Na França, turismo na Borgonha em tempo de pandemia

Os mágicos telhados dos Hospices de Beaune reabriram dia 19 de Maio

Em tempo de pandemia, depois de 10 dias de quarentena, ganha-se o direito de andar pela França. Nesse momento, pegar um carro e seguir estradas turísticas em total liberdade é uma das melhores formas de viajar e de acumular experiências únicas em tempo de pandemia. E para quem procura seguir com antecipação as novas tendências esperadas para o novo mundo pós covid, combinar   bem estar, cultura e enologia leva com tranquilidade a escolher a Borgonha,- Dijon, Beaune, sua fé e seus vinhedos-, como coração de um roteiro em família cheio de experiências e de boas surpresas.

Boas surpresas nas ruas pedestres do centro histórico de Dijon,

Ponto de partida da “Route des grands crus”, Dijon, capital dos duques de Borgonha reservou aos pedestres todo o seu centro histórico. Sempre mais rica em informações com um guia, a visita segue o “itinerário da coruja”, a ave símbolo da cidade, escolhida ou por ser associada a sabedoria da deusa Atena, ou por se chamar em francês “grande duque” . Alternando belezas arquiteturais – com destaques para o Palácio dos Duques, a catedral Santa Benina e a torre de Philippe le Bon-, para algumas curiosidades – a menor loja do mundo-, e para lojas de especialidades – mostardas, cremes de cassis ou doces-, o circuito mistura  imprescindíveis clichês, surpresas, e encontros com moradores sempre atenciosos.

O Clos des Issarts, um Gevrey-Chambertin 1er Cru

Borgonha é mesmo enoturismo, e os primeiros vinhedos começam no próprio município de Dijon com o Marsannay  e o Fixin, duas apelações pouco conhecidas  mas coloridas, frutadas e poderosas, alguns dos seus “climats”  tentando atingir em breve o selo de premier cru. No Château de Marsannay, a primeira degustação do dia (com um anfitrião fã do Brasil) mostrou que essas ambições eram legítimas. O vinho rei da Côtes de nuits, é porém o Gevrey-Chambertin, favorito do Napoleão, e, segundo nosso guia, muito procurado pelos brasileiros. E na adega do Philippe Leclerc, produtor local e onde fizemos uma segunda generosa degustação, o Brasil é mesmo uma das esperanças da retomada do enoturismo.

A 2CV, prazer, saudade e emoção nos vinhedos

Se os passeios de bicicleta são uma das grandes tendências do turismo na Borgonha, o visitante sem pressa tem uma outra opção emocionante: a 2CV “My French tour” da Mélanie. Nas pequenas estradas da “Route des Grands Crus”, o nosso barulhento, lento, apertado mas charmosíssimo carrinho dos anos 50 passou por Pommard, Volnay, Meursault, Puligny-Montrachet, et Chassagne-Montrachet. Paramos para ver o espetáculo dos “climats”, esses vinhedos definidos pela geologia dos solos, a exposição a luz do sol e aos savoir-faire de gerações de viticultores. Paramos para visitar uma “cabotte”- casinha de pedras multi-centenária- e uma estátua de São Cristovão. Paramos mais ainda para visitar as adegas  do Castelo de La Crée.

O Hotel Le Cep foi uma das boas surpresas da viagem

Outra boa surpresa da viagem foi o Hotel Le Cep em Beaune. Mesmo sabendo que era um dos melhores hotéis da Borgonha, sua arquitetura, seus espaços e especialmente seu atendimento ficaram acima das expectativas. Construído com a interligação de vários prédios, incluindo dois casarões do século XVI, encostado e com acesso as antigas muralhas da cidade, o hotel tem o charme da sua história: torres, escadas, pátios, quartos diferenciados, salões prestigiando de tenentes de Luis XIV até celebridades do jazz. Infelizmente não tivemos tempo de experimentar os dois SPAs, e o restaurante gastronômico do grupo Bernard Loiseau estava fechado devido pandemia, no entanto a adega foi o quadro impressionante de grandes momentos de convivialidade enológica .

Em Aloxe Corton, o castelo domina os 2000 anos de vinhedos

Viajar em tempo de pandemia é sem dúvidas complicado, mas dá também uma intensidade trazida pelas relações peculiares nesses momentos de crise bem como a garra e alegria dos atores do turismo que atuam pela retomada. De cada parada dessa viagem, da Borgonha e depois das Sources de Cheverny ou de Paris, levamos a certeza que o turismo pós pandemia será ainda mais imprescindível e mais transformacional.

Jean-Philippe Pérol

 

 

 

Cassoulet, pimentas e Gevrey Chambertin, sugestões brasileiras para a feijoada a francesa

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Cassoulet com pimentas e Gevrey Chambertin 2004

Cassoulet e Gevrey-Chambertin, uma sugestão para um domingo de noite

de Edson Costa, enólogo, gourmet, musicólogo e poeta.

Reza uma das lendas mais difundidas do cassoulet que Castelnaudary, cidade situada na região de Occitânia, foi cercada durante a Guerra dos Cem Anos pelos ingleses que dominavam o sudoeste desde Bordeaux,  e ficou semanas sem abastecimento. A população, para não passar fome, fazia ensopados com tudo que houvesse a disposição: feijões brancos (típicos da agricultura local), pedaços de carne de porco, aves, legumes… Assim teria nascido um dos pratos mais tradicionais da França. E Castelnaudary ficou conhecida como a capital mundial desta iguaria.

A cidade de Castelnaudary, na beira do Canal do Midi

A cidade de Castelnaudary, na beira do Canal do Midi

A lenda é muito discutida até hoje. Os historiadores lembram que o feijão chegou na Europa vindo das Américas, seja  depois do Cristovo Colombo, e que receitas parecidas, mas a base de favas, são conhecidas na região desde o século X. Mas o cassoulet virou famoso, e é um prato tão importante na cultura local que três cidades desta região disputam a fama de fazer o melhor de todos. Para manter a paz regional, os franceses decidiram que o cassoulet é o Deus da gastronomia, e as três cidades são o Pai (Castelnaudary), o Filho  (Carcassonne) e o Espírito Santo (Toulouse].

A Confraria do Cassoulet de Castelnaudary

A Confraria do Cassoulet de Castelnaudary

Guardadas as devidas e necessárias tradições, cada Chef tem sua receita para a elaboração dessa feijoada a francesa. Nesta proposta, personalizada mas inspirada da receita original da Grande Confraria do Cassoulet de Castelnaudary , foram incluídos: feijão branco, coxa de pato confitada e assada, costela de porco, linguiça calabresa, costeleta de porco defumada, lombo de porco, alho assado, bacon em pedaços, cebola roxa, sal e pimenta do reino moída na hora. Todo servido na “cassole”, o prato de cerâmica tradicional cuja origem vem do século XIV.

O castelo de Gevrey-Chambertin

O castelo de Gevrey-Chambertin na Borgonha

Para harmonizar o cassoulet com um vinho, as escolhas tradicionais são o Cahors ou o Corbières, mas vale a pena de fazer outras experiências. Vale combinar com um Gevrey Chambertin, o vinho que era o favorito do Napoleão, aqui um Racines du temps do René Bouvier, safra 2004.  Com seus vinhedos situado perto de Cluny – sede da famosa abadia e das ruinas da maior catedral do Ocidente cristão-, esse “terroir” caracteriza-se por apresentar vinhos unicamente tintos. São vinhos de longa guarda, potentes, estruturados, tânicos e ao mesmo tempo aveludados, de cor intensa, e com aromas e sabores de cassis, cereja, alcaçuz e couro, mas que também são capazes de desenvolver aromas terciários na maturidade, como de mata e de caça.

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Gevrey-Chambertin Racines du Temps 2004

O Domaine René Bouvier é uma empresa familiar fundada em 1910 pelo avô de Bernard Bouvier, Henry Bouvier na Côte de Nuits, Borgonha, França. Tem 13 hectares de Pinot Noir e 4 de Chardonnay Noiret 4 para um total de 18 DOCs na Borgonha, Cotes de Nuits Villages, Fixin, Marsannay e Gevrey-Chambertin, todas com Premier cru e Grand Cru. O Gevrey-Chambertin Racines Du Temps René Bouvier 2004, como é determinado na Borgonha, é um vinho varietal Pinot Noir (100%) que envelheceu em barricas novas de carvalho francês por 18 meses.

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Tempero a brasileira: molho de pimenta  dedo de moça

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Tempero a brasileiro: molho de pimenta murupi

Um cassoulet servido na "Cassole"

Um cassoulet servido na “Cassole”