedade catalã de genealogia está trabalhando em conjunto com o turismo espanhol, não somente nos Estados Unidos mas em todas as Américas.

Varias empresas oferecem ajudar para planificar uma viagem genealógica

Na onda do “turismo transformador”, uma viagem genealógica necessita um bom preparo, incluindo as vezes a ajuda de profissionais. No Quebec, a Sociedade genealógica dos canadenses franceses oferece um seminário aos viajantes interessados. Nos Estados Unidos Ancestry.com, maior empresa mundial de genealogia, tem várias propostas para responder aos pedidos dos seus associados, seja ajudando os viajantes individuais a preparar os seus roteiros, seja oferecendo circuitos acompanhados de um especialista – em cooperação com a operadora  EF Go Ahead Tours ou com os cruzeiros da Cunard. Para os norte-americanos, o preparo da viagem pode até incluir a realização de teste DNA com empresas especializadas,  23andMeAncestryDNA, ou o National Geographic tests d’ADN, bem como uma consulta na famosa Family History Library  de Salt Lake City.

Sites estão ajudando a preparar as viagens genealógicas

Os destinos estão ajudando os viajantes a otimizar as suas pesquisas e seus encontros. O apoio pode ser através dos sites oficiais de turismo como Visit Scotland , o Turismo alemão o a Normandia, a Catalunha ou o Basilicata. Países com historias de emigração oferecem também acervos de museus especializados como o museu do Centro histórico das famílias irlandesas  em Dublin na Irlanda, trabalham com agencias de viagens que oferecem roteiros personalizados, ou recomendam genealogistas como Tataranietos.com , empresa espanhola cujos clientes são em maioria latino-americanos, ou South Africa Genealogy. Mas para uma viagem tão impactante, serão as próprias pesquisas pessoais que assegurarão o sucesso: se informar sobre a historia da região, ter o máximo de nomes e dados dos parentes e ancestrais, saber quais foram os motivos que os levaram a deixar os seus lares.

Em Carghese, na Córsega, nos passos dos ancestrais gregos

O turismo genealógico pode levar a muitas viagens, cada uma seguindo as trilhas de um dos antepassados que terá sido identificado. Assim eu mesmo tive a chance de reencontrar, alem das minhas raízes na Combraille, os passos de um combatente grego radicado na Córsega, de um carbonaro napolitano exilado na Tunísia, de um revolucionário de Mainz seguidor de Napoleão, e de um engenheiro “auvergnat”  desbravando as minas de ouro da Guiana. A historia de cada um foi sem dúvidas para mim um incrível enriquecimento pessoal e uma abertura maior para o mundo. Ajudando a saber de onde a gente vem, o turismo pode assim ajudar a saber para onde a gente vai!

Jean Philippe Pérol

 

Em Aubusson, heranças de tecelãs, de templários e de pedreiros

 

Mas antiga tapeçaria de Aubusson

O “Millefleurs à la Licorne”, a mais antiga tapeçaria de Aubusson

Se não se sabe exatamente as origens da tapeçaria de Aubusson, –  artesãos árabes perdidos depois da derrota de Poitiers em 732, tecelãs flamengos contratados no século XIV, ou tradições milenares vindo da qualidade das águas ácidas do Rio Creuse- , é certo que a nova “Cité Internationale de la Tapisserie” abrira suas portas no início de Julho desse ano. Jean LurçatDeclarada pela UNESCO patrimônio imaterial da humanidade em 2009, a peculiar tapeçaria dos confins da Auvergne e do Limousin – e sua tecelagem em teares horizontais – vai assim oferecer a seus moradores e a seus visitantes um centro inovador misturando informação, pesquisa, formação profissional e um museu interativo. Alem de três peças excepcionais no seu hall de entrada – Aurore, premiada na Exposição de 1900, O Pássaro de Georges Braque, e uma das primeiras obras do mestre Jean Lurçat -, a Cité vai ter um acervo de 350 tapeçarias cobrindo sete séculos de Historia.

A futura Cité Internationale da tapeçaria de Aubusson

A futura Cité Internationale da tapeçaria de Aubusson

Com esse atrativo dinâmico, juntando tradições com modernidade e criação contemporânea , Aubusson quer construir uma nova imagem para seduzir seus futuros visitantes. Até agora, sendo exclusiva de uma clientela regional de conhecedores da tapeçaria, Arquitetura medieval em Aubussonela quer atrair novos viajantes, mais internacionais, mais interessados pela descoberta de expressões artísticas originais, mais dispostos a descobrir todas as riquezas do “savoir-faire” premiado pela UNESCO. Turistas mais interessados a procurar, nas numerosas lojinhas das ruas estreitas da cidade, as produções do artesanato local inspirado da lã, das tecelagens, das gravuras, sejam produções novas ou peças antigas encontrados num brechó ou num antiquário.

A ponte no Rio Creuse

A ponte no Rio Creuse

A Historia dos artesãos da Creuse, outrora Marche ou Combraille, é também marcada pelo “savoir-faire” dos seus pedreiros. Famosos por ter construídos todos os grandes monumentos de Paris, os “maçons creusois” mostraram os seus talentos nas igrejas romanas,  ou nas casas e nos castelos  dos dois ordens guerreiros, Templários e Hospitaleiros, que os poderosos monges-soldados administravam em toda a região da “Língua da Auvergne” . TORRE ZIZIM (PRINCIPE DJEM)No século XV, Pierre d’Aubusson, senhor da cidade, chegou a ser Grão Mestre dos Hospitaleiros, conseguiu vencer o cerco imposto poderoso sultão turco Bayezid “O Trovão”. Na volta,  trouxe  de Rhodes o imperial irmão “Djem”, encarcerado numa torre (a “Tour Zizim”)  que mandou arrumar especialmente  e que ainda pode ser visitada em Bourganeuf. Na própria cidade de Aubusson, o velho castelo, as faixadas de pedra, a torre do Relógio ou a ponte no Rio Creuse são para o viajante um perfeito cenário para curtir a memória  desses artesãos, pedreiros ou tecelãs, que a “Cité Internationale de la Tapisserie” vai ajudar a valorizar.

Jean-Philippe Pérol

Curtindo as ruas de Aubusson

Curtindo as ruas de Aubusson

 

 

 

 

A Auvergne (e a Costa Verde) nos “dez mais 2016” da Lonely Planet!

 

O Puy de Dome e o Parque natural dos vulcões da Auvergne

O Puy de Dome e o Parque natural dos vulcões da Auvergne

Para os amantes da França, a publicação pela famosa editora estadounidense Lonely Planet dos dez destinos imperdíveis em 2016 foi uma boa surpresa. Lonely PlanetMesmo se as regiões escolhidas não foram nem um pouco tradicionais, foi sem duvidas uma façanha para Auvergne de ser a única francesa selecionada. Para o best-of 2016 da Lonely Planet, divulgado no dia 29 outubro, essas  “dez mais”  foram as seguintes: 1. Transilvânia, Roménia; 2. Islândia Ocidental; 3. Vale de Viñales, Cuba: 4. Regiões vinícolas de Friuli, Itália; 5. Ilha Waiheke, Nova Zelândia; 6. Auvergne, França; 7. Havaí; 8. Baviera, Alemanha; 9. Costa Verde, Brasil; 10. Santa Helena, territórios britânicos.

Os motivos da escolha da Auvergne pelos especialistas da editora são foram também divulgados. Eles gostaram das paisagens “dramaticamente vulcânicas” e dos espaços livres de turistas. Acharam a gastronomia local a altura da fama dos seus pratos típicos (buchada/tripoux, cozido/potée, purê de batata/alligot ou patê de batata),  mas também surpreendente  pela uma culinária criativo. Queijos da AuvergneUma criatividade que encontraram também na cultura “auvergnate”, já que Auvergne tem se reinventado com uma série de projetos artísticos ambiciosos, e um portfólio maior de aventuras na natureza, isso sem perder, segundo eles, o seu charme rural. Adoraram os vulcões, os queijos (Cantal, Saint Nectaire, Bleu, Fourme d’Ambert, Salers) bem como os parques, os vilarejos e os festivais de Aurillac, Clermont-Ferrand ou Puy-en-Velay. A simpatia e o humor dos “auvergnats” – os moradores da região que são, na França, comparados aos mineiros no Brasil- foram também destacados como grandes atrativos da região.

O “best-of 2016” sera, sem duvidas, muito bem recebidos no Brasil já que a Costa Verde, de Guaratiba até Trindade, ficou em nona posição na lista. Pensando nos milhares de turistas esperados para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a editora foi seduzida pela proximidade da metrópole carioca, Laranjeiraso litoral ainda praticamente intocado, os morros cobertos de florestas cor de esmeralda, as numerosas ilhas tranquilas e as praias quase desertas. A Costa Verde, e mais especificamente a Ilha Grande, é destacada como um paraíso do ecoturismo e do turismo de aventura para os amantes da natureza e da adrenalina, com trilhas nos montes cobertos de mata fechada, passeios de caiaque entre fiordes tropicais desertos, ou mergulhos com peixes coloridos.

O Puy en Velay

Muito esperadas desde que foram lançadas há onze anos, as seleções da Lonely Planet misturam critérios ligados a projetos turísticos e a meio ambiente, AUZANCES BRASILcom um foque importante na atualidade (Cuba da abertura, Bavária dos 500 anos da cerveja, Havai dos 75 anos de Pearl Harbour ou Santa Helena do bicentenário do Napoleão)  Vindo depois de varias premiações francesas – quinta mais bela região segundo o canal de televisão M6, segunda mais dinâmica na Facebook e segundo lugar da catedral de Puy-en-Velay como monumento preferido dos franceses-, a menção honrosa dada a Auvergne será um grande incentivo para se preparar a receber mais turistas do mundo inteiro e especialmente do Brasil.

Outono na Auvergne

As cores do outono nas florestas da Auvergne