Blogueiros e agentes de viagem, aliados ou concurrentes?

A Grand Place de Bruxelas

Bruxelas, sede do Salão dos blogueiros de viagem 2016

Depois de Cannes em 2014 e de Ajáccio em 2015, o Salão dos blogueiros de viagem escolheu Bruxelas para sua terceira edição, juntando 200 blogueiros e 72 destinos na capital da Bélgica para um evento misturando conferencias, encontros de negócios e noite de gala. Co-patrocinadora do evento com a Accor e o turismo belga, a associação francesa dos destinos internacionais de turismo – ADONET – aproveitou  para lançar o primeiro “Clique de Ouro”, premiando o melhor blog de viagem francófono. A vencedora foi Aurélie Amiot com  Madame Oreille , um blog de viagem muito focado em fotografia que virou então na França o símbolo do novo relacionamento que os destinos turísticos querem construir com os blogueiros.

Nomadic Matt, o blog de viagem líder em visitas

Nomadic Matt, o blog de viagem líder em visitas

Seja na França, nos Estados Unidos ou no Brasil, os blogs mostraram nos últimos anos que são um fator chaves nas decisões de 65% dos viajantes, que encontram nessas paginas do web uma criatividade, uma liberdade, e mais ainda a faculdade de interagir com os redatores.  Reconhecidos como influenciadores digitais, os blogueiros de viagem são procurados para parcerias com os destinos, os hotéis ou as companhias aéreas que buscam novos conteúdos e novos canais de comunicação com seus clientes. marcaEssas parcerias ajudam os blogueiros a descobrir o mundo, virar uns “blog- trotters” vivendo e dividindo as suas paixões, porem trazendo pouco faturamento. Cada vez mais numerosos , só nos Estados Unidos quase 60.000, no Brasil mais de 3.000, os blogueiros de viagem são  menos de 5% a viver dessa atividade, e as vezes somente parcialmente.

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Votretourdumonde.com, um dos mais influentes blog de viagem da França

Para profissionalizar as suas atividades e conseguir rentabilizar-las, dinâmicos e criativos blogueiros diversificam os seus serviços. Eles agem não somente como jornalistas – oferecendo conteudos-, mas como mídias – vendendo  espaços publicitários e links patrocinados -, esses últimos sendo a maior fonte de renda dos blogueiros americanos. Alguns oferecem reservas de serviços ou de passagens, virando operadoras de turismo, agencias on-line, ou mesmo agencia de receptivo, e gerando preocupação das agencias tradicionais que denunciam uma nova concorrência que seria, em alguns casos, desleal.

Conexão Paris, o primeiro blog especializado sobre França

Conexão Paris, o primeiro blog especializado sobre França

É importante que as autoridades ficam atentos ao respeito das legislações do setor e a proteção do consumidor. Mas, depois das agencias on-line, dos sites de  vendas diretas e da economia colaborativa, a chegada dos blogueiros de viagem  como atores incontornáveis do trade turístico é hoje uma evolução irreversível que deve ser vista, não como uma ameaça, mas como uma fonte de oportunidades. Para os destinos, os blogs de viagem abrem novas opções, sendo canais privilegiados para comunicar com primeiro-viajantes ou para convencer fãs de atividades especificas. logoPara todos os atores tradicionais, possibilidades de sinergia estão aparecendo, e o sucesso dos blogs de viagem de grandes agentes ou operadores brasileiros, seja da CVC ou da Teresa Perez, mostram que os viajantes estão interessados a ter essas opiniões livres, descontraídas e interativas antes de escolher e de comprar. E qualquer que seja o circuito de compra escolhido – hoje sempre aquele onde o viajante encontra o maior valor agregado para a sua própria viagem-,  os blogueiros serão, para os destinos e todos os atores do setor, grandes aliados para ajudar no dobramento dos turistas mundiais previsto pela Organização Mundial do Turismo nos próximos quinze anos.

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi publicado originalmente no Blog “Point de vue” da revista profissional Mercados e Eventos

 

 

 

 

 

O turismo culinario: uma experiência de gastronomia, cultura e sustentabilidade

Feira livre em Grandville na Normândia

Feira livre em Grandville na Normândia

Se a gastronomia sempre foi um forte atrativo para os turistas – chegando a ser citada por 62% dos brasileiros viajando para a França , perdendo só dos monumentos e da cultura-, os grandes encontros do paladar  eram reservados para os gourmets, conhecedores que integravam nos seus roteiros restaurantes de grandes chefes estrelados ou cursos da Cordon Bleu. Le-Cordon-Bleu-Kitchen1Com o crescente interesse dado pelos viajantes aos prazeres da mesa, a culinária virou uma forma de descoberta de um destino turístico e os profissionais – operadoras, receptivos ou agentes de viagem, estão agora oferecendo experiências gastronômicas que, alem de refeições saborosas ou de degustações de vinhos, incluem compras com chefes nas feiras livres, encontros com produtores locais, visitas de hortas ou até de apiários, convites em casa de moradores ou ensino de pratos tradicionais.

Uma pesquisa publicada no ano passado pela Adventure Travel Trade Association (ATTA) mostrou que a oferta de viagens com temática culinária  está atraindo todos os atores do turismo, incluindo os especialistas de aventuras ou de descobertas. blog_la_lozere_cet_immense_plateau_de_fromages_03Assim 281 operadoras de 54 países responderam que 50% dos seus clientes querem atividades ligadas a gastronomia, e que os circuitos incluindo experiências culinárias são mais procurados, especialmente pelos viajantes de mais de 50 anos, porque ajudam a entender melhor o destino, seus moradores e sua cultura. Em 46% dos itinerários, o foco não é tanto as refeições mas as tradições culinárias do destino, mas atividades conexas como visitas de fazendas, encontros com produtores, cursos de cozinha tradicional, descoberta de vinhedos ou de cervejarias, degustações de bebidas regionais.

Degustação de cachaças

Degustação de cachaças

A pesquisa da ATTA destacou também quais são as novas tendências que os profissionais estão percebendo junto aos viajantes  e que terão que ser integradas nos itinerários. EtalageDestaca-se uma refeição junto com moradores – ou até cozinhar com eles, a fabricação de uma bebida personalizada, um curso sobre os aromas específicos do destino, a criação de uma receita inspirada da gastronomia local, uma iniciação a colheita de frutas ou cogumelos selvagens. A culinária vira até um portão de entrada para descoberta de outras temáticas como a pesca, a caça, a medicina tradicional, a biodiversidade e  a sustentabilidade. Integrando agora a programação dos grandes atores de turismo, essas tendências já tinha sido antecipadas pelo hotelaria de luxo, do Pierre em Nova Iorque até oMISTURA 2012 RECORRIDO CON GASTON ACURIO PHOTO CREDIT: VICTOR IDROGO Les Sources de Caudalie em Bordeaux. Foram também muito bem definidas e divulgadas em 2014 pela associação dos Relais Châteaux no seu manifesto chamando para a criação de um mundo melhor através da gastronomia e da hospitalidade, e fazendo da preservação das gastronomias do mundo. Uma ambição que deve ser dividida não somente com todos os viajantes mas também por todos os profissionais do turismo.

Esse artigo foi traduzido e inspirado de um artigo original de Aude Lenoir no site profissional canadense Réseau de veille en tourisme – Chaire de tourisme Transat

Degustação de queijo em Saint Nectaire na Auvergne

Degustação de queijo em Saint Nectaire na Auvergne

Bleisure: viagem de negócios ou viagem de lazer? Os dois!

O Grand Palais, desde Napoleon III, recebendo feiras e exposições de Paris

O Grand Palais recebendo feiras e exposições desde Napoléon III

Enquanto as maiores agencias de viagem consideravam ainda há pouco que as barreiras entre viagens de negócios e viagens de lazer eram insuperáveis, uma recente pesquisa da Egencia (do Grupo Expedia) mostrou o forte crescimento das viagens combinadas, o “Bleisure” dos profissionais norte-americanos. bleisureO Bleisure é praticado hoje por 24% dos viajantes de negócios  franceses, 20% dos alemães e dos estadunidenses, 10% dos ingleses, e 25% dos brasileiros. Ele interessa os responsáveis das agências corporate que perceberem o potencial dessa nova tendência, e os hoteleiros  já anotaram a prorrogação de estadias para motivos particulares, bem como os pedidos crescente dos homens de negócios para atividades de lazer. Segundo uma pesquisa da BridgeStreet Global Hospitality 60% deles já fizeram uma viagem de tipo “Bleisure”, 54% com familiares, e 46% esticam a maioria das suas viagens de negócios para descobrir o local e suas ofertas culturais. As principais atividades procuradas são as visitas turísticas  (77%), os restaurantes (66%), os eventos culturais ou artísticas (66%), preferencialmente na mesma cidade.

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O Pullman Paris Tour Eiffel

Para atrair esses viajantes, os hotéis multiplicam as ofertas. O Orchard Hotel de Singapura criou um pacote “Bleisure experience” valorizando piscina e jacuzzi, incentivando a visitar a cidade e oferecendo um vale para um salão de beleza. Em São Francisco, o Hotel G promove o “Bleisure at the G” incluindo acesso aos transportes públicos e descontos em varias atrações turísticas.Meeting Room in Pullman concept Com o slogan “Work Hard Play Hard”, a marca Pullman, do grupo Accor, reinventou a sua proposta misturando os ambientes de trabalho e de lazer. Os lobbies dos hotéis, as suas salas de reuniões “Business playground”, os seus restaurantes ou bares foram redesenhados para satisfazer trabalho e divertimento. Com a oferta “Connectivity by Pullman“, conexões de alta velocidade são oferecidas nos quartos e em todas as áreas, com equipamentos desenvolvidos em parceria com a Microsoft e a Samsung. Querendo também atrair os clientes “Bleisure”, os hotéis canadenses Day Inn criaram uma tarifa “Ferias de negócios” 15% abaixo das melhores ofertas anteriores.

Bleisure by Millenium

A “Bleisure experience” da Millenium

Se o Bleisure era até agora promovido de forma discreta junto aos viajantes de negócios, ele é hoje integrado na comunicação e nas campanhas de muitos hotéis. O Ten Manchester Street de Londres aconselha a todos seus clientes de adicionar diárias pessoais às suas estadias profissionais. E o Bob Jacobs, vice presidente dos hotéis Sheraton e Westin para América do Norte, explicou que essas ofertas  são agora sempre incluídas nas propostas para grupos de incentivos, especialmente quando os participantes são jovens executivos da geração Y. Bleisure by AirBnb As agências de marketing especializadas aconselham de oferecer essas tarifas não somente na hora da reserva, mas também durante a estadia dos clientes, especialmente para os finais de semana. A oferta de condições especiais para famílias ou acompanhantes podem, ou até devem, ser integradas nos tarifários dos hotéis, mesmo quando caracterizados como hotéis “business”. Com os viajantes de negócios assumindo a procura de lazer, e os viajantes de lazer querendo continuar a seguir os seus negócios, as fronteiras entre os dois tipos de viajantes, até agora bem distintos, estão ficando flexíveis. Companhias aéreas, hotéis, operadores e agentes de viagem vão ter que se adaptar ao Bleisure. Os novos consumidores não aceitam ser categorizados e não querem limites para os serviços oferecidos. A pioneira Airbnb já avisou: o Bleisure em breve vai virar a regra!

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Aude Lenoir no site profissional canadense Réseau de veille en tourisme –  Chaire de tourisme Transat

France Meeting Hub, encontros de turismo de negocios na Alsacia

France Meeting Hub da Atout France, encontros de turismo de negócios na Alsácia

Turismo atingido preocupa economia, cultura e liberdade!

Abaixo da Pirámida do Louvre

A desvalorização do real, a falta de perspectivas econômicas e as incertezas políticas levaram as viagens internacionais dos brasileiros a uma seria queda em 2015. Se os números finais ainda não são completamente conhecidos, já parece claro que todos os principais destinos – Argentina, Estados Unidos, França, Portugal ou Caribe – enfrentaram redução de 5 a 10% das chegadas de turistas brasileiros. Mars 2015 , um avião quase vazio para MiamiA queda já comprovada dos gastos dos brasileiros no exterior chegou a  31%, de 24 bilhões de dólares em 2014 para 16 bilhões em 2015. Os viajantes se adaptaram com a nova realidade do Real frente ao Euro e (mais ainda) ao Dólar. Os destinos de shopping – e as despesas de compras- caíram, os hotéis mais econômicos e a AirBnb foram destaques de vendas, e a procura pelas promoções de ultima hora das companhias aéreas mudou os hábitos de reserva.

Destinos de compras sofrem com a crise

Com menos viajantes gastando menos, mesmo se adaptando com mais criatividade e mais esforços de produtividade, as operadoras e as agencias de viagem estão enfrentando um cenário de crise, e varias empresas conceituadas já tiveram que demitir funcionários ou até fechar as portas.  Enfraquecidas pela conjuntura, elas estão agora ameaçadas de receber um novo golpe com  mudanças de tributação. Edmar BullDramaticamente denunciada por todos os profissionais, a não reversão da incidência de 25% para 6,38% dos  tributos sobre remessas para o exterior pode levar a um encarecimento violento e uma queda mais brutal ainda das viagens internacionais. Numa carta endereçada a Presidente Dilma, as entidades do setor, lideradas pela Abav e a Braztoa,  lembraram os riscos econômicos que o imposto de 33% traria para as empresas de turismo, podendo levar a perda de  600 mil empregos diretos e indiretos, a R$ 20 bilhões de impacto negativo na economia brasileira, e ao enfraquecimento de um setor que movimentou em 2014, segundo dados da WTTC, 9,6% do PIB nacional.

Dilma e o turismo

Mas o apelo para que não se desse um novo golpe ao turismo brasileiro não deve se limitar a seu impacto econômico. Viajar para o exterior é hoje uma aspiração profunda a qual ninguém está pronto a renunciar, especialmente esses novos viajantes que, nos últimos dez anos,  colocaram o Brasil nas grandes potências do turismo mundial. Para 66 % dos viajantes(*), viagem é cultura, seja vendo monumentos, visitando museus, assistindo a espetáculos, encontrando gente diferente, descobrindo outras gastronomias e outras maneiras de viver, e mais ainda encontrando gente com visões diferentes do mundo. Turismo é cultura! Bloquear as viagens internacionais é também negar esse direito que tantos brasileiros adquiriram há pouco tempo.  Mais ainda, viajar é não somente um direito, mas também uma liberdade fundamental que não pode ser restrita numa democracia. Impedir os seus cidadãos de ir e vir pelo mundo colocando obstáculos – fossem eles financeiros ou tributarios-  não seria um bom sinal nem para os brasileiros nem para o mundo. O turismo internacional deve sem duvidas trazer sua participação a retomada econômica do Brasil, gerando empregos e riquezas. Será porem, com certeza, recebendo muito mais visitantes vindos do mundo inteiro, trabalhando o acervo conquistado na Copa e nos Jogos Olímpicos,  e não tentando impedir as classes emergentes brasileiras de ter acesso a essas maravilhosas experiências de cultura e de liberdade que o turismo pode trazer a cada viajante.

Jean-Philippe Pérol

A estatua da Liberdade e a Torre Eiffel

 (*) Fonte: Pesquisa Atout France e Swiss tourism sobre o turismo exterior da classe media brasileira (2014)

38 visitas de sites por reserva de viagem, a complicada abundância de informações!

A Geode da Cité des Sciences em Paris

A “Geode” e a fonte da Cité des Sciences em Paris

Qual é que seja a sua escolha final para fazer a sua reserva, o viajante passa muito tempo na Internet visitando sites para obter as melhores informações, planificar o seu roteiro, e achar o melhor preço. Segundo uma pesquisa recentemente apresentada pela Wendy Olson Killion, da Expedia Media Solutions, são 38 websites de viagem visitados nos 45 dias anteriores a reserva final. Geração Milenio São sites de metamotores de pesquisa, de destinos, de OTAs, de operadoras, de agencias receptivos ou de fornecedores locais.  As pesquisas chegam ao pico na última semana, quando o tempo passado na tela chega a dobrar. A abundância de informações deixe o consumidor com a impressão de um processo complexo, onde até os viajantes mais familiarizados com o Web – os “Millenium” nascidos entre 1980 e 2000 – se sentem perdidos e precisam ser orientados.

Para ajudar na criação de  conteúdos ricos, de vídeos de qualidade e de  imagens em alta definição, Expedia está trabalhando com vários destinos, ajudando-os a produzir material originais para diferenciar e consolidar  suas marcas. DinamarquaIsso inclui um showcase com um vídeo das Bermudas que contribui a mudar a imagem dessas ilhas até agora caracterizadas como um destino de turistas de terceira idade. Uma outra campanha exemplar foi montada com o turismo dinamarquês, construindo um itinerário de bicicleta numa Copenhague animada, rica em gastronomia, design, historia e vida noturna. Assim como Expedia, a Google Travel também acredita na força dos conteúdos, insistindo no potencial pouco explorado da Youtube que ainda oferece poucos vídeos ajudando os internautas a concretizar seus desejos de viagens.

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O excesso de informações e a concorrência entre os sites de viagem, e a necessidade dos viajantes de ser orientados, viraram um forte argumento para os agentes de viagens tradicionais, especialmente aqueles que se especializaram em nichos de mercado, seja as viagens de aventura, o turismo enológico, as luas-de-mel ou cruzeiros fluviais.google-flight-search Quase todos os websites querem levar os internautas até a reserva, incluindo a Google que já lançou até um aplicativo para aproveitar ofertas de vôos e de hotéis.  Para M. Beckmann, seu Diretor de Marketing, a escolha de uma viagem é um processo longo que vai além da procura de um avião e de um hotel, uma caminhada chamada por ele de “travel snacking”, durante a qual o consumidor vai beliscando informações e ideias para o seu roteiro, até a decisão de comprar. Encontras a Francesa 2015 (Foto Panrotas)Mas depois de passar por 38 sites, frente a oferta pletórica que Expedia, Trip Advisor, Google ou os grandes websites de viagem estão apresentando, a necessidade de conselhos, de assistência durante o processo de reserva, e mais ainda  de serviço durante a própria estadia, são cada vez os fatores de diferenciação necessários para convencer os clientes. Essa tendência, jà confirmada nos Estados Unidos, vai virar uma verdadeira oportunidade para os agentes brasileiros!

 

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi traduzido é adaptado de um artigo original de Serge Abel-Normandin da Pagtour.

Agente ABAV

 

 

Viajar é preciso!

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Depois do pedido de recuperação judicial da Nascimento, a suspensão das operações da Designer Tours foi mais uma notícia dramática que revelou o quanto o setor do turismo é hoje um dos mais prejudicados pela crise econômica e financeira no Brasil. designerDiante de uma previsão de crescimento negativo de 3% este ano e de 1% em 2016, e ao nos depararmos com um dólar que ultrapassa os R$ 4,00, com projeção de atingir o patamar de R$ 5,00, torna-se difícil evitar o pessimismo e conseguir enxergar, nesse cenário atual, algo além de grandes ameaças para todo o setor.

A CIDADE LUZ

Porém, é preciso lembrar que também há razões para escapar do desespero e até mesmo para manter o otimismo. A primeira é que o turismo mundial continua crescendo, tanto doméstico que internacional. Segunda a OMT (organização mundial do turismo), as viagens vão passar de um pouco mais de 1 bilhão em 2015 para 2 bilhões em 2030, um crescimento que será principalmente impulsionado por duas regiões do mundo: a Ásia e a América Latina. O turismo doméstico irá crescer nas mesmas proporções, uma tendência claramente observada esse ano pelas grandes operadoras nacionais que anunciam crescimento de até 20%, com a queda do real impulsionando a competitividade da oferta doméstica.

Turismo domestico no Rio Negro

O crescimento das viagens continuará sem dúvidas no Brasil, pois os novos consumidores “emergentes”, que nos últimos dez anos descobriram destinos como o Nordeste, Gramado, Buenos Aires ou Paris, não vão parar de viajar repentinamente. O turismo agora faz parte do comportamento, do jeito de viver e quase da “cesta básica” de milhões de brasileiros da classe B e C. Viajar se tornou um meio fundamental de acesso à cultura, às compras e ao lazer, que não pode acabar com a crise. Mesmo que haja uma queda nas viagens ou uma mudança na escolha dos destinos e dos produtos, o desejo de viajar não somente vai permanecer, mas ainda vai continuar necessitando da atuação dos profissionais para transformar esses sonhos em realidade.

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Os consumidores continuarão viajando, mas a crise vai acelerar as mudanças não somente no tipo de viagem procurada, mas também na forma de comprar tais viagens. Os danos empresariais e humanos recorrentes do fechamento de grandes operadores ou de pequenos negócios não são somente consequência da crise brasileira. FRAMEles também estão ligados às novas tendências do consumo e às novas tendências da distribuição, tanto no Brasil como nos grandes países da Europa e da América do Norte. Nos últimos quinze anos, um terço das agências de viagens fecharam as portas nos Estados Unidos, muitas operadoras de médio porte desapareceram ou foram compradas e, ainda essa semana, a FRAM, uma das maiores empresa do setor da França, entrou em liquidação judicial.

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No entanto, lembrando com respeito, tristeza e saudade da Designer ou da Nascimento, novos atores surgem simultaneamente para oferecer produtos ou serviços mais adaptados às exigências do novo consumidor.Guilhermo Paulus e JPP Grandes destaques existem no próprio Brasil: seja o fantástico sucesso da CVC, a criatividade mundialmente reconhecida do Hotel Urbano, a chegada da JTB, da TUI ou da Expedia, o dinamismo da Schultz. Ressalta-se a grande diversidade de novas pequenas operadoras, que oferece produtos específicos nas áreas da cultura, esporte, enologia, turismo religioso e ecoturismo, e até a economia colaborativa da AirBnb. Surfando nas novas tendências do turismo global, para essas empresas e para muitos profissionais do setor, no receptivo, no doméstico ou no internacional, no lazer ou no turismo corporativo, a crise que o Brasil atravessa será superada. AirBnb RIO 2016Eles poderão aproveitar as oportunidades dessa nova economia, com a tranquilidade de saber que o mercado  continuará crescendo e até dobrando nos próximos quinze anos o número de brasileiros para os quais, mais do que nunca, viajar será preciso!

Jean-Philippe Pérol

ALFAZEMA NO LUBERON - copie

 

As agencias receptivas nas revoluções do trade turistico!

Agencia receptivo da Wagons-lits no Rio em 1935

A primeira agencia da Wagons lits no Brasil, foto de Abril 1936

Iniciada no mundo literário francês do século XIX, a briga dos antigos e dos modernos divide ainda hoje o mundo das profissões do turismo. Enfrentam-se, com garra e argumentos, pro ou contra o comissionamento das passagens, pro ou contra as vendas diretas das operadoras, pro ou contra as agencias on-line,ECTAA-Lufthansa ou, mais recentemente, pro ou contra a decisão do grupo Lufthansa de cobrar as reservas feitas através dos GDS concorrentes. Cada evolução, seja feliz ou dramática, vira uma batalha verbal (e, as vezes, jurídica) entre aqueles que querem aproveitar as mudanças e aqueles que acham possível atrasar ou até bloquear a chegada das novas regras ou das novas tecnologias validadas – ou não- pelo mundo lá fora.

Se no Brasil o trade já passou por mudanças importantes, e recentemente drásticas, muitas ainda estão acontecendo e o debate sobre as comissões (não) pagas pelas companhias aéreas continua agitando operadoras e associados da ABAV.abav Ao nível internacional, uma nova onda de intermediação esta provocando turbulências que poderiam essa vez perturbar as operadoras. Esses novos atores,  aproximando viajantes experientes e agencias receptivas locais, conhecerem nos últimos anos um forte crescimento em torno de três conceitos simples: colocar diretamente em contato os viajantes (ou as agencias emissoras) com receptivos do mundo inteiro, oferecer serviços extremamente personalizados, deixar ao cliente uma liberdade total referente ao transporte aéreo.

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Chamados de “Feiras livres de receptivos”, esses intermediários têm várias maneiras de trabalhar. Os pioneiros, Evaneos ou Le Voyage Autrement , possuem registros de operadoras, porém não faturam o cliente e cobram uma comissão sobre as vendas diretas das agencias receptivas presentes nas suas plataformas. O sucesso do modelo levou grandes operadoras a criar sites especializados . voyageur-du-mondeNa França por exemplo, “TraceDirecte” pertence ao grupo Voyageurs du Monde,  e Visages Découvertes foi fundada pela rede de agencias receptivas  Réceptifs Leaders. Essas empresas escolheram uma forma clássica de remuneração, cobrando entre 5 e 17% de comissão e faturando diretamente o viajante. Com a mesma vontade de valorizar as agencias receptivas, mas sem querer acessar ao cliente final,  Doyourtravel  inventou ainda uma outra proposta, tornando-se uma plataforma com ferramentas sofisticadas para as agencias de viagens poder montar e faturar roteiros atraentes. Nesse modelo tanto as agencias receptivas que as emissoras devem comprar uma assinatura para o sistema ao qual os consumidores não têm acesso.

TraceDirecte

Oferecendo viagens de 10 à 25% mais baratos que nos revendedores tradicionais, esses novos atores do turismo atraem clientes não acostumados a agencias de viagem ou operadoras. São ex-backpackers, hoje casados ou com crianças, que querem programar roteiros diferentes e personalizados, mas com segurança e organização. Clientes difíceis de segurar, eles gostam dos contatos diretos com  os receptivos locais,  não ameaçando as grandes operadoras, mas obrigando os especialistas a reagir com criatividade. Travel Agent Day May 06 2015_0Para as agencias tradicionais, esse novo modelo vai com certeza levar a novas brigas entre os antigos e os modernos. Mas é claro que a relação direta, com mais serviços locais, vai também  trazer mais oportunidades, seja para mostrar competências, agregar valor ou atrair novos clientes. A intermediação das “Feiras livres” ainda está se consolidando, mas em todos os casos as agencias receptivos locais continuarão a ser incontornáveis tanto através das grandes operadoras que via os corajosos inovadores do trade turístico.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Bernard Scheou no Reseau Veille Tourisme da “Chaire de Tourisme Transat ESG UQAM”

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Na Thomas Cook, a “Pop-up store” anuncia a nova agencia de viagem!

 

www.antoinecibert.com

Nascer do sol na capital da Auvergne. Foto Antoine Cibert

Como será a agencia de viagem do futuro? A Thomas Cook France, herdeira do famoso grupo fundado pelo próprio Thomas Cook em 1841, decidiu tentar uma experiência inédita. Thomas CookNo shopping de Nacarat, perto de Clermont Ferrand, capital da Auvergne, inaugurou uma “pop-up store”, loja efémera que ficará aberta até o final de junho. Aproveitando a clientela de forte poder aquisitivo que frequenta as 78 lojas – algumas de marcas muito conhecidas como Sephora, Swarowski, Zara, H&M  ou Leroy Merlin- , a Thomas Cook quer atrair para as suas agencias de viagem um publico mais jovem e até então mais acostumado a comprar suas viagens diretamente na internet.

POP STORE CLERMONT

Mesmo se inspirado do design das lojas tradicionais da empresa, a pop-up store tem um visual muito aberto e bem aconchegante, deixando os clientes a vontade para sonhar e criar os seus roteiros de viagens. Numa tela digital, a Thomas Cook apresenta os últimos clips das suas campanhas publicitarias bem como vídeo dos parceiros ou dos destinos selecionados. thomas-cook-agence-ephemere-2Travel Glass (óculos com visão 360 graus) ficam a disposição dos visitantes para umas visitas inovadoras de locais ou de hotéis. As ofertas das operadoras são todas exclusivas, ou pelas tarifas concedidas ou pelos produtos apresentados, alguns tendo sido adaptados para ter saídas do aeroporto de Clermont Ferrand. Alem de grandes operadoras como a Jet tours (antiga subsidiaria da Air France, que chegou a ter charters para o Brasil), a Disney e Cruzeiros Costa apoiaram esse operação pioneira. E o Club Med – que pertence agora ao chinês Fosun, também acionista da Thomas Cook – não podia deixar de estar presente, apresentando um concurso de fotos de viagens.

Club Med Chine

A presencia do grupo chinês na mais antiga agencia de viagem do mundo vai sem duvida multiplicar as inovações nessa anciã do turismo mundial. A Fosun, que comprou 4,8% do grupo mas quer subir para 10% e mais, já anunciou alguns eixos de crescimento. Maiores sinergias para distribuição do Club Med, melhor aproveitamento dos sites de vendas on-line, crescimento das atividades de receptivo e investimentos conjuntos na hotelaria jà foram alguns das possibilidades levantadas. Nessa nova estratégia mundial, a pequena Pop-up store de Clermont Ferrand pegou uma importância inesperada. No Brasil, onde grandes movimentos envolvendo operadoras, agencias on line e agencias tradicionais estão sendo esperados pelo mercado, essas ideias novas também podem vingar.

Jean-Philippe Pérol

PUY DE DÔME E VULCANIA

Quais orientações para o turismo em 2015?

Courchevel e AirBnB, uma nova e surpreendente promoção.

Courchevel e AirBnB, uma nova e surpreendente promoção.

Em toda o planeta turismo, observadores, profissionais e viajantes tentam adivinhar as grandes orientações de 2015. No Brasil as primeiras análises parecem pessimistas, ninguém se arrisca a prever um crescimento tanto das chegadas de turistas internacionais quanto das viagens dos brasileiros para o exterior. CB_GUEULETON_CR_UNE_2-400x400As transportadoras já esperam uma super capacidade da oferta, as operadoras e as agências só mostrarão previsões de altas com crescimentos externos alegrando as Bolsas mas não aumentando o número de clientes. A morosidade dos viajantes não impede porém novas mudanças que continuam revolucionando o setor. Pelo terceiro ano, o seminário organizado no Quebec pelo Paul Arseneault, da Universidade do Quebec em Montreal, e  o Pierre Bellerose, de Tourisme Montréal, tentou apontar as ideias marcantes para 2015, algumas já influenciando o mercado brasileiro do turismo.

O turismo virou imagens que devem contar historias personalizadas. O viajante quer bater fotos, fazer selfies, mandar vídeos onde ele vai ser valorizado, essa valorização pessoal sendo quase tão importante quanto o próprio destino escolhido. As informações correm rápido, no Facebook, no Youtube ou no Instagram, e a viagem deve permitir não somente  contar mas construir essa historia. Essa nova atitude deve ser respeitada logo na promoção, a hiper-personalização fazendo de cada cliente uma “nicho” de mercado e matando o marketing de massa.

Os serviços devem sempre incluir qualidade, conforto, criatividade e experiência global. Essas são agora exigências com as quais todos devem se submeter. Em um hotel se espera não somente um colchão de qualidade, um wifi grátis e de alta velocidade, mas um checkin relâmpago, o respeito ao meio ambiente e até uma integração da comunidade local. O restaurante tem que trabalhar com produtos e pratos regionais, oferecer uma verdadeira experiência gastronômica e saber gerenciar as exigências de reservas. Exif_JPEG_PICTUREOs novos conceitos atingem até os aeroportos. Ai o viajante não é mais somente um passageiro com um checkin beneficiado pelas novas tecnologias, cartão de embarque no smartfone e chips para identificar a mala. Ele é um consumidor passeando  em um shopping gigante, comendo em restaurantes ou se divertindo aproveitando um wifi grátis.

As agências tradicionais e as agencias on-line vão se reaproximar. Neste fim da época de ouro do crescimento com dois dígitos, as agencias on-line estão reinventando o seu relacionamento com seus clientes. Frente a agencias tradicionais agora mais consolidadas, convergências vão aparecer. As experiências físicas e virtuais vão se tornar complementares com o uso de todos os canais – on line em computadores, tablets ou celulares , agências, centrais telefônicas, entrega a domicilio. A aparição de uma nova ferramenta da Apple para gerenciar a globalidade das viagens é também uma possibilidade.

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O turismo colaborativo vai continuar a crescer, pelo menos na hospedagem e no transporte. Mesmo com uma forte hostilidade dos outros atores do setor – agências, hotéis ou táxis -, e com necessários acertos com as autoridades – controle de qualidade, taxas ou impostos-, a oferta de serviços colaborativos convenceu os usuários do mundo inteiro. As plataformas de hospedagens e de transporte urbano vão continuar a se expandir, e outros setores, como as visitas com guia ou até a alimentação, podem seguir.

Norte do Peru

Mesmo com uma economia parada e um crédito escasso, as novas tendências vão se firmar no Brasil, cada uma no seu ritmo. A força das mídias sociais, o potencial de algumas operadoras, a recente privatização dos aeroportos vão até acelerar certas mudanças apontadas no exterior. A provável apatia do mercado vai do seu lado dificultar a aparição de novos destinos. JPP NO LES SOURCES DE CAUDALIESCom menos reais e um dólar caríssimo, o crescimento da América do Sul (Chile, Bolívia ou Peru),  e a consolidação dos grandes destinos tradicionais na Europa ( Itália com Milão e Roma, França com Paris, o Mont Saint Michel, Bordeaux ou a Borgonha) devendo ser as tendências mais marcantes.

Jean-Philippe Pérol

E-turismo: as agencias on-line numa encruzilhada?

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Na Franca, pela primeira vez desde que nasceu o e-turismo, as vendas das agências de viagens na Internet baixaram esse ano em relação ao ano anterior. A queda começou com -1% no primeiro semestre, mas ficou mais importante a partir de julho e chega agora a -4%, atingindo mais especificamente as agencias on-line tradicionais. Evolution-de-e-tourismeA tendência é preocupante para o turismo porque as vendas globais na internet continuam em alta, com um faturamento de 56,5 bilhões de Euros esse ano, e um forte aumento do numero de sites de vendas, agora mais de 150.000, incluindo muitas start-ups. A morosidade do turismo não atinge os outros setores de e-comercio que estão ainda em forte crescimento: 9% para as vendas de produtos de consumo ao publico, e 8% para as vendas B2B.

DSCN0121Olhando os números proveniente dos Estados Unidos, se vê também que a euforia do turismo on-line està diminuindo. Lá, as agencias on-line estão além disso enfrentando um outro desafio, o crescimento das vendas diretas dos grandes fornecedores – companhias aéreas ou hoteleiras – que já estão abocanhando quase 60% do mercado das vendas de turismo no web.

Claro que as viagens continuam sendo líderes de vendas no web, e claro que se trata da França ou dos Estados Unidos, e não do Brasil. hu_pacote_lisboa_paris_aereo_001_normalAqui as agencias on-line ainda aproveitam crescimento excepcionais, mais de 11% em 2013 e provavelmente ainda 6% esse ano. Mas era 18% em 2012, e a tendência é mesmo de queda. Nesse novo quadro, o modelo econômico das OTA (On line Travel Agency) vai ter que evoluir. O tempo da valorização dos investimentos pela conquista de mais faixas de mercado vai talvez acabar, e os lucros vão assim voltar a ser os primeiros critérios de avaliação dos grandes atores do setor.

A primeira agencia da Wagons lits no Brasil, foto de Abril 1936

A primeira agencia da Wagons lits no Brasil, foto de Abril 1936

Frente a essas encruzilhadas, as agencias on-line jà estão mostrando mais qualidade e criatividade.  Lançam produtos e serviços mais sofisticados, melhoram o contato com o cliente, reforçando o atendimento com chat ou telefone, e as vezes mesmo (re)abrindo lojas …. Com as agencias tradicionais agora consolidando suas posições nos segmentos de lazer com mais valor agregado, a concorrência vai redobrar, e a grande aventura das agencias de viagem que o Thomas Cook começou a escrever em 1842 ainda não acabou….

Jean-Philippe Pérol

Esse artigo foi adaptado dum artigo original do L Echo Touristique