Croácia, Colômbia, Ruanda, três lições de reconstrução da atratividade de um destino turistico

Para construir uma nova imagem, não pode fugir do passado

Vinte anos atrás, o  New York Times descrevia a Colômbia como um pais dominado pelas guerras de traficantes,  os crimes dos milicianos ou os sequestros da guerrilha. Nos anos anteriores, o Washington Post  tinha descrito a Croácia como um país destroçado pela guerra civil que somente podia ser visitado por aventureiros destemidos. E um artigo do  New Yorker  publicado durante o genocídio dos tutsis avisava que o Ruanda era tão perigoso que era desaconselhado para os raros visitantes de sair da área do aeroporto. Desde então, os conflitos terminaram e as infraestruturas foram reconstruídas. As economias deram a volta por cima, e o turismo se recuperou: 3 milhões e um leadership regional para a Colômbia, 1,5 milhão de turistas e o reconhecimento internacional para o  Ruanda, 19,7 milhões e um top ranking no Mediterrâneo para a Croácia.  As razões do sucesso desses três países na reconstrução da atratividade pode inspirar responsáveis do turismo no mundo inteiro.

A cultura tutsi sobreviveu ao genocídio

É impossível fugir do seu passado. Mesmo tendo uma das mais dinâmicas economias da África, Ruanda continua carregando a imagem do massacre de 800.000 tutsis. Integrada na União Europeia, a Croácia não apagou as lembranças da guerra civil. E a Colômbia continua sendo -por méio das novelas da Netflix ou da própria TV colombiana- a terra do terror, das drogas e da violência de Pablo Escobar. Mas em vez de esconder ou de negar esse passado, os três países estão mostrando que não podem ser resumidos a esses acontecimentos, tão trágicos que foram, e que não somente esses eventos foram marcados por emocionantes casos de compaixão ou de heroismo, mas que têm outros eventos e outras historias para contar. Em 2008, a Colômbia foi assim extremamente bem sucedida em lançar uma empolgante campanha “El riesgo es que te quieras quedar” (O risco é de você querer ficar) que não escondia os problemas mas mostrava que tinha também boas notícias.

Para quem não tem as pirâmides de Gizeh, a Torre Eiffel ou o Machu Picchu, foi importante encontrar um ícone que ajudou  a posicionar o destino e a consolidar a marca. A Croácia continua acreditando no dinamismo trazido pela sua seleção nacional de futebol – vice-campeã na Copa do Mundo da Rússia (2018).  Depois de muitas buscas, a Colômbia está agora apostando nos pássaros. Com 2000 espécies diferentes, anuncia a maior biodiversidade de aves e aproveita esse patrimônio para comunicar sobre a riqueza do meio ambiente e do turismo de natureza. Em Ruanda, o ministério do turismo aposta nos gorilas e nos esforços para protegê-los. Uma campanha nas mídias sociais promove as oportunidades de seguir os animais e de participar da festa anual da Kwita Izina, uma cerimônia ruandesa durante a qual é dado o nome dos gorilas recém nascidos.

Sente o ritmo é a nova campanha de marketing da Colômbia

A continuidade das campanhas de marketing foi um fator essencial de sucesso. Depois da campanha surpreendente de 2008, a Colômbia  continuou com um novo conceito homenageando o maior escritor do país, Gabriel García Márquez, por meio do “realismo fantástico” e com um vídeo que foi visto por mais de 3 milhões de internautas. Uma nova campanha, “Colômbia, feel the rhythm” ,  aproveite a riqueza do patrimônio musical do “país dos 1,000 ritmos”, querendo criar uma ligação entre música e turismo comparável à bem sucedida sinergia com a gastronomia. A Croácia procurou também uma campanha duradoura para poder interagir com os turistas. Na onda do Mundial 2018 na Rússia, o escritório nacional de turismo  lançou um vídeo que leve o internauta às regiões de origem de cada um dos mais populares jogadores do time, um video que já foi visto mais de um milhão de vezes.

Ruanda aposta nos jogadores do Arsenal como influenciadores

Os influenciadores ajudaram a construir a nova popularidade dos destinos. Ruanda aproveitou a atriz  Portia de Rossi e a sua esposa, Ellen DeGeneres, donas de mais de 80 milhões de seguidores, que patrocinaram  um novo centro para  The Dian Fossey Gorilla Fund  em  Kinigi. Essa fundação deu continuidade aos trabalhos de Dian Fossey, e tanto Portia de Rossi que Ellen DeGeneres  foram a Kinigi e no Ruanda, publicando fotos e vídeos nas suas páginas. Ruanda aproveitou também a parceria dos jogadores do Arsenal, time da primeira divisão inglesa, que entraram em campo com camisas estampadas “Visit Rwanda”. O time deve visitar o país para promover o futebol. O sucesso do “rebranding” precisa também de sorte. Para a Croácia, a escolha de Dubrovnik para filmagem de “Game of Thrones” deu um impulso excepcional para o turismo em todo o sul da Dalmácia, e as agências locais oferecem hoje vários circuitos. Um orgulho para uma cidade que foi bombardeada e ameaçada de destruição durante a guerra de 1991-1992.

Aparecer no Game of Thrones foi uma sorte excepcional para Dubrovnik

Esse artigo foi inspirado de um artigo original de Tariro Mzezewa no New York Times

De Porto Rico a Salvador, e de Olkhon a Tahiti, os 52 destinos 2019 do New York Times

Salvador, único destino brasileiro da lista

Publicando a sua seleção 2019 dos 52 destinos sugeridos para o ano, o New York Times conseguiu mais uma vez inovar e surpreender. Iniciada em outubro, e liderado pela editora chefe do caderno de turismo do jornal, o processo mobilizou não somente a equipe nova iorquina mas os correspondentes, jornalistas e fotógrafos que o NYT tem nos cinco continentes. Alem dos critérios próprios de cada destino, foram também avaliados as novidades do local, o seu acervo cultural, a sua sustentabilidade, bem como os seus cuidados com o overturismo. É provável que nenhum turista – a não ser Sebastian Modak, o jornalista que foi escolhido para isso – vai visitar esses 52 lugares, mas a lista será sem dúvidas uma fonte de inspiração para muitos viajantes que querem seguir os novos trends do turismo mundial.

A Grécia, um dos destinos esquecidos nessa seleção 2019

O sério do jornal e a transparência do processo não impedem as primeiras críticas sobre as escolhas feitas. A lista é sem dúvidas muito “americana” com 11 destinos estadounidenses e 2 canadenses. A Europa é bem representada com 19 destinos, mas a Ásia (6), a América latina (4), a África (2), e o Oriente Medio (4) não parecem despertar o mesmo interesse. E se alguns destinos são incontestáveis boas dicas para 2019, outras parecem ter sido escolhidas somente para esbanjar originalidade, impedindo talvez a entrada de concorrentes mais atraentes e mais promissores. A notoriedade do New York Times e a qualidade do trabalho da equipe da editora chefe fazem assim mesmo da publicação das “52 places to go in 2019” um evento para todos aqueles que querem seguir os novos trends do turismo mundial.

Porto Rico liderando os destinos 2019 do NYT

Porto Rico, Hampi (na Índia) e Santa Barbara são os três destinos que dividem o pódio. Porto Rico parece ter sido mais premiado pela sua garra em se recuperar dos estragos feitos pelo furacão Maria, já que nenhuma das três novidades anunciadas – A programação do  Centro de Bellas Artes Luis A. Ferré , o anuncio do novo centro de lazer de San Juan, o District Live! , ou a nova escala dos navios de cruzeiros em Port das Américas, no litoral sul da ilha-, parece justificar a transformação do pequeno Estado associado na maior e mais excitante atração do turismo mundial. Hampi, sitio  tombada pela UNESCO agora mais acessível e com algumas infraestruturas novas, merece atrair os apaixonados de cultura indiana com suas mil construções preservadas desde o século XVI. Ao contrario parece surpreendente que um simpático foodie market seja suficiente  para por Santa Barbara em terceiro lugar.

As Ilhas de Tahiti foram merecidamente confirmadas na lista

A lista muitos acertos merecedores. O New York Times premiou alguns destinos tradicionais mas que devem ser relembrado como os Açores, Zadar e a costa da Croácia, o Irã, Tunis, Cadiz, ou as Ilhas de Tahiti. Lembrou também que grandes experiências podem ser vividas fora das grandes capitais, em Plovdiv na Bulgária, em Lyon ou Marselha na França, em Aalborg na Dinamarca ou em Perth na Austrália. Deve ser anotado alguns premios de criatividade, como as Ilhas Maluinas, a trilha de Paparoa (na Nova Zelândia), a ilha de Olkhon (no meio do lago Baical), ou o vale de Elqui no deserto do Atacama. O Brasil só teve um destino na lista, Salvador de Bahia, mas com um brilhante décimo quarto lugar apoiado na sua nova Casa do Carnaval , na abertura dos Fera Palace Hotel e do Fasano Salvador, ou do sucesso da franco-brasileira  Regata Transat Jacques Vabre. E agora, quais destinos brasileiros entrarão na lista 2020?

Jean-Philippe Pérol

Olkhon no lago Baical, uma escolha prêmio de criatividade!

Na Croácia, um SPA onde a cerveja é a base do tratamento!

Mergulhar na cerveja é a última forma de fitness!

Entre Veneza e a costa Dalmácia, a Ístria sempre foi uma região famosa pela qualidade dos seus produtos agrícolas, sejam seus vinhos e seus azeites enraizados no Mediterrâneo que cerca a península, ou suas cervejas artesanais herança dos 500 anos de domínio austríaco. Nas montanhas do Sul da região, perto da cidade de Buje, a cervejaria San Servolo aproveitou o savoir-faire tradicionais e a qualidade da águas não somente para produzir uma das melhores cervejas do pais mas também para abrir um  complexo turístico único na Croácia.  Com um restaurante, uma casa “Bed and Breakfast”, um hotel e uma loja de produtos regionais, o San Servolo Resort and Beer Spa deve sua grande originalidade ao seu Spa onde a base dos tratamentos é a própria cerveja.

O predio da recepção, da loja e do restaurante

O Bed and Breakfast fica numa casa do conjunto chamada La Villa Romântica, com uma decoração aconchegante e detalhes de estilo clássico, como espelhos dourados ou papel de parede estampado, contrastando com o elegante design contemporâneo do hotel. A recepção, a loja de gastronomia e o restaurante ficam num outro prédio onde os designers escolheram um ambiente mais rústico valorizando a madeira. Mas a grande particularidade do lugar é seu Spa de cerveja, com a procuradíssima sala com duas grandes banheiras que os ajudantes enchem de cerveja para um tratamento exclusivo onde não é aceito nenhum outro produto, a não ser, claro, dois chopes para poder brindar com seu par.

Alem de virtudes medicinais, o lúpulo ajuda na aromaterapia

Desde os tempos do Egito dos faraós, as mulheres utilizavam a cerveja para uso terapêutico ou estético, na cura das doenças dermatológicas bem como nos tratamentos de beleza da pele. Quatro mil anos depois, pesquisas científicas japonesas e alemãs comprovariam que os sedimentos de levedura inativa de cerveja ajudam mesmo a manter um Ph equilibrado. Diminuindo a produção de sebo, contribuiria para matar as bactérias responsáveis pela acne e espinhas, a frear as rugas, além de amaciar a pele. O SPA do San Servolo chama também a atenção sobre os grandes poderes de aromaterapia do mirceno, um óleo essencial presente no lúpulo, com aromas de madeira, de balsâmico, de uva e de pêssego, e com uma forte concentração de vitaminas A e E.

A loja do San Servolo

O San Servolo Beer Spa não é o primeiro Spa aproveitando essas virtudes da cerveja, a Republica Tcheca foi até pioneira e o Brasil já abriu estabelecimentos especializados em Curitiba e Brasília, mas ele vai com certeza aproveitar o dinamismo do turismo da Costa Dalmácia Da fronteira italiana até Dubrovnik e as bocas de Kotor, passando por Zadar, Makarska, Spoleta e Ragusa, a Croácia multiplicou por seis os seus turistas internacionais desde a independência em 1995. Chegando a 15 milhões de visitantes, aproveitou a beleza do seu litoral e a riqueza da sua historia para virar um dos mais procurados destinos da Europa onde os Spa cervejeiros serão uma atrativo a mais.

Esse artigo foi traduzido e adaptado de um artigo original de Serge Fabre na revista on-line La Quotidienne