O turismo “transformacional” como nova tendência?

Desafio físico e abertura de espírito diferenciam o turismo transformacional

Enquanto “experiência” e “autenticidade” pareciam ser as últimas tendências da indústria turística, a palavra “transformacional” está agora crescendo para definir as novas procuras dos viajantes mais exigentes. Criada em 2016 nos Estados Unidos, o Transformational Travel Council reúne profissionais oferecendo experiências de viagens que visam contribuir na transformação de vida de cada participante. Enquanto o turismo de experiência oferece intensos momentos que enaltecem e as vezes justificam a viagem, mas que não mudam atitudes ou comportamentos futuros, o turismo transformacional quer oferecer experiências com um impacto importante sobre o futuro dia a dia de cada participante. Com uma grande abertura de espírito, a vontade de enfrentar desafios físicos, e o tempo livre para refletir, esses viajantes querem experiências únicas capazes de melhorar a sua própria vida quando voltar.

Spa safaris e estágios de ioga em Nihi Sumba Island

 Os atores do turismo estão se adaptado a essa procura de realização pessoal. Operadoras, hotéis ou receptivos oferecem novos produtos e serviços, tanto para os visitantes quanto para os moradores interessados nessa nova maneira de viajar, especialmente nos setores do turismo de luxo e do bem estar. Com spas cada vez mais diferenciados, o bem estar surfou a onda das viagens transformacionais, virando segundo The Global Wellness Summit (GWS) uma das grandes tendências de 2018. No Butão, um hotel spa Six Senses está abrindo um circuito de cinco pavilhões seguindo os cinco pilares do Índice de Felicidade Humano do país. O resort americano The Red Mountain Resort reinventou seus pacotes de bem estar como experiências sensoriais seguindo os seus heróis. Na Indonésia, o Nihi Sumba Island pretende ser o melhor hotel do mundo com seu novo conceito de Spa safari.
Source : Youtube

Viajar para mudar a sua vida é também uma das principais tendências do turismo de luxo. Segundo uma pesquisa 2018 da empresa especializada Skift, a realização pessoal é hoje o primeiro luxo. Grandes cadeias hoteleiras e agencias especializadas desenvolvem produtos para seduzir esses viajantes que querem experiências personalizadas, combinando luxo e realização pessoal, seja com ofertas culturais ou espirituais excepcionais, com estabelecimento de ioga de alto padrão ou com ofertas de glamping em lugares fora do comum. A operadora chilena Cascada Expediciones , ganhou o prêmio Transformational Travel dos PURE Awards em 2017 com  Dientes Trek, uma caminhada de seis dias no extremo sul da América, onde a beleza, a potência   e a fragilidade da natureza transformam as relações entre os participantes e suas visões da modernidade.

Os caminhos de Santiago, uma antiga caminhada transformacional?

Olhando pela historia das viagens, o turismo “transformacional” é talvez não uma novidade, mas ao contrário, é a forma mais antiga de viajar. As viagens de iniciação ou as peregrinações  existiam desde a Antiguidade e a Idade Média, e são ainda hoje (de Roma a Santiago, de Meca a Jerusalém ou Benarés), as maiores motivações de viagem. A nova tendência deve muito a chegada  dos profissionais do bem estar e do luxo nesse setor, tanto pela criação de novos produtos como pela sua comercialização. Na busca crescente de experiências únicas, o turismo “transformacional” é um passo para frente, uma promessa porém difícil de garantir: por mais perfeita que seja a organização de uma viagem, a realização pessoal dos participantes depende no final somente de cada um.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Julie Payeur  na revista profissional on-line Reseau de veille en tourisme, Chaire de tourisme Transat 

Encontros bem sucedidos mostram cultura e espiritualidade como novas tendências do turismo na Normandia

Perto da nova catedral, o centro antigo de Rouen

Perto da nova catedral, o centro antigo de Rouen

Recebendo o salão Rendez vous en France, o maior encontro do turismo francês – com 740 expositores e 892 agentes de viagens e operadores vindo do mundo inteiro, inclusive 40 brasileiros-, a cidade de Rouen e a região da Normandia mostraram que estão se consolidando como um grande destino do turismo francês. Foi, em primeiro lugar, um sucesso para Rouen que mostrou  que tinha muito que mostrar alem da força da memória de Joana d’Arc e do excepcional patrimônio histórico dos arredores da sua catedral. Convenceu  que era capacitada para organizar grandes eventos,  utilizando o Rio Sena para opções criativas de hospedagem e de passeios, envolvendo os moradores bem como os profissionais da cultura, da alimentação e do lazer.

A Ferme Saint Simeon, onde um Relais Châteaux guarde o ambiente criado pelos impressionistas

A Normandia atrai os visitantes pelo impressionismo, o atrativo turístico mor da região . É foi mesmo o famoso quadro “Impressão, sol nascendo”, pintado pelo Monet em Le Havre em 1872, que batizou esse movimento artístico. Monet escolheu a pequena cidade de Giverny onde trabalhou 43 anos no ateliê hoje aberto ao publico. Junto com ele, Corot foi trabalhar em Barbizon, Millet morou em Cherbourg e depois em Le Havre, Pissaro ficou em Eragny sur Epte, e o parisiense Renoir passava o verão no litoral normando. Todos esses artistas se encontravam  nos arredores de Dieppe ou de Honfleur, especialmente na Ferme Saint Simeon, hoje um Relais Châteaux que se orgulha de oferecer a seus visitantes o mesmo ambiente e o mesmo carinho que a Mère Toutain, então dona do local, oferecia aos primeiros “impressionistas”.

O Arcanjo dourado vigiando o Monte Saint Michel e os peregrinos

Mas os vários tours oferecidos aos participantes mostraram que a Normandia é mesmo um destino turístico internacional surpreendendo pela sua diversidade, com dois destaques: o turismo de memória nas praias do D-Day e no memorial de Caen, e o turismo  religioso. Para os viajantes em busca de espiritualidade, a Normandia oferece três lugares imperdíveis. O Monte Saint Michel passou por uma renovação completa, incluindo até o rejuvenescimento do Arcanjo dourado guardião do local. O monte recuperou sua vocação de ilha com a nova passarela, oferecendo uma paisagem excepcional e uns momentos de grandes emoções. Destino de peregrinações desde a sua fundação em 708, ele  é hoje um dos dez monumentos mais visitados da França, e o mais visitado fora de Paris.

A procissão levando a châsse – a historia de amor da Santa com o Brasil

Os brasileiros têm um carinho especial pela Santa Teresa e a cidade de Lisieux, sendo a quinta nacionalidade a visitar o  santuário. Se Teresa nunca teve ligação direta com o Brasil, mas a devoção de um dos seus conterrâneos, o jesuíta Henri Rubillon, radicado no Rio de Janeiro, divulgou o seu culto. Em 1919 recolheu dinheiro para mandar para o Carmel uma bandeira dentro de um magnifico cofre de madeira de lei. Com o sucesso popular dessa primeira arrecadação, as freiras sugeriram para o padre de presentear o relicário. A  grande mobilização dos devotos deu para financiar uma verdadeira obra de arte, a “châsse du Brésil”, toda de prata, ouro e ônix, onde foram colocadas em 1923 os restos mortais da Santa, homenageados numa procissão emocionante cada último sábado de Setembro.

Show de beleza e bom gosto nas ruas da cidade velha de Rouen

A espiritualidade da Normandia vive também em Rouen, nos passos da Joana d’Arc. A presencia da santa guerreira se vê em todos os cantos, caminhando nas ruas da cidade velha, visitando a torre onde ele ficou em cativeiro, parando  na praça do Velho mercado onde ela foi queimada no dia 30 de Maio de 1431, olhando a cruz erguida no local da fogueira, ou rezando na Igreja Sainte Jeanne d’Arc inaugurada em 1979. No antigo arcebispado, um surpreendente museu, o “Historial da Joana d’Arc”, conta aos visitantes toda a historia e os mitos da mais famosa das heroínas francesas. Rouen aproveita também seu passado para construir seu futuro, reinventando no Panorama XXL a arte das telas gigantes, ou utilizando a majestuosidade da sua catedral para organizar grandes eventos.

A catedral, um espetacular palco para eventos!

Encontros, turismo cultural, turismo de memória, ou turismo espiritual, há muito tempo interligada como Brasil, a Normandia mostrou nesses “Rendez-vous” bem sucedidos que tem tudo para crescer como destino predileto dos brasileiros. Brindando com sidra, ou comemorando com Calvádos?

Jean-Philippe Pérol

Alguns participantes dos Encontros Rendez vous en France

O Monte Saint Michel

Em Lourdes, as novas dimensões do turismo religioso

 

O santuário de Lourdes

O santuário de Lourdes

 

Enquanto o turismo moderno só começou no século XIX com o Thomas Cook e os viajantes ingleses, uma forma de turismo já existia há mais de três mil anos: as peregrinações e o turismo religioso. Começou na Antiguidade grega, em cidades como Delfi, Éfeso ou até Olímpia. SANTIAGO MATAMOUROSEm todos os continentes, de Teotiuacan a Jerusalém ou a Lhassa, a fé sempre foi uma forte razão para atrair viajantes vindo de longe, incentivando as infraestruturas de transporte, de hospedagem e de alimentação para receber-los. E desde as épocas mais remotas da Idade Media, o cristianismo foi em todo o mundo ocidental o primeiro motivo para viajar, primeiro para Roma e a Terra Santa. Depois da aparição do apóstolo Santiago na batalha de Clavijo, começaram as peregrinações para Santiago de Compostela, nos quatro caminhos  (Paris, Vezelay, Le Puy e Arles) descritos num dos livros do Codex Calixtino,  escrito em 1140 e considerado o primeiro guia de turismo. Na França o Mont Saint Michel foi também desde o século IX um santuário onde as relíquias de santos (Aubert, Agnes, Hilario, Martin ..), bem como o escudo e a espada de São Miguel, atraíram milhares de romeiros vindo de toda Europa nos “Caminhos do Paraíso”.

MONTE SAINT MICHEL, A VIAGEM MARAVILHOSA

Há cento e cinquenta anos, o crescimento do turismo religioso acompanha a multiplicação das   viagens internacionais. Jerusalém, Mecca, Roma, Fatima ou Lourdes viraram no século XX alguns dos destinos mais visitados do mundo. E, com o século XXI anunciado como sendo o século da espiritualidade, a crise da fé atravessada por muitas religiões não parece gerar ameaças para as romarias que sigam prosperando, inclusive no Brasil onde tanto o Círio de Nazaré que o santuário de Nossa Senhora Aparecida continuam atraindo multidões.

CIRIO DE NAZARÉ 2014

O Círio de Nazaré 2014

Na França, o exemplo de Lourdes, com seus seis milhões de romeiros, mostra que o turismo religioso goza mesmo duma eterna juventude. Presente em São Paulo com uma delegação da cidade marial e da região Midi-Pyrénées, Monsenhor Xavier d’Arodes de Peyriade, capelão do santuário, deu duas grandes razões justificando a atualidade dessa peregrinação. Monsenhor d'Arodes e Jean Philippe Pérol Foto Panrotas A primeira é o próprio santuário, sua beleza, seus monumentos, sua gruta onde as paredes são esculpidas pelas mãos dos milhões de devotos, os encontros com a fé dos romeiros vindo do mundo inteiro, a energia comunicativa das procissões das tochas. A segunda razão é no mesmo tempo mais pessoal e mais forte. Frente as certezas e a tranquilidade dos outros visitantes, frente a força encontrada nos doentes esperando um milagre, o romeiro é levado a relativizar seus problemas, a adquirir uma nova serenidade, a repensar seu destino . Católico ou não, acreditando em Deus ou não, a romaria é também um momento de retiro espiritual, de reconsideração das suas prioridades que leva o viajante a voltar com uma nova visão da sua própria vida. Será talvez isso o verdadeiro milagre de Lourdes e do turismo religioso.

Jean-Philippe Pérol

A CATEDRAL DE ALBI

A Catedral de Albi

Da devoção a Nossa Senhora a magia da tecnologia, a festa das luzes de Lyon

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Padroeira da cidade desde 1643, quando os habitantes fizeram uma promessa para afastar uma epidemia de peste, a Virgem Maria era homenageada em Lyon com um evento solene. Cada dia 8 de Setembro, uma procissão popular saia da Catedral Saint Jean até os edifícios religiosos do morro de Fourvière. Fourviere_3612-2Em 1852, na véspera da inauguração duma nova estátua  da “Virgem dourada de Fourvière”, um forte enchente do Rio Saone obrigou o arcebispo de Lyon (e Cardeal Primaz das Gálias) a adiar o evento para dia 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição.

Seguindo a proclamação do Segundo império francês, a festa virou um evento mais excepcional ainda. Lumignons_fete_des_Lumieres_Lyon_8-12-2013A Igreja e as autoridades de Lyon quiseram ampliar a participação popular pedindo a todos os lionenses de iluminar suas casas com velas e círios. Milhares de “lumignons” foram colocadas nas janelas das residências e dos edifícios públicos, nas ruas e nos cais dos dois rios que cercam a cidade. Tinha nascida a Festa das Luzes.

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Esse evento de fé, católico e popular, tomou um novo impulso a partir de 1989 quando o novo prefeito decidiu reforçar-lo com uma festa artística profana, entregando durante quatro dias os edifícios da cidade a artistas e técnicos da iluminação. Hoje a Festa das Luzes, “Fêtes des Lumières”, virou uma referencia mundial, um grande espetáculo visto por milhões de turistas vindo para admirar as realizações de artistas que competem em beleza e criatividade nas iluminações da cidade. Esse ano varias obras de arte vão chamar a atenção dos visitantes. A catedral Saint Jean vai ser transformada com um jogo de luzes multicolor de Yves Moreaux. Na famosa praça dos Terreaux, a faixada do palácio Saint-Pierre, sede do Museu das Belas Artes, vai virar uma exposição gigante de obras de arte animada pelos bailarinos da Opera de Paris, criação de Gilbert Coudène.

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Na praça dos Jacobins, o monumento das fontes será transformado numa lâmpada gigante, obra do artista Christophe Mayer, enquanto as arvores da praça Sathonay, pela magia das luzes brancas de Antoine Le Gougouecterao, terão a aparência  duma turma de dançarinos.

Nesses quatro dias, todos os cantos e recantos de Lyon, a burguesa capital francesa da gastronomia, serão invadidos pela frenesia criativa desses artistas das luzes. As obras virtuais são a mostra na Estação Saint-Paul, no Teatro des Célestins, no anfiteatro das Galias, nos cais do Rhone ou na praça Bellecour onde é também prestado uma homenagem ao Antoine de Saint-Exupéry. As novas tecnologias empurraram ao infinito as inovações de cores, de imagens e de fantasias.

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Lyon espera esse ano de 3 a 4 milhoes de visitantes para essa Festa cada vez mais procurada. Muitos franceses, e italianos, espanhóis, suiços, russos ou chineses. Brasileiros também, cuja fé em Nossa Senhora poderia ajudaram a reencontrar o espírito original dum evento, hoje feira de alta tecnologia das iluminações, mas que começou feito um Círio de Nazaré gaulês. 

Jean Philippe Pérol

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Esse artigo foi adaptado dum artigo original de  Raphael de Gubernatis