MSC agitando a bandeira da França

O Presidente Macron nos estaleiros da STX em Saint Nazaire

Se os cruzeiros são cada vez mais populares na França,  MSC virou há algumas semanas noticia nos principais jornais do pais. No dia 31 de Maio, o  Presidente Macron foi pessoalmente em Saint Nazaire assistir a entrega pelos estaleiros STX do  “MSC Meraviglia” para a  companhia de cruzeiros italo-suíça. Com 315 metros de comprimentos, 65 de altura, o navio gigante pode hospedar 5700 passageiros com excepcionais condições de conforto, sendo o maior e o mais avançado já construído na França e na Europa. Para o Presidente francês, a construção foi uma proeza técnica e humana da industria nacional, um sucesso que será confirmado pela entrega em 2019 do navio irmão “MSC Bellissima” e com a encomenda da MSC de quatro outros navios somando mais de 4,5 bilhões de Euros.

O Meraviglia saiu de Saint Nazaire com mais de 2000 convidados, engenheiros, técnicos, políticos, jornalistas e agentes de viagens. Em Le Havre, o porto da Normandia que festeja esse ano os seus 500 anos, foi a vez do primeiro ministro francês, Edouard Philippe, de receber o navio para a inauguração oficial. A festa foi a altura das ambições dos parceiros da industria dos cruzeiros na França: discursos, shows de musica, fita com garrafa de champanha cortada pela atriz italiana Sophia Loren, desfile das tripulações, fogos de artificio, espetáculo do Cirque do Soleil, e um jantar de gala preparado pela famosíssima chef estrelada  Hélène Darroze. O Presidente da MSC aproveitou para lembrar as metas da sua empresa: onze novos navios nos próximos dez anos, e 3 milhões de novos passageiros -passando de 1,8 milhão hoje a 4,8 milhões em 2026.

A loja de chocolates do Jean Philippe Maury no MSC Mareviglia

Se o MSC Mareviglia tem casino, teatro, piscinas, simulador de Formula 1 ou de Star Wars, spa, e até geolocalização para crianças, a “French touch” não foi esquecida na gastronomia, nas adegas de vinho, no salão de beleza do cabeleireiro Jean Louis David ou na loja de chocolate do chef Jean-Philippe Maury. O toque francês – e o posicionamento em Le Havre, perto de Paris- é uma escolha estratégica da MSC para aumentar os cruzeiros com destino a Alemanha, Escandinávia, Escócia, Inglaterra ou Irlanda. E com mais de 50 saídas previstas de Marselha  já em 2017, a ambição é de desenvolver o mercado francês que ainda não passa de 600.000 cruzeiristas (menos que o Brasil no auge das temporadas de 2010/2011), enquanto a Alemanha já passou de 2.000.000.

Air France e MSC numa cooperação estratégica

A aproximação da MSC com a França se concretizou também com um acordo de cooperação global entre Air France e a empresa italo-suíça, incluindo vôos especiais para os portos de saídas dos cruzeiros, tarifas “Air Sea”, pacotes com serviços exclusivos, e maior flexibilidade nas ofertas. Trabalhando em comum desde 2014, especialmente na comercialização de voos charters para Santo Domingo e Cuba, as duas empresas esperam que esse novo acordo, assinado no ultimo dia 6 de Junho com um prazo de três anos, leva 250.000 cruzeiristas para voar com Air France, KLM ou Hop, um numero que deverá crescer de 60% até o final da década. Mais razões para MSC agitar com muita força a bandeira da França.

No Brasil, um voo especial da GOL leva os cruzeiristas da MSC para a ilha francesa da Martinica

Esse artigo foi inspirado de um artigo de Serge Fabre na revista profissional online La Quotidienne. 

A cerimônia inaugural do Meraviglia no porto do Le Havre

Nantes, uma dinámica juntando cultura e turismo!

O Grande Elefante da Ilha © Jean-Dominique Billaud / LVAN

O Grande Elefante da Ilha © Jean-Dominique Billaud / LVAN

Se Jules Verne é hoje conhecido internacionalmente pelas suas “Viagens extraordinários”, 62 livros de aventura que levaram seus leitores no mundo inteiro (inclusive no Brasil com “A Jangada”), poucas pessoas sabem que ele era nascido e criado em Nantes. Foi talvez lembrando disso que nos anos 80, depois do fechamento dos estaleiros e frente a então decadência econômica da região, um diretor artístico e um politico apostaram na arte, na cultura, no turismo, e acima de tudo nas viagens para um novo desenvolvimento da cidade. E o sucesso apareceu, a altura dos investimentos realizados, com quase 3 milhões de pernoites em 2016, um crescimento constante desde 2010 e perspectivas muito favoráveis para 2017.

O Voyage à Nantes espalhando arte na cidade e no Rio Loire

O Voyage à Nantes espalhando arte na cidade e nas beiras do Rio Loire

O “Voyage à Nantes” é hoje não somente o nome de fantasia da autarquia encarregada da promoção de Nantes e do seu extraordinário percurso cultural, mas também o nome do festival que acontece todos os anos durante o verão. Programados esse ano do dia de 1ero de julho ao dia 27 de agosto, os eventos seguem uma linha verde que caminha pelas ruas, pelas praças e pelos cais da cidade, parando nos lugares mais interessantes de ponto de vista cultural ou gastronômico. Os itinerários brilham pela criatividade, podendo incluir tanto as antigas fabricas dos saudosos biscoitos “Petit LU”, o museu do castelo dos Duques de Bretanha, ou a surpreendente parada “bistronômica” do restaurante Les chants d’Avril de Christophe e Véronique François.

Arte no Rio Loire, a cobra de Huang Yong Ping

Arte no Rio Loire, a serpente de Huang Yong Ping

Criado em 2007, “L’estuaire” ( O Estuário)  é o outro grande percurso artístico do “Voyage à Nantes”. Nas beiras do Rio Loire, ele junta, numa grande Bienal ao ar livre, 14 obras de arte contemporâneo  espalhadas entre as cidades de Nantes e de Saint-Nazaire. O percurso pode ser feito o ano inteiro, seja de bicicleta, de barco, de carro ou até de ônibus, seja em grupo organizado ou em liberdade (nesse caso é recomendado baixar o aplicativo Estuarium). Duas obras chamam mais especialmente a atenção dos viajantes, A serpente do Oceano da Huang Yong Ping, frente a base dos submarinos de Saint Nazaire, e A casa no Rio Loire de Jean-Luc Courcoult – sendo a visão dessa obra mais impressionante no por do sol.

Veleiros no porto de Nantes

Veleiros no porto de Nantes

Na cidade do Jules Verne, a cultura virou um atrativo emblemático que posicionou Nantes como um dos destinos franceses e europeus mais conceituados. Empurrado pelo talento do diretor artístico Jean Blaise e pelo apoio do então prefeito (e agora Ministro das Relações exteriores Jean-Marc Ayrault), o sucesso criou uma dinâmica que transformou a cidade. A valorização do patrimônio e as obras de arte contemporâneo  não somente contribuíram a atrair turistas mas deram também um novo futuro para seus moradores.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista on-line Pagtour

Primeira edição de La Jangada de Jules Verne (1881)

Primeira edição de La Jangada de Jules Verne (1881)

As ambições de grandeza das companhias de cruzeiros

O MSC Orchestra com cruzeiros saindo de Fort-de-France na Martinica

O MSC Orchestra, iniciando cruzeiros em Fort-de-France na Martinica

Ocean Cay MSC Marine Reserve ainda não passa de uma ilhota deserta das Bahamas a cem milhas de Miami, mas vai virar, daqui a dois anos  um pequeno paraíso artificial,  privativo dos passageiros da MSC. OCEAN CAY MSC TERMINALA ilha oferecerá 38 hectares exclusivos, com seis praias, uma lagoa, vários parques, um pequeno vilarejo “típico”, restaurantes, bares, um pavilhão para casamentos e um teatro de 2000 lugares para shows.  A chegada do cruzeiro inaugural, no navio Seaside construído no estaleiro de Saint-Nazaire,  está marcada para dezembro 2017, com a presencia do primeiro ministro das Bahamas que sonha receber   em Ocean Cay centenas de milhares de turistas por ano. Enquanto MSC prepara a sua ilha, as ambições dos seus concorrentes não param. A Crystal Cruise acabou de lançar nas Seychelles um iate de 32 cabines com um submarino para explorar o fundo do mar. A Royal Caribbean vai inaugurar o Harmony of the Seas, o maior navio do mundo, também construído em Saint-Nazaire, com 5500 passageiros e 2380 tripulantes. E a Costa, do grupo Carnival, acabou de lançar uma volta ao mundo de 108 dias para 2000 clientes, com pacotes iniciando a 13.000 USD e escalas previstas em Marselha, Rio de Janeiro, Ushuaia, Bora-Bora, Sidney, Goa, e Omã…

Pôr do Sol em Bora Bora

Pôr do Sol em Bora Bora

A desaceleração da economia chinesa, as ameaças no crescimento mundial, as crises, e até mesmo o drama do Costa Concordia, nada parece frear o sucesso dos cruzeiros junto aos viajantes. 2015 deve fechar com um crescimento de 7% da industria, a MSC devendo mesmo chegar a 10%. Nas bolsas de valores os americanos Carnival e Royal Caribbean, bem como o norueguês NCL mostram uns lucros em alta e uma rentabilidade de quase 11%. Os bons resultados do mercado chinês – onde o numero de passageiros deveria passar de 1,3 a 3 milhões até 2018 – deixam os investidores otimistas para o futuro.

Os grandes concorrentes do setor estão cada vez mais criativos e os investimentos cada vez mais impressionantes. Assim a MSC, controlada pela família Aponte, está dobrando o tamanho da sua frota, se diversificando alem do Mar Mediterrâneo, e fazendo upgrade dos seus produtos. Destacando a elegância e o refinamento da marca, apoiado numa musica de Ennio Morricone, uma nova campanha de 70 milhões de dólares vai ajudar a reposicionar a marca. Cruzeiro fluvial na AmazôniaEm 2016 serão 27 navios novos para todo o setor, um investimento global de 6,5 milhões de dólares para acomodar 30.000 novos passageiros. É o maior crescimento anual da oferta, já prevendo 29 milhões de cruzeiristas em 2020. Pode parecer otimista – foram 23 milhões em 2015 – mas a industria dos cruzeiros está com razão de sobra para isso. A Europa ainda tem um imenso potencial ( somente 2% das ferias são aproveitadas num navio), a Ásia continua o seu crescimento de dois dígitos, os cruzeiros fluviais estão na moda, a Austrália está progredindo rápido e o Brasil ainda é uma esperança sólida.

O Harmony-of-the-seas em Saint Nazaire

O Harmony-of-the-seas em Saint Nazaire

O maior potencial de crescimento dos cruzeiros pode vir duma mudança do próprio sentido desses cruzeiros. Outrora meio de transporte agradável para uns destinos turísticos que os passageiros estavam descobrindo  a cada escala, o navio vira hoje ele mesmo um destino turístico independentemente do seu roteiro. As escalas poderão aparecer meros opcionais, com menos de 50% dos passageiros descendo, e com gastos no local cada vez mais baixos, porque o próprio navio oferece tudo (ou quase) que um destino pode ter de melhor: bares, restaurantes, piscinas, lojas tax-free, espetáculos inéditos, centros de lazeres…. E o exemplo de Ocean Cay mostra que as  escalas poderão também ser substituídos pelos paraísos artificiais das companhias de cruzeiro. Mesmo?

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Denis Cosnard do jornal Le Monde 

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Cruzeiros no Brasil: a última novidade vem da França, mas as tendencias são mundiais !

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A grande novidade da temporada de cruzeiros 2014 nas costas brasileiras vem da França. Foi de Saint Nazaire, onde foi construído nos antigos Chantiers de l’Atlantique, que zarpou pela primeiro vez o MSC Precioza , para uma viagem inaugural até Marselha. Além de um conforto e de facilidades excepcionais em restaurantes, bares, piscinas ou lojas, o navio  tem  uma área VIP com atividades diferenciadas e um parque aquático único com o Vertigo, um tobogã de 120 m de comprimento. Podendo receber 4360 passageiros, esse resort de luxo flutuante vai com certeza dar mais um impulso para os cruzeiros no Brasil. O setor multiplicou por seis desde o início do século, seduzindo em 2013  762.000 passageiros, e está impactando todo o turismo no Brasil com uma movimentação estimada em 1,4 bilhões de reais.

No mundo inteiro os cruzeiros estão tendo um sucesso impressionante.  Outrora quase exclusiva de aposentados americanos, a clientela se diversificou. imageDos 20 milhões  de ‘cruzeiristas’, hoje 6 milhões são  alemães, ingleses, italianos, e também brasileiros ou franceses. Alguns mercados, em primeiro lugar a China, são muito promissores. Com um  custo benefício muito competitivo, aproveitando o sucesso dos cruzeiros temáticos (familiar, cultura, gastronomia, concertos, solteiros, gays…) , as companhias conseguiram também atrair novos segmentos de clientes.

O impacto junto aos agentes de viagens é também extremamente positivo. Empurrados por intensas campanhas promocionais, os cruzeiros são muito procurados nas agências. As companhias marítimas ainda respeitam muito os intermediários e procuram pouco as vendas diretas, a web não sendo por enquanto uma opção fácil para escolher o seu navio, sua rota e sua cabine.  Muitos agentes se qualificaram nisso, e as vendas dos cruzeiros são por esses motivos responsáveis de mais de um terço das receitas das agências de viagens americanas. A situação mudará  quando as companhias se sentirão bastante forte para  apostar mais na web e nas vendas diretas, mas por enquanto o setor tem nos cruzeiros uma grande oportunidade.

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Tem agora o ponto de vista global dos destinos. Hoje os portos das grandes cidades turísticas investem para atrair os grandes ou pequenos navios. As companhias parecem solicitar das autoridades numerosas vantagens ou ajudas, tanto ao nível fiscal, operacional ou promocional. O retorno vem com os  suprimentos para armar os navios, os pre ou pós tours, e os excursionistas que descem dos navios para aproveitar belezas e lojas do local.  Mas as despesas deles são cada vez menor (97 USD por passageiro, estagnado há 15 anos), e  os passageiros descem cada vez menos (hoje a metade do total, e continua caindo).

Algumas dúvidas começam então a surgir em relação ao ‘retorno sobre os investimentos’. Seriam os cruzeiristas novos clientes ou viajantes desviados de pacotes tradicionais ? Até onde apoiar barcos gigantes  escapando de tributações , com tripulações de 90% estrangeiros, e com passageiros gastando em terra metade dos turistas tradicionais, vai ajudar o crescimento do turismo no Brasil?

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Vai, sim. Vendo o sucesso de destinos como Saint Martin, Alasca, Barcelona ou Marselha , ė claro que  a economia brasileira pode ganhar muito com esses novos navios. Mas  a estratégia  tem que incluir algumas ideias chaves para os cruzeiros poderem contribuir ao sucesso da indústria nacional do turismo:

– os dois pontos mais importantes para atrair novos navios são a ausência de burocracia e a confiança no futuro. As companhias na verdade não querem ser ajudadas, só não querem ser atrapalhadas ou exploradas. Foi lembrado no último ‘Sea Cruise Shipping’ de Miami que a concorrência internacional não permite um ‘custo Brasil’ nesse setor. Os regulamentos têm que ser padronizados, e Santos não pode mais cobrar seis vezes mais que Barcelona, nem os práticos de Belém ou Salvador serem os mais caros do mundo.

– para melhorar as receitas, tem que facilitar os desembarques, e aproximar ao máximo os navios dos locais de visitas e de compras de cada destino. As excursões organizadas pelos profissionais locais são chaves não somente para incentivar a descer e descobrir as riquezas das escalas mas também para integrar cruzeiros e indústria do turismo. Enfim os investimentos para atrair cruzeiristas internacionais não devem ser imediatistas. Claro que gastam menos que os outros turistas (no Brasil 600 usd contra 1200), mas o importante é que 40% deles voltam nas escalas visitadas.

– se o Precioza e os outros 10 gigantes previstos para 2014 são os pesos pesados da indústria dos cruzeiros, muitos imagebarcos menores, muitas vezes de luxo (foi a escolha bem sucedida de Cannes ou Saint Tropez) oferecem outras oportunidades tanto de operações como de marketing. Mais personalizados, mais ágeis, mais sofisticadas para os clientes, eles podem ser mais adaptados aos novos nichos de mercado, assegurando mais valor agregado e mais retorno para os destinos. Os cruzeiros fluviais, cada vez mais populares,  são também um nicho promissor.

Com menos navios, e uma previsão de somente 650.000 passageiros, 2014 será um ano mais complicado, e a Abremar tem razão de avisar que a assombrosa burocracia é um obstáculo maior. Mas devemos acreditar que será removido e que, integrados ao trade brasileiro, completando a estratégia do setor e atraindo novos turistas, os cruzeiros  têm, para as companhias marítimas e para todo o turismo no Brasil, um campo imenso pela frente.

Jean-Philippe Pérol