Na França, ideias inovadoras para reviver os grandes trens da Belle Époque

 

Na longa história do turismo, o trem sempre teve um lugar especial, símbolo de democratização com a primeira viagem organizada em 1841 pelo inglês Thomas Cook,  ou sonho de luxo e de aventura no Orient Express inaugurado em 1883 pela Compagnie Internationale des Wagons lits do belgo Georges Nagelmackers, e que perdura até hoje através do Venise Simplon Orient Express da Belmond. Depois do sucesso dos projetos franceses ou espanhóis  do Puy du Fou ou de Toledo realizados pelo seu pai, o  francês Nicolas de Villiers lançou agora o Grand Tour, um espetáculo inovador em torno de um cruzeiro ferroviário cheio de surpresas.

Aproveitando a abertura da rede ferroviária para as empresas privadas, o Puy du Fou imaginou uma volta da França de 4000 quilômetros em 6 dias e 5 noites, saindo de Paris e parando em cidades emblemáticas da história e da cultura francesas. Os espectadores vão viver experiências inéditas em Epernay com as adegas da Dom Perignon,  em Reims com a catedral dos Reis, em Beaune com os seus Hospices, em Avignon com o Palácio dos Papas, em Aix com o ateliê do Paul Cezanne. Perto de Bordeaux navegarão na lagoa de Arcachon antes de descobrir o quadro exótico dos vinhedos de Cos d’Estournel. No ultimo dia, um momento romântico em Chenonceaux, o castelo das três damas,  e uma visita do Puy du Fou encerrarão com chave de ouro esse passeio excepcional.

O visual do trem não nega a filiação com a Belle Epoque

Para aproveitar este espetáculo único, o Puy du Fou imagino o mais insólito dos teatros, um autentico trem “Belle Epoque” concebido como uma obra de arte, com  conforto e a beleza. Num total de oito carros, o comboio será composto de dois carros-leitos de 15 cabines,  dois carros-restaurantes e um carro-bar onde os viajantes serão atendidos por 15 tripulantes vestidos com uniformes da época. Com cada detalhe lembrando a grande época do trem, os organizadores prometem que os “Grands Tours” serão experiências espetaculares e poéticas, imersões no espaço e no tempo, num percurso iniciático na geografia e na historia da França.

Reversiveis, as camas viram sala de estar durante o dia

A vida a bordo terá a mesma importância que os lugares visitados, com uma permanente imersão na História. Além da presencia do chef, do bar tender e da equipe de animação, são previstas visitas de artistas, comediantes, músicos, someliês ou palestrantes. Nicolas de Villiers faz questão de lembrar que o Grand Tour não chegou para concorrer com os trens noturnos de luxo – os carros ficarão parados durante as noites para dar mais conforto aos passageiros. Será um espetáculo exclusivo de alto conteúdo cultural para  um máximo de 30 pessoas em cada viagem, com somente 23 saídas no primeiro ano e até 40 nos anos seguintes. Mesmo se a data exata da primeira viagem ainda não foi divulgada (seria na primavera ou no verão 2023), já é possível de fazer uma pré-reserva no site  www.legrandtour.com.

O Puy du Fou, o parque de lazer que tem História para contar

puy-du-fou-international-collabore-en-angleterre-sur-un-spectacle-nocturne-du-type-cinescenie-2

Recebendo quase 2 milhões de visitantes por ano, prestigiado com as duas maiores distinções do setor, o The Classic Award e o Applause Award em Orlando, o Puy du Fou, segundo parque francês, é muito orgulhoso não somente do seu sucesso mas da sua especificidade. A menos de 400 km de Paris, ou 300 de Bordeaux, o parque da Vendée abra 150 dias por ano, está chegando a 100 milhões de dólares de faturamento, e tem agora 1500 funcionários e 1200 voluntários para assegurar os 17 espetáculos e a  “Cinéscénie”, o grande show noturno que fez a fama do local.

Puy-du-Fou VIKINGS

Desde o inicio do projeto em 1978, a grande particularidade do parque é a sua ligação com a Historia da região, as lutas que os seus habitantes – chamados de “vendéens” desde a Revolução francesa – travaram pela suas liberdades. O fundador do Puy du Fou, Philippe de Villiers, politico conservador descendente duma velha família nobre, começou seguindo o seu sonho de fazer reviver a sua região. Os ChouansUtilizando o cenário do castelo do Puy du Fou, ele montou com alguns amigos benévolos  um espetáculo de som luzes relembrando a epopéia dos “Chouans”, esses guerrilheiros brancos que lutaram contra as tropas da Revolução em defesa do Rei e da Religião. “Foi um sucesso rápido,” conta o Philippe,” mas percebemos logo que para sobreviver, tinha que oferecer aos espectadores mais que algumas horas de lazer. Em Orlando, vimos o que a gente não queria fazer, mas aprendemos o funcionamento dos parques e percebemos a exigência de oferecer visitas de mais de um dia. Foi assim que criamos o parque atual inaugurado em 1989, bem como as inovações que começaram a partir de 1994 e continuam até hoje.»

CAVALEIROS DA TAVOLA REDONDA

No parque, os enredos, as fantasias, os animais, e os efeitos especiais estão ligados com a Historia da região.  Os espetáculos lembram desde os Romanos (O signo do triunfo) , as grandes invasões (Os vikings), a Idade Media (Os cavaleiros da Távola redonda), a época dos Mosqueteiros (O Mosqueteiro de Richelieu), e até a Revolução Francesa (a Cinéscenie)  que foi na Vendée uma trauma terrível . As proximas novidades do Parque homenageam também a historia da Vendée. Poilus da trincheira das baionetasA primeira se chamará « Le dernier panache », e contará num teatro de 2400 lugares a historia de “Charette” , as façanhas do mais famoso dos chefes militares do grande exercito católico e real, que foi derrotado durante as guerras revolucionárias. A segunda – que já começou a ser apresentada- é uma emocionante reconstituição da Primeira Guerra Mundial. Através de cartas de amor entre um pracinha e sua noiva, foi reconstituído o terrível quotidiano dos soldados e o episódio trágico dos 57 “vendéens” soterrados vivos  na Trincheira das Baionetas.

Parque de cultura e de memoria, enraizado numa região de forte personalidade, o Puy do Fou quer não somente continuar com seu modelo peculiar mas ainda exporta essa forma diferente de divertir os visitantes. O Puy du Fou na InglaterraForam assim montados um espetáculo para o Parque de Efteling nos Países Baixos bem como um som e luzes para o Castelo de Auckland na Inglaterra. Mas recentemente, a imprensa internacional deu uma grande repercussão a um acordo assinado entre o Philippe de Villiers e o Presidente Poutine prevendo a abertura de dois parques, um em Moscou e o outro na Crimeia, homenageando a Historia da Rússia. E se ainda não tem projeto na América Latina ou no Brasil, já está sendo estudado um projeto no Camboja, perto dos famosos templos de Angkor.

Jean-Philippe Pérol

au-puy-du-fou-la-pluie-et-la-foudre-font-annuler-la-cinescenie