Na Provence, um vinho rosé com sabor de férias e de prazer de viver

Os vinhedos da Montagne Sainte Victoire

Se fez sempre a unanimidade dos apaixonados da arte de viver, a Provence sempre foi um assunto muito polêmico quando se tratava de vinho. Talvez para aperrear a minha mãe – ardente mediterrânea -, o meu pai, quando perguntava para ele se queria um Rosé, gostava de responder “obrigado, preferiria um vinho”. E me explicava, durante as temporadas de verão que a gente passava em Tourettes sur Loup, que o charme do Rosé não era bem as suas uvas Grenache, Cinsault ou Syrah, seu sabor frutada ou seu frescor, mas a felicidade e as lembranças trazidas pela beleza das casas de pedras, a música das cigarras, os cheiros da “garrigue”, as partidas de bocha ou o balanço das oliveiras.

O Castelo de Miraval, do ex casal Brad Pitt e Angelina Jolie

Além de serem um pouco injustas, essas ideias devem hoje ser revistas à luz das novidades que foram acontecendo nos vinhedos e no enoturismo na Provence nesses últimos anos. Uma das mais famosas foi o investimento de Brad Pitt e Angelina Jolie que compraram em 2008 o castelo de Miraval, perto de Brignoles, e produziram o rosé considerado (pelas suas qualidades próprias ou dos seus donos) um dos melhores do mundo. Na mesma região, mas ainda com menos ambições enológicas, George Clooney está tentando adquirir o Canadel, um casarão do século XVIII cercado de uma propriedade de 170 hectares com alguns vinhedos também incluídos na apelação Côtes-de-Provence.

Os vinhedos da Chanel na ilha de Porquerolles

Antes mesmo do glamour desses pesos pesados de Hollywood, a notoriedade dos vinhos da Provence já tinha aproveitado os investimentos de grandes nomes do luxo e da excelência francesa. Procurando potencial vinícola, mas querendo também património cultural e turismo exclusivo, o grupo Bolloré explora duas propriedades perto de Saint Tropez, La Croix et La Bastide Blanche, LVMH comprou o Château du Galoupet, um dos “grands crus classés” da Provence, e o Château d’Esclans, um dos mais procurados rosés do mundo. A Chanel investiu na exclusivíssima ilha de Porquerolles com o Domaine de l’Ile e o Domaine Perzinsky.

O Miraval, segundo Rosé de Provence mais exportado para os Estados Unidos

Com esses apoios, os Rosés de Provence souberam aproveitar novas tendências no consumo do vinho, a alegria, a simplicidade, o prazer imediato, a a convivialidade. Na França o consumo triplicou desde os anos 90, e os Estados Unidos compram quase a metade das 40 milhões de garrafas exportadas anualmente. E no Brasil, se os volumes são pequenos, os rosés são proporcionalmente os vinhos franceses mais procurados. O sucesso internacional do Rosé de Provence é também visível localmente, nas 486 propriedades da região (89% produzindo Rosé) que aderiram ao enoturismo, diversificando suas vendas e suas atividades.

Norte americanos, ingleses ou brasileiros estão presentes nas vinícolas mais emblemáticas. São vistos no Domaine de la Courtade em Porquerolles, no restaurante estrelado do chef Gérard Passédat do Château La Coste,  onde fica também o chef argentino Francis Mallmann. Gostam das várias opções de hospedagens de luxo dedicado aos vinhos da Provence, incluindo as novidades como o Domaine de la Courtade , o Château de Fonscolombe, o Château Saint Roux ou o Palace das  Villas La Coste.  Guardando sua diferença, seu sabor de Mar Mediterrâneo, seu espírito de liberdade e seu prazer de viver, o Rosé de Provence está mesmo virando um vinho de conhecedor internacional.

Jean-Philippe Pérol

Destinos turísticos e gastronomias regionais, os sucessos interligados

 

Degustação de ostras no Etang de Thau

Degustação de ostras no Etang de Thau

A gastronomia e as bebidas locais enriquecem o patrimônio turístico e são sempre parte das campanhas promocionais, como sendo experiências-chave para aproveitar um destino. Uma boa chucrute vai ser um grande momento de uma viagem para Estrasburgo, um Grand Cru degustado no Bar da Praça de Saint-Emilion justificará uma viagem para Bordeaux, um copo de Chablis com uma “gougère” será um parada obrigatória na Borgonha, uma cavaquinha grelhada frente ao porto de Saint-Tropez ficará como a sua melhor imagem da Côte d’Azur, bem como um prato de ostras na beira do Etang de Thau agregará a noite inesquecível que vai lhe fazer lembrar para sempre sua viagem para Montpellier.

Paul Bocuse em Lyon, capitale francesa da gastronomia

Paul Bocuse em Lyon, capital francesa da gastronomia

Para 67% dos viajantes, a gastronomia é um critério importante para selecionar o seu destino, sendo sempre entre os dez mais citados. E para os brasileiros, a culinária francesa é a quinta razão mais lembrada para justificar uma viagem para França, 59% deles colocando experiência gastronômicas nos seus roteiros. Os sucessos  recentes de Lyon ou de Bordeaux junto aos turistas vindo do Brasil se devem sem dúvidas em grande parte para a primeira ao prestígio do Paul Bocuse, das suas grandes mesas estreladas (ou dos seus pequenos “bouchons”), e para a segunda a justificada fama dos vinhos de Pomerol, de Côtes de Bourg, de Pessac Leognan ou de Margaux.

O Rosé , seduzindo por ser o espirito da Provence

O Rosé, seduzindo por ser o espírito da Provence

Se é então indiscutível que a culinária reforça a atratividade dos destinos, não se deve subestimar o quanto a imagem de um destino pode ajudar na divulgação dos produtos regionais. O exemplo mais famoso é talvez o Rosé de Provence. Produzido há mais de dois milênios, esse Rosé é hoje um sucesso mundial, 141 milhões de garrafas, 16 milhões das quais são exportadas (1,7% no Brasil). Esse sucesso se deve talvez à qualidade das suas uvas, ao charme das suas cores, ou a originalidade dos seus aromas. Mas, quem gosta desse vinho gosta antes de tudo da Provence. Beber esse Rosé com alguns amigos em dia de sol é beber a Provence, beber as oliveiras, os campos de lavanda, beber os jogadores do “bocha” na praça do vilarejo ou o canto das cigarras. A força da imagem da região deu ao seu vinho um prestígio que o transformou.

A Volvic no Japão, ligando sua imagem com os vulcões da Auvergne

A Volvic no Japão, ligando sua imagem à dos vulcões da Auvergne

Muitos pratos ou produtos das gastronomias tradicionais devem sua popularidade à atratividade das imagens dos seus países ou das suas regiões de origem, consolidadas através do turismo, de lembranças de férias ou de festas inesquecíveis. Na França, é assim que a Córsega exporta os seus embutidos, a Britânia sua cidra, a Auvergne suas águas minerais, o Pais Basco o seu queijo de ovelha, ou os Alpes sua “fondue” ou seu Genepi. Exemplos que mostram que se a gastronomia é um grande atrativo dos destinos, o sucesso turístico pode também ser um grande atrativo para a divulgação de gastronomia de um território.

O Pâté de pommes de terre da Auvergne revisitado pelo chef Laurent Suaudeau

O Pâté de pommes de terre da Auvergne revisitado pelo chef Laurent Suaudeau

A influência dos destinos sobre a valorização das suas respectivas culinárias é ainda mais forte quando se trata de viajantes ou de consumidores com raízes familiares. E, devo confessar que a minha paixão pelo “Pâté de pommes de terre”, que eu já dividi com amigos em Nova Iorque, Quito, Manaus ou São Paulo, se deve muito mais ao meu amor e ao meu orgulho das minhas origens na Auvergne que pela qualidade gastronômica dessa torta de batatas coberta de creme de leite. Mais um destino que soube ajudar a popularizar a sua culinária!

Jean-Philippe Pérol

Chablis com "Gougère", o pão de queijo a francesa

Chablis com “Gougère”, o pão de queijo à francesa

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue”do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos