Depois da crise, o transporte aéreo acabando com o turismo de massa?

Agora aposentado, o B747 foi decisivo na democratização do turismo

Na história dos últimos 50 anos, a aviação foi o setor que mais influenciou as evoluções do turismo. Com a criação da classe econômica em 1958, o lançamento do Jumbo em 1969, e a multiplicação dos charters nos anos 70, a queda impressionante do preço das passagens levou centenas de milhões de viajantes para destinos distantes. No Brasil por exemplo, a tarifa YE, a mais barata ida e volta para Paris, custava USD 1250 em 1973. Esse valor atualizado com a inflação seria hoje de USD 7905, enquanto essas passagens, para o mesmo destino e na mesma classe podiam ser encontradas, ha poucos meses, a menos de USD 800, ou seja 10 vezes menos. Essa impressionante democratização foi possível  graças aos avanços tecnológicos, mas também por conta da densificação dos aviões – com coeficientes de ocupação passando de 60% para mais de 90%.

Na retomada, sair do underturismo sem voltar ao overturismo?

Levando o turismo de massa para lugares cada vez mais distantes, as companhias aéreas  tiveram um crescimento de 5% ao ano, dobrando os fluxos a cada 12 anos. Em 2020, já eram projetados pela IATA um recorde de 8 bilhões de viajantes com uma receita de USD 1,6 trilhão, e, de Veneza a Machu Pichu, de Roma a Bangkok, de Barcelona a Amsterdã, ou do Mont Saint Michel a Ilha de Páscoa, o overturismo era um dos maiores desafios levantados pelos destinos turísticos. A chegada do coronavirus mudou essa realidade, 80% da frota mundial de aviões está imobilizada, o tráfego aéreo internacional caiu de mais de 90%, hotéis, parques e restaurantes estão fechados, e os turistas confinados  só podem sonhar com impossíveis viagens e esperar que a retomada se apoie em conceitos inovadores  aproveitando tarifas aéreas sempre mais baratas.

As tarifas pos crise parecem  inacreditavéis

Olhando as ofertas de passagens para os próximos meses, pode-se pensar que as guerras tarifárias vão continuar. Alguns analistas pensam de fato que os viajantes vão demorar mesmo para entrar nos aviões, que os homens de negócios vão priorizar as reuniões virtuais, e que as perdas de renda da classe média vão impactar diretamente no turismo. Enquanto as crises anteriores – internacionais, financeiras, politicas, sanitárias ou ecológicas – sempre foram superadas em três, quatro ou seis meses, essa seria mais duradoura. Com clientes relutantes e precisando de cash depois de meses paradas, as companhias aéreas, sejam low costs ou tradicionais, prosseguiriam com suas politicas de promoções excepcionais, pelo menos até que o mercado volta a normalidade.

A Virgin Austrália é uma das companhias que foi a falência

Mesmo se ainda é cedo para antecipar o mundo do “day after” coronavirus, essa hipóteses é  porém  pouco provável. Três fatores devem impedir a queda das tarifas e a alavancagem do crescimento do turismo internacional. O primeiro é que muitas companhias aéreas não vão sair ilesas da crise. Algumas ja quebraram, outras encolheram, outras ainda só serão salvas por aportes maciços de financiamentos públicos. Assim o governo americano prometeu USD 25 bilhões para as companhias americanas, a França USD 7,7 bilhões para Air France, os Países Baixos USD 2,2 bilhões para KLM, e anúncios similares foram feitos pelos Emirados, Colombia, Singapura, Australia, China, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e a Dinamarca. Não se tem dúvidas que essas ajudas terão claras contrapartidas de rentabilidade e de respeito a novas normas que deverão ser conciliadas.

O governo francês anunciou 7 bilhões para Air France com condições rigorosas

Duas exigências dos governos estão aparecendo e vão puxar as tarifas para cima. As novas normas de segurança vão exigir investimentos em novos equipamentos para proteger os funcionários e os clientes, e, para respeitar o distanciamento social, os números de assentos utilizados nos aviões deverão ser reduzidos, com um impacto direto sobre os preços das passagens. Frente à neutralização possível de até um terço dos lugares da classe econômica,  Ryan Air já anunciou que neste caso teria que rever até o seu próprio business modelo. Os empréstimos públicos podem ainda ter outras consequências, a pressão crescente das exigências ecológicas. Redução dos números de slots nos grandes aeroportos, normas de poluição mais rigorosas, e novas taxas “verdes” são algumas das medidas esperadas que vão atingir diretamente ou indiretamente o turismo.

Ryan poderia até parar se as cadeiras do meio fossem neutralizadas

Frente a essas novas despesas, as companhias terão que reverter a tendência de baixa das tarifas, e o « yield management » de não aceitar mais de vender abaixo dos preços de custo. Se o crescimento do turismo,  e as previsões da OMT de 1,8 bilhão de turistas internacionais até 2030, terão com certeza que ser revistas, a nova situação pode também gerar consequências tanto para as companhias aéreas – colocando a concorrência mais em relação à qualidade dos serviços do que em relação aos preços – quanto  para os agentes de viagem cujos conselhos serão ainda mais importantes para ajudar os viajantes a escolherem as melhores ofertas. E se o turismo de massa deve sofrer um certo recuo, a resiliência do setor,  bem como a vontade de experiências transformacionais, podem surpreender no momento da retomada.

 

Jean Philippe Pérol

Em Dubai e nos Emirados, a Expo 2020 adiada para 2021, mantendo as perspectivas de um turismo surpreendente

Expo 2020 em Dubai já conta com mais de 180 paises participantes

Success story do turismo internacional, Dubai foi duramente atingida pela crise do coronavirus e o seu evento bandeira desse ano, a Expo 2020, cuja abertura era prevista para 20 de Outubro desse ano, deve ser adiada  pelo Bureau Internacional de Exposições. Primeira Exposição Universal sediada no Oriente Médio, ganhando a nomeação em uma competição acirrada frente a Ekaterinburg na Rússia e a São Paulo, seduziu os membros  do comité de seleção com as temáticas “conectar mentes e construir o futuro”, destacando oportunidade; mobilidade; e sustentabilidade. como criar um blogO evento já está com os pavilhões dos 180 países participantes bastante adiantados, e todos os seus grandes atores do turismo – hotéis, receptivos e centro de lazeres- prontos para receber os 25 milhões de visitantes esperados pelos organizadores.

O Pavilhào francês na Expo 2000 deve ficar pronto em setembro

Presidida pela França, a comissão executiva do Bureau International des Expositions (BIE) se reunirá dia 21 de Abril para oficializar a proposta de mudança de data – agora de 1ero de Outubro 2021 até 31 de Março 2022. Já apoiada pelo governo dos Emirados e pelos comissários da Expo 2020, a proposta será então submetida a Assembléia geral e deverá ser aprovada por uma maioria de dois terços dos 170 estados membros. Devido as circunstancias, ambas reuniões serão virtuais, e a decisão oficial final está sendo esperada para o mês de Junho. Mesmo sendo oficioso, o adiamento, que não prejudicará em nada a Expo seguinte (prevista em Osaka em 2025, com a temática “conceber a sociedade do futuro e imaginar a vida de amanha”), já é considerado como certo.

O Burj el Khalifa, o ícono de 828 metros, símbolo do dinamismo de Dubai

Além da Expo 2020, Dubai continua acreditando no seu turismo e na sua ambição de chegar a 25 milhões de turistas em 2025, e o antológico percurso realizado nos últimos 30 anos mostram que deve mesmo conseguir. Enquanto o país nem aparecia nos roteiros do turismo mundial com menos de 500.000 visitantes no início dos anos oitenta, conseguiu, com projeto politico, estratégia clara e investimentos certeiros, entrar no top 20 dos destinos turísticos e será provavelmente no top 15 nos próximos 5 anos.  O sucesso em termos de número de visitantes foi acompanhado de um volume de receitas excepcional, USD 25 bilhões, devido a um recorde mundial em despesas por dia, USD 550 ou seja mais do dobro dos gastos médios nas grandes capitais internacionais como Londres, Nova Iorque ou Paris.

Na frente do museu de Dubai, um “dhaw” lembra as raizes da cidade

Se o turismo de Dubai impressiona os profissionais pelo seu extraordinário crescimento nos últimos trinta anos, ele surpreende também o visitante pelo sua diversidade. Famoso pelo seu turismo de luxo – com seus cartões postais arquiteturais como o Burj el Arab e o Burj el Khalifa -, suas opções de shopping – souks tradicionais ou centros comerciais -, e até sua gastronomia inovadora. O destino abriu novas opções. Já se consolidou no turismo de aventura com excursões (esportivas, luxuosas ou confortáveis) nas dunas do deserto, hoje concentradas nos Emirados ou no Omã e que deveriam em breve se estender na Arábia Saudita onde grandes operadoras locais como a Kurban Tours já estão propondo novidades. Destino tradicional para casais, atrai hoje famílias com uma extraordinária oferta de lazeres para crianças que explica que o emirado reivindica ser “a capital mundial dos parques temáticos”.

Em Abu Dhabi, a beleza mágica da Mesquita Sheikh Zayed

Uma das maiores surpresas do viajante descobrindo os Emirados é a dimensão cultural do seu turismo. Além de uma história ainda presente nas ruas dos velhos souks, no museu de Dubai, ou no forte de Al Jahili em El Ain, duas das mais fortes emoções se encontram em Abu Dhabi. Emoção espiritual com a Mesquita Sheikh Zayed, uma verdadeira maravilha do século XXI onde a beleza arquitetural das linhas de mármore branco parece realçar a fé. Emoção cultural no Louvre onde a criatividade do local e a qualidade das obras expostas  mostram o quanto a civilização greco-latina pode ser bem acolhida a beira do Rub al Khali. Nos Emirados, um ambiente cultural intenso a qual uma entrada para Expo 2020 de Dubai  poderá agora trazer mais uma dimensão, a proposta de “conectar mentes e construir o futuro”.

Jean Philippe Pérol

Olhando para China, quais novas rotas para retomada do turismo?

Turista chinesa em Pequim

Enquanto a WTTC alerta para a possibilidade de chegar a 75 milhões de desempregados no turismo mundial,  e que os profissionais brasileiros enfrentem a pior crise econômica e social vivida pelo setor desde a Segunda Guerra, deve ser lembrado que a extraordinária resiliência do turismo levará em breve a uma retomada que pode ser tão surpreendente que a paralização que estamos vivendo. Se é unfelizmente difícil de prever quando os turistas vão recomeçar a viajar, e quais mudanças nos comportamentos vão com certeza aparecer, já pode ser observados as primeiras tendências no mercado chinês. Na China, primeiro pais atingindo pelo virus, as grandes operadoras de turismo já estão assinalando as primeiras reservas de viagens nacionais e internacionais, mostrando os passos do caminho da retomada.

Ctrip Rebrands to Trip.com

Com a crise, Ctrip, agora Trip.com somente adiou as suas ambições

Qunar e Ctrip, duas das maiores agencias online chinesas, ficaram dois meses completamente paradas mas recomeçaram a aceitar reservas a semana passada, seja menos de quatro meses depois do inicio da crise em Wuhan. Na Qunar os clientes já podem escolher entre mil pacotes para todas as cidades ou regiões da China onde não existem restrições de viagens e onde os governos locais estão incentivando a reabertura , como Shanghai, o Xinjiang e o Sichuan. A Ctrip tem um aplicativo que  recomeçou a aceitar reservas, oferecendo passagens e pacotes para 1449 destinos turísticos chineses, seja 40% do total. Para esses dois lideres, e para outras grandes operadoras,  parece assim muito claro que a retomada vai privilegiar numa primeira fase o turismo domestico.

O Festival de Songkran na Tailândia

Os profissionais chineses esperam também uma retomada das viagens internacionais antes do final de Abril para os países que estarão prontos a reabrir suas fronteiras. Poderia ser o caso da Tailândia, onde o presidente da « Tourism Authority of Thailand » (TAT), está atuando junto com o governo, as autoridades sanitárias e os profissionais para ficar pronto antes do 13 de Abril, dia do ano novo budista. Muitos especialistas são mais cautelosos, os obstáculos sendo não somente  melhorar as normas e os controles sanitários, mas também conseguir ganhar a confiança dos turistas que são agora atentíssimos a estas questões, e temem participam de grandes agrupamentos. A Tailândia pode porem ser otimista, os destinos de proximidade devendo ser os primeiros a beneficiar da retomada das reservas de viagens internacionais.

Bleisure, this booming social style

O bleisure pode ser um dos primeiros segmentos a aproveitar a retomada

Se é impossível fazer previsão de datas, o exemplo chinês mostra que essa crise, como muitas outras antes, poderá começar a ser superada em quatro meses, e que a retomada deve ser concentrada em primeiro lugar no turismo nacional e nos destinos internacionais de proximidades. Alguns segmentos poderiam também recuperar mais rapidamente que os outros. A legitima vontade dos governos de priorizar a economia deve provavelmente favorecer as viagens de negócios, incluindo para as feiras internacionais que terão sido adiadas ou mantidas, as viagens individuais ou as viagens de “bleisure” combinando negócios com estadias de lazeres para esquecer os dias de confinamento.

Cruzeiros em navios menores pode ser uma das novas tendências

Assim como os responsáveis do turismo da Tailândia, os especialistas vão seguir com muita atenção a volta dos turistas chineses e as novas tendencias desenhadas pela crise do coronavirus, com mais preocupações referentes a saude, aos seguros de viagem, a qualidade dos equipamentos sanitários ou a higiene dos destinos. A crise poderia também levar a reavaliar as agremiações gigantes que mostraram fragilidade. O tempo poderia ser do “small is beautiful”, seja na escolha de cidades menores, de navios pequenos ou de eventos de tamanho mais humanos. O turismo vai com certeza se reerguer mais rapidamente que esperado, mas a retomada vai com certeza seguir novas rotas que devem ser antecipadas.

Esse artigo foi inspirado de um artigo original de Serge Fabre na revista francesa profissional on-line La Quotidienne

O coronavirus e o underturismo

O Louvre fechado por causa de coronavirus

Verdadeiro choque para os profissionais do mundo inteiro, o cancelamento do salão Internacional do Turismo de Berlim virou o símbolo da crise que a economia turística está atravessando. A recessão já atingiu os grandes mercados da Asia, quatro dos quais – a China, a Coreia, o Japão e Taiwan- sendo listados no top ten dos  países emissores publicado pela Mastercard. A progressão do virus na Europa, e especialmente na Itália, está agora atingindo em cheio os maiores mercados receptivos do mundo, e as praças desertas de Veneza ou o fechamento do Louvre ilustram o impacto  do coronavirus. Para as empresas do setor, as ameaças sobre as receitas do setor (somente na França as perdas são estimadas a um bilhão de euros por mês), e mais ainda sobre milhões de empregos, mostram de forma espetacular os riscos do “underturismo”. 

Veneza abandonada pelos turistas

É verdade que até a explosão da epidemia na Italia, as preocupações públicas giravam mais em torno do problemas que o turismo de massa estava trazendo, o overturismo era o a ameaça-mor. Em Barcelona, Amsterdão, Roma, Veneza ou Paris, os responsáveis procuravam, as vezes com sucesso, soluções criativas para conciliar visitantes, moradores e profissionais do setor, e permitir aos grandes destinos turísticos internacionais de escolher os “melhores” turistas em função das suas despesas, das suas sazonalidades, dos destinos associados ou das atividades procuradas. Os problemas perduram, e moradores e profissionais exigem com razão soluções duradouras e sustentáveis. A brutal queda das reservas lembram agora as autoridades, aos empresários e a todos os funcionários do setor, que o turismo do século XXI  pode também ser ameaçado pelo sumiço dos viajantes, e que o “underturismo” é tão preocupante que o overturismo.

As companhias aéreas sofrem com os cancelamentos de viagens

Os esforços dos médicos, as medidas dos governos, e a chegada da primavera no hemisfério norte, vão com certeza conseguir vencer a crise do coronavirus. A resiliência extraordinária do turismo vai com certeza trazer de volta em alguns meses os fluxos a seus níveis anteriores, e até ajudar a recuperar perdas. Mas, com a mesma certeza, é possível antecipar que todos os atores que foram castigados com a queda dos fluxos turísticos  -companhias aéreas, hotels, museus, espetáculos, parques ou comercio – vão integrar as suas visões do futuro do setor umas importantes lições. Sem discutir a necessidade de trazer soluções para o overturismo, a economia dos destinos, o sucesso dos empresários, os empregos e a vida dos moradores, vão pressionar para que este novo turismo, focado em experiencias sustentáveis e respeitosas dos moradores, descarta tambem de vez o risco de “underturismo”.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Em Manaus, um novo ciclo do turismo?

O Caxirí, um grande endereço da gastronomia amazonense

Pode parecer um paradoxo, mas somente alguns meses depois do chocante fechamento do mítico Hotel Tropical, Manaus parece aproveitar um grande momento de renovação turística. A cidade, descrita na sua infância pelo génio criativo de Jules Verne, e  marcada no seu auge pela extravagancia de Eduardo Ribeiro, sempre acumulou projetos ou realizações  que favorecerem o urbanismo, a vida cultural, as tradições culinárias e o turismo. Mas, desde do fim do ciclo da zona franca comercial, na época de ouro durante a qual o barco Jumbo da Selvatur levava 300 visitantes por dia para Janauari, a Air France pousava duas vezes por semana, e oito voos por dia chegavam de Sao Paulo, parece que nunca teve tantas novidades hoteleiras e gastronômicas, e tantas ambições  para o turismo do Amazonas .

A Casa Perpetua, a aconchegante herança da borracha

As novidades hoteleiras estão pipocando, mas duas delas mostram claramente as novas tendencias que Manaus está seguindo nas reabilitações exemplares do Largo São Sebastião e das cercanias do Teatro Amazonas. A saudade assumida da grandeza do inicio do seculo passado se vê na Casa Perpetua aonde a empresaria Claudia Mendonça conseguiu transformar uma mansão construída em 1897 pelo desembargador Vidal Pessoa num aconchegante hotel boutique. Com o apoio dos atuais proprietários,  herdeiros do segundo dono, o libanês de cultura francesa François Harb, a casa conseguiu acomodar oito quartos, dois salões, um restaurante e um charmoso patio com uma mini piscina. Dos tradicionais assoalhos bicolores até os impressionantes pé direitos, a arquitetura interna e a decoração são piscar de olhos a época gloriosa (e confusa) da cidade.

O domo do restaurante do Juma Opera olhando as telas do Teatro

Esperado há quase 15 anos, a abertura do Hotel Juma Opera demorou mas não decepcionou os fãs do bem conceituado lodge pertencendo ao mesmo grupo. Escolhendo um casarão do centro histórico, espetacularmente localizado frente a “Opera”, os arquitetos decidiram de manter o espírito da época da borracha, mas de combinar lo com uma decoração apurada, moderna, e com muita inspiração amazônica nas fotos, nos objetos e no ambiente. Um grande lance foi a construção do restaurante no patio, com  uma enorme cúpula de aço e vidro que responde a cúpula coberta de telhas coloridas da Alsácia  do Teatro Amazonas. Assinando um cardápio de pratos regionais,  a chefe Sofia Bendelak mostrou as suas ambições de se juntar ao grupo dos melhores restaurantes gastronômicos amazônicos que já conta com dois grandes talentos manauaras no Banzeiro e no Caxirí.

No mercado municipal, a escola de Gustave Eiffel

A espetacular reabilitação do centro de Manaus se vê também descendo para a beira rio e chegando no Mercado Adolfo Lisboa, cuja beleza a moda de Eiffel combina hoje com um ambiente seguro e limpo. E o visitante tem agora varias opções para beber um suco de taperebá olhando os numerosos “motores de linha” prontos a zarpar para as cidades do interior. A riqueza cultural da cidade encontra aqui a beleza  do Rio Negro, os trunfos do Amazonas para virar um destino turístico “top of mind” no Brasil e no exterior. Há muito tempo sonho de desenvolvimento sustentável da região, o turismo precisa confirmar esse novo impulso resolvendo o seu maior problema, a conectividade. Pronto a oferecer o que for necessário aos possíveis candidatos, a Presidente da Amazonastur, Rosilene Medeiros, conta com um apoio total do governo estadual para aumentar suas ligações aéreas internacionais com os Estados Unidos, o Caribe, e – pourquoi pas?- l’Europe.

Jean Philippe Pérol

 

A espetacular piscina do Juma Opera

O Coronavirus, crises e resiliência do turismo

Na praça Tien An Men, um casal de turistas em vez da costumeira multidão

Desde a explosão do turismo de massa, as crises são parte da realidade do nosso setor. Foram crises politicas, seja com guerras ou com atos de terrorismo, que atingiram o Oriente Medio mas também a Inglaterra, a França, os Estados Unidos, ou a Espanha. Foram desastres naturais, furacões no Caribe, tsunamis na Indonesia e na Tailândia, vulcões na Argentina ou na Islândia. Foram doenças contagiosas como  o SARS e a gripa aviária que castigaram a Asia,  ou a Ebola na África ocidental. Foram desastres industriais  como Tchernobyl na então União Soviética e Fukushima no Japão, ou desastres aéreos cujos traumas vão muito além dos amigos e dos familiares das vítimas. Cada crise impactou as economias das regiões atingidas (e as vezes a economia global), mas o turismo sempre foi fortemente atingido.

Macau sem seus lendários cassinos

Desde o 12 de Dezembro, inicio da crise, e enquanto o balance humano já se aproxima dos 600 mortos, o setor vê as más noticias se acumular. Só hoje, abrindo os jornais, se lê no le Point que a Air France KLM está suspendendo todos os seus voos para China até o 15 de Março,  no New York Times que os cassinos de Macau estão todos fechados, no El Pais que o coronavirus obriga a cancelar dezenas de eventos esportivos e perturba os Jogos de Tóquio, e no O Globo que quase 2 mil pessoas estão sob quarentena no navio cruzeiro World Dream atracado em Hong Kong. Alguns especialistas já estimam que  a epidemia poderá custar de 1 à 1,5% de crescimento ao PIB mundial, e setor de viagens e turismo deve sofrer um impacto negativo global estimado em 100 bilhões de USD ou mais.

Navio de cruzeiro em quarentena no porto de Hong Kong

O tamanho da crise se deve em primeiro lugar ao fato que ela atinge um pais que é o maior mercado mundial de turismo, com 150 milhões de viajantes gastando quase 300 bilhões de USD nas suas viagens internacionais, representando 20% das despesas mundiais. Na própria China são recebidos 60 milhões de visitantes internacionais , e mais de 4 bilhões de viagens domésticos são realizados pelos proprios chineses. As medidas excepcionais tomadas pelo governo chinês – suspensão desde janeiro de todas as viagens organizadas- , pelos grandes países emissores – os Estados Unidos, a Grão Bretanha e a França “desaconselhando” de entrar na China-, ou pelas principais empresas de transporte aero ou marítimo –  British Airways, Lufthansa, Air France, American Airlines, Delta, United, cruzeiros Costa ou  MSC-, explicam também a gravidade da crise que atinge outros países da Asia e ameaça até o Jogos de Tóquio.

A sombra da crise pesa nos Jogos de Tóquio

Mas tão grave que seja a crise, as lições do passado mostram que o turismo tem uma resiliência  extraordinária. Se comparar com outras crises dramáticas das ultimas décadas, podemos encontrar motivos de otimismo. O primeiro é que os mercados não levam mais que quatro a seis meses para voltar a seus níveis anteriores, a tendencia sendo mesmo de diminuição desse prazo. O segundo motivo é que pouquíssimas crises chegaram a provocaram uma queda anual do crescimento, e que, quando foi, uma forte recuperação aconteceu logo o ano seguinte. As previsões da OMT para o final dessa década, 1,8 milhão de turistas internacionais, não deveriam então ser modificadas. Para o Brasil, muito distante do foco da epidemia ,e que parece por enquanto poupado pela doença e pela mídia internacional, podemos continuar a esperar que a retomada econômica e a estabilidade monetária  levam a um novo crescimento do turismo tanto emissor que receptivo

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Na Holanda, o melhor turismo passa pelos Países Baixos

Os canais de Utrecht, uma alternativa ganhadora

Se a Holanda é chamada desta forma nas mídias internacionais, e as vezes na própria comunicação, o seu nome oficial sempre foi Países Baixos. Desde 1579 – quando se revoltaram contra o então domínio espanhol-, as Províncias Unidas eram sete. Passaram hoje a ser doze, mas a Holanda continua sendo somente uma delas, mesmo se a mais importante pela potência da sua economia e a predominância das suas três cidades, Amsterdã, Roterdã e Haia. Até agora tolerante com essa dualidade de nomes, o governo decidiu que a partir do primeiro de janeiro de 2020, os documentos oficiais dos ministérios, das universidades, das embaixadas e das empresas públicas  terão obrigação de utilizar exclusivamente o nome Países Baixos. Um novo logotipo, combinando as iniciais NL com a tulipa cor de laranja  já simboliza a mudança.

O antigo e o novo logotípo do turismo dos Paises Baixos

A medida vai ter muitas consequências, algumas das quais ainda não resolvidas, especialmente na área esportiva que vai ter como prioridade definir o nome da equipe nacional de futebol que vai estrear na Copa Euro 2020 no próximo mês de junho. Mas a clara intenção do governo com essa mudança de nome é de valorizar o interior, especialmente quando se trata de turismo. No setor, a primeira mudança será de mudar (ou não?) o nome do site oficial do turismo “holland.com”. Preocupado com  o overturismo em Amsterdã – a cidade de um milhão de habitantes recebe hoje 17 milhões de turistas- e com as projeções de crescimento do turismo internacional no país que passaria de 19 a 29 milhões nos próximos dez anos, os Países Baixos, que já pararam de promover seu turismo no Exterior, querem mudar completamente a sua estratégia no setor.

Amsterdão não aceita mais o overturismo

A cidade de Amsterdã já tinha tomado varias medidas contra o overturismo, começando com uma regulamentação drástica (mas pouco eficiente) das atividades de AirBnb, reforçou as restrições. Foi assim decidida a redução dos transportes coletivos para os turistas como os barcos táxis, os segways ou as carruagens. As excursões de barco – os “bateaux-mouches”- não poderão mais parar no centro da cidade, os barcos hotéis não serão mais autorizados, e os navios de cruzeiro já foram avisados que não serão mais bem vindos. Ao mesmo tempo, antecipando a notoriedade crescente do destino, o Netherlands Board for Tourism & Conventions (NBTC) anunciou uma nova politica de segmentação dos mercados para espalhar os fluxos turísticos e ainda melhorar os impactos sobre a economia nacional.

Maastricht seduziu os exigentes redatores da Lonely P;anet

O NBTC deveria assim fechar seus escritórios da Itália, da Espanha e do Japão, ampliar suas ações na China e reforçar suas campanhas na Alemanha, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Bélgica e na França. A prioridade será de atrair viajantes experientes,  já conhecendo a Holanda, querendo descobrir os Países Baixos além de Amsterdão, em cidades históricas como Maastricht, Groningen ou Arnhem, e valorizando os produtos artesanais de todas as regiões do pais, sejam tulipas, queijos, tamancos, porcelanas ou obras artísticas contemporâneas. Com US$ 10 milhões de verbas do governo, essa nova e corajosa política de “melhor turismo”, combinando apoio à economia local, luta contra o overturismo e “upgrade” do destino, deve ajudar os Países Baixos a melhorar ainda mais seu ranking dentro do turismo mundial.

Jean-Philippe Pérol

Na Amazônia brasileira, um necessário consenso pelo turismo!

A natureza intocada, riqueza turística da Amazônia

O desenvolvimento sustentável da Amazônia brasileira parece um objetivo tão evidente que é difícil imaginar que todos os  responsáveis politicos, os moradores, as ONG bem como os atores econômicos e sociais da região não cheguem a um consenso geral para atingi-lo. Esse consenso é mais evidente ainda – e mais necessário- quando se trata do turismo, atividade trans-setorial que só pode se desenvolver e prosperar com a implicação e os esforços de todos. Além de algumas ONG -especialmente estrangeiras- que esquecem que a Amazônia brasileira é do Brasil, de alguns ambientalistas que não valorizam o desenvolvimento econômico ou de alguns grileiros que desprezam a sustentabilidade, o turismo deveria conseguir criar um consenso geral por ser uma atividade econômica e social que pode justamente ajudar a desenvolver a região, reforçando a integração nacional e preservando a sustentabilidade.

Encontros com comunidades são momentos fortes  para os visitantes

Os recentes acontecimentos em Alter do Chão, com a surpreendente prisão (e depois a soltura) de quatro ambientalistas acusados de tocar fogo na mata para incentivar compaixão – e remessas de dinheiro- da opinião pública nacional e internacional, e os esquisitos bate bocas entre o presidente e o Leonardo DiCaprio mostram que ainda há muito caminho para percorrer. Se o alvo parece ser a sustentabilidade, o turismo é diretamente ameaçado por dois motivos. O primeiro é que os turistas que procuram a Amazônia brasileira têm forte motivações ecológicas. Além da extraordinária história da região, eles querem ver e viver os ecossistemas tão peculiares, os papéis na luta contra os efeitos de gás estufa, ou as ligações das comunidades locais com a natureza. Durante as suas estadias na região, mostram na grande maioria dos casos atitudes responsáveis, de respeito a natureza, de preservação  dos animais e de apoio aos moradores.

Lodges, pousadas ou hotéis criam empregos e empurram as economias locais

A falta de consenso afetaria o turismo também pelo fato de que os ambientalistas são atores profundamente envolvidos nesse turismo sustentável. Em Manaus, Novo Airão, Alter do Chão, Macapá ou Soure, hotéis, pousadas ou lodges foram construídos e continuam a ser explorados por pessoas convencidas da urgência da defesa do meio ambiente e do apoio ao desenvolvimento das comunidades. Muitas operadoras ou agências de receptivo trabalhando na região têm ligações estreitas com ONGs ou associações comunitárias, e a maioria oferece para os seus clientes a possibilidade de ajudar fundações locais ou de participar de projetos humanitários. E em alguns casos esses projetos se tornam até a principal motivação da viagem tanto de turistas brasileiros quanto de visitantes internacionais.

Na Fundação Malaquias, o sucesso das sinergias entre edução, turismo e ambientalismo

Mas o turismo sustentável precisa com a mesma urgência do apoio das autoridades em todos os níveis. Na Amazônia, como em todos os grandes destinos turísticos, os atores privados ou públicos do setor precisam de uma forte implicação das autoridades para definir a estratégia, orientar os investimentos, assegurar as normas de qualidade, e organizar a capacitação profissional. Numa região onde 86,2% do espaço é protegido como parques, reservas indígenas ou extrativistas, áreas preservadas ou devolutas, o suporte dos responsáveis administrativos e políticos federais, estaduais e municipais é fundamental para o sucesso do turismo. Os conflitos que ainda aparecem são as vezes lamentáveis, ofendem a natureza, os moradores e a sociedade, mas traduzem as dúvidas ou as preocupações de parte da população. O turismo pode e deve ser o primeiro setor onde se encontra um consenso de todos para continuar no caminho do desenvolvimento sustentável  que a Amazônia precisa.

Jean-Philippe Pérol

Com 12,8% do espaço disponível, o consenso para o desenvolvimento é imprescíndivel

 

O Belle Amazon, com Turismo Consciente na comunidade de Urucurea

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

Festuris em Gramado, o turismo brasileiro que dá certo!

Mesmo esperado, o sucesso da Festuris impressionou

Pela sua 31° edição, o mais charmoso dos grandes encontros do turismo brasileiro bateu recordes e superou as expectativas. A FESTURIS, Feira Internacional de Turismo de Gramado, contou essa ano com 17 mil participantes, incluindo 11 mil visitantes profissionais, um crescimento global de 5% que mostrou que o evento deixou de ser limitado a região Sul do pais. 35% dos agentes registrados vieram dos outros estados do Brasil ou dos países do Mercosul . E nos 25 mil metros quadros do Serra Park, os organizadores celebraram a presença de 2.700 marcas expostas vindo dos quatro cantos do Brasil e de 65 destinos internacionais. Mostrando eficiência e produtividade, a FESTURIS teve também como destaque mais de 4 mil agendas de reuniões que geraram novos recordes de faturamento para os participantes.

Gramado e seus moradores são o primeiro fator de sucesso

Se o sucesso de FESTURIS se deve a vários fatores, o primeiro é sem dúvida a própria cidade de Gramado. Assim como Deauville para a  antiga Top Résa, Cannes para o ILTM, ou Marrakech para Pure Life Experience, Gramado oferece para o seu maior evento um quadro perfeito. São infraestruturas reunidas num espaço pequeno que facilitam os deslocamentos, hotéis de todos os níveis de conforto mas todos de qualidade, um palácio dos festivais  e um centro de convenções extremamente prático. Mas importante ainda para o viajante é a visível apropriação pelos moradores da vocação turística da cidade. Alem de limpeza e segurança, os Gramadenses oferecem aos visitantes um atendimento e um respeito que fazem das ruas da cidade locais aconchegantes onde multiples animações podem ser oferecidas.

O espaço Wedding foi um dos lançamentos mais bem sucedidos

Iniciada pelos organizadores há alguns anos, a segmentação das ofertas foi sem dúvidas uma visão de futuro. O turismo de niche e a procura de experiências especificas é uma grande tendência desses últimos anos, e FESTURIS soube responder com espaços personalizados respondendo as especificidades dos expositores de cada atividade ou segmento.  Ao tradicional Espaço Luxury, se somaram os espaços Termalismo e Bem-Estar, Viagem pela Cultura e Costumes, Business, Tech e Corporativo, Sustentabilidade e Acessibilidade, Entretenimento, Gastronomia, um muito concorrido salão Wedding e uma ampla area para o turismo LGBT. Esses espaços, bem como os potenciais de outras ofertas temáticas ou de outros segmentos de mercado, contribui muito ao sucesso de FESTURIS 2019.

No jantar do Guilherme Paulus, Eduardo Sanovicz, Magda Nassar, Newton Cardoso, Caroline Putnoki e Jean-Philippe Pérol

Durante as solenidades  da festa de abertura, nas emoções das entregas dos Troféus Amigos do Festuris, no concorrido e sofisticado jantar que Guilherme Paulus organiza no Saint Andrews, nas palestras ou nas mesas redondas da “Meeting Festuris”, nos encontros casuais nos corredores da feira, Marta Rossi e Eduardo Zorzanello souberam também criar um clima descontraído e profissional que atrai cada vez mais os lideres e os influenciadores do trade. Na competição entre as grandes feiras de turismo do Brasil, onde destacam-se outras fortes lideranças brasileiras como Carolina Perez, Luciana Leite e Magda Nassar, a capacidade de gerar encontros, debates, palestras e discussões informais, contribuindo assim a entender e definir as grandes tendencias do mercado, é hoje para FESTURIS um fator importante de sucesso.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

Os cruzeiros apostando agora na sustentabilidade

Os veleiros da Star Clippers, campiões de sustentabilidade

Quase dobrando em dez anos, o mercado dos cruzeiros deve chegar este ano a 30milhões de pessoas, divididos em mais de 300 navios, dos charmosos veleiros da Star Clippers até os cada vez mais impressionantes gigantes da MSC Cruzeiros ou da Royal Caribbean. Construído em Saint Nazaire – o mesmo estaleiro francês que entregou em dezembro o badalado MSC Grandiosa -, o  Symphony of the Seas,da Royal Caribbean, atinge 362 metros de comprimento e 66 metros de largura. Para hospedar e divertir os 6314 passageiros, tem 2745 cabines, 20 restaurantes, 30 bares, 11 piscinas, simuladores de ondas para surfe, dois teatros, dois spas, um casino, um minigolfe, e uma pista de patinação, com 2394 tripulantes cuidando do conforto e da segurança de todos. Mais de 100 outros navios serão entregues até 2027, um investimento de US$ 65 milhões para uma capacidade de 130 mil cabinas.

O impressionante crescimento dos cruzeiros na China

O sucesso dos cruzeiros se mede também pela diversificação da clientela. Enquanto os norte americanos representavam mais de 90% dos 7 milhões cruzeiristas do século XX, essa proporção baixou para 83,9% em 2006, 69% em 2011 e menos de 50% hoje. Ainda predominantes, muito cortejados, o mercado dos Estados Unidos continua crescendo mas sem o dinamismo dos mercados europeus e asiáticos. Na Europa, os alemães e os ingleses já são 2 milhões a escolher cruzeiros para suas férias, abandonando talvez  em contrapartida grandes destinos na França ou na Itália que sofrem com essa concorrência. No outro lado do mundo, a China triplicou em cinco anos como mercado emissor, chegando esse ano a mais de 2,5 milhões de cruzeiristas. O Brasil também é destaque, com 16% de crescimento em 2019, 670 mil  cruzeiristas e boas perspectivas tanto nacionais como internacionais.

Os gases tóxicos são a principal preocupação dos moradores dos portos

Tamanho desempenho não podia não chamar a atenção sobre o impacto ecológico desses gigantes do mar. Com exceção de raros veleiros, os navios de cruzeiros são movidos a combustível pesado, um óleo quase bruto, barato, pagando pouquíssimos impostos, e extremamente poluidor. Chegando a queimar mais de 300 mil litros por dia, essas embracações são assim alguns dos maiores responsáveis pelas emissões de óxido de enxofre (segundo uma recente pesquisa da ONG T & E, os 94 navios da Carnival teriam emitidos em 2017 dez vezes mais desse gás tóxico que os 260 milhões de carros da União Européia), bem como de óxido de azoto e de partículas ultrafinas. Mais do que o despejo no mar de aguas não tratadas – hoje proibido pela Cruise Lines International Association (CLIA) -, são essas emissões de gases emitidos até nos portos 24 horas por dia que preocupam  ecologistas e autoridades sanitárias.

Cannes exige o respeito de um código de sustentabilidade

Frente a essas críticas, e para antecipar tanto as novas normas adotadas pela OMI (o regulador das Nações Unidas) que a multiplicação das areas de emissão “controladas” na América do Norte, no mar Báltico, no mar do Norte e em alguns portos do mar Mediterrâneo, as companhias de cruzeiros já estão reagindo. Segundo a CLIA, investimentos de US$ 6 bilhões já foram decididos para diminuir as emissoes de carbono dos motores atuais e para utilizar a energia elétrica fornecida pelos portos durante as escalas. Marselha anunciou assim que quer ser o primeiro porto 100% elétrico até 2025. A médio e longo prazos, os motores híbridos, ou funcionando com gás natural liquefeito (GNL), são a solução escolhida por várias companhias. Dois navios desse tipo, o Aida Nova e o Costa Smeralda, já estão navegando e 20 outros já foram encomendados.

O Roald Admunsen quer ser ecologicamente exemplar

As preocupações de sustentabilidade das grandes companhias de cruzeiros vão agora alem da redução das emissões de gas. A MSC está programando um objetivo “zero carbone print”, acreditando em novas tecnologias e com investimentos compensatórios em projetos carboneutros de grandes entidades internacionais. A Norwegian Cruise anunciou o fim dos plásticos de uso único nos seus navios, e Hurtigruten quer fazer do seu híbrido  “Roald Amundsen” um exemplo de boas práticas nas suas rotas polares. Mostrando que a sustentabilidade deve incluir responsabilidades globais, algumas companhias de cruzeiros  estão participando dos programas da Travel Corporation’s Treadright Foundation. Com importantes realizações, mas ainda com importante caminho a percorrer, o setor afirma agora ser convencido de fazer os investimentos necessários para atingir a exemplaridade ambiental e social que o sucesso requer.

Jean-Philippe Pérol