Moradores e compatriotas, a revolução-mor do turismo pos Covid?

A Occitânia aposta no turismo de proximidade Foto Patrice Thibault)

Mudando o nome de Comité regional de turismo da Occitânia para Comité regional de turismo e lazeres da Occitânia, os responsáveis dessa grande região turística francesa – sede de destinos famosos como Lourdes, Carcassonne ou Toulouse- aproveitaram uma das maiores revoluções que está sendo trazida pela crise do Covid 19: a nova força do turismo local e doméstico, dos moradores e dos compatriotas. Necessidade durante os meses de fechamento das fronteiras internacionais, essa procura de novas clientelas para compensar o sumiço das clientelas estrangeiras virou o novo eixo estratégico da politica turística occitana, com um orçamento de 3 milhões de Euros logo no primeiro ano.

No Brasil, a Occitânia é a terra de Lourdes e dos caminhos da fé

Longe de ser um detalhe, a mudança de nome mostra a vontade de revalorizar o consumo de lazeres dos moradores, uma virada estratégica para um segmento de clientela que já era cortejado como ator chave do turismo mas nem sempre percebido como consumidor. Mesmo se a ideia não é de desprezar as clientelas internacionais, essa nova orientação deve reequilibrar tanto a oferta de produtos que a comunicação. Segundo Vincent Garel, presidente do Comité, serão assim valorizados o slow-turismo, o turismo sustentável, o glamping, ou o turismo solidário. Com focos nos jovens e nas famílias, essa atenção para moradores levará a um reposicionamento em volta dos valores proprios da Occitânia.

O Pont du Gard atrai tanto turistas como moradores

Sucesso durante a crise, o turismo doméstico não representa somente um segmento de substituição, mas é parte de uma estratégia de longo prazo, não somente pela sua realidade atual mas pelo potencial de crescimento que ele representa. Jean Pinard, Directeur do Comité, gosta de lembrar que 40% dos franceses nunca saiam de férias, um número impressionante que mostra as oportunidades que todos os atores podem encontrar nesse público, tanto para estadias de curtas durações que para ferias principais. Com uma dimensão social que vem reforçar seu impacto econômico, essa nova prioridade deve atrair mais atenção e mais apoios dos responsáveis políticos.

 

Além da Occitânia, a OMT publicou recentemente um relatório sobre interessantes iniciativas junta a clientelas locais. Foi destacada a Slovenia, que  começou a campanha com uma sensibilização para as medidas sanitárias, dando a possibilidade de ganhar uma qualificação Green & Safe. Todas as regiões turísticas do pais foram convidadas a desenhar três itinerários especiais para os turistas domésticos. Eles são apresentados no site do Slovenian Tourism Board  e nas mídias sociais. A campanha mundial e o aplicativo The Time is Now. My Slovenia. têm agora versões em esloveno, e um vídeo promocional  foi divulgado com o apoio de influenciadores locais..

The creative Finnish Booard now targeting local market

O mesmo relatório da OMT mencionou também a campanha da Finlândia.  Com uma verba de 500.000 euros, apoiada na promoção internacional  “100 Reasons to Travel in Finland” da  Finnish Association of Tourism Organisations, a campanha destaca as ofertas dos pequenos profissionais que podem assim promover produtos mais específicos para turistas finlandeses. Centenas de ofertas são apresentadas no site Web, com sugestões de itinerários ou de circuitos. Esses exemplos, e outros da Noruega, da Austrália ou do Canadá, deixam os especialistas da Organização Mundial do Turismo prever que moradores e compatriotas abrem grandes oportunidades para o turismo pos Covid19.  .

Jean=Philippe Pérol

Turismo num raio de 100 km, um conceito que vai longe

Cassoulet, pimentas e Gevrey Chambertin, sugestões brasileiras para a feijoada a francesa

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Cassoulet com pimentas e Gevrey Chambertin 2004

Cassoulet e Gevrey-Chambertin, uma sugestão para um domingo de noite

de Edson Costa, enólogo, gourmet, musicólogo e poeta.

Reza uma das lendas mais difundidas do cassoulet que Castelnaudary, cidade situada na região de Occitânia, foi cercada durante a Guerra dos Cem Anos pelos ingleses que dominavam o sudoeste desde Bordeaux,  e ficou semanas sem abastecimento. A população, para não passar fome, fazia ensopados com tudo que houvesse a disposição: feijões brancos (típicos da agricultura local), pedaços de carne de porco, aves, legumes… Assim teria nascido um dos pratos mais tradicionais da França. E Castelnaudary ficou conhecida como a capital mundial desta iguaria.

A cidade de Castelnaudary, na beira do Canal do Midi

A cidade de Castelnaudary, na beira do Canal do Midi

A lenda é muito discutida até hoje. Os historiadores lembram que o feijão chegou na Europa vindo das Américas, seja  depois do Cristovo Colombo, e que receitas parecidas, mas a base de favas, são conhecidas na região desde o século X. Mas o cassoulet virou famoso, e é um prato tão importante na cultura local que três cidades desta região disputam a fama de fazer o melhor de todos. Para manter a paz regional, os franceses decidiram que o cassoulet é o Deus da gastronomia, e as três cidades são o Pai (Castelnaudary), o Filho  (Carcassonne) e o Espírito Santo (Toulouse].

A Confraria do Cassoulet de Castelnaudary

A Confraria do Cassoulet de Castelnaudary

Guardadas as devidas e necessárias tradições, cada Chef tem sua receita para a elaboração dessa feijoada a francesa. Nesta proposta, personalizada mas inspirada da receita original da Grande Confraria do Cassoulet de Castelnaudary , foram incluídos: feijão branco, coxa de pato confitada e assada, costela de porco, linguiça calabresa, costeleta de porco defumada, lombo de porco, alho assado, bacon em pedaços, cebola roxa, sal e pimenta do reino moída na hora. Todo servido na “cassole”, o prato de cerâmica tradicional cuja origem vem do século XIV.

O castelo de Gevrey-Chambertin

O castelo de Gevrey-Chambertin na Borgonha

Para harmonizar o cassoulet com um vinho, as escolhas tradicionais são o Cahors ou o Corbières, mas vale a pena de fazer outras experiências. Vale combinar com um Gevrey Chambertin, o vinho que era o favorito do Napoleão, aqui um Racines du temps do René Bouvier, safra 2004.  Com seus vinhedos situado perto de Cluny – sede da famosa abadia e das ruinas da maior catedral do Ocidente cristão-, esse “terroir” caracteriza-se por apresentar vinhos unicamente tintos. São vinhos de longa guarda, potentes, estruturados, tânicos e ao mesmo tempo aveludados, de cor intensa, e com aromas e sabores de cassis, cereja, alcaçuz e couro, mas que também são capazes de desenvolver aromas terciários na maturidade, como de mata e de caça.

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Gevrey-Chambertin Racines du Temps 2004

O Domaine René Bouvier é uma empresa familiar fundada em 1910 pelo avô de Bernard Bouvier, Henry Bouvier na Côte de Nuits, Borgonha, França. Tem 13 hectares de Pinot Noir e 4 de Chardonnay Noiret 4 para um total de 18 DOCs na Borgonha, Cotes de Nuits Villages, Fixin, Marsannay e Gevrey-Chambertin, todas com Premier cru e Grand Cru. O Gevrey-Chambertin Racines Du Temps René Bouvier 2004, como é determinado na Borgonha, é um vinho varietal Pinot Noir (100%) que envelheceu em barricas novas de carvalho francês por 18 meses.

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Tempero a brasileira: molho de pimenta  dedo de moça

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Tempero a brasileiro: molho de pimenta murupi

Um cassoulet servido na "Cassole"

Um cassoulet servido na “Cassole”