Fortaleza, novo xodó dos turistas (e do turismo) franceses!

Primeiro pouso em Fortaleza da Air France/Joon no dia 3 de Maio

A espetacular abertura da linha Paris Fortaleza por duas companhias do grupo Air France mostrou o renovado interesse da França pelo Nordeste brasileiro, tanto como destino para os turistas franceses que como mercado emissor. Os voos para os grandes hubs da região não são porem uma novidade. A própria Air France herdou da Aerospatiale a inauguração de uma rota Natal Rio em Novembro 1927,  depois interligada com Dakar e Paris. Depois da segunda guerra, foi  Recife que foi escolhida para escala na rota Paris Rio, e depois abandonada em 1963 quando chegaram os Boeing 707. Quase escolhida em 1975 para receber o Concorde, Recife teve de novo a preferência em 1982 quando Air France voltou a pousar no Nordeste, mas o voo parou em 1995.

Beleza e autenticidade na praia do Iguape

Na competição entre os grandes hubs do Nordeste, a Air France escolheu essa vez Fortaleza. A rota mais curta para Paris, o dinamismo do Ceará e o apoio da Gol foram três fatores importantes numa briga que o peso das vendas locais não dava para desempatar. Para levar a decisão, a surpresa vem dos profissionais franceses que anunciaram claramente suas preferências pela capital cearense. Seu clima seco garantindo sol o ano inteiro, seu mar quente, suas praias de areia branco e seus passeios de buggy, sua infraestrutura hoteleiro e seus parques aquáticos já tinham seus fãs, especialmente os amadores de kite surf. Estão agora se popularizando, aparecendo nas paginas dos principais jornais e revistas franceses bem como nas prateleiras das agencias de viagem e das operadoras.

Cumbuco, balneario do Saint Tropez des Tropiques e do Vila Galês

Não é a primeira vez que o Ceará tenta atrair os turistas franceses. Já nos anos 70 a empresa hoteleira PLM tentou implantar no Brasil seu primeiro hotel, com a ideia de levar para Fortaleza parte dos enormes fluxos de turistas franceses indo para seus hotéis do Caribe. Nos anos 80 a operadora El Condor, então líder do mercado francês, lançou um charter bimensal para Fortaleza, planejando fazer do balneário do Cumbuco um novo ” Saint Tropez des Tropiques”. Mesmo com muitos poderosos padrinhos dos dois lados do Atlântico, incluindo o prefeito de Saint Tropez e o empresário franco-cearense Paul Mattei, o projeto não vigorou. Contribuiu porem a reforçar os laços com numerosos profissionais franceses do setor, ainda hoje muito presentes em Fortaleza.

Entre Nordeste e Amazônia, o inesperado deserto dos Lençóis Maranhenses

Fortaleza está também seduzindo os turistas franceses pela oportunidades de conexão que o hub da Gol oferece para outras atrações do nordeste e do norte. Mais que os destinos tradicionais, Salvador ou Recife, os novos roteiros estão incluindo Morro Branco, Prainha, Iguape, Cumbuco, Jericoacoara, paraíso dos kite surfistas, o delta do Parnaíba, e os surpreendentes Lençóis Maranhenses cujos lagos e dunas estão fascinando todos os visitantes. Talvez lembrando a historia da cidade fundada pelo francês Daniel de la Touche, os turistas franceses estão chegando em São Luiz, “jóia do Maranhão, herdeira da França equinocial, tombada pela UNESCO em 1997”. E as melhores ofertas de Belém, Alter do Chão ou Manaus, seja cruzeiros fluviais, hotéis de charme ou pousadas de selva, já estão medindo a nova empolgação trazida pelos voos Paris Fortaleza.

Nos Encontros 2018, os profissionais franceses atras do mercado nordestino

Novo xodó dos franceses, Fortaleza vai também surpreender pelo potencial de viajantes que o Nordeste pode gerar para Europa em geral e a França em particular. Até agora quase monopólio da Air Portugal, e com forte liderança de Lisboa, os fluxos de turistas já começaram a se redefinir, incluindo viajantes procurando experiências sofisticadas na cultura, na gastronomia ou no enoturismo. A Atout France, encarregada da promoção do turismo francês, já está acompanhando essa nova tendência, trazendo para Fortaleza o seu evento-mor “Encontros a francesa”. Alem dos encantos da capital e do litoral cearense, os 40 profissionais franceses convidados vão com certeza voltar convencidos que o Nordeste brasileiro vai em pouco anos dobrar seu fluxo de viajantes para França.

Jean-Philippe Pérol

O Teatro José de Alencar em Fortaleza (foto Casablanca turismo)

Esse artigo foi inicialmente publicado no Blog “Points de vue” do autor na revista profissional on line Mercados e Eventos

A França, do Oiapoque ao Maroni!

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O Brasil, do Oiapoque ao Chuí, isso tudo mundo sabe. Mas além do Oiapoque? Isso, poucos sabem, pelo menos poucos franceses. Là começa a França ou mais exatamente uma região francesa, a Guiana, que se estica da fronteira Brasileira até a beira do Rio Maroni.

Explorada no século 17 pelo mesmo Daniel de la Touche que fundou São Luiz do Maranhao, a Guiana teve uma historia difícil. Uma longa disputa territorial com o Brasil (que ocupou a região durante as guerras com Napoleão)  so acabou com a arbitragem do Presidente da Suíça em 1900, por sinal 100% a favor do Brasil. Imagem1Arruinada pela saída dos jesuítas, a economia foi marcada pelas desumanas condições de trabalho, primeiro da mão de obra escrava e depois dos condenados ao famoso ‘bagne’. Uma corrida para o ouro no final do século 19 trouxe um surto de riqueza e novos imigrantes (junto com um tio-bisavô meu), mas o ouro quase acabou até que garimpeiros brasileiros – hoje quase 3000 – se interessassem de novo pelas jazidas esparsas no meio da selva. São muitas historias que foram escritas em comum com o Brasil, desde o roubo do primeiro cafeeiro pelo amante brasileiro da bela governadora até as aventuras da Saraminda tão bem contadas pelo Sarney no seu livro sobre o Contestado.

A uma hora de avião de Belém, IMG00252-20110905-1613ou seis horas de Macapá pela estrada, a Guiana pode ser uma opção para turistas querendo descobrir uma Amazônia diferente, onde os supermercados tem mais ‘camembert’ que açaí, os bares mais Bordeaux que cachaça, onde se anda mais de carro que de canoa e onde os restaurantes oferecem tanto carne de jacaré do que ‘filet au poivre’. Por sinal o melhor restaurante da região é o Paris Cayenne cujo chefe consegue com muitíssimo talento misturar ingredientes e ideias vindo da França metropolitana, da Amazônia e do Brasil.

Uma estadia nesse além-Oiapoque tem que começar no Bar des Palmistes, o mais tradicional de Caiena, num prédio tombado e muito bem renovado, de frente para uma linda praça plantada de palmeiras imperiais. L1040067Nos arredores, vale andar no Mercado municipal onde se fala tanto francês que creole, taki-taki ou (mais ainda) português. Casas e sobrados coloridos da época colonial  dividam as ruas principais com lojas de perfumes ou de jóias de ouro (passar no Jan d’Or, um pequeno artesão creativo e simpático). Se a cidade vale pelo charme do ambiente tropical e francês, o turismo na Guiana tem alguns imperdíveis.

DSCN1284Em primeiro as Iles du Salut, em frente da cidade de Kourou. As três ilhas são famosas porque foram um dos presídios mas duro da Guiana. Na maior, a Ilha Real, ficava o governador e os presos comuns. Sobrou muitos prédios, incluindo os mais importantes onde fica o restaurante e   um pequeno mas simpático hotel onde vale a pena ficar uma noite. Na segunda ilha, São José, ficavam os presos mais perigosos, em condições terríveis ainda visíveis nas ruínas das células a céu aberto. Enfim, na terceira, a Ilha do Diabo, ficavam os presos políticos cujo  mais famoso foi o injustiçado Capitao Dreyfus. IMG-20120705-00504A cidade de Kourou é famosa pela base de lançamento de foguete (que tem por sinal cooperação com Alcântara e Barreira do Inferno no Brasil). Se tiver sorte, pode ter a chance de ver um lançamento de Ariane, Soyouz ou Veja, os três tipos de foguetes lançados quase mensalmente.

Na beira do Rio Maroni, fronteira com o Suriname, Saint Laurent é a segunda cidade da Guiana, e guarda um impressionante acervo da época dos presídios, incluindo o famoso Camp e la Transportation por onde transitou Papillon…DSCN3931 Se hospedando aqui, na Tentiaire, dá para uma interessante excursão pelo rio até a cidade de Apatou, famosa pelas artes quilombolas. E se for là entre  maio e setembro, ai não perca o fabuloso espetáculos das tartarugas de couro pondo na praia de Awala.

Genuinamente amazônica, a Guiana oferece ao turista muitas belezas, muitas atividades e muitas tradições conhecidas também no Norte do Brasil:DSCN30014 banhos em igarapés de agua fresca (experimente Iracubo ou as cataratas de Montmorency), praias (a melhor é do Novotel em Caiena), passeios em trilhas de selva (o Morro dos Macacos não demora duas horas e da uma vista linda sobre Kourou),  focagem de jacarés em Kaw (excursões organizadas pela JAL voyages), bird watching de guarás, ou pesca esportiva nas ilhas para quem gostar de tarpão ou acupá. Não tem boi bumba mas tem um carnaval muito animado e uma tradição muito divertida. Nos maiores bailes da Guiana, as mulheres chegam vestidas de damas do século 18. Elas tem a cara, as mãos e o corpo totalmente escondidos com mascara, luvas, e meias. São as tululús que tem o privilegio de escolher os seus cavalheiros, esses sendo obrigados de aceitar sem saber qual é a mulher que se esconde atrás da mascara. Cuidado que pode até ser a sua! Ainda bem que isso, só além do Oiapoque.

Touloulous

Jean-Philippe Pérol