O Trump favorecendo o turismo europeu?

A imagem do Presidente sempre impactou o turismo para os Estados Unidos

Vendo o impacto da presidência do George Bush sobre os fluxos turísticos internacionais dos brasileiros, um diretor do turismo francês sugeriu na época que a Franca entregasse para ele a “Medalha do turismo”. De fato, enquanto a Europa e os Estados Unidos eram tradicionalmente empatados nos mercados sul- americanos, as medidas restritivos e as vezes vexatórias visando os viajantes chegando (ou transitando) nos aeroportos estadunidenses deram naquele momento um impulso excepcional  aos destinos europeus. Nesses ciclos marcando a rivalidade turística entre os Estados Unidos e a Europa, a volta do Trump, independentemente das opiniões politicas de cada um, poderá de novo favorecer fortemente o velho continente bem como o Canadá.

Novo travel ban preocupa os profissionais americanos

Com as primeiras medidas da nova presidência, o impacto negativo sobre o turismo já se baseia em fatos objetivos preocupando e até desanimando os viajantes: controles mais rigorosos nas fronteiras e prazos de concessões de vistos mais longos devido a cortes de pessoal, reativações de proibições de viagem para cidadãos de países considerados com riscos (uma medida já tomada pelo Trump em 2017), restrições aos passaportes sem indicações de género, preocupações sobre a saude pública com a retirada da Organização Mundial da Saude e as possíveis epidemias, ou o crescente  mal estar  dos ambientalistas com a retirada dos Estados Unidos dos acordo de Paris.

Na Alemanha, os viajantes estão trocando os Estados Unidos pelo Canada

Outras medidas ainda são esperadas e poderiam prejudicar mais ainda o setor do turismo estadunidense – a possível proibição de TikTok preocupando os jovens viajantes que não imaginam viagens sem posts nas mídias sociais, e os aumentos de preços que as taxas sobre os navios de bandeiras estrangeiras, anunciadas pela nova administração, podendo impactar as vendas de cruzeiros. No primeiro mandato do Presidente Trump, medidas menos drásticas já tinham provocadas uma queda dos fluxos de visitantes de mais de 10%, e os profissionais estadunidenses estão agora preocupados com consequências ainda mais fortes enquanto o objetivo era de chegar a 90 milhões de visitantes com o impulso da Copa do mundo FIFA 2026.

Será que Trump vai merecer a medalha do turismo dos destinos concorrentes?

Alem das medidas, o turismo pode também ser prejudicado pela rápida degradação da imagem  dos Estados em mercados chaves, especialmente no Canada, no Mexico e na Europa do Norte, mas também na China, nos países árabes ou no Brasil. Observadores otimistas esperam ainda que alguns fatores positivos podem reverter em parte essas tendencias: simpatias politicas com o novo modelo de governo, vistos facilitados para grandes investidores, impostos menores para as pequenas empresas que são a força do trade turístico,  energia mais barata e talvez um dolar enfraquecido. Mas no geral é porem provável que os fatores negativos não sejam compensados, e que as viagens internacionais privilegiam seja o Canada seja a Europa.

Jean Philippe Pérol

 

 

Os Jogos de Paris 2024, um sucesso de futuro para o turismo francês

Na Place de la Concorde, um espaço de convivialidade olímpica

Se os Jogos de Paris 2024 acabarão oficialmente somente dia 8 de setembro no encerramento dos Paralímpicos, os especialistas já estão brigando para saber se o evento foi ou não o sucesso esperado pelos profissionais e anunciados pelos políticos. Os resultados são fáceis de medir quando se trata de medalhas – a França conseguiu bater seu recorde com 64 , sendo 16 de ouro-, ou quando se trata de custos financeiros – quase 10 bilhões de Euros para uma previsão inicial de 6-, mas é difícil de apreender quando se trata de turismo devido às diversidades de indicadores. São mais difíceis ainda de analisar quando se trata de turismo internacional.

Os profissionais fizeram o máximo para seduzir atletas e visitantes

Para os profissionais do setor, teve, como sempre nos grandes eventos, muitas expectativas, e, como sempre nos grandes eventos, muitas decepções. Os números globais ainda não podem ser medidos, mas serão com certeza em recuo, como foi o caso em Londres, já que o milhão e meio de visitantes “olímpicos” estiveram presentes, mas desanimaram o mesmo tanto de turistas regulares que se assustaram com os altos preços anunciados para hospedagens ou com a complexidade da mobilidade em Paris. As quedas de 30% observadas nos restaurantes e nos comércios, de 20% nos parques e nos museus, impactaram brutalmente um setor ainda em recuperação das traumas da pandemia. E se os hotéis e os apartamentos alugados tiveram uma alta de 10% da taxa de ocupação a partir do 26 de julho, os empreendimentos tiveram que reajustar os preços para baixo depois de um mês de junho muito abaixo do normal.

Os parisienses pedem a permanência do balão da chama olímpica

Mas, por importantes que sejam esses problemas, o Jogos foram mesmo um sucesso excepcional, incluído para o setor do turismo que vai beneficiar a longo, médio e curto prazos, dos investimentos em infraestruturas, comunicação e capacitação que foram realizados. Os futuros visitantes poderão aproveitar as renovações de muitos pontos de atração, as inovações em transportes, segurança ou em equipamentos indispensáveis para futuros grandes eventos que a França mostrou ter capacidade para organizar.

O surfe brasileiro imortalizado na onda de Teahupo’o

Os Jogos ofereceram também para Paris e para toda França uma extraordinária visibilidade em toda a mídia internacional. A ousada escolha de localizar o máximo de provas frente aos grandes monumentos históricos ou em lugares inesperados gerou no mundo inteiro momentos inesquecíveis; o vôlei de praia em frente da Torre Eiffel, o hipismo nos jardins de Versailles, a esgrima em baixo do domo do Grand Palais, o triatlo nas águas do Rio Sena, o surfe na mítica praia polinésio de Teahupo’o ….

A magia criativa de Zeus na cerimônia de abertura

O maior impacto sobre o turismo  virá de uma nova imagem que a França conseguiu consolidar com os Jogos. A cerimônia de abertura – mesmo com alguns erros que serão esquecidos porque criatividade é sinônimo de aceitação de risco-  mostrou para cerca de um bilhão de telespectadores um destino inovador, surpreendente, orgulhoso da sua história mas aberto, inclusivo, detalhista e alegre. Os visitantes internacionais presentes – entre eles 107.000 brasileiros entusiastas, muitos jovens e muitas famílias -anotaram também o bom atendimento e até a gentileza dos profissionais, dos voluntários e dos próprios moradores. Com eles, a França pode sair dos Jogos com mais otimismo sobre seu futuro de primeiro destino internacional de turismo.

Jesan-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

 

 

Viagens de negócios na pós pandemia, euforia ou cautela?

Nova Iorque, destino líder tanto nas viagens de negócios que no bleasure

As TMC, “Travel Management Compagnies”, estão surpreendendo os observadores do turismo internacional. Enquanto todas as pesquisas projetava uma queda de 20 à 25% das viagens de negócios depois da crise do Covid, as grandes empresas do setor anunciaram crescimentos de dois dígitos da suas atividades em 2023, e parecem extremamente animadas não somente para 2024 mas também nas projeções de faturamento a medio prazo. Olhando as novas tendências que caracterizam  essas viagens, especialmente dos viajantes mais jovens, bem como a evolução dos preços dos principais fornecedores – companhias aéreas e hotéis-,  poderia ser que a euforia dos mas otimistas seja compatível com a cautela dos mais céticos?

O controle das despesas continua sendo uma ferramenta chave das TMC

Uma pesquisa internacional da SAP Concur, a maior plataforma de gestão de dados corporativos, sobre a evolução das despesas de viagens das empresas européias, mostrou mudanças importantes de 2019 para 2023. As passagens aéras, primeira despesa corporativa, subiram em media de 10% em relação ao nível pre pandemia, uma alta mais marcante ainda no ano passado. A SAP Concur avisa porém que essa inflação dos custos é geral, sendo ainda mais alta nos gastos de alimentação – que aumentaram de 30%-, e mesmo nas despesas de hospedagem – 21% acima dos níveis de 2019. No Brasil, a evolução é ainda mais marcante, especialmente para o transporte aéreo que sofreu uma inflação de 14% neste mesmo período.

As viagens de avião são as mais prejudicadas pelos cortes

Depois da euforia, as despesas de viagens de negócios voltarão talvez em 2024 aos volumes anteriores a crise, mas este resultado é principalmente a consequência da inflação que compensou uma queda do número de viagens estimada em quase 20%. No Brasil, uma recente pesquisa da ABRAJET mostra dados um pouco mais otimistas, com números de transações das TMC em queda de somente 12,6% de 2023 para 2019. Essa queda se deve tanto as restrições de despesas que ao sucesso das videoconferências (vistas por 31% das empresas como uma alternativa as viagens) e ao crescimento da “consciência ecológica”. Reais ou comunicadas, as preocupações  com o meio ambiente ou a  descarbonização levam muitas empresas a reduzir suas viagens, especialmente aquelas realizadas de avião. É assim que hoje 43% dos viajantes de negócios declaram que estão viajando menos pelas suas empresas que há 5 anos atras.

Novas tendências vão mudar o perfil das viagens profissionais

Mas, mesmo se o número anterior de viagens profissionais deve somente ser reencontrado a nível mundial depois de 2028, várias novas tendências devem ajudar as TMC a defender suas posições de destaque no setor das viagens e do turismo. As viagens continuam de ser um componente chave da vida das grandes empresas, ajudando a consolidar as parcerias com clientes e fornecedores. Além disso, o interesse pelas viagens  como fator de desenvolvimento pessoal é agora um argumento importante para atrair e desenvolver os talentos dos colaboradores. E, depois da crise, a combinação de negócios e lazer – o “bleasure”- é cada vez mais aceita, sendo hoje utilizado cada dois ou três meses por mais da metade dos viajantes.

Inovar com personalização, eficácia e sustentabilidade é o novo desafio.

Tradicionalmente focadas na gestão das despesas de viagem dos seus clientes, ajudando a definir previsões corretas, políticas eficientes e controles de conformidade, os TMC insistem hoje na exigência de combinar essas tarefas com a garantia de oferecer também aos viajantes a segurança, a saúde e o bem estar. Com a flexibilidade e a personalização cada vez maior das políticas das empresas, a oferta de serviços para as viagens pessoais dos dirigentes e/ou dos funcionários abriu novas oportunidades, seja para os próprios TMC, seja para filiais especializadas. Assim como as tendências pós-pandemia ou o “bleasure”, as ofertas de viagens de lazer personalizados – já exploradas no passado com sucessos variáveis pela Amex ou a Wagons lits- podem ajudar  a compensar o inevitável recuo do número de viagens profissionais.  Mesmo para os mais cautelosos, as oportunidades assim oferecidas podem incitar, senão a euforia, pelo menos ao certo otimismo?

Jean Philippe Pérol

Do Atacama até Al Ula, a nova onda do eterno fascínio pelo deserto

O Vale da Morte no Nevada inspirou muitos filmes de Hollywood

Com o medo do overturismo e o desejo crescente de exclusividade, cresce a vontade de descobrir novos destinos, longe dos lugares tradicionais dos Estados Unidos, do Portugal, da Itália ou da França, onde tantos viajantes gostam de  ser vistos. A post pandemia tem novas regras do jogo, o medo das multidões  afugenta os turistas, procura-se pureza e autenticidade, cresce a exigência de viagens transformadores, e a Instagram permite de intercambiar com o mundo nos lugares mais isolados. A natureza preservada é uma das grandes temáticas que completa este novo quadro, seja nos safaris africanos, nas montanhas do sub-continente indiano, nas geleiras dos dois polos, nas florestas e nos rios da Amazônia, e, mais ainda, nos desertos dos cinco continentes.

Os barrancos do Wadi Rum no filme Lawrence da Arabia

O deserto têm um apelo especial que sempre fascinou os viajantes e antes deles os profetas e os exploradores. Foi no seu silencio e na sua imensidões que nasceram ou cresceram as religiões monoteístas, e que Abraão, Moises, Joao Batista, Jesus Cristo e Maomé acharam suas inspirações. Frente a sua beleza depurada e atemporal, esta dimensão spiritual ou até mística continua sendo uma das razões do seu atrativo. O cinema contribui a combinar deserto com sonho e aventura, de Lawrence da Arábia até Mad Max ou de Sergio Leone até Indiana Jones, cada um ajudando a promover a notoriedade de destinos nos cinco continentes, o Sahara, o Nefud, o Wadi Rum, a Norob National Park, o deserto de Tabernas ou o Vale da Morte.

O Rallye Aicha des Gazelles tenta combinar esporte, ecologia, feminismo e luxo

Os desertos estão se destacando como novos destinos turísticos, juntando aventura, cultura, luxo e sobriedade, apostando na beleza e na sustentabilidade. Mesmo se são por natureza imunes aos estragos do overturismo, a fragilidade dos seus ecosistemas deve porem levar a muita cautela. Os excessos passados do Paris Dakar ou os exageros do Burning Man Festival tiveram que se adaptar as novas exigências dos moradores e dos viajantes, e o Rallye Aicha des Gazelles do Marrocos foi a primeira corrida do gênero a obter o Iso 14001 da sustentabilidade. As preocupações sobre o uso dos Quads e dos Quatro rodas levaram as operadoras locais a restringir, regular ou pelo menos compensar os seus impactos sobre o meio ambiente.

Em Djanet, pedras esculpidas pelo vento chamam as oferendas do viajante

O sucesso dos desertos chegou também porque as ofertas das operadoras estão cada vez mais diversificadas. Aos tradicionais cartões postais – já muito conhecidos pelos turistas- de Zagora no Marrocos, de Ghardaia ou Djanet na Algeria, de Tozeur na Tunisia, do Atacama no Chile ou de Petra na Jordania, elas acrescentaram lugares mais exclusivos, as Wahiba sands do Omã, a costa do Namib na Namibia, o Salar de Uyuni na Bolivia, o Lago Assal na Etiópia, o Gobi na Mongólia e as dunas de Thar na India. E a Arábia Saudita, investindo de forma espetacular nas riquezas arqueológicas e nas infraestruturas turísticas da região de Al Ula, está agora inaugurando o mais luxuoso dos destinos de desertos do mundo.

En Al Ula, o luxo, a cultura e a exclusividade do deserto

Se conseguir combinar abertura ao turismo e preservação dos seus ecosistemas naturais e humanos, os desertos (e todas as áreas de natureza preservada do Brasil e do mundo) devem continuam a crescer como destinos turísticos modelos, exclusivos pela raridade das infraestruturas, pelas dificuldades de acesso, pelos espaços de vida limitados, e pelos preços elevados que operadores e moradores devem cobrar para viabilizar essas experiências únicas e frágeis.

Jean Philippe Pérol

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Esse artigo foi inspirado de um artigo original de publicado na revista profissional Tourmag

Recorde de receitas turísticas preocupa a Espanha

O turismo espanhol deve ter em 2024 o melhor ano da sua história

As receitas turísticas da Espanha deveriam esse ano quebrar todos os recordes anteriores e chegar a € 202.651 bilhões, passando os 90 milhões de entradas de turistas (e chegando talvez ao primeiro lugar do turismo mundial em número de entradas contabilizadas). Com uma alta de 8,6% em relação ao ano 2023, que já tinha sido excepcional, o turismo representará 13,3% do Produto Interno Bruto do país. Anunciando a semana passada em Madri essas projeções históricas, José Luis Zoreda, vice-presidente da Exceltur (Alianza para la Excelencia Turística), associação das maiores empresas espanholas fundada em 2002 para ajudar ao desenvolvimento do setor, mostrava paradoxalmente pouca satisfação e muita preocupação.

Os novos trens da RENFE ajudaram no sucesso de 2023

Para Exceltur, esses números impressionantes são os resultados de vários fatores favoráveis. O primeiro é a situação política e a estabilidade da Espanha na hora de muitas perturbações nos grandes destinos concurrentes do Mar Mediterrâneo oriental, Turquia, Israel ou Egito.  O segundo é a retomada do turismo internacional não somente nos grandes mercados de proximidade – principalmente Reino Unido, Alemanha e França -, mas também nos mercados asiáticos. O terceiro fator favorável, em tempos de dificuldades de oferta de transportes, foi que a Espanha aproveitou bastante o crescimento das ligações aéreas bem como a chegada de novos operadores ferroviários.

Para afastar os turistas, Barcelona tirou um ónibus da Google map

José Luis Zoreda insistiu, porém, nas preocupações do setor frente às reações ao overturismo que vão crescendo no país inteiro, das Ilhas Baleares a Andaluzia, das Canárias a Barcelona e a vários lugares da Catalunha. Alugueis inflacionados, transportes urbanos saturados, falta de água em tempo de seca, alta dos preços dos produtos alimentares, muitos problemas da vida cotidiana são agora ligados nas mídias à “invasão” de turistas estrangeiros, às vezes  percebidos como invasores pelos moradores que esquecem em paralelo os benefícios trazidos em termos de empregos ou de infraestruturas públicas.

Exceltur quer ver a Espanha sair do turismo “sol y playa”

Frenteà rejeição dos turistas em varias regiões da Espanha, os profissionais  querem que o turismo continue de crescer além dos recordes de 2024, mas são extremamente conscientes que esse crescimento só será possível se for sustentável e assumido pelos moradores. Há anos, a Exceltur já tinha chamado a atenção das autoridades sobre a necessidade de sair do tradicional turismo de «sol y playa» e de espalhar mais os visitantes, seja em novos destinos do interior ainda pouco aproveitados, seja em épocas de baixa temporada. Para a associação, a Espanha deve agora ir mais longe e só aceitar um crescimento do turismo respeitoso dos lugares e trazendo benefícios claros para os moradores.

Jean-Philippe Pérol

Boicotar ou não boicotar os turistas russos?

Na França, Courchevel era um dos destinos favoritos dos Russos

No complicado contexto da invasão na Ucrânia,  a Rússia anunciou que o seu turismo emissivo atingiu em 2023 24 milhões de viagens internacionais, um crescimento de 16,4% em relação a 2022, mas um resultado ainda longe dos quase 48 milhões que saíram do país em 2019, antes do Covid-19 e dos boicotes impostos depois do início da guerra. Nessa época, o turismo russo representava 3% do turismo mundial. Os destinos vizinhos – Turquia, Finlândia, Cazaquistão, Ucrânia e Estônia- lideravam as preferencias dos russos, mas países ocidentais como França, Itália, Espanha e Suiça brigavam para atrair estes clientes prontos a gastar fortunas nos palácios das capitais ou nos resorts luxuosos de Courchevel, Ibiza, Saint Tropez, Marbella, Gstaadt ou Veneza.

A Riviera turca atraindo cada vez mais os turistas russos

Tudo mudou no dia 24 de fevereiro de 2022. A guerra levou quase todos os países da Europa e da América do Norte a um boicote quase total dos intercâmbios de transporte e de turismo com a Federação Russa. Essa decisão não somente atrasou a recuperação das viagens internacionais mas ainda modificou bastante os destinos desses polêmicos turistas, com um novo ranking mostrando claramente os ganhadores. São a Turquia, com 6,3 milhões de visitantes e um crescimento de +20,7% em relação a 2022, os Emirados Árabes com 1,7 milhão e +42,5%, a Tailândia com 1,48 milhão e +240,6%, o Egito com 1,28 milhão e +35,4%, a China com quase um milhão e + 420%, as Maldivas com 209.1oo e +3.6%, o Sri Lanka com 197.000 e +116,4%, Cuba com 185.000 e +240%, e a Indonésia com 160.000 e +115%. Com 106.000 chegadas, o Brasil recebe hoje 5 vezes mais russos que antes da crise.

Dubai tentando atrair turismo e negócios russos

Aproveitando este sucesso, vários destes destinos já anunciaram que querem se abrir ainda mais ao turismo russo. O Ministro do Turismo do Egito projeta 3 milhões de viajantes russos em 2028, a autoridade de turismo da Tailândia já anunciou uma meta de mais de 2 milhões de entradas logo em 2024, o governo de Cuba assinou um acordou para receber em média 500.000 turistas russos por ano, e a Turquia prevê um crescimento de 10 a 30% em 2024. Dubai oferece vantagens para as viagens de negócios combinando com luxo e segurança, a Tunísia liberou os vistos, e vários países como a Índia, Birmania, Omã, Sri Lanka, Irã e Marrocos estão conversando com o governo russo.

O turismo em Chipre sofreu com o fim dos passaportes dourados

Com motivos políticos ou éticos, o boicote teve consequências importantes para o turismo dos destinos que tinham mais investido no mercado russo. Assim nos Estados Unidos que passaram de 300.000 turistas russos em 2017 a menos de 50.000 em 2022, e em quase todos os países da União Europeia que perderam quase 85% desses fluxos, com um impacto forte nas receitas considerando a forte proporção do segmento luxo e o alto gasto médio por dia. Na Europa, Chipre foi um dos destinos mais impactados, com seu turismo dependendo mais de 30% dos russos, e o setor imobiliário tendo beneficiado dos “passaportes dourados” vendidos por Euros 2,5 milhões a ricos investidores.

Influenciadora russa teve que pedir perdão à arvore sagrada de Bali

Não se pode analisar o impacto destas brutais mudanças dos fluxo turísticos da Rússia sem considerar também o impacto que tiveram para as populações dos destinos e para as outras comunidades. Na hora do overturismo e da crescente preocupação pelo equilibro local, os novos turistas russos tiveram as vezes dificuldades para entender as exigências culturais ou religiosas dos moradores. Em Bali, na Índia ou no Sri Lanka, turistas e locais se desentenderam e as autoridades tiveram que interferir para colocar panos quentes. No Sri Lanka e no Egito, incidentes entre turistas russos e ucranianos tiveram que ser resolvidos. Nos países da Europa, mais implicados no boicote, a situação politica levou a incidentes discriminatórios contra os russos que deixarão marcas no futuro.

A Igreja Russa, um dos pontos esperando a volta dos turistas russos em Nice

O balanço do boicote é hoje difícil de fazer pelas suas múltiplas motivações. Mas, para o setor, ele representa em primeiro lugar um prejuízo importante para o turismo mundial – aproximadamente 20 milhões de viajantes e quase US$ 20 bilhões de receitas a menos, boa parte para os grandes destinos da União Europeia. Mesmo repudiando a guerra e a falta de respeito do direito internacional, os profissionais e os viajantes só podem lamentar que problemas políticos entre governos prejudiquem as atividades de milhares de profissionais que trabalham num setor que se caracteriza justamente por ser uma indústria de paz, de intercâmbio multicultural e de liberdade individual.

Jean Philippe Pérol

Fim da linha para a “Compagnie Internationale des Wagons-lits et du tourisme” …

O Airbus 380 está de volta, até quando?

O Airbus A380, efêmero grande sucesso da Air France

Mesmo se a pandemia quase o tenha matado, e se a Airbus tinha antecipado para 2021 o fim da sua produção, o A380 não quer desaparecer. Com a retomada do setor, os Jumbos do século XXI estão cada dia mais numerosos a percorrer os céus.  Seguindo o exemplo da Emirates, e como únicas exceções a Air France, a China Southern e a Malaysia Airlines, todas as companhias aéreas que tinham adquirido o gigante já o reintegraram parcialmente ou totalmente na sua frota.  É o caso da All Nippon Airways, da Asiana Airlines, da British Airways,  da Korean Air, da Qantas, da Qatar Airways, e recentemente da Etihad.

A Emirates foi pioneira na volta do A380

Singapore, primeira companhia a explorar o A380, tem agora 12 deles voando nas suas rotas asiáticas bem como para Austrália, todos eles com somente 471 passageiros numa configuração luxuosa. A Lufthansa, que planejava se livrar dos 14 aparelhos sua frota, está reativando-o numa versão para 509 passageiros nos voos de Munique para Nova Iorque, Boston, Los Angeles e Banquecoque, lançando uma forte campanha de comunicação que aproveite a incrível empatia do público para este avião tão peculiar. E a própria Emirates, a maior compradora,  já reativou 100 dos seus 123 aviões, todos para 517 assentos dos quais 14 são destinados às prestigiosas suites de primeira classe.

A saturação dos aeroportos favoreceu a volta do A380

Em qualquer uma destas bandeiras, e em todas as rotas onde estão operando, estes aviões são lotados. Acumulando taxas de ocupações de 85 à 90% de ocupação e tarifas aéreas 23% mais caras esse ano – essa carestia deve se manter até 2024 ou mesmo 2025 devido aos atrasos nas entregas de centenas de aviões da nova geração pela Boeing e a Airbus-, os A380 contribuem a melhorar os resultados das companhias aéreas. Para alguns especialistas, poderão inclusive ajudar a trazer de volta os lucros logo em 2023, um ano mais cedo que as previsões iniciais.

Favorito dos viajantes, o A380 não deve ter sucessor

Para muitas companhias, este volta do A380 vai ser duradoura. Emirates, que foi em 2019 a única empresa do setor a pedir uma nova versão do aparelho, está agora repetindo o seu pedido, argumentando que este avião seria uma solução para o congestionamento dos aeroportos consecutivo a retomada, e que deve se acelerar a partir de 2024. Insensível a estes argumentos, a Airbus não tem nenhum previsão sobre um novo super jumbo, e seu diretor comercial acha que as novas tecnologias e a exigência de sustentabilidade vão favorecer os aviões de pequeno porte. Nos próximos anos, é mais que provável que o transporte aéreo continuará com um grande paradoxo: o avião favorito dos viajantes do mundo inteiro continuará a voar, mas será condenado a não ter sucessor. Depois do Concorde, as mesmas esperanças, o mesmo embalo, o mesmo sucesso e o mesmo fracasso?

 

Jean-Philippe Pérol 

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A America Latina aderindo ao slow turismo?

As ruas coloridas de Pijao

Agora com 287 associados, a rede internacional Cittaslow continua crescendo, mas com cautela. Frente ao risco sempre presente do overturismo, a preocupação é de respeitar a promessa de lentidão e de tranquilidade, e de seguir a risca  os 70 critérios da sua carta-compromisso referente ao meio ambiente, as tradições locais, ao desenvolvimento regional, a mobilidade urbana, a hospitalidade e ao bem estar tanto dos moradores quanto dos visitantes. Nascida na Itália, popular há anos na Polônia, na Alemanha e em toda Europa, Cittaslow se espalhou em novos destinos, na Turquia, em Chipre, e na Ásia em Taiwan e na Coreia do Sul.

O intercâmbio com os moradores é um dos charmes da cidade

O turismo tranquilo tem, porém, mais dificuldades para conquistar a América Latina.  Poucos viajantes, mesmo amigos da Colombia, conhecem Pijao, um pequeno vilarejo na área cafeteira, 300 quilômetros ao oeste de Bogotá, que foi porém em 2014 o primeiro destino do continente a aderir ao “slow turismo”. Pijao tem que ser percorrido com calma para aproveitar as casas coloridas, visitar suas lojas de antiguidades, caminhar nas trilhas das suas fazendas de café, descobrir  sua floresta de palmeiras de cera gigantes, ou aproveitar as oportunidades de “bird watching”. E acima de tudo falar com os moradores, ter o tempo de escutar histórias.

Na vizinha Salento, um modelo de turismo mais intenso

Esse turismo tranquilo foi a escolha de Pijao quando aderiu a Cittaslow, um caminho diferente de outros vilarejos da região como Salento ou Filandia cujas cores viraram os xodós dos turistas instagramers cada vez mais numerosos nas rotas do café da Colombia. A escolha da autenticidade, da sustentabilidade e dos fluxos controlados reune a maioria dos comerciantes, dos hoteleiros e dos guias de turismo numa associação que monitora o respeito da carta-compromisso. Voluntários ajudam a preservar as tradições locais, a incentivar os circuitos comerciais curtos, a limitar a poluição sonora, e … a convencer os opositores que a liberação de um turismo menos seletivo não traria a longo prazo nenhum benefício para a cidade.

Em Socorro, os incriveis por do sol da Pedra Bela Vista

A cidade paulista de Socorro é segundo socio latino americano da Cittaslow, e o primeiro no Brasil.Para a  Secretária de Turismo da cidade, Tereza Monica Sartori Marcheto, ” a vocação de um turismo sem pressa surgiu devido a característica do município, a importância da natureza, o interesso pela cultura, a vontade de trabalhar a sustentabilidade e a necessidade de valorizar o bem estar da população”. Com experiencias anteriores de certificação – a cidade foi classificada como Safe Travel pela WTTC-, Tereza destaca que, para seguir os compromissos da carta, é necessário continuar a mobilização, mapear os principais pontos da certificação e sensibilizar a comunidade para multiplicar as adesões. Um guia Descubra Socorro vai assim ser divulgado não somente para os profissionais do turismo e os comerciantes, mas também nas escolas e nas comunidades.

Tereza Marcheto acredita que o slow turismo é um diferencial que vale a pena

Ao contrario do que parece, o slow turismo necessita então um importante trabalho de preparação para ser apropriado por todos seus atores. Muito elogiado pelas mídias nacionais e internacionais, ele traga para Socorro e para todos os destinos que fazem com essa escolha importantes diferenciais competitivos. É, porem, uma tarefa árdua, já que, pelo menos na primeira fase, os resultados  demoram para ser percebidos, e que, a medio e longo prazo, o sucesso junto aos profissionais e a população dependerá das receitas turísticas e dos novos empregos que serão gerados pelo esforço de todos. Um desafio para o slow turismo na América Latina, mas também em todos os destinos que se juntaram a essa nova tendência.

Jean Philippe Pérol

 

Óleoturismo: uma nova paixão do turismo de sabores

A degustação de azeites premiados é a grande experiência do óleoturismo

Turismo gastronômico, turismo culinário, enoturismo, rotas do café, do chocolate, da trufa ou do açafrão, a paixão pelos sabores é hoje, junto à cultura e natureza, uma das maiores motivações de viagem, chegando a ser decisiva para 60% dos viajantes. Essa proporção parece ser mais importante junto aos mais jovens – os Millenials -, e a atração pela gastronomia deu um pulo importante durante a pandemia. No Brasil, o portal de receitas da UOL teve um crescimento de 230% da audiência, o programa MasterChef no YouTube ganhou 129 mil inscrições, e a procura por cursos online cresceu mais de 200%, conforme pesquisa realizada  pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

As azeitonas e o azeite são as raízes da cultura da Provence

Na onda da enogastronomia que motiva agora 80% dos turistas, um dos turismos de sabores que mais cresceu foi o óleoturismo, a procura da oliveira e do seu ouro verde, o presente sagrado que, segunda a mitologia grega, a deusa Atena entregou a humanidade. Em todos os países que a geografia ou a cultura ligaram ao Mar Mediterrâneo, as paisagens, as tradições, e, claro, os culinários, são marcados pelas oliveiras, as azeitonas e o azeite. Foi nesses países que nasceu o óleoturismo, com roteiros bem estruturados nas grandes áreas produtoras, como a Messénia na Grécia, o Alentejo no Portugal, os arredores de Sfax na Tunisia, Les Baux de Provence e Maussane-les-Alpilles na França, ou a região de Izmir no oeste da Turquia.

Mar de oliveiras na Andaluzia

É, porém, na Espanha, maior e mais premiado produtor mundial de azeite, e especificamente na Andaluzia, que o óleoturismo é hoje mais desenvolvido, com o assumido apoio tanto dos profissionais do turismo quanto das organizações de produtores. Indo para Jaen, reconhecida capital mundial do azeite, é possível entender a história do “ouro líquido”, atravessando as paisagens do Parque Nacional  das Sierras Subbéticas, percorrendo as terras repletas de oliveiras centenárias, visitando os moinhos de pedra onde são prensadas a frio, logo depois da colheita, as azeitonas tipo picual, picuda ou hojibranca, para produzir uma azeite extra virgem.

A Hacienda Guzman, imprescindível parada de um roteiro andaluz

As visitas incluem degustações das variedades de azeitonas  (260 são cultivadas na Espanha), ajudando a entender as diferencias de cor, de textura, de amargura, de gordura ou de picância entre as variedades utilizadas para os azeites e as variedades de mesa. Em algumas fazendas, bem como em mercados, bar de tapas ou restaurantes, o azeite é o carro chefe da tradição gastronômica mantida desde Al-Andalus. O azeite se orgulha mesmo de ser uma fonte de bem estar, não somente pelas suas reconhecidas virtudes de nutrição e seu papel central na dieta mediterrânea,  mas também como ingrediente chave de produtos de beleza, de tratamentos ou de massagens que utilizam tanto o azeite como o mel da região para dar brilho ao cabelo ou hidratar a pele.

A mesquita catedral, magia andaluz que não pode ser vista em nenhum outro lugar

Alem das suas 65 milhões de oliveiras, as riquezas culturais da Andaluzia, e seus sete monumentos tombados pela UNESCO, são um outro motivo do sucesso do seu óleoturismo.  Nos arredores de Jaen, alem do Centro de interpretação da azeitona e do azeite, os conjuntos arquiteturais de Ubeda e Baeza  são testemunhos da riqueza do Renascimento na Espanha, quando o Arquivo geral da Índias gerenciava o ouro das Américas. Seguindo as rotas da região, o viajante não pode perder as pérolas do patrimônio mundial que são a mesquita catedral de Cordoba, a Giralda de Sevilha, a cidade perdida de Azahara, ou a Alhambra de Granada, tesouros herdados de uma civilização mediterrânea onde o azeite continua de ter um papel essencial.

Em Gramado, os óleoturistas comemoram o dia da Oliveira plantando mudas

Seguindo as rotas das oliveiras, o óleoturismo atravessou o Oceano Atlantico para virar uma temática de viagens na América do Sul. Em Mendoza, na Argentina, no Vale de Colchagua, no Chile, ou em Maldonado no Uruguai, o azeite se juntou ao vinho e ajudou a consolidar um turismo da sabores de fama internacional. No Brasil de Santana do Livramento a Gramado, no Rio Grande do Sul, o óleoturismo aproveita o impressionante crescimento da produção de azeite, 122% em 2022. Nessas regiões, o sucesso das visitas guiadas, das degustações ou dos cursos, mostram que este turismo de sabores é mesmo uma des grandes tendências das viagens da retomada.

 

Jean-Philippe Pérol

As oliveiras centenárias das fincas da Oro Bailen