O Trump favorecendo o turismo europeu?

A imagem do Presidente sempre impactou o turismo para os Estados Unidos

Vendo o impacto da presidência do George Bush sobre os fluxos turísticos internacionais dos brasileiros, um diretor do turismo francês sugeriu na época que a Franca entregasse para ele a “Medalha do turismo”. De fato, enquanto a Europa e os Estados Unidos eram tradicionalmente empatados nos mercados sul- americanos, as medidas restritivos e as vezes vexatórias visando os viajantes chegando (ou transitando) nos aeroportos estadunidenses deram naquele momento um impulso excepcional  aos destinos europeus. Nesses ciclos marcando a rivalidade turística entre os Estados Unidos e a Europa, a volta do Trump, independentemente das opiniões politicas de cada um, poderá de novo favorecer fortemente o velho continente bem como o Canadá.

Novo travel ban preocupa os profissionais americanos

Com as primeiras medidas da nova presidência, o impacto negativo sobre o turismo já se baseia em fatos objetivos preocupando e até desanimando os viajantes: controles mais rigorosos nas fronteiras e prazos de concessões de vistos mais longos devido a cortes de pessoal, reativações de proibições de viagem para cidadãos de países considerados com riscos (uma medida já tomada pelo Trump em 2017), restrições aos passaportes sem indicações de género, preocupações sobre a saude pública com a retirada da Organização Mundial da Saude e as possíveis epidemias, ou o crescente  mal estar  dos ambientalistas com a retirada dos Estados Unidos dos acordo de Paris.

Na Alemanha, os viajantes estão trocando os Estados Unidos pelo Canada

Outras medidas ainda são esperadas e poderiam prejudicar mais ainda o setor do turismo estadunidense – a possível proibição de TikTok preocupando os jovens viajantes que não imaginam viagens sem posts nas mídias sociais, e os aumentos de preços que as taxas sobre os navios de bandeiras estrangeiras, anunciadas pela nova administração, podendo impactar as vendas de cruzeiros. No primeiro mandato do Presidente Trump, medidas menos drásticas já tinham provocadas uma queda dos fluxos de visitantes de mais de 10%, e os profissionais estadunidenses estão agora preocupados com consequências ainda mais fortes enquanto o objetivo era de chegar a 90 milhões de visitantes com o impulso da Copa do mundo FIFA 2026.

Será que Trump vai merecer a medalha do turismo dos destinos concorrentes?

Alem das medidas, o turismo pode também ser prejudicado pela rápida degradação da imagem  dos Estados em mercados chaves, especialmente no Canada, no Mexico e na Europa do Norte, mas também na China, nos países árabes ou no Brasil. Observadores otimistas esperam ainda que alguns fatores positivos podem reverter em parte essas tendencias: simpatias politicas com o novo modelo de governo, vistos facilitados para grandes investidores, impostos menores para as pequenas empresas que são a força do trade turístico,  energia mais barata e talvez um dolar enfraquecido. Mas no geral é porem provável que os fatores negativos não sejam compensados, e que as viagens internacionais privilegiam seja o Canada seja a Europa.

Jean Philippe Pérol

 

 

Os Jogos de Paris 2024, um sucesso de futuro para o turismo francês

Na Place de la Concorde, um espaço de convivialidade olímpica

Se os Jogos de Paris 2024 acabarão oficialmente somente dia 8 de setembro no encerramento dos Paralímpicos, os especialistas já estão brigando para saber se o evento foi ou não o sucesso esperado pelos profissionais e anunciados pelos políticos. Os resultados são fáceis de medir quando se trata de medalhas – a França conseguiu bater seu recorde com 64 , sendo 16 de ouro-, ou quando se trata de custos financeiros – quase 10 bilhões de Euros para uma previsão inicial de 6-, mas é difícil de apreender quando se trata de turismo devido às diversidades de indicadores. São mais difíceis ainda de analisar quando se trata de turismo internacional.

Os profissionais fizeram o máximo para seduzir atletas e visitantes

Para os profissionais do setor, teve, como sempre nos grandes eventos, muitas expectativas, e, como sempre nos grandes eventos, muitas decepções. Os números globais ainda não podem ser medidos, mas serão com certeza em recuo, como foi o caso em Londres, já que o milhão e meio de visitantes “olímpicos” estiveram presentes, mas desanimaram o mesmo tanto de turistas regulares que se assustaram com os altos preços anunciados para hospedagens ou com a complexidade da mobilidade em Paris. As quedas de 30% observadas nos restaurantes e nos comércios, de 20% nos parques e nos museus, impactaram brutalmente um setor ainda em recuperação das traumas da pandemia. E se os hotéis e os apartamentos alugados tiveram uma alta de 10% da taxa de ocupação a partir do 26 de julho, os empreendimentos tiveram que reajustar os preços para baixo depois de um mês de junho muito abaixo do normal.

Os parisienses pedem a permanência do balão da chama olímpica

Mas, por importantes que sejam esses problemas, o Jogos foram mesmo um sucesso excepcional, incluído para o setor do turismo que vai beneficiar a longo, médio e curto prazos, dos investimentos em infraestruturas, comunicação e capacitação que foram realizados. Os futuros visitantes poderão aproveitar as renovações de muitos pontos de atração, as inovações em transportes, segurança ou em equipamentos indispensáveis para futuros grandes eventos que a França mostrou ter capacidade para organizar.

O surfe brasileiro imortalizado na onda de Teahupo’o

Os Jogos ofereceram também para Paris e para toda França uma extraordinária visibilidade em toda a mídia internacional. A ousada escolha de localizar o máximo de provas frente aos grandes monumentos históricos ou em lugares inesperados gerou no mundo inteiro momentos inesquecíveis; o vôlei de praia em frente da Torre Eiffel, o hipismo nos jardins de Versailles, a esgrima em baixo do domo do Grand Palais, o triatlo nas águas do Rio Sena, o surfe na mítica praia polinésio de Teahupo’o ….

A magia criativa de Zeus na cerimônia de abertura

O maior impacto sobre o turismo  virá de uma nova imagem que a França conseguiu consolidar com os Jogos. A cerimônia de abertura – mesmo com alguns erros que serão esquecidos porque criatividade é sinônimo de aceitação de risco-  mostrou para cerca de um bilhão de telespectadores um destino inovador, surpreendente, orgulhoso da sua história mas aberto, inclusivo, detalhista e alegre. Os visitantes internacionais presentes – entre eles 107.000 brasileiros entusiastas, muitos jovens e muitas famílias -anotaram também o bom atendimento e até a gentileza dos profissionais, dos voluntários e dos próprios moradores. Com eles, a França pode sair dos Jogos com mais otimismo sobre seu futuro de primeiro destino internacional de turismo.

Jesan-Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

 

 

Overturismo : o malthusianismo não pode resolver

Nas Baleares, os protestos do moradores impressionaram as midias

Com o sucesso da temporada de verão no hemisfério norte, o overturismo voltou a mobilizar as mídias internacionais. As taxas de Veneza, os tapumes do Monte Fuji, a água potável de Barcelona, os protestos das ilhas Baleares, os lixos do Monte Everest e os AirBnb de Nova Iorque, foram numerosas situações durante os quais, moradores e políticos se juntaram para tentar combater a superlotação turística. Esquecendo os benefícios trazidos pelo setor em termos de infraestruturas ou de lazeres, e seu peso na economia e nos empregos, todos se focam sobre os seus impactos negativos sobre a vida local: inflação dos aluguéis de apartamentos, fechamento de comércios, falta de segurança pública, transito parado nas ruas ou até nas calçadas. A rejeição manifestada pela imprensa preocupa os profissionais do setor que multiplicam os esforços em termos de sustentabilidade para evitar que a aversão ao turismo ameaça o seu futuro promissor.

Turistas indianos agora impulsionam o turismo em Veneza

Essa preocupação  é ainda mais legítima devido ao potencial gigantesco de crescimento do turismonacional e internacional. A OMT, organização mundial do turismo, destaca que os fluxos de turismo internacional – 25 milhões em 1050- já passaram dos níveis de pre-pandemia, 1,5 bilhões em 2024, e que chegarão a 1,8 bilhões em 2030. Este crescimento, virá em primeiro lugar, das classes emergentes das novas potências econômicas, hoje China, Brasil, Turquia, México, India ou Indonésia, futuramente Egito, Vietnã ou Nigéria, que desejam e poderão descobrir os lugares emblemáticos do turismo mundial. Além disso, novos fluxos estão também surgindo. Nos países desenvolvidos, o acesso ao turismo de lazer vai ainda se expandir. Atualmente, somente 60% das famílias aproveitam as ferias para viajar enquanto os especialistas preveem que a tendência é de chegar a 80%. E as novas formas de teletrabalho já estão inventando novas modalidades de viagem ( como os chamados “workations” ) que vão pressionar ainda mais os destinos chave e os lugares instagramizados.

A primeira viagem do Thomas Cook para trabalhadores ingleses

Diante dessas tendências inevitáveis, a turismofobia não é alimentada apenas pelo bem estar dos moradores. Uma parte significativa da revolta divulgada pela mídia  está relacionada a uma resistência ideológica à democratização das viagens. Nos anos 1870, na Inglaterra, as elites já se opuseram à revolução que o Thomas Cook iniciou quando levou  trabalhadores a viajar de trem para lugares até então exclusivo da “gentry”. Em 1936, na França, prefeitos de balneários famosos anunciaram que não desejavam ver as suas praias invadidas por “congés payés” (gente com ferias remuneradas) que eram incompatíveis, segundo eles, com o nível exigido dos seus visitantes. E hoje, mesmo se o artigo 24 da Declaração universal dos direitos humanos oficializa desde 1948 o direito as ferias e ao lazer, a ideia de um direito universal ao turismo ainda não é completamento aceita.

Greenpeace pede uma quota de 4 viagens de avião durante a vida toda

É necessário enfrentar os problemas causados pela lotação excessiva de turistas,  mas de maneira diferente, sem focar exclusivamente sobre necessárias (?) reduções de viagens que serão derrubadas pela crescente democratização internacional e doméstica dos lazeres. Muitos profissionais sugerem então de parar de considerar o “overturismo” como um fenômeno global, lembrando que a imensa maioria dos lugares turísticos é bem administrada e ainda tem muita capacidade para crescimento sustentável. Assim a solução para a superlotação não é restringir o número de turistas discriminando os “farofeiros”, ou  impor uma redução de atividades do setor. É importante levar em consideração o local, seus arredores, a época do ano, o dia da semana, o momento do dia, o nível de receitas e o perfil dos visitantes, para orientar os fluxos da maneira mais adaptada a um crescimento inevitável, mas sustentável, de qualidade e para todos.

A Itália já aposta no underturismo

Deve se reconhecer o papel pioneiro das elites que estabeleceram muitos dos grandes destinos turísticos desde que a aristocracia inglesa inventou a “Côte d’Azur”, e que ainda hoje são responsáveis por uma grande parte dos investimentos e da economia do setor, inclusive na descoberta de novos destinos. Simultaneamente, o turismo continuará a crescer, e o foco deve ser na grande maioria dos territórios que ainda sofrem de “undertourism” – na França, 80% do país … Com uma nova visão, os profissionais podem ajudar a comunicar soluções que combinem o desenvolvimento do setor e a satisfação das aspirações de moradores e turistas. E devem lembrar que o turismo não é apenas um setor líder da economia global, mas também uma aspiração transformadora que pode ser regulamentada , porem não  bloqueada por um malthusianismo. Lembrando com Gilbert Trigano que o turismo é “a maior ideia desde a invenção da felicidade”,  sua vocação deve continuar a ser universal.

 Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado e Eventos

 

Em Nova Iorque, turistas, moradores e imigrantes na briga da hospedagem

Nova Iorque espera superar em 2024 os 86% de ocupação hoteleira de 2019

Com o impacto acrescido pela força do dólar,  os preços dos hotéis em Nova Iorque subiram de 8,5% em 2023 e de 6,4% em 2024, e a diária média já superou a marca dos US$ 300. Essa situação inédita preocupa a prefeitura que espera recuperar este ano os 66 milhões de visitantes do último ano antes da crise. A aparente falta de disponibilidade de hospedagem na cidade é, porém, a consequência de vários fatores. Se alguns deles – a recuperação dos mercados e a inflação dos custos da mão de obra- não são específicos a Nova Iorque, outros são consequências diretas de decisões políticas, seja no atendimento dos imigrantes, ou seja na regulação da AirBnb e na planificação dos investimentos hoteleiros feitas a pedido dos moradores.

O Roosevelt foi o icônico hotel de muitas gerações de viajantes

Devendo respeitar a obrigação legal de fornecer uma cama a qualquer pessoa sem teto, a prefeitura teve que atender a partir de 2022 um fluxo de milhares de imigrantes vindo principalmente do sul do país. Enquanto o turismo não tinha ainda se recuperado da crise, dezenas de estabelecimentos se ofereceram para hospedar esses peculiares viajantes em troca de contratos milionários. Com os fundos do “Sanctuary Hotels Program”, um orçamento de quase um bilhão de US$ por ano foi dividido entre os 135 hotéis que aceitaram alugar a totalidade dos seus quartos por US$ 139 a US$ 185 por dia. Esses hotéis estão espalhados nos 5 distritos da cidade, mas os maiores ficam no coração de Manhattan, seja o Row NYC Hotel in Times Square – o primeiro a entrar no programa com um contrato de US$ 40 milhões-, ou o icônico Roosevelt cujo famoso lobby serve agora de centro de atendimento aos migrantes.

O prefeito Adams procura uma saida política e financeira para crise

Depois de dois anos, os 65.000 imigrantes que a cidade teve a obrigação de hospedar bloqueiam 16.500 quartos (quase 15% dos quartos disponíveis) e preocupa os profissionais na hora da retomada do turismo, frente a novos recordes esperados nos próximos anos. Tomada a pedido de moradores, mas apoiada tanto pelos hoteleiros como pelos sindicatos de empregados do setor, a nova regulação dos aluguéis de curto prazo foi não somente um golpe para AirBnb mas retirou do mercado quase 10% da hospedagem turística da cidade. Dos 23.000 apartamentos que eram oferecidos, 83% só podem agora ser alugados para prazos superiores a 30 dias, sobrando somente 3.700 para os turistas com estadias mais curtas.

Sempre com novidades, Nova Iorque quer guardar a sua liderança no turismo

Com a falta de oferta de quartos, a pressão sobre os preços não tem muitas perspectivas de diminuir, mesmo a médio prazo. Os hotéis contratados para hospedar os imigrantes não sabem se o programa de 3 anos será renovado, mas todos sabem que a reabertura para uma clientela de turistas tradicionais significaria obras pesadas e demoradas. Segundo a associação dos hoteleiros de Nova Iorque, os investimentos exigidos depois ter funcionado em condições muito específicas vão impedir muitos destes hotéis de voltar a receber turistas.  Essas perdas não devem ser compensadas pela construção de novos estabelecimentos. As restrições da nova política de urbanismo da prefeitura bem como o aumento de salários conseguidos pelos trabalhadores do setor estão desanimando os investidores que parecem esperar os impactos a longo prazo das arbitragens dos políticos entre os interesses dos moradores, dos imigrantes, dos profissionais e dos turistas.

O turismo no Japão surpreende com um sucesso inédito

Mesmo ameaçado pelo overturismo, o Monte Fuji é o ícone do turismo japonês

Acreditando no turismo, e aproveitando o câmbio favorável (O yen perdeu quase 50% do seu valor em 15 anos), o governo japonês tem grandes ambições  e bons argumentos para realizá-las. O primeiro é sua riqueza cultural única, começando pelos templos clássicos de Kyoto mas podendo hoje contar com um patrimônio espalhado no país inteiro e pronto para receber visitantes estrangeiros. Em várias cidades, esse patrimônio arquitetural serve também de cenários a manifestações artísticas tradicionais ou vanguardistas. Com a excepcional rede ferroviária do icônico trem bala “Shinkansen”, os visitantes podem incluir nos seus roteiros  Tokyo, Osaka, mas também Nagoya, Fukuoka e Kyoto.

O turismo japonês aposta na beleza da sua natureza

A beleza da sua natureza é  outra grande temática do turismo japonês. Dependendo da época do ano, as flores de cerejeiras, as cores douradas das florestas ou as coberturas de neve das montanhas são ocasiões para descobrir  fontes de águas quentes, praias de areias brancas ou trilhas atravessando as matas. Mas o Japão quer também promover sua modernidade, seja sua tecnologia, suas inovações, seu design, atrações que podem também contribuir ao ambicioso objetivo do seu turismo: 60 milhões de visitantes em 2030.

 

No turismo Suiço, a nova identidade visual é parte do sucesso

 

O antigo e o novo logotipo, duas gerações do sucesso do turismo suíço

Se o desenvolvimento de uma nova identidade visual é sempre um desafio, Switzerland turismo, em colaboração com a agência de branding MADE Identity, parece ter achado a solução em torno de um logotipo impactante,  simples e eficiente O ano de 2024 marca assim o início de uma nova era para a imagem do turismo da Suíça que, desde 1995, esteve sob a bandeira da flor nacional, a ” Edelweiss” dourada. Para o desenvolvimento da marca, a MADE Identity centralizou-se em três pontos principais: uma imagem mais visível e mais fácil de ser lembrada internacionalmente, traduzindo uma estratégia única e coerente, um impacto digital máximo, tátil e de espacialidade, e enfim um apoio ao viajante durante todo o percurso de viagem, na publicidade, durante a experiência e até nos souvenirs.

Os vários tons de vermelho são inspirados do “Alpenglow”

Depois de uma pesquisa internacional em cinco mercados (Alemanha, França, Itália, Coréia e países do Golfo), foi decidido de descartar os quatro idiomas do país (francês, alemão, italiano e romanche)  e de utilizar somente o nome inglês  “Switzerland” para simbolizar a promessa de longa data do destino: natureza, hospitalidade, otimismo e confiabilidade. No novo logotipo, “Switzerland”  apresenta, no lugar da letra T, a cruz simbólica ampliada e decorada com um monocromático de cinco tons oscilando entre o vermelho e o rosa, como sinal de modernidade, diversidade e independência. O desenho é inspirado do “Alpenglow”, as cores que aparecem quando o sol fica logo em baixo do horizonte. A cruz pode também ser interpretada como o signo “+”, lembrando que a Suiça oferece também mais do que se esperava ….

A natureza protegida é parte chave da nova imagem

Pela primeira vez na história da promoção turística da Suíça, um conceito completo de marca substituiu uma simples sigla. Assim, “Switzerland” deixará de apenas promover o destino, mas acompanhará o turista durante toda a sua jornada, desde a inspiração até o planejamento da viagem e a experiência vivida com todos os anfitriões que participam do turismo suíço. Esta parceria, que data de 1995 e da criação do “Escritório Nacional de Turismo da Suíça”, vai agora levar a marca “Switzerland” a possibilitar uma melhor orientação dos hóspedes a todos os seus associados e parceiros, permitindo a construção de um vínculo de confiança entre eles. Este novo e abrangente conceito oferece inúmeras possibilidades em todos os canais de comunicação.

Os parceiros demorar para aceitar o abandono da tradicional Edelweiss

Convencer os parceiros foi um trabalho importante para poder lançar essa nova identidade. A imagem do destino como hoje é conhecida tinha sido criada há quase 30 anos  sob o símbolo da Edelweiss, a flor dourada, que fez parte do imaginário coletivo de toda uma geração. Nas pesquisas preliminares feitas pela MADE Identity nos quatro cantos do país, ficou claro que muitos profissionais e muitos moradores tinham um forte apego emocional com este símbolo. Mas para quem não conhecia a Edelweiss, o logo com a flor dourada parecia somente um esquisito broche. A utilização da bandeira com a mundialmente famosa cruz foi assim um argumento simples e eficiente que convenceu a todos.

A nova logomarca será gradualmente implementada em todo o mundo, e a transição completa deve demorar alguns meses. Para Martin Nydegger, diretor da Switzerland Tourism “a flor dourada” marcou época para uma geração de profissionais do turismo. Acompanhada por um design moderno e decididamente voltado para o futuro, o novo logotipo “Switzerland” inspira confiança às gerações futuras.” Por representar a Suíça muito além do setor do turismo, esta nova marca será, sem dúvida, observada com atenção. O responsável federal pelo turismo, Guy Parmelin, atesta: “A Suíça é no mundo inteiro um símbolo de diversidade, qualidade e originalidade que se refletem perfeitamente na nova identidade e nas novas cores do turismo suíço que nos acompanharão por muitos anos.” O profissionalismo e o espírito de parceria demonstrados neste lançamento indicam que será mesmo um sucesso.

 

 

Jogos Olímpicos Paris 2024, e se for também longe de Paris?

 

Para os turistas, Paris em julho terá um acesso difícil

Esperando 15 milhões de fãs para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos,  Paris vai ser a partir do dia 26 de julho o centro do universo esportista. Para muitos viajantes, será também um sonho inacessível, uma cidade onde transportes, hotéis, restaurantes e atrações serão além de lotados, e os preços altos serão desanimadores. De fato, segundo Frederic Hocquard, prefeito adjunto de Paris, os hotéis aumentaram em um ano de 314%, a AirBnb quase dobrou suas tarifas médias, e até o emblemático tíquete de metrô vai subir de 2,15 à 4 Euros durante a temporada dos Jogos. Para quem quer mesmo viajar para França e participar deste grande evento, existem porém várias alternativas.

Lille investiu na promoção dos seus momentos olímpicos junto a seus moradores

Se os Jogos 2024 são parisienses, várias disciplinas olímpicas precisaram ser deslocadas para outros lugares. Foram assim escolhidas nove cidades francesas onde será possível de assistir as provas de basquete, de handebol, de futebol, de vela, de tiro ou de surfe. No norte da França, Lille mobilizou autoridades e moradores  para receber 52 jogos de basquete e de handebol. Do 27 de julho até o 11 de Agosto, eventos, jogos e provas deveriam atender 100.000 visitantes por dia, que poderão também aproveitar a animação da cidade velha e da “Grand Place”,  a riqueza cultural do Museu de Arte Moderna ou a alegre simplicidade da sua gastronomia harmonizada com cerveja.

Em Bordeaux, a chama olímpica será do futebol

Reunindo agora 28 equipes (16 masculinas e 12 femininas), o futebol é o esporte que se espalhou no maior número de cidades francesas. Além de Paris, 6 outras cidades foram selecionadas em função da qualidade das infraestruturas, da sua história futebolística e da sua capacidade de atendimento. Bordeaux, Nantes, Saint Etienne, Lyon, Nice e Marselha. Se a seleção masculina do Brasil está fora da competição pela primeira vez desde 2004, as mulheres estão qualificadas e vão fazer seus dois primeiros jogos em Bordeaux. Para os torcedores, será uma boa oportunidade para visitar a capital mundial do vinho, seu centro histórico animado e comercial, sua “Cité du Vin” e seu teatro. Nos arredores, pode almoçar na praça frente a igreja troglodita de Saint Emilion, seguir os passos do Rei da Inglaterra nos vinhedos de Smith Haut Laffite ou caminhar no balneário de Arcachon.

Nice, a cidade de Garibaldi, será a sede de 6 jogos de futebol

As brasileiras poderão depois jogar em Lyon, Nantes e até em Paris, dependendo da classificação. Em Lyon, do 24 de julho ao 8 de agosto, 11 jogos são previstos, com destaque para as seleções francesa e argentina. Estão também no calendário duas semifinais bem como a briga pela medalha de bronze feminina, uma programação intensa que deve porém deixar aos visitantes o tempo de saborear os encantos da capital francesa da gastronomia. A menos de uma hora de trem ou de carro, Saint Etienne sediará 6 jogos, honrando seu passado futebolístico bem como seu presente de cidade do design. Do 24 de julho até 8 de agosto,  Nantes vai aproveitar os Jogos para mostrar a riqueza do seu património bretão – na cultura, na arquitetura, e na gastronomia-, bem com um rico movimento cultural acumulado em torno das heranças de Jules Verne e de Leonardo da Vinci. E para quem preferir a Riviera, Nice,  está recebendo 6 jogos do dia 24 de julho até o dia 31, uma semana para aproveitar a “Promenade des anglais”, as arenas de Cimiez ou o velho porto perto do qual ficava a casa onde nasceu o Garibaldi.

Em Marselha, Nossa Senhora da Guarda vigiará as provas náuticas

Além do futebol, Marselha acolherá outros esportes onde os brasileiros poderão se destacar. Famosa pelo seu porto, a mais antiga cidade da França, fundada por marinheiros gregos em 600 a.C., vai receber do 28 de julho até o 8 de agosto todos os esportes de sailing, incluindo o windsurfe, o kitesurfe e muitos outros.  Com os barcos saindo da marina de Roucas Blanc, as competições poderão ser vistas da beira mar, seja das áreas reservadas para os 12.000 compradores de entradas, seja gratuitamente das praias do Prado e da Corniche. Para os visitantes, a estadia em Marselha será uma boa ocasião para caminhar no antigo porto, visitar o Museu das Civilizações do Mediterrâneo, passear na trilhas das Calanques, e mais importante ainda: subir na basílica para pegar uma benção da Nossa Senhora da Guarda, padroeira da cidade.

Com 40.000 habitantes, Chateauroux é a menor das cidades olímpicas de Paris 2024

Duas outras cidades francesas vão acolher provas olímpicas. Na primeira, Chateauroux,  serão realizadas do 27 de Julho até o 5 de Agosto as competições de tiro ao alvo, três brasileiros devem participar. Os visitantes poderão aproveitar o pequeno mas interessante Museu Bertrand onde é exposta “Sakuntala”, uma das melhores obras da escultora Camille Claudel (essa obra tem uma outra versão em mármore chamada “Vertumnus et Pomona”, exposta no Museu Rodin em Paris).  Chateauroux fica perto de Bourges e da sua famosa catedral, bem como  do Vale de Loire, a menos de uma hora de carro dos castelos de Chenonceaux, de Chambord ou de Cheverny, imprescindíveis etapas num roteiro de verão para o sudoeste francês.

Nas águas de Tahiti, uma mítica prova de surfe

A bela surpresa dos Jogos Paris 2024 é a localização escolhida para as competições de surfe. A 15.700 km da capital francesa, na ilha de Tahiti, do dia 27 de julho até o 4 de agosto, os melhores surfistas do mundo competirão pelas medalhas nas ondas míticas de Teahupo’o. Três áreas com acessos livres são previstas para os fãs, na própria praia de Teahupo’o bem como na praia de Taharu’u  e nos jardins de Paofai. A proximidade da capital, Papeete, oferecerá aos turistas bastante opções de hospedagem, mas dará também a oportunidade de aproveitar sua lagoa, suas montanhas, seu urbanismo e seu povo antes de seguir para as belezas de Bora-Bora, de outras  imprescindíveis ilhas da Polinésia francesa, ou de voltar para Paris para a cerimônia de encerramento dos Jogos no dia 11 de agosto no Stade de France.

Jean Philippe Pérol

 

Viagens de negócios na pós pandemia, euforia ou cautela?

Nova Iorque, destino líder tanto nas viagens de negócios que no bleasure

As TMC, “Travel Management Compagnies”, estão surpreendendo os observadores do turismo internacional. Enquanto todas as pesquisas projetava uma queda de 20 à 25% das viagens de negócios depois da crise do Covid, as grandes empresas do setor anunciaram crescimentos de dois dígitos da suas atividades em 2023, e parecem extremamente animadas não somente para 2024 mas também nas projeções de faturamento a medio prazo. Olhando as novas tendências que caracterizam  essas viagens, especialmente dos viajantes mais jovens, bem como a evolução dos preços dos principais fornecedores – companhias aéreas e hotéis-,  poderia ser que a euforia dos mas otimistas seja compatível com a cautela dos mais céticos?

O controle das despesas continua sendo uma ferramenta chave das TMC

Uma pesquisa internacional da SAP Concur, a maior plataforma de gestão de dados corporativos, sobre a evolução das despesas de viagens das empresas européias, mostrou mudanças importantes de 2019 para 2023. As passagens aéras, primeira despesa corporativa, subiram em media de 10% em relação ao nível pre pandemia, uma alta mais marcante ainda no ano passado. A SAP Concur avisa porém que essa inflação dos custos é geral, sendo ainda mais alta nos gastos de alimentação – que aumentaram de 30%-, e mesmo nas despesas de hospedagem – 21% acima dos níveis de 2019. No Brasil, a evolução é ainda mais marcante, especialmente para o transporte aéreo que sofreu uma inflação de 14% neste mesmo período.

As viagens de avião são as mais prejudicadas pelos cortes

Depois da euforia, as despesas de viagens de negócios voltarão talvez em 2024 aos volumes anteriores a crise, mas este resultado é principalmente a consequência da inflação que compensou uma queda do número de viagens estimada em quase 20%. No Brasil, uma recente pesquisa da ABRAJET mostra dados um pouco mais otimistas, com números de transações das TMC em queda de somente 12,6% de 2023 para 2019. Essa queda se deve tanto as restrições de despesas que ao sucesso das videoconferências (vistas por 31% das empresas como uma alternativa as viagens) e ao crescimento da “consciência ecológica”. Reais ou comunicadas, as preocupações  com o meio ambiente ou a  descarbonização levam muitas empresas a reduzir suas viagens, especialmente aquelas realizadas de avião. É assim que hoje 43% dos viajantes de negócios declaram que estão viajando menos pelas suas empresas que há 5 anos atras.

Novas tendências vão mudar o perfil das viagens profissionais

Mas, mesmo se o número anterior de viagens profissionais deve somente ser reencontrado a nível mundial depois de 2028, várias novas tendências devem ajudar as TMC a defender suas posições de destaque no setor das viagens e do turismo. As viagens continuam de ser um componente chave da vida das grandes empresas, ajudando a consolidar as parcerias com clientes e fornecedores. Além disso, o interesse pelas viagens  como fator de desenvolvimento pessoal é agora um argumento importante para atrair e desenvolver os talentos dos colaboradores. E, depois da crise, a combinação de negócios e lazer – o “bleasure”- é cada vez mais aceita, sendo hoje utilizado cada dois ou três meses por mais da metade dos viajantes.

Inovar com personalização, eficácia e sustentabilidade é o novo desafio.

Tradicionalmente focadas na gestão das despesas de viagem dos seus clientes, ajudando a definir previsões corretas, políticas eficientes e controles de conformidade, os TMC insistem hoje na exigência de combinar essas tarefas com a garantia de oferecer também aos viajantes a segurança, a saúde e o bem estar. Com a flexibilidade e a personalização cada vez maior das políticas das empresas, a oferta de serviços para as viagens pessoais dos dirigentes e/ou dos funcionários abriu novas oportunidades, seja para os próprios TMC, seja para filiais especializadas. Assim como as tendências pós-pandemia ou o “bleasure”, as ofertas de viagens de lazer personalizados – já exploradas no passado com sucessos variáveis pela Amex ou a Wagons lits- podem ajudar  a compensar o inevitável recuo do número de viagens profissionais.  Mesmo para os mais cautelosos, as oportunidades assim oferecidas podem incitar, senão a euforia, pelo menos ao certo otimismo?

Jean Philippe Pérol

O Forum Econômico Mundial de Davos ajuda a redefinir a “turistabilidade”

O World Economic Forum de Davos, momento chave da liderança mundial 

Publicado pela segunda vez pelo World Economic Forum de Davos, mas existindo de forma diferente  desde 2007, o Travel & Tourism Development Index 2024 (IDTT) sai da rotina instantânea e quantitativa  das maiorias dos rankings existentes. Com prestigiosos padrinhos, ele oferece uma análise prospectiva dos fatores e das estratégias de desenvolvimento sustentáveis do setor turístico dos 119 países estudados, definindo o que pode ser chamada de “turistabilidade” dos destinos. Realizado em colaboração com o World Tourism and Travel Council (WTTC), o esperado relatório apoia a sua classificação com cinco categorias de critérios divididos em 17 pilares indispensáveis ao setor.

  • o ambiente favorável aos negócios é definido pela política econômica do país, a segurança pública, as condições de saúde, os recursos humanos e as tecnologias de comunicações.
  • a política do turismo é julgado pela prioridade dada ao setor, a abertura internacional e o nível de preços dos serviços.
  • as infraestruturas indispensáveis são os aeroportos, os portos e as rodovias, bem como os equipamentos turísticos.
  • os recursos incluem as belezas naturais, as riquezas culturais e outras, fora o setor de lazer.
  • a sustentabilidade leva em consideração a política energética e a proteção do meio ambiente, o impacto social do turismo, e a gestão dos riscos do overturismo.

O ranking destaca o domínio dos países mais desenvolvidos e mais ricos. Assim, os dez primeiros são os Estados Unidos, a Espanha, o Japão, a França, a Austrália, a Alemanha, o Reino Unido, a China, a Itália e a Suiça. Nos trinta primeiros aparecem 19 países da Europa, 7 da Ásia- Oceania, 1 do Oriente Médio e 3 das Américas ( Estados Unidos, Canadá e Brasil), países que representam 75% da indústria mundial do turismo e 70% do crescimento nos últimos dois anos. Se os países ricos ainda são hoje os pesos pesados do setor, o dinamismo dos anos pós-covid parece muito mais diversificado, favorecendo o “Sul global”. Os campeões do crescimento foram assim o Uzbekistão (+7.8%, ganhou 16 lugares), a Costa de Marfim(+6.4%, 2 lugares), a Albania (+5.9%, 12 lugares), a Arabia Saudita (+5.7%, 9 lugares),  a Tanzânia (+4.5%, 7 lugares), a Indonesia (+4.5%, 14 lugares), os Emirados (+4.4%, 7 lugares), o Egito (+4.3%, 5 lugares),  a Nigeria (+4.2%, 1 lugar) e El Salvador (+4.0%, 4 lugares).

As excepcionais riquezas naturais do Brasil são destaque da sua “turistabilidade”

O Brasil, já primeiro destino latino americano do ranking global, se saiu  bem em termos  de crescimento, com uma taxa  de +3.3%, é um pulo de 12 lugares, da 34a posição para a  26a. Este bom desempenho junto  ao índice do World Economic Forum, se deve principalmente a quatro destaques: riquezas naturais consideradas excepcionais (5as dos 119 destinos listados), um forte impacto social nas comunidades ,  preços atrativos e um bom domínio das tecnologias de informação e comunicação (ICT). A “turistabilidade” do Brasil só não foi melhor pelos pontos negativos: o difícil ambiente para os negócios, as infraestruturas insuficientes nos portos e nas estradas, a segurança pública, e as deficiências em equipamentos e serviços de turismo.

Os desordens climáticos  também prejudicaram o turismo

O relatório do World Economic Forum não deixa de ser otimista sobre o desenvolvimento do setor a curto e longo prazo, lembrando que os níveis de 2019 vão ser ultrapassados em 2024. Puxado por uma procura extremamente resiliente, o turismo conseguiu superar as crises políticas, a inflação dos preços, o custo da energia, a falta de mão de obra,  as catástrofes climáticas e a volta do overturismo – pontual mas impactante em algumas regiões. Para continuar a crescer – especialmente nos países em desenvolvimento, serão porém necessários  investimentos importantes no aproveitamento dos recursos naturais e culturais,  nas infraestruturas de comunicações, de transporte e de turismo,  nas legislações empresariais e trabalhistas, na abertura internacional e na promoção.

Longe das atuais projeções, o turismo do futuro ainda deve ser inventado

Chamando atenção sobre os principais riscos que podem ameaçar o futuro do setor – as mudanças climáticas, as fakenews e as reações contre o overturismo, o relatório destaca também alguns pontos chaves  para o sucesso: fazer (ou refazer) o turismo uma prioridade de governo, favorecer as parcerias público-privado, investir na capacitação de todos os atores, e colocar as comunidades locais no coração das estratégias de desenvolvimento. Além do ranking (cujos critérios podem ser ainda discutidos), o Travel & Tourism Development Index 2024 (IDTT) é assim um documento valioso para inspirar governos e profissionais e definir uma nova “turistabilidade”.

Jean Philippe Pérol

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercado & eventos

80 anos da Liberação da França: em Oradour-sur-Glane, o turismo é memoria

Na entrada da cidade martirizada, um pedido para o visitante: Lembre-se

No dia 6 de junho, a Normandia vai festejar o octogésimo aniversário do Dia D, uma comemoração excepcional, sendo talvez a última a qual participarão alguns dos heróis desta grande batalha. Com festas, fogos de artifícios, pulos de paraquedas, bailes populares, concertos e exposições, turistas e moradores vão comemorar este evento que foi um dos mais marcantes da liberação da França da dramática ocupação alemã. Mas, mesmo se não tão conhecidas, outras regiões e outras cidades vão lembrar dos acontecimentos heróicos, dramáticos ou trágicos do verão de 1944. Assim, perto de Limoges, o Centro da Memória do vilarejo de Oradour-sur-Glane comemora também em junho os 80 anos do maior massacre cometido na França pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

O bairro da Boucherie é um testemunho da historia de Limoges

Com 1.500 habitantes, Oradour-sur-Glane era um centro animado, atraindo novos habitantes bem como visitantes da vizinhança. Eles gostavam da animação comercial, das atividades agrícolas e artesanais, da proximidade com Limoges onde muitos moradores trabalhavam, e aproveitavam um bondinho que interligava as duas cidades. Mesmo com a presencia crescente do alemães, a vida continuava. Dia 6 de junho, com a notícia do desembarque dos aliados,  a região inteira ia porém mergulhar brutalmente na guerra. A resistência armada, muito forte nas planícies do Limousin, recebeu instruções de atrasar os movimentos das tropas inimigas que tentavam se juntar a batalha da Normandia. A reação dos alemães foi terrível. A divisão SS Das Reich deixou um rastro de terror e de crimes maciços contra as populações civis, enforcando, fuzilando ou deportando centenas de inocentes. Chegando em Limoges Dia 9 de junho, o general alemão Lammerding tomou a decisão de fazer um exemplo mais drástico ainda para aterrorizar a resistência, e a primeira cidade no seu caminho era Oradour-sur- Glane. 

No final da tarde do 10 de junho, somente sobravam as ruinas da cidade

Dia 10 de junho, as 14:00, 200 soldados SS cercam a cidade e obrigaram todos os habitantes a se agrupar na praça central, matando quem resistiu. Os homens foram separados e isolados em cinco lugares fechados, as mulheres e as crianças foram trancadas na igreja. As 16:00 os homens foram todos fuzilados e os soldados jogaram explosivos na igreja. Vendo que ainda tinham sobreviventes, eles atiraram pelas janelas e incendiaram o edifício cujo telhado caiu. Em seguida saquearam e incendiaram todas as casas da aldeia. Voltaram o dia seguinte para jogar os corpos num fossa coletiva antes de ir embora para participar da batalha da Normandia, deixando 643 vítimas e somente 6 sobreviventes (5 homens e uma mulher).

A nova igreja parece vigiar as marcas do drama

Frente a tamanho horror, o governo francês decidiu conservar Oradour-sur-Glane exatamente no estado que os alemães tinham deixado, e de reconstruir um novo vilarejo na periferia. As ruinas da cidade devia assim ficar para sempre como uma homenagem ao martírio dos seus habitantes, símbolo da França ferida pela ocupação alemã. Visitando o local em março 1945, o então Presidente de Gaulle lembrou como este patrimônio coletivo era importante para recordar a tragédia coletiva, mas também a vontade coletiva e a esperança coletiva. O ano seguido Oradour-sur-Glane foi tombada pelo Patrimônio histórico e foi aberta as visitas, desde então mais de 300.000 por ano. O novo vilarejo cresceu, têm hoje mais de 5.000 habitantes, e atraiu novas atividades, inclusive as famosas porcelanas Bernardaud.

O Centro de Memória é o início de uma experiência emocionante

Aberto em 1999, o Centro da Memória quer preparar o visitante ao choque emocional da visita da cidade que ficou no exato estado onde os alemães a deixaram no dia 10 de junho de 1944. A arquitetura do centro, os materiais escolhidos, as luzes do subterrâneo de acesso, os mapas e as fotos expostas, tudo é focada na informação e na transmissão da memória.  Enquanto ficam poucas semanas para as comemorações, o ministério da Cultura está acelerando as obras para restaurar várias construções do local e para  proteger o acervo de móveis e de objetos. Em parceria com a fundação Dassault Histoire et Patrimoine – o fundador da  famosa empresa aeronáutica foi um herói da Resistência francesa-, o projeto foi elaborado com a Associação nacional das famílias dos martírios. Juntas com o Dia D na Normandia, as liberações de Paris e Estrasburgo e o desembarque da Provence, as comemorações do massacre de Oradour-sur-Glane são os cinco grandes eventos que serão celebrados em 2024 para os 80 anos da liberação da França.

Jean Philippe Pérol

A Normandia será, com Oradour e 3 outras locais, destaque dos 80 anos