Notre Dame de Paris, depois da emoção e do choro, a difícil batalha da reconstrução!

O incêndio pouco antes da queda da flecha de 96 metros

Choramos, e choramos muito. Choramos logo no choque da noticia, quando as primeiras imagens da Catedral em chamas começar a circular em todos os canais de televisão bem como nas mídias sociais. E choramos mais ainda quando a queda da orgulhosa flecha atingiu o coração e a alma de milhões de espectadores que não podiam nem queriam acreditar nessa tragédia. Percebemos nesse instante que Notre Dame de Paris, não era somente uma das mais imponentes igrejas da Fé católica, mas era também um lugar icónico para o povo de Paris e a Nação Françesa. Monumento mais visitado da Europa (14 milhões de turistas o ano passado, sem contar os fieis), celebrado há oito séculos por escritores, pintores, cineastas ou políticos, era cravado na historia da humanidade e na cultura mundial.

A coroação de Napoleão, quadro do Louis David

Erguida a partir do século XII – numa cidade que nem contava 20.000 habitantes-, ela foi guardiã  da fé dos reis “muito católicos” da França. Se a primazia da Gália ficava em Lyon,  a cerimônia da coroação em Reims e os enterros reais em Saint Denis, Notre Dame de Paris sempre ficou mais carregada de símbolos. Foi lá que Saint Louis mandou guardar a coroa de espinhos do Cristo hipoteticamente trazida das Cruzadas, foi lá que Joana d’Arc foi reabilitada, foi lá que Henri IV festejou sua vitoria, foi lá que Napoleão se auto-coroou Emperador dos franceses na frente do então Papa Pio VII. Na Liberação de Paris do invasor alemão, foi lá que de Gaulle veio escutar o Te Deum da vitoria. Foi lá que o mesmo de Gaulle recebeu, no dia 12 de Novembro de 1970, uma última homenagem de uma plateia com mais de 80 imperadores, reis e presidentes vindo do mundo inteiro. E devemos lembrar que se Quasimodo e Esmeralda são personagens de ficção, foi com Notre Dame de Paris que Victor Hugo construiu parte da sua gloria.

A literatura e o cinema contribuíram a gloria de Notre Dame

Frente a emoção universal, o presidente francês já anunciou que o seu governo ia se empenhar para reerguer-la em cinco anos. A impressionante lista de contribuições que começar a chegar -quase um bilhão de Euros em menos de uma semana-, valores pequenas e grandes, doados por gente humildes ou famosos, católicos, muçulmanos, judeus ou ateus, vindo da Franca, dos Estados Unidos, do Marrocos ou do Brasil, deixam pensar que o maior desafio não será financeiro. Alem de encontrar as respostas tecnológicas, os arquitetos deverão também enfrentar a demagogia dos políticos que já iniciaram as polêmicas. Qual planta deve ser seguido, do século XII, XIII, XVIII ou XIX? O novo telhado deve ser ecologicamente correto? A nova flecha terá, assim que falou o Primeiro Ministro,  que se adaptar “aos desafios do século XXI”? A diversidade cultural deve integrar o novo projeto?

As quimeras de Notre Dame vigiando Paris

Notre Dame continua em pé, mas ainda não está salva. A herança milenar dos geniais construtores da Idade Media pode ser desnaturada por incultos marqueteiros do curto prazo. Passada a emoção, ainda tem risco de ver as obras entrar num ciclo sem fim de brigas politicas e de bloqueios de verbas que são a triste realidade de milhares de igrejas ou monumentos históricos esperando concertos ou renovações há anos. A mobilização dos parisienses e de todos aqueles que se emocionaram com eles será então fundamental para acompanhar a reconstrução. Na igreja de madeira que será provisoriamente construída no “Parvis”, na frente do portão de onde saiam simbolicamente todos as estradas ligando Paris ao resto da Franca, moradores e turistas vão poder, juntos, mostrar a sua determinação para que esse monumento da fé, da valentia e da beleza volta a integrar o patrimônio da Humanidade e a nossa própria Historia.

Jean-Philippe Pérol

De Haile Selassié a Nixon, de Senghor ao Shah, uma das maiores concentrações de chefes de estado da Historia

Na asas da Ethiopian, a volta das Terras do Preste João!

Os vitrais do Afewerk Teklé

Vitrais do Afewerk Teklé na sede da O.U.A.

Enquanto Ejtihad, Emirates, Qatar Airways ou Turkish estão virando o pesadelo da Air France e das grandes companhias aéreas da Europa e da América do Norte, as plataformas de Abu Dhabi, Dubai, Manama e Istambul, poderão em breve ver surgir competidores. A expansão da Ethiopian Air Lines, mostrou aos  hubs do Oriente Médio uma nova ameaça vindo da Etiópia, o antigo Império do Hailé Selassié -o Ras Tafari-, que conhece há dez anos um crescimento econômico de dois dígitos e quer fazer de Addis Abeba a maior plataforma aeronáutica  da África.

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A Ethiopian voando para São Paulo

Em outubro, a companhia, membro da Star Alliance, recebeu o prêmio CAPA  de “Companhia aérea do Ano”. Num continente onde a saúde financeira da aviação é muito frágil, ela anunciou 175 milhões de dólares de lucro, se auto proclamando “maior companhia aérea da África”.Ethiopian logo Presente há dois anos no Brasil, a Ethiopian Airlines tem mesmo a ambição de virar uma grande companhia mundial, com um plano de desenvolvimento “Visão 2025” que prevê de passar  de 77 aparelhos a 150, com uma frota mais diversificados – hoje só de Boeing mas recebendo os primeiros Airbus a partir de maio de 2016. O sucesso da Ethiopian Airlines se deve em parte aos mesmos ingredientes que seus concorrentes do Oriente Médio, uma estratégia bem definida, uma frota nova,  muitos investimentos em tecnologia – com o único simulador de voo da Africa-, e uma formação do pessoal com um centro atendendo 1400 alunos que passará em breve a atender 4000.O simulador de voo da Ethipian O ponto chave é claramente a consolidação do hub de Addis Abeba, a capital bem localizada entre a Europa, a África, a Ásia e especificamente a China onde a Ethiopian Airlines jà tem voos para Pequim, Xangai, Hong Kong e Cantão. Recebendo hoje 6 milhões de passageiros, e esperando 20 milhões nos próximos anos, o governo anunciou a construção de um novo aeroporto, o maior do continente e o mais eficiente para a sua estratégia de hub.

O Leão de Juda em Addis Abeba

O Leão de Judá em Addis Abeba

Essas ambições estão sem dúvidas consolidadas pelas ambições políticas da Etiópia. Com seus quase 100 milhões de habitantes, seu dinamismo econômico e sua condição de capital da União Africana, o pais se orgulha do seu passado. Único do continente a nunca ter sido colonizado, cristão desde o século III, mítico na Europa  desde a procura das Terras do Preste João, o Império teve relações com o mundo ocidental desde o século XV. Castelo de Fasilidas em HararProcurando um aliado contra as potências muçulmanas , os portugueses trouxeram um apoio decisivo ao imperador Cláudio que venceu as tropas turcas e árabes em 1542/1543 numas batalhas onde morreu o Cristóvão da Gama, filho do Vasco. E se o assassinato do Hailé Selassié acabou com a dinastia dos descendentes de Salomão, a vontade da Etiópia de voltar a ser a grande potência regional é mais forte que nunca. Esse ambicioso projeto vai sem duvidas ajudar a Ethiopian Airlines a consolidar as rotas do seu hub  e a dominar os ceús do continente africano. Para as companhias do Golfo, uma nova ameaça vinda das Terras do Preste João!

Jean-Philippe Pérol

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O Imperador Hailé Selassie com o General de Gaulle em Paris em 1964. Atrás, o Gilbert Pérol, então Porta voz da presidência da Republica.

Esse artigo foi inspirado de um artigo original do jornal francês Le Monde. O autor morou na Etiópia, sendo um ex-aluno do Liceu Guebre Maryam de Addis Abeba.