Paris, cidade dos dois Napoleão, o Grande e o Pequeno?


Sainte Genevieve, enfrentou Átila e virou padroeira de Paris

Andando nas ruas de Paris, olhando os nomes  das ruas, das praças ou dos monumentos, o visitante é colocado frente a numerosos personagens que influenciaram os dois mil anos de vida dessa tão peculiar, orgulhosa e rebelde cidade. Assim Sainte Genevieve, Robert de Sorbon, Philippe le Bel, Etienne Marcel, Marie de Médicis, Louis XIV, Gavroche, Bienvenue, Gallieni, de Gaulle, Pompidou, Mitterand, têm os seus seguidores e deixaram suas marcas na sua cultura, no seu urbanismo e na sua arquitetura. Mas segundo o escritor Dimitri Casali, que publicou recentemente o livro “Paris Napoléon(s)”, são porem os dois imperadores da dinastia bonapartista que deixaram,  durante os seus reinados e até hoje, as maiores e mais impressionantes marcas na cidade luz que 35 milhões de turistas continuam a visitar nesse século XXI.

O Arc de Triomphe numa foto de 1913

As grandes mudanças da Paris moderna começaram com Napoleão que queria assim mostrar a potência do Império. Depois dos abandonos e das destruições que acompanharam a Revolução e a guerra civil, a volta da ordem e da prosperidade possibilitam grandes obras que perduram até hoje. O Louvre é renovado, e no seu pátio é inaugurado o Arc du Carrousel. São abertas ou ampliadas a Rue de Rivoli, a Rue de la Paix, a Rue de Castiglione, a Rue d’Ulm. Na Place Vendôme foi construída a famosa coluna com o bronze dos 1200 canhões tomados dos austro-russos na lendária vitoria de Austerlitz. São iniciadas as construções da igreja da Madeleine e da faixada do Palais-Bourbon, do Canal de Ourcq, da Bolsa de valores e, claro, do Arc de Triomphe. Foram também quatro pontes, duas das quais – Austerlitz e Iena – têm nomes de vitórias imperiais. E para que qualquer cidadão, qual que seja sua raça ou sua religião, pudesse ser enterrado decentemente,  Napoleão mandou construir em 1803 o famoso cemitério do Pere Lachaise.

A Praça Vendome e sua coluna fundida com os canhões de Austerlitz

Outras grandes ambições parisienses do Imperador foram abandonadas depois do desastre de Waterloo. No morro de Chaillot (onde  foi depois construído o Palais du Trocadero, e nos anos trinta, o Palais de Chaillot), devia ser erguido um gigantesco palácio para o seu filho, o Rei de Rome, com uma faixada de 400 metros de largura e um parque cobrindo todo o lado oeste de Paris, até Champs Elysées e o Bois de Boulogne. Mesmo se esse e alguns outros projetos foram esquecidos, a chegada ao poder em 1848 do sobrinho de Napoleão I, Napoleão III, vai relançar muitos outros, e dar a capital francesa o aspecto que ela guardou até hoje. Investindo o equivalente hoje a 120 bilhões de reais, misturando preocupações urbanísticas, socais e militares, ele vai confiar ao Prefeito de Paris, o Barão Haussmann, todos os poderes para levar ao fim a metamorfose da cidade.

A beleza imponente do Palais Garnier, a Opera de Paris

E, durante o Segundo império, Paris vai ver a abertura de grandes avenidas: boulevards Saint Germain, Saint Michel, Haussmann, Diderot, bem como Saint Michel e Sebastopol ampliando o eixo Norte Sul da capital. A avenida da Opera liga a nova Opera com o antigo Palais Royal. Para compensar a destruição de 20.000 casas ou sobrados, são construídos alojamentos novos para os operários nos bairros populares da zona leste bem como prédios modernos e elegantes nas áreas nobres da planície Monceau. O Louvre é enfim finalizado, e vários parques e praças são redesenhados. Ainda abertos hoje, dois grandes hotéis muito conhecidos dos brasileiros, o Hotel du Louvre e o Grande Hotel, são projetados e inaugurados seguindo as suas ordens.  Em 1870, quando Napoleão III abdica do poder depois da derrota militar contra a Prussia, ele deixa Paris com (quase) uma bela e moderna cara da capital mundial aonde o visitante do século XXI não ia se sentir perdido.

O Boulevard Saint Germain, herança do Haussmann e do Napoleão III

Talvez até hoje perseguido pelo ódio de Victor Hugo (que o chamava de Napoleão o Pequeno), o sucessor de Napoleão o Grande, depois de ter feito tanto pela sua capital, não conseguiu porem conquistar o coração dos parisienses, nem gravar o nome dele, a não ser uma praça minúscula entre um Mc Donald e a estação de trens Gare du Nord, em nenhum monumento da cidade que ele tanto embelezou. Se Paris deve muito aos dois imperadores, o segundo deveria talvez ser chamado de o injustiçado ….

Esse artigo foi adaptado de um artigo original na revista francesa Le Point

O Pont des Arts, toque de charme herdado do Napoleão o Grande

 

O Hotel du Louvre, projeto iniciado ao pedido do Napoleão III

Em Paris, o novo Museu do Homem, encarando a velha Dama de Ferro!

Vista do Museu ao por do sol

Um dos museus preferidos das famílias parisienses, o Museu do Homem, reabriu esse final de semana depois de seis anos e 92 milhões de euros de obras. Frente a Torre Eiffel, atrás da faixada “art  deco” do Palais de Chaillot, o novo museu foi não somente  completamente renovado mas também  reinventado.Palacio do Trocadero Ainda fiel a sua história de museu-centro de pesquisa, que foi escrita com colaboradores famosos incluindo o brasilianista Claude Levi-Strauss, ele consegue agora ser lindo, luminoso, atrativo, pedagógico e interativo. E quer dividir com o publico as mais recentes descobertas científicas numa apresentação high tech, abaixo do seu famoso domo de vidro de 1878, obra de Davioud herdada do antigo Palácio do Trocadero.

GRAND PORTANT 2

A obra mestre da Galeria do Homem

As exposições permanentes ficam na Galeria do Homem, uma sala de 2500 metros quadrados cujas janelas abram sobre a Torre Eiffel. 1800 peças são expostas ao publico, muitas delas pela primeira vez, com recursos técnicos facilitando a compreensão e a interatividade: telas numéricas, vídeos, fones de ouvidos, filmes e documentários, experiências sensoriais incluindo até o cheiro duma fogueira pre-histórica … CycloNo “Cyclo”, uma tela gigante de nove metros de altura mostra a progressão do impacto humano sobre o planeta e a evolução dos recursos naturais. A peça mestre do novo museu é uma escada metálica de 19 metros de comprimento e 11 metros de altura – o “grand portant”- carregando 91 bustos de gesso ou de bronze realizados no século XIX para mostrar a diversidade da humanidade. Encontra-se desde o  Sied Enkes, ex escravo sudanês, até a esquimó Eleonora Elizabetta Propulsor aos caprinos selvagensAsenat ou um reitor da universidade de Copenhague. Para seduzir os visitantes, o novo museu abriu os seus tesouros científicos escondidos. Na semi escuridão da Sala dos Tesouros são expostas quatro peças valiosíssimas: a Vênus de Lespugue, estátua de marfim de mamute de 23.000 anos, o propulsor dos caprinos selvagens, arma de 16.000 anos, o mamute da Madeleine, velho de 12.ooo anos, e o bastão furado de Montgaudier, esculpido em chifre de renas.

A parede dos idiomas

A parede dos idiomas

Um museu de ultima geração não pode hoje esquecer de ser lúdico, mesmo quando se trata da diversidade humana e dos 7000 idiomas falados no planeta. Numa parede coberta de tapete vermelho, trinta línguas podem ser acionadas pelo visitante para escutar mensagens em tamul, britão, tunumiisut, yiddish ou outros idiomas raros. vitrine_des_animaux_des_plantes_des_societesAlgumas das vitrinas dão também a prioridade a critérios artísticos e não somente científicos. Podem assim ser vistos juntos o crânio do filósofo Descartes (morto em 1650), o esqueleto dum chimpanzé dissecado em 1750, uma pintura de aborígines australianos, uma mesa chinesa, uma cadeira de chefe da Papuásia  e uma mascara Lipiko da Tanzania.

Café Lucy

Museu do Homem: o Café Lucy

Quem somos nos? da onde vimos? onde vamos? A Galeria do Homem  não responde as ambiciosas perguntas anunciadas no inicio da visita. XVMbd5ac504-7422-11e5-8610-6e8a24f0982c-805x453Mas é porem claro que o novo Museu do Homem  ganhou a sua aposta de contar de forma científica, moderna e interativa, a história da evolução da humanidade, da diversidade humana e das formas de adaptação de cada comunidade a seu meio ambiente. Umas temáticas que tanto os parisienses que os viajantes gostarão de comentar sentados no Lucy, o simpático bar  do museu, sob o olhar ciumento da velha Dama de ferro.

Jean-Philippe Pérol